Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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28 de jul de 2008

Encontro de gerações

O Encontro de gerações: Teatro, Literatura, em verso e prosa, Música Popular Brasileira e Hip Hop, aconteceu no Museu Afro Brasil, em São Paulo, nos meses de agosto e setembro de 2007. Foi organizado pelo Mestre Oswaldo de Camargo e estabeleceu diálogos entre o ator Sidney Santiago e a atriz Dirce Thomaz; os escritores Edimilson de Almeida Pereira e Oswaldo de Camargo; a escritora Ruth de Camargo e o escritor Paulo Lins; os músicos Paulinho da Viola e Rapin Hood, todos (as) negros (as). Os depoimentos e debates estão registrados na publicação “Negras palavras – Encontro de gerações” do Museu Afro Brasil. Li atentamente a revista e percebi em todos os depoimentos uma compreensão geracional do ser negro no Brasil, vinculada, ora aos setores mais atrasados, ora aos setores de ponta do Movimento Negro, ou ainda a uma perspectiva individualista de “salvação do mundo negro”. Leiam a publicação e concluam por vocês mesmos. Por ora, fiquem com alguns trechos selecionados por mim, dos depoimentos de Edimilson de Almeida Pereira e Paulo Lins, dois escritores aos quais muito admiro. Trechos de Edimilson de Almeida Pereira: “Pelo filtro da minha sensibilidade de negro tudo pode passar. Esta é a minha literatura, esta é a minha geração (...) Se fôssemos pensar, só a título de exemplo, a oralidade das populações indígenas é um recurso teórico, cultural, estético imensurável, à disposição da nossa legitimidade poética. Então, esse primeiro aspecto me diferenciou muito, em termos de trajetória literária, e essa oralidade está muito presente em minha obra. Reelaborada, reconstruída, como um aspecto muito significativo. O outro dado foi marcadamente a questão econômica. Eu venho de família pobre, mas a pobreza – eu me lembro bem -, na minha experiência de família, nunca foi um percalço intransponível, nunca foi um obstáculo para as realizações, sobretudo de experiências coletivas. Olhando hoje, com um pouco mais de atenção, com um distanciamento mais crítico, me lembro dos escritos do Milton Santos quando ele fala, em determinado momento, sobre a capacidade que as populações têm, às vezes, de transformar a precariedade em competência existencial. Até intuitivamente, a minha experiência familiar sempre foi muito esta: usar o mínimo e, do mínimo, extrair o máximo de representatividade social, cultural. Esta inversão da ordem da miséria para uma ordem da competência construtiva do discurso sempre foi algo que me chamou muito a atenção e, de algum modo, isso está presente no meu texto poético: uma economia de recursos, de linguagem, um verso seco, antimusical. A tentativa é, justamente, provocar no leitor essa pesquisa por um sentido que está lá, mas que não é dado gratuitamente (...) Se eu pretendo fazer um discurso que poderia pôr claramente em uma boa prosa, por que eu vou colocar em verso e atribuir àquilo a condição de poesia? Por que está em versos? Ledo engano. A poesia não precisa estar em versos. Não é o verso que faz a poesia, o que faz a poesia é puro mistério. É uma visão nova, renovada (...) Quando um escritor é africano, ele não precisa propalar aos sete ventos que é africano. A qualidade, a envergadura do seu texto poético, a preocupação com o conhecimento da palavra, o domínio do discurso, o domínio da diversidade do mundo, isso vai ser caminho necessário e suficiente para dizer que ali há ‘tigritude’, ou seja, que ali há africanidade (...) Dentro do nosso contexto histórico-social discriminatório essa afirmação é fundamental. É importante que o autor negro diga que é negro e porque é negro. Mas também há um risco nisso; na medida em que você cerceia do poeta negro e do não-negro o direito de dizer outras coisas, nós assistimos a um conjunto de obras, em um certo momento, que se reduzem ou reduzem a experiência criativa do afro-descendente a esse único discurso. Isso tem gerado, e a minha geração de certa maneira é crítica disso, uma outra perspectiva: a de que você não tem que necessariamente fazer do texto o único espaço de afirmação dessa afro-descendência e nem transformar este discurso em uma reduplicação de si mesmo, porque você acaba criando uma armadilha que impede o próprio poeta afro-descendente de reconhecer nas culturas do mundo a diversidade que ela tem”. Trechos de Paulo Lins: “Na minha vida o ato de escrever é recorrente desde que eu nasci. Uma vez estava conversando com um amigo e ele me perguntou: ‘Quando você se tornou escritor’? E eu disse que não me tornei escritor, eu nasci escritor. Porque tem poemas que eu fazia e minha mãe escrevia, porque eu não sabia escrever. Quando eu fazia uma coisa errada minha mãe falava ‘olha, você não vai escrever hoje, não’; aí eu parava. Meu castigo era não escrever. Então, eu tenho uma ligação muito forte com a literatura, com o escrever, desde criança. Depois que eu fiz Cidade de Deus, fui para o cinema, trabalhei no filme de Cacá Diegues, Orfeu; trabalhei para a televisão, cidade dos homens; em Quase dois irmãos, um filme da Lúcia Murat, e outros filmes. Agora estou fazendo um longa, que também é sobre violência, uma adaptação para o cinema de uma música do Renato Russo, Faroeste caboclo (...) O Hip Hop é poesia urbana, porque se você unir a história do negro e a criminalidade, acabou tudo. A criminalidade é uma circunstância do Brasil e quem é o mais pobre vai ficar na rabeira da situação. Como historicamente o negro está na rabeira da sociedade – isso em termos financeiros, é bom deixar isso bem claro -, se você for falar de criminalidade, vai falar de negro. Eu não trabalhei com o negro, trabalhei com a criminalidade. O Hip Hop não é empretecido, não é uma coisa de negro, é poesia urbana.”

26 de jul de 2008

Pensamento negro e anti-racismo: diferenciações e percursos no V COPENE - Congresso de Pesquisadores Negros(as) Brasileiros(as)

"O V Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as será realizado em Goiânia, de 29 de julho a 01 de agosto de 2008, pela Associação Brasileira de Pesquisadores Negros – ABPN, sob a responsabilidade da Universidade Federal de Goiás – UFG, da Universidade Católica de Goiás - UCG, da Universidade Estadual de Goiás - UEG, além de parceiros como órgãos governamentais nacionais, estaduais e municipais, entidades do movimento negro e empresas. O Congresso será um momento de divulgação e socialização dos trabalhos de pesquisadores/as negros/as, africanos/as e da diáspora nas Instituições de Ensino Superior e outros espaços de produção de conhecimento. Trata-se também de uma atividade acadêmica em parceria com várias instâncias do movimento negro, o que significa um maior comprometimento com a comunidade negra. A ABPN é uma associação de caráter nacional que tem realizado um esforço constante no sentido de efetivar um diálogo com pesquisadores/as e instituições de pesquisas internacionais, intensificando e ampliando o campo de debate sobre as relações étnico-raciais e suas proposições, bem como fortalecendo uma rede de solidariedade entre populações negras. Foram realizados os seguintes CBPN’s: O I CBPN realizou-se de 22-25/11/2000, em Recife, UFPE. Teve como tema, "O negro e a produção do conhecimento: dos 500 anos ao século XXI" e contou com 320 participantes. O II CBPN aconteceu de 25-29/11/2002, em São Carlos, UFSCar. Teve como tema, "De preto a afro-descendente: a pesquisa sobre relações étnico-raciais no Brasil" e contou com 450 participantes. O III CBPN aconteceu de 05-08/09/2004, em São Luís, UFMA. O tema foi "Pesquisa social e políticas de Ação Afirmativa para Afro-descendentes" e contou com 595 participantes. O IV CBPN teve vez em 13-16/09/2006, na cidade de Salvador, UNEB. Teve como tema "O Brasil negro e suas africanidades: produção e transmissão de conhecimentos" e contou com 1500 participantes. Nas edições anteriores dos Congressos Nacionais pôde-se constatar a participação de pesquisadores/as das mais diversas regiões do país e de estrangeiros/as. É possível observar o crescimento numérico, a diversidade e a qualidade da produção, podendo-se afirmar a importância/significado da ABPN e a necessidade da sua continuação, ampliação e fortalecimento, sendo que a realização de Congressos Nacionais é uma prerrogativa indispensável para que isso aconteça. O V Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as será de grande importância para Goiás e Goiânia no cenário nacional, visto que serão trabalhados temas voltados às relações raciais de maneira geral, bem como romper a invisibilidade da população afro-goiana que, segundo o IBGE (2000), representa 48%. Goiás concentra em seu território parte significativa dos quilombos, das congadas, dos grupos capoeira e hip-hop, além de ativistas e pesquisadores/as negros/as de expressão nacional. O tema do V CBPN "Pensamento negro e anti-racismo: diferenciações e percursos" aponta para a necessidade de contínua reflexão acerca da produção de intelectuais negros/as, em grande parte “invisíveis” na ciência brasileira e nas sociedades científicas ainda que tenhamos indivíduos de renome nacional internacional. Além disso, o pensamento negro em foco tem um horizonte transnacional e comporta variações e divergências dentro de uma unidade de construção de uma representação negra plural no Brasil e no mundo, principalmente no tocante ao combate ao racismo, fenômeno multifacetado que, por sua vez, exige uma multiplicidade de interpretações e intervenções visando sua eliminação. Nas diferenciações do pensamento negro destacamos sujeitos e temáticas: o pensamento feminista negro, a juventude, os grupos afro-LGBTT, a intelectualidade negra não acadêmica. Dentre os percursos podemos retomar desde a antiguidade das sociedades africanas como a voz e o texto de pensadores/as negros de meados do século XIX e do século XX, compreendendo os períodos escravistas nas Américas e colonial na África." (Fotos, da esquerda para a direita: Milton Santos, Carolina Maria de Jesus, James Baldwin e Audré Lord). Estarei no V COPENE durante todos os dias, engrosso as fileiras da "intelectualidade negra não-acadêmica". No dia 29/07, às 18:00 participo do lançamento coletivo de livros com o Tambor. No dia 30/07, às 9:30 tem chá de caxinde e sessão de autógrafos do Tambor, com a presença desta escriba no stand da Nandyala. Coordenarei os "Diálogos com escritores(as)" que acontecem nos dias 30 e 31/07, às 18:00. Participo das mesas "Imagens negras em arte e mídia", dia 30/07, das 14:00 às 16:00 e "Corpo afro-LGBT em movimento", dia 31/07, também das 14:00 às 16:00. No mesmo dia 31/07, às 18:00, no stand da Mazza Edições tem uma cachacinha com torresmo e bate-papo com autores(as) da casa. No dia 01/08, das 18:00 às 20:00, ao lado de Allan da Rosa (Edições Toró)apresento o Sarau.

25 de jul de 2008

"Edição Negra" da "Vogue" italiana foi instigada por Obama

(Deu no UOL/Reuters - Por Jo Winterbottom) "A editora da "Vogue" italiana, Franca Sozzani, disse que a idéia de lançar em julho a primeira "Edição Negra" da revista de moda veio em parte por causa do avanço de Barack Obama como candidato presidencial democrata nos Estados Unidos. A outra parte foi devido ao fato de ela não ficar impressionada com a safra atual de modelos, todas parecidas e com pouca personalidade. "Os EUA estão preparados para ter um presidente negro. Então por que nós não estamos preparados para modelos negras?" disse Sozzani em entrevista à Reuters. "Eu estava nos EUA na 'super terça'. É claro que isso me influenciou, de certo modo -- passou a fazer parte de minha idéia geral." A inspiração se converteu numa edição que traz mais de 20 modelos negras, desde Naomi Campbell até relativas novatas, como a britânica Jourdan Nunn, que é o destaque da capa. Sozzani, que está na "Vogue" italiana há 20 anos, disse que o que a atraiu também foi a personalidade forte das modelos negras. "Não gosto realmente de nenhuma das garotas que desfilam hoje. São todas belíssimas, têm pernas longas e olhos lindos, mas são todas parecidas", disse ela. "Nenhuma delas me impressionou. A única que me impressionou foi Liya Kebede. Ela é tão elegante, tão chique", disse a editora, falando da modelo etíope que é também embaixadora da boa vontade da Organização Mundial da Saúde. A edição de julho da revista inclui um perfil de Michelle Obama, esposa do candidato presidencial, e entrevistas com o cineasta Spike Lee e com Edmonde Charles-Roux, que se demitiu do cargo de editora da Vogue Paris após a decisão de não colocar na capa a modelo negra Donyale Luna em junho de 1966. Sozzani disse que hoje, 40 anos depois, não encontrou resistência. "Não houve resistência nenhuma, nem dos clientes, nem das pessoas. A direção da revista ficou entusiasmada desde o primeiro momento." A editora pretende usar mais modelos negras no futuro, mas acrescenta: "Não quero dizer que todas as edições, todas as matérias devam ser com meninas negras, mas deveríamos ter mais delas." A indústria da moda ainda emprega poucas modelos negras em anúncios, e mesmo nas quase 350 páginas da Edição Negra elas aparecem em poucos anúncios. Sozzani diz que usou sua influência com alguns anunciantes para convencê-los a usar modelos negras. "Sei que eles já estão pedindo mais para sessões de fotos e que alguns estão pensando em usar mais nos desfiles", ela disse, mas acrescentou: 'Nunca se sabe o que se passa na cabeça dos estilistas.'"

Taata Mutá Imê ensina dança de N'kices, em São Paulo

Ione Papas no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, dia 26 de julho

24 de jul de 2008

Solano Trindade, meu pai

Hoje, dia 24 de julho, Solano Trindade faria cem anos. Atendendo à solicitação do Quilombhoje, D. Raquel Trindade escreveu o texto abaixo: "Creio que é o sonho de toda criança: ter um pai como o meu. Na época em que os pais batiam muito nas crianças, ele era carinhoso e paciente com a gente: eu, Godiva, Liberto e Chiquinho. Em 1945, ele já falava no Direito da Criança, quando essa lei nem sonhava em existir. Antes de sair para o trabalho, para vender seus livros e quadros (que trabalho, dirão meus irmãos trabalhadores, ele dizia quando entrava no trem da Leopoldina em Duque de Caxias, no Rio), ele brincava com a gente no quintal. Um dia uma vizinha foi fazer queixa de mim, porque eu tinha batido no filho dela. Ela dizia: ? Essa menina precisa de uma surra. Meu pai, pra satisfazer a vizinha, disse pra mim: ? Você não quer ser artista? Vamos fazer um teste, eu vou bater com o cinto na parede e você grita como se estivesse apanhando de verdade ?. E assim foi... A vizinha ouviu os gritos de sua casa, e foi encontrar minha mãe Margarida no caminho: ? Dona Margarida, estou morrendo de remorso, fiz queixa da Raquel e seu Francisco deu uma surra nela. MARGARIDA ? Francisco, você bateu em Raquel? SOLANO ? Que nada, essa menina é uma artista, eu batia na parede e ela gritava. De tarde, a vizinha, ainda com remorso, me trouxe um bolo. Quando eu tinha 8 pra 9 anos, meu pai arranjou um emprego no IBGE da Praia Vermelha (Rio), só que me levava junto, assinava o ponto e saía comigo, me levava na Pinacoteca, na Biblioteca Nacional, na Escola de Belas Artes, no Municipal do Rio de Janeiro para assistir óperas, balé e música clássica. Parávamos depois no bar Vermelhinho, na rua Araújo Porto Alegre, em frente à Associação Brasileira de Imprensa (Rio), onde ele se encontrava com Grande Otelo, a pintora Djanira, Aldemir Martins, o sociólogo Edson Carneiro, com quem, junto com a minha mãe, criou o Teatro Popular Brasileiro. Estava também o Barão de Itararé, Silveira Sampaio, Paschoal Carlos Magno, Aníbal Machado, a intelectualidade e os militantes de esquerda do Rio de Janeiro. E nessa, esquecia de assinar o ponto de volta no IBGE. À noite, íamos assistir o Teatro Experimental do Negro, do Abdias Nascimento; outra noite, a Orquestra Afro-Brasileira e Abigail Moura; outra noite, o Ballet Afro de Mercedes Batista e o ensaio do grupo folclórico de Haroldo Costa, onde minha mãe ensinava dança. Meu pai conversava muito comigo, me falava dos problemas raciais, da má divisão de renda do povo brasileiro. Me dizia do respeito que se devia ter com as diferenças, me falava da história da África, como eu devia me orgulhar de ser negra, sem discriminar qualquer outra raça. Enquanto minha mãe (Terapeuta Ocupacional, trabalhou no Museu da Imagem do Inconsciente, com Dra. Nice de Oliveira; era uma exímia costureira, bordadeira) me ensinou a fazer os serviços domésticos, a ser sempre honesta, a me afastar de vícios, como fumar e beber. Ela, mesmo presbiteriana como era, me ensinou todas as danças folclóricas, com exceção das danças dos Orixás, que aprendi quando entrei no Candomblé. Papai me orientava para as artes, me levando a ateliês de seus amigos, comprando livros, porque sabia que eu gostava de ler. Fiz o primário gratuito porque tinha uma senhora, Dona Armanda Álvaro Alberto, que mantinha uma escola para as crianças pobres de Caxias, muito avançada, nos moldes europeus. Mas o ginásio, não tinha público, papai pagava com dificuldade, pois ele vivia da arte. Aí eu atrasava o pagamento, passava abaixadinha na secretaria para que o Dr. Ely Combat (diretor do ginásio de Caxias) não me visse, aí ele ia até a sala de aula e falava: ? Quem não pagou a mensalidade não faz prova... Falava com papai, ele dizia: ? Filha, não vou lhe deixar nada material, só o que você estudar, vou pra cidade tentar vender um quadro ou livros, mas você não vai perder a prova. Eu tinha uns 9 anos quando ele foi preso político. Policiais truculentos, armados até os dentes, invadiram à noite a nossa casa, ele estava de cueca "samba-canção", acalmava a gente, eu e minha irmã chorando, Liberto com sarampo na cama que os policiais reviraram dizendo que tinha armas escondidas. Logo papai, que era pacifista como Gandhi, mamãe ficou brava com os policiais. Levaram ele... Mamãe ia de prisão em prisão com a gente, até que descobriu que ele estava preso incomunicável na Rua da Relação (Rio). Depois, quando eu estudava o clássico, me levou para a Europa com o elenco do Teatro Popular Brasileiro, ele foi de avião, nós fomos de navio Louis Limiere, e voltamos no Provence. Em 1961, convidados pelo escultor Assis, viemos para o Embu. E hoje coloco em prática, com filhos e netos, todos os ensinamentos desse grande pai Solano Trindade. Obrigada meu pai Francisco Solano Trindade e Maria Margarida da Trindade por terem existido." Raquel Trindade, 26 de junho de 2008 Embu das Artes, São Paulo – Brasil.

23 de jul de 2008

A vida imita a arte ou O presidente negro, de Monteiro Lobato

(Por *Rosane da Silva Borges) “'A obra de arte é fruto da imaginação. O pretexto é real.' Truísmos a parte, essa afirmação que se tornou banal nos círculos artísticos aplica-se, com tanto mais razão, ao livro O presidente negro ou O choque das raças, de Monteiro Lobato, cuja reedição pela Editora Record neste ano vem suscitando críticas alvissareiras. São poucas as obras que conseguem a façanha do único romance de Lobato, escrito em 1926 e publicado em folhetins do jornal carioca “A Manhã”. Uma obra de ficção que serve de termômetro para se pensar o Brasil da época – sob a égide de teorias racistas e eugenistas - e discutir os acontecimentos de nossos tempos. Lobato corrobora a insólita afirmação de que a arte é mentirosa nos seus detalhes para poder ser verdadeira na sua globalidade, ao contrário da história, que costuma ser verdadeira nas suas minúcias e mentirosa na sua totalidade. Com indiscutível elegância de estilo equiparável a de escritores como Gabriel Garcia Márquez e George Orwell, O choque das raças ou O presidente negro, cujo subtítulo era o “romance americano do ano 2228”, é pródigo em previsões/antecipações de fatos com os quais viveríamos não em 2228, mas neste 2008. A história de O presidente negro é narrada por Ayrton Lobo, funcionário da firma paulista Sá, Pato & Cia., amante de carros Ford (diz a lenda que, à época, nove entre dez brasileiros ricos almejavam um Ford), avesso a chefes vaidosos, hostil ao cotidiano do ambiente de trabalho, admirador da genialidade dos cientistas. O carioca Ayrton sofre um acidente de automóvel na estrada Rio-Petrópolis e é socorrido por um cientista arredio, o professor Benson. O leitmotiv do único romance adulto de Lobato, escritor reconhecido pelos seus contos infantis, é o porviroscópio, invento extraordinário, uma espécie de televisão holográfica, criada por Benson, que consegue, por meio do excêntrico aparelho, prever acontecimentos futuros. A lente do porviroscópio alcança o mundo até 3458. Encantado com o progresso da ciência, deslumbrado com a arte da retórica e cada vez mais enfadado com a monotonia da firma Sá, Pato & Cia., Ayrton é a pessoa ideal para escutar as previsões do porviroscópio reveladas inicialmente pelo doutor Benson, que logo em seguida morre, e depois pela sua filha, Jane, por quem Ayrton se apaixonara; é ela quem desvenda a ele os acontecimentos: no futuro que o porvoriscópio permite enxergar, descortina-se a eleição do 88º presidente norte-americano, numa disputa presidencial inédita entre um candidato negro e uma mulher branca, o avanço dos experimentos genéticos (a ciência tornaria possível a existência de seres vivos dobrados, equivalentes aos clones dos nossos tempos), a polarização das discussões políticas em torno do feminino e do masculino, o papel indispensável dos meios de comunicação como mediadores das relações sociais, antecipando o intercâmbio simultâneo e instantâneo entre os habitantes do planeta. (nesse quesito, podemos lembrar das antevisões de Marshall Mcluhan, teórico canadense que cunhou a expressão "aldeia global"); a Europa seria conquistada e colonizada por chineses, o Brasil estaria fadado ao “castigo” da mestiçagem – exceto no Sul branco, que se funde à Argentina para formar a segunda nação mais progressista do planeta (...). Pelas lentes do porviroscópio descobre-se, ainda, que a roda, que fora a maior invenção mecânica do homem, não passará de peça de museu. O rádio-transporte anulará o corre-corre cotidiano das pessoas. Em vez de irem todos os dias para o trabalho e voltarem espremidas num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, as pessoas usufruirão da comodidade de executar suas tarefas em casa, de onde as irradiarão para o escritório. Trabalhar-se-á a distância, feito conseguido recentemente com a Internet. Mais do que servirem de objeto de análise, como ensinou Freud, os sonhos seriam fartamente exibidos no cinema como entretenimento. O livro, como se vê, é inapelavelmente prospectivo e futurista. Segundo as revelações de Jane, três candidatos disputarão os votos na eleição americana: o negro Jim Roy, a feminista Evelyn Astor e o presidente Kerlog, candidato à reeleição. As contendas em torno das relações de gênero favorecem a eleição do candidato negro, que obtém 54 milhões de votos (o Partido Masculino ficara com 51 milhões e o Feminino com 51,5). A vingança da população branca, que se alia ao partido das mulheres, é de uma maldade engenhosa: a fabricação de um produto para alisamento de cabelos crespos. O negro que se aventurasse na mudança de sua estrutura capilar estaria condenado à esterilização. Eis a ardilosa reação contra a inaceitável vitória negra. No âmbito das relações de gênero, a situação mudaria significativamente: em 2228 a mulher conseguira se livrar do jugo masculino, participando da vida nacional em pé de igualdade com os homens. No Brasil de 1926, orientado por teorias racistas, Monteiro Lobato é um defensor aguerrido dos ideais eugenistas. O escritor confessava-se admirador dos Estados Unidos, que, na época de publicação do livro, serviu de exemplo para a definição de uma modernidade brasileira: desenvolvimento econômico, em particular da indústria automobilística, Lei da Segregação Racial... Em carta a Renato Khel, médico brasileiro responsável pela expansão das idéias eugenistas no país, Monteiro assevera: Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque [o livro], grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato.” O presidente negro, mais do que uma ingênua obra de ficção futurista montada em torno de um inverossímil aparelho de ver o futuro, expressa anseios e medos de um país que nega, veementemente, as ancestralidades desconfortáveis. Lobato acreditava piamente que a eficiência equacionaria todos os problemas materiais dos americanos, como o “eugenismo resolveria todos os problemas morais”. Reurbanização, disciplina e políticas de higiene pública foi o tripé que sustentou as políticas pensadas para tornar o país “civilizado”. O livro apóia-se em ideais racistas, que procuravam na ciência a sua legitimação. Aspirava-se a pôr ordem no “caos social” (medo burguês da multidão, da população majoritariamente negra deixada a sua própria sorte, principalmente nos centros urbanos). A solução tupiniquim foi, como se sabe, inspirada nas teorias degeneracionistas européias do século XIX que criticavam a miscigenação dos trópicos. Com a forte possibilidade de se ter pela primeira vez na história dos Estados Unidos um dirigente negro, o livro de Lobato revela sua face assustadora. Muito se tem especulado se os EUA (e o mundo) estão “preparados” para ter um presidente negro. A prêmio Nobel de Literatura, Doris Lessing, disse, sem rodeios, em entrevista ao diário sueco "Dagens Nyheter" que, caso consiga chegar à Presidência dos Estados Unidos, o senador Barak Obama poderia ser assassinado. A vingança da população branca no romance lobatiano foi o gradativo, mas não menos eficiente, extermínio da “raça negra” por meio do processo de alisamento de cabelos. Pelo muito do que a obra profetizou, uma preocupação é inescapável para as eleições americanas de 2008: qual seria a reação daqueles que, como disse Lessing, estão “despreparados” para aceitar a idéia de se ter um presidente negro? Blog e charges racistas de plantão já mostraram a que vieram. A famosa revista The New Yorker publicou caricaturas de Obama e sua mulher, Michelle, em que os dois foram designados como terroristas. Pelo que dizem por aí, isto é só o começo. Fiquemos vigilantes!" (*Rosane Borges é doutora em Jornalismo e Linguagem pela Escola de Comunicações e Artes da USP, diretora do Instituto Kuanza, integrante da Cojira-SP).

22 de jul de 2008

O que é família para você?

(Informe publicitário) "Os programas habitacionais do Governo do Estado (DF)vão atender novos públicos. Antes restritos a famílias constituídas por casamentos civis ou religiosos ou uniões estáveis, a partir de agora, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) adotou um conceito mais amplo de família como critério de atendimento à população. A base do conceito de família ampliado não é jurídica, e sim, alicerçada no afeto. Famílias mononucleares, ou seja, pais e mães solteiros, uniões conjugais do mesmo sexo, com ou sem filhos, famílias anaparentais, representadas pela união de avós e netos, tios e sobrinhos, irmãos e primos, por exemplo, além de uniões cujos membros considerem-se familiares, mesmo não havendo laços parentais, terão direito a pleitear um moradia viabilizada pela CDHU. Outra novidade é que indivíduos sozinhos, a partir de 25 anos, também terão o direito a se candidatar para adquirir uma moradia. A mudança no conceito incorporado pela política habitacional do Estado é decorrência da dinâmica nas configurações familiares na sociedade atual. Para fundamentar a medida, a CDHU tomou como base os princípios da Dignidade e da Igualdade da Pessoa Humana, expressos na Constituição de 1988. De acordo com secretário de Estado da Habitação e presidente da CDHU, Lair Krähenbühl, essa alteração nos critérios de atendimento da Companhia é necessária para adequar o atendimento à realidade. 'É como se estivéssemos vivendo no passado. Precisávamos acompanhar as mudanças e nos adequarmos para melhor atendermos a população. Esse novo conceito de família resgatou para o Estado uma prática mais saudável que atende à nova realidade, uma dinâmica verdadeira da sociedade', afirma o secretário."

21 de jul de 2008

Alguma poesia

Tinha fome de poesia, olhava o mundo e não havia. Então fui aos poetas. Primeiro Bandeira, de quem nunca lera um livro, apenas poemas esparsos. Li dois, logo: “Libertinagem” e “Estrela da manhã”. Depois Drummond, companheiro de viagem desde a infância, quando o conheci cronista, “Sentimento do mundo”. Drummond é “tudo”! Eu diria, caso fosse moderninha. Não sei o que dizer de Bandeira, que não me emociona assim. Peço ajuda ao poeta de Itabira, aquele que disse tanto sobre todas as coisas: “Esse incessante morrer/que nos teus versos encontro/é tua vida, poeta,/e por ele te comunicas/com o mundo em que te esvais” ( “Ode no cinqüentenário do poeta brasileiro”). Depois Vinícius, “Para viver um grande amor”. Há mais de vinte anos não lia um livro inteiro de Vinícius. Lendo-o, mais madura, compreendi porque um dia João Cabral vaticinou: não fosse a dedicação à música popular, Vinícius seria o maior poeta de língua escrita do Brasil. Não foram exatamente estas as palavras, principalmente o “língua escrita”, mas este era o sentido. No meu coração ele não disputaria espaço com Drummond, Quintana e Edimilson, mas oh poetinha danado pra escrever bem e surpreender a gente com a poesia das coisas, aquela que meus olhos me privaram de ver, nos dias de triunfo da tristeza. Escrever bem é dever de ofício de quem se pretende escritor, lembraria Raimundo Carrero. Desculpem a imprecisão conceitual, mas vocês entenderam o que quis dizer. Escritor que quer dizer, não diz nada, o que está escrito, está dito. Ai, meu Deus, sinuca de bico, crueza da razão. Um drible de Garrincha, então, pra aliviar e encantar os olhos: “A um passo de Didi, Garrincha avança/Colado o couro aos pés, o olhar atento/Dribla um, dribla dois, depois descansa/Como a medir o lance do momento./Vem-lhe o pressentimento; ele se lança/Mais rápido que o próprio pensamento/Dribla mais um, mais dois; a bola trança/Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!/Num só transporte a multidão contrita/Em ato de morte se levanta e grita/Seu uníssono canto de esperança./Garrincha, o anjo, escuta e atende: __ Goooool!/É pura imagem: um G que chuta um o/Dentro da meta, um l. É pura dança!” (Vinícius de Moraes, “O anjo das pernas tortas”).

Lançamento Hip Hop Mulher, em São Paulo

19 de jul de 2008

Fiz minhas velas ao mar

Hoje, o Estadão, jornal de São Paulo, publica os dez vencedores de concurso alusivo aos 50 anos da Bossa-nova. Havia uma exigência de número de linhas e também que se incluisse a frase "não quero mais esse negócio de você longe de mim". Abaixo, o meu "Fiz minhas velas ao mar", integrante da lista dos 590 não-classificados. Engarrafei meu xaveco-mor, lancei-o ao mar, dizia assim: “Ah... se Iemanjá me concedesse a graça, meu encanto, de me tirar do meu rio fundo, de pranto, só riso, sorriso, sabor do teu canto”. Evoquei o doce da Oxum e o inusitado do mar a meu favor. As forças da natureza até que tentaram ajudar, mas você desdenhou das minhas pretensões, intitulou-se muita luz pra pouco túnel, muita areia pro meu caminhãozinho. Desavergonhada, insisti. Abandonei o assovio em Fa, quis o Sol. Você chamou de brega a minha canção. Era brega, admito. Mas quanto de emoção esconde uma música brega bem aplicada na femoral do vivente? Heim, heim? Coração de pedra, esquife gelada! Eu sonhei com o amor da minha vida, amor que me daria a vida trazida do encontro das águas, me encantaria como uma sereia. Compus um samba de duas notas, as sílabas do seu nome, repetidas na pulsação do meu peito combalido. Você nem piscou os olhos antes de pisar no meu sambinha triste, jogá-lo na lama e manchar o meu nome. Persisti. Desferi o xaveco do botão (eu) que se abre depois do orvalho e se descobre flor, porque o sol (você) raiou. Bonito, fale a verdade, e original, se a senhora quer saber. Mas nem isso tocou esse músculo desalmado, encolhido entre costelas, inebriado pelas luzes da ribalta. Não quero mais esse negócio de você longe de mim, mas tudo conspira a meu desfavor. Você não me enxerga, não percebe meu amor, todos os poemas e gentilezas que faço, todas as flores virtuais que envio. Oh raios e trovões, nem os santos, nem o sol, nem o mar, nem as estrelas, nada me vale. “Diz aí, ceguinho trovador, que xaveco infalível você cantaria pra essa mulher?” “Ah mana, eu descreveria o azul”. “Mas como, se você nunca viu o azul?” “É aí que mora o segredo. O desconhecido você imagina e molda, a seu gosto. Quer um conselho de mestre, ou não?” “Quero, quero, manda aê”. “Pergunte-lhe se ela sabe o que é o azul. Antes dela desmanchar a interrogação do rosto, pegue-a de jeito, dê uma chave de pescoço no coração relutante.” “Como, meu velho? Sou um grão de areia na solidão de diva que desertifica a alma dela.” “É preciso acreditar no galanteio, minha cara, tenha fé, diga-lhe que o azul é a cor da voz de Milton Nascimento cantando Dolores Duran no ouvido, sob a lua cheia, perfumada por uma dama da noite. Infalível, maninha. Manda essa, depois vem aqui me alegrar com o desfecho, compor comigo um cordel”.

18 de jul de 2008

Mais que um livro (ou "meu presente de sexta-feira")

(Por: Alessandro Campos, do Japão) "Finalmente meu livro! Bom, o livro é da Cidinha da Silva, mas agora tenho eu uma edição para tocar, olhar, mexer, levá-lo alí e aqui. A Cidinha em seu blog antes da publicação do seu segundo livro, Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! (Mazza Edições, Belo Horizonte, 2008), vinha nos agraciando com algumas das histórias que estão no livro. Bom, agora pude ver tudo. Como dizer algo daquilo que parece ter sido feito para você, ou para alguém que conhece? Para mim, há a sensação do livro contar coisas do povo da cidade, do lugar enorme, com muitas pessoas, de encontros e desencontros que nem imaginamos. Sempre vivo e pulsante. Assim como nos marca o ritmo da metrópole. As histórias são cheias de lírimos, sonhos, ironia, sexo, resignação, mais ironia, muito mais humor, buscas e aceitações. O livro é bonito e triste às vezes, mas na maioria dos momentos é instigante, forte e provocante. Como disse, ele me parece urbano. Seja alguém que precisa tomar o ônibus do centro de São Paulo para qualquer parte de sua gigantesca periferia, ou da pessoa silenciosa no metrô lotado de Tokyo, ou quem sabe o pedestre do Brooklyn em Nova York, o fato é que na vida, esteja onde estiver, como no livro da Cidinha, não há ninguém que dispense boa companhia, reconhecimento, carinho e atenção. Talvez, alguém no caminho da total liberação espiritual tente dispensar parte dessas coisas, numa forma de desapego, mas em um livro que há um Tambor soando em cada página, é outro tipo de iluminado que aparece. Temos lá a condição humana, a magia da vida sem grandes pretensões, mas não menos bonita e humorada, tentando se libertar do que incomoda. O livro nao tem idade. Ele é para todo mundo. Mas me vem uma impressão diferente. Agora não tenho mais trabalhado com meus alunos de ensino médio, mas vou esperar ansiosamente por essa oportunidade novamente. Fico imaginando como será ler com aqueles jovens todos loucos por um bom emprego e um marido -ou uma esposa - algo como "Meu Marido"; pensar com aquelas meninas-mulheres o que "Lições" nos fala sobre o corpo e o prazer; em "O Outro Amor" a provocação, a inquietude e a verdadeira imoralidade; e o que dizer sobre "Amor na Pós-modernidade"? Um grito que vai longe e o inevitável espelho que aparece por obrigar a reconhecer que em algum momento isso aconteceu assim mesmo, contigo, comigo ou com alguém bem perto. Entretanto, ele não se limita a isso. É poesia pura, do tipo que te faz gostar e querer mais, inclusive quando é dura, já que não veio passar a mão na cabecinha de ninguém. Seria uma falta nao dizer que é justa tambem - e aí é só virar a página que tem mais logo alí! Muito mais! Durante minha leitura fiquei pensando sobre mim mesmo, e também com um desejo enorme de ligar para algumas pessoas e falar: “ei, escuta isso. É a sua cara! Tá vendo, fica tranquilo então, que nessa vida só a morte é que não se dá um jeito, o resto...” e como não dá pra ligar para todo mundo, vá conferir por si mesmo e me conte o que achou. Abraços".

Abertura da exposição Bijagós, no museu Afro-Brasil

17 de jul de 2008

Domingas e a cunhada

Elas dormem juntas e isso é público, mas ai de quem as declarar amantes. A casa tem apenas um quarto, cuja porta sempre fica aberta e donde se vê uma cama de casal. Uma trabalha na feira. Vende abóbora, batata, milho. Tudo colhido de seu pequenino roçado. A outra cuida da casa e dela também, que fuma muito e tem uma tosse intermitente. O que se conhece da história das duas é que a primeira, Domingas, parou em Buritizeiro fugindo da seca. Saiu de Pernambuco em 1942, com dezesseis anos e seguiu o curso do São Francisco até chegar lá. A cunhada, que pouca gente sabe o nome, diz que saiu de Serra Talhada menos de um ano depois, atrás do marido que julgou estar com a cunhada, Domingas. Não encontrou o marido, mas achou Domingas e passaram a viver juntas. Quando Domingas a chama, geme alguma coisa como “Mindinha”, ou só “Inha”. E é assim que o povo a chama também, nas raras vezes que se dirige a ela. Tranqüila, calada, não é de conversação com a vizinhança. Quando mais nova falava-se muito da sua beleza. Pequena, rosto largo e vasta cabeleira preta. Uma bela índia. Domingas não era bonita, não. Nunca foi. Vida social as duas não tinham. Só a ex-freira holandesa visitava-as com freqüência. A freira morava com uma amiga e mudava de amiga de vez em quando. O povo maldava as amizades dela, mas, ao contrário de Domingas, ela não se importava. Era a única que sabia a história verdadeira e escreveu uma novela para participar de um concurso na Europa, depois da morte de Domingas e da autorização de Inha, que se descobriu chamar Arminda. Arminda, aos catorze anos e meio casara-se com Tonho, irmão mais velho de Domingas. Ele, desde criança, era encantado pelo Cangaço. Quando soube da morte de Lampião, resolveu ser cangaceiro para vingá-lo. Deixou o casamento recente e entrou para o bando de Corisco. Lá deixou de ser Tonho para se tornar Cabelinho de Fogo. Sempre fora desastrado e conseguiu dar um tiro na própria mão, o que lhe custou três dedos. Abandonou o grupo. Envergonhado, vagou pelos matos sozinho durante meses, antes de voltar para casa e comunicar à Arminda que se lançaria no mundo, mas sem ela. Tinha pouca condição para cuidar de si e nenhuma para cuidar dela. E foi embora. Domingas já havia partido e Arminda se perguntava por que não fora com ela, por que tivera medo de seguir a única pessoa que cuidara dela na vida. E como a vida de Arminda era esperar, esperava a carta prometida por Domingas. E a carta chegou. Foi baseada nela, no tesouro de Arminda, que a freira escreveu a novela. “Minha flor de mandacaru, depois de mês viajando, cheguei a uma terra onde tem água nos rio. Tem também uns bicho feio, de madeira, que eles chama de carranca e diz que espaventa espríto ruim dos barco. Minha estrela-guia foi a lembrança daquela noite de lua cheia que cê dormiu nos meus braço. Grudada. Um bumbo batendo dentro do seu peito e cê suaaava de medo. Foi o dia mais bunito da minha vida. Teve também as estrelinha miúda das outra noite que cê fazia que ia, mas saía correndo porque o medo tomava conta. E o Tonho nunca que voltava, nem deve de tê voltado. Cê num falava mais comigo e se eu ficasse mais um pouco sem aquela comida, cozinhava os miolo de sofrimento. Agora cê já sabe onde eu tô. Pega o barco e vem. Domingas.” E assim as duas meninas, uma de dezenove e a outra de dezesseis, se encontraram em Buritizeiro e viveram juntas por mais de cinqüenta anos, como irmã do marido fujão e cunhada. E ai de quem dissesse algo diferente. (Do livro Cada tridente em seu lugar. Arte: Iléa Ferraz).

16 de jul de 2008

Literatura lesbiana

(Por: *Glória Azevedo). "Pela segunda vez participo de um concurso de literatura da chamada "Literatura Lésbica". A começar pelo título, já me parece problemático, deveria ser literatura, apenas, sem o direcionamento ou lugar demarcado do gueto, das margens. E ao invés de coletânea de contos lésbicos, como as publicações são chamadas, deveriam pelo menos serem chamadas de narrativas lesbianas, termo apropriado e reconhecido teoricamente nos estudos afins. Outra crítica que faço a esses concursos- embora participe deles e pretenda continuar participando, é quanto ao tipo de narrativa que parece ser de ordem dos relatos eróticos, com páginas de descrições das ações sexuais nas relações amorosas das protagonistas. Resumindo, toda narrativa lesbiana parece ser obrigatoriamente erotizada. Parece não haver espaço para uma análise subjetiva e histórica das personagens e dos espaços sociais. O tempo é sempre o agora, mas o agora sem reflexão. A narrativa quase sempre se resume à busca de uma mulher já assumida e entiada por sua princesa, da saída de armário de uma outra e da transa cinematográfica com a princesa encantada-encontrada e desencantada. Se assim não o for, aas histórias estarão fadadas a serem consideradas como uma "literatura sem teor lesbiano". E há que ter “línguas, dedos, xoxotas molhadas” e todo o Kama Sutra. Mas,dessa literatura o que ficará acerca da constituição das personagens, da percepção de si, da problemática individual que sirva também de questionamento para as leitoras? Essa literatura não nos representará e ainda que discorramos sobre a tirania heteronarrativa, da falta de livros que tratem das relações afetivas não apenas heterossexuais, pouca coisa do que se produz da narrativa lesbiana nos servirá. Não falo aqui nem em nós leitoras formadas e seletas (porque neste caso tende a se complicar o nosso olhar), mas nas leitoras em formação. Certamente, essas produções não as marcarão. Acho eu que continuaremos tendo duas estantes: a da literatura que durante e após a leitura nos preenche, surpreende e transforma e aquela dos relatos sexuais que depois de feita a leitura (com puladas de parágrafos e de quase páginas inteiras), fechamos o livro sem vontade de voltar à leitura que não resultou em frases guardadas nem momentos para reflexão. Que literatura estamos construindo e que leitoras estamos formando? Porque não conseguimos produzir ainda uma literatura reflexiva? Aqui me lembro agora de contos e alguns romances de autoras heteros, mas que escreveram sobre o amor entre mulheres. São textos delicados, profundos e questionadores. São textos das relações pessoais de mulheres num mundo heterossexual que não aceita a quebra dos tabus. São textos de embates, são textos poéticos, lúcidos e bem escritos. São textos que merecem ser lidos porque ficarão na lembrança. Há outra questão problemática e delicada e que talvez esteja associada ao tipo de texto que produzimos: publicamos com pseudônimo. Somos ghost writer de nós mesmas, somos sombras. O que leva uma autora a publicar com pseudônimo, coisa que ela não faria se estivesse publicando um livro de "temática heterossexual”? Acaso tem a autora vergonha do que escreveu? Tem medo de ser reconhecida como lesbiana? Ela não pode ser apenas uma ficcionista e se for ficcionista e lesbiana isso é motivo para esconder-se? De quem ela se esconde ou o que ela esconde? Esconde sua condição sexual ou esconde sua literatura? O que a faz não achar que o que escreve tenha valor literário e que seja vergonhoso ser apontado como obra dela? Sim, são anos de silenciamento e de ausência de uma literatura que tratasse dignamente as relações afetivas entre mulheres. Digamos que apenas muito recentemente as autoras brasileiras têm tirado suas narrativas do armário e posto essas mulheres que amam mulheres para circularem no papel, mas enquanto essas mesmas autoras se esconderem entre a mulher pessoa física (do Imposto de Renda) e a ghost writer da narrativa lesbiana erotizada, ela também pouco contribuirá, porque o que ela pensa, cria e materializa é intimidante também para ela e parece ferir seus princípios de mulher bem comportada, mas com uma mente criativa, engenhosa. É como se lhes perguntassem: "você escreve isso? Nossa, nunca esperei que você fosse capaz disso!" A literatura lesbiana ainda envergonha aquela que a produz e parece que o véu da inquisição paira como uma iminente varredura de caça às bruxas e que as apontará publicamente por aquilo que escrevem. Os homens que escrevem literatura gay não usam pseudônimos e essa literatura não está mais restrita ao universo gay nem tampouco classificada como tal. Ela já circula mais abertamente em livrarias, ambiente acadêmico e bibliotecas. As capas dos livros não aparecem mais com dois homens apelativamente nus. Coisa que ainda não acontece com a narrativa lesbiana. O que ocorre conosco mulheres que não produzimos uma literatura lesbiana consistente, respeitada e não envergonhada? Ou "carregar bandeira" ainda é um "cargo muito pesado para as mulheres/ essa espécie ainda envergonhada” (como fala um verso de Adélia Prado) acerca do que escrevemos e desejamos. Ainda não produzimos uma literatura madura, reflexiva e revisionista dos valores afetivos heterossexuais estabelecidos como norma e como assunto literário. Não produzimos ainda uma literatura que se sustente pelo que diz ou representa, a literatura lesbiana ainda nada propõe. Ela é um relato que termina quando se fecha a última página do livro e quase sempre é um término melancólico pela percepção de que mais uma vez reafirma a margem em que a colocaram. Não cobro à literatura lesbiana um universalismo literário e sim qualidade literária. Mas, fechando o início desse texto, continuarei participando de “concursos de contos lésbicos” e quando selecionada publicarei com meu nome e tentarei fazer uma literatura menos erotizada. Não deixarei meu texto no armário, mas também não o sucumbirei ao espaço limitado da margem". *Glória Azevedo é doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília- UnB e mestre em Literatura Brasileira também pela UnB. Professora de Literatura Brasileira na Universidade Federal dô Tocantins- UFT, escreve poesias e contos aos quais chama de "exercícios voluntários de solidão involuntária". É editora do blogue www.orisodemedusa.blogspot.com

15 de jul de 2008

Sobre o contador de visitas

Como vocês devem ter observado, temos agora um contador de visitas no blogue. É um desejo antigo e agora consegui um técnico para instalá-lo. É bom ter idéia dos lugares por onde andamos e junto a quem. Findos os oito dias iniciais, fiz as primeiras contas e fiquei brincando com os dados. O contador foi instalado na noite de sábado, 05/07, e no domingo, 06/07, o blogue bombou, foram 110 visitas, 12 ou 14 países, de cara. Pensei que no domingo seguinte ocorreria o mesmo quanto ao número de visitas, qual nada, 52 visitinhas, apenas. “Está esnobando, dirão alguns, 50 visitas são muitas visitas.” Têm razão, admitirei. É que, neste caso, quando a gente chega aos três dígitos, não quer perder peso e bota banca, mesmo. Não pensei que o número de países fosse dobrar ou aumentar muito, de uma só vez, mas tinha a expectativa de que os clics dessem mostras de fidelidade, que Guiné-Bissau, Venezuela, África do Sul, etc, pulassem de um clic para dois (pelo menos). Assim, eu imaginaria que o mesmo visitante estava de volta. Nada disso aconteceu. Entretanto, uma disputa interessante ocorreu entre Angola e Estados Unidos, ao longo da semana. O Tio Sam estava na frente e eu imaginava um angolano aguerrido, combatente na Rede Mundial de Computadores, entrando no blogue para visitas de médico que garantissem a dianteira à terra de Agostinho Neto. Isso porque sabemos que as conexões em Angola não são a coisa mais fácil do mundo, então é muito significativo para a blogueira que vos escreve, que aquelas terras ricas, de gente tão empobrecida e merecedora de acesso à riqueza, esteja numericamente mais representada que os EUA, sua antítese, em termos tecnológicos. O visitante do Japão, por enquanto é conhecido, meu querido Alessandro. O da Suíça, idem idem, o Lima. A média está sendo de 80 clics diários. Agradeço a cada um e, como os jogadores de futebol do Brasil, prometo à torcida dar o melhor de mim para manter atualização diária do blogue. Enquanto não tiver uma seqüência de viagens, rola. (Arte: Iléa Ferraz).

14 de jul de 2008

"Da dor e da alegria dos tridentes: fios que encenam a vida social e política brasileira" (excertos)

(Por: Vera Lúcia da Silva Sales Ferreira, Doutoranda em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, na PUC-Minas). Resumo Este trabalho apresenta uma leitura do livro Cada Tridente em seu lugar, de Cidinha da Silva, com ênfase na análise dos recursos literários utilizados pela escritora para, por um lado, dar destaque à cultura afro-brasileira e, por outro, desvendar os meandros que regem as relações sociais no cotidiano da vida dos brasileiros. “Reflitamos, sobre as diferenças encontradas nas duas edições. Uma é a mudança no título, do qual se retirou a palavra “crônica” e ocasionou uma abertura, em termos de significante, que permitiu ao leitor enveredar-se pelas muitas possibilidades apresentadas pelo conteúdo da obra. A outra é a retirada de algumas narrativas que tratavam da questão de gênero. Uma possível especulação a este respeito é que talvez tenha sido o desejo da autora dar uma unidade à obra, sem levantar tantas bandeiras, inclusive, porque abriu-se a possibilidade de inclusão de outras narrativas que ajudaram a sedimentá-la e propiciaram também uma nova organização em relação à divisão das partes. Entretanto, apesar das mudanças, percebemos que já havia um intuito de unidade estrutural, de um fio condutor que pode ser percebido pela presença da mesma epígrafe nas duas edições: Ocê pensa que caminho e estrada é tudo a mesma coisa, mas tá errado, minha fia. A estrada é uma coisa, o caminho é outra. A estrada é uma via, uma picada no mato , um cortado no chão e é muita. O caminho é quando ocê escolhe uma estrada pra seguir e chegar no seu lugar. Exu Tranca Rua.Um início de escritura que não deixa dúvida ao leitor quanto à postura da autora de querer construir, não uma picada no mato, dispersa, mas experimentar caminhos que a transportam para uma construção textual que lhe permita, inclusive, chegar “ao seu lugar”. E essa preocupação pode ser reforçada a partir de sua declaração de que “( a epígrafe) é a metáfora da obra, meu fio de Ariadne, minha linha condutora. Eu escrevi o Tridente experimentado, buscando um caminho (...) Em Cada Tridente em seu lugar, Cidinha da Silva, sujeito, participante crítico de um processo social, cede lugar à autora que, diante da transformação a que o imaginário conduz, recoloca sua visão crítica em termos de uma concepção artística, sem se deixar levar por uma ideologia simplista, por um discurso panfletário. Tendo como fio condutor, que permeia toda obra, a alteridade do negro, reconhece a oposição entre brancos e negros e, a partir desta tensão, fruto da ambigüidade que se estabelece, põe em evidência, às vezes, de forma bem humorada, as contradições históricas e atávicas, existentes na sociedade brasileira (...) Seu Marabô flutua, gira de lado, tira o chapéu, cumprimenta as pessoas e sorri de lado e, dotado de um saber cósmico, sentencia: (...) recomendou a uma moça que derretesse em tacho de estanho o orgulho que lhe obstruía o peito, os olhos e a respiração. À outra falou um negócio sobre a cavalaria que ela trazia dentro do peito. Disse que cavalo cansado não ganha guerra. Precisa parar, descansar, beber água e dormir. Disse que se o cavalo está cansado, na hora em que o cavaleiro mais precisa dele, o bicho resfolega e não responde. (...) A mim, disse que eu era dele, que carregava o povo dele (SILVA, 2007, p.21). O conto nos remete às fronteiras do vivido e do profetizado. Ao incorporar um ente que habita outro espaço, a narrativa “Seu Marabô” deixa fluir o conhecimento que a personagem possui dos meandros da vida, sabedora de que cada um tem que carregar a sua cruz. Os aconselhamentos ressaltam a sabedoria que está nos provérbios, nos ditos populares que, aliás, possuem a mesma fonte de aprendizagem: o orgulho não leva a lugar algum, o descanso é um oásis nesta vida difícil e alguns seres aqui estão para servirem de condutores, canais para as vozes do além que, em última instância, estão dentro de nós (...) Na segunda parte do livro, nos deparamos com a vida reinventada. A literatura, como forma de metaforizar a realidade, transforma o mundo em uma varanda e, a partir dos olhares dos narradores, o cotidiano é encenado. Os textos enovelam narrativa e drama, o que permite inovações semânticas - “Você se tortura para saber onde quebrou.” - ; sintáticas – “Opsevê um negócio desses.” - ; e lexicais – “Um passo preto canta numa viagem...”; que geram uma escrita falante e gestual que, de acordo com Leda Martins (1977), pode ser denominada encruzilhada, pois nasce de vias diversas de elaborações discursivas (...) Na terceira parte do livro, deparamo-nos, de uma forma muito mais contundente que nas duas anteriores, com questões que falam muito de perto ao dia-a-dia da população afro-brasileira. As narrativas denunciam, com um discurso mais vigoroso, mais agressivo, a invisibilidade do negro, na representação dominante da história do Brasil; mostram a negação de sua alteridade diante da sua desumanização pelo sistema dominador opressivo e problematizam o aprisionamento, num ciclo vicioso de estereótipos e preconceitos, que reificam o racismo no Brasil, e que condenam os negros, muitas vezes, a viver alheios a seus próprios códigos culturais (...) Levando em consideração as possibilidades de leituras, acima descritas, podemos afirmar que o livro Cada Tridente em seu lugar é encenado através de uma prática textual marcada por singularidades. A linguagem, construída a partir de uma variação de procedimentos como a ironia, o humor e um incessante jogo de deslizamentos, é uma garantia da perfeita interação que os textos têm com o leitor. Uma interação tão simétrica que escolhemos para concluir este trabalho, a reprodução de ‘Amai-vos uns aos outros’: Escrevo pra me vingar. Declarou Marcelino durante a oficina. De um sentimento, uma situação, um (des)amor. Imagine que eu também me vingue. Negrinha ressentida. Você não acha que essa amargura que o negro carrega no peito é a causa principal do racismo? (SILVA, 2007, p.91)."

13 de jul de 2008

Quem conta um conto, estudos sobre contistas brasileiras estreantes nos anos 90 e 2000

“Quem conta um conto, estudos sobre contistas brasileiras estreantes nos anos 90 e 2000, organizado e coordenado pela escritora, pesquisadora e professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Helena Parente Cunha: é um projeto ousado, por não se furtar a refletir sobre a literatura que está sendo feita aqui e agora, e inovador, por trazer para a discussão autoras estreantes, publicadas em sua maioria por pequenas e desconhecidas editoras fora do circuito comercial e do eixo Rio-São Paulo.” Assim o livro é apresentado em uma resenha de livraria, na verdade, um excerto do prefácio escrito pelo Luiz Ruffato. Aliás, um belo prefácio, intitulado “A conquista do espaço “, que começa assim: “Um olhar atento aos compêndios de literatura brasileira – ainda hoje! – revela-nos uma estranha ausência: podemos contar nos dedos (da mão direita) o número de mulheres que conseguiram romper o constrangimento da mera nota de rodapé: Rachel de Queiroz (1910-2003), Clarice Lispector (1920-1977), Lygia Fagundes Telles (1923)... e, quem mais? Ana Cristina César (1952-1983)? Hilda Hilst (1930-2004)? Se o valor estético da obra das autoras citadas é consensualmente reconhecido, outros nomes importantes, entretanto, acabaram empurrados para a nebulosa zona do esquecimento. A razão disso parece-me evidente: o tribunal que julga quem deve e quem não deve participar do cânone literário sempre se formou por homens – basta lembrar que até a década de 1970 a única ensaísta a se impor nesse universo majoritariamente masculino foi Lúcia Miguel-Pereira (1903-1959), que tornou-se, aliás, referência na crítica brasileira” (p.9). Naquilo que chamou de “Apresentação desnecessária”, Elódia Xavier, professora adjunta da UFRJ, afirma: "Este livro apresenta trabalhos sobre contistas pós-modernas, sempre mantendo a preocupação de dar visibilidade a escritoras nem sempre conhecidas. As contistas selecionadas, em sua grande maioria jovens, são de origem variada; variedade esta que contribui para o ecletismo literário, tendo mesmo uma afrodescendente entre elas” (p.16 – grifo meu). Helena Parente Cunha, a organizadora, tem uma visão mais estratégica e abrangente da inclusão de uma obra minha dentre as analisadas, diz ela: “Excepcionalmente foi incluída uma doutoranda da PUC Minas, convidada pela pertinência de seu projeto com questões referentes à literatura afro-brasileira que não poderia deixar de vir representada neste livro, considerando-se a vasta produção existente de suas escritoras” (p.20). Os textos do livro foram escritos por estudantes de pós-graduação orientados por Helena P. Cunha. A obra, segundo ela, “não propõe um mapeamento da contística brasileira da virada do século, nem muito menos uma seleção das melhores produtoras de contos do período. As quatorze escritoras aqui em pauta foram escolhidas por cada autor e autora destes artigos em função do gosto pessoal de cada um (a) e por um critério estabelecido anteriormente, voltado para o possível diálogo do texto com o contexto. Em princípio, as obras apresentadas estão inseridas na problemática mais palpitante dos anos pós-modernos” (p.19). Gostei muito do livro, de alguns artigos, especialmente, e isso me motivou a buscar as autoras, pois não as conhecia. Minha participação se deveu a uma indicação generosa da escritora Conceição Evaristo, a quem agradeço.

12 de jul de 2008

"Lélia Gonzalez, uma amefricana" (1935-1994)

(Por: Elizabeth Viana, Mestre em História Comparada/UFRJ. Publicado no Irohin, N.17) "O período compreendido entre as décadas de 1960 e 1970 foi marco das lutas políticas de contestação no mundo ocidental, onde setores expressivos de varias sociedades ansiavam por mudança e transformação. É nesse cenário e seus desdobramentos que podemos inserir Lélia Gonzalez e seu pensamento (e sua trajetória de vida). Passados 12 anos (14 anos) de sua morte, ela permanece como referência. Mas quem foi essa mulher negra? Lélia de Almeida Gonzalez, penúltima décima sétima filha de Acácio Joaquim e Urcinda Seraphina de Almeida, nasceu em 1º de fevereiro de 1935, em Belo Horizonte/MG. Foi professora, tradutora, conferencista, consultora, assessora, conselheira, suplente de deputada e ativista. Estudou nas escolas Manoel Cícero, Rivadávia Correia e no Colégio Pedro II (1954), graduou-se em História e Geografia (1957/1958) e Filosofia (1961/1962) na Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da Universidade Estadual da Guanabara/UEG, atual UERJ. Nesse último curso, conhece e se casa com o seu colega de turma, Luiz Carlos Gonzalez. Com a morte do pai, seu irmão Jaime de Almeida, que jogava no Flamengo, transfere a família para o Rio, em 1942, época em que o clube conquista o seu primeiro campeonato e sucessivamente os de 1943 e 1944, tornando Jaime uma de suas lendas. Segundo o cronista Mario Filho, o clube ambicionava ser o “mais querido” do Brasil, apesar de ter sido uns dos fundadores da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos, AMEA, (1924), para barrar a ascensão do Vasco –que incluía negros e mulatos - e manter ariano, como destaca Edson Carneiro, o futebol brasileiro. Foi uma provação para negros como Jaime. O contexto era o da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo. O cronista o descreve como um negro bonito, saudável, digno e de boa alma, que em tudo “recendia a limpeza, a bondade, a lealdade”, somente comparável a “um mordomo do velho Sul dos Estados Unidos”, enfim, para ele, um verdadeiro “Gandhi”. Jaime foi para Lélia seu pai simbólico e modelo. Lélia foi a única a ultrapassar o ensino primário e, essa conquista, como fazia questão de destacar, ela alcançou graças aos seus irmãos que aceitaram sua reação contrária em ser babá de “filhinho de madame”. Estudou numa escola de excelência, mas, segundo ela, foi onde efetivamente começou a incorporar a “ideologia do branqueamento”, que a tornou uma pessoa insegura, tímida e reprimida, porque “apreende aquelas baboseiras sobre os índios e os negros” até a universidade e esta última não trata nos “devidos termos” essa questão. Assim, Lélia adquiriu “gostos refinados” para a “música clássica dos europeus”, rejeitava música popular e o samba. Considerava as religiões de matrizes africanas “primitivas” e ostentava o símbolo do branqueamento: uma peruca. Ela, olhando o passado com os olhos do presente, compreende que queria ser uma “lady”. Enquadrada “perfeitamente” dentro do sistema universalista sua ascensão foi fulgurante. Entre 1962 e 1968 lecionou em colégios públicos e particulares: Colégio Piedade, Colégios Andrews, Colégio Santo Inácio, Colégio de Aplicação da UEG, Instituto de Educação e C.E.P (Centro de Estudo de Pessoal) do Exército Brasileiro. No ensino superior, em 1963, nas Faculdades de Filosofia de Campo Grande (FEUC) e Filosofia, Ciências e Letras (UEG), Faculdades Integradas Estácio de Sá, na qual exerceu as funções de Coordenadora do Departamento de Estudos e Pesquisas do Centro Cultural, (1973-1974), Vice-Diretora da Faculdade de Comunicação (1973-1974), e Diretora de Departamento de Comunicação (1974 – 1975) na Universidade Gama Filho/UGF e na Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ. Com a radicalização do quadro político foi demitida, juntamente com uma parte dos professores, das universidades Estácio de Sá e Gama Filho, onde era efetiva. É convidada para lecionar na Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio). Nos meios universitários, com pouco mais de 30 anos, já tinha uma certa expressão e era uma exceção: negra, jovem, no meio de medalhões e “brilhava” . Sua casa era ponto de encontro de estudantes, professores, artistas e amigos. Mas, em sua vida particular, sofrera perdas e experiências traumáticas: a morte da mãe, a rejeição da família espanhola do marido, o suicídio do marido e a prisão de uma de suas irmãs. Passou, em 1972, a ser alvo da vigilância do DOPS, pois estaria, a partir da UGF, recrutando adeptos “para a doutrina marxista”. As perdas foram amenizadas pela criação de seu sobrinho, Rubens Rufino, como filho, o apoio da família e a solidariedade dada em vida pelo marido que, a despeito de sua fragilidade emocional, a estimulou romper com a “lavagem cerebral” que sofrera com a ascensão social. Gonzalez é sua homenagem ao marido. Outro ponto de apoio foi a psicanálise lacaniana e o candomblé. Dessa forma se reencontra com a comunidade negra da qual se distanciara, ou seja, como afirma, Célia Tomé, fez “as pazes com seus ancestrais”, no caso de Lélia, negros e indígenas. Daí em diante, Lélia investe seus estudos e suas energias no combate ao racismo (e ao sexismo) e credita a essa militância seu amadurecimento intelectual e político. Uma neguinha atrevida. O ano de 1976 foi o divisor de águas na vida de Lélia. Por sua iniciativa é realizada uma serie de cursos e atividades na Escola de Artes Visuais, no Parque Lage, sobre Cultura Negra. “Coincidentemente” ou por “opção” levará mais de uma dezena de anos a exercer algum cargo nas estruturas universitárias. O cenário: ditadura militar, as lutas de libertação africana e retomada do Movimento Negro. Desse último se aproxima “devagarzinho”, participando das atividades do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras/IPCN (1976) e do Grêmio Recreativo de Arte e Escola de Samba Quilombo (1975). Em 1977, integra a equipe de entrevistadores do Programa 1977 da TV Educativa. Em 1978, é uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, MNU, integrando sua primeira Comissão Executiva Nacional (1978–1982), o que lhe permite atuar nacional e internacionalmente, denunciando o mito da democracia racial brasileira quer seja nos meios acadêmicos, quer seja em pequenas reuniões. É o ano também em que o DOPS passa sistematicamente a acompanhar suas atividades (e do MNU e do MN), registrando sua movimentação: palestras, congressos, encontros etc., inclusive aqueles realizados em sua casa até a candidatura a deputada federal pelo PT (ficou como primeira suplente , em 1982), de que foi membro do Diretório Nacional (1981-1984). Em 1983, devido a essa candidatura, desliga-se do MNU. Para Lélia, foi o período em que o MN alcançou as comunidades negras com as dobradinhas que fez com Benedita da Silva e Jurema Batista, então lideres das favelas cariocas. Em 1983 é também fundado o Nzinga- Coletivo de Mulheres Negras (RJ), e Lélia foi sua primeira coordenadora. Em 1985, desfilia-se do PT por divergências com o PT/RJ, pela omissão do partido com a questão racial. Filia-se ao PDT por achar que esse respondia com mais conseqüência às demandas do MN. Mas era época da Nova República (1985) que, para alguns, seria a possibilidade de uma “nova” conjuntura democrática. Além de apoiá-la, o PDT tinha como ponto programático a questão racial e um dos seus lideres era Abdias do Nascimento, referência histórica no combate ao racismo, por cuja interseção Lélia conheceu a África (1979), através do Prof. Carlos Moore. Apesar de Lélia ter sido suplente de deputada estadual pelo PDT (1986) e diretora do Planetário da Gávea (1987 – 1989), também por divergências políticas afasta-se da agremiação. Ao mesmo tempo, Lélia refletia sobre raça, gênero e história. Citamos por exemplo: Lugar de Negro (1982), em parceria com Carlos Hasenbalg, A mulher Negra na Sociedade Brasileira (1982) e Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira (1983), A Categoria Político-Cultual da Amefricanidade (1988). Na condição de intelectual, Lélia expôs-se e expôs seus questionamentos contra os saberes constituídos (acadêmicos e políticos) tanto com as suas formas tradicionais de pensar e quanto de fazer política. É como uma mulher negra que (re)toma a palavra (em nosso país é o outro que fala por nós) para realizar uma crítica à historia oficial, destacando “novos” personagens: o “povo brasileiro” e o “povo negro”, esse último protagonista de suas reflexões. Nessa sociedade hierarquizada (por classe, por raça e por sexo) os lugares dos sujeitos são determinados a partir de sua filiação racial. Uma realidade que a “boçalidade europeizante” tenta calar inutilmente. E mais, comparando as sociedades em que as culturas africanas (intensas e dinâmicas) se fazem presentes, Lélia argumenta que devemos levar em consideração as experiências histórias de cada povo, assim, ela, pioneiramente, como ressaltou Raquel Barreto, pensando diasporicamente, nos chama atenção que não somos afro qualquer coisa e sim amefricanos (de Cuba, do Haiti, do Brasil, da República Dominicana, dos Estados Unidos, ...). Amefricanidade é uma categoria analítica que ela elaborou para dar conta das experiências históricas dos povos negros que têm como referência modelos culturalmente africanos. Na compreensão de Luiza Bairros, o seu valor teórico metodológico está no fato de resgatar, historicamente, uma unidade especifica, forjada fora da África. Essa reflexão surge de um lado para que possamos abandonar as reproduções de um imperialismo que nos massacra e de outro reafirmamos as nossas particularidades da experiência na América, porém, sem perder a consciência da dívida e dos profundos laços que nos unem a África. Coerentemente, Lélia reconhece, (e dela fez parte e bebeu na fonte) a contribuição dos intelectuais e militantes pan-africanistas que postulam que uma ideologia libertadora só pode derivar de nossa própria experiência e não de algo imposto e externo. No movimento social, Lélia também tinha uma visão singular. Critica os movimentos feminista e negro: o primeiro por não reconhecer a opressão racial e o segundo, a opressão sexual. Apesar de considerar as mulheres negras determinantes no processo histórico (valentes e guerreiras ontem e hoje), divergiu do movimento por considerar que só podemos assumir nossa mulheridade a partir de uma relação de gênero em busca de um equilíbrio e não numa relação de competição, pois essa nada mais seria do que uma reprodução de certas práticas do feminismo. Na sua reflexão, a sexualidade não estaria tão somente no nível do orgasmo “pura e simplesmente” e não existiria somente numa relação homem/mulher. Ressaltamos que Lélia era feminista assumida e reconhecida, tanto política como intelectualmente, mas do seu ponto de vista as respostas encontradas pelos movimentos negro e de mulheres negras não seriam satisfatórias. Para superar as divergências e a falta de diálogo - essa última determinada historicamente - deveríamos aprender com os antigos especialmente com as lutas quilombolas (e outras formas organizativas), das mulheres africanas e amefricana. Em conseqüência de sua doença (diabetes mellitus), em 1991, Lélia afastou-se da militância, mas continuava dialogando e antenada com os acontecimentos políticos. Aparentemente recuperada, propõe-se a retornar a plenitude de suas atividades. Assim, foi eleita chefe de Departamento de Sociologia da PUC, em maio de 1994. Mas o coração não resiste. Em 11 de julho 1994 ,em pleno sono, faz a passagem do Yaê para o Orum". (Foto: Januário Garcia) Para saber mais: BAIRROS, Luíza. Lembrando Lélia Gonzalez. Salvador/BA, Afro-Ásia nº 23. Centro de Estudos Afro-Orientais, 2000. BARRETO, Raquel Andrade. Enegrecendo o Feminismo ou Feminizando a Raça: Narrativas de Libertação em Ângela Davis e Lélia Gonzalez. Orientador: Marco Antonio Villela Pamplona, Dissertação de Mestrado (História Social da Cultura), Departamento de História da PUC - Rio, Rio de Janeiro: 2005. COSTA, Teresa Cristina N. Araújo. Caminhando contra o vento – notas sobre a candidatura de Lélia Gonzalez, Ano 1, nº 3, Rio de Janeiro: Comunicações ISER, 1982. VIANA, Elizabeth do Espírito Santo. Relações raciais, gênero e movimentos sociais: o pensamento de Lélia Gonzalez 1970 – 1990. Orientador: Flávio dos Santos Gomes, Dissertação de Mestrado (Programa de Pós-Graduação em História Comparada), Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.

11 de jul de 2008

Olhares afrocontemporâneos, em Brasília, até 24 de agosto

AS EXPOSIÇÕES. “Cidade Visível”, Marcelo Reis. "Trata-se de uma mostra inédita reunindo fotografias de uma das mais importantes manifestações populares do país, cujo início foi antes da abolição em fins do século XIX: a festa da comunidade negra no Recôncavo da Bahia, na cidade de Saubara. Esta manifestação centenária marca o episódio em que negros já lutavam por alforrias e as origens do movimento popular em prol da independência da Bahia (que se dá no mesmo período), ganhando, o próprio Estado, sua “alforria”. O evento, que foi ímpar no Brasil da pré-abolição, ocorre nos 4 (quatro) domingos de julho (mês da independência da Bahia). Segundo a jornalista e curadora Silvia Nonata,“...a leitura imagética que Marcelo Reis faz dos “Caretas de Saubara” também o transforma. Como autor, constrói sua narrativa em cima de um acontecimento, mas o faz numa atmosfera onírica. Os ângulos escolhidos nos mostram em muitas imagens uma cidade praticamente vazia, habitada quase somente pelos caretas, que ora aparecem em bandos, ora nos olham sozinhos.Marcelo Reis transcende o caráter factual e nos leva a uma instância simbólica rica de significações. Neste jogo sem fim, ao contemplarmos suas imagens, também acabamos transformados por elas..” No que se refere à estrutura da exposição, são imagens em que o referente fotográfico salta aos olhos no mais puro naturalismo. Isso pode ser visto na escolha da luz, nos planos abertos, na profundidade de campo, nas cenas tomadas por flagrante. Reis estrutura fotograficamente sua matéria-prima, a realidade do acontecimento. “Os Espíritos na Terra”, Luis Alcalá del Olmo. As fotografias apresentadas nesta exposição estruturam-se em 6 (seis) séries correspondentes às peregrinações do ano litúrgico: Erzulie Freda, Barón Samedi, Ogoun Ferraillé, Souvenance, Ganthier y Ra Rá, às quais, sinteticamente, são: Erzulie Freda - Deusa Vodu do amor e da beleza, identificada com Nossa Senhora do Carmo. Reside em Saut d'Eau (Artibonite), onde uma imensa cascata se esconde em plena selva tropical junto à igreja de Nossa Senhora do Carmo construída em 1849, após a aparição da Virgem, na copa de uma palmeira. Ogoun Ferraillé - Deus Vodu da guerra e se identifica com “Santiago, o Grande”, cuja festa é celebrada na Lagoa de Santiago na região da Planície do Norte, onde se encontra uma igreja com uma grande imagem de Santiago à cavalo, em atitude guerreira. Souvenance- É um “lakou se encontra perto da vila de Gonalves e é um dos centros de culto ao Vodu mais famosos do Haiti. A peregrinação que ocorre sexta-feira santa, sábado de Aleluia e domingo de Ressurreição. Ganthier - Vilarejo, perto da capital, onde está o “calvário dos milagres”,montanha com pequena capela e três cruzes. Sexta-feira santa os fiéis se dirigem ao local, rezam com braços levantados, lamentam e gritam de angústia, esperando conseguir o milagres como: achar trabalho, curar doença, espantar azar e outras súplicas. Ra Rá - Bandas de música e dança que, durante a Quaresma, perambulam, cantando e dançando pelos campos e subúrbio das cidades. Em cada banda, há hierarquia social e na formação, organização tipo militar. Barón Samedi - Cabeça da grande família dos Gédé, os deuses dos mortos, encarregados de velar pelas tumbas e os cemitérios. Os fiéis vão ao cemitério, além de perambular pelas ruas e mercados vestidos de preto, branco e violeta, com a cara pintada de branco. Como afirma o crítico Jean Claude Fignolé, 'a lente de Alcala objetiva fez mais do que ver. Poetiza a realidade através da magia de uma estranha cumplicidade escalonada em graus de simpatia, que deixa abolida a distância entre curiosidade e conivência. As imagens falam. Contam. Significam. Concretizam-se nos rostos por uma adequação entre a arte e a realidade, emoções sempre próximas ao êxtase. A alegria se veste de voluptuosidade e se sublima com força imaterial. Cada emoção captada, reproduzida em sua essência, se parece curiosamente à expressão dada pela câmera; se objetiva, se torna sensação paralisada em diferentes posturas para a eternidade'".

No ouvido, enquanto trabalho

Quando o céu clarear por cima do meu congado, Oxum vai descer com Xangô num cortejo dourado. Flor que a noite adormeceu vai despertar, perfumar o rio, a fonte, a lagoa e a beira do mar. Oxum vai se banhar nos braços de Xangô quando o céu clarear. Vou levar meu amor pra lá, quando o céu clarear. Vou levar meu amor pra lá, quando o céu clarear. O meu amor vai se iluminar, quando o povo das águas chegar e a estrela de Oxum brilhar, Obá de Xangô vai bater no tambor pra meu amor dançar. Quando o céu clarear, quando o céu clarear, vou levar meu amor pra lá, quando o céu clarear (1). Sim, você sabe, por tudo que fiz, basta você sentir saudades que eu tô na linha. Nesse caso dava pra dizer, revigorou o fino frio, de longe, de onde o amor vinha. Aí fiz você pra ver e ouvir, combinei melodias sutis, maraca tu correrás pro amor que eu vou dizer, presente en toda mi vida. Segura o pranto quem chorou, Xangô te xinga, segura o pranto quem chorou fui eu. Virou no santo que baiou, sambou neguinha e no entanto, quem dançou fui eu (2). A dança da Oxum, no corpo de Ogum, razão que me dá vontade de sonhar nessa canção. Carinho, porém, não tem se ninguém não vem pra tocar acordes dissonantes pra manhã. Se eu for falar no samba, das estrofes que você me prometeu. Não vou contar das rimas mais perfeitas que você me fez dizer. Impugnar meu samba, logo agora que você me convenceu, que o seu amor não sai de mim, não sai de mim, não sai (3). (1) "Quando o céu clarear" - Roque Ferreira; (2)"Xangô te xinga" - Leandro Medina; (3) "Não sai de mim" - Leandro Medina.

10 de jul de 2008

O problema do poblema

Circulam por um canto e outro da Web, textos-base sobre ser goiano, gaúcho, baiano, mineiro, etc. O receituário mineiro sempre provoca em mim umas risadas, porque em algumas coisas, a gente é daquele jeito mesmo, por exemplo, no negócio de cumprimentar as pessoas dizendo “ei” e não o convencional “oi”. Gente de BH é mestre nisso, mulheres de BH, para ser precisa, porque homem, nunca vi falar assim. É um cumprimento de gênero. Não tenho a mais remota idéia da origem, mas são nítidos os traços de sedução da saudação. Um “ei” curto, assim como quem intercepta o ar depois do i, é coisa cotidiana, sem maior relevo, principalmente seguido de um “tá boa”. Pode-se até dobrar o i e a inofensividade do cumprimento se mantém – “eii, tá boa?”. Mas de um “ei” longo – “eiiiiiii” -, desconfie, preste atenção, pode ser um “ei” com quê de possibilidades. Os textos falam do frugal, da peculiaridade leve, e é bom que seja assim, deixem que a crítica interna a gente mesma faz. Talvez até ficasse deselegante se uma pessoa de fora das Alterosas destacasse um vício nosso de linguagem, encontrável em todas as classes sociais, em todos os níveis de escolaridade, até em locutores de rádio, principalmente de programas policiais, quiçá de TV, o impronunciável verbo “estrupar”. Sim, com um R entre o T e o U. Não vou me delongar porque o ato contido na palavra é por demais ignóbil, não comporta brincadeiras ou trocadilhos como o “poblema.” Sim, sem o R entre o P e o O. Gente de todas as idades, de muitas letras, saberes e até livros publicados, fala “poblema”, sem pestanejar, e não vê problema nisso. E a luta para convencer uma pessoa “poblemática” a seguir a norma e contentar-se em ser problemática, apenas, como qualquer mortal? Não bastasse o problema da essência, tem o problema da palavra. Talvez se fosse criado um macete como aquele do jeito, aprendido na adolescência: “não há jeito de escrever jeito com G”. Podíamos lançar um concurso, aliás, está lançado. Quem tiver solução criativa para o problema do “poblema”, se habilite.

9 de jul de 2008

Bibliotecas Solidárias-Universo da Leitura, no Rio de Janeiro

(POr João Luiz Souza) "É hora de prestarmos contas à sociedade sobre como vai o trabalho das "Bibliotecas Solidárias-Universo da Leitura". Este relato é, também, uma espécie de FESTA LITERÁRIA VIVENCIADA POR TODOS NÓS que recebemos este BOLETIM ELETRÔNICO DE CULTURA DA UNIVERSO.Saiba o passo-a-passo do como estamos fazendo e para onde estão indo os livros arrecadados. Obrigado por sua generosidade e pela leitura deste relatório. Obrigado por participar do nosso movimento!!! O PROJETO e sua dinâmica. São 2 anos e sete meses de existência do "Corujão da Poesia - Universo da Leitura"- braço estratégico e extensionista da Universidade Salgado de Oliveira -UNIVERSO- na Livraria Letras&Expressões do Leblon. Há 7 meses , criamos a sessão Corujinha para que as pessoas que não pudessem nos acompanhar durante a madrugada, pudessem usufruir também de um espaço democrático, criativo e aglutinador de amantes dos livros e da leitura. Começamos, então a nos reunir das 21h às 24h, no Restaurante e Pizzaria PRONTO, na Rua Dias Ferreira, 33 - Leblon (nos fundos da Livraria Letras&Expressões, no Leblon).O nosso único alerta é o seguinte: esteja sempre preparado, pois a sua apresentação/performance/leitura, tal como manda a nossa democrática e libertária tradição, o microfone estará aberto aos poetas, músicos, atores, escritores e todos demais amantes da arte da palavra.Entrada Franca e livre consumação. Aí, quando o relógio bater as 24 badaladas, nós nos locomovemos para a Livraria Letras&Expressões, onde o nosso evento prossegue até às seis horas da manhã. A iniciativa promovida pela Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), em parceria com a livraria, espaços culturais, Ong Leia Brasil, Cooper Gay Resseguros do Brasil (Empresa que doou os computadores para as 11 primeiras BIBLIOTECAS SOLIDÁRIAS) , Editora Ibis Libris, Editora Ímpetus, Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro e escolas públicas e particulares. Toda a programação do Projeto visa a formação de leitores e a inclusão de livros nos espaços de convivência e nos domicílios brasileiros. Para tanto estamos arrecadando, permanentemente, livros novos e usados, que mandamos buscar onde eles estiverem, para montarmos novas bibliotecas e caixas de leituras que chegarão onde os recursos da população não permitem o acesso aos livros em geral. Em todos os eventos que realizamos pelo Estado do Rio de Janeiro, promovemos sorteios de livros e brindes de estímulo à cultura e formação de platéias para os produtos de arte em geral. É por isto, que mais do que nunca, precisamos de colaboradores e de pessoas dispostas a receberem os livros e dinamizarem os pontos de leitura. Não aceitamos dinheiro, queremos livros e agentes voluntários e solidários para a promoção do Prazer da Leitura. Muitos livros para formar leitores e cidadãos sensíveis aos problemas do nosso tempo, mas, também, às infinitas possibilidades que temos de reinventar a vida e melhorar este planeta que é nossa casa-mãe. -Segue abaixo a lista das unidades do Programa "UNIVERSO DA LEITURA-BIBLIOTECAS SOLIDÁRIAS" montadas através da mobilização de centenas de pessoas que freqüetaram e freqüentam o "Corujão da Poesia - Universo da Leitura" (durante o período de dezembro de 2006 a 30 de junho de 2008)) em parceria com os grupos "Voluntários da Pátria", "Caravana Liberdade e Expressão" e centenas de aliados/aliadas que nos telefonam oferecendo doações, sejam anônimos ou reconhecidos pela mídia, mas, que na verdade, são parceiros da mesma fé no poder dos livros e da leitura no processo de transformação da sociedade brasileira. Importante registrar o permanente apoio de infra-estrutura da UNIVERSO para recolher as doações disponibilizando motorista e carro para recolher as doações e, em seguida, proceder a entrega dos acervos aos destinatários e, temos professores e alunos que colaboraram na seleção dos livros e no encaminhamento dos mesmos às bibliotecas que estamos montando nos mais diversos pontos do Estado do Rio de Janeiro. Telefone para contatos e doações: 21 2138-4851, das 14h30m até às 22h, com Fellipe ou João Luiz. AS BIBLIOTECAS ( acervos de 350 a 2.000 livros dependendo do local). 1 - Orfanato Instituto Imaculada - Trindade - São Gonçalo - meninos, adolescentes e jovens. Neste local o milagre já aconteceu, as Tvs Globo e Futura estiveram lá e todas as duas equipes dos câmeras à repórter não contiveram as lágrimas, ouvindo os meninos falarem dos livros, lendo seus próprios poemas e descrevendo como a Biblioteca mudou as suas rotinas. 2 - 3 Fábricas de costureiras de roupas em JEANS - Niterói, São Gonçalo e Mangueira. Neste ítem contamos 3 pequenas Bibliotecas que estamos chamando de Pontos de Leitura com uma média de 150 a 200 livros. Valem por 3 BIBLIOTECAS. 3 - Delegacia de Nova Iguaçú. 380 detentos e familiares são usuários da Biblioteca. Esta nós todos sabemos tudo e podemos nos preparar para vermos os frutos mais rapidamente. Estão conosco o delegado Orlando Zaccone, Marcelo Yuka e a turma do cinema de Belford Roxo. 4 - Biblioteca do Grupo Cultural Nação Maré. É um container grafitado e lindo na Grande Maré - RJ. Cheio de garotada todas às vezes em que é aberto para as atividades. Os livros estão circulando. São quase 1000 livros. 5 - Biblioteca do Hospital Estadual Geral do Colubandê - São Gonçalo (esta está maravilhosa, contempla de crianças a idosos, pacientes e acompanhantes). Tem uma equipe do Hospital trabalhando em parceria conosco para dinamização da LEITURA no cotidiano do Hospital. 6 - Biblioteca da Casa de Custódia Cotrin Neto - Japerí - Baixada Fluminense - 680 detentos - O diretor é um entusiasta e já tem uma comissão de funcionário e apenado trabalhando com a circulação diária de livros. 7 - Biblioteca da ONG Instituto Maria Madalena - Bairro Porto Novo - São Gonçalo - Comunidade extremamente pobre às margens da Rodovia Niterói -Manilha. Já tem três pessoas estruturando tudo e preparando uma série de atividades de formação do prazer da leitura para 2008. Os livros chegaram lá recentemente. 8 - Biblioteca do Hospital Escola São Francisco Xavier da UFRJ - (Cidade Nova - Praça Onze - RJ) unidade de atendimento aos meninos e meninas acolhidos nos abrigos da cidade do Rio de Janeiro e que se tratam da dependência química neste Hospital, num programa comandado pela PhD Lígia Costa Leite, uma das maiores autoridades em população de rua e dependência química na adolescência. Ela tinha um sonho de conseguir montar uma Biblioteca para trabalhar com a garotada e o sonho está concretizado. O Hospital fica na Presidente Vargas, perto da Estação do Metrô Praça XI. É um prédio horroroso que a UFRJ alega não ter recursos para reformar, mas onde trabalham profissionais de ponta, inclusive com portadores do vírus HIV. Eu sou apaixonado por ela, pois a Dra. Lígia, foi a primeira-educadora a dirigir uma escola para meninos de rua - a Tia Ceata - a convite do Mestre Darcy Ribeiro, onde os meninos e meninas, entravam e tinham aulas e atividades culturais e esportivas a qualquer hora do dia. Pena que acabou, mas a Lígia continua em sua luta e busca a sua utopia. 9 - Biblioteca do Hospital Municipal Infantil Darcy Vargas - Praça do Zé Garoto - São Gonçalo - Unidade com acervo infantil e juvenil. 10 - Biblioteca da Associação de Moradores do Morro do Estado - Centro - Niterói. 11 - Biblioteca do Morro do Alemão - Iniciativa em parceria com o Desembargador Siro Darlan e sua equipe. 12 - Biblioteca da "ONG Pensando Junto", na Comunidade da ROCINHA, em parceria com o compositor e escritor GABRIEL O PENSADOR. 13 - Biblioteca de livros estrangeiros para as detentas oriundas de outros países, no Presídio Feminino Talavera Bruce. 14 - Biblioteca de Livros estrangeiros para os detentos oriundos de outros países, no Presídio Esmeraldino Bandeira. 15 - Biblioteca encaminhada à Dona CANÔ VELLOSO, em Santo Amaro da Purificação - Bahia. A redistribuição do acervo encaminhado ficou sob a responsabilidade da Matriarca Dona Canô Velloso, benfeitora da Cidade e patronesse da Biblioteca local. 16 - Biblioteca do Hospital de Custódia e Tratamento Penitenciário Henrique Roxo - Centro - Niterói - Iniciativa em parceria com o Psiquiatra da Unidade, o Dr. Antônio Pedro Bocayuva Cunha, que já produziu um filme sobre o trabalho desenvolvido com artes e terapias de expressão livre do pensamento. 17 - Biblioteca da Instituto Penal Edgard Costa - Centro - Niterói. 18 - Biblioteca do Espaço Cultural Jorge Benjor - Realengo - Programa Social de amplas frentes de ações sócio-educativas. 19 - Biblioteca da Penitenciária Vieira Ferreira Netto - Fonseca - Niterói. 20 - Biblioteca do Instituto Penal de Niterói - Fonseca - Niterói. 21 - Instituto Penal Ismael Pereira Sirieiro - Fonseca - Niterói. 22 - Ponto de Leitura com os funcionários da UNIVERSO Niterói - Distribuição de livros entre os funcionários do Campus Universo Niterói para leitura domiciliar. 23 - Ponto de Leitura no Cineclube UNIVERSO São Gonçalo - Campus Universo São Gonçalo - Encontros às segundas-feiras, das 16h às 18h, com sorteios permanentes de livros e acompanhamento das leituras com troca de idéias. 24 - Biblioteca do Hospital Mário Kreuff - Penha - Unidade para tratamentos oncológicos".

Cris Pereira, samba do bom, em Brasília

(Texto de divulgação) "A maestria e o lirismo do compositor e cantor carioca radicado em Brasília, Sérgio Magalhães vem unir-se a doce voz da jovem cantora brasiliense Cris Pereira no show Capital Samba: uma homenagem ao samba de Brasília. Lançado em 2007 no Teatro Sesc Garagem - 913 Sul, o show Capital Samba, vêm em 2008 saudar mais uma vez o samba produzido na cidade. No show serão apresentados sambas de compositores da cidade, ou por ela abraçados como Carlos Elias, Seu Manoel Brigadeiro, Sérgio Magalhães, Helena Pinheiro, Júnior do cavaco, Cacá Pereira, Milena Tibúrcio, Wilson Bebel, Henrique Nepomuceno entre outros músicos inspirados pelos mestres e maestrinas do samba, esse gênero sem fronteiras. Acompanham Sérgio Magalhães e Cris Pereira os músicos: Fernando César (violão de 7 cordas), Vinicius Magalhães (violão), Pedro Molusco (cavaquinho), Márcio Bezerra (flauta e clarineta/flauta), Júnior (pandeiro), Guto Martins (percussão), Breno Alves (percussão). A cantora Dhy Ribeiro é convidada especial e o violonista Rafael dos Anjos assina os arranjos musicais". Ingressos Antecipados: (61) 9293.1685 (61) 9979.3002 www.myspace.com/crispereiraa