Tardes negras na Paulista

Enquanto me deslocava da “Ocupação Sueli Carneiro” para a exposição “Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros”, cantarolava uma canção do meu repertório de sambas-reggae: “Um morava na Jamaica / Outro mora no Brasil / Um se chamava Bob Marley / Outro é Gilberto Gil / Bob Marley foi embora, se foi para o além / Mas ficou Gilberto Gil que está indo muito bem”. Duas mulheres negras brasileiras, gigantescas e absolutamente diferentes cintilavam numa das principais avenidas da América Latina. Uma, memória viva, outra presença física construindo um legado. A música de Celso Bahia repercutindo sentidos de pertencimento a uma mesma comunidade de destino. Carolina, de Minas, Sueli, paulista de ascendência mineira. Uma, escritora, outra, ativista de Direitos Humanos e intelectual pública. A “Ocupação Sueli Carneiro”, com curadoria de Bianca Santana e do pessoal do Itaú Cultural, pequena, circular, de dimensões modestas que muito agradaram à homenageada, que se sentiu como se recebesse os amigos na sala de sua casa. Mas os que pouco conhecem Sueli e seus gostos, respeitados e reverenciados no modelo expográfico escolhido, reclamaram, compararam aquela ao tamanho de outras homenagens. A despeito da expografia sofisticada em luzes, tecnologia e muito ferro de Ogum, o pessoal queria algo monumental, mais próximo da trajetória e importância de Sueli Carneiro para a construção de um lugar de existência para a gente negra brasileira nos últimos 50 anos. A exposição “Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os Brasileiros”, com curadoria de Raquel Barreto, Hélio Menezes e assistência de Luciara Ribeiro, apresentava-se exuberante, ocupava dois andares do Instituto Moreira Salles, com intervenções nos elevadores e na própria avenida Paulista. Contava também com dezenas de artistas negros convidados a criar sob o manto inspirador de Carolina e sua obra ou a emprestar peças consonantes com o projeto, como o “Poemanto”, de Ricardo Aleixo. Nas duas visitas uma mostra efetiva do Brasil construído por distintas mulheres negras, suas formas de ver o mundo e de se movimentar modificando as condições materiais concretas de existência que a vida lhes tocou viver. Carolina de Jesus, por meio de uma trajetória pessoal explorada, emblemática da operacionalidade do racismo e de solitária construção de projeto literário à revelia dele, o racismo. Anos depois ela se transformaria em inspiração para muitas mulheres negras escritoras. Sueli Carneiro, um farol na tempestade dos dias, sentinela da memória do conhecimento acumulado, da tecnologia de transformação da natureza e da produção de infinitos.

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