Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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31 de ago de 2014

Cidinha da Silva na dramaturgia negra de São Paulo, hoje!

Hoje, em Sampa, a Pílula de Cultura discute o teatro negro e a querida Capulanas Cia de Arte Negra apresentará a dramaturgia de Sangoma, criação coletiva nossa. Ainda, a parceiraça Cia Os Crespos discutirá Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas, texto de minha lavra, encenado em 2013. Trechos dos dois espetáculos também serão encenados.



Chico Mendes e Neca Setubal - Óleo de Copaíba e Água Perrier

Por Cidinha da Silva



Quando boa parte dos jovens iludidos pela panaceia discursiva de Marina Silva nasceu, Chico Mendes já havia sido assassinado. Era 1988 e um tiro de escopeta calava o seringueiro, sindicalista, defensor dos trabalhadores extrativistas que junto com indígenas e ribeirinhos da Amazônia formavam os povos tradicionais da floresta.

Dessa forma, é compreensível que parcela dos jovens só o conheça travestido como integrante da elite brasileira, invenção da candidata acreana, que, para finalizar o soneto ruim, irmanou-o a Neca Setubal, herdeira do banco Itau e coordenadora do plano de governo do PSB. Para obter mais informações sobre ela, favor consultar a doutora Wikipedia ou o doutor Google.

Apresentadas as duas personalidades naquilo que é fundamental restam algumas perguntas: a primeira, o que autorizaria Marina Silva a identificar personagens tão díspares como membros da elite nacional? A segunda, o que teriam em comum um seringueiro-sindicalista e uma ricaça, dona de banco?

A terceira, o que permitiria à candidata esvaziar a combatividade de Chico Mendes e rebaixá-lo a membro da elite que elabora seu programa de governo e sustenta economicamente sua campanha à Presidência? A quarta, como ir além da ironia e elegância de Ângela Mendes, filha de Chico, que destacou a infeliz comparação?

Se Marina tivesse dito que Neca Setubal e Luciano Huck pertencem ao mesmo time de educadores, os pingos estariam irrepreensivelmente postos no is, mas se consegue vender a ideia de que Chico Mendes, Neca Setubal e Guilherme Leal (acionem o doutor Google outra vez se quiserem) jogam no mesmo time, são partes do mesmo bolo, compostos pelos mesmos ingredientes, estamos mal, porque vencerá a tese de que a solução para os problemas do país seria mesmo a união de opostos, a convivência insípida e inodora entre os desiguais mediada por messias que nos salvará da guerra.

Considerar que os que se destacam em uma luta social como aconteceu com Chico Mendes ascendem à elite brasileira que domina e explora é estragema do projeto hegemônico para eliminar os conflitos (de classe, raciais e de gênero) no Brasil como forma de manutenção de poder para a elite dominante e de subalternização continuada e inalterável dos grupos de pessoas que há séculos são marcadas pelo ferrete da exploração.

Em comum, Maria Alice Setubal e Francisco Alves Mendes Filho, a Neca e o Chico, têm a adoção de um apelido doméstico como nome social. Nada mais.

30 de ago de 2014

Sobre Marina e Collor



Existe pelo menos uma diferença fundamental entre Marina e Collor: o barro que edifica Marina e o gesso de que é feito Collor. São trajetórias, histórias, perfis e pertencimento sociorracial totalmente distintos.
Se aproximação fizesse seria entre Campos e Ciro Gomes. Marina é única, também está muito longe de ser um Lula de saias, como Zé Dirceu quer fazer crer no afã de confrontar Dilma e tentar enfraquecê-la. Mas, como nos chamou atenção a filha de Chico Mendes, Ângela, a trajetória de Marina (antes de ser picada pela mosquinha do poder a qualquer custo, eu completaria) não governa o país.
É preciso um projeto político consistente e comprometido com o povo, com os que nada têm, e o projeto de Marina é ruim e balizado pelos interesses das elites. O plano de governo socialista é coordenado por uma herdeira de grande corporação bancária.
Sim, nossa democracia é capenga, como costumam ser as democracias representativas na América Latina, mas podemos e devemos sofisticar o debate, superando comparações rasteiras.

27 de ago de 2014

O primeiro grande debate presidencial via TV


Por Cidinha da Silva

Dilma é, de longe, a candidata mais preparada. Não foge das perguntas porque tem o que dizer para além da boa retórica, característica da raposa Aécio, que além da retórica, não tem nada, é pó.

Eduardo Jorge, a seu turno, parecia virado no louco. Embora seja testemunha de seu trabalho em São Paulo e saiba que ele é um homem sério, jogar para a galera para ver o que dá já foi comportamento inovador, mas, hoje, está suficientemente cristalizado pela velha política. Ademais, foi de uma deselegância inaceitável sequer mencionar a vice, Célia Sacramento, que desmanchava-se em sorrisos a seu lado  quando da entrevista de chegada aos estúdios de TV. Foi deprimente perceber a sintonia do candidato do PV e da câmera de TV para alijar Célia do enquadramento que seria transmitido aos telespectadores.

Luciana fala para um público de militância estudantil universitária das melhores universidades do país, daquelas em que se lê tomos e mais tomos de ciência política e econômica. Ela não consegue alcançar as pessoas simples e não-intelectualizadas.

Marina é tão demodé com essa terceira via entre PT e PSDB e que se pretende trans-galática, mas é, de fato, comesinha e velha conhecida de todos. É postura típica do ultrapassado e enfadonho em cima do muro que quer ressuscitar (da aposentadoria) o combativo Pedro Simon (homem de 84 anos, com filho adolescente, deixa o cara descansar).

Dos outros dois candidatos destaco as belas e elegantes acompanhantes que eles fizeram questão de ostentar antes de iniciado o debate presidencial.

Destaco também a ausência da temática racial na agenda de todos os candidatos e candidatas, do genocídio da juventude negra, do racismo institucional, até da parte de Dilma, que tem coisas a dizer nesse campo. Quando a atual Presidenta mencionou a ampliação do acesso das pessoas pobres às universidades, conseguiu citar as novas universidades construídas pelos governos Lula e Dilma (18), o PROUNI, mas, deliberadamente (por orientação da assessoria, imagino), ocultou os 56 mil estudantes negros (dados da SEPPIR) que devem ingressar anualmente nas universidades públicas federais a partir da Lei 12.711/2012, a Lei de Cotas para o Ensino Superior.

Imagino que sua assessoria ache que o tema não gera votos e pode aguçar a irritação das pessoas brancas de classe média que antes votavam no PT e agora, depois que as coisas bem estabelecidas (para elas) saíram um pouco do lugar, querem a volta do conservadorismo que lhes restitua os privilégios. Tomara que Dilma não embarque nessa canoa furada, porque a problematização do racismo estrutural brasileiro, cuja ação de enfrentamento, capitaneada pela SEPPIR de sua gestão, está sendo objeto de estudos e elogios da ONU, pode ser o diferencial de sua campanha e pode alavancar mudanças de fundo no país.

Que os candidatos negros, Marina e Everaldo (torço para que ele não se ofenda porque o classifico como negro) também digam alguma coisa sobre sua condição e dos demais 52% da população do país.

Que a esquerda de Luciana e Eduardo Jorge continue a problematizar a criminalização do aborto e combate à homofobia, mas que também inclua em sua pauta o combate ao racismo. Que, pelo menos, Célia Sacramento não seja invisibilizada e possa falar.

Aguardamos pelos 3 próximos debates em rede televisiva nacional.

26 de ago de 2014

O jornalismo publicitário


Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 26/08/2014 na edição 813 no Observatório da Imprensa
 
O poema “Relato”, que integra o livro Lugares Ares (2003), coloca o notável escritor Edimilson de Almeida Pereira como exímio crítico da mídia:
“A notícia/ irrompe de afluentes oclusos./ Nem há gentileza, o morno espanto das notícias./ Teus braços/dilatam outros tempos,/ a dolorosa crise que desperta/ dominadores e dominados./ Falaria, amor, de amor,/ despido da sentimental mercadoria/que nos atormenta./ A notícia/ demove as paisagens claras./ Nem há receio,/o forte impacto das notícias./ Com que humor/o relato de nossa extinção/ desponta nos olhos”.
Esmiuçando o que destaca a voz poética, o jornalismo, desde um século e meio, mais ou menos, vem passando a fazer parte de uma indústria cultural que, hoje, se converteu em sistema onipresente na vida do homem contemporâneo. O caráter mercantil que sempre definiu a figura da notícia colou-se a ela de tal forma que, agora, é raro que a aceitemos se não nos for dado algo mais que informação e conhecimento em troca de nossa atenção e consumo. O relato cotidiano dos acontecimentos de interesse público, conforme as normas de objetividade epistemológica, neutralidade axiológica e imparcialidade ideológica, é um bem em estado crítico. A colonização das formas históricas de expressão jornalística pela atitude mercantil e por intermédio dos expedientes publicitários chega já ao ponto em que, aparentemente ao menos, matéria alguma escapa ao tratamento leve, divertido, espetacular ou sensacionalista.
O universo da comunicação e da informação está radicado no espaço da pós-modernidade: livre mercado, livre competição, marketização, estetização, virtualidade, niilismo, transcomunicação, pastiche, rede, ultraliberalismo, just in time, razão cínica, globalismo, supernada, pluralidade, cibertecnologias, hedonismo, velocidade, presenteísmo, simulacro, localismo, orgia semiótica, pós-história e fundamentalismos. É o espaço da anomia, da crise do sentido, dos vazios teóricos e, ao mesmo tempo, ambiguamente, do avanço da tecnologia, da transnacionalidade da cultura e da economia e da absolutização da ciência. O regime de ultraliberalidade contemporânea, erigido com o apogeu do neoliberalismo no século 20, flexibiliza as regras sociais, econômicas e políticas e institucionaliza o modelo de “vale-tudo” na sociedade, esvaziando e enfraquecendo os poderes e linguagens estabelecidas, bem como criando um regime de ambiguidade e fragmentação universalizadas.
A linguagem do capital
“O nível de dedicação que o jornal exige, e sem o qual a coisa não vai, extingue o ser humano em pouco tempo. Essa dedicação ao longo de cinco anos teve como efeito que empobreci sob todos os aspectos... intelectual, emocional. Tive a clarividência de que estava me extinguindo como ser humano, completamente burrificado, porque não lia mais nada, nem romance, nem teoria. (...) Se o preço a pagar é esse pela dedicação exclusiva e integral ao jornal, então ele é alto demais. Ninguém aguenta mais tempo – quem aguenta, morre; senão fisicamente, pelo menos intelectual e emocionalmente.”
Esse expressivo testemunho do universo da produção noticiosa dado por Carlos Eduardo Lins da Silva no livro Mil Dias (1988) mostra como é deficitária a formação do jornalista. A não-valorização do trabalho de pensar está intrinsecamente relacionada com o atestado – ainda contemporâneo – feito por Walter Benjamin, no célebre ensaio O narrador (1936): “As ações da experiência estão em baixa, e tudo indica que continuarão caindo até que seu valor desapareça de todo. Basta olharmos um jornal para percebermos que seu nível está mais baixo que nunca, e que da noite para o dia não somente a imagem do mundo exterior mas também a do mundo ético sofreram transformações que antes não julgaríamos possíveis.”
Ainda se acredita na ideologia liberal de que o jornalismo seria a forma singular de esclarecimento da consciência pública. Como diria Machado de Assis, em O jornal e o livro(1959): “O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o fogo das convicções.” Daí vem a nossa tradicional esperança de que os órgãos da imprensa podem e devem contribuir para a educação do povo. Entretanto, diante das evidências expostas, nota-se que educar não é informar. Educar é ensinar a pensar. Os jornais ensinam a pensar? Em sua maioria, não. Eles vêm contribuindo para a propagação da estupidez coletiva, visto que o jornalismo publicitário vem imperando sobre a imprensa investigativa. Nesse formato, os produtos da indústria midiática acabam sendo produzidos e vendidos com base nas máximas do marketing ultrapós-moderno que comercializa os gostos, os valores, os sentidos e as consciências dos próprios consumidores.
Incorporando a práxis de mercado, as páginas dos jornais, telejornais, radiojornais e net-jornais, sem escrúpulos, passam a relativizar os conceitos de verdade, realidade, conhecimento, informação e saber. Os discursos da publicidade e da estética, em conjunto com os do sensacionalismo, da espetacularização, da mais-valia, dos fait divers, inoculam o ethos do jornalismo. A antes imaculada linguagem do interesse público acaba tornando-se preferencialmente uma esfera de manipulações e licenciosidades. A imprensa passa, consequentemente, a falar a linguagem do capital.
***
Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor da Faculdade JK, no Distrito Federal, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários


Escuta para construção do Plano Setorial de Cultura Afro-brasileira, em Brasília, dia 27/08


Encontro na UnB discute a produção afro-brasileirae a discriminação


A jornada também celebra o centenário de nascimento de Carolina Maria de Jesus

Publicação: 25/08/2014 08:03 Atualização: 25/08/2014 08:45

Escritora Cidinha da Silva: temáticas de autores negros são negadas (Pierre Gentil/Divulgação
)
Escritora Cidinha da Silva: temáticas de autores negros são negadas
Foi a demanda dos próprios alunos que motivou a professora Regina Dalcastagnè, do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB), a criar a Jornada de literatura afro-brasileira contemporânea, cuja segunda edição ocorre hoje, no auditório do departamento. “Tem muitos estudantes negros entrando na UnB e na pós-gradução. Eles estão mostrando o interesse sobre a produção de autores negros e esse é o momento de trazer pessoas de fora e colocar o tema em discussão, porque não é um tema que tenha muito espaço”, diz Regina. “Isso é resultado da abertura da universidade aos pobres e aos negros e as cotas têm a ver com isso.”

A jornada também celebra o centenário de nascimento de Carolina Maria de Jesus, escritora mineira, considerada uma das vozes literárias no campo da memória da comunidade negra brasileira mais importantes da primeira metade do século 20. A programação da Jornada está dividida em seis mesas de debates com convidados que têm o nome ligado ao esforço de trazer a produção literária assinada por afro-brasileiros para o universo da literatura geral.

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Os três debates marcados para a manhã desta segunda-feira (25/8) reúnem as escritoras Ana Maria Gonçalves e Cidinha da Silva, o pesquisador Eduardo de Assis Duarte e o poeta Michel Yakini para falar sobre o romance afro-brasileiro e a literatura de periferia. Para Yakini, co-fundador do Coletivo Literário Sarau Elo da Corrente — encontro realizado em São Paulo —, as grandes editoras brasileiras pouco se interessam por autores negros, o que leva à invisibilidade de uma produção rica. “É um reflexo da estrutura social discriminatória em que os escritores(as) negros(as) não fazem parte do sistema editorial. Não temos editores negros em grandes editoras, não temos grandes editoras chefiadas por negros, existem também poucos críticos literários negros”, repara o poeta. “Além disso, essas editoras veiculam seus trabalhos para um segmento de leitores que não contempla a comunidade negra. Portanto, dificilmente haverá uma movimentação no mercado editorial que se preocupe com esses autores.”

Confira a programação completa da II Jornada de literatura afro-brasileira contemporânea

Leia entrevista completa com Michel Yakini 

Há muitos autores negros escrevendo e publicando em editoras independentes, mas eles não estão nas grandes editoras. Na tua opinião, o que isso reflete?

As editoras graúdas pouco se interessam por escritores e escritoras negras.  Essa invisibilidade é reflexo de uma estrutura social discriminatória em que os escritores(as) negros não fazem parte do sistema editorial, ou seja, temos autores (as), mas não temos editores negros em grandes editoras, não temos grandes editoras chefiadas por negros, existem poucos críticos literários negros. Além disso, essas editoras veiculam seus trabalhos para um segmento de leitores que não contempla a comunidade negra. Portanto, dificilmente haverá uma movimentação no mercado editorial que se preocupe com esses autores. Outro fator importante é pensar o quanto esse mercado editorial resiste em dar evidência ao imaginário, a linguagem, as personagens, ao eu-lirico e a um discurso que a cultura negra seja protagonista, pois isso desmonta a vitrine cordial que essa estrutura se baseia para invisibilizar ou apresentar de forma exótica o negro brasileiro nas páginas literárias.

A voz do negro na literatura pode ser considerado um fato recente? E o que isso implica?

Se analisarmos em questão de números, nos últimos quarenta anos surgiu um maior número de escritores (as) negros. Porém há casos mais pontuais publicando desde século XIX e do início do XX, como Cruz e Souza, Luis Gama, Machado de Assis, Auta de Souza, Lima Barreto e Lino Guedes. A primeira mulher a publicar um romance no Brasil foi a escritora negra e maranhense Maria Firmina dos Reis, com a obra Úrsula, e isso é pouco reconhecido. Depois vieram Solano Trindade, Osvaldo de Camargo, Carolina de Jesus, Carlos de Assumpção e a geração de 78 que muitos se destacaram a partir da série Cadernos Negros, como: Cuti, Miriam Alves, Abelardo Rodrigues, Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa e Geni Guimarães. Mas é preciso contextualizar um passado escravista em que os negros(as) eram proibidos de ir a escola, por exemplo, e por isso pouquíssimos dominavam a escrita, e mesmo os que sabiam escrever enfrentavam condições de vida precárias, algo nada favorável ao fazer literário. Porém, essa voz vem aumentando a cada década, mantendo aceso os versos e histórias orais que nunca nos faltaram e consolidando uma produção escrita, quem vem atraindo a atenção de pesquisadores, leitores e educadores, contribuindo para quebra de alguns paradigmas literários, mostrando que a literatura pode ir além de um fazer de poucos, provando que existem bons escritores negros (as) e de que é possível considerar uma perspectiva de Literatura Negra.

Na literatura de forma geral, há pouquíssimos personagens negros. Por que?

A maioria dos escritores que publicaram suas obras e conseguiram veicular com destaque, como bem mostra a pesquisa realizada pela Professora Regina Dalcastagnè, fazem parte de um segmento bem definido, ou seja, são na maioria: homens, jovens, brancos, cristãos, heterossexuais, graduados, enfim. Não há como questionar a capacidade criativa desses escritores, mas é preciso considerar que suas obras dialogam com sua experiência cultural, de vida e de sua observação como artista. Portanto, no imaginário desses escritores os personagens negros não existem ou ocupam um lugar bem demarcado, com posições subalternas, de serviçais, de personagens sem nome, que são descritos por características estereotipadas, ou que não tem uma linha familiar na história, surgem e somem do nada em uma narrativa.

A construção da identidade passa pela literatura? Como?

Sem dúvida, a literatura contribui para nossa formação como cidadão, pois cumpre o papel de mediar a realidade e também de alimentar nossa capacidade de invenção e imaginação, por isso é fundamental que possamos ter acesso a obras que contemplem o máximo de diversidade e possibilidades narrativas e poéticas. Essa questão é fundamental quando pensamos na questão étnico-racial, pois a ausência de personagens negros, ou de protagonistas, eu-líricos, mitologias que dialoguem com a cultura negra não cria referencias positivas desse imaginário e expõe essa realidade de forma violenta. Uma criança que inicia seu letramento e não tem acesso a uma história que pareça com o que ela vivencia, com ela própria ou mesmo a mostra em posição inferiorizada, é prejudicada em sua formação e isso deixa sequelas negativas em sua identidade.

A escrita de Carolina Maria de Jesus é importannte para você e para o teu trabalho?

Sim, primeiramente pelo fato de ela produzir uma escrita que dialoga com meu fazer, pois ela é uma escritora negra que escreve a partir da margem, da favela, ou seja, do Quarto de Despejo. Muito da poesia, da linguagem e do espaço que ela escreveu ainda é bem presente nas periferias paulistanas e é fonte viva da minha escrita. Me identifico com a Carolina, por ser um escritor negro da periferia de São Paulo e por ser fã da sua escrita, pois acima de tudo Carolina nos deixou uma obra de qualidade, de uma narrativa poderosa, que tem cheiro, tem cor, é pulsante, poética. Isso confirma seu talento e todo sucesso que sua obra rendeu, apesar das contradições vividas por ela por representar um perfil fora do padrão para um escritor renomado, até então.

Existe mais poesia do que ficção sendo produzida por autores negros? E o que isso significa?

Sim isso é fato e pode ser por vários fatores. Poucos escritores negros(as) conseguem se dedicar exclusivamente a literatura e por isso sentem maior dificuldade de trabalharem uma obra como um romance, e acabam se dedicando mais a poesia e, em menor grau, aos contos, pois esses gêneros exigem um trabalho mais pontual, que não necessariamente tenha uma ligação entre um texto e outro, mas que também geram boas obras. Outro fator é pela poesia representar um gênero marginal, que é pouco publicado no mercado editorial, e nada mais coerente que uma literatura feita por escritores marginalizados produza o gênero que mais se aproxima de sua realidade, é uma forma de ir à contramão da estrutura predominante. Mas acredito também no fato da Literatura Negra ser muito alimentada pela oralidade, pela declamação, pelo verso de improviso, pela contação de histórias, ou seja, por formas de representação da palavra que sempre esteve nas comunidades negras e que emergem na palavra escrita dos escritores(as).

23 de ago de 2014

II Jornada de Literatura Afro-brasileira Contemporânea na UnB

Por Cidinha da Silva



Bom dia! Segunda-feira é dia de festa! Abertura dos trabalhos na II Jornada de Literatura Afro-brasileira Contemporânea na UnB com a intervenção "Uma escrita negra como o jazz", na qual abordarei elementos da minha técnica de escrita, processo criativo e relação com o mundo literário (às 8:40). Depois, às 18:30, participo do lançamento coletivo de livros com duas obras recentes, Racismo no Brasil e afetos correlatos e Baú de miudezas, sol e chuva. É possível que eu esteja presente também no livro Literatura afro-brasileira: abordagens na sala de aula, construído pelo pessoal do NEIA-UFMG a partir da Antologia Literatura e afrodescendência no Brasil, da qual participo. A Jornada acontecerá em Brasília.

Serviço:
Data: 25 de agosto de 2014
Horário: 8h30 às 12h e 14h30 às 18h
Local: Auditório do Instituto de Letras, ICC Sul, Subsolo, sala 99 (8:40)
Lançamento de livros: C’est si bon, na 213 Norte, Bloco A (18:30)  

22 de ago de 2014

Cidinha da Silva na II Jornada de Literatura Afro-brasileira Contemporânea

O Grupo de Estudos em Literatura Brasileira convida a tod@s para os lançamentos de livros que compõem a programação da II Jornada de Literatura Afro-Brasileira Contemporânea.
Serão lançados ao todo sete livros de convidados do evento, conforme divulgação em anexo.
Esperamos vocês lá para confraternizar conosco esse momento especial!
Abraços,
A Comissão Organizadora


21 de ago de 2014

Fim de semana paulistano!






Por Cidinha da Silva

Que alegria imensa ter meu trabalho literário circulando por São Paulo neste fim de semana. Sempre que posso acompanho esse movimento, afinal é a concretização de muita dedicação e disciplina no exercício da criação contínua, sob sol, chuva e vento, este que leva minhas palavras e as distribui para leituras diversas. 

E como é vitalizador e prazeroso ser lida! 

Dessa vez, não conseguirei estar por lá, na cidade mais querida, mas convido as pessoas interessadas a participar do lançamento da 13a edição da revista O Menelick - 2o ato (dia 24/08), na qual há uma resenha da contundente Mariana Santos de Assis sobre meu Racismo no Brasil e afetos correlatos que, daqui a 4 meses completará o primeiro ano de vida.  

No final de semana seguinte 31/08, a Pílula de Cultura discute o teatro negro e a querida Capulanas Cia de Arte Negra apresentará a dramaturgia de Sangoma, criação coletiva nossa. Ainda, a parceiraça Cia Os Crespos discutirá Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas, texto de minha lavra, encenado e bastante elogiado em 2013. Trechos dos dois espetáculos também serão encenados. O vento bom sempre dá o ar da graça para quem sabe trabalhar e não demora. A palavra que precisa ser dita vai e volta e frutifica. Ngunzo!!!

19 de ago de 2014

O dia em que Willian Bonner chorou



Por Cidinha da Silva

O Jornal Nacional aproximava-se do fim e seguindo o roteiro diário viria algo de impacto para encerrar a espetacularização da notícia no horário de maior audiência dos telejornais.

O narrador de voz bonita, terno impecável e cabelos charmosamente grisalhos anuncia um caso surpreendente no sertão do Brasil.

Um adolescente de vida miserável  é flagrado ao roubar um bombom na vendinha da região. A repórter responsável pela cobertura percebe que ali há uma boa história para entreter os telespectadores fiéis e resolve levar a notícia do roubo à mãe do garoto para compor o drama que antecipará a novela das nove.

O cinegrafista, depois de ter filmado o menino cabisbaixo e mudo na delegacia, inclui as devidas tarjas no rosto, pois o pequeno infrator tem apenas 13 anos, fecha dramaticamente o ângulo da câmera no bombom solitário sobre a mesa do delegado e, junto com a repórter, ruma para a casa daquela que roubaria a cena e emocionaria o apresentador, a mãe do menino.

No trajeto a câmera destaca os efeitos da seca prolongada, a pobreza, o abandono. Quando chegam à casa, cumprimentam a dona, são convidados a entrar. A repórter senta em um dos dois tocos da casa de cômodo único, cruza as pernas, equilibra-se. A mãe senta na cama de forquilha, dois troncos finos de árvore que sustentam colchão velho, fino e torto, cama única do lugar. Afora isso, uma bilha com caneca de alumínio em cima, dessas de escola pública, e retrato de um casal na parede, o homem de terno, a mulher de vestido branco, provável casamento dos pais do menino.

A repórter, compungida, transmite à mãe a notícia do roubo. Lágrimas grossas escorrem pelos sulcos do rosto marcado pelo sol e pela dureza no trabalho da roça. A Câmera focaliza cada detalhe. A mulher ergue o dedo cabeçudo e calejado, sem unha feita, esfolado pelo cabo da enxada e profetiza: “Eu vou falar uma coisa pra senhora, ele roubou foi de safadeza, colegage, luxúra. Não foi fome, não senhora, porque fome ele conhece desde que nasceu!”

11 de ago de 2014

Me oriente, rapaz!

 Por Cidinha da Silva



Um amigo, pai pela terceira vez, me comove com o novo ofício. Enquanto aguarda o rompimento da bolsa nidifica o mundo para acolher o rebento. Tão bonito, isso.

Quem tem pai sabe a diferença que ele faz na vida, quem não teve, sabe também. Um pai bom nos dá coluna vertebral, nos ensina a ser algo inteiro, firme pela flexibilidade. 

Pai orienta, dá o freiriano Sul para a vida. É quem mais ensina pelo exemplo. Neste sentido,
mostra-se tradicional, primevo, inaugural. 

Dois amigos, jovens pais de meninos únicos, referem-se aos filhos como pajezinhos, mestrinhos, babalaozinhos, ou seja, aqueles que cuidam destes, protegem, orientam, repreendem, ensinam p
or meio do exemplo. É bela e tão humana essa masculinidade construída na relação de espelho entre pai e filho. 

São admiráveis esses moços que, como o poeta
, plantam um ipê-amarelo na cabeça do tempo, só para ver o sorriso do filho.

(Do livro Baú de miudezas, sol e chuva, de Cidinha da Silva).