Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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28 de nov de 2011

Leia "A dúvida", mais uma crônica de "Oh, margem! Reinventa os rios!", livro novo de Cidinha da Silva

Cada detalhe da sala de recepção repleta de cartazes é observada por Paula. Mensagens de cuidado com o amor-próprio, alertas sobre a violência contra mulheres e crianças, locais de denúncia e busca de apoio. Há também cartazes de seminários, imagens de mulheres felizes e sorridentes em situações de interação com outras. Ela espera a vez de ser atendida e folheia as publicações dispersas pela mesinha. São pequenas e de rápida leitura: uma fala sobre prevenção do câncer de mama, outra do câncer de útero, outra sobre DSTS e AIDS. Esta mobiliza seu interesse. Ela lê com mais atenção. Vê que há vários exemplares. Antes mesmo de perguntar, a recepcionista responde que ela pode levar, se quiser. Ela agradece e coloca dois exemplares daquele sobre AIDS na bolsa. Continua folheando. Chegam duas outras mulheres. A funcionária explica que serão atendidas primeiro porque têm hora marcada. Paula veio sem aviso, será encaixada logo depois. Ela sente um certo alívio,pois ainda não sabe como abordar o problema. Até hoje, só conversou sobre suas atividades profissionais no próprio ambiente de trabalho, com amigas e clientes. Nem considera o trabalho como profissão;afinal, não escolheu,foi jogada nele. Distraída, Paula nem percebe que chegou sua vez. Ela entra na sala pintada de amarelo lindo. Fica encantada com as almofadas coloridas e a casinha com fogo onde borbulha uma água cheirosa,coisa que ela nunca vira antes. A psicóloga a recebe na porta, sorri afável, convida-a sentar-se. Ocupa outra cadeira, não há mesa separando as duas, como noutros consultórios. Começam a conversar. “Então, Paula, como vai? Em que podemos ajudá-la? Daqui a pouco eu vou pedir para você preencher um formulário de cadastro,tudo bem?” “Não,senhora. Quer dizer, eu sei ler um pouco, mas não sei escrever.” “Foi bom você ter avisado. Não tem problema,eu te ajudo. Mas o que te traz aqui?” “Bem,doutora...” “ Por favor, não me chame de doutora, meu nome é Jucinete, já lhe disse.Pode me chamar de Ju, se quiser”.” Bem, doutora Jucinete,quer dizer Jucinete, eu sou puta, sabe!?Foi uma colega que me disse que vocês atendiam mulheres aqui, então eu fiz o último programa, tomei banho e vim.” “Sim, fique à vontade, continue.Depois te explico como trabalhamos.””Eu sei mais ou menos. Minha colega disse que vocês fazem exames, dão orientação,camisinha. Eu vim mesmo para tirar uma dúvida.” “ Estou aqui para ajudá-la,Paula, pode falar.” “É o seguinte, eu sou puta, já falei para a senhora...””Sim, você já disse e sabe que conosco não existe problema por isso, certo?” “Sei sim, senhora.” “Então, fale!” “É que, na rua onde eu trabalho, nós somos seis mulheres. Cada uma faz dez programas por noite, é a exigência do cafetão. Às vezes faz onze, doze, quando o movimento tá bom, em dia de pagamento, pra tirar um extra também, sabe? Do mesmo jeito eu motorista de táxi alugado”, sorri. “ O problema é que as brancas fazem dez programas por noite e, às pretas, o cafetão obriga a fazer quinze. E, quando a gente reclama, eu e a outra colega preta, ele ameaça bater e diz que é assim porque preta agüenta mais.”. “Eu não agüento, não senhora. Nem a minha colega, mas ela tem vergonha de vir aqui perguntar. Eu vim saber para nós duas, se eu e ela estamos doentes, porque preguiçosa a gente não é. Mulher preta precisa agüentar mais, mesmo?”

17 de nov de 2011

Oh, margem! Reinventa os rios! Em São Paulo, dia 22/11

Lançamento de "Oh, margem! Reinventa os rios!" em São Paulo. Dia 22/11 às 19:00, na livraria Suburbano Convicto. Rua 13 de Maio, 70, 2o andar. Todas as publicações de Cidinha da Silva estarão disponíveis. Leia: "Bandido também tem santo", uma das crônicas do livro. Era terça-feira e eu ia para mais uma entrevista de emprego. Estava marcada às nove, por segurança resolvi sair de casa às seis. Tinha lotação, trem e metrô pela frente. O relógio tocaria às cinco horas, mas às quatro, eu estava desperta. Me banhei. Fiz as orações do dia. Pedi o emprego com fé. Senti aquela brisa quente atrás da cabeça de quando a resposta de Ogum está a caminho. Resolvi me vestir de branco. Saí. Fechei o portão. Caminhei em direção ao ponto de parada da lotação. Um sentimento de que faltava alguma coisa tomou conta de mim. Abri a bolsa, tudo o que eu precisava estava lá: Carteiras de trabalho e de identidade, conta de luz paga, cópia do currículo impressa, endereço dos três lugares onde buscaria emprego naquele dia, sanduíche de pão com goiabada, garrafa de água e um livro para ganhar o tempo no transporte público. Não faltava nada, mas a sensação permanecia. A brisa na cabeça voltou e me impeliu de volta para dentro de casa. Fui direto até a gaveta da cômoda, peguei um fio de contas. Coloquei no pescoço, ajeitei dentro da blusa. O retorno à casa me fez perder a lotação. Fiquei sozinha no ponto, mas logo, logo, encheria de gente. Veio vindo um rapaz de tênis de cano longo, bermudão, camiseta larga, boné e, lógico, headfone no último volume. Óculos escuros também. Ele se sentou na murada ao meu lado e tirou um cigarro. Antes de acender, parou uma Blazer de vidro fume na nossa frente, saltaram dois caras e cada um pegou num braço dele. Mandaram ficar calado e o jogaram dentro do carro. Alguém gritou lá de dentro: “Pega a mina dele também, vacilão! Vai deixar aí?” A nuvem do desespero turvou meu olhos. Não havia outra mulher por ali. A mina do desconhecido era eu. Me empurraram para o banco de trás junto com meu companheiro de espera da lotação. Eu tentei dizer que era engano. Eu nunca o tinha visto antes, só estava ali esperando o transporte. Ia fazer entrevista de emprego. Tinha a carta de convocação na bolsa, podia mostrar... O motorista mandou que eu calasse a boca, não estava interessado. Ao meu lado, os grandões espancavam o rapaz e gritavam: “Você vai me dar meu dinheiro, vagabundo. Se não der, vai morrer. Tá ligado? Fala! Onde é que você escondeu o dinheiro? Fala, vagabundo, fala”. E dá-lhe porrada. O rapaz calado. Eu queria interferir, pedir para eles pararem de bater no menino, mas aí pensariam mesmo que eu era namorada dele. Paramos num sinal. Tinha um carro da polícia estacionado, vazio. Os policiais deviam estar na padaria comendo coxinha. Por via das dúvidas, afundaram o rapaz no vão entre os dois bancos. Nossos sequestradores ficaram tensos. Engatilharam as armas. Eu, uma filha de Ogum, entro em pânico quando vejo arma de fogo e comecei a tremer e a chorar. Um dos caras passou o braço pelas minhas costas, tapou minha boca com uma mão e com a outra encostou o cano do revólver no meu fígado. Disse que se eu não calasse a boca naquele instante, ele apertaria o gatilho, sem dó. Calei. O sinal abriu. O motorista arrancou devagar. Os donos do carro deram mais umas voltas com a gente. O rapaz espancado não dizia palavra. Eu também, não. Um dos rapazes que batia pegou meu pescoço, apertou meus seios com violência, disse ao suposto namorado que ele veria o que fariam comigo, na frente dele, caso não contasse onde estava o dinheiro. O menino nem abria os olhos, tinha apanhado muito, estava quase desacordado. Chamei por Ogum e a massa de calor em movimento atrás da cabeça me levou a colocar a mão no ombro do caladão sentado à frente. Disparei a falar, era a chance única de salvar minha vida. Repeti a história da entrevista para o emprego, puxei minha carteira de trabalho, o sanduíche de goiabada. Disse que não conhecia o desafeto deles, que simplesmente eu estava no lugar errado, na hora errada. E o outro, louco, noiado, apertando meu pescoço com uma mão e esticando a outra para rasgar minha blusa. Ele arrancou dois botões e enroscou a mão na conta, puxou, cortou o dedo no fio de nylon. Arrebentou tudo. As pedras brancas, como pombas, voaram pelo carro. Bateram no vidro fume, no teto da Blazer, caíram no colo do moço da frente. Ele abriu as mãos para as miçangas e sorriu. Mandou parar o carro. Desceu, abriu a porta, estendeu a mão para mim e disse: “pode ir embora”. Ainda ouvi ele dizendo para os amigos: “Deixa a menina em paz. Não viu que ela é filha de Oxalá? Gente de Oxalá, não mente, não!”

16 de nov de 2011

Sarau dos Vira-latas convida Cidinha da Silva, em Belo Horizonte

Sábado, 26 de Novembro, das 17:00 às 22:00, o Sarau dos Vira-latas convida Cidinha da Silva para lançar "Oh, margem! Reinventa os rios!" e para autografar seus outros livros. Vai ser no Espaço Fluxo, localizado à rua Bueno Brandão, 259, Santa Teresa, Belo Horizonte. Informações: 31 - 25352676 O Sarau dos Vira-latas é animadíssimo e conta com diferentes DJs, exposição de grafite, pocket show e minha singela participação lendo alguns textos de "Oh, margem! Reinventa os rios!", autografando os outros livros e batendo papo. A produção é do amigo querido, Kdu dos Anjos, sempre cercado de boa companhia.

13 de nov de 2011

Escritores lançam antologia sobre literatura negra na Biblioteca Nacional

(Deu no Boletim da Biblioteca Nacional). "Será lançada no dia 28 de novembro, no Rio de Janeiro, a coleção “Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica”, organizada pelo professor Eduardo de Assis Duarte, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A coleção reúne, em quatro volumes, uma série de ensaios e referências bibliográficas sobre cem escritores afrodescendentes dos tempos coloniais até hoje. Fruto da colaboração de 61 pesquisadores de 21 universidades brasileiras e seis estrangeiras, a coletânea procura organizar a ainda dispersa reflexão acadêmica atual sobre o tema, num percurso histórico que vai de clássicos (Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Souza) a contemporâneos (Nei Lopes, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves), passando por nomes importantes esquecidos (Maria Firmina dos Reis, José do Nascimento Moraes). Coordenador do grupo de pesquisa “Afrodescendências na Literatura Brasileira” da UFMG (cujo trabalho pode ser acompanhado no site: http://www.letras.ufmg.br/literafro/), Eduardo de Assis Duarte diz que o objetivo da antologia não é estabelecer um cânone da literatura afro-brasileira, e sim compensar omissões da crítica nacional a autores negros – e à presença da questão racial na obra de escritores consagrados (tema de outro livro do pesquisador, “Machado de Assis Afrodescendente”, de 2007). “Nossa antologia não pretende instituir um cânone, mas trazer elementos para se refletir sobre as diversas facetas desta literatura brasileira como um todo. Não se trata de evangelizar, criar novos altares (ou novas alturas), mas de fornecer elementos para uma formação mais aberta à diversidade, sobretudo para os jovens estudantes e pesquisadores de nossa literatura”, disse Duarte. Já disponível nas livrarias, o lançamento oficial da coleção contará com a presença de 20 escritores cariocas (ou residentes no Rio) incluídos na antologia e uma homenagem a Abdias Nascimento." Serviço O quê: Lançamento da coleção “Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica”, organizada pelo professor Eduardo de Assis Duarte Onde: Teatro Machado de Assis da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro Quando: Dia 28 de novembro, segunda-feira, às 18h

12 de nov de 2011

Instituído Dia Nacional da Consciência Negra

Onde estão agora os corneteiros que acusavam a Ministra Luiza Bairros de "atuação apagada"? Ou alguém duvida do apreço que a Presidenta Dilma tem por ela e pelo trabalho que realiza junto com sua equipe? Alguém ainda duvida do poder de articulação e convencimento desta mulher? Roam-se, infelizes invejosos! Imprensazinha mal informada, parcial e tendenciosa. E saboreiem a vitória que a Ministra Luiza Bairros, generosamente, entrega a todos nós. Ngunzo, Ministra! (Divulgação). "A presidenta da República, Dilma Rousseff, sancionou ontem (10) a Lei 12.519, que institui o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, a ser comemorado, anualmente, no dia 20 de novembro, data do falecimento do líder negro Zumbi dos Palmares. A resolução oficializa uma iniciativa bem-sucedida dos movimentos sociais negros, iniciada em meados dos anos mil novecentos e setenta. Hoje, incorporado ao calendário das escolas e de muitas outras instituições públicas e privadas, o 20 de Novembro destaca-se como um evento cívico vibrante e de grande participação popular. “As justas homenagens que prestamos a Zumbi e seus companheiros e companheiras exprimem o reconhecimento da nação às lutas por liberdade e pela afirmação da dignidade humana de africanos e seus descendentes que remontam ao período colonial”, declara a ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros. O Dia Nacional da Consciência Negra já é celebrado em 20 de Novembro e é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. Apesar do ponto alto da celebração coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, a cada ano as atividades alusivas à data são expandidas ao longo do mês, ampliando os espaços dedicados à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade. Um número cada vez mais significativo de entidades da sociedade civil, principalmente o movimento negro, tem se mobilizado em todo país, em torno de atividades relativas à participação da pessoa negra na sociedade em diferentes áreas: trabalho, educação, segurança, saúde, entre outros temas. Neste Ano Internacional dos Afrodescendentes – instituído por Resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), o Dia Nacional da Consciência Negra ganha caráter internacional. No Brasil, o ápice desta celebração será o AfroXXI – Encontro Ibero-americano do Ano Internacional dos Afrodecendentes, que acontece em Salvador, de 16 a 19 de novembro. O evento reunirá representações de países sul-americanos, caribenhos, africanos e ibero-americanos, em torno de debates acerca da situação atual desses povos nas regiões participantes."

2 de nov de 2011

Leia Bandido também tem santo, crônica de OH, MARGEM! REINVENTA OS RIOS!

Era terça-feira e eu ia para mais uma entrevista de emprego. Estava marcada às nove, por segurança resolvi sair de casa às seis. Tinha lotação, trem e metrô pela frente. O relógio tocaria às cinco horas, mas às quatro, eu estava desperta. Me banhei. Fiz as orações do dia. Pedi o emprego com fé. Senti aquela brisa quente atrás da cabeça de quando a resposta de Ogum está a caminho. Resolvi me vestir de branco. Saí. Fechei o portão. Caminhei em direção ao ponto de parada da lotação. Um sentimento de que faltava alguma coisa tomou conta de mim. Abri a bolsa, tudo o que eu precisava estava lá: Carteiras de trabalho e de identidade, conta de luz paga, cópia do currículo impressa, endereço dos três lugares onde buscaria emprego naquele dia, sanduíche de pão com goiabada, garrafa de água e um livro para ganhar o tempo no transporte público. Não faltava nada, mas a sensação permanecia. A brisa na cabeça voltou e me impeliu de volta para dentro de casa. Fui direto até a gaveta da cômoda, peguei um fio de contas. Coloquei no pescoço, ajeitei dentro da blusa. O retorno à casa me fez perder a lotação. Fiquei sozinha no ponto, mas logo, logo, encheria de gente. Veio vindo um rapaz de tênis de cano longo, bermudão, camiseta larga, boné e, lógico, headfone no último volume. Óculos escuros também. Ele se sentou na murada ao meu lado e tirou um cigarro. Antes de acender, parou uma Blazer de vidro fume na nossa frente, saltaram dois caras e cada um pegou num braço dele. Mandaram ficar calado e o jogaram dentro do carro. Alguém gritou lá de dentro: “Pega a mina dele também, vacilão! Vai deixar aí?” A nuvem do desespero turvou meu olhos. Não havia outra mulher por ali. A mina do desconhecido era eu. Me empurraram para o banco de trás junto com meu companheiro de espera da lotação. Eu tentei dizer que era engano. Eu nunca o tinha visto antes, só estava ali esperando o transporte. Ia fazer entrevista de emprego. Tinha a carta de convocação na bolsa, podia mostrar... O motorista mandou que eu calasse a boca, não estava interessado. Ao meu lado, os grandões espancavam o rapaz e gritavam: “Você vai me dar meu dinheiro, vagabundo. Se não der, vai morrer. Tá ligado? Fala! Onde é que você escondeu o dinheiro? Fala, vagabundo, fala”. E dá-lhe porrada. O rapaz calado. Eu queria interferir, pedir para eles pararem de bater no menino, mas aí pensariam mesmo que eu era namorada dele. Paramos num sinal. Tinha um carro da polícia estacionado, vazio. Os policiais deviam estar na padaria comendo coxinha. Por via das dúvidas, afundaram o rapaz no vão entre os dois bancos. Nossos sequestradores ficaram tensos. Engatilharam as armas. Eu, uma filha de Ogum, entro em pânico quando vejo arma de fogo e comecei a tremer e a chorar. Um dos caras passou o braço pelas minhas costas, tapou minha boca com uma mão e com a outra encostou o cano do revólver no meu fígado. Disse que se eu não calasse a boca naquele instante, ele apertaria o gatilho, sem dó. Calei. O sinal abriu. O motorista arrancou devagar. Os donos do carro deram mais umas voltas com a gente. O rapaz espancado não dizia palavra. Eu também, não. Um dos rapazes que batia pegou meu pescoço, apertou meus seios com violência, disse ao suposto namorado que ele veria o que fariam comigo, na frente dele, caso não contasse onde estava o dinheiro. O menino nem abria os olhos, tinha apanhado muito, estava quase desacordado. Chamei por Ogum e a massa de calor em movimento atrás da cabeça me levou a colocar a mão no ombro do caladão sentado à frente. Disparei a falar, era a chance única de salvar minha vida. Repeti a história da entrevista para o emprego, puxei minha carteira de trabalho, o sanduíche de goiabada. Disse que não conhecia o desafeto deles, que simplesmente eu estava no lugar errado, na hora errada. E o outro, louco, noiado, apertando meu pescoço com uma mão e esticando a outra para rasgar minha blusa. Ele arrancou dois botões e enroscou a mão na conta, puxou, cortou o dedo no fio de nylon. Arrebentou tudo. As pedras brancas, como pombas, voaram pelo carro. Bateram no vidro fume, no teto da Blazer, caíram no colo do moço da frente. Ele abriu as mãos para as miçangas e sorriu. Mandou parar o carro. Desceu, abriu a porta, estendeu a mão para mim e disse: “pode ir embora”. Ainda ouvi ele dizendo para os amigos: “Deixa a menina em paz. Não viu que ela é filha de Oxalá? Gente de Oxalá, não mente, não!”