Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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31 de out de 2007

Silêncio! Novo espetáculo da Cia dos Comuns estréia no Rio de Janeiro

Em seu novo espetáculo teatral, a Cia dos Comuns utiliza sons e movimentos para uma inquietante jornada entre as formas de loucura desencadeadas pelo racismo. Estréia: 1º de novembro, às 20h, no Teatro Livre - Fundição Progresso Temporada: 02 de novembro a 21 de dezembro de 2007. Quarta a sexta, às 20h Endereço: Teatro Livre - Fundição Progresso. Rua dos Arcos, 24 - Lapa. Promoções: Somente para pré - vestibulares, escolas, associação de moradores, ong's e rádios comunitárias. Informações: (21) 2242-0606 / www.comuns.com.br

29 de out de 2007

Vozes libertárias de Angola

(Deu no Estado de S. Paulo, por Ubiratan Brasil, 2m 28/11/07) Passado e futuro, infância e formação se misturam em livros de Luandino Vieira e Ondjaki, que vêm ao Brasil revelar mistérios literários de seu país. "A literatura em Angola nasceu antes do país - Alfredo Troni produziu suas primeiras narrativas no século 19 quando a antiga colônia de Portugal só conseguiu sua independência em 1975. Assim, notadamente nos anos 1930 e 40, a escrita angolana se construiu a partir da negação contra o complexo sistema de contradições da sociedade colonizada. Mas o projeto de uma ficção que conferisse ao homem africano o estatuto de soberania surge nos anos 1950, principalmente com José Luandino Vieira e seu A Cidade e a Infância, publicado em 1957 e que ganha agora edição da Companhia das Letras. São dez histórias que apresentam um espaço social e humano especificamente angolano, ou seja, a representação do mundo subdesenvolvido dos musseques (bairros pobres), onde o autor, embora nascido em Portugal, foi criado. O impacto vem da ruptura da linguagem, da desestruturação do português colonizador para a estruturação de uma nova língua, a oral. Para isso, a memória tem papel fundamental, o que também marca a literatura de outro talento angolano, Ondjaki, representante da nova geração, pós-independência. É o que se observa em Os da Minha Rua, que a Língua Geral lança nesta semana. Aqui, o autor-personagem revela as descobertas da adolescência somadas às despedidas de tudo o que remete à infância. Fazem parte desse universo assuntos e imagens tão diversas como o primeiro beijo, a parada de 1º de maio, uma piscina de coca-cola e a novela brasileira Roque Santeiro. Luandino Vieira e Ondjaki vêm ao Rio em novembro, quando participam de eventos sobre a literatura de seu jovem e rico país. Sobre essa vinda e o novo lançamento de A Cidade e a Infância, Luandino conversou, por e-mail, com o Estado. Como insere os contos de A Cidade e a Infância em sua obra? Já estava traçada ali sua intenção literária? Luandino Vieira: Como aquela pequena semente a partir da qual todo o trabalho literário se iria desenvolver. Os sítios, cenários, locais e as gentes que iriam povoar meu imaginário aí aparecem esboçados. Na verdade, sem grande justeza ou profundidade mas a escolha impôs-se-me: a cidade, a nossa terra de Luanda, sobretudo o espaço dos musseques e suas gentes. Também o que do fundo da infância e da adolescência sempre emergia e continua a emergir. É comum saber que para quase todas as pessoas, e quiçá mais para os que se fazem escritores, a infância é um manancial sem-fim e por toda a vida. Intenção literária não haveria muita. Ou era limitada a conformar minhas intenções de ser escritor como forma de participar no movimento cultural angolano que, naqueles idos de 1950, renascia com pujança político-cultural. E o que dizer do engajamento e a importância de sua linguagem literária? Luandino Vieira: Esse engajamento eu o tive como o modo de desnichar e propor a importância da linguagem popular dos musseques de Luanda para a construção de uma linguagem literária. Também como modo de afirmação da nossa diferença cultural, o que me dava legitimidade para exigir o reconhecimento da nossa especificidade cultural com vista à autonomia e autodeterminação políticas. Quanto à sua importância, não me cabe ser juiz dos meus atos e intenções. Penso que, sendo Angola nação relativamente jovem e Estado recente e sem tradição e prática de estudos literários, é cedo para avaliar. Sei, sim, que atuei de consciência e responsabilidade plenas nesse meu trabalho literário, e até como participação na luta por nossa emancipação política do Portugal colonial. Sua proposta seria apostar na transformação da realidade vivida pelas personagens a partir de sua conscientização e de sua atitude revolucionária? Luandino Vieira: Creio, ainda hoje, que sim. Procurei na realidade sociopolítica de então aqueles momentos e personagens que pudessem indiciar um grau, por mínimo que fosse, de atitude consciente no sentido da mudança; ou na luta pela mudança; ou nos comportamentos que, aparentemente inócuos, à vista desarmada, tinham já inscritos sinais da rebeldia, da revolta, ou da necessidade da revolução. Se isso serve para transformar a realidade... Ao tempo eu quase acreditava que sim. Minha “crença”, com a experiência, se atenuou. Mas continuo consciente, em última instância, do alto e insubstituível poder da palavra. Por vezes é a esse último grão de resistência que fica preso o destino do homem: o grito, articulação mínima da palavra. A idéia da tradição ainda é decisiva ou se busca fazer uma recriação contemporânea da tradição? Luandino Vieira: A idéia da tradição como elemento, suporte ou quadro de nossa identidade cultural coletiva e pessoal, é permanente. Mesmo que inconsciente. O que o escritor pode fazer - é impossível o regresso dos rios às nascentes, e, se regressam, é sob outra forma - é recriar a tradição em novas circunstâncias para novos desafios que, por sua dinâmica, uma cultura coloca cotidianamente. Sobretudo agora que começam a ser mais visíveis os desafios da desenfreada e comercializada globalização cultural... Qual sua expectativa em relação à vinda ao Brasil? Acompanha a atual literatura brasileira? Luandino Vieira: Minha expectativa é grande. Não visito o Brasil desde a década de 1980. Leio, ouço, tomo conhecimento das transformações ocorridas nos últimos anos. Quero ver com meus olhos esse país que sempre povoa o imaginário do angolanos em sua presente expressão. Porque, infelizmente, pouco ou nada acompanho da literatura que hoje se faz no Brasil. Mesmo os livros editados em Portugal não estão ao meu alcance. Mas isso é um dos traços comuns na situação do conhecimento e interconhecimento das literaturas em língua portuguesa. E não é da responsabilidade dos escritores. Os escritores escrevem"... LUANDINO VIEIRA: Pseudônimo de José Vieira Mateus da Graça, nasceu em 1935, em Portugal. Tornou-se cidadão angolano por combater ao lado do MPLA contra o domínio português e por ter contribuído para a criação da República Popular de Angola. Por conta disso, ficou preso entre 1961 e 1972. A reclusão, porém, foi inspiradora - em 1963, lançou o livro de contos Luuanda, narrativas que retratam a dura realidade dos bairros pobres de Luanda, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Em 2006, recusou o Prêmio Camões por não se julgar um escritor em atividade. ONDJAKI: Pseudônimo de Ndalu de Almeida, nasceu em Luanda, em 1977, dois anos depois da independência de Angola. Palavra umbundu, Ondjaki significa “aquele que enfrenta desafios”. Poeta, contista e artista plástico, ele defende um maior contato entre as culturas de língua portuguesa. É autor, entre outras obras, de Bom Dia Camaradas, lançada no Brasil pela Agir, em que recria Luanda a partir de suas memórias afetivas. Dirigiu, ao lado de Kiluanje Liberdade, o filme Oxalá Cresçam Pitangas, dez formas diferentes de viver e interpretar a cidade de Luanda.

26 de out de 2007

Em entrevista, Carlos Moore analisa as relações políticas entre Brasil e o continente africano

(Por Ana Flávia Magalhães Pinto, jornalista do Irohin) “As relações do Brasil com o continente africano podem evoluir para o neocolonialismo e os próprios dirigentes africanos são um fator nessa possível equação.”Em virtude da visita do presidente Lula a quatro países africanos – Burkina Faso, Congo-Brazzaville, África do Sul e Angola –, realizada de 15 a 18 de outubro, o professor Carlos Moore, especialista em assuntos africanos e latino-americanos, aceitou conversar com o Ìrohìn. Nesta entrevista, ele analisa a natureza atual e a possível evolução dos vínculos entre o Brasil e o continente africano. Moore alerta sobre os possíveis perigos no horizonte dessas relações e, para evitá-los, evoca a intervenção da sociedade civil, tanto africana quanto brasileira. Ìrohìn – O jornal O Estado de S. Paulo publicou matéria sob o título: “Lula começa viagem à África em ato ao lado de ditador”, referindo-se à viagem do presidente Lula nesta semana a quatro países africanos, começando por Burkina Faso. Como o senhor avalia esta questão? Carlos Moore – No sentido do que efetivamente aconteceu, o que publicou esse jornal é exato. Há vinte anos, em 15 de outubro de 1987, houve um golpe de Estado em Burkina Faso, no qual o presidente Thomas Sankara – um grande homem, um africano nacionalista e importante pan-africanista – foi covardemente assassinado durante um golpe urdido e comandado pelo atual presidente de Burkina Faso, Blaise Campoare. Junto com Sankara morreram assassinados doze outros dirigentes nacionalistas. Ìrohìn – Quais as razões desse golpe sangrento? Carlos Moore – Tudo se resume ao fato de que Burkina Fasso, antiga colônia francesa conhecida como “Alto Volta”, escapou ao controle da França, em 1983, quando Sankara assumiu o poder e iniciou, com seus companheiros, uma verdadeira revolução social e política que eliminou rapidamente a corrupção, instaurou os direitos da mulher e implementou uma profunda reforma agrária. O novo governo revolucionário advogava a unificação de todo o continente num só país federal, propugnava o não-pagamento das dívidas injustas contraídas com o Ocidente, começando, com isso, a revolucionar a sociedade. Sankara se colocou, assim, na mira da França. Aí se encontram as razões: essa turma que atualmente dirige Burkina Faso se encontra totalmente nas mãos do Ocidente, daquelas potências que têm atuado para o subdesenvolvimento e o atraso do continente africano, numa exploração incessante e sem misericórdia. O ano de 2007 marca, assim, o vigésimo aniversário dessa ação vil que não contribuiu em nada para o avanço do continente africano, senão para o seu atraso. ÌrohÌn – Sankara era um pan-africanista? Carlos Moore – Certamente. Ele é amado em todo o continente, onde sua memória é venerada, como o é a de Patrice Lumumba. Como este, Sankara lutou para concretizar o projeto de unidade continental africana, proposta também defendida por líderes como o presidente Kwame Nkrumah, de Gana; Amílcar Cabral, de Guiné-Bissau; e Steve Biko, da África do Sul. Ou seja, os grandes pan-africanistas lutaram pela unidade do continente africano e muitos foram mortos por seguir esse ideal. Sankara é um deles e sempre ficará no coração dos africanos dignos como um representante dos melhores interesses da África. Ìrohìn – Como se explica que o presidente Lula tenha iniciado sua recente viagem à África por Burkina Faso, exatamente no dia aniversário do assassinato de Sankara pelo presidente atual? Carlos Moore – A imprensa conservadora se utilizou dessa decisão da diplomacia brasileira para deslegitimar toda a política de aproximação com o continente africano. Não há duvida de que estamos diante de um fato que surpreende. Houve, efetivamente, uma decisão por parte da diplomacia brasileira que eu, pessoalmente, não compreendo. Não se trata de um erro, pois aqueles que tomaram essa decisão conheciam os fatos. Portanto, aqui há duas questões: uma decisão que considero infeliz e o aproveitamento dessa decisão por forças contrárias tanto ao avanço africano quanto ao avanço do Brasil como Nação multirracial. É isso que considero duplamente triste, pois acredito na sinceridade pró-africana de Lula. Os argumentos apresentados na matéria de vários jornais parecem compactuar com essas forças conservadoras. Ìrohìn – O senhor pensa que o presidente Lula tinha todos os elementos à mão antes de aceitar o convite do presidente ditador de Burkina Faso? Carlos Moore – O presidente Lula é alguém que respeito muito. Lula é um dirigente com um passado extraordinário, que se distinguiu sempre por ser um adversário de toda forma de ditadura. Ele sempre lutou contra as forças contrárias à democracia. Com efeito, não compreendi como o presidente Lula permitiu estar associado à figura desse ditador precisamente no dia aniversário de sua façanha assassina. Portanto, é muito triste ver aquele que efetivamente assassinou Sankara se utilizando desse momento para tentar enganar o resto do mundo, pois a figura de Lula é internacionalmente respeitada. Para mim, como pan-africanista, foi um momento de tristeza pessoal e constrangimento político. Ìrohìn – Como se explica que os assessores do presidente não atentaram para o fato de esse não ser o momento mais propício para ir àquele país, em especial nesta data? Carlos Moore – Eu compreendo que os Estados têm sua própria lógica, a chamada “razão de Estado”. Trata-se de uma lógica diferente da que orienta as ações da militância política. Mas aqui está nítido que havia uma operação orquestrada pelo Estado neocolonial de Burkina Faso, dirigido pelo presidente Blaise Campoare, para fazer coincidir a visita de um grande e respeitado dirigente do Terceiro Mundo com o aniversário da tomada de poder mediante o assassinato de Sankara, evento que tem sido reprovado por todos os africanos nacionalistas e que se respeitam. Ìrohìn – Qual é a sua avaliação do presidente Blaise Campaoré? Carlos Moore – Eu não tenho o menor respeito por esse dirigente, que se mantém no poder mediante sucessivas fraudes eleitorais, graças à intimidação de seus oponentes políticos e ao exercício do terror contra a população. Considero-o como um dos homens mais vis e, precisamente, um dos dirigentes menos capazes do continente africano. Não irei me estender mais sobre sua pessoa, pois não acho que mereça toda essa atenção. Ìrohìn – Em que perspectiva o senhor coloca as relações entre o Brasil e a África? Carlos Moore – Não podemos esquecer que se trata, fundamentalmente, de um continente enfraquecido, dominado pelo exterior e prostrado diante dos grandes interesses mundiais, após vários séculos de golpes duros, assaltos imperiais, intensos tráficos de escravizados e a conquista de todo o território continental pela Europa ocidental. A isso se agrega um processo de independência, a partir de 1957, já minado pelas relações neocolonialistas: a maioria esmagadora de líderes que chegaram ao poder já estava corrompida e entregue aos interesses hegemônicos mundiais. Tratava-se de elites coniventes com os interesses imperialistas e hegemônicos da Europa Ocidental, dos Estados Unidos e do Japão. E, ultimamente, essas elites se mostram também coniventes com as ambições hegemônicas e neo-imperiais de grandes potências emergentes como a China. É nesse contexto global que se insere a relação Brasil-África que se inicia perante nós. Ìrohìn – Quanto ao futuro da relação Brasil-África, sua avaliação é otimista ou pessimista? Carlos Moore –Nem uma coisa, nem outra. Essa relação será o resultado dos encaminhamentos dados às condições concretas que a presidem e do que as sociedades civis africanas e brasileira permitirão que seja. Entre países, as relações ou traduzem a interação de estruturas que se encaixam de maneira harmônica porque se equilibram – são, portanto, simétricas –, ou se encaixam de maneira desarmônica, porque são assimétricas. As relações políticas, econômicas ou militares obedecem a jogos de interesses, e não a embates sentimentais. Os interesses concretos, não a emoção, comandam o político e o econômico. Ìrohìn – Quais são essas condições concretas a que o senhor se refere? Carlos Moore – São muitos os elementos e bastante variados, mas se devemos resumir, eu diria que são os seguintes: a) uma sociedade civil africana enfraquecida, desarticulada, reprimida e com pouco poder de pressão sobre seus governantes, os quais são, em sua maioria, despóticos, corruptos, coniventes com os interesses exploradores do exterior, profundamente alienados culturalmente e atentos apenas a seus espúrios interesses materiais; b) um contexto internacional definido pela supremacia dos interesses de um punhado de nações imperialistas – médias, grandes e superpotências – que cobiçam as fabulosas riquezas minerais e materiais estratégicas do subsolo africano; c) uma indústria pujante no Brasil, em busca de campos de investimento e lucro, correspondente a uma economia em expansão digna de países altamente tecnológicos e perfeitamente industrializados, apesar do fato de o Brasil pertencer ao chamado Terceiro Mundo. Somado a isso há um outro fator, de natureza ideológica: a existência no Brasil, fruto de um passado fartamente conhecido, de um desprezo profundo para com o continente africano, seus descendentes e sua história. Ou seja, de modo geral, as elites dominantes do Brasil, profundamente eurocêntricas e europeizadas, admiradoras dos métodos norte-americanos e das normas e padrões euro-ocidentais, não consideram a África como parceiro a se respeitar, mas como o “Continente Negro” provedor de escravos, digno de ser explorado e humilhado. Essas elites têm em suas mãos praticamente todos os meios de comunicação e, assim, podem forjar – e forjam – todas as imagens distorcidas sobre o continente africano. Por sua vez, esse monopólio sobre a mídia poderá permitir que a opinião pública e a própria sociedade civil brasileira se mostrem omissas e até coniventes com a exploração desse continente. É aí onde reside o perigo: que, pouco a pouco, a opinião brasileira seja manipulada num sentido contrário a uma empatia e um sentimento de solidariedade com o continente ancestral da maioria da população do país. Ìrohìn – Somando a dimensão política e os aspectos propriamente econômicos, o que dizer sobre a investida do governo brasileiro em países africanos como Burkina Faso, Angola, Congo e África do Sul? Carlos Moore – Sabemos que um chefe de Estado deve defender os interesses de todos os seus concidadãos. Os interesses econômicos do país são pontos-chave a ser protegidos pelo chefe de Estado. Na medida em que esses interesses são representados pelos setores que marcam a presença do país no cenário internacional – em especial a indústria e o comércio –, é lógico que o presidente do Brasil trate de abrir novos caminhos para os investimentos das empresas, das companhias nacionais e multinacionais de seu país, como qualquer outro chefe de Estado o faria. Isso é algo que está previsto na lógica do poder de um chefe de Estado. Nisso não há mistério algum. Por outro lado, o continente africano é objeto da cobiça internacional por causa da extraordinária riqueza mineral existente em seu subsolo. Dos 48 minerais considerados estratégicos pelo mundo industrial de alta tecnologia, a África monopoliza não menos que 38. Não é por acaso que a África tem sido chamada de “escândalo geológico”. É por esse motivo que a África figura como alvo privilegiado das potências mundiais e o será ainda mais neste século. Nesse momento, a China põe em curso uma das maiores operações dirigidas aos 53 países africanos. A China está interessada na exploração e na aquisição desses materiais estratégicos. E não somente ela, mas o Japão, a Coréia do Sul, a Índia, a Turquia, o Irã; ou seja, todas as potências emergentes. O campo daqueles países que se interessam pela África, antes restrito às grandes potências européias, agora se ampliou. Já não se trata apenas das antigas potências colônias, como França, Itália, Espanha, Portugal, Inglaterra, mas ainda da Alemanha, da Rússia e até da Polônia. Todos esses países estão interessados na África. É dentro desse jogo de interesses que se situa o Brasil, país que também busca ser uma potência no século XXI. Logicamente isso representa riscos para o continente africano, mas também poderá comportar elementos positivos para esses países. Ìrohìn – O que predomina na investida do Brasil no continente africano, a sensibilidade política ou os interesses puramente econômicos? Carlos Moore – Para mim não há dúvidas de que são os interesses econômicos os que primam, embora seja possível admitir como sincera a simpatia expressa pelo chefe de Estado do Brasil para com esse continente. Não duvido da sinceridade do presidente Lula, mas também não duvido que sejam os interesses concretos do Brasil que comandam a sua política internacional, a qual está fundamentada em interesses econômicos e comerciais. Ora, esses interesses se exprimem num contexto internacional bem definido: a supremacia planetária dos Estados Unidos e, como resposta a essa hegemonia unilateral, a emergência de novos pólos de poder no mundo. O Brasil, nona ou décima economia mundial, é um desses possíveis pólos que aspiram ao status de grande potência. Ìrohìn – Apesar da nova aproximação entre o Brasil e os países da África, pode-se afirmar que testemunhamos ainda uma relação entre “desiguais”? Carlos Moore – Não se pode pretender que exista equilíbrio entre o Brasil, país unificado, forte e nona economia do planeta, e um continente mesmo que tão gigantesco quanto a África, mas fragmentado em 53 países paupérrimos e enfraquecidos politicamente. O peso internacional do Brasil excede ao peso de todos os países da África Central, por exemplo. Essa é a realidade. A própria mídia brasileira tem enfatizado, nesses últimos dias, o desequilíbrio entre o Brasil e os países da África e sublinhado, não sem uma ironia perversa, que o orçamento de Burkina Faso, país de cerca de 15 milhões de habitantes, representa somente 10% do orçamento de uma única multinacional brasileira: a Petrobrás! O Brasil é um país-continente unificado federalmente, forte, atuante no plano internacional e capaz de defender suas fronteiras se essas se virem ameaçadas. A África é tudo ao contrário disso: não há nem sequer um projeto concreto de governo articulado em nível federal. O Brasil é um país forte, pujante, tecnologizado, cuja economia e indústria estão impulsionadas pelas multinacionais locais. Estas avançam agora pelo mundo em busca de lucro, de matérias-primas e expansão comercial. Os 53 países africanos, em vez disso, são majoritariamente exportadores de produtos brutos de extração, como petróleo, ouro, diamante, tungstênio, urânio e cobre. Os exércitos africanos servem unicamente para exercer a repressão contra seus povos, ou para montar golpes de Estado, e não para a defesa dos países africanos contra qualquer ameaça externa. Ìrohìn – O que deve, então, ser superado para possibilitar o estabelecimento de uma relação justa e eqüitativa entre essas partes? Carlos Moore – São vários os obstáculos em ambas as partes a serem superados para o estabelecimento de uma relação de igual para igual entre Brasil e África. Os próprios dirigentes africanos, em sua maioria, constituem-se em grandes entraves. De modo geral, boa parte desses governantes não busca estabelecer esse tipo de relação eqüitativa com o resto do mundo. Lembre-se de que a maioria deles chegou ao poder não por representar os melhores interesses de seus países, mas porque foram colocados lá pelas potências imperialistas ocidentais e para defender os interesses dessas. É por aí que temos que começar. Iniciado com a independência de Gana, em 1957, e da Guiné, no ano seguinte, o processo de descolonização se expandiu por praticamente todos os países africanos a partir de 1960. Como resultado, levou ao poder verdadeiros dirigentes nacionalistas, poderosos pensadores, grandes homens de Estado que pensavam em nível do continente e queriam a integração do continente. Esses líderes almejavam que a África deixasse de ser fragmentada, que se tornasse uma África federativa, com um governo central e forças armadas únicas, com um parlamento e uma nacionalidade única. Entre esses dirigentes clarividentes que pensaram essa África, estavam os presidentes Kwame Nkrumah, de Gana; Sékou Touré, de Guiné; Modibo Keita, do Mali; Alphonse Massamba-Débat, do Congo-Brazzaville; bem como o primeiro-ministro do Congo Patrice Lumumba; e o presidente Julius Nyerere, da Tanzânia. Esses grandes líderes foram seguidos por outros não menos importantes como Amilcar Cabral, de Guiné-Bissau; o próprio Steve Biko e Nelson Mandela, da África do Sul, e Thomas Sankara, de Burkina Faso. Estavam fundamentados num conceito de África radicalmente diferente do utilizado pelos dirigentes neo-colonais de hoje. Ìrohìn – O que aconteceu com esses dirigentes nacionalistas? Carlos Moore – Esses dirigentes clarividentes, que chegaram ao poder com o processo de descolonização e lutaram pela independência da África, foram derrubados com sangrentos golpes de Estado ou assassinados, a exemplo de Lumumba, Cabral, Muritala Muhammed, da Nigéria, e ainda Eduardo Mondlane, de Moçambique. Em um período de menos de trinta anos, não menos que 38 importantíssimos dirigentes africanos foram assassinados em circunstâncias que, na maioria dos casos, ainda não foram elucidadas. Ou seja, essas lideranças desapareceram seja pela via dos golpes de Estado, seja pela via dos assassinatos. A África nacionalista e pan-africana foi decapitada! Isso forma parte da explicação de porque a África está na atual situação de subdesenvolvimento terrível. Sseus grandes líderes e pensadores foram dizimados. E quem tomou o poder em seus lugares? Observe a longevidade dos atuais governos e você verá que aqueles que estão no poder chegaram lá ou colocados pelos países do Ocidente ou urdindo sangrentos golpes de Estado em favor do Ocidente, em muitos dos casos matando aqueles que se opunham à exploração da África e que tinham grandes e inovadoras idéias sobre como emancipar e federar o continente. Então, eu diria que um dos grandes obstáculos para que o continente africano estabeleça uma relação em pé de igualdade com o resto do mundo são esses próprios dirigentes africanos. Em sua imensa maioria, as atuais elites africanas são, nesse sentido, um importante fator de subdesenvolvimento do continente africano. Ìrohìn – Por que exatamente? Carlos Moore – A maioria das elites africanas de hoje trabalha para manter a velha troca desigual, iniciada antes mesmo dos séculos XV-XVI, porque essa situação as beneficia. Há séculos atrás, isso correspondia ao envio de mão-de-obra africana escravizada para os grandes centros imperiais da época: primeiro o Oriente Médio e depois a Europa. Há toda uma história dessa troca desigual com os países africanos que se instaura a partir do momento em que o império árabe, nascido no século VIII, se tornou dominante no mundo. Quando esse império, que durou mais de oitocentos anos, cai e começa a emergir o império europeu ocidental, a mesma relação assimétrica se manteve. Ainda hoje ela está de pé e favorecendo os interesses das elites africanas. É chocante dizer isso, e ainda mais aceitá-lo, mas essa é a realidade. Assim, essas elites são uma importante peça na trama da manutenção dos nexos colonialistas de ontem e dos possíveis nexos neo-colonialistas e neo-imperialistas de amanhã. Ìrohìn – Ainda pensando sobre os obstáculos, o que dizer sobre o contexto brasileiro? Carlos Moore – No Brasil, as coisas acontecem de outra maneira. Aqui as elites dominantes são poderosas e defendem bem seus interesses nacionais. Entre essas elites, há setores que cobiçam as matérias-primas africanas. São interesses criados pelas grandes companhias multinacionais brasileiras que já têm força suficiente para intervir fora das fronteiras deste país. Atualmente, as empresas brasileiras estão investindo bastante em vários países latino-americanos e fazem um grande esforço para estabelecer relações com o resto do mundo. Isso é parte de toda uma trama do mundo capitalista atual. Portanto, essa tentativa brasileira de se implantar na África não é nada anormal; ela faz parte da dinâmica preponderante no planeta, dominada pela economia liberal. Ìrohìn – Mas há pouco o senhor se referiu a existência de forças conservadoras que atuam no Brasil. Como classificá-las? Carlos Moore – É preciso apontar para o fato de que o Brasil dispõe de um sistema muito complexo pelo fato de ser um conjunto nacional muito parcelado. Tanto os interesses econômicos quanto os políticos são fragmentados. Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste correspondem a realidades socioeconômicas e históricas diversas, muitas vezes divergentes. Aqui neste país não há forças conservadoras simplesmente homogêneas, senão que existem vários setores de conservadorismo. De igual maneira, há diferentes forças progressistas neste país. Trata-se, justamente, de um quadro bastante complexo. Aqui há forças conservadoras agindo em sentidos diferentes. Por exemplo, há grupos que se opõem aos laços com a África, embora isso beneficie o Brasil e as empresas brasileiras. Assim, a política africana, que o governo Lula tenta estabelecer com o apoio de um conjunto de empresas brasileiras, representa os interesses de grupos com uma visão bem melhor definida acerca dos interesses nacionais, do que aqueles setores mais retrógrados, que demonstram uma total falta de interesse pelas relações com os países africanos. Ìrohìn – Esses laços beneficiariam a quem, fundamentalmente? Carlos Moore – De fato, nesta altura, eu não sei até que ponto esses laços atuais favorecem os povos africanos. O certo é que, pelo momento, esses laços vão beneficiar as elites africanas, por uma parte, e, sobretudo, a economia e as empresas brasileiras. Apesar disso, há forças conservadoras que não querem o estabelecimento desses laços com a África. Essas forças conservadoras – não apenas no Brasil, mas em todo o continente americano – são tradicionalmente negrofóbicas; herdaram da história um ódio e um desprezo para com o continente africano que as cega ao ponto de se opor ao desenvolvimento de relações econômicas entre suas empresas nacionais e os países africanos, embora essas relações – repito – favoreçam às suas próprias economias. Ìrohìn – Então o senhor acha que essas relações serão inevitavelmente neocoloniais? Carlos Moore – Nas condições que acabo de descrever, seria um milagre se isso não acontecesse; e eu não acredito em milagres. Para mim, é evidente que todas as condições estão dadas para que a relação Brasil-África não seja diferente das relações que o resto das nações poderosas do mundo tem estabelecido e mantido com esse continente. Todas as condições estão dadas para que as relações Brasil-África evoluam na direção de relações neocoloniais, com o Brasil assumindo, pouco a pouco, o papel cada vez mais acentuado de uma potência hegemônica, mas com cara “simpática”. Até porque o atual cenário de um mandatário simpático para com os verdadeiros interesses africanos pode não se estender além do mandato do presidente Lula. Tudo vai depender da conivência ou não da própria sociedade civil brasileira na situação que nos interessa. Ìrohìn – Essas relações estão condenadas a evoluir negativamente. É isso? Carlos Moore – As relações neocolonias surgem sempre de profundos desequilíbrios estruturais entre nações. Sobre essas relações vêm incidir, logo após, as elaborações ideológicas, que garantem a hegemonia do parceiro mais forte sobre o outro que se vê cada vez mais subalternizado na relação desigual. Como eu disse, no que diz respeito ao Brasil, o fator ideológico se dá na existência de uma superestrutura nacional negrofóbica e antiafricana, legado da escravidão. No Brasil, indiscutivelmente, mesmo diante de insistentes negações, existe um forte racismo estrutural e sistêmico, o qual está profundamente enraizado no imaginário social. Esses são fatores graves que não podem ser esquecidos, nem minimizados, quando se fala da África. Para se ter a medida disso, só é necessário observar como a mídia brasileira trata cotidianamente os problemas que atingem o continente africano: com um extremo grau de desprezo, insensibilidade e desrespeito, promovendo mentiras, meias-verdades e omitindo os fatos que, facilmente, poderiam explicar até os maiores horrores protagonizados nesse continente pelas suas elites neocoloniais e corruptas. Não há simpatia ou empatia nas reportagens para com os povos africanos, senão a vontade de apresentar o “Continente Negro” como algo bestial, um buraco escuro e sujo, primitivo, bárbaro, ameaçador! Ou seja, a África é apresentada na mídia nos mesmos termos que são apresentadas as favelas das grandes cidades brasileiras. Ìrohìn – Então, o senhor acha que um dia também possa surgir um imperialismo brasileiro? Carlos Moore – A experiência histórica nos demonstra que qualquer nação poderosa, a despeito de seu perfil inicialmente democrático, pode se converter numa nação hegemônica, dominadora e abusiva em relação aos países mais fracos. Esse é o caso, especialmente, quando os interesses nacionais estão atrelados aos interesses econômicos e financeiros das grandes empresas nacionais de porte multinacional Nesse sentido, o Brasil pode, sim, eventualmente, se converter num subimperialismo ou imperialismo no século XXI. Não existe imunidade natural contra a arrogância nacional, o chauvinismo nacional ou o racismo nacional. Não há antídoto algum que garanta que uma nação poderosa não se converta numa nação imperialista. Os exemplos dos Estados Unidos e de Israel mostram-nos a veracidade dessa ponderação. Pelo contrário, temos de ficar muito atentos e muito lúcidos. A lucidez política, a atenção meticulosa à evolução das relações com os paises africanos, exige a vigilância constante da sociedade civil. Não vejo outra maneira para garantir que essas relações se mantenham dentro de um perímetro ético minimamente aceitável. Ìrohìn – Pensando na edificação de relações mais eqüitativas, qual o papel a ser desempenhado pela sociedade civil e, em particular, pelos movimentos sociais neste momento? Carlos Moore – A sociedade civil tem, de maneira permanente, uma parte de responsabilidade na direção em que se orienta a condução da política exterior dos países. Está incumbida de assumir ou não essa responsabilidade. Eu acredito que, no caso que nos interessa, é justamente a sociedade civil que deve ser o contrapeso à ação e aos interesses das grandes empresas. É óbvio que o objetivo das empresas é o lucro e que tendem, fatalmente, a participar na espoliação do continente africano. Isso está de acordo com a lógica do capitalismo mundial. Há um setor de ponta na economia brasileira, tecnologicamente avançado, que não deixa nada a desejar aos outros países. Está claro que esse setor está interessado em ter acesso às matérias-primas e ao mercado africano. Neste momento, a África representa um mercado crescente, onde os produtos manufaturados do Brasil vão encontrar um excelente espaço de escoamento. Assim, como as companhias chinesas, japonesas, iranianas e indianas, as brasileiras também estão interessadas em explorar e ampliar esse espaço. Essas companhias não vão priorizar o impedimento de métodos injustos de exploração dos africanos. Eu penso que isso não vai ser um ponto decisivo na atuação dessas companhias. Mesmo porque não tem sido a realidade aplicada pelos outros Estados que estão atuando na África atualmente. Os próprios chineses não estão nem um pouco preocupados em saber se os trabalhadores empregados nos países africanos estão protegidos sindicalmente ou não. Eles estão simplesmente interessados em dispor de uma força de trabalho mais barata de se apropriar dos recursos do continente pagando o menos possível por eles. Ìrohìn – Qual o papel da sociedade civil brasileira em tudo isso? Carlos Moore – A resposta se encontra no reforço imediato da capacidade de intervenção democrática tanto da sociedade civil brasileira quanto da africana. As forças democráticas dentro do Brasil, sejam negros ou brancos, devem se coligar para se constituir em um fator de contrapeso político. Caso não seja assim, corre-se o risco de que a história se repita e que da imagem de um país “simpático, alegre, sambista e futebolista”, o Brasil vire, para a África, uma simples nova potência neocolonial. As multinacionais brasileiras terão de ser levadas a compreender que é de seu interesse, a longo prazo, contribuir para o bem-estar dos povos africanos, ao tempo que acumulam lucros nesse continente. E, também, terão de ser levadas a compreender que não é sustentável lucrar na África e ignorar a pobreza endêmica da África doméstica do Brasil. As interconexões entre essas duas realidades, embora não sejam tão visíveis agora, tenderão a aumentar no futuro próximo e haverá que ajudar as empresas multinacionais brasileiras a compreendê-las rapidamente. Ou seja, há que ajudar a avançar a causa da federalização da África, por uma parte, e ajudar a reduzir as desigualdades sociorraciais no Brasil, por outra. As multinacionais brasileiras podem contribuir positivamente em ambos os sentidos, o que contribuiria para simetrizar a relação com a África, ao tempo em que criaria um ambiente de confraternização democrática dentro do Brasil. Ìrohìn – E quais são as possibilidades reais de a sociedade civil fazer frente a isso? Carlos Moore – A sociedade civil terá de descobrir o modo de intervenção para ter um peso na política internacional do Brasil, pelo menos no que diz respeito à África. Vimos como a população negra dos Estados Unidos se organizou para constituir verdadeiros lobbies que forçaram o governo americano a recuar na África do Sul. Os Estados Unidos eram absolutamente favoráveis ao regime do apartheid, bem como apoiavam militar, econômica e politicamente todos os governos de segregação que se instalaram nesse país. Foi só a partir da mobilização e da ação da sociedade civil que isso começou a se modificar. Foi o pastor Leon Sullivan o primeiro a propor a política pelo fim de investimento na África do Sul, a qual ficou conhecida como “O Princípio Sullivan”. A partir daí, constituíram-se vários lobbies de negros americanos, dirigidos pela entidade Trans-Africa, que pressionaram o governo e ameaçaram as empresas multinacionais americanas de boicote caso continuassem a investir na África do Sul. Esse é um bom exemplo de intervenção eficaz e positiva da sociedade civil da diáspora para salvaguardar os interesses da sociedade civil africana. Ainda hoje a sociedade civil africana está bastante enfraquecida. Há, portanto, que ajudá-la a crescer e se fortalecer. Os movimentos sociais africanos têm sido tão reprimidos pelas ditaduras de seus países que é somente nos últimos quinze anos que começa a haver uma reorganização da sociedade civil, de modo a essa ter uma vida independente. Há que ajudar e incentivar esse processo de ressurgimento da sociedade civil africana. Ìrohìn – Quais as medidas concretas que o senhor sugeriria? Carlos Moore – Em primeiro lugar, eu sugeriria que a sociedade civil constituísse um órgão incumbido especificamente de acompanhar e monitorar as relações Brasil-África. Isso se converte cada vez mais numa necessidade imperiosa. Em segundo lugar, a sociedade civil, através desse órgão, deve definir um código ético e político que deverá ser aplicado nas ações de monitoramento e pressão sobre as empresas brasileiras atuantes no continente africano. Esse código, que deverá ser discutido com as próprias empresas e com os órgãos de política exterior do Estado, deve ir ao encontro dos anseios da sociedade civil africana. Até agora ninguém tem exigido isso: que o Estado e as empresas multinacionais brasileiras se subscrevam a um código de conduta nos países africanos, de modo a explicitar o que farão e o que não farão ao tempo em que buscam seus espaços de lucro lá. A meu ver, essas são algumas das precondições para que o engajamento político e econômico brasileiro na África não caia na espiral do neoimperialismo, como já está acontecendo com as relações da China com os países desse continente. Ìrohìn – Quais os fatores que poderiam influenciar numa evolução positiva no caso do Brasil, contrariamente ao que acontece com a China? Carlos Moore – Ao contrário da China, da Índia, da Europa ou do Japão, a maioria da população brasileira tem suas origens no continente africano. Precisamente por isso, eu penso que é o dever do movimento social e da sociedade civil brasileira zelar para que a intervenção econômica do Brasil naquele continente leve em consideração os interesses das sociedades civis africanas e dos povos por elas representados, os quais não estão sendo defendidos nem mesmo pelos governos africanos na sua maioria. Esse é um dos grandes deveres da sociedade civil brasileira, bem como de todas as forças democráticas desse país: defender os interesses da sociedade civil africana. Todas as forças democráticas brasileiras devem reconhecer que a África foi almejada e esmagada historicamente, e que, portanto, não é possível que o Brasil siga contribuindo, como fez no passado escravista, para a regressão desse continente. É responsabilidade da sociedade civil democrática zelar para que a intervenção econômica do Brasil na África seja, senão benéfica para os povos africanos, pelo menos não catastrófica ou absolutamente negativa. Há que impedir que surjam relações neocolonialistas entre o Brasil e o continente africano. Ìrohìn – Em poucas palavras, como o senhor definiria uma relação entre o Brasil e a África baseada na cooperação? Carlos Moore – De maneira sucinta, eu diria que um terreno sólido, saudável e mutuamente profícuo para se firmar uma cooperação entre o Brasil e o continente africano pode ser estabelecido mediante a definição das bases políticas e econômicas para uma parceria estratégica África-Brasil no século XXI. Trata-se de uma questão de vontade política por ambas as partes. Concretamente, o Brasil pode ajudar o continente africano a superar seus problemas crônicos através da concretização de um processo que conduza à unidade federal continental africana, coisa que o Brasil já tem feito consigo mesmo. Nessa ótica, o Brasil pode chegar, até mesmo, a se constituir na maior influência externa que empurre o continente africano à sua federalização imediata. Tal processo seria proveitoso para este Brasil que emerge como grande potência e precisa de aliados fortes para se defender. Por sua vez, a África, como um todo, pode ajudar o Brasil a resolver seu maior dilema interno: o problema sociorracial. A África pode ajudar este país a operar uma transição tranqüila para uma verdadeira democracia multirracial mediante o empoderamento político, econômico e social da maioria populacional brasileira, que é de ascendência africana. Isso é, de todos modos, inevitável historicamente. A África, também, precisa de um Brasil forte como aliado para se defender da legendária cobiça das grandes potências externas por seus recursos naturais. Assim, há lugar para uma parceria estratégica sã entre o Brasil e o continente africano em torno da definição de uma agenda comum de longo prazo visando à eliminação dos grandes desequilíbrios internos e internacionais que se constituem, tanto para o Brasil quanto para a África, em perigosos fatores de ruptura e de conflitos violentos. Juntos, o Brasil e a África continental federalizada podem definir os termos de uma grande aliança para o futuro. Ao fazerem isso, o Brasil e uma futura África federalizada poderão constituir o centro de um novo bloco estratégico de países do Atlântico Sul. Tudo giraria em torno da elaboração de um grande projeto em nome da democratização simultânea e concatenada do âmbito internacional e do universo doméstico das nações que compõem a comunidade internacional. Essa seria a maior contribuição para a estabilização e a democratização da ordem internacional no século XXI, no sentido de uma descentralização multipolar que beneficie o planeta, apague as guerras e contribua para a felicidade dos povos.

22 de out de 2007

Informação é poder

(Entrevista concedida por Rosane Borges à revista Eparrei on Line) "Dona de um currículo invejável,Rosane Borges é a quinta de uma família de seis irmãos, cinco mulheres e um homem. Formada em Jornalismo ,concluiu mestrado e hoje se orgulha do título de doutoranda em Jornalismo e Linguagem pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo. Em entrevista concedida para a Revista Eparrei, a maranhaense de São Luiz revela para as nossas leitoras (es) o seu pensamento . Eparrei-Como você analisa a imprensa negra no Brasil ontem e hoje? -Desde a experiência exitosa da Imprensa Negra paulista nas primeiras décadas do século XX (“O Menelick”, primeiro jornal dessa extração, começa a circular em 1915) até os dias atuais, o que está em jogo é a representação e publicização do negro e de sua história nos veículos de comunicação. Esse é, para mim, o princípio fundante da imprensa negra, ontem e hoje. Agora, obviamente, as estratégias e formas de atuação foram diversas, formatadas de acordo com as contingências sociais e políticas de cada momento. Para a população negra do início do século passado não havia a possibilidade remota dela figurar nas páginas dos jornais para além da imagem pré-fixada do negro, tão bem decantada pelo imaginário brasileiro da época (vadio, vagabundo, insolente, ladrão, desordeiro). Foi preciso a criação de organismos próprios que fossem capazes de promover a identidade étnico-racial, de denunciar e combater o racismo, bem como de divulgar a vida cultural e social da comunidade negra, dar voz aos intelectuais negros (as), servir de orientação psicológica. Como bem pesquisou Clóvis Moura, esse conjunto de periódicos que circulou por cinqüenta anos influenciou significativamente na formação de uma ideologia racial do negro paulista, forjou um estilo de vida, comportamentos, criou códigos morais. Finda a Imprensa Negra paulista no início da década de 1960, tivemos iniciativas episódicas aqui e ali em todo o Brasil. Temos hoje, graças ao aparato tecnológico, listas eletrônicas, sites e portais voltados para a divulgação da questão do negro e da mulher negra. Esses instrumentos não têm o mesmo caráter da Imprensa Negra do início do século XX, mas são motivados pelas mesmas carências (ausência de negros nos espaços informativos e publicitários, desconhecimento dos temas candentes que envolvem as relações raciais etc., etc.). Algumas experiências são dignas de lembrete: temos o jornal “Irohin” - informativo impresso com densidade que consegue articular escritores (as) e articulistas de todo o país; a própria revista de vocês, a Eparrei, que possui uma qualidade editorial inquestionável e abrangência nacional, é outro veículo importante para a tematização de assuntos relacionados à população negra e, especificamente, à mulher negra. Tivemos uma experiência na TV que, infelizmente, malogrou. Trata-se da TV da Gente, do Netinho. A TV foi ao ar durante alguns meses, mas não conseguiu se manter. O grande desafio que ronda profissionais negros (as) da comunicação diz respeito à necessidade e possibilidade de construção de um sistema de comunicação nacional (rádio, TV, jornais e outros tentáculos) capaz de disputar a atenção do público tanto quanto a chamada imprensa convencional. Eparrei - Poderia enumerar algumas propostas para a inserção de profissionais negras na grande mídia? -Essa é uma das bandeiras históricas dos movimentos negros, principalmente das organizações e pessoas diretamente ligadas à comunicação. Foram desenhadas diversas propostas conjuntas ao longo desses anos a respeito e que, a meu ver, são factíveis. Sabemos que a comunicação é uma das esferas importantes de representação social, de produção de sentidos e significados. Os nossos veículos audiovisuais, por exemplo, são moldados por um código estético que de per si exclui ou dificulta o ingresso de profissionais negros (as). A gramática de produção de nossa televisão diz que o “estar bem” / “se sair bem” no vídeo corresponde a um conjunto de atributos estéticos que, normalmente, nós negros não somos portadores. Eu me lembro que quando Heraldo Pereira, repórter da Globo, apresentou pela primeira vez o Jornal Nacional (JN) em novembro 2002, foi um estardalhaço. Jornais impressos e sites divulgaram o feito histórico. Muniz Sodré, intelectual negro de expressivo reconhecimento, chegou a escrever sobre a cobertura do jornal “O Globo”, que dizia que a partir de então Pereira passaria a compor o time de apresentadores do JN. Sodré lembrou que a presença de um profissional negro no vídeo, apresentando um dos informativos de maior audiência tem efeito simbólico, pois quem trabalhou muito tempo na imprensa brasileira sabe que aos negros, quando um ou outro conseguia ser admitido, reservava-se sempre o lugar da cozinha (velha gíria jornalística para tarefas que não requeriam visibilidade pública – como diagramação, revisão, copidescagem etc.). Um redator negro poderia até mesmo ganhar mais do que um repórter branco (Juarez Bahia é um exemplo), mas dificilmente aparecia. Há quem diga que com o encurtamento das funções jornalísticas (copidescagem é uma delas) por força das novas tecnologias, é o profissional negro que é atingido em maior grau com as demissões que se tornaram comuns nas redações. Em relação à mulher negra esse problema se agrava, porque a despeito de nossa participação em funções e cargos considerados privilegiados ter aumentado nesses últimos anos, somos afetadas pelo racismo e pelo sexismo, o que faz nos deixa ainda mais a margem. No que concerne a um eixo temático circunscrito à dita feminilidade também estamos excluídas. A pesquisadora Edna Melo, em dissertação de mestrado sobre “As cores da mulher negra no jornalismo”, nos informa que nas revistas femininas a mulher negra não é mostrada em situação de equilíbrio ou de boa convivência social. Sou favorável às políticas de cotas para profissionais negras da comunicação, aos programas de ação afirmativa somados, é claro, à execução de propostas educativas que visem à alteração do código estético a que fiz referência. É preciso mudar as nossas orientações sobre o feio e o bonito, o certo e o errado, o adequado e o inadequado, visto que elas promovem o que foi chamado por Sodré de semiocído (morte dos símbolos e referências negros). Contamos nos dedos as apresentadoras negras. Eparrei - Qual o maior desafio de ativistas para mudança de comportamento da conjuntura atual presente na grande mídia? Continuo achando que o maior desafio é o combate às práticas discriminatórias motivadas pelo racismo à brasileira, pois a mídia é o espelho da sociedade e vice-versa. Para a mudança desse código estético estável (a maioria dos nossos profissionais televisivos é homem, branca, possui o mesmo sotaque) precisamos ter uma sociedade que seja, de fato, plural em suas representações. Por que achamos comum a parca presença de profissionais negros no “mainstream” da comunicação? Por que a presença de Heraldo Pereira chegou a ser tema de matéria de jornal? Sabemos da importância da mídia para uma mudança estrutural de comportamento a respeito da imagem do negro. Não é à toa que a comunicação junto com a educação figura como um dos principais nexos para a superação do racismo. Somos um povo audiovisual, nos educamos pelo que sai na TV, no rádio, adentramos cada vez mais na rede virtual, o que exige a participação eqüitativa de segmentos historicamente discriminados, a exemplo de negros e de mulheres negras. A nossa participação na mídia (seja do ponto de vista temático, seja do ponto de vista da estrutura ocupacional) é uma base fundamental para a construção de uma nação realmente inclusiva – sonho alimentado por muitas mentes progressistas, que, contraditoriamente, resistem em encarar as desigualdades raciais como o grande entrave para a realização de tal sonho".

19 de out de 2007

A Somáli Ayaan Hirsi Ali lança livro em São Paulo, dia 20/10

(texto de divulgação - sítio da livraria cultura) "Em novembro de 2004, o cineasta Theo van Gogh foi morto a tiros em Amsterdã por um marroquino extremista (adjetivação desta escriba), que em seguida o degolou e lhe cravou no peito uma carta em que anunciava sua próxima vítima - Ayaan Hirsi Ali, que fizera ao lado de Theo o filme Submissão, sobre a situação da mulher muçulmana. E assim essa jovem exilada somali, eleita deputada do Parlamento holandês e conhecida na Holanda por sua luta pelos direitos da mulher muçulmana e suas críticas ao fundamentalismo islâmico, tornou-se famosa mundialmente. No ano seguinte, a revista Time a incluiu entre as cem pessoas mais influentes do mundo. Como foi possível para uma mulher nascida em um dos países mais miseráveis e dilacerados da África chegar a essa notoriedade no Ocidente? Em 'Infiel', sua autobiografia precoce, Ayaan narra a impressionante trajetória de sua vida, desde a infância tradicional muçulmana na Somália até o despertar intelectual na Holanda e a existência cercada de guarda-costas no Ocidente. É uma vida de horrores, marcada pela circuncisão feminina aos cinco anos de idade, surras freqüentes e brutais da mãe, e um espancamento por um pregador do Alcorão que lhe causou uma fratura no crânio. É também uma vida de exílios, pois seu pai, quase sempre ausente, era um importante opositor da ditadura de Siad Barré - a família fugiu para a Arábia Saudita, depois para a Etiópia, e finalmente se fixou no Quênia. Obrigada a freqüentar escolas em muitas línguas diferentes e conviver com costumes que iam do rigor muçulmano da Arábia à mistura cultural do Quênia, a adolescente Ayaan chegou a aderir ao fundamentalismo islâmico como forma de manter sua identidade. Mas a guerra fratricida entre os clãs da Somália e a perspectiva de ser obrigada a se casar com um desconhecido escolhido por seu pai, conforme uma tradição que ela questionava, mudaram sua vida, e ela acabou fugindo e se exilando na Holanda. Ela descobre então os valores ocidentais iluministas de liberdade, igualdade e democracia liberal, e passa a adotar uma visão cada vez mais crítica do islamismo ortodoxo, concentrando-se especialmente na situação de opressão e violência contra a mulher na sociedade muçulmana". (Deu na Veja de 17/10/2007) "Ayaan Hirsi Ali é uma mulher de sorte. Pelo menos, é o que ela diz no epílogo de Infiel (tradução de Luiz A. de Araújo; Companhia das Letras; 512 páginas), seu livro de memórias. Não deixa de ser uma declaração surpreendente: nas páginas que antecedem o capítulo final, Ayaan passa pela excisão do clitóris, em uma operação bárbara, realizada sem anestesia, e é espancada até ter a cabeça fraturada por um professor da escola islâmica – para ficar apenas com os infortúnios da infância. Crítica feroz da opressão das mulheres sob o Islã, a ex-parlamentar holandesa de origem africana detesta a insinuação de que seus ataques são resultado do ressentimento por seu passado "traumático". "Quero ser julgada pela legitimidade dos meus argumentos, não como uma vítima", escreve ela. Não resta dúvida, porém, de que sua biografia empresta força ao seu argumento. Ayaan diz basicamente que o mundo islâmico em geral está em descompasso com a modernidade e que as sociedades ocidentais oferecem mais liberdade e segurança, sobretudo para as mulheres. Nascida na Somália e criada por uma família muçulmana, Ayaan tem a autoridade da experiência para falar desses temas. A grande sorte de Ayaan foi sua fuga para a Holanda, país que lhe deu cidadania e onde ela fez uma breve e controversa carreira política, como parlamentar pelo Partido Liberal. Na Holanda, ela colaborou com o cineasta Theo van Gogh na realização do curta-metragem Submissão, que inflamou os fundamentalistas por sua denúncia da condição feminina sob o Islã – e pelo sacrilégio de mostrar trechos do Corão, em árabe, impressos sobre a pele nua de uma mulher espancada. Em 2004, Mohammed Bouyeri, holandês de ascendência marroquina, matou Van Gogh quando ele andava de bicicleta nas ruas de Amsterdã. Depois de balear o cineasta, ele o degolou e afixou, com uma faca, uma carta em seu peito – repleta de ameaças a Ayaan, que então passou a viver sob vigilância constante de guarda-costas. Incomodados com esse aparato de segurança, os vizinhos de Ayaan pleitearam, na Justiça, que ela deixasse o prédio. Pela mesma época, surgiram acusações de que ela teria mentido na sua solicitação de cidadania holandesa, em 1997. Detalhes mínimos como a mudança de um nome de família quase causaram cassação da cidadania – e provocaram uma crise que levou à queda do gabinete liberal, em 2006. Ayaan mudou-se para os Estados Unidos, onde aceitou uma posição no American Enterprise Institute, um "think tank" conservador. A mulher que estava destinada à servidão doméstica – o pai chegou a arranjar seu casamento com um desconhecido – acabou entrando para uma lista das 100 pessoas mais influentes do mundo elaborada pela revista Time, em 2005. Adversária do relativismo, Ayaan não admite que práticas como a ablação do clitóris e o casamento arranjado à revelia da mulher sejam desculpadas em nome do respeito a tradições primitivas. Essas posições perfeitamente razoáveis têm valido a ela uma bizarra acusação de rendição ao "imperialismo cultural" do Ocidente – como se ela devesse se submeter à opressão e à tortura por fidelidade a suas raízes. À parte sua história fascinante, marcante no livro de Ayaan é o desassombro com que ela afirma cabalmente a superioridade dos valores ocidentais: "Passei do mundo da fé para o mundo da razão. Sei que um desses mundos é simplesmente melhor do que o outro". Quando: 20/10/07, às 19:00. Onde: Livraria Cultura Conjunto Nacional. Endereço: Avenida Paulista, 2073.

Vídeo "É tudo nosso"! O Hip Hop fazendo história em São Paulo

18 de out de 2007

Projeto Olho Negro, em Salvador

O fotógrafo Alberto Lima, em parceria com o Centro de Estudos das Populações Afro – Índios – Americano (CEPAIA), tem a honra de convidá-lo (a) para a pré-apresentação do Projeto Olho Negro. O projeto compreende pesquisa etnográfica em templos de religiões de matriz africana na cidade de Salvador, que apresentem elementos artísticos como: esculturas, pinturas, cadeiras com motivos diferenciados e outros elementos que provoquem reflexão enquanto “Arte Afro-religiosa”, além de exposições, oficinas de fotografia e publicações. Data : 23 de Outubro. Local: CEPAIA – Largo do Carmo nº 4 Centro Histórico, às 09:00 hs.

Cia Étnica encena "Itens Excluídos", no teatro Cacilda Becker, RJ

17 de out de 2007

Eu Sou Atlântica, no Rio de Janeiro, dia 25/10

Kitabu Livraria Negra e Instituto Kuanza convidam para o lançamento do livro - Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento,de Alex Ratts. Presenças de: Alex Ratts – Antropólogo, geógrafo, professor da UFG. Maria Isabel Nascimento – Assistente Social, responsável pelo Acervo de Beatriz Nascimento. Rosane Borges – Jornalista, diretora do Instituto Kuanza. A publicação Eu sou Atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e do Instituto Kuanza é prefaciada por Sueli Carneiro e se divide em duas partes. Na primeira – "Quantos caminhos percorro" – o autor dialoga com a obra publicizada e inédita de Beatriz Nascimento, por meio das temáticas e categorias da pesquisadora e a partir de pesquisa em acervos públicos e particulares no Rio de Janeiro, em São Paulo e Brasília. A segunda – "É tempo de falarmos de nós mesmos" – traz oito artigos escritos por ela entre 1974 e 1990, publicados em periódicos como Revista Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos, Afrodiáspora, Maioria Falante e Última Hora. Maria Beatriz Nascimento (Aracaju, 1942 – Rio, 1995) é historiadora, pesquisadora, poeta e ativista negra. Ao longo de vinte anos, tornou-se estudiosa das temáticas do racismo e dos quilombos, abordando ainda a correlação entre corporeidade negra e espaço e as experiências de longos deslocamentos socioespaciais de africanos/as e descendentes, por meio das noções de “transmigração” e “transatlanticidade”. 25 de outubro, quinta-feira, às 18h. Endereço: Kitabu Livraria Negra Rua Joaquim Silva, 17 – Lapa Tel.: (21) 2224-9847/8887-0576 Kitabulivraria@gmail.com kitabulivraria.wordpress.com

Debate sobre arte contemporânea africana, no Museu Afro Brasil

Museu Afro Brasil Parque do Ibirapuera - Portão 10 55 11 5579 8542 ramal 119 Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega São Paulo, SP - Brasil - 04094 050 www.museuafrobrasil.com.br

16 de out de 2007

"Broder", novo filme de Jeferson De, na área

(Fonte: Agência Estado) - "O escritor Ferréz, autor de Capão Pecado, e o grupo Racionais MCs, filhos ilustres do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, já deram o sinal verde. Responsáveis por tentar fazer com que a região apareça mais nos cadernos de cultura e menos nas páginas policiais, eles leram o roteiro e assinaram embaixo de um novo filme que, depois de Tropa de Elite, deve fazer novo barulho em uma periferia do País. Bróder!, primeiro longa de Jeferson De, se passará no Capão Redondo e suas filmagens devem começar no fim de novembro. No elenco, atores de apelo entre o público, como Caio Blat, Taís Araújo, Ailton Graça, Zezé Polessa e Juca de Oliveira. Como o próprio diretor assume, apesar do baixo orçamento, trata-se de uma estréia de luxo: além do elenco ''estelar'', Jeferson tem como parceiros a Globo Filmes e a Columbia Pictures. Quem espera uma versão paulistana de Tropa de Elite, com a Tropa de Choque substituindo o Bope, vai se decepcionar. "É um filme de ficção para emocionar. Acho que discussões sociológicas e antropológicas podem acontecer na escola. Não faço um filme achando que ele vai resolver problemas", explica o diretor de 39 anos. Negro, filho de dona de casa e torneiro mecânico, Jeferson saiu de Taubaté para fazer cinema na Universidade de São Paulo. Com amigos, fundou o Dogma Feijoada, grupo que reivindica presença maior de negros na frente e atrás da câmeras, desde que não de maneira estereotipada. Bróder! traz no roteiro uma história de amizade entre três amigos de infância, vividos pelos atores Jonathan Haagensen (Cidade de Deus), Silvio Guindane (ator de Vidas Opostas) e Caio Blat, que será o protagonista, apelidado de Macu (de Macunaíma). Nas palavras do diretor, será "um branco que se acha negro". O fato de representar um morador de uma determinada periferia - uma realidade distante da sua - fez com que, antes mesmo das filmagens, Caio Blat começasse a freqüentar o Capão, o que acabou por levantar boatos de que o ator moraria na região por uns tempos, algo que ele desmente. "Eu devo alugar um apartamento na Cohab apenas para descansar entre as cenas." No entanto, não esconde a intenção de usar a vivência no bairro como laboratório. "Tudo isso parte de uma grande insegurança, uma responsabilidade de representar um lugar, milhões de histórias verdadeiras. Cada quebrada tem um pensamento diferente, uma atitude diferente." Sua imersão no universo do Capão parece estar dando certo. Blat foi acolhido de vez pela comunidade e conquistou a simpatia até do recluso rapper Mano Brown e seus colegas. As informações são do Jornal da Tarde." http://www.estadao.com.br/arteelazer/not_art65722,0.htm

9 de out de 2007

Semana de Arte Moderna da Periferia de São Paulo - Antropofagia Periférica de 04 a 11/11/07

(Por Sérgio Vaz / Cooperifa) Manifesto da Antropofagia Periférica "A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros. A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula. Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha. A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar. Do teatro que não vem do “ter ou não ter...”. Do cinema real que transmite ilusão. Das Artes Plásticas, que, de concreto, quer substituir os barracos de madeiras. Da Dança que desafoga no lago dos cisnes. Da Música que não embala os adormecidos. Da Literatura das ruas despertando nas calçadas. A Periferia unida, no centro de todas as coisas. Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala. Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala. É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que armado da verdade, por si só exercita a revolução. Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona. Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural. Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado. Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles ? “Me ame pra nós!”. Contra os carrascos e as vítimas do sistema. Contra os covardes e eruditos de aquário. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada. A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor. É TUDO NOSSO!"

8 de out de 2007

Robson Canto lança romance pela Edições Toró

Saudades da Bienal das Favelas

Foi no final de julho 2007, no Rio de Janeiro, a chapa esquentou e o Circo Voador virou favela. Sessenta comunidades desceram o morro para representar suas artes e vivências na segunda edição da Bienal Favela Festa. Ao longo dos quatro dias (19 a 22 de julho), o evento teve espetáculos de música, teatro, dança, moda, poesia, vídeo, cinema, fotografia e artes plásticas, desfilando diversos estilos e linguagens. Mais de 800 artistas assumiram a cena de uma arte urbana da melhor qualidade produzida nos morros e subúrbios do Rio. Nesta ocupação cultural, artistas criados ou ligados às comunidades subiram ao palco do Circo Voador para representarem e homenagearem a musicalidade do morro. A grande dama, Elza Soares, coroou a festa com o show “Beba-me”, o mesmo apresentado dia 07 de outubro, em encerramento de curta temporada, no belo Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Assisti aos dois espetáculos e que saudades senti da noite no Circo Voador. Lá, éramos incontáveis negros e quando a Elza cantou “A carne”, de Marcelo Yuca e Seu Jorge, o morro veio abaixo ou fomos todos para cima e miramos o racismo do alto. No auditório Ibirapuera, no bizz, Elza cantou "A carne" e modificou a letra: "A carne mais barata do mercado é a carne negra / a carne mais barata do mercado é a MINHA carne negra”. Ainda assim, poucos corações pulsaram, vibraram, e a acompanharam. No Circo Voador a gente quase entrou em êxtase (sem ecstase). No Auditório Ibirapuera nem a multiculturalidade discursiva soltou a voz dos paulistanos em louvor a Elza Soares, pois, cantar junto com Elza, nada mais é do que reverenciá-la. A diva ainda insistiu, seguiu o script, e para encerrar o show cantou O Rap da Felicidade, dos compositores cariocas, Cidinho e Doca: “eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu nasci / e poder me orgulhar / e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Deve ter se frustrado muito, pois todas as vezes que interrompia o canto e conclamava a platéia - “vocês”... cadê que o povo sabia a letra ou soltava a voz para cantar junto com ela, não havia coro. A classe média intelectualizada costuma interpretar equivocadamente a letra desta música, que, diga-se de passagem, é primorosa – “faço uma oração à Aparecida protetora / mas sou interrompido / tiros de metralhadora” , muito antes de “Tropa de elite”, mesmo do livro. Já ouvi muita gente boa e bem intencionada dizer que a letra apregoa que os moradores de favela se limitem a ela e sejam felizes naquele mundinho. Ledo engano, tosca ilusão. A favela não é um mundinho, é um mundo, muito, muito complexo e o Cidinho escreveu a primeira versão do Rap da Felicidade, depois que o motorista do táxi, no qual ele viajava com as filhas no colo, recusou-se a subir o morro da Cidade de Deus, sua moradia. Ele ameaçou: “então eu não pago”. E o motorista: “tudo bem amigo, não tem problema, mas aí eu não entro”. Cidinho desceu do táxi e subiu todo o morro a pé. Escreveu a letra quando chegou em casa, ofendido, humilhado, esculachado, como dizem os cariocas. Então, quando a Elza canta O Rap da Felicidade para a favela, a favela responde, sente, pulsa. Outros públicos têm gosto variado e se deliciam com “o neguinho gostou da filha da madame / que nós chamamos de sinhá / senhorita também gostou do neguinho / mas o neguinho não tem dinheiro pra gastar”... mas tem um falo poderoso, o microfone, que a diva alisa sem parar.

6 de out de 2007

Sobre Negrices em Flor, novo livro de Maria Tereza

O Negrices de Tereza, Edições Toró, 2007, é poesia quente, visceral, sem preocupações excessivas com o apuro da forma. É de sabedoria simples, no sentido de ser básica, sem o verniz da sofisticação: “neste corpo cheio de poros sei muito bem do meu osso” (Rosa preta); “Melhor só do que meio mal acompanhada”; “Quando dois querem um não vai embora”; “Difícil é ser e ir, mas ninguém falou que ia ser facinho”; “Tem amor que dá no peito, tem amor que dá no pé”. Quatro versos de um poema sem título na página 40. É outra autora, bem diferente daquela mulher sôfrega do “Ruídos”, de 2004, editora ComArte. A Tereza do Negrices é afro-zen. É Tereza também de traços leves, de desenhos feitos por ela mesma. É forte e bonita, como em “Rigidez”. A rigidez dos dias faz ainda coro no lombo / De crianças que trabalham como bichos / De meninas emputecidas sem leitura / De moleques pau pra toda obra em qualquer esquina / Esses, estas todas mesmo que ainda imaginam / Como seria pronunciar bem e entendendo / Palavras escritas / Até poesia. Sagaz e refinada como em “Eugenia”. A boneca preta de Clarice não se podia tocar, era proibido com ela brincar porque parecia realmente com um bebê negro, de pele macia luzente e cabelo cheio de texturas. Eugenia fora um presente que a mãe de Clarice detestara. E ainda por puro deleite erudito batizara-a assim em letras minúsculas, sem acento, eugenia.

5 de out de 2007

Rito Ramón Aroche - poeta afro-cubano visita Brasília

Produção Crioula, da amiga Lia Maria, apresenta a poesia de Rito Ramón Aroche, poeta afro-cubano e o filme Habana Blues. Identidade. Política. Valores culturais. Consciência racial e expresão artística! Afro-cubanidade, dentro e fora da Ilha. Dia 06 de outubro de 2007, no Balaio Café, às 20:00. 201 Norte, Bloco A, Brasília, DF.

Em Goiânia, dia 10/10/07, "Cuidando da cabeça: ori-entações de mulheres negras"

Dia 10/10/07, Dia Mundial da Saúde Mental, tem mais uma edição do "Café com Idéias", no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, em Goiânia. Estarei por lá, ao lado dos amigos Alex Ratts e Rosane Borges, sob a proteção da figura ancestral-iluminada de Beatriz Nascimento. Lançaremos o Tridente 2 e o livro "Eu sou Atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento", de autoria do antropólogo e ativista Alex Ratts, publicação da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e do Instituto Kuanza. A biografia de Beatriz, prefaciada por Sueli Carneiro, se divide em duas partes. Na primeira – "Quantos caminhos percorro" – o autor dialoga com a obra publicizada e inédita de Beatriz Nascimento, por meio das temáticas e categorias da historiadora/poeta/ativista e a partir de pesquisa em acervos públicos e particulares no Rio de Janeiro, em São Paulo e Brasília. A segunda – "É tempo de falarmos de nós mesmos" – traz oito artigos escritos por ela entre 1974 e 1990, publicados em periódicos como Revista Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos, Afrodiáspora, Maioria Falante e Última Hora. "A saúde mental da população negra tem sido colocada em pauta na agenda pública por pesquisadores/as e ativistas desse campo conquanto o racismo, combinado com outros problemas sociais, contribui para o estresse e outros transtornos psíquicos. Neste evento trataremos da voz e da escrita de mulheres negras que se dedicaram ao bem estar geral, físico, mental e psicossocial. Esta edição do Café com Idéias visa favorecer a implementação de políticas públicas para a promoção da equidade de gênero e racial". Ori: termo na língua iorubá que designa a “cabeça física do ser humano e o processo de fazer a cabeça, mas também, e talvez principalmente, uma espécie de ‘inner-head’ (cabeça interior)” – Antônio Risério – Oriki, Orixá. Programação:18:30 – Mesa de abertura; 19:00 – Poemas de Beatriz Nascimento + canções interpretadas por Janaína Soldera e Clécia Sant’Ana - atrizes. A seguir, Roda de conversa com Cidinha da Silva, Rosane Borges – Instituto Kuanza – SP e Alex Ratts – NEAAD/UFG. 21:00 - café e lançamento dos livros. Realização: Café com Idéias; Fórum Goiano de Saúde Mental; ANEPS – Associação Nacional de Educação Popular; CANBENAS – Coletivo de Estudantes Negros/as Beatriz Nascimento; NEAAD – Núcleo de Estudos Africanos e Afro-Descendentes da Universidade Federal de Goiás.

4 de out de 2007

Maria Tereza e Cidinha da Silva na Cidade Tiradentes

Dia O6 de outubro de 2007, no espaço cultural Casa da Fazenda, à Avenida Sara Kubischeck, 165, Cidade Tiradentes, São Paulo (ao lado do terminal de ônibus). Realização: Os Novos Griots e Oriashé. "Se puder, leve um livro para ampliar a biblioteca do espaço".

3 de out de 2007

Editora Éblis lança "51 Mendicantos"

No próximo dia 25 de outubro, na biblioteca Alceu Amoroso Lima (rua Henrique Schaumann, 777 – São Paulo), a editora Éblis lançará 51 Mendicantos, livro de estréia do poeta santista Paulo de Toledo.Contando com ilustrações de Sandro Saraiva, 51 Mendicantos se constrói em frames que se duplicam, se contrastam, se justapõem, como em postais das grandes cidades do mundo globalizado, seja São Paulo ou Nova Iorque. Mas o fotógrafo não é o poeta, mas sim um seu igual, um seu irmão: o mendigo que curtia rap / e que um dia já fora hippie... Eis o poeta dos 51 Mendicantos que, numa certa monotonia proposital, forma um painel em P&B, uma grande colagem feita com o lixo que soterra (no lixão um mesquinho minidicionário / mostra ao mendigo que a miséria / infelizmente vem antes da misericórdia.) e o luxo que debocha (de calcinha a musa no outdoor / olha pro mendigo que acusa / com a mão toda a sua dor) dos moradores anônimos das calçadas e pontes urbanas. Paulo de Toledo (www.paulodtoledo.blog.uol.com.br) tem trabalhos publicados em vários sites e publicações literárias, como Babel, Cult e Coyote. Participou da edição crítica de Catatau, de Paulo Leminski (Travessa dos Editores, 2004) e foi vencedor do V Projeto Nascente (USP/Editora Abril). A Editora Éblis, capitaneada pelos poetas Ronald Augusto e Ronaldo Machado ( sérios moçoilos da foto acima), que estarão no lançamento apresentando a editora e também lendo seus poemas, tem como proposta editorial uma idéia simples e impertinente: a edição de livros de poesia. O foco da nova editora é pôr em circulação a poesia que não se contenta com a corriqueira satisfação da moeda literária vigente, que cai, ora com a cara cult, ora com a coroa provinciana. Longe de bairrismos e puritanismos, sempre confrontados pelos poetas-editores, Éblis joga sobre a mesa uma nova moeda, revendo assim a economia poética contemporânea. Por isso, a escolha em editar o livro de Paulo de Toledo.

História e historiadores da África: uma homenagem a Joseph Ki-zerbo

O Curso de História da UNIFESP, o CECAFRO-PUCSP, o CEA/USP e a Casa das Áfricas promovem o Colóquio "História e historiadores da África: uma homenagem a Joseph Ki-Zerbo". As atividades ocorrerão entre 15 e 17 de outubro de 2007, com professores e pesquisadores do Brasil, Burkina Faso, Senegal, Costa do Marfim e Moçambique. As inscrições são gratuitas e poderão ser feitas on-line no endereço http://dpdphp.epm.br/acad/siex/index.htm ou pessoalmente, no primeiro dia do evento. Os inscritos receberão certificado. O colóquio terá lugar no TUCA (15 de outubro, 19:30h), no TUCA-Arena (16 de outubro, das 9h30 às 19h), à Rua Monte Alegre, 1024 - Perdizes, São Paulo e no Teatro Adamastor Pimentas (17 de outubro, das 9h30 às 17h), Estrada do Caminho Velho, 333 - Bairro dos Pimentas, Guarulhos). Haverá ônibus para transportar os participantes de São Paulo a Guarulhos no dia 17 de outubro (arte: Iléa Ferraz).

2 de out de 2007

Charles Baudelaire e Cruz e Sousa, à margem da modernidade - curso com Ronald Augusto, na Palavraria, em Porto Alegre

(Por Ronald Augusto) "Neste ano da graça de 2007 se comemoram os 150 anos da publicação de Les fleurs du Mal, do poeta Charles Baudelaire. E em 24 de novembro, lembramos o aniversário dos 145 anos de nascimento de Cruz e Sousa. A coincidência das datas se projeta além das efemérides sugeridas. A quase sincronia aponta para algo mais substantivo, refiro-me aos cruzamentos intertextuais entre ambos os poetas. Cruz e Sousa e Baudelaire viveram sob o mesmo arco histórico marcado pelo surgimento da metrópole moderna. Viverem, cada qual a seu modo, à margem de suas sociedades, e experimentaram, eventualmente, em seus respectivos ambientes culturais, lapsos de aceitação no que respeita às suas obras e idéias. Se os considerarmos como simbolistas strictu sensu, será então a partir de suas criações que o alto modernismo estabelecerá sua estética. Sem Baudelaire não haveria T. S. Eliot, nem Ezra Pound. Sem Cruz e Sousa, livros como A cinza das horas, de Manuel Bandeira, e Paulicea desvairada, de Mário de Andrade seriam impossíveis. Ao longo de quatro encontros, o curso investigará, entre outros tópicos de forma-e-fundo, as relações que ambos os autores mantiveram com seus espaços de modernidade; de que modo suas obras crítico-criativas problematizaram os dilemas do seu tempo; e de que maneira as gerações seguintes lidaram com o legado inventivo desses poetas. Mais alguns conteúdos a serem abordados durante o curso: · A "nota brasileira" do simbolismo de Cruz e Sousa. · O poeta da Ilha do Desterro e o falso problema do eu negro. · Um make it new (renovar) a partir da poesia de Cruz e Sousa. · Baudelaire e o poeta como um trapeiro intersemiótico. · "Quadros Parisienses" e a metrópole-arte. · A figura do poeta-crítico como um dos legados de Baudelaire". Sobre o poeta-professor Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) Confissões Aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). É co-editor, ao lado de Ronaldo Machado, da Editora Éblis www.editoraeblis.blogspot.com. Curso de Primavera a partir de 9 de outubro de 2007, terças-feiras às 19h30 (prosseguindo nos dias 16, 23, e 30, na Palavraria - Livraria-Café, em Porto Alegre. Informações & Inscrições: Com Ronald Augusto, pelos telefones 51 3336 2969 e 8406 6807 www.poesia-pau.zip.net --------------------------------------------------------------------------------