Racismo no Brasil e afetos correlatos, livro novo de Cidinha da Silva

Racismo no Brasil e afetos correlatos, livro novo de Cidinha da Silva
Racismo no Brasil e Afetos Correlatos (Conversê Edições) é o novo livro com que a escritora Cidinha da Silva brinda os leitores brasileiros neste fim de ano. A obra, com 168 páginas, está dividida em duas partes. A primeira, reúne crônicas, a maioria já publicada no Blog mantido pela autora, e a segunda parte é dedicada a textos opinativos, elaborados, principalmente, a partir da análise de novelas, séries e programas globais. Cidinha da Silva é uma sagaz observadora dos fatos cotidianos da sociedade, mas os filtra pelas lentes da questão racial, o que dá um colorido crítico, mas não excessivamente militante, a cada um dos seus textos, quer as crônicas, quer os opinativos. Neste livro, o sétimo de sua carreira, a fonte para seus escritos são, sobretudo, a televisão - mais propriamente as novelas -, e a internet. Nada escapa aos olhos atentos e críticos da escritora/cronista. Do mendigo-gato que andou provocando comoção nacional à espetacularização em que se transformou a vida; da PEC das domésticas à posição de herói nacional a que o ministro Joaquim Barbosa foi alçado pelo povo (incensado pela mídia); da estética negra inovadora da minissérie televisiva Subúrbia à constatação de que as notícias circulam na internet tão velozmente quanto, cada vez mais, “desacompanhadas da qualidade da compreensão”. Cidinha não apenas capta os fatos como os analisa de uma perspectiva que surpreende e desconcerta, ao dar cunho político, racial, de gênero, aos acontecimentos e narrativas, aparentemente, comuns. Boa parte dos textos opinativos tem por foco novelas exibidas pela Rede Globo. Se não poupa críticas ora à escolha ou interpretação dos atores, ora ao texto (e suas omissões) ou diálogos, a autora também não economiza elogios quando percebe que há razão para fazê-los. De crônica em crônica, de opinião em opinião Cidinha aponta o dedo para a discriminação racial e, principalmente, para a relativização dessa atitude com base no afeto pelo negro que sempre mascarou as relações desiguais na sociedade brasileira. O livro ganhou belíssima capa da artista plástica Renata Felinto, apresentação de Marcos Fabrício Lopes da Silva, poeta e professor de literatura, e orelha do escritor baiano Fábio Mandingo. A mais nova obra de Cidinha da Silva, autora também de Cada tridente em seu lugar, Os nove pentes d’África, Oh Margem! Reinventa os rios e dos infantis O mar de Manu e Kuami.

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

30/11/2008

Sistema judicial estadunidense persiste em assassinar Mumia

(Fonte: Coletivo Mumia Abu-Jamal http://www.mumia.org) "A procuradora distrital de Filadélfia, Lynne Abraham (equivalente a procuradora do ministério público) pediu ao Supremo Tribunal dos EUA que voltasse a impor a pena de morte a Mumia Abu-Jamal. Se esse pedido for aceito, isso pode significar a EXECUÇÂO imediata de Mumia, sem qualquer nova audiência ou julgamento, e apesar da montanha de novas provas que têm surgido em defesa da inocência de Mumia. Entretanto, o advogado de Mumia anunciou que iria também entregar no Supremo Tribunal um pedido de um novo julgamento. Este pedido tem de dar entrada até 19 de Dezembro. Este novo pedido tem por base o racismo que existiu na seleção de jurados no julgamento original e nas falsas indicações da procuradoria aos jurados na fase de decisão da culpa. São essencialmente os mesmos argumentos já usados (e negados) perante o Tribunal de Recurso do 3º Circuito de Filadélfia. Não podemos deixar que Mumia seja assassinado! Em defesa de Mumia, o dia 6 de Dezembro vai será assinalado como Dia Internacional de Solidariedade com Mumia Abu-Jamal! Apelamos a todos os amantes da justiça e da liberdade que cerrem fileiras em defesa de Mumia Abu-Jamal. Multipliquemos as iniciativas de divulgação desta causa! Novo Documentário Sobre Mumia. Um novo documentário britânico, “In Prison My WholeLife” ("Na Prisão Toda a Minha Vida"), sobre a vida de Mumia foi exibido novamente nos Estados Unidos. O documentário já tinha estreado nos EUA no Festival Sundance em Janeiro e foi agora exibido no Festival Urbanworld de Nova Iorque a 11 e 13 de Setembro e depois na Conferência CR10 (Resistência Crítica 10anos) em Oakland, Califórnia, a 26 de Setembro. O documentário já tinha estado nos Festivais de Cinema de Londres e de Roma em 2007. O documentário relata a história de William Francome, que nasceu no dia em que Mumia foi preso. A sua mãe costuma dizer-lhe que cada aniversário que ele tinha era mais um ano passado por Mumia na prisão. Com o conhecido ator britânico Colin Firth como produtor executivo, "In Prison My Whole Life" foi realizado por Marc Evans e produzido por Livia Giuggioli Firth e Nick Goodwin Self. O filme inclui entrevistas com personalidades como Alice Walker, Angela Davis, Noam Chomsky, Amy Goodman, Ramona Africa, e músicos como Mos Def, Snoop Dogg e SteveEarle. A Anistia Internacional incluiu o filme na sua campanha internacional pela abolição da pena de morte. O documentário mostra as agora famosas fotografias da cena do crime tiradas a 9 de Dezembro de 1981 e que apenas foram redescobertas recentemente pelo autor alemão Michael Schiffmann, que as publicou no seu novo livro. Também inclui uma entrevista com o irmão de Abu-Jamal, Billy Cook, que estava no local depois do polícia Faulkner ter mandado parar o seu carro. É a primeira entrevista gravada de Cook e este nega a versão da acusação de que acertou na cara de Faulkner, supostamente provocando assim o espancamento que recebeu do polícia. Cook mostra as cicatrizes que ainda hoje tem na cabeça e diz: “Eles prenderam-me por o ter atacado, mas eu nunca pus a mão nele. Só estava a tentar proteger-me. Nunca acertei nele. Nunca acertei nele.” Cook diz que depois de ter sido violentamente espancado com a lanterna do polícia, Faulkner “foi meio vulgar e grosseiro. E se bem me lembro acrescentou a meio um palavrão racista... ‘Volta para o carro, preto´.” Um trailer do documentário está disponível em: http://vids.myspace.com/index.cfm?fuseaction=vids.individual&videoid=17949640. Dia de Solidariedade Internacional com Mumia. O dia 6 de Dezembro foi denominado Dia de Solidariedade Internacional com Mumia Abu-Jamal. Estão marcadas ações em todo o mundo, em particular por todos os EUA, a maior das quais será uma concentração em Filadélfia frente à procuradoria distrital (o equivalente ao ministério público e que se tem destacado numa criminosa perseguição a Mumia). Daremos mais novidades à medida que as formos obtendo. Snoop Dogg e os Massive Attack Gravam Música de Homenagem a Mumia. O rapper estadunidense Snoop Dogg e o músico 3D do grupo britânico de trip-hop Massive Attack (MA) juntaram-se para gravar uma música de apoio a Mumia, "Calling Mumia". Os músicos fizeram a gravação sob o nome de "100 Suns" e surgem no novo documentário "In Prison My Whole Life" sobre a vida de Mumia, antes e depois da sua prisão por um crime que não cometeu. Um excerto da música diz: "A forma como agora vivo é para educar e inspirar as crianças / e dar-lhes mais que erva e cerveja. /Tenho muito para dizer / porque não é divertido estar-se preso." A música está disponível no site dos MA: http://www.massiveattack.com/index.php?id=657, e no YouTube, http://www.youtube.com/watch?v=0Tv78kaTGP4. Novo Livro Sobre Mumia. Um novo livro de denúncia da farsa que foi o julgamento e a condenação de Mumia Abu-Jamal foi publicado em Maio passado nos EUA. O livro, The Framing of Mumia Abu-Jamal, foi escrito por J.Patrick O'Connor, que defende que o verdadeiro atirador no caso da morte do polícia Faulkner foi Kenneth Freeman, e mostra como Mumia foi claramente tramado pela polícia, devido à sua atividade política, tanto como membro dos Panteras Negras como mais tarde como jornalista que denunciava a atuação racista da polícia de Filadélfia. Comentário de Mumia Sobre a Vitória de Obama. "(...) Mas o que é que ela significa? Não podemos negar o seu valor simbólico. Em milhões de lares negros, a sua fotografia será colocada ao lado das de Martin, John F. Kennedy e de uma empaledecida pintura de Jesus. (...) Mas para além do símbolo há a substância. E substantivamente, alguns acadêmicos definem Obama como pouco diferente dos seus antecessores. Apesar disso, os símbolos são uma coisa poderosa. Por vezes têm uma vida própria. Podem vir a significar algo mais do que pretendiam à primeira vista. Foi feita História. Veremos que tipo de história será. (...)" ATO DE REPÚDIO à CONDENAÇÃO DE MUMIA, PRAÇA DA SÉ – CENTRO - SP. DIA 06 DE DEZEMBRO (SÁBADO). A PARTIR DAS 10:00.

29/11/2008

Vinte mil visitas em menos de cinco meses

Dia 28 de novembro, aos quatro meses e três semanas de instalação, o contador de visitas do blogue badalou vinte mil visitas. Por que isso é importante? Pelo menos por dois motivos, primeiro porque acompanhar a movimentação do contador é minha diversão preferida nos últimos tempos e depois, como substrato disso, especular sobre a oscilação do interesse das pessoas pelos temas postados ou até uma possível expectativa de postagem me instiga. Na semana da eleição de Obama, por exemplo, o número de visitas foi para a estratosfera, entre 330 e 350 por dia, cravadas. Na semana seguinte a média se manteve. Depois caiu para 250 e agora varia entre 150 e 200. Ainda assim, um número bem expressivo. Poucas pessoas continuam se manifestando após a leitura dos textos e algumas, quando o fazem, têm a intenção de divulgar o próprio blogue ou evento que estão promovendo. Fato corriqueiro na blogosfera. Há outros piores, agressivos, racistas, mas, felizmente, predominam os contatos simpáticos e construtivos. Entretanto, muita gente escreve para o meu endereço eletrônico, vejam o exemplo seguinte: "Cidinha, boa tarde ! Sou Fulana de tal, aluna de um curso de Serviço Social no municipio de São Caetano do Sul, à pouco mais de três meses conheci seu MARAVILHOSO blog. Pois bem, em primeiro lugar parabéns pelo excelente conteúdo que leio diariamente e propicia muita reflexão. O motivo de te enviar este e-mail é que pretendo pesquisar o tema literatura periférica ou marginal para o meu trabalho de conclusão de curso, acredito que este segmento literário é extremamente importante por despertar o protagonismo dos sujeitos em meio a realidade cotidiana em que vivem,porém até o momento tudo o que vi sobre o assunto está em outros blogs da internet e para o levantamento bibliográfico da pesquisa preciso de algum material mais especifico e teórico, inclusive com a história da literatura. Será que você conhece livros com este conteúdo especifico que possa indicar-me ???? Desde já agradeço, e mais uma vez parabenizo seu blog pelo conteúdo critico e altamente reflexivo. Abraços". Há contatos assim delicados e outros ríspidos, nos quais as pessoas se dirigem a mim como se eu fosse um posto de informações gratuito e, por isso, não precisassem, sequer, pedir por favor. Manifesta-se o entendimento de que o que é público é para servi-las, não para atendê-las de acordo com regras, pelo menos de boa educação, no caso do blogue, nem isso, trata-se apenas de um canal de diálogo, não de um prestador de serviços.

28/11/2008

Coleção Caros Amigos - Os Negros

Está disponível nas bancas do RJ, da BA, se SP e DF (não me perguntem o porquê de distribuição tão limitada), o número 1 da coleção História do Negro no Brasil, cujo nome simplificado é "Os negros", publicação da Caros Amigos Editora. Li atentamente o primeiro volume, é bom, a proposta didática é válida e a leitura flui, entretanto, alguns textos são nitidamente recortes de artigos ou ensaios maiores e mais complexos e, descuidos na republicação, evidenciam descontinuidades e cortes mal costurados. Tomara que este tipo de problema seja resolvido nos próximos números. A coordenação da coleção, estruturada em 16 fascículos quinzenais, é do historiador Joel Rufino dos Santos. PLANO DE OBRA: 1 Resistência e rebeliões I. 2 O que é o racismo. 3 As muitas religiões I. 4 Os fazedores. 5 Resistência e rebeliões II. 6 Música popular. 7 O melhor futebol do mundo. 8 Música erudita. 9 As muitas religiões II. 10 Bravas mulheres. 11 Os Movimentos. 12 As muitas religiões II. 13 Arte afrobrasileira. 14 Resistência e rebeliões II. 15 Américas negras. 16 Quem construiu o Brasil.

27/11/2008

Que vantagem Maria leva?

(Por: Ana Reis - médica e feminista). "'Nosso corpo nos pertence' dizíamos nos anos 70 e 80. A pílula tinha chegado `as farmácias e apesar dos milicos exibirem-na como parte do material subversivo, junto com os panfletos, quando invadiram a residência universitária da USP, não era ilegal. Achávamos que chegara a hora de termos autonomia, dispor dos nossos corpos, do nosso prazer, construirmo-nos sem a receita machista. As décadas se passaram, mudamos de século e de milênio e os "nossos corpos" estão mais que nunca desenhados, cortados e costurados segundo os modelitos dos homens. "O rosto perfeito é o da Grace Kelly" decretava outro dia um cirurgião plástico loiro na TV. Escova com nanotecnologia, oferece o "salão de beleza" da esquina. A Folha de São Paulo informa, grama por grama, a competição do silicone na passarela. Fulana botou 345 gramas, sicrana ousou 354. Esses mesmo moços vibram com o esporrar da espuma de champanhe, uns nos outros, dos campeões da velocidade, essa deusa adorada dos homens. Acelera, Airton! que mulher diria isso na cama? As mães compram sapatos de salto para meninas de 3 anos de idade, levam para o dr Elsimar injetar hormônios aos 8, porque o doutor disse que se não menstruarem ficarão mais altas e elegantes. As baixinhas jamais terão direito `as passarelas. Quem terá o rosto perfeito que o doutor quer? Onde mais devemos injetar botox? Quantas morreram na lipo, na proveta, quantas anoréxicas? Direito a ser feia, gorda, cheia de pêlos, baixinha, alta, mediana - vamos enfileirar na lista dos direitos humanos? Feministas históricas pintam os cabelos e fazem reposição hormonal e a Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres foi patrocinada pela Avon. Nas propagandas os rapazes bebem loiras geladas, morenas popozudas, teenagers preparadas. Anunciam o Brasil das bundas, as mulatas calientes, a "mulher brasileira" é matéria prima barata da indústria do turismo sexual. O galã da novela vai bater de cinta na vilã, ao nascer da Lei Maria da Penha. Tá certo, sentencia o assentado do MST em Coité, com o boné de aba pra trás: era uma descarada. Teremos dinheiro para grudar um bico de mamadeira na cerveja e anunciar que "A mulher que o homem bebe é a mãe" ? O hormônio que acelera o engordar das galinhas e do gado encaroça os úteros, rasga estrias, o conservante do shampu dá câncer de mama, o metal pesado não vem dosado na lista dos pesticidas e agrotóxicos que compõem a fórmula da água mineral. O nitrato da salsicha que você evita vem na água engarrafada que você paga caro pra beber - vendida também em farmácias. No país do Jeca Tatu de celular,a nanotecnologia entra pela cosmética. A Vigiliancia Sanitária não dá conta nem de matar mosquitos. Camadas de séculos tecnológicos se superpõem e interagem. Já nascemos pós-modernos mas ainda tentamos apreender nossas realidades pelos livros traduzidos. Trinta anos de feminismo liberal deram em um monte de leis e nenhum direito garantido. Ainda não fomos capazes de enfrentar a cegueira de raça nas teorias feministas empoleiradas orgulhosamente na academia. Ufa! Que tal começarmos a cantar outro sambinha"? (Imagem: Iléa Ferraz).

26/11/2008

Eleitoras/es de BH podem escolher proposta para revitalizar o Mercado de Santa Tereza

(Texto de divulgação) "A população belo-horizontina já pode escolher, pela internet, a nova utilização do Mercado de Santa Tereza. As três propostas habilitadas para a revitalização do espaço onde funcionou o Mercado, na região Leste da capital, foram apresentadas, nesta segunda-feira, dia 3, no auditório do Espaço Municipal da Prefeitura e estão disponíveis para a consulta pública e escolha no portal da Prefeitura www.pbh.gov.br. Os projetos habilitados são “Mercado Cultural de Santa Tereza” – elaborado pela Associação Galpão, Galpão Cine Horto, Grupo Giramundo, Galápagos e Agentz – “Mercado Mineiro de Santa Tereza – da Associação Comunitária do Bairro de Santa Tereza – e “Mercado de Santa Tereza - Centro de Artes, Cultura e Tecnologias Socioambientais” – projetado pelo Mundo Mico, Tambor Mineiro, Lume Ambiental e Instituto de Ensino Tecnológico. A votação segue até o dia 5 de dezembro e vai ocorrer no mesmo formato do Orçamento Participativo Digital, em que a população escolhe, via internet, obras a serem executadas pela Prefeitura. O processo é acompanhado pela Auditoria Geral do Município, garantindo a confiabilidade e idoneidade da votação. Toda pessoa com domicílio eleitoral em Belo Horizonte terá direito a um voto, que será recebido exclusivamente pela internet. Para votar, o eleitor deve preencher os dados do número do título e da zona eleitoral. O resultado será conhecido no dia 5 de dezembro, como parte das comemorações pelo aniversário de 111 anos de Belo Horizonte. Além de receber a autorização para se instalar no espaço, o empreendimento vencedor receberá uma premiação de R$ 30 mil. Concurso: O concurso para escolher o projeto a ser implantado no mercado foi criado com o objetivo de definir, de forma democrática e com ampla participação popular, o novo uso do local. A proposta vencedora terá que ser auto-sustentável financeiramente e preservar as particularidades do bairro, marcado pela forte vocação cultural. Os projetos inscritos foram analisados por uma comissão julgadora formada por integrantes da administração municipal e representantes da sociedade civil – Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG), Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), Associação Comercial de Minas, entre outros. Propostas e principais características: Centro de Artes, Cultura e Tecnologias Socioambientais: O Centro de Artes, Cultura e Tec­no­logias Socioam­bientais será um espaço destinado às artes, moda, bioarqui­tetura, tecno­logias so­cio­am­bientais, qualificação e inserção profissional e ao resgate de costumes e tradições do Bairro Santa Tereza. O Centro terá co­mo objetivo incentivar a produção artística regional apontando valores ambiental­mente e socialmente corretos. Serão criadas diversas oficinas de capa­citação na área de artesanato recicla­do, moda, informá­tica, teatro, cultura e música para a população de Belo Horizonte com programas específicos para todas as idades. Também será implantado um espaço destinado a feiras semanais de flores, orgânicos, economia solidária, artesanato, artes, antiguidades e moda. Contará ainda com espaço para cinema, área de exposições, restaurantes/bares e um teatro de arena. O resgate de ofí­cios e costumes de Santa Tereza será feito a partir das memórias dos cidadãos mais antigos, transformando suas histó­rias num Museu Vivo e construindo um alicerce da memória para a formação das novas gerações. O que terá: - Escola de Artes em Resíduos e Ofícios; - Museu Vivo – Memórias de Santa Tereza; - Praça de Eventos e Gastronomia; - Tambor Mineiro – Centro de Referência da Cultura Afro-Mineira; - Mercado de Tecno­logias Sócio-ambientais; - Feiras Semanais; - Incubadora de Artes. Mercado Mineiro de Santa Tereza: O Mercado Mineiro de Santa Tereza visa manter a identidade e características do bairro e a melhorar a qualidade de vida dos seus moradores e usuários, ao mesmo tempo em que cria um espaço de uso público para Belo Horizonte. O objetivo é a reapro­xi­mação da comunidade local ao espaço mantendo a idéia original de mercado agregado a usos articulados entre si, com ênfase no mercado tradicional, no entretenimento e na cultura mineira. Haverá feirantes com bancas de hortifru­tigrangeiros e gêneros alimentícios, padaria, açougue, serviços locais como correio e banco, bares, uma incubadora de artes e espetáculos, restaurante e artesanato. O que terá: Incubadora de Empresas de Artes do Espetáculo: cessão de espaços equipados, a baixo custo, para en­saios de grupos de teatro, dança, música, audio­visual, produtoras, escritórios e oficinas destinadas a artistas, técnicos, executivos e gerentes que concentrem suas atividades nas áreas cênicas, musicais e audiovi­suais. Comple­menta a Incubadora uma tenda removível para shows, cinema, tea­tro, dança, etc. Restaurante e Escola de Gastronomia: vitrine de referência da gastronomia mineira em Belo Horizonte, resgatará antigas tradições culturais, privile­giando os pequenos produtores. Centro de referência e comércio de artesanato: exposição permanente do artesanato tradicional e contemporâneo mais representativo do Estado de Minas Gerais. Propõe-se a capacitação e treinamento do artesão como dos demais interessados, por meio da realização de formações. Mercado Cultural Santa Tereza: O Mercado Cultural Santa Tereza é um projeto resultante da união entre o Grupo Gi­ramundo, o Centro Cul­tural Galpão Cine Horto – do Grupo Gal­pão – e a Agentz Produções. Ele pretende criar, no bairro Santa Tereza, um pólo nacional de produção, exibição e formação artística. O projeto, que prevê um investimento de R$ 12 milhões, tem o respaldo de dois dos mais importantes nú­cleos artísticos do Brasil – o Grupo Giramundo e o Gal­pão Cine Horto – Centro Cultural do Grupo Gal­pão – somados à sólida trajetória de produção de eventos e gestão cultural da Agentz Produções. A criação de um complexo grandioso como o proposto abre espaço para a elaboração de um pólo turístico na cidade, gera novos empregos e, certamente, contribui para o desenvolvimento sustentável da comunidade e região. O que terá: Núcleo Gira­mun­do: o Giramundo trans­fere para o Mercado Cultural Santa Tereza o Museu Giramundo, am­­pliando sua capacidade de visitação e de pesquisa. O grupo também rea­lizará cursos e oficinas e criará um teatro para apresentações de espetáculos de bonecos. Núcleo Galpão Ci­ne Horto: o Centro Cultural Galpão Cine Horto será transferido para o Mercado. Será criado um teatro único no Brasil. Ele permitirá diferentes formas de utilização (teatro fechado, multi-meios ou teatro de rua), além de um auditório/cinema e do Centro de Pesquisa e Memória do Teatro (biblioteca e video­teca). E, ainda, serão oferecidos cursos em várias áreas artísticas e técnicas. Núcleo Agentz Produções: a Agentz Produções, realizadora do Festival Mundial de Circo do Brasil, implantará, no mercado, o Centro Internacional de Referência do Circo – CIRC, que abrigará diversas atividades circenses como oficinas e cursos para profissionais e iniciantes, biblioteca e videoteca. Será também instalada na parte externa do mercado uma lona com 400 lugares. Ali haverá espetáculos, mostras e festivais de circo. Outras atividades: refor­mulação dos espaços abertos, transformando-os em importantes centros de convivência, além de ações de intercâmbio e eventos co­mo shows, mostras, exposições, conferências, debates, feiras de artesanato, feiras gastronômicas e eventos populares, sempre com a participação ativa da comunidade, além de um aconchegante bar-café e um empório de pro­dutos artísticos mineiros".

25/11/2008

Rima Acima Rima Abaixo, no Sesc Pompéia, em São Paulo

Quartinhas de Aruá, em Salvador

(Texto de divulgação): “...porque a consciência não é uma luzinha que se acende na mente: é o relâmpago da verdade que não se apaga nunca...” (Luiz Silva Cuti) "Já se disse que os livros não mudam o mundo, mas mudam pessoas, que transformarão o mundo. Na luta contra as várias formas de opressão, a literatura sempre teve importante papel - da Revolução Angolana, onde seu líder maior era poeta, ao Movimento Negro no Brasil, onde a arte sempre foi uma grande arma. Com o tema LITERATURA E CONSCIÊNCIA NEGRA, a Quartinhas de Aruá traz os militantes Ana Célia da Silva, e Hamilton Vieira pra falarem sobre os romances, contos ou poemas que colocaram suas consciências negras nos trilhos luminosos da luta anti-racista". ONDE: Centro de Estudos das Populações Afro-Indo-Ameríndias – CEPAIA - Largo do Carmo, Centro Histórico. QUANDO: 26/11/2008, às 19:00.

24/11/2008

Desconcerto, de Claudinei Vieira, será lançado hoje, no Rio de Janeiro

Desconcerto’ traz pela primeira vez em livro os contos do escritor, poeta, resenhista e roteirista Claudinei Vieira. Ao longo de mais de uma década, Claudinei tem publicado seus escritos, pensamentos e críticas principalmente pelos meios eletrônicos em importantes sites e blogs de literatura como Cronópios, iGLer, Paralelos – Globo Online, assim como o fundamental Capitu, e em dezenas de espaços virtuais. Observador fino da realidade, boêmio constante das noites e das histórias paulistanas, agitador cultural da metrópole, organizador de saraus, discussões e eventos literários que já fazem parte do calendário cultural da cidade de São Paulo, como os encontros com prosadores realizados na Casa das Rosas, na avenida Paulista, e com poetas no Sebo do Bac, na Praça Roosevelt, o autor não se preocupa somente em retratar uma visão. Em cada conto, há a premeditação em desconstruir os enredos, em remontar a linguagem, em encontrar os pontos básicos em histórias e situações aparentemente banais e mostradas de uma forma que também aparentam uma extrema simplicidade. Só que para se perceba que dos detalhes, do extremo banalizado, existem possibilidades infinitas. Desse modo, um copo quebrado por um garçom que assusta uma garota pode nos fazer pensar no sentido da vida, em conhecer uma bela história de amor, ou não provocar qualquer consequencia no cotidiano dos personagens ou no Universo. Um ladrão de galinhas pode conseguir comida para seus filhos ou ser morto pelo seu melhor amigo. Um delegado pode se intrometer na investigação do seu subordinado puxa-saco. O tráfico de mulheres e crianças e a violência ao redor do planeta podem estar relacionados com a menina bonita que volta para as aulas ou com os urubus provocarem a verdadeira crise econômico-social no Brasil. Em outros tempos, um padre e um velho sábio discutem sobre religião e ciências, enquanto no centro da Amazônia uma televisão mostra as bundas do carnaval. Em ‘Ônibus - IA’, conto premiado e publicado em caderno especial pelo jornal O Estado de São Paulo, a história de um cobrador de ônibus e a busca de sua própria condição literária são representativos do cuidado como o autor remontou, revisou e, em alguns casos, reescreveu estes escritos, para montar um volume único, uma obra com firme coerência interna, um belo desconcerto. Como diz a escritora Márcia Denser em seu prefácio: “Assim é que com uma linguagem desprovida de emoção, uma linguagem fria – dos inventários, dos relatórios, onde não faltam cifras, números, estatísticas – o narrador se aproxima dos seus temas e personagens com um olhar paradoxalmente compassivo, humano, solidário, e este é o grande achado literário de Claudinei Vieira: a combinação da linguagem fria à visada quente, mixando imprevistamente objetividade e compaixão. Razão e sensibilidade. Pelas artes e manhas de uma poética extremamente original.”

Ironia e humor como valorização étnica e crítica social na obra Cada tridente em seu lugar

Quero dizer que por serem leves e acessíveis talvez elas [as crônicas] comuniquem mais do que um estudo intencional a visão humana do homem na sua vida de todo o dia. (Antonio Candido) (Por: Zélia Maria N. Neves Vaz*, publicado no sítio do LITERAFRO - Portal da Literatura Afro-brasileira www.letras.ufmg.br/literafro). "Cidinha da Silva desponta na Literatura Afro-brasileira com a publicação de Cada tridente em seu lugar, já em segunda edição. Sua estética aproxima-se da proposta dos novos escritores afro-brasileiros – Edimilson de Almeida, Salgado Maranhão, Ronald Augusto, dentre outros – que prezam pela conexão com a causa negra, mas não abdicam do caráter artístico, ponto fundamental quando se trata da literatura. Embora seu trabalho com as letras a diferencie dos antecessores por eleger a prosa e não a poesia como proposta literária, a semelhança com a nova geração dos escritores comprometidos com a negritude torna-se inevitável. Essa analogia é possível pelo fato de Cidinha da Silva possuir uma vinculação com a afro-brasilidade, bem como com outras questões sociais, mas, sobretudo porque seu posicionamento não abafa a literariedade que se verifica de forma bastante rica na tessitura de seus textos. Assim, para meditar sobre a produção desta nova escritora, torna-se essencial verificar seu posicionamento atrelado a recursos literários como a ironia e conseqüentemente o humor, operadores da reflexão social emanada da escritura de Cidinha da Silva. Os recursos literários salientados contrastam com o engajamento explícito de muitos escritores também defensores de uma arte aliada a um projeto social, cultural e político. Faz-se necessário neste momento adentrarmos em uma breve explanação acerca das características provenientes da obra Cada tridente em seu lugar. O referido livro é composto em sua quase totalidade por crônicas, no entanto, a escritora deixa-se enveredar em alguns momentos por narrativas definidas neste estudo como contos. Em seus textos vigora, salvo raras exceções, uma linguagem “leve”, a ponto de camuflar temas significativos, fato que propicia a um leitor mais desatento a impressão de estar lidando com histórias de pouca profundidade, criadas apenas para o entretenimento. Essa ingenuidade indubitavelmente não se inscreve nesta obra. Cidinha da Silva engendra uma escrita na qual há a assunção de inúmeras questões sociais, que vão desde a intolerância religiosa, até a questão racial, certificados respectivamente em “O cobrador de ônibus e o deus-vaca” e “Pretos de estimação”. Não por acaso o universo afro-descendente irá emoldurar, se não todas, quase todas as crônicas e contos presentes no livro. Este se encontra dividido em três partes, sendo a primeira, em sua maioria, destinada a tratar de assuntos permeados pelo universo mítico-religioso da cultura africana. Já na segunda seção de Cada Tridente em seu lugar imperam os temas do cotidiano, como se verifica na crônica “Um passo preto canta numa viagem de ônibus”; do espaço introspectivo, presente no texto “Sobre o exercício da arte difícil e nobre de estar só”; e a sexualidade na velhice, proposta de modo delicado e bem humorado em “Aconteceu no Rio de Janeiro!”; além de outras questões presentes na contemporaneidade. Finalmente, a alteridade encontra-se expressa na terceira e última parte do livro, por meio de temas direcionados para a condição social afro-descendente. Assim, os referidos textos problematizam, por exemplo, a mulher negra como objeto sexual, em “Papo de barbearia”, ou a falta de mobilidade do negro na sociedade, verificada em “Melô da contradição”. Em “Histórias da Vó Dita”, Cidinha da Silva questiona a ausência de personagens negros nas histórias em quadrinhos e reconhece que quando eles aparecem são, na maioria das vezes, construídos por um olhar pejorativo. O questionamento acerca do preconceito racial atinge seu ponto máximo em dois textos: “Poesia num ônibus de BH” e “Pretos de estimação”. Após esse panorama sobre os elementos caracterizadores de Cada Tridente em seu lugar, passemos à leitura dos textos. O exame de uma obra literária nos compele recorrentemente a especificar o gênero ao qual ela pertence, sobretudo quando ocorrem dúvidas acerca desse aspecto, como em nosso caso. Marcelino Freire, em seu comentário sobre o livro, antecipa o enquadramento dos textos no gênero crônica e, inegavelmente, este estilo se sobressai. A escritora narra muitas vezes cenas cotidianas, retrata flashes do dia-a-dia, relata experiências vividas, todas perpassadas por uma linguagem leve e aparentemente descompromissada, típica do gênero em questão. Entretanto, em alguns momentos, o olhar superficial do narrador, atento a elementos mundanos e rotineiros, cede lugar para um outro mais ficcional. Em outros pontos, afloram narradores de primeira pessoa, que remetem a um possível eu autobiográfico, inspirados em relatar experiências particulares e não alheias, tal qual ocorre na crônica. Em decorrência destes aspectos, a leitura de alguns textos, inseridos em Cada tridente em seu lugar, nos acarreta a incerteza: pertenceriam eles ao estilo da crônica ou estariam constituídos pelos parâmetros do conto? Em teoria literária, há muito se questiona a proximidade existente entre os citados gêneros, justificável então, encontrarmos estudiosos ocupados em promover esclarecimentos referentes a esses dois modos de composição da estrutura narrativa: Enquanto o contista mergulha de ponta-cabeça na construção do personagem, do tempo, do espaço e da atmosfera que darão força ao fato “exemplar”, o cronista age de maneira mais solta, dando a impressão de que pretende apenas ficar na superfície de seus próprios comentários, sem ter a preocupação de colocar-se na pele de um narrador, que é, principalmente, personagem ficcional, como acontece nos contos, novelas e romances. (SÁ: 2001, 9). Esta diferenciação surge como um facilitador para as questões levantadas, embora seja salutar a consideração de que nem sempre a distinção acima abarca de modo exemplar a criatividade de Cidinha da Silva. Seus textos não seguem a vertente tradicional do conto, sobretudo quanto à profundidade narrativa, pois a autora assume uma prática textual quase próxima do minimalismo, gênero moderno empregado por escritores que elegem a concisão e a brevidade como prerrogativas para a construção de suas histórias. Assim, não iremos nos deparar com a caracterização intensa de determinado personagem ou com a descrição minuciosa do espaço e do tempo inscritos na narrativa, práticas sustentadas pelos contistas tradicionais. A evolução dos gêneros e a conseqüente ruptura de suas fronteiras encontra-se, como se pode notar, também problematizada na obra em questão, propiciando ainda a percepção da liberdade que os escritores contemporâneos possuem de transitar entre eles e assim imporem características próprias à elaboração de sua arte. Não pretendo aqui fixar definições concernentes aos textos, se pertencem à crônica ou ao conto, de qualquer maneira esta também não constitui tarefa fácil. O intuito é, primeiramente, atestar para o leitor as nuances da obra de Cidinha da Silva e em última instância esclarecer porque emprego o termo conto e não crônica, ao longo deste estudo, que terá como orientação esses gêneros, recorrentemente citados no decorrer das análises. Embora haja confluência entre esses estilos na obra e em certos casos nos próprios textos, a crônica se perpetua como marca dominante. A autora preza pela leveza da escrita, delineada por uma linguagem casual, geradora de suposta superficialidade. Seria esta a justificativa para muitos críticos intitularem a crônica como um “gênero menor”? “ ‘Graças a Deus’, - seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica mais perto de nós”, afirmou Antonio Candido em seu artigo “A vida ao rés do chão”. (CANDIDO: 1992, 13) Embora o crítico tenha asseverado tal aspecto da crônica e o próprio título do estudo nos indique um gênero pouco sofisticado, ao longo das explicações de Candido esse ponto de vista será questionado, na medida em que ele próprio comprovará a riqueza da crônica, verificada em textos de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Rubem Braga, dentre outros. Da mesma forma, Cidinha da Silva explora de maneira exemplar as possibilidades permitidas pelo gênero e discute, de modo bastante prazeroso – por meio da ironia, do humor – temáticas que já constituem em si o peso da seriedade. Antonio Candido, no texto citado, estrutura sua explicação para a crônica, em consonância com o que Cidinha realiza em seus textos: Por meio dos assuntos, da composição aparentemente solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de todo dia. Principalmente porque elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser mais natural. Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição.(CANDIDO: 1992,13-14) Em paralelo a esta “teorização” do crítico encontra-se a crônica “Um passo preto canta numa viagem de ônibus”, na qual aparece expresso essa despretensão aliada à profundidade, em nosso caso temática. O exemplo em questão evidencia o percurso num coletivo e o retrato da seguinte cena: No ônibus vazio, seguia tranqüila observando os resultados de três dias consecutivos de chuva de verão (...). Em uma parada próxima ao final da linha, entra uma voz forte e melodiosa no coletivo (...). Bonitas, a música e a voz. Estiquei o pescoço para ver quem era o cantor e não vi ninguém. Ouvi um barulho de tamancos e olhei para o chão. Então vi um rapaz negro com o tronco muito desenvolvido contrastando com as pernas finíssimas, dobradas, próximas às mãos, que faziam o papel dos pés. (Cada Tridente em seu lugar, p. 37) O relato sobre este artista de ônibus prossegue, revelando a forma de sustento do rapaz: a contribuição dos passageiros agraciados pela voz do cantor. Através do excerto acima, pode nos parecer que o olhar da cronista direcionado ao personagem orienta-se no intuito de criar uma imagem de comiseração em relação a esse sujeito. Impressão muito óbvia e sensacionalista para a escritura de Cidinha da Silva. Logo em seguida, a autora quebra essa expectativa ao rememorar outra maneira de abordar passageiros no ônibus, conhecida nacionalmente pelos que costumam utilizar o transporte coletivo. No propósito de realizar uma comparação entre o cantor e outros jovens, os quais se apossam do sensacionalismo para obter dinheiro, a fala destes últimos aparece reproduzida e denominada na narrativa de “ladainha insuportável” (SILVA: 2007, 38): “se-nho-res pas-as-gei-ros, des-cul-pe in-co-mo-dar a vi-a-gem de vo-cês”. A assunção do humor no trecho é inevitável, tornando-se ainda mais latente na descrição do discurso: “e toca a contar a saga da família de dez irmãos, pai desempregado e mãe com câncer, todos passando fome, só ele tem condições de pedir, e pedir, como todo mundo sabe, era melhor do que roubar” (SILVA: 2007, 38). Neste momento a escritora teria espaço para adotar uma postura moralista e assim criticar aqueles que se aproveitam da piedade alheia, ou ainda poderia justificar essa atitude, pois sem dúvida não há uma distribuição de renda adequada no país, sendo necessário empregar meios atípicos para buscar a sobrevivência. Mas não, o texto opta pelo riso, deixando essas conclusões a cargo de seu interlocutor. Percebe-se que a reflexão sobre tais problemas surge inevitavelmente, no entanto, não será a escritora a responsável direta por ela e sim o leitor com seu conhecimento prévio acerca das desigualdades sociais. Em seguida, a narrativa retoma seu foco – o cantor do ônibus – para realizar um confronto com o preconceito nem sempre assumido quando introjetado pelo leitor. Ocorre então o seguinte desfecho: (...) enquanto girava o corpo sobre as mãos, dirigindo-se à porta da frente para ir embora, o rapaz cantor reconhece uma amiga e começam a conversar. (...) Ele conta que na semana anterior tinha faltado à faculdade porque havia tido coágulos nas pernas e a dor, arretada, não o deixara sair de casa. Naquela semana, todavia, voltaria às aulas e à capoeira (balança o tronco cheio de ginga) (SILVA: 2007, 38) A fala do artista nos surpreende de forma gradativa, primeiro porque afirma freqüentar a faculdade, segundo por se declarar praticante da capoeira, dança na qual as pernas se fazem fundamentais. O desfecho surte intenso impacto, pois imaginávamos, ao longo do texto, um rapaz que havia encontrado em sua arte o único meio de se manter produtivo socialmente. As adversidades advindas de suas necessidades especiais não impediam o cantor de exercer outras atividades realizadas pelo ditos “normais”, consciência adquirida somente ao final da crônica. Interessante observar como Cidinha da Silva oferece a impressão de um relato despretensioso, como se quisesse apenas compartilhar uma cena testemunhada em uma viagem de ônibus. Subitamente a cronista desconcerta o leitor, na medida em que ele se descobre portador de um olhar preconceituoso e piedoso em relação ao artista. Numa interpretação mais aprofundada, nota-se a reivindicação da escritora por um tratamento igualitário desses sujeitos e o refutamento de uma postura comiserativa, responsável por reforçar a discriminação dessa parcela da populacional. Em decorrência da comicidade e da narrativa excessivamente curta, “Só derreal!”, alia-se à mesma idéia da despretensão. Num primeiro instante não se certifica claramente os questionamentos provenientes desta crônica, como se a intenção não fosse outra que não o riso. Condensada em um flash, mesclado ao humor, a crítica, emanada de poucas linhas, atinge uma dimensão inversamente proporcional à brevidade do texto. Comprovemos a partir do exemplo: O menino negro aborda o casal de gringos brancos na sorveteria. Pega no braço do mais viril e faz gestos de abrir e fechar a boca, para frente e para trás. Antes de dizer qualquer coisa, o mais feminino intervém: ‘ele quer sorvete, darling’. (...) O garoto, nervoso, se ajoelha e repete os gestos com a boca. Acrescenta mais um gesto, as mãos abertas, dez dedos. O preço. (...) ‘Baby, vamos embora. Você oferece sorvete e ele parece que só aceita se você der mais dez reais. (...) Na saída da sorveteria, enquanto os dois caminham de mãos dadas, o menino esbraveja: ‘Gringo pão-duro! Faço por cinco’.” (SILVA: 2007, 89). Sem imprimir juízo de valor, a cronista compele o leitor a meditar a respeito da cena narrada. Nesse sentido, o potencial crítico desta apresenta-se como elemento determinante no preenchimento das lacunas ocasionadas pela estética concisa, por meio da qual se edificou a crônica. Um leitor detentor de conhecimento crítico não deve se deixar levar apenas pelo viés cômico, deste recurso é preciso emergir a seriedade temática explorada na crônica: a prostituição infantil. O riso convertido em reflexão configura um elo para a percepção da realidade cruel que nos cerca no cotidiano. A ironia presente no título – “Só derreal!” – comprova o posicionamento de Cidinha da Silva no tocante à exploração sexual. Notemos que o preço, retratado através da reprodução do linguajar dos garotos marginalizados, constitui um irrisório pagamento, ratificado pelo advérbio, o qual antiteticamente exige em troca o peso de um “serviço” perverso. Além disso, ao final da crônica, a fala insistente do garoto exprime sua ingenuidade e nos possibilita a conclusão de que não foi permitindo a ele compreender a situação social cruel, humilhante, pela qual o condenaram. Em meio a um retrato metonímico do personagem, pois o mesmo representa a parte de uma grande maioria explorada na mesma função, Cidinha da Silva reverbera sua crítica se resguardando do discurso pedante, politicamente correto. A ironia e o humor descartam o cunho panfletário, certificado em obras de alguns escritores, assim como atestado na escrita de Machado de Assis, o escritor que “nunca opta pelo confronto aberto. Ao contrário, vale-se da ironia, do humor, da diversidade de vozes, e de outros artifícios para inscrever seu posicionamento”, tal qual afirmou Duarte (2007) em seu ensaio “Estratégias de caramujo”. Nota-se nessa assertiva que Machado, e da mesma forma nossa escritora, provoca e, mesmo, rechaça aquele leitor ingênuo, incapaz de verificar as nuances expressas no texto. Assim, ambos reivindicam um olhar arguto sobre seus escritos. O próximo exemplo a ser trabalhado – “Pretos de estimação” –, ajusta-se mais ao gênero conto. Caracterizado por um narrador de primeira pessoa, relator de experiências particulares, o texto, também conciso, na linhagem contemporânea do mini-conto, oblitera o olhar direcionado a elementos cotidianos e alheios, fato que justificaria a transição da crônica para a narrativa curta. Nela serão, como na anterior, assegurados o humor e a ironia, neste caso, no ensejo de empenhar-se no tema da alteridade negra, mais especificamente do preconceito racial. O título, também irônico, antecipa a postura discriminatória de cor, propalada por uma personagem repugnante, impressão causada graças à exata construção de sua imagem pela escritora. Já na introdução da narrativa é concedida voz a uma mulher, que se diz consternada pela morte de seu “mucamo”. A referida expressão permite à narradora crer no nome de um gato, entretanto, ela se surpreende quando a personagem declara ser o “mucano” um empregado da família, equiparado, pela “dona”, a um animal: Tão querido, tão limpinho. Nunca teve ninguém, o pobrezinho. Depois que minha mãe morreu – que Deus a tenha em bom lugar – minha irmã mais velha que nunca gostou de morar em apartamento, ficou com dó e levou ele pra ela. Ele morava nos fundos da casa, perto do canil. Era um preto de confiança, mais fiel à nossa família que os cachorros do papai”. (Cada tridente em seu lugar, p. 83-84). Ao presenciar as atrocidades proferidas pela mulher, a narradora, negra como o “mucamo”, engasga com o “empadão” e repentinamente sofre um acesso de tosse, cena responsável pelo tom hilário, explícito neste ponto do texto. O recurso humorístico não nega, entretanto, a denúncia percebida no trecho, sobretudo ao explicitar o processo de zoomorfização do negro presente no discurso racista da personagem. Na seqüência, em um diálogo com uma amiga, a mesma figura “evolui” de mulher preconceituosa, para mulher preconceituosa e fútil e reforça ainda seu desprezo pelos negros quando o assunto é relacionamento estável: “Ah... nem te conto, tô apaixonada! É um deus grego em cima de um touro”. “Ih... já vi tudo, é caso de rodeio?” “Ele não é qualquer um meninas. Tem talento estilo. É um legítimo Alcântara Machado. Al-cân-ta-ra, viu minha gente? Não é Alcantra como esse povo ignorante diz por aí. (...).” “Mas e o cara da semana passada?”, alguém pergunta. “Quem?” “O negão cubano? Aquilo era só para a manutenção” (Cada tridente em seu lugar, p. 84). A voz de enunciação presente no excerto propaga uma fala repleta de preconceitos em relação aos que não possuem tradição familiar, adquirida obviamente por meio do poder econômico. Um antigo estereótipo também insurge no texto, aquele vinculado ao negro como objeto sexual, o qual vitimava não o homem, como explora Cidinha da Silva, mas a mulher. A mudança de paradigma parece escancarar um preconceito inerente à figura masculina e igualmente à feminina, assim, a partir da reflexão permitida pelas palavras da personagem, o negro desponta como um arquétipo da figura do prazer, descartado quando o interesse é inexistente. Quanto a esse quesito, torna-se relevante explicitar o ponto de vista contrário da voz narrativa, indubitavelmente inscrito na construção da imagem antipatizante da mulher presente no texto. Além disso, a aversão criada no leitor pela personagem não o permite compactuar com as opiniões difundidas por ela, a leitura se apresenta, desse modo, como recurso importante na extinção do preconceito. A denúncia da exploração sexual, certificada no conto, remonta à consciência étnica da autora, elemento que a torna parte integrante da Literatura afro-brasileira. Assim, contrária a criações preconceituosas concernentes aos negros, Cidinha da Silva, combate essas acepções há muito difundidas em obras de renomados escritores como Aluísio Azevedo, no Cortiço, Jorge de Lima, com seu poema “Nega Fulô”, para citar alguns, como alude Domício Proença Filho, no artigo “A trajetória do negro na literatura brasileira”. Nessa mesma vertente crítica, encontra-se o conto “Luana”. Nele há a apresentação dos personagens, a ambientação do espaço e ocorrência do clímax, motivos os quais corroboraram o enquadramento do texto no referido gênero. A narrativa problematiza uma temática recorrente na contemporaneidade: a violência presente em comunidades carentes, no caso específico da história, na periferia de São Paulo. O clímax do conto fica a cargo do assassinato da personagem Luana, conhecida por sua beleza negra e por representar uma exceção, entre os que a cercam, ao ingressar na Faculdade. Ela era, por esses motivos, o orgulho de todos onde morava. A morte de Luana se justifica por uma discórdia infundada ocorrida entre os “amigos e conhecidos” (SILVA: 2007, 62) da moça e “um jovem meio alterado” (SILVA: 2007, 62), em um ônibus, no trajeto para casa. Após a discussão, os seguintes fatos são retratados: O garoto entra em casa e pega uma arma. Pega a moto e o irmão que, a contragosto, vai ajudá-lo a resolver uma parada. (...) A turma já desceu do ônibus e está concluindo os dez minutos de caminhada (...). O rapaz da arma passa para o banco do carona, o irmão passa pelos jovens gritando e atirando. Desespero total. Luana tomba abraçada aos cadernos. (...) No hospital, a notícia: Luana morreu. (Cada tridente em seu lugar, p. 62) Como uma perscrutadora do social, a escritora, quando não observa para narrar o universo a sua volta, cria um narrador em terceira pessoa, no intuito de assumir a função de um personagem responsável por evidenciar a realidade violenta, comum nos grandes centros urbanos. O conto apresenta-se como um dos raros momentos em que a autora opta por impingir uma seriedade maior na escritura e assim realizar sua crítica, a qual erige-se sempre na mesma direção: o próprio leitor será o construtor da reflexão permitida pelo texto. O tom ficcional imperante em “Dublê de Ogum” o torna um dos exemplos mais fortes de conto presente no livro. Contido na primeira parte da obra, a qual se vincula a um universo mítico-religioso da cultura africana, no texto é narrada a história de um garoto que, mesmo após a infância, insistia com brincadeiras infantis ao acreditar ser um super-herói com sua espada de plástico e sua capa de prata. A mãe e a avó do adolescente o encaminham ao psiquiatra, profissional que se respaldava nos sonhos do paciente para desvendar seus possíveis distúrbios. O universo onírico é utilizado como recurso para descrever as características do orixá Ogum, pois o garoto sonhava pertencer a um lugar “onde todo o mundo era preto e ele também” (SILVA: 2007, 24), além disso, “vivia no coração da montanha mais alta e os moradores avisavam aos estrangeiros que aquela era a casa de um homem jovem, muito grande e muito forte, ferreiro de profissão” (SILVA: 2007, 24) . O menino em seu sonho era, ainda, aquele que auxiliava as pessoas a seguirem seus caminhos, como se comprova o relato do garoto ao rememorar as fantasias vivenciadas no universo onírico: “(...) outros ouviram dizer que se rogassem a ele, o guardião da montanha e da forja, seus caminhos seriam abertos”. “Dublê de Ogum” surge no intuito de ratificar a tradição religiosa africana, por meio de um personagem que, na verdade, não tinha problemas psicológicos, tal qual acreditavam a avó e a mãe, mas sim fora agraciado como sendo um filho de Ogum, conclusão da própria psicóloga ao final do conto: “Um dublê de Ogum, ela intui.” Nesse exemplo, o caráter corrosivo da crítica de Cidinha da Silva, é silenciado no desejo de entoar um “canto” exaltatório da cultura africana. Para isso a escritora nos apresenta as especificidades do orixá Ogum. Este era, segundo consta no livro Mitologia dos Orixás, um guerreiro morador da terra Ifé, no alto de uma colina, detentor do segredo do ferro e condenado por seu pai a não descansar “de dia nem de noite./As estradas seriam sua morada./Para sempre andaria por elas,/ajudando os viageiros que se perdem nos caminhos/e deles recebendo oferendas para sobreviver” (PRANDI: 2001, 100). Há também em Cada Tridente em seu lugar narrativas estruturadas por meio da confluência entre a crônica e o conto, como no caso de “Domingas e a cunhada” e “Poesia num ônibus de BH”. No primeiro texto, encontra-se a marca da alteridade, mas não do negro e sim do homossexual. A forma sutil com que a autora trabalha esse tabu induz o leitor, num primeiro momento, a não acreditar no que lê, fato justificado pelo preconceito ainda imperante no meio social. Mas o texto não oferece margem a dúvidas e a autora não hesita em iniciá-lo da seguinte forma: “Elas dormem juntas e isso é público, mas ai de quem as declarar amantes. A casa tem apenas um quarto, cuja porta sempre fica aberta e donde se vê uma cama de casal”. (SILVA: 2007, 45) No conto narra-se a história de Domingas e Arminda, cunhada da primeira, personagem que fora abandonada pelo marido e, justamente este fato termina por incentivar a união das duas mulheres, selada por carta/declaração de Domingas: “Minha flor de mandacaru, depois de mês viajando, cheguei a uma terra onde tem água nos rios. (...) Minha estrela-guia foi a lembrança daquela noite de lua cheia que cê dormiu nos meus braços. (...) Agora cê já sabe onde eu tô. Pega o barco e vem. Domingas.” (SILVA: 2007, 47) A construção de personagens pertencentes ao meio rural, onde não há espaço para relações que não sejam as heterossexuais, causa um certo choque, mas ele logo é quebrado pela beleza da história de Domingas e Arminda, cúmplices e desejosas de uma vida melhor quando vão para a cidade. Dessa maneira, Cidinha da Silva rompe com o preconceito do leitor ao promover nele uma reflexão e, conseqüentemente, um início, talvez algo mais, de aceitação dessas relações ainda discriminadas socialmente. Em “Poesia num ônibus de BH”, no qual aprece a marca de um possível eu autobiográfico, a autora narra suas angústias e deixa explícito como os resquícios do período escravista ainda estão presentes nela e também em sua cidade natal: “Belo Horizonte é uma imensa casa-grande. Um sobrado mal assombrado por móveis de madeira maciça trazidos da casa-grande das fazendas. (...) tudo revestido com tons sombrios da hierarquia racial. Gemidos pelos cantos e porões”. (SILVA: 2007, 78) O móvel de madeira surge como motivo no texto para a escritora explanar a sua própria história, quando vivenciou o preconceito racial: “A primeira vez que vi um daqueles móveis coloniais de madeira maciça (...) foi na casa do Gallo, colega de faculdade (...). Entrei e não sei o que mais me aterrorizou, a tal peça colonial (...) ou a cara incrédula e repressora dos pais do Gallo. Quem era aquela preta que entrava pela porta da frente?”. (SILVA: 2007, 79) Percebe-se que é justamente no passado que Cidinha busca a explicação da discriminação para desvelar no decorrer do texto uma capital mineira fortemente marcada pelo preconceito de cor. Esta difícil realidade aflora no enredo como algo latente na vida da escritora, que temia ser a qualquer momento surpreendida por uma atitude racista, tal qual se verifica no decorrer da narrativa. Cidinha da Silva, destaque na nova geração dos escritores inseridos na Literatura Afro-brasileira, engendra uma arte bastante atenta aos fatos cotidianos, sobretudo aqueles que dizem respeito aos problemas sociais da contemporaneidade e à população afro-descendente. No prefácio de Cada Tridente em seu lugar, Edimilson de Almeida Pereira ratifica a postura literária da escritora: “a trajetória intelectual de Cidinha da Silva mostra sua opção por descer do mirante da história para estar entre as pessoas que fazem os fatos de outra história, silenciada porque pertence aos menos favorecidos”. *Graduanda em Letras pela UFMG. REFERÊNCIAS: CANDIDO, Antonio. “A vida ao rés-do-chão” In: A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas, SP: Editora da Unicamp; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992. DUARTE, Eduardo de Assis. “Estratégias de Caramujo” In: Machado de Assis afro-descendente – escritos de caramujo [antologia]. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Pallas/Crisálida, 2007. PEREIRA, Edimilson de Almeida. “A estrada é uma coisa, o caminho é outra”. Prefácio. In: Cada tridente em seu lugar. 2 ed. Belo Horizonte: Mazza edições, 2007. PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. PROENÇA FILHO, Domício. “A trajetória do negro na literatura brasileira” In: Estudos Avançados – Revista do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Vol. 18, nº 50, jan-abr. 2004. SÁ, Jorge de. A crônica. 6 ed. São Paulo: Editora Ática, 2001. SILVA, Cidinha da. Cada tridente em seu lugar. 2 ed. Belo Horizonte: Mazza edições, 2007.

21/11/2008

"Câmara aprova cota de 50% para alunos de escola pública em universidades federais"

(Do UOL Notícias, por: Claudia Andrade) "A Câmara dos Deputados aprovou, nesta quinta-feira (20), um projeto de lei que reserva pelo menos 50% das vagas nas instituições federais de educação superior vinculadas ao Ministério da Educação para estudantes que tenham cursado o ensino médio em escolas públicas. A regra também vale para cursos técnicos profissionalizantes de nível médio. Neste caso, o estudante deve ter cursado o ensino fundamental em escola pública. O projeto ainda será analisado pelo Senado. As vagas reservadas pelo sistema devem ser preenchidas por candidatos "autodeclarados pretos, pardos e indígenas", em número no mínimo igual à proporção destas populações no Estado onde fica a instituição de ensino. Para tanto, serão considerados os dados do último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Um acordo entre os parlamentares também incluiu um critério social no sistema de cotas. Assim, 25% das vagas reservadas serão destinadas para aqueles que, além de terem estudado em escolas públicas, sejam de famílias com renda de até um salário mínimo e meio por pessoa (cerca de R$ 622,50), independente de raça ou etnia. Num exemplo hipotético: uma universidade federal que tenha 100 vagas teria de reservar 50 para alunos de escola pública. Se no Estado houver, por exemplo, 50% de negros e 10% de indígenas, 25 vagas - das 50 do sistema de cotas - terão de ser, prioritariamente, preenchidas por negros, e 5, por indígenas, no mínimo. Além disso, novamente dentro das 50 vagas, 25 teriam de ser ocupadas por alunos oriundos de famílias com renda de até um salário mínimo e meio por pessoa. "Havia outros projetos que também reservavam 50% das vagas apenas pelo critério racial, mas este é um projeto efetivamente social", destacou o deputado Paulo Renato Souza (PSDB-SP), ao defender a aprovação da matéria, depois do acordo. No entanto, ele fez uma ressalva, dizendo que o projeto ideal levaria em conta apenas o critério social. "A questão da renda também resolveria o problema ligado à raça", ressaltou. Se as vagas do sistema de cotas não forem preenchidas de acordo com os critérios estabelecidos, elas serão disponibilizadas para outros estudantes egressos de escolas públicas. O Poder Executivo será responsável pela fiscalização do sistema nas instituições de ensino, que terão um prazo máximo de quatro anos para cumprir integralmente a determinação. O projeto estabelece também que o sistema de seleção dos alunos oriundos de escolas públicas deverá ser feito com base em uma avaliação seriada. O texto aprovado fala que a base será o "Coeficiente de Rendimento, obtido através de média aritmética das notas ou menções obtidas no período". Para as instituições privadas de ensino superior, a adoção deste sistema para seleção dos alunos é facultativa. No entanto, uma emenda aprovada durante a votação invalida o que o projeto previa. Isso porque a reserva de vagas ocorreria em cada "concurso seletivo" para ingresso nos cursos de graduação. Ou seja, no vestibular. O Ministério da Educação ainda não se manifestou sobre o projeto".

Mulheres Negras do Brasil, em Braille, será lançado em Recife, dia 24/11

(Notícia veiculada por Memória Lélia Gonzalez). O livro "Mulheres Negras do Brasil", organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, ganhador do Jabuti, categoria Ciências Sociais e Humanas, 2008, terá edição em Braille e meio eletrônico! A iniciativa é da Secretaria Especial da Mulher em parceria com o Comitê Estadual de Promoção da Igualdade Étnico-Racial e o Museu do Estado de Pernambuco em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra. Data: 24 de novembro de 2008, às 18:00. Local: Museu do Estado de Pernambuco - Av. Ruy Barbosa, 960 – Graças / Recife-PE. Mais informações com Suzana Maranhão. suzana.maranhao@secmulher.pe.gov.br - Secretaria Especial da Mulher de PE.

As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil 120 anos após a abolição

(Texto de divulgação) "Livro lançado pelo IPEA apresenta um conjunto de estudos enfocando diversos aspectos da questão racial no Brasil. A organização é do economista Mário Theodoro.Inicia com um enfoque histórico (capítulo 1), que analisa a formação do mercado de trabalho brasileiro à luz do passado escravista e da transição para o trabalho livre. Na seqüência, há um capítulo (2) sobre a discriminação racial e a ideologia do branqueamento que ganham força, sobretudo a partir da abolição. O terceiro capítulo trata do tema racial tendo em vista as diferentes abordagens sobre a questão da mobilidade social, proporcionando um rico quadro da trajetória dos estudos relacionados ao tema. Os capítulos 4 e 5 tratam dos dados mais recentes sobre as desigualdades raciais, extraídos da Pnad: um sobre os aspectos demográficos outro sobre os diferencias de renda. Já o capítulo 6 trata das políticas públicas de combate à desigualdade racial no Brasil, seus limites e abrangência. Finalmente, no capítulo 7 são apresentadas algumas conclusões com base no que foi discutido nos capítulos anteriores". Você pode acessar a obra completa no sítio do IPEA - www.ipea.gov.br

20/11/2008

Construção

(Texto inédito, publicado por mim na coletânea NEGRAFIAS, a ser lançada hoje à noite, no sarau Elo da Corrente - SP, onde estarei). Primeiro era chão batido e ele não sabia como era feito. Sua lembrança da casa em obras começava do vermelhão, uma massa de vermelho intenso, à base de anilina, aplicada ao chão da cozinha. Crosta fina de cimento, areia, água e cor. O pai executava o serviço, a manutenção que cabia às crianças era feita com cera vermelha. Mãos e joelhos só não ficavam igualmente coloridos, porque eram pretos. Adquiriam uma cor cinzenta, como couro velho, curtido e sujo. Mas as unhas envermelhavam, as cutículas roseavam, e que trabalhão para limpar. Logo sábado, dia de baile. As irmãs odiavam a massa colorida e ao pai, por extensão. Nesse mesmo estágio da obra, que se estenderia por toda a vida, aplicava-se o amarelão em dois outros cômodos, a sala e o quarto. De novo, cimento, areia, água e cor, dessa vez amarela. Dois apenas, ainda bem. Única vantagem da casa pequena. O mesmo ritual da pasta vermelha repetia-se com a pasta amarela na construção do piso. A manutenção novamente cabia às crianças, feita com a cera amarela, pior para limpar dos dedos, pois impregnava a pele e os cantos das unhas. Não raro, as irmãs, sem tempo hábil para cuidar delas, deparavam com um cantinho de cera à noite, em horas impróprias. Houve um dia que elas estavam de risinhos na privada e ele colou o ouvido na porta para também participar do segredo. A alegria terminou quando o acontecido chegou à parte da cera, nessa hora a irmã-narradora embraveceu. Parece que o namorado foi fazer alguma coisa, que ele não entendeu muito bem, com o dedo dela e, enquanto fazia, reclamou de um gosto esquisito. Era a cera amarela. Danada, escapou da faxina feita nas mãos. A irmã virou uma arara. Quando a situação familiar melhorou, trocaram o vermelhão da cozinha por uma cerâmica vermelha, espécie de taco mais largo, talvez menos comprido, só que não era de madeira, era a diferença. Ele nunca entendeu porque o chão da cozinha da própria casa e das outras casas da vila era vermelho. Parecia regra a cumprir, ou moda a seguir, dava no mesmo. No último estágio trocaram a cerâmica por azulejos de estampas horrorosas, as mais baratinhas, mas não havia dúvida de que aquele era o melhor material para limpar. Água, sabão e esfregação resolviam. Na sala e no quarto o pai assentou tacos de madeira, substituindo o amarelão. A atividade lhe dava especial prazer. Contava orgulhoso que aos nove anos, quando primeiro assinaram sua carteira de trabalho, fora como assentador de tacos, na firma do Seu Pacífico. Por aí o filho constatava a modernidade de certos conceitos, trabalho infantil, por exemplo, na época do pai não existia. No começo ele se lembrava quanto o pai ganhava por semana, mas com o passar dos anos e a mudança freqüente do nome da moeda, passou a se confundir, depois esqueceu. E agora o pai nem está mais vivo para ele perguntar. Assentados os tacos iniciava-se outra tarefa inglória para as crianças: passar palha de aço no chão para amansá-los. Passar é eufemismo, a situação exigia esfrega com todas as forças dos músculos e atenção dos olhos para raspar uniformemente. O pai ensinou como devia ser realizado o trabalho, dos cantos para o meio, assim o malfeito pela preguiça não teria vez. Não entenderam? A lógica era de que no começo, mais descansadas, as crianças deveriam se dedicar à parte mais escondida, as laterais, ocupadas pelos móveis. A mais visível, o centro dos cômodos, ficaria para o final, porque, mesmo picadas pela mosca da preguiça, a visibilidade do espaço as obrigaria a fazer o serviço bem-feito. Mas surge algo inusitado que o leva, e também às irmãs, a sentirem saudade do amarelão. É que o amansamento dos tacos com a palha de aço produzia uma poeira infernal, um poeirão, como a batizaram. Aquilo os fazia tossir, produzia coriza e engrossava as mãos. Dinheiro pra creme hidratante não se via naquela casa e mesmo pra passar óleo de cozinha ou banha de porco na pele ressecada era escondido da mãe. Podia desinterar no final do mês. Mas o pior ainda estava por vir, eram os efeitos do poeirão no cabelo das irmãs, alisado por chapinha. Chapinha é coisa de hoje, a memória é reavivada pela imagem macabra do ferro quente. A mãe passava no cabelo delas uma coisa chamada “unto”, mistura de tutano de boi com banha de porco, malcheiroso que só. Separava as mechas e untava com aquilo. Esquentava o pente de ferro no bocal do fogão, pegava pelo cabo de madeira e depois alisava as mechas untadas. Aquilo fazia chiiiiiiii, como pastel frito na gordura quente. Às vezes ao chiiiiiii se sobrepunha um grito, queimadura acidental, mau humor subseqüente, pois, dependendo da gravidade da marca deixada pelo ferro de alisar, havia cancelamento automático do baile daquele sábado. Cabelo alisado por ferro quente não pode ser lavado, você sabe, e a mistura do unto e do poeirão na cabeça das meninas, além do petetê que fazia, era bomba de ressentimento e humilhação carregada no corpo. Do chão para as paredes, mais uma etapa da construção. O reboco cascudo feito pelo pai denotava falta de tempo para passar a desempenadeira. As paredes nunca eram lisinhas como nas casas mais aquinhoadas. Mas no ato de pintá-las, as crianças eram premiadas, podiam escolher a cor do quarto no vastíssimo leque de três opções: verde-pálido, azul-esquisito e rosa. Tudo bem clarinho, porque uma caixinha de pó era diluída em um tanque de água e passava-se uma única mão de tinta na parede. Contudo, era divertido, podiam apenas admirar um adulto trabalhando, sem qualquer obrigação infantil. Das paredes para a laje, um salto nas alturas e na qualidade da participação das crianças. Dia de bater laje era dia de festa. Começava no dia anterior, quando a mãe ia ao supermercado comprar as carnes para a feijoada e deixava tudo imerso em tempero, pra pegar gosto. Catávamos quilos e quilos de feijão e arroz, descascávamos alho, picávamos cebola, cebolinha e salsa dentro das bacias feitas de lata de goiabada. Mentira, as irmãs é que faziam esse trabalho, tarefa de mulher pequena. Nós, os meninos, só rondávamos o trabalho delas. A gente nem conhecia a palavra reciclagem, mas era isso o que o pai fazia. Ele desmanchava a costura das latinhas de goiabada – não era cascão, era marca inferior, rala e cheia de açúcar, cascão só no Natal –, abria elas em cima de uma pedra de mármore, batia, batia, com martelo e machucador de alho, transformava numa placa lisa, depois emendava com solda e estava pronta mais uma bacia para usar na cozinha. Secava ao sol e depois ficava uns dias de molho na água com vinagre, pra tirar o gosto da solda. No dia anterior ao enchimento da laje, o pai providenciava a cerveja e uns refrigerantes no supermercado, tudo marca de fundo de quintal, pra fazer economia. No raciocínio dele a criançada queria mesmo era o bigode de espuma do refrigerante e o tchiiii do gás. Estava certo no diagnóstico, mas errado na receita, porque os refrigerantes baratinhos praticamente não tinham gás, nem faziam espuma. Por fim, ele buscava a cachaça encomendada no seu Zé Ataulfo, representante extra-oficial de um “grande alambique”, que ninguém nunca soube o nome. A localização da fábrica todo mundo sabia, a cachaça vinha do alambique da chácara do genro dele, há poucos quilômetros dali. Mas não tinha reclamação porque o produto era barato e ainda não tinha mandado ninguém para o hospital. O pai levava aquelas compras no carrinho do supermercado, todo orgulhoso e eu, menino, fascinado pelo pai provedor, acompanhava as compras e o transporte. Depois de despejá-las em casa para a mãe ajeitar na geladeira e do pai dizer bem alto o preço de cada coisa, eu devolvia o carrinho vazio. O dia de bater a laje, propriamente, começava de madrugada. A homarada ia chegando, alguns acompanhados das esposas, talvez uma ou outra noiva, namorada, doida para mostrar serviço e ser acolhida no clã. A filharada também vinha e os pequenos podiam brincar. Aos adolescentes, garotos e garotas, eram destinadas algumas tarefas, atribuídas a cada sexo. Basicamente, mulheres de todas as idades na cozinha e homens e homenzinhos nas várias tarefas de preparação da laje: carregar areia, brita, cimento e água para a massa; prepará-la; encher as vasilhas, carrinhos de mão, latas de vinte litros ou latinhas de cinco, de acordo com o vigor físico ou a necessidade de exibicionismo do cabra. Eram transportados em andaimes de madeira inseguros, mas ninguém caía. Pelos andaimes passavam também as vigas de ferro, cimento, os tijolos, tudo aos gritos, que o grito era demonstração exigida de força e macheza. E dá-lhe piadinha com a virilidade alheia, questionada nas mínimas atitudes do sujeito: na careta para erguer peso, nos queixumes sobre a dureza do trabalho, nas paradas para descansar fora dos momentos coletivos de descanso, até no deslocamento da área de serviço dos homens até a cozinha, terreno sagrado do mulherio, ou nas reiteradas escapadelas ao sanitário. Em qualquer dessas situações, o ser do sexo masculino era logo colocado no rol dos de “sexo duvidoso”. Homem que era macho tinha de rir das piadas machistas, contar vantagens de conquistador, com um certo cuidado para localizar as puladelas de cerca atuais no passado, na vida de solteiro, de garanhão bem sucedido, afinal, da cozinha, as patroas a tudo prestavam atenção. E se descuido houvesse nas narrativas de Indiana Jones do amor, podiam receber uma descompostura na frente dos amigos – humilhação terrível – e, no caso das patroas mais drásticas, podia haver greve de sexo em casa, castigo desesperador. Bater laje era mesmo um ritual de iniciação masculina, ali as mulheres eram coadjuvantes, mas se vingavam no território da cozinha, onde também falavam de sexo. Diferentemente dos homens que contam vantagem sobre as mulheres da rua e santificam a patroa, a mulherada conta vantagens sobre seus homens. Falam sobre metragens, práticas e técnicas presentes na relação com o marido, sempre com o cuidado de colocar as virgens ou pretensamente virgens pra correr, porque aquilo era assunto de mulher casada. A mulheradinha se fingia de besta, mas observava certos silêncios. Sabe lá se quando solteiro, o marido daquela prima não teria dado umas voltinhas com a irmã daquele cunhado e agora todo mundo junto naquela cozinha, não estaria falando de assuntos bem familiares. Oxalá fosse mesmo na vida de solteiro, mas que tinha coisa que cheirava a angu fresquinho (com caroço), isso tinha. Tudo muito divertido e de grande aprendizado. Bater laje era uma escola, na qual se aprendia de tudo. A laje bem batida, depois do alicerce bem feito, era condição essencial para os andares futuros que subiriam aos céus. Crescimento vertical da propriedade privada, multiplicação de tijolos e tetos do patrimônio familiar. O pai dizia que até joão-de-barro faz casa de dois andares, é passarinho humilde e com ele a gente deve aprender.

19/11/2008

Sobre os bilhetes de ódio enviados ao blogue

Um filme da programação do II Encontro de Cinema Negro Brasil, África, América Latina, “Roble de Olor”, do cubano Rigoberto Lopez, encantou-me sobremaneira. É uma história de amor entre uma mulher negra haitiana e um comerciante alemão que escandaliza a ilha escravista de Cuba da primeira metade do século XIX, e constrói uma fazenda de café, na qual se implementa um projeto de liberdade e valorização humana. Uma das coisas que o casal faz é contratar o maestro da cidade, um homem negro, para formar uma orquestra de escravos. Ele faz duas exigências: oito jovens talentosos, escolhidos por ele, o maestro, e liberação destes em tempo integral, para estudar música. O casal concorda. Transcorre o filme. Quando Úrsula D’Alambert, a heroína hatiana, é levada ao tribunal, acusada de bruxaria e satanismo, o inquisidor, digo, o promotor, usa o exemplo da orquestra de escravos como possessão satânica, pois, era impossível que negros fossem músicos e tocassem violinos, cravos, violas e cellos. A defesa vê ali a possibilidade de robustecer sua intervenção em favor de Úrsula e consegue autorização do juiz para que a orquestra se apresente no tribunal. O maestro negro vai até a fazenda para buscá-la e, no meio do caminho de volta é emboscado por um grupo, liderado por outro negro, que sob ameaça de armas os faz tocar. O capitão do mato enlouquece com o que houve e mata os músicos, um a um, gritando “eles são músicos, eles são músicos” e seu peito deve ribombar, “eu vendi minha alma, eu vendi minha alma”. Depois que ele mata a todos e joga instrumentos no rio, é acometido por outro surto, porque a música da orquestra de negros, a beleza da música tocada pelos negros estoura-lhe os tímpanos. E ele se mata, observado pelos capangas. ("Revoada para Barack", imagem de Iléa Ferraz)

18/11/2008

Documentário do 16° Festival MixBrasil narra história da travesti mineira Tomba-Homem

(Do Mix UOL, por: Sebah Rinaldi). "A figura de Tomba-Homem é essencial para entender um pouco da boemia e da identidade LGBT de Minas. Trata-se de uma travesti carioca que, no ano de 1975, mudou-se para BH, onde ficou amiga de personalidades como Hilda Furacão e Cintura-Fina (ambas retratadas no livro e seriado "Hilda Furacão"). Tanto no Rio quanto na capital mineira, Tomba (como era conhecida) ganhou a vida se prostituindo e teve muitos problemas com a Polícia. Inclusive, o apelido foi dado por causa de sua valentia, já que não abaixava a cabeça para ninguém. Diferente de figuras também importantes, como Madame Satã, que têm filmes de ficção como registro, Tomba-Homem acaba de ganhar um documentário homônimo, feito em formato de média-metragem pelas mãos do produtor mineiro Gibi Cardoso. O trabalho faz parte do 16° Festival MixBrasil de Cinema da Diversidade Sexual que, em 2008, passa por São Paulo (12 a 23 de novembro) e Belo Horizonte (8 a 14 de dezembro). Tomba-Homem era uma personalidade fervidíssima do meio gay mineiro e, como todo marginal que se preze, está às margens de todos os valores convencionais. Negra, travesti, soropositivo e siliconada. O filme sobre sua vida não contou com nenhum subsídio, foi feito à melhor maneira do "do it yoursellf". "Empresa alguma topou atrelar sua imagem a de uma travesti que aprontou muita confusão em Belo Horizonte, nos tempos de boemia da Lagoinha e do Bonfim", disse o diretor Gibi. O diretor, que trabalha como produtor do cineasta e fotógrafo Cao Guimarães desde 1999, custou a concluir o trabalho. Segundo ele, o grande problema foi encontrar a personagem, pois ninguém sabia muito ao certo seu paradeiro. "Em 2004, um garçom me disse que a Tomba está viva e morava aqui, no bairro Bonfim. Três dias depois, eu a encontrei. Ela estava na Rua Jaguarão, na casa de uma senhora que foi cafetina dela durante 27 anos", conta Gibi. No entanto, em 2006, Cardoso a perdeu de vista, pois essa mesma casa fora demolida. Ao retornar ao bairro, outras travestis especularam o paradeiro de Tomba: ela estaria em João Monlevade, Uberlândia ou Araxá. "Com aquilo, percebi que havia perdido Tomba-Homem. Quase desisti do filme", explica Gibi. Pouco tempo depois, durante a produção de outro filme de Cao Guimarães, com externas em Araxá, Gibi aproveitou a deixa pra procurá-la. "Fui a um bordel com essa intenção. Tomei uma cerveja, procurei, procurei, mas ninguém conhecia. Na saída, uma travesti até muito engraçadinha me disse seu paradeiro", revela. Ela está na Casa do Bom Samaritano, abrigo para soropositivos, onde luta contra o vírus HIV e não deixa a peteca cair. E é justamente esse reencontro que sela a filmagem do documentário. O diretor percebeu que seria naquele instante ou nunca mais. Tomba está com 73 anos e ainda possui lucidez em tudo que faz. O documentário a expõe em momentos íntimos na casa de repouso onde se encontra. Durante as narrativas, fala sobre a época em que aprontou todas em BH, confusão com a Polícia, os tempos em que fazia vida e respondia pelo nome de guerra Carmélia Rogers, sexo, seu amor por malandros, habilidade com facas, sua fama de valente, enfim, muito assunto compactado em 42 minutos. "Tive problemas com a minha chegada. Já fui logo conhecendo a Polícia e a Polícia me conhecendo. Esse tipo de coisa me perseguia", diz no filme. Mesmo idosa, ela ainda sonha com a cirurgia de readequação sexual. As filmagens revelam uma Tomba vaidosa, ora com unhas feitas, ora arrumando um vestido de lurex. Detalhe: não confundi-la com Maria Tomba-Homem, mulher capixaba de valentia equivalente, que viveu no Rio de Janeiro e em época diferente. Ambas chegaram a se conhecer e isso é apontado no trabalho de Gibi Cardoso. "Eu sou a Tomba-Homem, não tem nada de Mulher", salienta a personagem no documentário. Desde que saiu do papel, "Tomba-Homem" está ganhando espaço em festivais de cinema underground, como o Cine OP (Ouro Preto), Indie (BH), Fórum Doc (BH), 13ª Mostra Etnográfica (Rio de Janeiro) e, é claro, o 16° Festival MixBrasil de Cinema da Diversidade Sexual (Sampa, Rio e BH). Em bate-papo com o Mix, Cardoso se diz a favor de toda forma de compartilhamento do seu trabalho. "Exijo apenas uma coisa: que pirateiem o meu filme. Deixe o amigo copiar, passe pra frente, arrume uma forma de prostituir o filme", diverte-se". http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/3_53_69660.shtml

"Dê sua idéia, debata" - filme de Viviane Ferreira estréia em São Paulo, dia 24/11

II Encontro de Cinema Negro Brasil, África e América Latina

17/11/2008

Negrafias - uma homenagem a Solano Trindade

(Texto de divulgação). "O livro Negrafias é uma antologia que contempla diversos gêneros literários como: conto, poesia, teatro e texto em quadrinhos. A publicação surge como fechamento da série de eventos Os Novos Griots - organizado por Marciano Ventura e Márcio Folha, em parceria com Oriashé - um sarau cultural no qual foram realizados lançamentos de literatura negra na Cidade Tiradentes. O livro também presta uma uma homenagem ao centenário do nascimento do poeta negro Solano Trindade". Org. Marciano Ventura - Prefácio: Oubi Inaê Kibuko. Autores - Akins Kinte, Allan da Rosa, Carlos albert, Cidinha da Silva, Clodoaldo Paiva, Elis Regina F. do Vale, Elizandra de Souza, Giovani di Ganzá, Jonnhy Pqno, Miguel, Marciano Ventura, Márcio Folha, Michel Silva, Raquel Almeida. (Fotos do início do ciclo contínuo do Negrafias, no Núcleo de Cultura e Extensão em Artes Afro-Brasileiras/USP - Grupo de Capoeira Angola Guerreiros de Senzala, dia 07/11). Outros lançamentos previstos em São Paulo: 20/11 Local: Sarau Elo da Corrente - a partir das 19:30h Lançamento com projeção do documentário História duma vida simples – sobre Solano Trindade, Sarau do Dia da Consciência Negra, música e mil literaturas. R: Jurubim, 788 - Pirituba. 23/11 Local: Barracão do Samba - a partir das 16:00h Lançamento do livro com sarau, música e muito samba. Cristóvão Camargo (altura do n.66) - travessa da Av. Tiquatira. (11) 9763-2596 c/ Rick.

16/11/2008

Noites Machadianas - Noites Negras

Ainda insistem nessa bobagem de "mulato", mas vamos lá... (Texto de divulgação). "O tema aborda Machado Mulato, neto de escravo e abolicionista. Por meio de leituras e dramatizações, mostra como a africanidade aparece na sua obra, e como hoje, Machado é lido pelos novos autores. Participação de Ferréz, do poeta Sérgio Vaz, e do escritor mineiro Evandro Affonso Ferreira. Intercalando a conversa, acontecerão algumas enquetes dirigidas por Mário Pazzini, do grupo Clariô de Taboão da Serra, com a participação das atrizes Naruma Costa e Olívia Araújo, que revelarão, pela primeira vez, uma Capitu negra". Dia 17 de novembro, às 20hs30, no SESC Consolação - Rua Dr. Vila Nova, 245, Centro - SP. Fone: 11 32343061.

15/11/2008

E se Obama fosse africano?

Não concordo com todo o conteúdo do artigo, mas acho-o fundamental para o debate sobre o simbolismo da vitória de Obama para os países africanos e da Diáspora Africana. Parece-me, inclusive, que este tem sido o aspecto menos discutido nas análises que tenho lido, o significado, o impacto da escolha de um Presidente negro nos EUA, para os povos negros negros do mundo. Um negro, casado com uma mulher negra, com duas filhas negras, uma família negra na Casa Branca. A Organização das Nações Unidas, para o trato das questões de identidade, adotou a definição de que uma pessoa é detentora do pertencimento racial e étnico definido por ela mesma. Assim, não interessam os padrões arbitrários forjados pelas estratégias de manutenção do poder colonizador, seja anglo-saxão, luso-africano ou luso-brasileiro. Obama é negro, porque assim ele se define, se percebe, se reconhece e se inscreve no mundo. Este aspecto, principalmente, merecia ser discutido por Mia Couto ou Patrice Nganang, no item 4 do texto. Apenas dizer que : "Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato", não nos acrescenta nada. Vale discutir a estragégia de construção do mulato como elemento de conflito e realizador do "serviço sujo" junto aos negros, em favor dos brancos, além de tantos outros atributos nefastos definidos pelos colonizadores, ontem e hoje. (Por Mia Couto. Fonte - http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2008/11/e-se-obama- fosse-africano.html / copiado do sítio Lima Coelho www.limacoelho.jor.br ) "Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África. Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos. Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo. Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto. E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana? 1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular. 2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia. 3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor. 4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?). 5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos. 6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores. Inconclusivas conclusões. Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte. Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos. A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa. Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público. No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo. Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia".

14/11/2008

Bah... será tri-bom!

(Por: Vera Dayse Barcelos). "Cidinha da Silva está em Porto Alegre. Hoje à noite, participa da Feira do Livro e amanhã, na sede de MM, conversa sobre literatura e mulheres negras A cronista mineira Cidinha da Silva gosta de Porto Alegre. Já declarou seu amor à cidade e sempre volta. Na última vez que por aqui passou a chuva caiu com gosto e por pouco não inundou seus livros. Mesmo assim, seu seleto e cativo público leitor se fez presente. Hoje, sexta-feira, 14, às 19 horas, quem quiser revê-la e ouvi-la é só chegar na Feira do Livro, ali na Praça da Alfândega. Cidinha estará conversando sobre o tema “Literatura afro-brasileira”, no programa "Ducha das Letras", a convite do Cecune - Centro Ecumênico de Cultura Negra. Amanhã, sábado, 15, às 17 horas, um outro bate-papo, desta vez na sede central de MARIA MULHER – Organização de Mulheres Negras, Travessa Leonardo Truda, 40, sobreloja. Será uma roda de conversa para mulheres sobre o tema: Identidade das mulheres negras na literatura. Vale conferir estas duas agendas. E como diz Cidinha, com sua mineirice, “vai ser tri-legal”. Mais sobre ela é só acessar http://www.cidinhadasilva.blogspot.com

110 anos sem Cruz e Souza

(Por: Florentina Souza*, fonte – Irohin www.irohin.org.br).“Há 110 anos, em 15 de março de 1898, morria o poeta Cruz e Sousa, no estado de Minas Gerais para onde foi em busca de melhoria da saúde. Jornalista engajado nas questões políticas e literárias de seu tempo, ativista do movimento abolicionista no Brasil, nasceu a 1 de novembro de 1961 e morreu aos 37 anos. Na sua biografia consta o exercício de uma série de atividades como: redator de jornal, diretor do Jornal O Moleque, colaboração na Revista Ilustrada e nos Jornais Novidades, Folha Popular, O tempo e Cidade do Rio, arquivista da Central do Brasil, entre outras atividades, nenhuma das quais lhe garantiu recursos suficientes para uma vida equilibrada financeiramente. Esteve na Bahia em 1885 quando proferiu palestra intitulada “O Abolicionismo” – trecho da qual está publicada no volume de sua Obra Completa de 1995. De sua autoria, em vida, o poeta publicou apenas o livro em prosa Missal, (em fevereiro de 1893) e o livro de poemas Broquéis (agosto do mesmo ano), no prelo deixou Evocações, além de vários textos dispersos. Considerado pela historiografia literária institucional como o grande nome do Simbolismo no Brasil, o poeta Cruz e Sousa até hoje provoca dissensões entre os críticos literários. Alguns acusam sua poesia de hermética, de possuir linguagem preciosa e distanciada da realidade por ele vivida; outros descrevem-na como detentora de uma sensualidade libertina; outros ainda vêem no poeta um virtuose no uso dos recursos expressivos caros à chamada literatura erudita. A grande crítica literária brasileira da época, investida de uma certa aura que sempre a caracterizou, principalmente no decorrer das últimas 3 décadas do século XIX, não deu grande importância ao poeta de Florianópolis, autor de estilo “esdrúxulo” e carregado de adjetivos. Sílvio Romero e José Veríssimo e Araripe Jr, a chamada santíssima trindade da crítica do período, falam sobre a obra do poeta, na maioria das vezes de modo ambivalente, quando não apontando falhas e obscuridade de linguagem, destacando também a excepcionalidade artística do poeta negro. Segundo Tasso de Oliveira(1), após os estudos de Nestor Vitor no início do século XX, somente a partir da crítica do francês Roger Bastide, publicada em 1943, observa-se um maior interesse dos críticos brasileiros pela poesia do autor. Em 1961 é lançada uma edição de suas obras completas e em 1995, já esgotada há muito a primeira edição, a obra é reeditada com acréscimo de textos dispersos recolhidos por estudiosos e pesquisadores(2). Nesta edição, encontramos 4 livros de poesia, 6 de prosa e algumas correspondências. Raimundo Magalhães Jr foi editor de uma importante biografia do poeta cuja obra tem sido traduzida para várias línguas. Nestes 110 anos alguns estudiosos têm se voltado para os seus textos no intuito de entender e/ou analisá-los(3). No banco de teses da Capes, a partir 1995, encontramos cerca de 23 teses cadastradas que têm como tema central vida e/ou obra de Cruz e Sousa, além de outros registros nos quais ele/a obra aparece como parte da temática central. Assim, constatamos que os estudos sobre o poeta parecem ter ganho mais espaço na contemporaneidade. Por outro lado, escritores e poetas afro brasileiros contemporâneos têm ressaltado a importância de Cruz como precursor ou talvez motivador de suas produções literárias e deste modo, escrevem textos de homenagem em que destacam aspectos significativos da obra do poeta do século XIX a exemplo do poeta Luis Silva Cuti no poema intitulado “Tradição(4)” sob a vasta bigodeira de machado/ os lábios da raça escondidos acho/ a lâmina do riso e o discreto escracho/ em cruz fico muito á vontade/ para reunir setas de revolta/ angústia e cravos/ ensaio o arrombamento de portas/ com o pé –de – cabra/ que me empresta/ com o deboche de sua risada/ o gama/ com o lima afio as facas/ entro na trama/ solano eu abraço/ no boi-bumbado socialistado/ num salto a- rap-iado/ chego junto com os mano/ nossa vida/ muito tato e tutano. O poeta teve a vida marcada pela miséria e tragédia. Pobreza, discriminação os efeitos do racismo parecem tê-lo acompanhado decididamente: Loucura da esposa, salário ínfimo, morte do pai, tuberculose, tudo isto seguido do desprezo, ironia e depreciação de seu trabalho por grupos racistas da elite intelectual da época devem ter contribuído para a morte prematura do poeta. A dor, a tristeza, a angústia, a morte e o desespero percorrem os seus textos nos quais se pode observar por um lado uma revolução no modo de construir os versos e por outro, vê-se também um coração e uma mente que lutam incessantemente para dominar estética e tecnicamente as palavras, a forma poética e, com a mesma intensidade, lutam para expressar as ambivalências e os dramas pessoais vivenciados por um homem negro e pobre que se encontrava “fora de lugar” na sociedade brasileira do século XIX. Um grupo de críticos contemporâneos ainda insiste em minimizar as conseqüências do racismo de que foi vítima nosso poeta, “ esquecem” do trabalho do escritor martiniquenho Franz Fanon que, nos idos da década de 50 do século XX, aborda situações pessoais e de outras indivíduos que vivenciaram situações semelhantes “aquelas vividas por Sousa nos finais do século XIX. Em seu Pele negra máscaras brancas, como psiquiatra, analisa as nefastas conseqüências que a pessoa negra sofre em sua psiquê em decorrência dos embates cotidianos contra os mitos da inferioridade das pessoas negras. É interessante pontuar como o negrura de Cruz e Sousa foi “notada” e registrada pelos críticos que, teoricamente, deveriam analisar apenas os seus poemas, de modo independente do seu pertencimento racial. No livro organizado por Afrânio Coutinho, composto de fortuna crítica de Cruz e Sousa, publicado em 1979, dos 31 textos críticos selecionados, 8 deles, em seus títulos fazem referência à afrodescendência do poeta; isto sem computar aqueles, grande maioria, que o fazem no corpo do texto. Deste modo, falar de Cruz e Sousa como um grande poeta negro reitera, em parte, o modo como ele é lido pela crítica literária no Brasil. Em sua larga produção poética, a maior parte de organização póstuma, Cruz e Sousa abarca um vasto leque de temáticas. Uma das obsessões do poeta é pela linguagem e pela forma - o desejo de atingir uma relação íntima entre palavra, sentimento e estética. De acordo com os programas estéticos dos simbolistas, o poeta insiste na musicalidade e no abandono do pretendido distanciamento e objetividade para, em texto intitulado “Estilo” , enfatizar o seu desejo de “domar” o seu material de trabalho, a linguagem, mas não como os parnasianos, e sim de um modo que a forma e a palavra não amesquinhassem a potência da criatividade subjetiva: O vocábulo pode ser música ou pode ser trovão, conforme o caso. A palavra tem a sua anatomia; e é preciso uma rara percepção estética, uma nitidez visual, olfativa, palatal e acústica apuradíssima, a exatidão da cor, da forma e para a sensação do som e do sabor da palavra” (O.C. p.685) (...) para além da retórica e da metafísica, afastando-se dos princípios de todos os dias rubricados pelo fastio das chapa, amarrados pelos barbantes de uma gramática oficial e convencionada que obriga a idéia a fazer cabriolas ....” (O.C .p. 686) A vertente musical de sua produção poética foi exaustivamente apontada pelos críticos mas uma leitura atenciosa de sua obra apontará que além da exploração da potência sonora das palavras, sua poesia se volta também para temas da sua contemporaneidade, entre eles a escravidão, como ilustram poemas que por muito tempo foram “esquecidos” pelos críticos tais como: “Escravocratas”, “Da Senzala”, “Dilema”, “25 de março”, “Titãs Negros”, “Sete de setembro”, “Crianças Negras” e “Grito de guerra” ( todos presentes na edição da obra completa de 1995). O poema “Grito de guerra” é dedicado “ Aos senhores que libertam escravos” e no poema “Sete de Setembro”, louvando políticos e poetas do século XIX que se empenharam em intervir na vida brasileira brada contra o regime escravagista: È preciso com esforço,/ Colossal, estranho, ingente,/ Ir o cancro, de repente/ Esmagar que nos corrói!.../ É preciso que essa Deusa,/ Raie enfim na Imensidade/ Mais altiva como sói!...(O.C. p.334) A poesia, a atividade literária, consistia na vida para o poeta, sem a arte , o poeta sentia-se impossibilitado de viver, como podemos constatar no poema intitulado “Esquecimento”, publicado em Faróis, coletânea de publicação póstuma organizada por Nestor Vitor : Ó meu verso, ó meu verso, ó meu orgulho,/ Meu tormento e meu vinho,/ Minha sagrada embriaguez e arrulho/ De aves formando ninho/ Verso que me acompanhas no Perigo/ Como lança preclara,/ Que este peito defendo do inimigo/ Por estrada tão rara!/ Ó meu verso, ó meu verso soluçante,/ Meu segredo e meu guia,/ Tem dó de mim lá no supremo instante/ Da suprema agonia./ Não te esqueças de mim, meu verso insano,/ Meu verso solitário/ Minha terra, meu céu, meu vasto oceano,/ Meu templo, meu sacrário./ Embora o esquecimento vão dissolva/ Tudo, sempre, no mundo,/ Verso! Que ao menos o meu ser se envolva/ No teu amor profundo!/ (O. C. p. 121) Como vemos, nos versos cabem céu, terra, oceano, templo e sacrário, ou seja tudo, todos os sentimentos, e mais, os versos são capazes de superar a precariedade humana; a poesia é eterna e poderá eternizar o poeta, levá-lo ao “Caminho da glória”(5),um poeta que assim sonhava, termina vendo-se com humilde entre s humildes seres. O contexto do final do século XIX não poderia ser menos hostil a Cruz e Sousa e seu desejo de inscrever-s no seleto grupo de intelectuais brasileiros, ou melhor, intelectuais da corte ( Rio de Janeiro) É sabido que o final do século XIX faz da atividade intelectual uma moeda de ascensão para pobres e empobrecidos mas não para os negros como atestam cartas e textos de Cruz e Sousa e Lima Barreto, por exemplo. Observam-se nos dois escritores o insistente desejo de participar da intelectualidade brasileira, e a certeza de que sua capacidade e talento não eram reconhecidos. Nos Últimos sonetos, também de publicação póstuma, podemos ler uma ansiedade do poeta diante do descaso para com sua obra artística. Vários poemas tematizam o desejo de reconhecimento artístico, de perfeição, de grandeza; podemos perceber que o poeta parecia ter consciência da proximidade da morte e desesperava-se diante do fato de não palmilhar o “Caminho da glória”. O livro parece fundir fatos autobiográficos no desenvolvimento de uma teoria-poética sobre o artista: Diante do impasse de reconhecer-se inteligente e criativo e não ter sua obra legitimada pelos grupos de escritores da época, o poeta desabafa nos sonetos a angústia, e principalmente o forte deseje de fazer parte da plêiade de poetas e escritores do então centro político e cultural do Brasil, o Rio de Janeiro. Para ele o “Grande momento”(6) é aquele da consagração do artista, quando reconhecido é recebido pelos já iniciados, assim sonha: Inicia-te, enfim, Alma imprevista,/ Entra no seio dos Iniciados,/ Esperam-te de luz maravilhados/ os dons que vão te consagrar Artista” Sousa não teve a oportunidade de presenciar nem a consagração de sua maestria poética nem a publicação em livro destes versos... Em outro momento, expressa mais umas vez a mesma sensação no poema “Vida obscura”: “ ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,/ ó ser humilde entre os humildes seres./ Embriagado, tonto dos prazeres, o Mundo para ti foi negro e duro”(...) Ninguém te viu o sentimento inquieta, /Magoado, oculto e aterrador,secreto,/ que o coração te apunhalou no mundo” ( O. C. p.183) Em alguns textos, talvez ainda esperançoso de que assumindo alguns ideais “burgueses” pudesse ser aceito no grupo, Sousa não é tão enfático na revolta diante da galhofa e indiferença das críticas quanto no antológico texto “Emparedado” do livro Evocações, publicado em 1897 e que ele deixou no prelo. Poema em prosa, expressão lírica e dolorosa de um eu que se vê impotente e acuado pelo racismo, pela discriminação agenciados por um universo que se define branco e que reage violentamente contra aqueles que não refletem seu rosto e tradições. É também um texto de reflexão estético-crítica no qual o sujeito poético vai discutindo concepções de atividade artística e intelectual, dialogando com as referências teóricas aceites, com destaque para a oposição construída pela tradição ocidental entre emoção e razão, entre Europa e África. Uma oposição discriminatória que leva o poeta a inquirir: “Deus meu! Por uma questão banal da química biológica do pigmento ficam alguns mais rebeldes e curiosos fósseis preocupados, a ruminar primitivas erudições, perdidos e atropelados pelas longas galerias submarinas de uma sabedoria infinita, esmagadora, irrevogável!” Aqui, o poeta evita as sugestões ou meios termos e rebate explicitamente as bases deterministas e racistas do pensamento e das práticas intelectuais de sua época. A produção textual de Cruz e Sousa abarca várias outras temáticas que estão disponíveis para os estudiosos, críticos e leitores interessados em conhecer e apreciar a literatura brasileira para além dos limites do cânone historiográfico". (*Professora Adjunta de literatura brasileira da UFBA Pesquisadora de literatura e cultura afro-brasileiras CNPQ e CEAO).Referências básicas: COUTINHO, Afrânio. ( org.) Cruz e Sousa.Rio de Janeiro,: Civilização Brasileira, 1979( col Fortuna crítica, v.4). CRUZ E SOUSA. Obra completa. Org. Andrade Murici. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. LEMINSKI. Cruz e Sousa: o negro branco. São Paulo: Brasiliense,2003. (1)In: Coutinho, Afrânio. Cruz e Sousa, p.46. (2) Todas as referências a textos de autoria de Cruz e Sousa serão feitas a partir da Obra completa de 1995, grafada a partir de agora O.C. (3) Em 1979, Afrânio Coutinho fez o levantamento de textos sobre a obra de Cruz e Sousa e publicou o que para ele havia “de mais representativo” . (4) CUTI. Negroesia: Antologia poética. Belo Horizonte: Mazza, 2007. (5) Título de poema publicado em Últimos Sonetos. (6) Título de outro poema publicado no livro Últimos sonetos