Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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30 de set de 2009

Cine no Kanzu, em São Paulo

"Infância Roubada" será o filme do mês de Outubro 2009 da sessão Cine No Kanzu.* *Kanzu é uma palavra de origem Bantu e significa "pequena casa". O "cinema no Kanzu" é um espaco onde as pessoas se encontram no fim das tardes dos primeiros domingos de cada mês e compartilham bons filmes realizados por grandes nome do cinema africano e da diáspora africana. Dia: 04/10/09. Horario: 18:00.. Odun. Rua Jardim Francisco Marcos, nª180, Bela Vista, São Paulo, SP 01319-050. Confirme sua presença: cinenokanzu@gmail.com SINOPSE: Tsotsi é o apelido de um jovem revoltado com a vida. Foi a sua infância que o determinismo social levou. Hoje Tsotsi lidera um quarteto que faz assaltos no metrô e bebe desocupadamente na favela. Um dia, porém, ao fugir de uma briga de bar, ele vai parar na vizinhança endinhirada da cidade. Tenta roubar um carro e acaba atirando na motorista. No banco de trás há um bebê, que no meio do desespero Tsotsi acaba levando consigo.

Sete ventos no Rio de Janeiro

29 de set de 2009

Hip Hop Mulher e Edições Toró convidam para o lançamento de "Hip Hop Mulher - conquistando espaços"

(Texto de divulgação). "Dia 01/10/2009 – às 19 horas. Na Ação Educativa: Rua General Jardim, 660 – Vila Buarque (próxima ao Metro Santa Cecília) Com recital de Elizandra Souza, projeção dos vídeos “Guerreiras do Brasil” (de Cacau Amaral), “Rap de saia” (de Re.Fem) e “Hip Hop Mulher” (Cenas do primeiro encontro) e roda de debate-papo com as autoras. As primeiras 50 pessoas que chegarem e participarem destas atividades receberão um exemplar do livro cada uma, gratuitamente. Mantendo acesa a paisagem e o afeto dos princípios hiphopêros e chamando pra outros detalhes que a rima macha não versa e que tinta macha não desenha, este trabalho vem da luta cotidiana, da batalha sem medalha, sem mesada, sem creche, trincando os canos entupidos da falta de respeito. Vitalizada nas beiradas urbanas diariamente, no leque e na ventania da ação e do pensamento entre tranças e trancas, a Hip Hop Mulher traz no brilho de seu lilás o livro “Hip Hop Mulher – Conquistando Espaços”, ladeado e atravessado por uma pulseirinha que não é a do Bonfim, mas a do bom recomeço, também na pegada da fé dos 4 (mil) elementos do Hip Hop. Quem tiver o livro na palma vai saber qual que é essa fita, de cetim. Revirando temas como Saúde, Violência, Estado Laico e Liberdade Religiosa, Direitos Sexuais & Reprodutivos, este livro tem prevista a sua distribuição gratuita em diversas oficinas já marcadas pra girar em São Paulo e seus interiores. Cola com a gente, vá mesmo. AXÉ. Edições Toró – Morro do Mineiro/Taboão da Serra. www.edicoestoro.net --- “HIP HOP MULHER – CONQUISTANDO ESPAÇOS” Organização: Tiely Queen - www.hiphopmulher.com.br Ilustrações de Fernanda Sunega e Ana Clara Marques (Rede Grafiteiras BR) Poemas de Elizandra Souza e textos de Roseane Ribeiro (Jovens Feministas de SP), Valéria Melki Busin (Católicas pelo Direito de Decidir), Janaína Oliveira (rapper Re.Fem) e Latoya Guimarães (Articulação Brasileiras de Jovens Feministas). Concepção Editorial: Allan da Rosa e Silvio Diogo (Edições Toró)."

27 de set de 2009

Retratos do Brasil Negro

Selo Povo em novas camisas 1dasul, feitas com garrafas pet

(Por: Ferréz) "Salve, sairam vários modelos de camisas da 1dasul, uma especial do Selo Povo e algumas com frases minhas, nesses 10 anos de marca, eu nunca tinha assinado as frases, e agora fizemos uma edição limitada assinada. Além de serem produzidas no bairro, as novas camisas são feitas de material reciclável. Quem é da quebrada tá ligado no tanto de garrafa pet que tem nos córregos e no meio da rua, consumir produtos recicláveis é valorizar a qualidade de vida, uma nova oportunidade de recuperação de equilíbrio ao meio ambiente. A linha é Eco Bud, fibra pet reciclado, produzida com fibras de poliéster, obtida a partir de reciclagem de garrafas pet. Todos somos responsáveis pra esse mundão continuar com a bateria alta. Dá uma olhada ai, e qualquer dúvida tem o site da 1dasul, 1dasul.com.br com outros trampos feitos no bairro".

26 de set de 2009

Nota pública contra a violência na Maré

A VIOLÊNCIA NA MARÉ - Confrontos armados, participação de policiais em ações do tráfico e descaso de autoridades refletem uma política de segurança que desconsidera a vida do morador da favela. Na madrugada do dia 30 de maio de 2009, um grupo de traficantes da Baixa do Sapateiro iniciou a tentativa de tomar os pontos de vendas de drogas controlados por outra facção criminosa em uma comunidade vizinha, a Vila dos Pinheiros. Oito escolas e cinco creches ficaram fechadas por mais de uma semana, deixando cerca de 10 mil alunos sem aula. Desde então, moradores do conjunto de favelas da Maré vivem uma rotina de extrema violência que é muito pouco divulgada nos meios de comunicação. As autoridades, por sua vez, permanecem com uma postura que é de descaso e, diante do apoio de agentes do Estado nas ações criminosas, também de conivência. Os confrontos armados são diários. O movimento do comércio é constantemente interrompido e há diversos relatos de casas invadidas, quedas de luz, além de um altíssimo número de mortos e feridos. Nos primeiros quinze dias de conflitos na Maré, em junho, quando a imprensa chegou a dar algum espaço para a situação vivida pelas comunidades, 19 mortes foram noticiadas. No entanto, um levantamento entre moradores aponta para mais de 50 mortes desde o início dos confrontos, há quase quatro meses. Segundo F.S.C., moradora do Morro do Timbau, as pessoas têm medo de sair de suas casas: “Passei uma semana sem poder ver meus pais, que moram na Vila do João. Minha mãe já ficou vários dias sem sair para trabalhar e às vezes tem que voltar no meio do caminho, pois os tiroteios recomeçam e ela fica exposta". Um dos mais graves relatos aponta que policiais teriam participado da invasão à Vila dos Pinheiros. Moradores afirmam que três veículos blindados da Polícia Militar – os chamados 'caveirões' – foram ‘alugados’ para traficantes de uma das facções envolvidas. Na Maré, esta é uma informação naturalizada. “Todo mundo aqui sabe disso. Várias pessoas viram”, afirma R.A., morador do Conjunto Esperança. A denúncia do aluguel de caveirões chegou até as autoridades e foi noticiada por um grande jornal do Rio de Janeiro, mas não foi suficiente para iniciar um debate amplo sobre a situação de extrema violência na Maré e sobre a responsabilidade do governo. Pelo contrário: assim que a notícia veio a público, a Secretaria de Segurança se apressou em desqualificá-la, em contradição evidente com falas anteriores do secretário José Mariano Beltrame, que por diversas vezes já havia ressaltado a importância de denúncias anÃ?nimas para as investigações policiais. Nem mesmo o novo comandante da Polícia Militar, Mario Sergio Duarte, que já esteve à frente do 22º Batalhão, arriscou um pronunciamento responsável. A reação da cúpula da segurança do estado - negando os fatos antes de investigá-los - reflete a tÃ?nica deste governo: descaso com os relatos dos moradores das comunidades pobres e acobertamento de ações criminosas praticadas pela corporação policial. O silêncio do governador Sérgio Cabral é, indiscutivelmente, um reflexo dessa indiferença com que os governantes tratam os bairros pobres do Rio de Janeiro, mas pode esconder também uma estratégia perversa: a do “quanto pior, melhor”. Depois de meses de ausência deliberada, não seria surpresa se o Estado aparecesse na Maré vendendo como “solução” a realização de mais uma mega-operação policial – como a do Complexo do Alemão, que em 2007 levou o terror às comunidades e resultou na chacina de 19 pessoas em apenas um dia. Em menos de quatro meses, entre maio e agosto daquele ano, foram registrados pelo menos 44 mortos e 81 feridos durante as incursões policiais no Alemão. Escolas e creches também foram fechadas, e os moradores ficaram sem poder sair de casa. Constata-se objetivamente que o efeito prático das ações policiais violentas do atual governo do Rio de Janeiro é o mesmo dos tiroteios entre traficantes: o desrespeito à vida e à liberdade do povo das favelas. No último dia 12 de julho, o jornal O Globo publicou a matéria “Covil do Tráfico”, em que a cúpula da segurança do estado, ao apontar o Alemão como reduto importante do tráfico de drogas, reconhece a completa ineficácia da ação de dois anos atrás. No entanto, as autoridades prometem repetir as mega-operações policiais, até mesmo como pré-requisito para a implantação de um modelo que vem sendo vendido como novo paradigma na política de segurança do Rio de Janeiro e que ganha contornos eleitoreiros: a chamada política “de pacificação”. Ao contrário do que é pintado no discurso oficial, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) não rompem com a lógica das políticas de segurança que vêm sendo implementadas seguidamente pelos últimos governos. São diversos os casos documentados de agressão física e de abuso de autoridade envolvendo agentes das UPPs. Além disso, com base em conceitos higienistas e de superioridade de classe, proíbe-se arbitrariamente certas formas de organização social e cultural construídas historicamente nas favelas. Ou seja, a atuação da polícia permanece estruturada em uma relação tensa de controle e confronto com a população negra e pobre, com a restrição de liberdades e a imposição de uma autoridade baseada na coerção de suas armas. De fato, as diversas formas de violência policial são consequência da secular orientação ao militarismo e à brutalidade dentro de comunidades pobres. Nos últimos anos, o Estado vem seguidamente realizando ações policiais violentas e desastrosas na Maré. Foram muitos casos emblemáticos, mas apenas alguns poucos se tornaram públicos. Em dezembro de 2008, o pequeno Matheus Rodrigues, de oito anos, morreu na porta da casa de sua mãe quando saía de casa para comprar pão e foi atingido no rosto por um tiro de fuzil disparado por policiais. Menos de cinco meses depois, em abril deste ano, o jovem Felipe Correia, de 17 anos, conversava com amigos há cerca de dez metros da casa de sua família. Quatro policiais militares sem uniforme dispararam apenas um tiro de fuzil, que acertou a cabeça do rapaz. Os dois crimes envolvem policiais do 22º Batalhão, o mesmo que é acusado de alugar o caveirão. Casos como esses trazem a certeza de que o caminho para o fim do sofrimento dos moradores não pode, sob nenhuma hipótese, passar por operações policiais violentas. No último domingo, dia 20, um ato contra a violência reuniu 600 pessoas e percorreu as comunidades da Maré afetadas diretamente com os confrontos dos últimos meses. A manifestação, não à toa, foi realizada no dia em que o menino Matheus e o jovem Felipe fariam aniversário. As organizações abaixo-assinadas se somam em solidariedade ao povo da Maré e reafirmam, categoricamente, que não aceitam mais uma política de segurança que encare a favela como território inimigo e que obedeça a uma lógica de exclusão, em que se governa apenas para alguns e se reserva a outros a violência da repressão, do controle e, frequentemente, do extermínio". JUSTIÇA GLOBAL / PARA ASSINAR ESSE MANIFESTO ENVIE UM EMAIL PARA manifestomare@gmail.com

23 de set de 2009

Nova imagem da princesa negra da Disney

(Deu no UOL). "Os estúdios Disney divulgaram um novo pôster de A Princesa e o Sapo, sua próxima animação. A imagem traz a personagem Tiana, a primeira princesa negra da Diisney, cercada por imagens de curiosos personagens da animação. A Princesa e o Sapo é uma comédia em animação ambientada na cidade de Nova Orleans, na década de 1920, época chamada de Era do Jazz. Neste cenário acontecerá uma história de amor e de descobertas, no bairro chamado French Quarter (traduzido como Quarteirão Francês). Desta vez, a animação computadorizada será deixada de lado. John Lasseter, executivo-chefe da Disney e dos estúdios de animação Pixar, disse que o novo filme irá retomar o processo de animação feito a mão, característico dos grandes clássicos do estúdio. O resultado, afirmou Lasseter, será um conto de fadas americano. A Princesa e o Sapo é escrito e dirigido por John Musker e Ron Clements, que também assinam A Pequena Sereia, Aladdin e Hércules. A trilha sonora é de Randy Newman, que ganhou o Oscar pela canção tema de Monstros S.A., além de ser o responsável pela composição da trilha sonora de filmes como Toy Story, Vida de Inseto, Toy Story 2 e Carros."

22 de set de 2009

Cidinha da Silva em antologia de Luiz Ruffato

Na orelha: "Questão de pele, antologia organizada por Luiz Ruffato, reúne contos sobre o preconceito racial mediante uma perspectiva diacrônica. De Maria Firmina dos Reis (1825-1917) a Cidinha da Silva (1967), este livro compreende um século de discussões em torno do racismo. Além de contos pouco conhecidos e outros já clássicos - como os de Machado de Assis e Lima Barreto -, Questão de pele traz a análise consciente de Conceição Evaristo, uma das maiores especialistas no assunto, e um apêndice com o relato de Mahommah G. Baquaqua, ex-escravo que passou pelo Brasil." Na apresentação, por Conceição Evaristo: "Nei Lopes, como sempre, não se descuida das políticas de identidade que um texto pode abordar, como se fosse uma brincadeira, sem angústias. Leitura semelhante pode ser feita do conto "Dublê de Ogum", de Cidinha da Silva. No que tange à apresentação de elementos da cultura afro-brasileira, aproveita um passado, e faz uma louvação à ancestralidade de matrizes africanas, sem ser pelo caminho da dor, do sofrimento. Construindo um discurso que soa como um sutil enfrentamento com a cultura de mídia, o texto retoma mitos de fundação africanos para apresentá-los em parelha com um imaginário veiculado por desenhos infantis televisivos. E demonstrando equivalência, ou mesmo superioridade de impregnação dos mitos africanos no inconsciente coletivo, Graiscow é remetido ao mito africano. Ogum prevalece sob (ou sobre?)a imagem e os "poderes de Graiscow". A contaminação dos signos comprovada pelos sonhos do menino, e apresentada no interior do conto, permite uma relembrança das práticas culturais afrodescendentes que vem se atualizando historicamente como modos de resistência. Ações essas que contagiam não só os negros, mas os brasileiros em geral. Contamina-se o signo, mas Graiscow não apaga Ogum, assim como São Jorge, o mito católico, também não elimina o Orixá africano."

Luiz Ruffato no Rio de Janeiro

16 de set de 2009

Atualização da biografia de Chiquinha Gonzaga

(Deu na Folha de S. Paulo). "Praticamente tudo o que se sabe hoje sobre a vida transgressora de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) apareceu na biografia publicada em 1984 pela pesquisadora Edinha Diniz. Comemorar os 25 anos de Chiquinha Gonzaga - Uma história de vida (Jorge Zahar, 316 pp., R$ 39,90) já seria um bom motivo para uma reedição, mas o livro ainda volta com mais novidades. Diniz pôs os olhos em fevereiro passado nos autos do divórcio da compositora, que estavam até então com acesso restrito no arquivo da Cúria Metropolitana do Rio. A documentação mostra que em 1877, aos 29 anos, Chiquinha foi condenada pelo Tribunal Eclesiástico do Bispado do Rio à separação perpétua do marido por abandono do lar (e de três filhos) e adultério. Ao assumir o relacionamento com João Batista de Carvalho - cujo nome foi revelado na edição de 1984 - e pôr a maternidade em segundo plano, Chiquinha adotou uma liberdade inimaginável para o século 19. Fotos dela em grupos apenas formados por homens, presentes no novo volume, ilustram essa personalidade deslocada no seu tempo".

Sarau Bem Black, em Salvador

15 de set de 2009

Ricardo Aleixo em Maceió

(Por Rique Aleixo). "Meu trabalho atual, no campo da performance intermídia, intitula-se Nem uma única linha só minha. Vou me apresentar em Maceió, no dia 19 de setembro, num formato bem diferente do que mostrei em São Paulo, no ano passado (em janeiro, na biblioteca Alceu Amoroso Lima, e em agosto, no Itaú Cultural). Além de novos equipamentos, temas, técnicas de uso da voz e modos de (re)configurar o palco que adicionei à performance, levo comigo o workshop Palavra : imagem : corpo : movimento, que criei como forma de conversar com os possíveis interessados sobre meu jeito de fazer as coisas. Aos produtores e instituições culturais que se interessarem pela proposta, peço que entrem em contato comigo pelo email ricardoaleixo@terra.com.br, ou pelo telefone (31)88681624. Terei o maior prazer em disponibilizar informações relativas a orçamento, condições, datas, necessidades técnicas etc. Em tempo: ainda não fechei a agenda do mês de novembro".

14 de set de 2009

Capoeira Angola e dança dos N'kises, em São Paulo

Não aos cigarros e não à lei fascista de Serra, de perseguição aos fumantes paulistanos

(Da lei anti fumo para a lei anti carro, por Alessandro Campos, do blogue www.paladardepalavra.blogspot.com Meu amigo querido, Alê, não-fumante-praticante como eu, escreveu este artigo, cujas idéias partilho bastante e há muito queria reproduzir aqui. Aí estão, para leitura e debate. Gracias, Alê). "Talvez devesse omitir esse pequeno comentário diante dos fatos sobre a lei anti fumo no Estado de São Paulo, mas... Não sou fumante e confesso que não ter cigarros por perto é na sua esmagadora maioria das vezes um alívio. Entretanto uma coisa é buscarmos de modo coerente e amigavel maneiras de conviver com os diferentes hábitos (vícios) alheios, e outra é implantar atitudes um tanto fascistas de criminalização dessas mesmas atitudes. Explico. Parece-me que a grande falha dessa lei pensada por esses fanfarrões deixa escapar outros fatores importantes no direito a liberdade, mais do que simplesmente evitar o malefício do cigarro à saúde de todos. Claro que cigarros são nocívos, quem duvidaria disso? Não tenho dúvida também que se nada fosse feito até hoje sobre esses espaços coletivos, se acorodos sobre a convivência não fossem discutidos, ainda muitos fumantes estariam - na verdade, alguns ainda o fazem - dando suas baforadas dentro de banheiros públicos, elevadores, onibus, metrô, na mesa ao lado enquanto você saboreia seu café da manhã, etc. Isso sem falar nas malditas bitucas emporcalhando tudo. Até hoje conheci uma única pessoa que guarda suas bitucas para joga-la no lugar apropriado: no lixo. O que me deixa bastante atento não é bem isso, mas os modos de controle e vigilância implantados por essa lei. Um dos argumentos mais utilizados é que para o beneficio coletivo, todos devem se responsabilizar pelo controle da lei e denunciar o estabelecimento que não cumpri-la. Num primeiro momento me pareceu algo sem muita importância, afinal as pessoas têm mais com o que se preocupar, certo? Médio. O clima que se instala nesse procedimento me parece não ser bem o de responsabilidade, mas da pura delação, da cínica caguetagem. A relação proposta pelo Sr. Picolé de Limão Serra é a do dedo duro. Pense nisso. Porque não conversar com as pessoas antes de incriminá-las? Porque não solicitar ao responsável pelo estabelecimento alguma atitude se outro cliente o está incomodando? Porque não pensar em algo, como uma conversa direta quando a situação se fizer necessária? Nada! O lance é um tipo de entreguismo alheio, a caguetagem deslavada, o clima de hostilidade vai se instalando e todos vão expondo suas paranóias e seus "poderes" de cidadão. Controle! Fiscal para quê? Todos somos polícia! urgh. Pois bem prezad@s, me parece que esse é o interesse no modo de exercer esse debate. Não estou dizendo aqui que nada deve ser feito, mas incentivar a população a dedar o comportamento alheio me parece algo equivocado. Recomendo uma olhada no texto do Bruno Ribeiro sobre a República dos Alcaguetes. Outro ponto. Estão falando sobre melhorar o ar da cidade com isso. Um tanto cômico se levarmos em consideração a frota de veículos automotores na cidade de São Paulo. Melhorar o ar da cidade? Eu tenho uma sugestão. Vamos aumentar o rodízio de carros! Vamos proibir a circulação de carros 24 horas em alguns lugares. O rodízio deveria se estender por pelo menos 3 dias da semana inteiros. Nada dessas insignificantes 3 horas nos horários de pico uma vez na semana. Pensa em comprar outro carro para fugir do rodizio? Estaria ferrado porque iriamos criar modos de controle de um número limitado por carros em casa e por proprietários: quanto mais carros, muitos outros impostos. Vai tentar colocar seu carro em um estacionamento particular? Vai usar o nome do filho, vizinho, amigo? Sem chance! Daremos prêmios para denúncias anônimas para combater essas atitudes. Você não estará seguro nem em sua casa! Sim, nosso objetivo seria seu bolso, e claro, a melhoria do ar na cidade. Deveria ser proibido ir para o centro da cidade de transporte particular. Deveriamos aumentar consideravelmente o ipva e outros impostos. Deveriamos criar mais impostos para os 800 novos carros que diariamente ganham as ruas de São Paulo e que esse dinheiro fosse revertido para os hospitais públicos no tratamente das centenas de pessoas vítimas diretas do malefícios dos veículos. Deveriamos começar a pensar em processos contra a GM e a Toyota por continuarem a fabricar máquinas que poluem, matam e prejudicam a vida coletiva nas cidades e no campo. Deveriamos pedir indenização ao Estado por ser complacente ao lobby das montadores. Deveriamos um monte de coisas, percebem? O fato é que hoje se você é proprietário de um utilitário na cidade de São Paulo você faz parte do problema. Lembra da lei seca? Porque não começarmos a deletar os bares que permitem motorista beberem e depois sairem com seus veicúlos? Tudo com o auxilio desses malditos serviços de manobristas! Deveriamos pensar numa forma de criminalizar essas ações do mal uso do veículo e pensar na melhor qualidade de vida de toda a população! Ops! O que? Você não pode viver sem seu carro? Ele é fundamental? Veja que coincidência: os fumantes também não podem parar com seus vícios. Eles dependem do cigarro, você do seu carro. Radical demais? Talvez, mas o fato é que existem tantas incoerências nessa lei anti fumo (atitude/propaganda eleitoreira, nenhum esclarecimento sobre o lobby das plantações de tabaco, o que acontece com os impostos dos cigarros, etc.) que fica difícil avaliar o melhor modo de melhorar a saúde da população sem colocar outros elementos em debate. Como por exemplo o uso do carro, a privatização dos espaços públicos, mobilidade urbana, etc. Não sou necessariamente contra carros, não sou primitivista, contra as tecnologias, mas sou contra o mal uso deles, da carrodependência. Estou interessado nos modos de melhorar, ampliar, incentivar a cooperação, convivência e liberdade. Estamos prestes a atingir a marca de 300 km de engarrafamento na cidade de São Paulo. Devemos considerar isso ou pessoas como eu, que não tem carro, e outras que tentam usar o bom senso, também estarão prejudicadas (mais!) pelo seu "direito" de fazer o que quiser. Então pergunto: o que significa liberdade para você?"

13 de set de 2009

Quando a gente ama brilha mais que o sol

(O que é o amor de Arlindo Cruz, Maurição e Fred Camacho) "Se perguntar o que é o amor pra mim / Não sei responder / Não sei explicar / Mas sei que o amor nasceu dentro de mim/ Me fez renascer / Me fez despertar/ Me disseram uma vez / Que o danado do amor pode ser fatal/ Dor sem ter remédio pra curar/ Me disseram também/ Que o amor faz bem/ E que vence o mal/ E até hoje ninguém conseguiu definir/ O que é o amor/ Quando a gente ama brilha mais que o sol / É muita luz/ É emoção/ O amor/ Quando a gente ama é o clarão do luar/ Que vem abençoar o nosso amor"

12 de set de 2009

É o racismo, estúpidos

(Por: Edson Lopes Cardoso, do Irohin). "O repórter Bernardo Mello Franco, de “O Globo”, escreveu que a “Câmara dos Deputados aprovou ontem uma versão esvaziada do Estatuto da Igualdade Racial”. Na mesma reportagem, o ministro Edson Santos afirmou que “o grande avanço é que ele não vai gerar conflito”. (O Globo, p. 11.) O Dep. Luiz Alberto (PT-BA) por sua vez afirmou, em pronunciamento da tribuna da Câmara, que o texto aprovado era “o possível”. E acrescentou: “Em caráter conclusivo, a matéria vai ao Senado Federal, onde também há um acordo para imediatamente se constituir uma Comissão Especial para aprovar o Estatuto, a fim de que o Presidente Lula, ainda este ano, possa sancioná-lo e dar ao Brasil uma oportunidade de se criar uma verdadeira democracia.” Segundo ainda a reportagem de Bernardo Franco, “o DEM elogiou as mudanças”. Quem conduziu as negociações pelos Democratas foi o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e já se pode bem avaliar a profundidade (e a realidade) da “verdadeira democracia” para a qual se abrem agora todas as oportunidades. Johanna Nublat, repórter da “Folha de S. Paulo”, escreveu que a oposição, comandada por Lorenzoni, afirmou “ter tirado todos os pontos com os quais não concordava”. (FSP, p. C9.) Ao “Correio Braziliense”, o deputado fez declarações mais incisivas: “Tiramos qualquer tentativa de racialização do projeto”. (CB, p. 11.) Nublat, aliás, é autora da pérola mais preciosa escrita sobre a versão do Estatuto aprovada ontem na Câmara dos Deputados: “Há também pontos mais práticos, como a possibilidade de o governo criar incentivos fiscais para empresas com mais de 20 empregados e pelo menos 20% de negros.” Quando o ponto mais prático é uma possibilidade, o leitor pode bem dimensionar o que representa a proposta aprovada para a superação das desigualdades raciais. Nem falo de racismo, porque a Comissão Especial, a rigor, nunca tratou do tema. Mas é fato que, sem falar de racismo, não alcançamos as motivações fundamentais. Há algumas semanas, a mídia divulgou a discriminação sofrida por Januário Alves de Santana, agredido por seguranças do supermercado Carrefour numa cidade da Grande São Paulo. Todos conhecem a história do homem negro, técnico em eletrônica, que foi acusado de tentar roubar seu próprio veículo, um EcoSport. Acusado e violentamente espancado nas dependências do Carrefour. Segundo ainda o noticiário, Januário viveu tantos constrangimentos após a compra do veículo, que decidiu se livrar dele. Creio que deveríamos fazer uma reflexão sobre como essas imposições violentas de limites têm afetado a população negra. Inclusive entidades e parlamentares. Por causa de seus traços fisionômicos, seu fenótipo, e de um conjunto de injunções decorrentes da hierarquização do humano vigente entre nós, Januário vê-se obrigado a rever seu projeto, reduzindo suas dimensões, buscando adequar-se aos limites impostos pelo racismo. Um modelo mais modesto de veículo talvez lhe permitisse acomodar-se aos limites rígidos preestabelecidos, seguramente é o que pensa Januário. Segundo os seguranças do Carrefour citados na revista Carta Capital, tudo, toda a informação estava na cara de Januário. Sua cara não nega, teriam dito os seguranças. E mais: “Você deve ter pelo menos três passagens pela polícia”. Sendo assim, não admiraria que Januário, renunciando a seu projeto legítimo de possuir um EcoSport, fosse preso ou assassinado conduzindo uma bicicleta.(Carta Capital, nº 560,25/08/09 p.16.) O fato é que os negros vivem em um mundo em que se sabe de antemão muita coisa sobre eles. Impressiona a quantidade de informação que o olhar racista pode colher em um rosto negro. Os negros são no Brasil a evidência pública de um conjunto de delitos. Apoiado por muitos outros autores, Umberto Eco afirma que é o outro, é o seu olhar, que nos define e nos forma. E não se trata aqui, diz ele, de nenhuma propensão sentimental, mas de uma condição fundadora (ver Cinco escritos morais. Editora Record, 1997, p. 95.) Já sabemos como somos vistos e, a partir desse olhar, como devemos nos definir e conformar nossos projetos. Seria melhor dizer como devemos amesquinhar e reduzir nossos projetos. Sonhos não realizados, esperanças frustradas reafirmando e reforçando a ideologia que previamente nos classificou a todos. Os parlamentares negros que ontem cantaram e ergueram os punhos fechados e se abraçaram ao DEM, o ministro Edson Santos, a Seppir, a Conen, a Unegro, todos comemoravam no fundo a redução e o amesquinhamento do projeto de Estatuto. Conformaram-se ao “possível”. Confiam que na redução ainda se podem projetar ganhos eleitorais. Vão colher, seguramente, o que plantaram".

Segundo aniversário do Cine Negro Sankofa

Cine Negro Sankofa, no Rio de Janeiro

Primeiro aniversário sarau do Coletivoz, em Contagem, MG

Estive em Lisboa e lembrei de você

10 de set de 2009

Os nove pentes d’África – livro novo de Cidinha da Silva na área

O Pentes entrou na fase final de produção. Ufa! Eta livrinho trabalhoso. Mas a culpa foi minha, toda minha. Desrespeitei o princípio básico de não noticiar os projetos enquanto são projetos, enquanto estão em processo. É desperdício de energia, na certa. Assumi o erro e paguei o preço, mas agora vai, depois de cinco meses de atraso. Em outubro o livro estará nas ruas, com direito à surpresa na orelha, que chegou ontem, mas não adianta insistir, não vou contar! Agora é acertar os detalhes dos lançamentos que, como de hábito, farei nas seguintes cidades (das demais aguardo convites): Rio de Janeiro e Niterói (RJ); Belo Horizonte e Contagem (MG); São Paulo (SP); Goiânia (GO); Curitiba (PR) e Porto alegre (RS). O livro vem com novidades acopladas, assim que forem se concretizando, dou nota. As ilustrações, reitero, são de Iléa Ferraz. E meu coração tá bombeando alegria!

9 de set de 2009

Jorge Ben, o homem-jongo

(Por: Ronald Augusto). “Uma definição de Dante (sim, o remoto poeta italiano) a propósito da canção (canzone), diz assim: “...é uma composição de palavras postas em música” (o grifo é meu). Com efeito, a letra de música que, para dizer o mínimo, não é bem poesia, requer a sua “fenomenologia da composição” ou coisa que o valha. A simplicidade da definição do poeta florentino me autoriza a dizer outra coisa óbvia: a letra de música nasce para ser cantada e não lida ou declamada, do contrário seria um poema embalsamado nas páginas de um livro. Isto é, as questões de composição próprias a um texto que é “palavra voando” (na feliz formulação de James Joyce), exigem do letrista-compositor um comportamento perante a linguagem diferente daquele experimentado pelo poeta. A canção é uma obra onde se integram de maneira inextrincável informações musicais e verbais. O compósito canção não é, portanto, um subdiretório daquela já consagrada poesia do suporte livro/papel, máquina verbal para ser, mais do que lida à viva voz, murmurada na solidão. Apesar de a canção conviver muito bem com a arte da poesia, não resta dúvida de que o canto-falado da música goza de uma especificidade em termos de linguagem. Neste sentido, a canção não tem, rigorosamente, nada a ver com um poema; da mesma maneira que, por exemplo, uma obra fílmica guarda muitas diferenças em relação a um espetáculo de teatro, ou à ópera, embora se possa observar, quem sabe, certa consangüinidade entre tais formas de expressão. Poetas da laje Na canção verifica-se uma oscilação permanente entre fala e canto. A expressão oral, os sotaques “cantados” (na fala do outro ouvimos com mais facilidade tal música), o pregão do ambulante, etc., são, por assim dizer, formas brutas da canção prístina. Uma sílaba mais longa, aquela pausa inesperada na elocução, uma seqüência de inflexões quase onomatopaicas, enfim, tudo isso está na raiz dessa fala que se transforma em canto, ou em sentido oposto, desse canto que, ocasionalmente, se reconstitui em fala. Não se pode “declamar” ou apenas “dizer” a letra da canção. Fazendo isso negamos a música que, ao fim e ao cabo, impõe os limites ao ajustamento das palavras, de acordo com aquele sentido requerido pela canzone dantesca. É como se tentássemos descrever um balão sem mencionarmos sua pele de látex. Continuando, letra de música não é bem poesia. Entretanto, sei que, ao fim e ao cabo, a recepção, atualmente, tem em alta conta a hibridação dos meios — essa vaga avassaladora a levar e lavar tudo de roldão —, e sendo assim, é natural que se afirme que a poesia, visando a uma espécie de sobrevida, se deixe seqüestrar pela MPB e seus seguidores. Além disso, os poetas sentem-se desinflados demais porque sua visibilidade está longe daquela experimentada pelos compositores populares. É inegável que há um parentesco entre essas formas artísticas, mas cada uma tem a sua semiótica. Elas se encontram (em algum lugar), mas não se confundem. Enfim, para complementar de um modo bem tosco o que, a rigor, mal se constitui numa tese: perece-me que os poetas, de uns tempos para cá, começaram a se intrometer demais nas coisas da música popular; pretendem levar o debate para o andar de cima, para a "cobertura". Eles é que mencionam os nomes de Caetano, Chico, Paul Mccartney, Arnaldo Antunes, etc., apresentando-os como poetas, mas já revelando o nascimento de um qualificativo por detrás deste substantivo agora no plural. Mas, onde andam, e onde entram nessa discussão, os letristas-músicos “menos cultivados” e, não obstante, geniais, o pessoal da “laje”, por assim dizer, como Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Candeia, Zé Keti, Tim Maia, Antonio Marcos, o próprio Jorge Ben, e outros, hein? Muito bem, parece que já vislumbro alguém chegando num passo acelerado, para bradar que “eles são poetas também!”. An-han... Mas, aí eu passo. Um homem só não é temido nem estimado. Ben: motown em sentido amplo Agora, sobre Jorge Ben — e na perspectiva de que a canção seria essa “composição de palavras postas em música” —, o mínino que se pode tentar dizer a seu respeito, é que ele soube e, felizmente, ainda sabe como poucos, tirar proveito das tensões formais relacionadas ao gênero, e a partir deste ponto, produzir o inesperado e o experimental com uma liberdade despretensiosa, e entre lírica e brutalista. O texto de apresentação escrito por Armando Pittigliani, estampado no encarte do seu definitivo disco Samba Esquema Novo (1963), é, a propósito, repleto de questões interessantes. Pittigliani atribui o irresistível sucesso do compositor — sucesso bom, sem apelações comerciais e duvidosas concessões artísticas — ao seu caráter bem “brasileirão” sintonizado com o processo de transformação por que passava a música popular do período. Com a mais elevada simplicidade, Jorge Ben apresentava um esquema novo de samba. Para o produtor musical, Ben propunha um retorno mais acentuado às raízes primitivas da música popular brasileira, mas fazendo uso de insumos mais modernos. À diferença dos idealizadores da bossa nova, que vão beber na mesma matriz, isto é, o samba, porém por um viés mais cool, desentranhando dele harmonias jazzísticas, Jorge Ben introduz o sentido motown — latu sensu — no samba; nessa operação de transculturação com que repõe o samba na ordem do dia da cultura pop do seu tempo, estão implicados elementos da “black music”: o soul, o funk, e, naturalmente, o rhythm and blues. Esses fatores e gêneros combinados fizeram Jorge Ben inventar uma “puxada” de violão nova para o samba; seu violão se converteu, sobretudo, num instrumento de ritmo. Pittigliani refere que em sua “batida” tanto se percebe uma linha de baixo, como o “desenho rítmico” de sua marcação nessa maneira “atravessada” e algo roqueira de tocar. Por este motivo, em diversas faixas desse disco os arranjos dispensam o baixo (a clássica “Chove chuva” e a menos celebrada “É só sambar” são exemplares a este propósito); também por isso, Jorge Ben aparece em quase todos os álbuns executando instrumentos de percussão. E é esse encontro entre a matriz do samba e o balanço ou o suingue motown que faz o produtor musical Armando Pittigliani, na tentativa de apresentar a arte de Jorge Ben, lançar mão de expressões do tipo “a influência ‘negróide’ que transborda de sua música”, “a nostalgia do sangue negro” que suas letras e melodias denunciam, etc. Pittigliani ainda nos convida a ouvir no sambalanço de Ben a síntese de “todo o encanto da poesia pura e simples do brasileiro autêntico, todo o ritmo empolgante de quatro séculos de civilização baseada numa miscigenação de raças onde o negro africano tem seu papel preponderante”, e, além disso, não se esquece de mencionar os ancestrais etíopes de Jorge Ben (em minha mente ouço a faixa “Uala ulala”). Não obstante o olhar de “kodak excursionista” do produtor, conciliador e paternalista, para o processo civilizatório no Brasil — pois de outro ponto de vista, o gesto inaugural de nossa gostosa mestiçagem, ao fim e ao cabo, provém do estupro escravagista —, seria um falsear do analista não atentar para essa invariante crítico-compositiva presente no trabalho do compositor. Na totalidade de sua discografia são muitos os momentos onde uma tópica negra é afirmada, quer pelo uso de fragmentos etnolinguísticos de origem africana, quer pelas senhas a uma religiosidade fetichista com que aprendemos a identificar a noção de sagrado numa perspectiva afro-brasileira sem culpa. É fundamental reconhecer estes estilemas — e mais adiante vou me deter num destes traços do compositor —, mas sem esquecer que a arte de Jorge Ben não se deixa ler em toda a sua inteireza exclusivamente por este viés. Pois, referir-se à sua música por meio de noções como “pureza e simplicidade”, “autenticidade”, ou falar do “amor singelo” revelado em suas letras, enfim, a superestimação desse recorte (espécie de cogito negróide) tende a nos levar ao inócuo lugar-comum do primitivismo verde-amarelo como bônus. Marca identitária de algibeira. Ben, o Volpi da mpb Mas Jorge Ben não é, a rigor, um músico naïf. Seu particular primitivismo, se assim o quiséssemos definir, cedendo por um momento à convenção, poderia ser relacionado, no âmbito das artes visuais, a Volpi. Alfredo Volpi (de 1896, Lucca, Itália, a 1988, São Paulo), pintor canonizado pelo movimento da poesia concreta das décadas de 1950/60, era um artista formado inicialmente dentro da cultura popular e do artesanato. Volpi, que mais tarde foi aclamado pelas Bienais de São Paulo e Veneza, durante o primeiro quarto do século 20 trabalhou como pintor de frisos, florões e painéis nas paredes das mansões dos endinheirados paulistanos; também foi marceneiro, entalhador e encadernador. O pintor fazia as suas próprias tintas diluídas numa emulsão de verniz e clara de ovo. Jorge Ben, carioca da Tijuca, aprendeu a tocar violão sem professor, na verdade aprendeu apenas com um “método” desses que se adquire em qualquer banca de revistas. Décio Pignatari, em depoimento a respeito do artista, diz que esse Volpi construtivista enfrentava as questões visuais do seu tempo “atendo-se a meios mais artesanais”. De outra parte, Volpi ignorava conceitos teóricos como Gestalt, “topologia”, etc., fato que, ainda segundo Pignatari, comprovava, à maravilha, em sua arte, a “teoria da pura visualidade” — um dos princípios do movimento concreto. Seria, portanto, um engano identificá-lo como um primitivo, um ingênuo ou um equivocadamente influenciado “pintor de bandeirinhas”. Para Décio Pignatari, sua formação e cultura visuais, sua acurada organização de formas, fizeram de Volpi “um dos artistas mais conscientes e conseqüentes na evolução formal da própria obra”. Do ponto de vista do poeta concreto, Alfredo Volpi “é um dos raros artistas brasileiros que não só não decaiu depois dos quarenta, mas teve a sábia e justa coragem de dar um belíssimo ‘salto qualitativo’ em plena maturidade”. E, voltando a Jorge Ben, é também uma semelhante característica que o aparta do modus faciendi assumido por alguns dos seus pares tais como, por exemplo, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Jorge Ben pode não estar, hoje, com toda a sua gana, mas ao menos preservou incorruptível, a contragosto do solo, sua dignidade artística. Continua filho da vanguarda da velha-guarda de todos os bons sambas e sambistas. Samba de preto velho. Obá. Jongo De volta, então, às ideias com que comecei este texto. Tendo em mente a “composição de palavras postas em música” de Jorge Ben, isto é, sua atitude excêntrica na maneira de “letrar” a canção, proponho à consideração do leitor o seguinte: Jorge Ben suinga uma forma requintada de sotaque jongueiro. Uma estética de jongo subjaz às letras do compositor. E o que é o jongo? Os pesquisadores no âmbito da antropologia dão conta de que jongo ou caxambu é um ritmo que tem sua origem na região africana do Congo-Angola. O ritmo que também deriva em dança chegou ao Brasil trazido pelos negros escravizados da nação bantu. A festa dos jongueiros, que não é restritamente religiosa, fica completa quando entram em cena os desafios dos pontos de jongo. O ponto ou a cantiga é uma adivinha em versos, cantada ou falada que o adversário precisa “desatar” ou “desamarrar”. Os jongueiros procuram vencer um ao outro através dos pontos de jongo enunciados aos integrantes da roda. Esses objetos melo-verbais são todos enigmáticos e metafóricos, e impõem grandes dificuldades à sua decifração. A linguagem cifrada nos pontos de jongo se estrutura em torno de formulações lingüísticas detonadores da mutação semântica das palavras. Os jongueiros trocam o sentido das palavras criando um novo vocabulário. Os pontos encerram, portanto, um sentido simbólico. Esse procedimento de linguagem deita raízes nas contingências históricas em que se formou a cultura desses povos. Foi a forma encontrada pelos escravos para conversar entre si e burlar a vigilância da capatazia. Por meio dessas senhas musicais, mensagens importantes se refugiavam por detrás do sentido literal de enunciados insuspeitos ou, para o ponto de vista do senhor, no mínimo, sem nenhum sentido: espécie de “samba do crioulo doido” como reza a locução de certa recepção preconceituosa frente àquilo que lhe provoca uma estranheza. Vejamos um ponto de jongo e sua respectiva paráfrase explicativa: Água com areia/ Não pode combiná/ Água vai imbora/ Arei fica no lugar/ A água representa o fazendeiro inexperiente, sem prestígio político, que fracassa em seus negócios; já areia indicao proprietário antigo, poderoso, que domina o lugar. Os recursos musicais e de linguagem usados por Jorge Ben parecem obedecer a uma lógica sensível que tem semelhanças com o modo de representação do jongo. No disco Dádiva (1983), a música “A loba comeu o canário” contém os seguintes versos: A loba comeu o canário/ Comeu com medo, mas comeu/ Pois já tinha até mandado avisar/ Que no dia seguinte bem cedinho/ Escondidinha ia voltar/ Mas bem feito quem mandou manda/r Um canário assim para a exposição/ Não podendo voar/ O compositor de Tábua de esmeraldas se comporta como um jongueiro ao narrar o fracasso da celebrada seleção de 1982 treinada por Telê Santana, mas, derrotada pelo time italiano numa partida eliminatória que garantiria a passagem para a final da Copa. Claro que as referências simbólicas não são tão cerradas se comparadas ao exemplo do ponto de jongo mais acima. Mas o parti pris é fundamentalmente o mesmo. De outra parte, para quem não se interessa pelas coisas do futebol pode ser que esta letra seja de fato incompreensível; um fruidor deste naipe jamais desamarraria o ponto proposto por Jorge Ben. Entretanto, aqui não é bem uma troca de sentidos das palavras que ocorre, e sim um deslizamento ou um deslocamento de referências sobre a superfície de uma determinada trama cultural. Mesmo assim o essencial da tradição do jongueiro preto velho é mantido, pois o próprio vocábulo “loba”, símbolo consagrado da Itália, é deprimido em sua gama de significações porque aparece todo em minúsculas, retardando assim uma decifração imediata e por contigüidade caso fosse grafado com um / l / maiúsculo. Mas a real rasteira de sentido, típica do ponto de jongo, acontece quando Jorge Ben canta: “...quem mandou mandar/ Um canário assim para a exposição/ Não podendo voar...”. Aqui tudo é cifra, enigma, nó para ser desatado: canário para Seleção Canarinho; exposição para Copa do Mundo; e não podendo voar em alusãoàs críticas feitas às deficiências do time de Telê. O grande Zico, selecionado e selecionável, à época, voltava de grave lesão e não estava em sua melhor forma física e técnica. A primeira estrofe do samba — cujo bis é imprescindível — é maravilhosa por sua perspicácia psicológica, ouçamo-la: “A loba comeu o canário/ Comeu com medo, mas comeu”. Notável a malícia e a síntese com que Jorge Ben desvela o sentimento dúplice da equipe italiana, pois ela alcançou tal façanha quase não acreditando que pudesse ser capaz de fazê-lo. Como se não tivesse direito para tanto. Rola, rola pedra Em 1984, Ben lança o álbum Sonsual (notar a palavra-valise do título, portmanteau, recurso expressivo caro a Lewis Carroll, e levado ao extremo por James Joyce em seu antirromance Finnegans Wake). Vinte e um anos depois de ter feito Samba Esquema Novo o compositor ainda estava ligado e inventivo. Na época eu tinha 23 anos, já fazia música e sempre estava atento às novidades dos compositores que de fato interessavam, e até onde consigo enxergar, me parece que este baita disco passou em branco. Em Sonsual, Jorge Ben continua fazendo a coisa certa e sem deixar de acrescentar lances neográficos ao repertório do cancioneiro da música popular. Seu samba novo que se misturava com o maracatu, incorpora agora o axé do afoxé. Na faixa 2, “A rainha foi embora”, para não perder a apetência pelo enunciado que diz uma coisa em termos de outra, Ben mantém o jongo em pé, um Sísifo sem angústia, sem náusea: “Rola, pedra, rola, pedra/ Que esta chuva é garoa/ quanto mais eu rolo pedra/ mais a coisa fica boa”. “Irene, cara mia” é um afoxé, mesmo. Nesta música, Jorge Ben faz o seu bom e velho excurso de cunho metalingüístico e filosofal, vou transcrever alguns excertos, vale a pena: (...) Irene, cara, cara mia/ Flash Dance ouvi você cantar/ Maravilhado fiquei e não resisti/ E no cinema eu dancei, dancei/ (...) Fiz uma canção pra você dançar também/ Ai, ai, ai, ai, ai, ai / Uma canção que fala de amor e de alegria/ Das coisas simples e belas da vida/ Das coisas que podem correr por aí/ Alegrando as pessoas/ E fazendo um bem espiritual Minha música suburbana urbana/ Com raízes africanas e oriental/ Com ligeiro toque universal/ É para você esse som penkelê, penkelê, penkelê/ Sonsual vai a contrapelo da temporada de demanda pelo rock-mercadoria — adultescente ad nauseum — experimentada na década de 1980. No entanto, Jorge Ben, de posse do seu “ligeiro toque universal”, não dá as costas ao negro rock’n roll. A balada “My little brother”, com uma “batida” de violão Ovation em diálogo com rarefeitos riffs de guitarra na linha do blues, tem um acento que nos remete a Bob Dylan, eis alguns versos: “Everyday in the morning/ I am very happy/ Because I see and listen to my little brother/ Singing and playing his tambourine for me”. Um detalhe importante a ser frisado é que Jorge Ben é um mestre no uso de acordes e tons menores. Este recurso representa sempre uma surpresa, uma informação nova, já que o compositor por meio desses breves desvios de rota (geradores de tensão) impõe uma bela suspensão aos seus recorrentes temas da alegria, da simpatia e do deleite. Tudo aquilo que poderíamos definir como o-modo-jorge-ben-de-compor atravessa do princípio ao fim as composições de Sonsual. No samba-enredo “Bizantina, Bizância”, Jorge Ben exercita a sua composição de palavras, aqui “alheias”, postas em música, sua expropriação sem afetação da enciclopédia do mundo. A pretexto de cantar “Bizantina, a mulher bonita de Stambul”, metáfora da mulher idealizada, o compositor narra o périplo dos enamorados mercadores em perseguição à musa através de terras, continentes e cidades cujas mitologias são abonadas pelo turismo de catálogo, diz assim o samba: Eles vieram de Kandahar, Pérsia, Kathmandu/ Atenas, Osaka, Pequim, Caxemira, Samarcanda, Jakarta/ Alexandria, Bagdá, Jerusalém, Kilimanjaro/ Daomé, Addis Ababa, San Marino, Anglia, Tolouse, Praga/ Baden-baden, Antuérpia, Casablanca, Guanajuato/ Machu Picchu, Memphis, e Málaga… aaa/ E até de um novo continente chamado Brasilis/ Só pra te ver, oh, mulher, só pra te ver... eee/ Outra singularidade do músico que se verifica neste disco, são suas troças prosódicas. No início muitos entendiam como um problema de dicção. É conhecida a controvérsia de sua pronúncia do pronome você que soa “voxê” na classuda “Por causa de você, menina”. Na apresentação ao álbum Samba Esquema Novo, o produtor musical solve a dúvida: o “voxê” tatibitate usado pelo cantor era apenas a sua homenagem a uma menina de três anos que começava a dominar a fala e sempre lhe pedia “aquela música, voxê canta?”. No entanto, não é difícil captar um eco ainda que esbatido desse voxê prístino e transgressivo a cada vez que Jorge Ben canta malandramente o pronome em muitas músicas de sua extensa discografia. Em “Bizantina, Bizância”, já referida linhas acima, pode-se ouvir uns estranhamentos desta ordem. Por exemplo, no estribilho: “Diga, diga, diga, Dime/ Diga, diga, diga, diga”, Ben faz o fonema / d / da primeira sílaba do imperativo “diga” soar de um modo duro e linguodental, ao contrário da naturalidade da prosódia coloquial onde soaria mais ou menos como um “djiga”. E, mais adiante, quando Jorge Ben fala dos vários pretendentes à bela de Stambul, no verso “O mais rude, o mais simples, o mais sábio”, o / r / da primeira sílaba do adjetivo “rude” soa de modo velar, como em “arame”. Temos aqui outro lance da inventividade desse artista: o canto de Jorge Ben se distancia tanto do vozeirão, melhor dizendo, da interpretação à maneira de Ângela Maria ou de Nelson Gonçalves, como da escola e da escala da contenção vocal bossanovista, a João Gilberto, entre cerebral e intimista. Mas não se pode afirmar de plano que Ben avança através de um canto naturalista, não; ele inventa a sua arte de intérprete abandonando sempre o mais recente posto conquistado. Nem dramático nem construtivista. Esgarçadas alusões a uma retórica circense como contraponto a um latinório ouvido na infância. Jorge Ben tem a medida intransferível de um modo de cantar que não abole o acaso nem o erro. Seu canto e sua música se projetam sobre uma ludicidade harmônico-discursiva menos nonsense do que jongueira. Sua alegria contagiante, o poder de sua simpatia está em ser um compositor que tematiza — sem dor e sem o menor detrimento de sua competência como inventor — a possibilidade de fazer música para aprender a fazer música. Suspendo então o fluxo da minha interpretação devota com “Peçam bis” , esta jóia de lirismo (em sentido forte) e humor machadiano do sambista Ismael Silva, que desonera o culto ao gênio na relação artista-público. Esta é a imagem de minha predileção do Jorge Ben de que me ocupei até aqui. A todos que estão me ouvindo/ Eu agradeço/ Esta atenção dispensada/ É mais do que mereço/ Se não gostarem/ Não digam nada a ninguém/ Senão os outros/ Não vão me aturar também/ Não vão fazer/ O que aconteceu certo dia/ Foi tanto bis/ Que eu já não podia atender/ No entretanto/ O que a platéia queria/ É que eu cantasse/ Cantasse até aprender/. Notas Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960; Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, São Paulo: Ateliê Editorial, 2006, p. 92. Cada tridente em seu lugar e outras crônicas; Cidinha da Silva, São Paulo: Instituto Kuanza, 2006. Ronald Augusto, poeta, músico, editor e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao rubro (1983), Puya (1987), Kanhamo (1987), Vá de valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). Dá expediente nos blogs: http://poesia-pau.blogspot.com e http://poesiacoisanenhuma.blogspot.com

8 de set de 2009

O outro lado dos 40 anos JN

(Por: Diogo Moyses). "Muitos leitores devem ter notado que a TV Globo passou as duas últimas semanas celebrando o aniversário de 40 anos do Jornal Nacional. Desde a sua criação, o telejornal global é, de longe, a principal fonte de informação de milhões de brasileiros. Bonner e Fátima Bernardes fizeram questão de nos lembrar das tantas glórias conquistadas pelo JN e pelo jornalismo da emissora. Matérias intermináveis - intermináveis mesmo, de quase 15 minutos - exaltaram os feitos do telejornal. Os mais antigos repórteres (os que certamente melhor cumprem ordens do patrão) foram chamados à bancada e, ao vivo, recordaram as coberturas dos fatos que marcaram a história recente do país. Telespectadores desavisados, desconhecedores de episódios importantes da vida nacional, talvez até tenham ficado com lágrimas nos olhos. É fato incontestável que o Jornal Nacional consolidou-se desde a década de 1970 (estreou em 1969) como símbolo do poder das Organizações Globo. Com uma estrutura quatro, cinco ou seis vezes maior do que os telejornais de suas concorrentes, ainda hoje bota medo na maioria dos políticos, que temem ser alvos de abordagens, digamos, pouco simpáticas. Quando as menções são positivas, aí é só festa. Dá até pra pensar em vÃ?os mais altos. Símbolo maior desse poder é o fato de seu lobista-chefe ser chamado de "senador" nos corredores do Congresso Nacional. Sem nunca ter sido candidato nem eleito para cargo algum, desfruta de poderes que nenhum parlamentar possui. O JN tem todo o direito de comemorar o que bem entender. Aliás, a Globo é perita em se auto-promover. Já fez isso em diversas ocasiões e continua a fazer com competência, posando de defensora da cultura nacional e da liberdade de expressão, além da já manjada face "solidária" que os Crianças Esperanças da vida buscam construir. O perigo iminente disso tudo é que, em um país pouco conhecedor da biografia de seus meios de comunicação, corre-se o risco de reescrever a história. O temor não se faz em vão: como historiadores cansam de afirmar, a memória coletiva muitas vezes é fruto do legado dos mais fortes. Mas voltemos ao nosso tema. Como era previsível, o JN tratou de lembrar das tantas ocasiões nas quais noticiou fatos da vida política, econÃ?mica, cultural e esportiva do país. Esqueceu-se, no entanto - e ao acaso isso não pode ser creditado -, de recordar os momentos em que o telejornal global foi ele mesmo sujeito da história. Ficou de fora da retrospectiva, por exemplo, que o surgimento e fortalecimento da TV Globo deu-se a partir de um acordo ilegal com o grupo estrangeiro Time-Life, que foi inclusive objeto de CPI no Congresso Nacional. Esqueceram de dizer que a emissora foi criada e se fortaleceu com o apoio decisivo dos sucessivos governos militares. E que seu jornalismo, em especial o JN, ignorou solenemente as torturas, os desaparecimentos e as mortes dos que lutavam contra a ditadura, como se não tivessem acontecido. O resgate histórico deixou de lado a tentativa de ignorar o movimento pelas eleições diretas nos primeiros anos da década de 1980, assim como a participação da emissora na tentativa mal sucedida de fraude nas eleições para o governo do Rio de Janeiro, com o objetivo de evitar a posse de Leonel Brizola. A memória seletiva igualmente deu conta de apagar a participação decisiva do JN na eleição de Fernando Collor em 1989, quando a emissora editou de forma canalha o último debate entre Collor e Lula, além de utilizar contra o candidato petista as acusações lunáticas de sua ex-mulher e o seqÃ?estro do empresário Abílio Diniz. Nos anos seguintes, de forma nem um pouco sutil, foi linha de frente na consolidação da idéia - hoje comprovadamente furada - de que o neoliberalismo e a privatização de empresas estatais eram o único caminho a seguir, impulsionando a eleição e reeleição de FHC à Presidência. Há ainda uma série infindável de episódios mais recentes que poderiam ser acrescentados à lista, como a cobertura favorável ao tucano Alckmin nas últimas eleições presidenciais. Ao contrário de outras tentativas, a tática não deu certo, graças à multiplicação das fontes de informação e, quem sabe, ao aumento da consciência política das classes menos favorecidas. Fato é que, ao longo de toda a sua história, a Globo consolidou-se como os olhos e ouvidos da atrasada elite brasileira, cerrando fileiras contra movimentos sociais e quaisquer políticas distributivas. Em Brasília, seu "senador" é sempre recebido com afagos. Tapetes vermelhos se estendem aos seus pés. E assim, políticas que visam democratizar as comunicações do país são enterradas antes mesmo de nascerem. É normal, compreensível até, que o JN tente recontar a sua própria história. O que não pode acontecer é que a história não contada por ele seja esquecida por nós". Diogo Moyses é jornalista e radialista especializado em regulação e políticas de comunicação, pesquisador do Idec - Instituto Brasileira de Defesa do Consumidor e autor de A convergência tecnológica das telecomunicações e o direito do consumidor.

7 de set de 2009

Escrever

"Mais difícil do que escrever ficção é, certamente, escrever sobre a realidade. Mais difícil do que inventar é, na certa, lembrar, juntar, relacionar, interpretar-se. Explicar-se é mais difícil do que ser. E escrever é sempre um ato de existência. Quando se escreve conta-se o que se é. Parece que se inventa, mas não: vive-se. Parece que se cria, mas na verdade aproveita-se. A história como que está pronta dentro da gente. É como a pedra bruta, da qual o escultor tira os excessos. O que sobra é a obra. No espírito, no fundo, no íntimo, a história espreita. Ela existe antes que o escritor suspeite. A história é mais real do que qualquer explicação. A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que eu possa fazer" (Ruth Rocha na 4a capa de "O que os olhos não vêem).