Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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24 de jun de 2017

Corra para o cinema e depare-se com o racismo miúdo de todos os dias!




Por Cidinha da Silva

O filme “Corra” (Get out / Jordan Peele) foi o responsável por minha estréia como expectadora de filmes de suspense/terror numa sala de cinema. Minha experiência anterior e insignificante aconteceu frente à televisão, com dois ou três filmes que não consegui assistir até o final. Ou seja, vocês estão diante da confissão de alguém que não conhece e tampouco se anima com o gênero.

Movi-me até o cinema por duas vezes, devo dizer, para assistir a um filme de terror/suspense que tratava do terror do racismo, pelo que depreendi das resenhas lidas. Não me decepcionei. Aliás, me surpreendi muito. Positivamente.

Compartilho aqui as principais impressões de uma pessoa que tem alguma habilidade para compreender a operacionalidade do racismo e procurou decodificar como Peele fez o mesmo exercício numa obra cinematográfica inusitada. Não prometo mais do que isso neste texto.

A leitura do filme começa pelos locais e platéias. Estive em duas salas de ambiente cult distintas. A primeira, dentro da Universidade Federal da Bahia, freqüentada por estudantes e principalmente por professoras/es. Nesse tipo de filme que toca em questões sensíveis aos Direitos Humanos conta-se com uma reação de parte da platéia que quer mostrar o quanto é politizada. Quando enxerga pessoas negras afirmadas, então, capricham nos suspiros, comentários sobre o absurdo das situações racistas e outras intervenções durante a exibição, em tom especialmente alto que chega a atrapalhar a audição dos diálogos.

A segunda sala foi um espaço cult em versão comercial, o Cine Belas Artes, na cidade de São Paulo. Ali, com um público maior e mais diverso, a preocupação de parte da platéia em ser politicamente correta permanece, mas as interferências são diluídas e a gente diretamente envolvida na trama do filme que, afinal, trata de coisas muito conhecidas por nós, negros (e por isso são aterrorizantes), tem um pouco mais de paz para assistir o filme.

Passei os olhos por alguns comentários feitos por mulheres negras, principalmente, no sentido de que o filme abordaria em profundidade as relações afetivo-sexuais entre homens negros e mulheres brancas. Não tive essa sensação. A meu sentir, a presença do racismo na relação amorosa interracial entre os protagonistas do filme, Chris e Rose, é mais um dos aspectos sinistros do racismo, mas não o principal ou central.

Dito de outra forma, Chris não me pareceu em momento algum que quisesse “ser branco”, que quisesse abrir mão de ser negro ao namorar a personagem branca. Até porque, não existe espaço para isso na sociedade estadunidense. Chris me pareceu mais um desses meninos negros perdidos, fragilizados (no caso dele pela perda da mãe e ausência do pai), talvez vítimas da rejeição e da estereotipia causadas e alimentadas pelo racismo, e que se deslumbram quando qualquer mulher branca acena para eles. Mas todos sabem que continuam sendo negros subalternizados na hierarquia racial dos afetos, mesmo tendo “conquistado” o tipo de mulher valorizado pelos homens brancos, os donos do poder.

Escuso-me aqui de discutir histórias de amor entre homens negros e mulheres brancas, não é o foco do texto. Interesso-me apenas por problematizar o suposto desejo de Chris de “deixar de ser negro” por estar envolvido com Rose, mulher branca.

Chris, inclusive, é um fotógrafo bem sucedido, que registra o mundo negro como se verá ao longo da narrativa (mantém-se ligado às referências que o formaram e que o projetam). É reconhecido profissionalmente e está no lugar dos negros que podem buscar o que há de melhor para si, porque se descolaram (com sucesso) da massa anônima. Por conseguinte, mais ou menos por uma questão de lógica da ascensão social, esses homens negros buscarão mulheres brancas, comprovação viva de que eles estão por cima da carne seca. A seguir, experimentarão a complacência possível da branquitude, a ilusão de pertencer ao clube vip porque a marca do carro que dirigem é a mesma do carro do chefe. Mas ninguém deixa de ser negro por isso, não.

O diálogo entre Chris e o funcionário negro da fazenda dos sogros é elucidador, diz o caseiro: “ela (a namorada branca) é de primeira linha, não é? Se fosse minha eu não largava mais”. Rose é o emblema do sucesso que ali, na intimidade da conversa entre dois negros, é desnudado por um deles, aquele que já perdeu tudo. Até mesmo a própria vida.

O filme propõe outras tantas abordagens complexas. Logo no início o aspecto traiçoeiro do racismo se evidencia. Um músico negro que depois saberemos ser do Harlem, caminha tenso por um bairro de classe média branca a procura de um endereço. Talvez ele tema a polícia que considera os negros como suspeitos preferenciais porque, como justificativa do teatro do absurdo, precisam suspeitar de alguém. Talvez esteja com medo de cães treinados para atacar determinados perfis físicos como o seu, estigmatizados como ladrões. Talvez tema a segurança privada dos bairros endinheirados que como a polícia, o considerará suspeito. Contudo, o racismo tem tantas faces e máscaras que se apresentará a partir de outro lugar não especulado aqui. Um homem trajando um capacete de ferro, saído de um imponente carro branco, lhe aplicará um golpe de Jiu Jitsu (pelas costas) que o fará desmaiar. Depois ele será jogado no porta-malas.

Notem que é um homem branco que dirige um carro usando um capacete. Está bem, o cara pode ter posto o capacete apenas para atacar o homem negro, não dirigia com ele na cabeça. Mas, se considerarmos a primeira hipótese, posso também ler o ato como alegoria de que o branco pode tudo. Aquele homem branco de capacete e dirigindo um carro, provavelmente não seria abordado pela polícia do bairro, talvez nem fosse notado, tal qual um homem negro andando a pé seria (será). Porque aos negros, sabemos, não se garante plenamente o direito de ir e vir previsto em todas as constituições democráticas.

Outra marca da complexidade do racismo aparece quando Chris é hipnotizado como primeira fase do processo de espoliação de si e tenta resistir. Ele não quer se lembrar da dor que o desestruturou na infância, mas é forçado a isso. O racismo estimula nossos estados de fragilidade e desamparo. Chris afunda e fica lá, num lugar perdido. O chão escapa, a sustentação garantida pelas próprias pernas desaparece. Ele é jogado no buraco profundo de sua dor, da perda da mãe, pela qual ele se culpa, como se fosse possível tê-la salvo.

Instala-se a tortura de reviver a dor e a incompreensão do que se passa. É um pesadelo que não termina. É o buraco da impotência da criança negra que se vê sozinha no mundo e que poderá tornar-se um adulto suscetível a salvadores e hipnotizadores que manipulem sua dor. A namorada fará isso.
Por fim, o mais macabro de tudo é como o racismo escolhe aquilo que Chris tem de mais adequado e útil aos brancos do filme de terror, só àqueles, para alívio de alguns leitores desconfiados de “racismo reverso” da cronista.

Chris é o prêmio do jogo. Ele emprestará sua virilidade ao velho caquético, cuja mulher saliva ao tocar as carnes rijas do negro; sua força física ao jovem lutador que não é tão forte quanto ele; seu charme ao homem que acha que ser negro está na moda; sua inteligência e perspicácia poderão servir a outro; sua visão perfeita, sua capacidade de enxergar o mundo e produzir arte poderão restituir a visão a um cego. Basta apenas preencher a cartela e vencer o Bingo para ganhar como prêmio o corpo e os dotes diversos de Chris, o negro, e assim revigorar uma brancura deficitária.


“Corra” é realmente um filme de terror racista e o mais aterrador é a certeza de que está embasado em fatos reais, amplamente conhecidos e experimentados por nós, gente negra do mundo.

22 de jun de 2017

Foi bonita a festa


Por Cidinha da Silva


Quando ela subiu ao palco, gingando, alguém poderia dizer que ia ali uma porta-bandeira experiente, protegendo o pavilhão da escola e oferecendo-o aos admiradores para a reverência do beijo.

Outra pessoa poderia enxergar uma senhora da ala das baianas, forte, segura, carregando aquela fantasia pesada e evoluindo na avenida como se o peso do mundo fizesse parte daquele corpo negro. Como se carregá-lo fosse o princípio involuntário da reinvenção.

Eu, quando a observei, vi uma habilidosa dançarina de samba-rock rodopiando já na subida dos degraus e nos deixando embevecidas pela elegância, fluidez e determinação de cada passo.  

Depois do silêncio templário feito para escutar a Davi Kopenawa, o Auditório Ibirapuera fez um silêncio entrecortado por ondas elétricas para ouvir a Sueli Carneiro. Era a tensão de não saber o que seria dito pela lâmina da espada.

Mas é mandingueira essa Sueli Carneiro. Até para receber um prêmio ela ginga no desfile de sua cadência banto-paulista de raízes mineiras até chegar ao microfone e empunhá-lo para dizer o que precisa ser dito. Para nos instar a fazer o que precisa ser feito.

Reza a lenda que um exercício freqüente para aprender a dançar samba-rock, daqueles treinados à exaustão em casa, antes do baile, era segurar a maçaneta de uma porta fechada e girar, girar, fazer todos os movimentos e passos, sem soltá-la. Trocando as mãos, mas sem soltar a maçaneta.

Sueli Carneiro, exímia dançadora de samba-rock, nas mesmas proporções em que é conhecedora das manhas do futebol, deve ter apreendido a essência da lição do exercício fixo na maçaneta, ou seja, manter o foco na porta (a abertura do caminho) sem descuidar por um segundo sequer, da flexibilidade do corpo e do espírito dançarino.


Tenho para mim que ela subverteu o jogo, pois portas fechadas não combinam com sua natureza. Sueli Carneiro é mulher de abrir portas, todas elas. Abre mesmo portais, porque não teme o novo, nunca temeu. Talvez por compreender que o melhor do afrofuturismo contemporâneo está no reconhecimento da tradição, na manutenção dos pilares fundadores e na reinvenção daquilo que é da ordem da criação e da tecnologia, do princípio ogúnico da existência.

12 de jun de 2017

Dia das namoradas


Por Cidinha da Silva


Nesse dia, como no restante do ano, você pode escolher entre falar de amor ou de relações comerciais. Vamos aqui inventar o amor que a Organização Mundial do Comércio já está com a vida ganha.
Amar é... passar a ferro o vestido da amada, mesmo não gostando, só para aliviar a pressa dela.
Amar é... compreender que o sangue da mulher amada tem cinco componentes: hemácias, plaquetas, leucócitos, polvilho e queijo. E sair pela cidade nova na chuva à cata de um pão de queijo decente, quentinho, que aplaque a crise de abstinência.
Amar é... aguardar ansiosa a próxima partida de futebol na TV só para ouvir os comentários dela. Amor, quem é que tá jogando? O Barcelona... Ah... o time do Neymar. Sim, o time do Messi. Humm, aquele baixinho que dizem que bate um bolão. Não, preta, ele bate um bolão. Joga muito. Joga nada, esse pessoal é comparsa dele!
Messi na TV, o simples majestoso, passa por dois adversários, deixa o terceiro no chão, torto, e por fim leva uma botinada do quarto, brasileiro recém-chegado do futebol inglês. Permanece de pé, mesmo trôpego, corre e mantem a bola coladinha ao pé. Conclui a jogada num passe açucarado para um companheiro qualquer completar para o gol.
Singela, a amada arrebata: esse pessoal da Europa deixa ele jogar, olha para isso! Por que é que ninguém pára o sujeito? Quero ver jogar bem aqui, na série B do brasileiro.

10 de jun de 2017

Histórias de leitura do #Paremdenosmatar 1 (conte-nos a sua também...)



Nô Homero chegara a Luanda. Na bolsa um exemplar do #Paremdenosmatar! para ler durante as férias. Fernanda Kung Agostinho, 12 anos, folheou o livro e resolver ler. Não largou mais, até terminar. Isso para Nô foi um problema, porque ela já havia iniciado a leitura e queria terminá-la. Mas Fernanda se trancou no quarto e fugia dela para não devolver o livro. Quando devolveu chorava e a abraçou dizendo: "Nós sofremos em quase todos os lugares".

8 de jun de 2017

O livro #Paremdenosmatar! em Alagados, Salvador



Neste sábado tem Só para Mulheres Negras - Oficina de Leitura Encenada, promovida pelo Coletivo de Mulheres Negras (COMUN) no Espaço Cultural Alagados (Uruguai).
O livro #ParemDeNosMatar foi utilizado para produção do texto adaptado "Porque as mães choram", a oficina oferecerá análise de texto dramatúrgico e técnicas de leitura encenada bem como a discussão cênica das questões referentes às mulheres negras. Vai ser muita potência!

Teremos outros títulos à venda no local. As vagas para oficina já foram preenchidas, mas estaremos lá durante a tarde toda, apareçam! <3 span="">

Data: 10\06
Horário: 14h
Local: Espaço Cultural Alagados
- Rua direta do Uruguai, s\n - Final de linha do Uruguai

7 de jun de 2017

O livro #Paremdenosmatar! agora tem página própria



Bom dia! Se você acompanha a trajetória do #Paremdenosmatar!, de alguma forma já faz parte dela. Queremos que o livro e os debates que ele suscita cheguem a mais pessoas. Colabore conosco, marque seus amigos para curtirem a página, curta também https://www.facebook.com/livroparemdenosmatar/?ref=aymt_homepage_panel. Assim que chegarmos a 500 curtidas começaremos as promoções para facilitar o acesso ao livro. Ajude-nos a andar (e voar) pelo mundo. Sinta-se convidad@ a também expressar suas impressões sobre a obra. Vamos junt@s. Gracias.

5 de jun de 2017

Sturm e Richthofen

Por Cidinha da Silva

As personagens dessa crônica são Sturm (André), ainda secretário da cultura da gestão Dória, em São Paulo e Richthofen (Andreas), um jovem doutorado em Química, surtado sob efeito do crack. Homens cuja ascendência européia pode ser notada pela sonoridade consonantal dos sobrenomes.
Em comum o fato de serem dois homens brancos na cidade de São Paulo que gozam das benesses da branquitude. O primeiro, Sturm, para agredir, humilhar e manter-se impune no exercício de cargo público. O outro, Richtofen, beneficiário do direito de existir, explicar-se numa situação suspeita, manter-se vivo e livre, com direito à comoção humana que todos os seres humanos em situação de fragilidade e desequilíbrio deveriam merecer.
Sturm é acusado por ativistas culturais de práticas coronelistas, tais como: interferência nos resultados finais do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (Vai); no carnaval da cidade e na revogação e alteração do edital de Fomento à Dança, que já tinha os projetos pré-selecionados. O secretário também é responsável pelo congelamento de 47% da verba municipal da cultura para 2017 e pelo desmonte de políticas culturais construídas ao longo da última década.
Há poucos dias, durante reunião com ativistas culturais da região de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, confrontado por um deles, o jovem negro Gustavo Soares, que reivindicava não trabalhar de graça para a prefeitura na gestão de um equipamento cultural, foi chamado de babaca e chato por Sturm.
Descontente e alterado diante da argumentação continuada do jovem, ameaçou quebrar-lhe a cara. Gustavo Soares perguntou então se o secretário o estava constrangindo e chamou-o para concretizar a ameaça. Sturm, no melhor estilo Telequete, disse então que não o faria para não sujar as mãos.
O prefeito Dória, como esperado, minimizou o fato, chamou-o de bobagem. Os movimentos culturais periféricos da cidade trataram de pressionar pela queda de Sturm, por serem inaceitáveis suas práticas coronelistas. Procuraram o prefeito com abaixo-assinado de seis mil assinaturas, ocuparam a secretaria de cultura, foram alvo de nota mentirosa da secretaria acusando-os de agressividade na ocupação, intimidação de funcionários e tentativa de invasão do gabinete do secretário. Tudo desmentido em vídeo pelo secretário de relações governamentais, Julio Semeghini, designado pelo prefeito para mediar o conflito. Este, aliás, parece ter sido posto ali para atender às reivindicações dos ativistas, menos a deposição de Sturm. Afinal, se alcançado o intento, a turma pode achar que tem força e isso não será bom para o prefeito e sua gestão que apaga obras de arte dos muros e as substitui por corações vermelhos, feitos por ele mesmo.
A mensagem final é a seguinte: qualquer conjunto probatório que supere as convicções dos acusadores não faz sentido a depender do acusado, de seu sobrenome, de seu pertencimento racial, do lugar político ocupado e à gestão de quem se filie. Em outras gestões, uma nota mentirosa, assinada por uma secretaria e desmascarada por outra, seria o suficiente para a queda de Sturm.
Não foi. Mas, imagine se por um motivo qualquer, em situação pública, com testemunhas e gravação veiculada na internet à larga, o descontrolado Sturm, gestor público, tivesse ameaçado quebrar a cara de um dos cineastas signatários da carta do SIAESP – Sindicato da Indústria do Audiovisual de São Paulo que o apóia? Imagine que Sturm, em surto, intimidasse Cao Hamburger, Cacá Diegues ou Fernando Meirelles com um possível soco?
Caía, mano. Caía no dia seguinte. Não seria mais secretário. Mas, a ameaça foi feita a um pobre coitado, na opinião dessa gestão, e com esses, contra esses, está tudo liberado.
Andreas Richthofen, por sua vez, teve a vida destruída por uma tragédia familiar. A irmã mais velha arquitetou a morte dos pais de ambos e coordenou a execução dos assassinatos. Andreas teve a vida destruída, compreensivelmente. Não se sabe o que viveu, mas havia refeito a vida, era considerado um estudante competente de uma das melhores universidades da América Latina, a Universidade de São Paulo. Graduou-se, doutorou-se.
Foi encontrado em delírio, ferido, semi-desmaiado na porta de uma casa, cujo muro havia escalado. Por sorte, é branco, “não tem cara de bandido”, como disse o dono da casa invadida, que o socorreu e chamou a polícia, que, por sua vez, tratou o moço como gente.
Que maravilha. Um rapaz de sorte. Sorte por não ser um dos inúmeros pretos em delírio causado pelo crack ou pela lucidez de serem o que são e de saber como são tratados e de, por isso, serem mortos como ratos.