Baú de Miudezas, Sol e Chuva

Baú de Miudezas, Sol e Chuva
A prosadora, como gosta de se definir, Cidinha da Silva apresenta ao público mais um fruto de sua profícua carreira de escritora, iniciada em 2006. Desde então, são oito livros, contando com este último, que passeiam por contos, textos opinativos, crônicas, narrativas infantis.... E são sobretudo crônicas, ou, como percebe o olhar aguçado da prefaciadora Grace Passô, “poesia transfigurada em crônicas”, que formam o consistente recheio de Baú de Miudezas, Sol e Chuva, lançamento da Mazza Edições, mesma editora na qual Cidinha da Silva começou sua trilha literária. O interior de Baú guarda 41 miudezas, e não por serem as crônicas, em sua maioria, pequenas em tamanho. Miudezas em função de outra acepção que esta palavra encerra: delicadeza. Essa qualidade Cidinha da Silva emprega em todos os textos, mesmo quando se trata de abordar temas nem sempre tão digeríveis, como amores frustrados, relacionamentos interrompidos ou a busca de liberdade para o amor homoafetivo. Aliás, Baú de Miudezas, Sol e Chuva escancara o amor, com todas as letras e lágrimas e sorrisos que costumam acompanhá-lo. Não há o que se estranhar, afinal, a autora é, declaradamente, uma amante, isto é, alguém que ama “grande” e se incomoda com aquele tipo de amor que se manifesta “apenas na parte interna da orelha dos livros”, como revela a crônica Memória. Sua poética arquetípica dos Orixás impregna sentimentos e personagens, são testemunho do coração livre e libertário de Cidinha da Silva. Como todo bom/boa cronista, Cidinha da Silva se alimenta, principalmente, do cotidiano, e mais ainda, dos pequenos fatos do cotidiano, a cuja narração empresta leveza, humor e subversão. Baú de Miudezas, Sol e Chuva é daquelas arcas que dão prazer abrir e contemplar os simples e pequenos tesouros que guarda. Mas, que o leitor não se engane, a literatura de Cidinha é “suave como o pássaro que controla o próprio voo”, é prosa poética refinada, corta e perfura tal qual lâmina de adaga.

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26 de set de 2007

Brown, dos Racionais, na TV Cultura

É, o Brown estourou a boca do balão na TV Cultura, durante históricos 15 minutos, do programa Roda Viva, segundo os medidores de audiência. A grande imprensa chamou de “entrevista morna”, a conversa dele. Pode ter sido, mas não por culpa do entrevistado. Não sou fã do Brown, tampouco dos Racionais, o machismo e a homofobia expressos em letras e posturas públicas deles, me dão urticária. Mas reconheço a importância política e artístico-cultural dos caras e percebo, exatamente, como o racismo opera contra eles. O clima estava muito tenso do início até a metade da entrevista. O Brown mordia os lábios, engasgava, passava as mãos no rosto e nas pernas, escapavam-lhe visíveis sinais de nervosismo, de inadaptação àquele espaço midiático, mais do que um espaço de debate, naquela noite. Os entrevistadores não deixavam o menino falar, desenvolver idéias, finalizar respostas. Atropelavam-no com perguntas disparatadas. O apresentador Markun começou irônico e terminou debochado. Num momento em que o Brown descrevia uma “quebrada” de condições inabitáveis, disse que o pessoal construía a casa em um “lugar íngreme”, e como se não soubesse o que é um lugar íngreme, ironizou, “é íngreme que se fala, né”? O Markun riu e disse que se tratava de uma “pirambeira”. Ele deve achar que a palavra íngreme (empregada com muita propriedade) não deve compor o repertório lingüístico de um rapper. Lembrou-me um pouco a entrevista do escritor angolano Ondjak (de quem também não sou fã) no mesmo programa. Havia entrevistadores que o tratavam com desprezo, desrespeitavam sua literatura e idéias, só queriam falar dos escritores angolanos que o antecederam. Ficou nítido (risível) o abismo entre os mundos dos entrevistadores e de Brown. O desconhecimento que a classe média branca tem da favela. As reflexões e parâmetros da “grande política” que não conseguem alcançar, entender, decodificar os micro-espaços. Aliás, o Roda Viva tem se mostrado um programa assim, não repete com os temas culturais e periféricos, a mesma qualidade do debate sobre economia e política tradicionais. Maria Rita Kehl insistia na ladainha de que os meninos de classe média (branca, eu complemento) ouvem e curtem os Racionais a despeito deles não se importarem com isso. O Brown respondia: “e daí? Eles precisam conhecer o mundo que os cerca,pra se defender, pra se integrar, por isso ouvem nossa música”. Fechou. Mas ela insistia, como se o fato pudesse ser um alento, um início de solução para a guerra entre o centro e as periferias. Renato Lombardi, editor da TV Cultura, com sua cara seríssima, perguntava/aconselhava/recomendava: “você sabe que é um exemplo? Que pode ajudar a tirar esse meninos dessa vida (da criminalidade)”.”Não sou exemplo de nada”, dizia o Brown. “Eu sou exceção, sou um sobrevivente”. Os três outros entrevistadores foram mais sagazes, sensíveis, objetivos e deram ao Brown as melhores possibilidades de desenvolver idéias. A grande imprensa chamou de clichezão à pergunta, “o que é o amor pra você”, feita por Paulo Lima, editor da revista Trip. Não é não. O Brown representa lugares nos quais corações e mentes são embrutecidos pela falta de direitos, de cuidados, pela violência, pela arbitrariedade, e é importante falar de amor, sim senhor. Dizer que ama a mulher, o filho, os amigos, os parceiros, para milhões e milhões de pessoas ouvirem. Assumir-se como pai ausente. Vamos, homens, cada vez mais, discutam a paternidade na arena pública. É bom que um homem duro, de poucos sorrisos, fale de amor, de lealdade, de poesia, de encantos. Por falar nisso, ele tentou falar de música, mas não deixaram. Era sempre interrompido. Algumas perguntas do escritor Paulo Lins e do jornalista Ricardo Cruz ensejaram respostas lapidares, para serem sentidas, antes de estudadas. O cara se mostrou sensível, fragilizado, humano, corajoso e que ninguém pense que ele se constrói como líder de um exército, ele não quer sê-lo. Meus respeitos, Brown.

25 de set de 2007

"Nós, Negras": uma homenagem às mulheres negras do samba

Um elenco de pérolas negras brasilienses formado pelas cantoras Teresa Lopes, Renata Jambeiro, Cris Pereira, Dhy Ribeiro, Kris Maciel e Kiki Oliveira vem unir-se pela primeira vez para prestar uma justa homenagem às mulheres negras que marcaram a história do samba com talento, graça e muita ancestralidade. No show "Nós, negras" dia 02 de outubro no Teatro Sesc Garagem 913 Sul, o público poderá passear por fragmentos da vida e da obra de sambistas como Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra, Clara Nunes, Alcione, Mart´nália, entre outras, em uma noite de intensa emoção e reverência às guardiãs da força do samba. Acompanham as pérolas negras brasilienses um naipe valioso de músicos formado por Amilcar Oliveira (violão)/ Nelsinho Serra (cavaquinho)/ Márcio Bezerra (sopro)/ Marcelo Bicudo (pandeiro)/ Nelson Félix (surdo)/ Luis Jambeiro (percussão geral). Serviço: Data: 02/10/2007 (terça-feira). Local: Teatro Sesc Garagem - 913 Sul. Horário: R$ 21h. Ingressos: R$ 20,00 (inteira)/ R$ 10,00 (meia). Antecipados: (61) 8433.2421 / Produção Criola.

24 de set de 2007

Sobre Beatriz Nascimento

(por Alex Ratts) Maria Beatriz Nascimento (1942-1995) é intelectual ativista negra contemporânea de Eduardo Oliveira e Oliveira, Lélia Gonzalez, e Hamilton Cardoso. Nasceu em Aracaju, Sergipe e, no final da década de 1940, migrou com a família para o Rio de Janeiro. Em 1971 graduou-se em história pela UFRJ. Esteve à frente da criação do Grupo de Trabalho André Rebouças, em 1974, na Universidade Federal Fluminense (UFF), compartilhando com estudantes negros/as universitários/as do Rio e São Paulo a discussão da temática racial na academia e na educação em geral, a exemplo da Quinzena do Negro realizada na USP em 1977. Concluiu a Pós-graduação lato sensu em História na Universidade Federal Fluminense, em 1981, com a pesquisa Sistemas alternativos organizados pelos negros: dos quilombos às favelas. Seu trabalho mais conhecido e de maior circulação trata-se da autoria e narração dos textos do o f1lme Ori (1989, 131 min), dirigido pela socióloga e cineasta Raquel Gerber. Essa película documenta os movimentos negros brasileiros entre 1977 e 1988, passando pela relação entre Brasil e África, tendo o quilombo como idéia central e apresentando, dentre seus fios condutores, parte da história pessoal de Beatriz Nascimento. Através dessa participação percebe-se outra face de suas atividades: a poesia. Ao longo de vinte anos, tornou-se estudiosa das temáticas do racismo e dos quilombos, abordando ainda a correlação entre corporeidade negra e espaço e as experiências de longos deslocamentos socioespaciais de africanos/as e descendentes, por meio das noções de “transmigração” e “transatlanticidade”. Seus artigos foram publicados em periódicos como Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Isto é, Jornal Maioria Falante e Última Hora. Há também registros dela em entrevistas a jornais e revistas de grande circulação nacional a exemplo do Suplemento Folhetim da Folha de São Paulo, Revista Manchete, além de ensaios e poemas inéditos.

23 de set de 2007

De volta ao Tridente no Leituras Negras de Porto Alegre

Anunciei o “próximo pôste” e desapareci do blogue. Desculpem-me. É que estive no Rio de Janeiro, acompanhando o Cine CUFA, Festival de Cinema da Central Única das Favelas, dentre outras cositas. Fascinante. Muita coisa para escrever e contar, mas sem prometer quando o farei. A estada no Rio foi muito produtiva e até meados de outubro anunciarei os trabalhos novos acertados por lá, veredas dramatúrgicas, na melhor companhia, a Companhia dos Comuns, de Hilton Cobra, querido Cobrinha. Por hora, voltemos ao Tridente no Leituras Negras de Porto Alegre, ocorrido dia 22 de agosto passado. O Paulo, muito gentil, enviou-me um “relatório” do que foi discutido por lá. Estão vendo, não é só em Passo Fundo que a gente é lida, em Porto Alegre também e com que atenção. O grupo me dirigiu três questões, duas diretas e outra mais subjetiva. Um comentário apenas, mas calou fundo em meu coração mineiro e eu o transformei em questão. Vou comentá-la por último. O primeiro tema é “Dublê de Ogum”, crônica ou conto? Como foi construído? Oswald de Andrade dizia que o “texto é aquilo que o autor quiser que ele seja”. Eu, quando escrevi o Tridente, achei que tudo era crônica. Em larga medida por insegurança e por desconhecimento da estrutura do conto. Leio um monte de textos que se definem como contos e acho que são crônicas, mas se os autores dizem que são contos, devem ser. Parece que na literatura contemporânea os limites definidores entre um gênero de texto e outro são muito tênues. Isso dizem os entendidos em literatura. É óbvio que o Oswald tinha autoridade para deixar a definição de gênero literário por conta dos autores, mas tendo a achar que a coisa não é tão simples assim. E acato o que várias pessoas me disseram a respeito do meu primeiro livro, “fiz um livro de crônicas composto por vários contos também”. Parece que um conceito que nos livra dessa definição é o de “histórias curtas”. Por isso tenho dito que meu segundo livro (ainda sem editora, por isso não divulgo o título) é composto por crônicas, contos e mini-contos sobre amor e solidão, vistos por diferentes olhares de mulheres (de alguns homens também), ora ácidos, ora líricos e ora ácido-humorados. Para concluir, hoje já sei um pouco melhor o que é um conto e considero o “Dublê de Ogum” como um deles. O segundo tema versa sobre minha relação com Monteiro Lobato, depois de descobrir traços racistas em sua obra e personalidade. Minha posição é similar à da narradora do texto (Histórias da vó Dita), os olhos da crítica entraram em ação, logo após os olhos da diversão. Continuei adorando o Sítio do Pica-pau amarelo, mas leio os texto com olhos críticos, coisa que quando criança e adolescente não fazia. Outro dia, lendo o “Toda Crônica”, dois tomos que reúnem todas as crônicas publicadas por Lima Barreto, até em jornal universitário da Faculdade de Engenharia onde estudou, que foi Monteiro Lobato, a primeira pessoa a investir nele como escritor, remunerando seu trabalho. Idiossincrático, não? O terceiro tema, transformado em questão quase existencial, para mim, refere-se a “Angu à Baiana”. Algumas pessoas do grupo acharam o texto chato e sem-graça, outras o acharam espirituoso e criativo, mas mesmo essas caracterizaram o angu como uma comida sem-graça. Blasfêmia. Coisa de gaúcho, me desculpem dizer. Só não aprecia angu, quem não cresceu comendo angu. E vocês, queridos amigos e amigas gaúchos, não tiveram essa graça. Podem dizer o que quiserem dos meus textos, coisas negativas, negativíssimas, mas diminuir a força poética e degustativa do angu, iguaria banto-mineira, isso não. Tenho dito. (arte: Iléa Ferraz)

Instituto Kuanza lança biografia de Beatriz Nascimento, em Sampa, dia 27/09

7 de set de 2007

Muito prazer! Biografia da Zezé Motta

Muito Prazer! Este é o título da biografia da atriz, cantora, produtora cultural e ativista política, Zezé Motta, lançada em 2005, pela coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. O livro é fruto de uma entrevista de Zezé ao roteirista Rogério Murat e é narrado em primeira pessoa por ela. É um depoimento fluido, ilustrado por fotos e imagens marcantes da carreira da atriz, complementado por cronologia de sua atuação em teatro, cinema, TV (novelas, mini-séries e especiais) e discografia. Uma bela e vitoriosa carreira. Zezé se revela ainda mais doce do que já sabíamos, conta-nos sobre a maternidade, suas cinco filhas, os conflitos e descobertas na temática racial, a relação com a religiosidade e, suavemente, passa por alguns de seus amores. Apresenta-nos toda a família, especialmente os pais, dona Maria Elazir, uma exímia costureira e seu Luiz Oliveira, um músico erudito que tinha um grupo de regional para sobreviver, além de dar aulas de violão e ser sócio-proprietário de um ônibus de transporte escolar. Entretanto, a ênfase da obra é mesmo o fazer artístico, a busca de personagens nas músicas que canta, as referências de sua formação como artista. Dentre as muitas histórias, destacam-se: o sonho de criação do CIDAN – Centro de Informação e Documentação do Artista Negro e sua longa trajetória representando o papel de trabalhadora doméstica em novelas. Em Supermanoela, de 1974 (TV Globo), por exemplo, a censura militar implicou porque Doralice, empregada doméstica representada por ela, “se metia demais na vida dos patrões”. Dessa forma, o diretor foi obrigado a “podar suas asas e ela passou o resto do tempo servindo cafezinho e abrindo porta”. Ainda para que você se interesse em ler o livro, parafraseamos uma parte da introdução: “as histórias de Zezé impressionam, ora pela carga de normalidade ora pelo quê de inusitado. Pois Zezé é assim: uma diva espontânea, complexamente simples, iluminada pela própria natureza e não por artifícios exteriores”.

6 de set de 2007

Ruídos do Tridente no IV Leituras Negras, em Porto Alegre

O amigo Paulo Rodrigues,diretamente de Porto Alegre, informa que foi sucesso o "IV Encontro Leituras Negras", no qual foi discutida a primeira edição do Tridente, dia 22 de agosto passado. Vejam alguns dos comentários: "Das 13 pessoas convidadas, compareceram 8: Eliane Gonçalves, Vera Lopes, Nilda Alves, Jeferson Tenório, Jorge Froes, Sílvia Prado, Marieta Silveira e Paulo Rodrigues, sendo os quatro últimos representantes da coordenação. Quando iniciamos o encontro (todos sentados, formando algo parecido com um círculo) deviam ser 15h, talvez um pouco mais. Iniciou-se pela análise externa do livro: capa, cor, vermelho, relação com Exu. Um colega lê "Cada Tridente em seu lugar". Uma colega fala sobre o modo de trabalho do diretor Jorge Furtado (citado no texto, elogiosamente): não enxerga a questão negra, não permite que o ator dê idías para a montagem de um personagem negro. Fala de outro diretor, Tabajara, que abre discussão com os atores sobre a montagem de personagens negros, porém, ao final, não usa nada do que foi discutido. Fala que entre os dois diretores prefere o primeiro. Outro(a) colega lê "Dublê de Ogum". Um(a) colega fala que vê este texto mais como um conto do que como uma crônica. Seria interesssante, comenta, ver com a Cidinha como ela construiu este texto. Outro(a) colega lê "Xena e Maria Bonita". Este texto evoca comentários sobre a importância de animais, principalmente cachorros, para unir famílias, reabilitar pessoas e, às vezes, casais. Outro(a) colega lê "Angu à Baiana". Alguns dizem que este texto é sem-graça. Outros dizem o contrário: tem um jogo de sedução enorme. Alguém comenta a frase "jacaré de protetor solar à beira da lagoa". (está esperando para dar o bote). Outros comentários que o texto evoca: usou-se o angu, uma comida sem-graça, como pano de fundo para se narrar uma sedução entre mulheres. Outro(a) colega lê "Papo de Barbearia". Um colega comenta que certas coisas ele só foi se dar conta depois que leu este texto, por exemplo, as partes de um homem onde ninguém pode tocar.Outro colega Lê " Mais um dia dos pais e um homem sem camisa". Este texto evoca comentários sobre propagandas. Fala-se da invisibilidade do negro na propaganda. Da proporcionalidade desrespeitada nas propagandas entre orientais e negros. Os orientais são 1% da população e tinham 1 representante na propaganda que o texto narra, os negros são 44% e também tinham 1 representante na propaganda. Outra pergunta dos colegas: por que só o homem negro estava sem camisa. Outro colega lê "Filhas do Vento". O texto desperta o interesse de alguns colegas de lerem o livro "Paula". A passagem "tornou-se atriz e poeta. Mas não conseguiu representar ... bonita demais ... educada demais ...", evocou alguns comentários: sempre exigem o que não temos, se não temos educação escolar, querem que tenhamos vários cursos, se somos bonitos e educados, dizem que isto é demais, querem alguém não tão bonita. Teceram-se muitos elogios ao filme do Joel Zito. Outro colega lê "Histórias da vó Dita". Alguém sugere que se pergunte a Cidinha como ficou o relacionamento dela com o Monteiro Lobato., pelo que ela colocou no primeiro parágrafo. Monteiro Lobato é tido como um dos escritores mais racistas. Como será que a Cidinha encaminhou esta situação? Neste momento já eram mais de 17h. Parou-se a conversa sobre o livro da Cidinha para fazer-se um lanchinho. Chá, docinhos, salgadinhos e guraná. Uma colega diz que "Domingueira" tinha que ser um dos saídores. Alguém lê, então, este texto. Os anos setenta aterrizam na roda: cabelos (black power, tranças, alisados), vestidos, locais onde os negros(as) dançavam, onde se pode dançar hoje, músicas dos anos setenta, músicas de hoje, bailes só de negros, bailes só de brancos. Histórias sobre os garfos para ajeitar o "black". Outro texto que não quis ficar fora da saídeira foi "Luana". Texto forte. Real. Belo. Atual. Conclusão: O livro da Cidinha é um microcosmo do país. Em alguns textos o mergulho é mais profundo nas demandas sociais. A Cidinha revela-se uma observadora atenta das diversas realidades do país. Inclusive comentava-se antes de todo o pessoal chegar que a Cidinha mostrava uma face interessante do(a) novo(a) escritor(a) negro(a): não escrever só sobre negros, mas conseguir discorrer, sem titubear, sobre vários assuntos, inclusive sobre negros. E a Cidinha faz tudo isso no mesmo texto: em um texto pode começar falando sobre religião e terminar falando sobre algum filme ou sobre algum fato pitoresco de alguma cidade; pode, em outro texto, começar falando sobre sexualidade e terminar falando sobre algum aspecto da questão negra. E sempre com frases curtas, precisas, e com muito humor. Valeu, Cidinha! Aceitam-se comentários. Paulo Rodrigues. pauloluizrodrigues@gmail.com" No próximo pôste comentarei as questões propostas pelo grupo, ao qual agradeço.

5 de set de 2007

Novas exposições no museu Afro Brasil

(Por Camila Molina, jornal O Estado de São Paulo) "Como diz o diretor do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo, a instituição coloca diversas exposições em cartaz de uma só tacada para que o visitante vá vê-las aos poucos e para que volte sempre. Desta vez, quatro novas mostras foram abertas ao mesmo tempo no museu: Imagens Perversas e Inocentes, que, com centenas de objetos, põe em destaque a figura do negro; Paisagem do Vento, com telas do artista Kazuhiro Mori; Brasil África - Unidade Original, com fotos e desenhos de Paulo Cesar Soares e Victor Ribeiro; e uma exposição de pinturas e objetos de Rubens Ianelli (leia ao lado). O visitante deve voltar várias vezes ao Afro Brasil não somente porque as novas exposições se juntam a outras que já estavam em cartaz no museu, mas porque a maioria das mostras é lá feita com numerosas peças. Em Imagens Perversas e Inocentes, por exemplo, estão cerca de 800 itens, entre pinturas, esculturas, gravuras e objetos. O mesmo acontece na exposição Dois em Um, sobre a relação entre o abolicionista José do Patrocínio e o caricaturista e ceramista português Rafael Bordalo Pinheiro, em cartaz há mais tempo, e na mostra sobre o Benin. Enfim, uma ida ao Afro Brasil não é passagem simples - a colocação não é crítica, apenas constatação sobre o perfil da instituição. O museu é um projeto muito pessoal de Emanoel Araújo. É, desse modo, uma instituição que tem a marca de seu diretor. Além de ser dedicado em sua gênese a tratar da questão do negro e de sua memória (também dos índios), da exclusão social e falar da diversidade - sem deixar de mostrar expressões contemporâneas de artistas não estritamente encarcerados na questão racial - há um caráter cenográfico muito forte e constante nas mostras do museu, uma maneira, como já afirmou Araújo, de seduzir o visitante. Nesse sentido, vale destacar que Imagens Perversas e Inocentes é feita com obras que pertencem à coleção pessoal de Araújo. Mas não se trata de ser uma amostra de um acervo convencional de arte, mas de uma coleção aberta que o diretor e artista vem formando há anos: nela cabem todos os tipos de obras e objetos de uma longa linha do tempo e de variadas localidades, desde que tenham como mote principal a figura do negro. Dessa maneira, saca-rolhas, relógios, luminárias, materiais publicitários, bonecas, pinturas de Aldo Bonadei, Oscar Pereira da Silva e João Câmara, esculturas, etc., estão instalados todos juntos e misturados no mesmo espaço para que o visitante identifique por si qual imagem considera perversa, qual considera inocente. 'A imagem do negro sempre foi usada de forma arbitrária. Talvez seja a única raça tratada desse jeito: entre o folclórico, o preconceituoso, o perverso e o inocente', diz Araújo, curador da exposição. 'Todo mundo é ambíguo em relação a isso', completa ele, que ainda selecionou trechos de poemas. Em algumas das imagens, o negro é examinado dentro do mito da boa sorte, às vezes, tratado na representação da escravidão. Para citar um exemplo, na embalagem e propaganda antiga de um sabão espanhol, o Jabón Sol, o desenho mostra um negro que fica mais branco ao usar o produto. Mas há também obras que não sugerem nada. Já a mostra Paisagem do Vento reúne telas recentes - algumas de imenso formato - feitas por Kazuhiro Mori, nascido em 1949 em Itapecerica da Serra, em São Paulo, mas que retornou ao Japão logo em 1955 com seus pais. Valem destaque as obras feitas com os tons do marrom em que Mori 'constrói a forma fluida no espaço também fluido de leveza', como escreve Araújo. Imagens Perversas e Inocentes, Brasil África - Unidade Original, Paisagem do Vento (Kaze no Fukei) - Kazuhiro Mori e Rubens Ianelli. Museu Afro Brasil. Pavilhão Padre Manuel da Nóbrega. Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, Pq. do Ibirapuera, portão 10, São Paulo, (11) 5579-0593. 3.ª a dom., 10 h às 17 h. Grátis. Até 16/9 "

4 de set de 2007

*Domingueira!

Por Cidinha da Silva

Anos finais da ditadura. Nos barzinhos, festivais de música nos colégios, rodas de violão nos grupos de jovens da igreja, todo mundo canta Geraldo Vandré: “Caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não”. Canta-se também “Andança” – “Vi tanta areia, andei, da lua cheia, eu sei, uma saudade imensa”. E Gilberto Gil faz uma versão de No woman no cry, de Bob Marley, aludindo aos desaparecimentos políticos nos porões da repressão militar. Mas parte da moçada negra, alheia a esse movimento de resistência política, só pensa em outro, nos passos de dança no baile black, nas combinações rítmicas e estéticas para brilhar na pista.

 Termina a década de 70, primeiros anos dos 80 e James Brown (infelizmente, um futuro espancador de mulheres) dá aquele gritinho esganiçado e sensual... auuuuuuuu, I fell good -- entram os sopros: pararan raram raram – so good – os sopros novamente – tantan, so good, tantantantan tantan, uuulllll! Foi dado o grito de guerra, os bailarinos e bailarinas deslizam na pista. É dia ainda, matinê, mas a luz do sol não entra. A pintura das paredes é escura e os lustres piscam para dar aquele ar de discoteca. Dezenas de calças “boca-de- sino” vão e vêm, em profusão de movimentos. Blusinhas estampadas, coladas ao corpo das moças, os punhos mais largos, uma espécie de “boca-de-sino” pequena. Sapatos plataforma, pretos, engraxadíssimos. Uma correntinha ou crucifixo no pescoço. Braceletes dourados imitando ouro e os cabelos, ah meu Deus, os cabelos black power, black panther, poder negro no Brasil.

 A indumentária de quem curtia a soul music era cheia de detalhes e requintes, mas os cabelos constituíam um capítulo à parte. Começava pela escolha do pente, seguido pela técnica de desembaraçamento e coroado pelo uso de um disco. Era mais ou menos assim: imagine um garfo. Não, não, não, não é um garfo de mesa, imagine o garfo de Netuno, o rei do mar, imaginou? Aquela coisa imponente, elegante, com três dentes no original. Mas acrescente outros, vários, dentes finos, de metal, levemente espaçados, adequados para o cabelo crespo desenrolar-se por aqueles pequeninos vãos. Diminua o tamanho do cabo, de acrílico. Deixe-o adequado à sua mão, uns dez centímetros bastam. Daí já viu, né? Muito jovem negro que tinha um pente desses no bolso foi preso por “porte ilegal de armas”. Mas o pior não era ser preso, era ficar sem o pente e ser impedido de cuidar dos cabelos. E você pode me perguntar por que esse pente era carregado no bolso. Ora, para retocar o penteado entre uma sessão de música “quente” e outra “lenta” durante o baile. As meninas eram mais discretas ou mais contidas e costumavam portar um garfo menor, dentro da bolsa, de material mais flexível, tipo plástico.

 De volta ao ritual de desembaraçamento, recomendava-se passar o garfo da raiz dos cabelos até as pontas, eriçando-os, numerosas vezes. De olho no espelho e acertando-os com mãos incansáveis. E o disco, onde entra? Nos arremates. Era o disco, um compacto simples ou pedaço de long play, o finalizador da cerimônia. Aquele que acertava os fios soltos e deixava o cabelo impecavelmente redondo.

 Durante o baile, quando começa a primeira sessão de música lenta é aquela correria para os banheiros. Os garotos sacam o pente do bolso de trás da calça e iniciam os retoques à cabeleira e ai daquela que num carinho mais afoito desarrumasse alguns fios da juba circular do amado. Era motivo para fim de relacionamento. As garotas seguem para seu respectivo banheiro e fazem a mesma coisa. Aproveitam também para lavar o rosto suado e renovar o batom que será borrado nos beijos seguintes. Termina a primeira sessão de “lentas” e o disc jockey aproveita para apresentar um grupo pouco conhecido da galera, um tal The Wailers – get up, stand up, get up for your rights, get up, stand up, don’t give up to fight.

 Chega a esperada hora do concurso de melhor dançarino e dançarina da noite. A disputa entre as meninas pega fogo, mas só enquanto Nena não entra na pista. Depois que ela chega, altaneira e soberana em seu metro e meio, não há mais concorrência. Em sua performance inicial, os punhos postam-se cerrados próximos à barriga, cabeça para a esquerda, pés para a direita e escorrega para a esquerda. A cabeça sempre do lado oposto ao pé que conduz o movimento. Desliza, flutua, põe as mãos para trás e roda, dá uma pirueta. E a gente embevecida com a agilidade dela. Quando menos se espera ela cruza os braços junto ao peito, empina a cabeça, joga-a para trás e vai para o chão de pernas abertas, em uma abertura que àquela época encantou Nádia Comanetti. Hoje arrancaria aplausos de Daiane dos Santos. E não tem para ninguém. As outras meninas dançam até terminar a música, só para evitar a vergonha de abandonar a disputa pela metade, mas o resultado já é de domínio público: NE-NA! NE-NA! NE-NA!

*Do meu primeiro livro: Cada tridente em seu lugar
Arte: Iléa Ferraz

1 de set de 2007

Lançamento de Histórias do Tio Jimbo, na Kitabu, Rio de Janeiro

Obra infantil-juvenil do sambista Nei Lopes, Histórias do Tio Jimbo, será lançada na Kitabu, dia 05 de setembro, às 18:00. A livraria, vocês já sabem, está localizada à rua Joaquim Silva, 17, Lapa. Fone 21 22249847. Como noticiado aqui no blogue, durante o mês de junho, Tio Jimbo conta com encarte de sugestões de atividades para sala de aula, elaborado por mim a partir da leitura dos textos. A Mazza Edições me convidou para fazê-lo, depois de ter gostado bastante do encarte confeccionado para a 2a edição do Tridente. Deixo abaixo exemplos das questões, para que se tenha idéia do trabalho. E não deixem de ler o livro. Sugestão de atividades para professores/as, a partir da Introdução da obra. Mostrar imagens do carnaval carioca, desde os primeiros ranchos até chegar às “super escolas de samba”, para que os estudantes possam dimensionar as transformações pelas quais passou esse espetáculo da cultura popular brasileira. Uma dica é apresentar o filme Cartola (Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, 2007), no qual há belas imagens do carnaval de décadas passadas. Outra possibilidade para alimentar o debate é a análise da letra do samba Bumbum praticumbum prugurumdum (Aluízio Machado e Beto Sem Braço), da escola de samba Império Serrano, vencedora do carnaval carioca de 1992. Para Estudantes. Por que tio Jimbo preferiria, nos dias de hoje, assistir ao carnaval depois de terminado, pelo aparelho de DVD? Mudou o carnaval, ou teria mudado o tio Jimbo? Sugestão de atividades para professores/as, a partir do texto Sundiata, o Leão do Mali. Esta história permite introduzir e discutir o instigante tema da tradição africana – cultural, religiosa, iniciática. Alguns autores africanos, recentemente publicados no Brasil, tais como, Sobonfu Somé (Burkina Faso) e Amadou Hampâté Bâ (Mali) podem auxiliar com seus escritos e reflexões. Hampâté Bâ, por exemplo, nos mostra que existiram dinastias de griots, compostas por mulheres também, na savana africana, região que cobre de leste a oeste do continente, ao sul do Saara. Era comum que numa família em que o avô fosse griot, os filhos e netos que demonstrassem talento também o fossem e, dessa forma, eram preparados para a função. Para Estudantes. Por que tio Jimbo não se assumiu prontamente como um griot, conforme a sugestão de Dudu? Você sabia que existe um projeto chamado “Pedagogia Griô – a reinvenção da roda da vida” em Lençóis, BA? Pesquise na Internet, procure a Associação Grãos de Luz e Griô e veja o belo trabalho desenvolvido com a memória e os saberes dos habitantes desse pedaço da Chapada diamantina.