Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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31 de jan de 2017

Um poema de Felipe Estrela



Poema dedicado à Cidinha Da Silva!

#ParemDeNosMatar
E isso não é um pedido

É uma ordem

Uma ordem dada contra esse
racismo em lata
Servido a nós diariamente
Como ração
Em pratos de alumínio, ódio e trauma

Por entre as grades do presídio,
da escola
ou da televisão
Caldo podre
requentado nas panelas brancas do assédio,
do genocídio,
da precarização,
da folclorização midiática,
da apropriação cultural
da criminalização

#ParemDeNosMatar
E isso não é um pedido

É um oriki

Ebó-de-boca
Contra
-feitiço
Pro meu corpo X fechado
Mente aberta
E punhos cerrados
Um chamado Ogúnico
Um avançar tático
Deste exército retinto
Como as sombras da
Memória
Das que tombaram
Nesta guerra racial de alta i-n-t-e-n-s-i-d-a-d-e

Se muitas são as baixas deste lado do front,
Pega visão, vacilão
Dispositivo da velha lei que rege o mundo

É como diz a canção:
“O risco que corre o pau
Corre o machado
Não há o que temer
Aquele que manda matar
Também pode morrer”

Kao Kabecile, Xangô!
Vence demanda,
Pedreira da justiça que somos

#ParemDeNosMatar
E isso não é um pedido

É um giro organizativo
Conectando quebradas,
Quilombos,
Coletivos
Arsenal negro de alto impacto sensitivo
Marginal,
Ostensivo,
Altivo
Resistiremos
Permanecendo
Vivas e Vivos
Lançando bombas de Literatura Cinema Rap Pixo
Bum bum clap
Bum bum clap

Você está ouvindo?

#ParemDeNosMatar
E isso não é um pedido.

Felipe Estrela

30 de jan de 2017

Sobre #ParemDeNosMatar!


Por *Gabriela Gaia




Ler as “crônicas urgentes” contidas em #ParemDeNosMatar foi uma tarefa difícil, ao mesmo tempo que prazerosa. Sobre a tarefa difícil, discorrerei na minha fala. Mas sobre a dimensão do prazer, essa gostaria de ressaltar logo de cara e responsabilizar tão somente a habilidade com que Cidinha escolhe seus arranjos de palavras para tornar comunicável e possível para o leitor, deslizar, ainda que com alguns engasgos e tropeços (por conta da dureza dos temas) pelas 240 páginas do livro. No encerramento, ela faz uma linda homenagem (assim percebo) à Lívia Natália e sua poesia ao afirmar que a poesia traz desejo de escrita de mais poesia por parte de quem a está lendo. Gostaria de dizer que também suas crônicas nos inspiram a querer dar forma escrita às nossas angústias e pensamentos, nem tão bem articulados quanto os de Cidinha, como uma forma libertá-los desse enclausuramento íntimo, pessoal e expô-los de alguma forma.

E acho que foi isso que tentei fazer aqui, depois de ler o livro e pensar em como poderia responder ao convite inesperado de comentar esse livro tão caro e tão urgente. Então escrevi esse texto com essa intenção de tentar fixar aqui as coisas que foram emergindo com a leitura do livro e encontrando ganchos com outras tantas que já gravitavam por aí na minha cabeça. Essa fala é um pouco isso...
Diante das tantas urgências que atravessam o #ParemDeNosMatar, destacaria logo de cara a CORAGEM e a GENEROSIDADE. São duas dimensões que muito admiro na escrita de Cidinha. Essa disposição à exposição para nomear nossos mortos, apontar as situações de racismo, gastar tempo em refletir e “responder” aos abusos e absurdos cometidos pela elite branca e patriarcal, e encontrar nisso tudo força para construir reflexões e críticas na literatura (fico pensando se esse seria mesmo o fluxo das coisas, se das reflexões e críticas resultam sua produção literária - ainda que não como uma camisa de força – ou se a produção literária é o que motiva, movimenta, impulsiona suas reflexões e críticas. Talvez essa seria já de cara uma primeira pergunta que gostaria de fazer).

Ainda sobre isso que Cidinha faz, de fazer questão de chamar pelo nome nossos mortos sem nome nos noticiários e jornais produzidos pela grande imprensa...  Douglas Rafael (DG), Claudia da Silva, Amarildo, Davi Fiuza, Kaíke Augusto, Roberto de Souza Penha, Carlos Eduardo de Souza e Cleiton Correa de Souza(os três meninos do Morro da Lagartixa), Natanael de Jesus Costa (um dos 13 do Cabula). Cidinha inverte a lógica do esquecimento, ao qual estão submetidos todos os pretos e pobres, e dá-lhes a dignidade da morte. Semelhante ao que faz Rosana Paulino, artista visual paulistana, em sua obra Assentamento, na qual tece na fotografia impressa em tecido e tamanho real, uma negra anônima documentada por um expedição naturalista no final do século XIX, liderada por Agassiz, que tinha por objetivo “catalogar” e tirar medidas específicas do corpo negro para comprovar a teoria da degenerescência da raça (de que os negros são biologicamente inferiores aos brancos).Nessa imagem da negra anônima que visava desumanizá-la, Rosana Paulino delicadamente borda um feto no seu ventre, raízes em seus pés e um coração em seu peito. É uma imagem linda, que particularmente admiro, e que faz esse movimento, na minha leitura, de conferir humanidade a esse sujeito aniquilado pelas teorias de superioridade da raça do final do século. Acho que Cidinha faz um movimento nessa mesma direção quando não deixa que esquecemos nossos mortos e chama-os pelo nome.

Aos nomes já citados no livro, poderíamos acrescentar outros tantos. Mais precisamente um novo nome a cada 23 minutos... E isso é assustador. Ou talvez não, talvez não consigamos nomeá-los, o que é talvez ainda mais assustador... Sumimos aos montes e às vezes com poucos rastros. Sumimos porque a banalização da vida e a naturalização da morte negra se arrasta e se perpetua (não sem protestos) secularmente. O trato com a morte/vida do negro atravessa e aproxima cruelmente dinâmicas que se alargam no tempo. Na manhã do dia 14 de dezembro de 2016 - conforme nota publicada pelo Movimento Sem Teto da Bahia no final do ano passado - policiais da 12ª Delegacia de Policia Civil de Itapuã identificaram um cemitério clandestino com diversos corpos em uma área próxima à rodovia CIA-Aeroporto. Aproximadamente 15 corpos. 15 corpos de pretos despejados em vala rasa e a céu aberto, tal qual relata Edison Carneiro em texto publicado em 1964 sobre o trato com o negro morto no período colonial: “O negro que literalmente não tinha onde cair morto, que ficava à mercê dos urubus”, que nos períodos de maior intensidade do tráfico, era “fácil de substituir, não merecia consideração alguma”. O negro desvalido, que quando escapava da “vala comum”, destinava-se em geral a pastos dos urubus.

São mais 15 corpos (sem nome) na lista.

Ainda em dezembro de 2016, no dia 27, Claudio Oliveira, morador da Gamboa de Baixo, teve sua vida ceifada atingido pelo desmoronamento de parte de um viaduto próximo ao Forte de São Pedro, em obra executada pela Prefeitura. Vida interrompida pela negligência do poder público para com a vida da população pobre e negra da cidade, para a qual se abre mão dos gastos com quaisquer mecanismos e medidas de segurança e proteção.

Mais um nome para essa lista.

Quantos são os que se revoltam com as mortes dos pretos? Somos muitos. Entre nós, somos muitos. E Cidinha nesse livro-cartografia do genocídio e do racismo, mapeia nossos mortos. Articula nossas dores e ordena suas/nossas as palavras em uma tapeçaria discursiva que habilmente alinhava suas/nossas perdas em texto.Ela grafa nossas sobrevivências enquanto atordoados percebemos o esfacelamento do que há ainda de humano na civilização. Digo que ela articula “nossas/suas” palavras e dores porque a escrita de Cidinha, apesar de própria e particular, afeta seu leitor, porque se produz em relação com o outro. Não é uma escrita autista, nem ensimesmada em crises narcisistas (ainda que sejam legítimas todas as formas de crises e de escrituras).


Eu discuto cidade, a arquitetura enquanto materialização de respostas e demandas de uma sociedade, o urbanismo enquanto lógica/campo disciplinar que “baliza” discursos de cidade, o controverso e falido planejamento urbano- revestido da falácia da participação popular nos últimos tempos, vide aprovação do último PDDU de Salvador. Em todos os espaços todos institucionalizados por onde em geral circulo, esses lugares de onde se produzem os discursos oficiais de cidade e as narrativas“oficiais” que balizam os argumentos para a produção dos projetos, planos e intervenções na cidade, os territórios negros - e mesmo a presença negra na cidade – são sistematicamente abafados, ou melhor, são construídos de forma a forjar e articular a racialização da violência com a criminalização dos territórios das favelas, comunidades, quebradas, bairros populares, ocupações, etc. 

A presença negra só é destacada, evidenciada, quando esta pode ser apropriada enquanto elemento que agregue valor à espetacularizada cena do turismo que substitui a inserção legítima pelo reconhecimento e pelo pertencimento do negro aos seus territórios pela encenação, pela construção forjada de um cenário festivo para consumo de mercadorias, estampados em outdoors de “Bem vindo à Bahia”. 

Não é por acaso que é na cidade que se passam quase todos (senão todos) os relatos escritos em #ParemDeNosMatar.

Os territórios negros são tratados pela política pública e pela elite branca e patriarcal, proprietária de terras e dona da indústria imobiliária e da construção civil, como “caso de segurança pública”, cuja existência deve ser condicionada e contingenciada aos guetos. Qualquer movimento diferente tende a ser munição para sua eliminação, aniquilamento, devastação mesmo da presença negra indesejada nas áreas de maior lucratividade na cidade, processo conhecido como “gentrificação”: saem os pretos, saem os pobres, deslocados como objetos obsoletos, indesejados, descartados em tantos quanto forem necessários “quartos de despejos” pela cidade. São autorizados a ocupar a cidade os “cidadãos de bem”, as “gentes diferenciadas”, coroneizinhos, e sinhazinhas herdeiras da casa-grande. Mas somos quilombos, somos resistência e continuamos aqui, resistindo. Somos Gamboa de Baixo, somos Ladeira da Conceição, Somos Ocupação Manuel Faustino, Ocupação Luisa Mahin, Somos Saramandaia, Quilombo Rios dos Macacos, Quilombo Dom João, entre tantas outras comunidades e movimentos negros de resistência que insistem em disputar essa cidade desigual há tanto tempo...

Se escrever é uma maneira de sangrar, como nos lembra Conceição Evaristo, e teorizar é uma forma de curar, como diz Bell Hooks, Cidinha constrói em #ParemDeNosMatar esses dois movimentos sem vacilar e isso é um grande aprendizado. Nas estratégias adotadas para recontar aquilo que não deveríamos esquecer, ela não se furta da urgência da escrita-denúncia e ainda assim, engenhosamente, articula entre essas dores todas, alguns sinais de esperança, generosamente partilhados com seus leitores.


*Gabriela Gaia é professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia. 



26 de jan de 2017

Encontro “Lendo Mulheres Negras” será com Cidinha da Silva e seu novo livro



lendo mulheres negras
Divulgação
“Encontros Literários aberto para todxs que queiram se debruçar sobre obras literárias de escritoras negras.” Esta é a descrição do “Lendo Mulheres Negras”, eventos realizados mensalmente por interessadas pela produção literária de mulheres negras no Brasil e no mundo. Este mês, o encontro será na sexta-feira (27), no CEAO (Dois de Julho), às 17h. É aberto ao público e terá Sarau e Feira Preta.
A autora a ser lida será Cidinha da Silva, com seu mais novo livro #paremdenosmatar, que será lançado nesta quinta (26), na Katuka Africanidades, às 18h. Na obra, com 240 páginas, traz 72 crônicas escritas entre 2012 e 2016. “Trata-se de leitura densa que exige estômago e coragem. É um livro que exige mais do que o desgastado uso do termo “denúncia” para caracterizá-lo. Este #Paremdenosmatar! é testemunha de acusação do genocídio contemporâneo da população negra. É memória viva em transformação que se vale da crônica como suporte”, já disse Cidinha em entrevista ao Portal. Na ocasião, Cidinha dialogará com os presentes.
parem-de-nos-matar cidinha da silva
Os encontros literários “Lendo Mulheres Negras” visam refletir sobre a exclusão destas mulheres de vários espaços sociais, políticos, culturais, e também na literatura. Será abordado, a partir de leituras diversas, o cenário de esquecimento e invisibilidade de autoras negras, com o propósito de resgatar e conhecer sua vasta produção.
SERVIÇO
Lendo Mulheres Negras – Cidinha da Silva “#paremdenosmatar”
Quando: 27 de janeiro (sexta-feira), 17h
Local: CEAO, 2 de Julho
Gratuito

Autora mineira Cidinha da Silva lançará nesta quinta, em Salvador, o livro “Parem De Nos Matar!”


Por: J. B. Novare Em: 25/01/2017


Será lançado nesta quinta-feira, dia 26 de janeiro, em Salvador (BA), o livro “Parem De Nos Matar” da escritora mineira Cidinha da Silva. A sessão de lançamento e autógrafos ocorrerá a partir das 18h, na Katuka Africanidades, localizada na Praça da Sé, número 01, no Centro Histórico da capital baiana. Posteriormente a obra será lançada também em São Paulo. Após essa data, a autora estará também no encontro “Lendo Mulheres Negras”, no CEAO, dia 27 de janeiro, a partir das 17h.

“Parem De Nos Matar” é o décimo primeiro livro escrito por Cidinha da Silva. E aborda o genocídio da população negra no Brasil, principalmente via extermínio físico de jovens negros, e a morte simbólica e cultural praticada pelas ferramentas de comunicação de massa. Na obra, foram selecionadas 72 crônicas escritas entre 2012 e 2016, que recobrem a interseção “racismo e futebol, arte, políticas públicas de educação, imigração e cultura, movimentos sociais, homoafetividades e resistência a esse estado de coisas”.

A obra foi escrita a partir de textos que a autora escrevia em portais de notícias da Web (Forum, Geledés e Diário do Centro do Mundo). Dos quais discutia aspectos diversos do genocídio da população negra em curso no país, e expressou o número alarmante de 82 homens negros mortos em situações violentas por dia no Brasil. Além da morte simbólica e cultural impingida de pessoas negras pelos meios de comunicação e, obviamente, a resistência a esse estado de coisas.

O livro é uma crônica, voltado para um público interessado nos ligados à garantia de Direitos Humanos. Contém 240 páginas e foi publicado pela Editora Ijumaa em 2016. O preço de venda está por R$ 45,00 e podem ser encomendados pelo linkhttps://www.facebook.com/editoraijumaa/.

Cidinha da Silva é mineira, natural de Belo Horizonte (MG). É prosadora e dramaturga, e hoje possui 11 livros publicados, sendo 7 volumes de crônicas, três infanto-juvenis e um de poemas. Dentre os seus principais trabalham, se destacam: 2013 – “Racismo No Brasil E Afetos Correlatos” (Conversê, 2013),
“Africanidades e Relações Raciais: Insumos Para Políticas Públicas Na Área Do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas No Brasil” (Fundação Cultural Palmares, 2014), “Baú De Miudezas, Sol e Chuva” (Mazza Edições, 2014), “ Sobre-viventes!” (Pallas, 2016) e “Canções De Amor e Dengo” (Me Parió Revolução, 2016).

25 de jan de 2017

#Paremdenosmatar! dia 26/01 às 18:00, na Katuka Africanidades, em Salvador



Bom dia!

Está chegando a hora. Amanhã nos reuniremos na Katuka Africanidades para ouvir os comentários de Ana Carla Portela, Felipe Estrela, Gabriela Gaia e Saulo Dourado sobre o querido #paremdenosmatar! Livro que está construindo um trajetória bela de livro lido. Uma obra que dialoga com a vida vivida das pessoas.

Encontro para falar também, viu gente? Muitas pessoas têm ligado para a Katuka perguntando se poderão falar. Sim, sem dúvidas, vamos conversar a partir do livro.

Aproveito para agradecer a cada uma e a cada um de vocês pelo apoio na divulgação, pela grande rede de contatos, sorrisos e convites que tem agigantado esse momento tão esperado.
Cheguem cedo, pois às 19:30 começaremos as exposições e debates.

Venham todas! Venham todos para festa que costuma ser cada encontro literário nosso na Katuka Africanidades, embalado pela simpatia de nossos anfitriões, Renato Carneiro, Carlos Danon e toda a equipe da loja, e por afetos, comidas e bebidinhas deliciosas.

Até lá para um abraço de perto. Cidinha da Silva.

A revolução dos feios entre os livros que são a cara de São Paulo

Blog Página Cinco

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histórico 

No aniversário da cidade, escritores indicam qual livro tem a cara de São Paulo

Rodrigo Casarin

saopapulo
Qual é o livro que tem a cara de São Paulo?
Fiz essa pergunta a diversos escritores que escrevem nos mais diferentes gêneros: desde a prosa urbana de Ferréz até o chick-lit de Carina Rissi, desde o suspense de Raphael Montes até a literatura fantástica de Eric Novello. As respostas também são as mais variadas, indo desde livros de autores paulistanos que se passam na própria cidade até títulos que, de alguma forma, apenas remetem à megalópole que completa 463 anos hoje. Veja as respostas:
Ferréz, autor de “Capão Pecado”: “’Luxúria’, do Fernando Bonassi. Divertido, contundente e tenebroso como nosso povo. O livro foi uma grata surpresa, as histórias se amarram e se largam a todo momento. Consigo sentir a chuva, o suor e o trabalho invisível da mão de obra barata. Uma classe proeminente afundando em uma área desconhecida. Mudar de classe não é, de fato, mudar de classe nesse livro, assim como na vida”.
Carina Rissi, autora de “Perdida”: “’Blecaute’, de Marcelo Rubens Paiva, me faz viajar pelas ruas de São Paulo; da Avenida Rebouças ao Minhocão, do Largo São Bento até a Avenida Celso Garcia. Desde que li o livro, não consigo mais andar pela Paulista sem imaginá-la toda vermelha e sempre dou uma paradinha para conferir se a antena da Globo ainda está onde deveria estar”.
Raphael Montes, autor de “Jardim Secreto: “’Bom Dia, Verônica’, de Andrea Killmore. Romance policial incrível que li no início do ano. Verônica é secretária de um delegado e se lança em dois casos simultâneos para investigar um assassino em série que coopta mulheres na rodoviária do Tietê. A trama toda se passa em São Paulo, com direito a cantinas italianas e perseguições na Zona Leste. Um ‘Silêncio dos Inocentes’ paulistano.
Cidinha da Silva, autora de “Os Nove Pentes D’África”: “’A Revolução dos Feios’, de Ni Brisant. É um livro cortante e ácido, como São Paulo, mas tem beleza, esperança e coragem, materializadas em prosa poética requintada. E coragem e esperança, principalmente para nós, migrantes, são fundamentais para construirmos um lugar de existência na cidade que volta a ser cinza. Uma cidade que não acolhe ninguém, mas todo mundo consegue caber em algum de seus cantos, vielas, quebradas, palcos, viadutos…”
Marcia Tiburi, autora de “Era Meu Esse Rosto”: “Tem um livro que é a cara de São Paulo: ‘O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam’. Lembro quando Evandro Affonso Ferreira, o autor, disse ter contado 95 mendigos em uma única tarde pela Avenida Angélica. Sabemos que a população de moradores de rua da cidade é cada vez maior. E há cada vez menos literatura, talvez valha a pena fazer essa associação em tempos como esse, uma liberdade poética promissora…”
mendigos
Simone Campos, autora de “A Vez de Morrer”: “’Paranoia’, de Roberto Piva. A única São Paulo de livro que se parece com a que tenho em minha cabeça é a de Piva e Duke Lee. Cada foto e seção de poema é ao mesmo tempo um tapão na cara e um diálogo meticulosamente pensado. Não é porque alguém é paranoico que não está certo — é o que se entende lendo o livro. Estou fazendo uma graphic novel muito urbana e autobiográfica, e eu e minha quadrinista, a Amanda Paschoal, compartilhamos todo tipo de narrativa visual afim ao nosso tema. O ‘Paranoia’ foi um dos livros essenciais do nosso processo”.
Sheyla Smanioto, autora de “Desesterro”: “Vou de ‘Contos Negreiros’, que é um livro heterogêneo, cheio de gente. Gritando. Um livro que feito São Paulo não tem a pele lisa, sabe? Experimento caótico e que respira. Assim como os ‘Contos Negreiros’ do Marcelino Freire, São Paulo é um muro. Pichado, claro. Sem picho um muro é só um obstáculo.
Jorge Ialanji Filholini, autor de “Somos Mais Limpos Pela Manhã”: “’Brás, Bexiga e Barra Funda’, de Alcântara Machado. O cotidiano, em forma de contos, de uma São Paulo do começo do século 20, época de enorme imigração italiana. Um retrato, pelas perspectivas dos moradores dos três bairros do título do livro, do contato e influência das duas culturas, tendo como pulsação a cidade paulistana – há muito dos Filholini’s no livro. O uso da narrativa coloquial de Alcântara – destaque para a mistura dos idiomas nas falas dos personagens – colabora para uma aproximação do leitor com o enredo. Encontramos a rivalidade de Palmeiras x Corinthians, a ‘nonna’ protetora, as frustrações dos amores adolescentes e convívios em um período importante para a construção de uma das diversas identidades de São Paulo”.
bixigaafunda
Edyr Augusto, autor de “Pssica”: “Não gostei de São Paulo à primeira vista. Preferia o Rio com suas praias. Talvez tenha estado com a turma errada. Mais tarde, me apaixonei. ‘São Paulo é como o mundo todo’. Tenho amigos, minha querida editora Boitempo. Gente de teatro, literatura, música. Circulo à vontade. Vejo sua gente. Suas cores em matizes de cinza. Floresta diferente da minha, verde. Para mim, o livro que mais representa a cidade é ‘Eles Eram Muitos Cavalos’, de Luiz Ruffato. Desnuda e revela todos os cantos, temperamentos, ruídos, tragédias, felicidades e amores de São Paulo. Estava em pleno desenvolvimento de minha literatura. O livro me influenciou. A linguagem seca, direta, imagens e imagens, deixando para o leitor preencher os espaços vazios. Impressiona, emociona, dá tesão, tristeza, pena, raiva, angústia e amor. Mais tarde Ruffato se tornou meu amigo, nos encontrando pelo mundo, divulgando nossos livros. O livro ficou ainda melhor”.
Eric Novello, autor de “Exorcismos, Amores e uma Dose de Blues”: “’Kaori – Perfume de Vampira’, da Giulia Moon. Kaori percorre duas histórias em paralelo. Uma no Japão do século 15, explorando folclore japonês e a violência da época dos senhores feudais. Outra no presente, século 21, explorando o ritmo frenético de São Paulo e principalmente sua noite pulsante, pelo olhar de um observador de vampiros. Assim como há quem saia para observar pássaros, o protagonista sai para observar os dentuços. E a Giulia descreve tudo de um jeito muito rico, fazendo uma ponte entre esses dois mundos, essas duas épocas, que tem muito a ver com a São Paulo real, digamos assim.

SOBRE O AUTOR

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

SOBRE O BLOG

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.