Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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21 de mar de 2015

Curso ministrado por Cidinha da Silva no SESC-SP (Centro de Pesquisa e Formação)



Atividades

A escritora Cidinha da Silva aborda aspectos da literatura negra a partir de contextos socioculturais e históricos do Brasil contemporâneo.

Contextos
Literatura negra contemporânea no Brasil: uma mirada

 VOLTAR PARA O INÍCIOLiteratura negra contemporânea no Brasil: uma mirada

Palestrantes

Cidinha da Silva

Cidinha da Silva

Coordenadora do curso. Prosadora, ensaísta e dramaturga. Tem oito livros de literatura publicados, sendo os mais recentes, Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013) e Baú de miudezas, sol e chuva (Mazza Edições, 2014). É doutoranda no Programa Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento da UFBa. (Foto: Elaine Campos)
Mariana Santos Assis

Mariana Santos Assis

Mestre em Linguística aplicada pela Unicamp. Pesquisa relações étnico-raciais e de gênero, políticas públicas de inclusão racial, arte e cultura negra, marginal e periférica. (Foto: Acervo pessoal)

Programa

O curso abordará, brevemente, aspectos que caracterizam a discussão do conceito em construção de “literatura negra”, pela mirada crítica e afrocentrada de uma escritora, Cidinha da Silva, considerando:

 

a) O surgimento da literatura negra contemporânea no Brasil no contexto de lutas de libertação nacional (África de expressão portuguesa), antirracista (EUA) e de distensão da ditadura civil-militar e rearticulação do Movimento Negro no país;
b) Características e contradições de textos literários orientados pela militância política de combate ao racismo;
c) Aportes de escritoras e escritores negros à construção do conceito – outras vozes além daquelas dos teóricos de literatura;
d) Intersecções e fraturas entre literatura negra e literatura periférica – uma dimensão fundamental da contemporaneidade.

 

Objetivos:

 

a) Oferecer ao (à) cursista um panorama das questões políticas e estéticas envolvidas na construção do conceito de literatura negra, sem a intenção de esgotar o tema;

b) Acrescentar novos olhares de escritoras e escritores negros ao cenário, haja vista que a discussão tem se atido à visão pouco dissonante de um conjunto de escritores/as, teóricos da literatura e militantes do antirracismo; 

c) Acessar diferentes respostas e propostas estéticas da literatura negra por meio do texto literário.

 

Metodologia:

 

Aulas expositivas dialogadas / leitura individual e coletiva de excertos literários / debate / construção de consensos e dissensos bem fundamentados

 

Estrutura do curso / conteúdos orientadores:


24/04 (sexta-feira)

 

10h às 11h - Apresentação das pessoas e do curso, do marco teórico e temporal, discussão de expectativas.

 

11h às 13h - Os precursores da literatura negra no Brasil: mirada sobre os volumes “Precursores” e “Consolidação” da Antologia Literatura e Afrodescendência (UFMG, 2010, Org. Eduardo Assis Duarte)

 

14h30 às 16h - O nascimento do Quilombhoje em finais dos anos 1970, no contexto das lutas de libertação dos países africanos de expressão portuguesa; do movimento Black Power (EUA); da distensão da ditadura civil-militar e rearticulação do Movimento Negro contemporâneo no Brasil;

A proposta político-estética dos Cadernos Negros.

 

16h30 às 18h - Características e contradições dos textos literários orientados pela militância política antirracista.

 

25/04 (sábado) 

 

10h às 13h - Uma mirada sobre um conceito em construção: literatura negra ou afro-brasileira por meio das contribuições de Florentina Souza, Zilá Birnd, Eduardo Assis Duarte e Cuti.

 

14h30 às 16h - Aportes do olhar de escritoras e escritores negros sobre o conceito de literatura negra: Ronald Augusto, Edimilson de Almeida Pereira, Lívia Natália e Cidinha da Silva.

 

16h30 às 18h - Interseções e fraturas entre literatura negra e literatura periférica – dimensão fundamental da contemporaneidade. 

Avaliação e encerramento

(Foto: Divulgação)

20 de mar de 2015

Entrevista de Cidinha da Silva no Afreaka

BRASIL / ÁFRICA

CIDINHA DA SILVA: PROTAGONISTA DA LITERATURA BRASILEIRA
por Patrícia Freire



Ainda criança surge o desejo em Cidinha da Silva pela escrita. A mineira, formada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais, começou a publicar artigos acadêmicos sobre relações sociais, de gênero e diálogos com a Educação e Juventude. Em 2006, cedeu ao forte ao desejo de contar suas próprias histórias. Escritora, posicionada politicamente e portadora de aguçado senso crítico, transmite nos seus trabalhos o sentimento de indignação e revolta ao racismo que, para ela, muitas vezes, está amparado por formas cordiais e afetuosas no dia a dia.


Em Cada Tridente em seu lugar, seu primeiro livro, abordou as ações que visam garantir o acesso e a permanência do negro nas universidades. Depois passou pela literatura infantil com os livros Os Nove Pentes D’África (Mazza Edições, 2009)Kuami (Nandyala, 2011), o Mar de Manu (Kuanza Produções, 2011), se permitindo fabular e resgatar da africanidade brasileira os valores de amizade, amor e esperança. Até o momento, já publicou oito livros, entre romances, literatura infanto-juvenil e crônica.


Seus dois últimos livros Oh, Margem! Reinventa os Rios (Selo Povo, 2011), eRacismo no Brasil e Afetos Correlatos (Conversê, 2013) retomam, fortemente, as relações de gênero e étnicas no Brasil. Seu livro mais recente Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil  foi publicado pela Fundação Cultural Palmares e pode ser solicitado, gratuitamente, pelo e-mail biblioteca@palmares.gov.br




Cidinha, além de divulgar os livros no seu blog, também publica crônicas e textos opinativos sobre o papel protagonizado pelo negro na televisão e sobre a espetacularização da mídia. “Doze meninos e homens negros executados pela polícia baiana com tiros na nuca. Havia marcas de tortura como braços quebrados e olhos afundados, mas poderia ser obra da polícia paulista, alagoana, carioca, pernambucana. São práticas disseminadas pelo país.”, enfatiza a autora em trecho do texto Quando a execução sumária é legitimada como gol de placa no campeonato de extermínio da população negra, publicado em seu blog.


Leitora e, por ventura, influenciada por grandes nomes da literatura afro como Paulina Chizane, a primeira mulher Moçambicana a publicar um romance, Ana Maria Gonçalves, brasileira que conquistou o prêmio Casa de las Américas pelo o romance Um defeito de Cor, em 2006, e Elisa Lucinda, já conhecida por ser atriz global e vencedora do Troféu Raça Negra em 2010, Cidinha da Silva é mulher negra que aborda o racismo em seu trabalho.


Ela admite ter legitimidade para abordar o assunto, mas, para ela, sua cor não garante que o seu texto seja bom e também não define sua literatura. “Eu não acho que existem coisas sobre as quais só eu possa falar, se pensar assim, limito os meus falares, só poderei falar do que vivi e me interessa muito fabular na produção literária, inventar a linguagem, as paisagens, as personagens, a trama. Todo mundo, como eu, tem o direito de escrever sobre o que quiser”.


Como escritora e prosadora, usa sua liberdade para imaginar, criar, reinventar e quebrar diversos paradigmas da literatura afro brasileira. “Existe um vício nefasto (encarnado também por muitos colegas) de reduzir a literatura negra à autobiografia. Ela pode ser um aspecto, para alguns colegas, preponderante, mas não é tudo, não é o todo, tampouco pode ser imposta a quem quer experimentar outros caminhos”. Posicionada politicamente e engajada nas causas em que acredita, desenvolveu projetos de ações afirmativas de educação, de juventude e de relações comunitárias. Fundou o Instituto Kuanza e foi ativista de combate ao racismo e ao sexíssismo na ONG chamada Geledés-Instituto da Mulher Negra.




O escritor negro Machado de Assis foi o fundador da Academia Brasileira de Letras e até hoje é considerado o maior nome da literatura brasileira. Ainda assim, são poucos [PCF1] os negros que ocuparam um lugar na academia. Cidinha da Silva junto com escritores como Joel Rufino Santos, Elisa Lucinda, Conceição Evaristo, Paulo Lins e Ana Maria Gonçalves são protagonistas reais da literatura negra no Brasil, não resumindo a literatura à própria causa, mas expandindo o espaço que há muito tempo foi negado ao negro; de contar histórias diversas e de serem, conhecidos, reconhecidos e prestigiados quando o faz bem. Para Cidinha, o futuro do negro no Brasil pode ser descrito como a letra do samba no carnaval. “É tudo nosso, nada deles.”


Leia na íntegra a entrevista com Cidinha da Silva.


Me conte um pouco da sua trajetória e quando decidiu se tornar escritora?
Sempre pratiquei a escrita criativa desde criança e nasceu nessa época também o desejo de ser escritora. Eu lia muito e queria criar minhas próprias histórias. A decisão de publicar literatura ocorreu em 2006. Antes de publicar literatura, escrevi e publiquei seis dezenas de ensaios e artigos abordando as relações raciais e de gênero em diálogo com educação e juventude. Fui também ativista de combate ao racismo e ao sexismo numa ONG chamada Geledés-Instituto da Mulher Negra, em São Paulo.


Escrever no blog foi sua porta de entrada para o livro ou vice-e-versa? Para você qual a principal diferença entre os dois meios?
Não, eu publiquei livros primeiro e depois fiz o blog. Os livros é que me levaram ao blog como uma estratégia de divulgação do meu trabalho em outro suporte que não o livro. A diferença central entre os textos dos dois suportes é que, no blog, a escrita é mais imediata e menos trabalhada que a escrita dos livros, na qual me detenho mais.


Quem são seus autores preferidos ou inspiradores literários?
Os preferidos e os inspiradores nem sempre convergem, mas vamos lá, direi alguns/as que gosto muito: Paulina Chiziane, Ana Maria Gonçalves, Elisa Lucinda, Edimilson de Almeida Pereira, Fábio Mandingo, entre outros.


Para você qual é o espaço para literatura afrodescendente hoje no Brasil?
É uma grande vereda a ser desbravada, há muito por consolidar, por conquistar, seja no aspecto da criação, da representação e da recepção (de público e crítica).




A cada trabalho seu, existe um foco, um público diferente, mas o seu objetivo com o seu trabalho é o mesmo? 
Quero escrever mais e melhor e publicar mais também, sempre pautada por mim mesma, pelo meu desejo de escrever sobre temas múltiplos e no formato que a própria escrita exige (dramaturgia, conto, crônica, romance, textos para crianças, etc).


Ao abordar as relações sociais tendo como o foco o protagonismo do negro nas novelas, na mídia e na sociedade, qual o papel que o negro representa?
De um modo geral, são facetas e nuances dos estereótipos que subordinam as pessoas negras em sociedades racializadas como a brasileira.


Qual o seu posicionamento sobre assuntos polêmicos como cotas raciais ou universidades.
Não creio que exista polêmica, há sim, posições antagônicas e conflito de interesses. Existem as pessoas que defendem as ações afirmativas (as cotas são uma modalidade de ação afirmativa) como estratégia de enfrentamento ao racismo e promoção da igualdade racial. Existem outras pessoas que se recusam a entender a operacionalidade do racismo, apegando-se à discriminação e às desigualdades sociais em detrimento da discriminação racial e suas desigualdades correlatas. E, por fim, existem pessoas de má fé, apegadas aos privilégios engendrados e consolidados pela branquitude no Brasil. Insistir na suposta polêmica é desviar o foco da Casa grande que insiste em subalternizar dos descendentes dos antigos habitantes das senzalas.


Fale um pouco da sua produção de literatura infantil. Como surgiu o seu interesse em escrever para as crianças, o que você busca passar para elas?
O interesse surgiu quando meu primeiro livro para adultos estava sendo lido por uma sobrinha de 6 anos que então se alfabetizava. Ao mesmo tempo que aquilo me emocionava, também incomodava porque não era um livro adequado a ela. Eu, então, buscava explicar as inadequações à pequena, que me perguntou: “E quando você vai fazer livros para crianças?” Esse foi o mote inspirador. Quanto à temática escolhida, eu quero discutir com as crianças todos os temas (assim são meus livros) e meu desafio é buscar a linguagem adequada, criativa e efetiva para fazê-lo.


Hoje o seu nome tem grande força quando se fala de literatura afrodescendente. Quais outros nomes que você destaca? 
São muitos e não sou crítica literária. Coincidentemente os que mencionei acima como “preferidos” e/ou “inspiradores” são todos escritoras e escritores negros que considero excelentes.


Um branco poderia falar tão bem da realidade do negro atual no Brasil como você ou ganha força na sua voz?
Eu tenho legitimidade para falar, mas isso, apenas, não garante que meu texto seja bom ou tenha literariedade. Outros autores que não negros podem não ter tanta legitimidade quanto eu, mas podem, seguramente, ter um texto muito melhor do que o meu. Eu não acho que existem coisas sobre as quais só eu possa falar, se pensar assim, limito meus falares, só poderei falar do que vivi e me interessa muito fabular na produção literária, inventar a linguagem, as paisagens, as personagens, a trama e todo mundo, como eu, tem o direito de escrever sobre o que quiser). Existe um vício nefasto (encarnado também por muitos colegas) de reduzir a literatura negra à autobiografia. Ela pode ser um aspecto, para alguns colegas, preponderante, mas não é tudo, não é o todo, tampouco pode ser imposta a quem quer experimentar outros caminhos.




Me fale mais da sua obra, da sua linguagem, do seu estilo de escrita, da sua estética. Como você faz suas escolhas?
Escrever é um ato de coragem, a gente se desnuda na criação e se desvela para criar. Procurar a forma mais efetiva de dizer é um desafio constante e essa forma pode ser afetiva, irônica, racional, amorosa, irada, cínica, dúbia… dependerá do tema, da situação. A escrita para crianças tem o desafio adicional de falar sobre todos os temas, incluídos os mais ácidos, numa linguagem que as crianças decodifiquem e que lhes dê prazer ao ler.


A que você atribui à aceitação dos seus livros e ao fato de ter publicado o oitavo? Como é a interação com seus leitores? Com as redes sociais o contato se tornou mais fácil ou existe algum bloqueio?
Se existe mesmo esse sucesso que você menciona, numa paráfrase a Muricy Ramalho, renomado técnico de futebol, eu o atribuiria ao trabalho. Eu trabalho muito e trabalho bem, algum resultado positivo, para além da minha satisfação com o próprio trabalho, isso deve gerar. Eu costumo conversar com leitores ao vivo, quando me procuram em palestras, lançamentos ou outras situações públicas. Eventualmente, alguns enviam mensagens privadas e costumo responder. Entretanto, não tenho o hábito de interagir nos debates sobre os meus textos na web. Procuro ler tudo o que consigo, mas se for entrar na dinâmica dos debates, muitas vezes infrutíferos, sacrifico meu precioso tempo da escrita. Não percebo bloqueios ou dificuldades, não.


Como você vê a importância do seu trabalho, da sua crítica social, da sua contribuição para sociedade? 
Eu me vejo como uma escritora posicionada politicamente, portadora de aguçado senso crítico e perseguidora de uma linguagem que me deixe feliz, realizada e satisfeita.  O que deriva disso depende do público-leitor e de seu diálogo com o que escrevo. Creio que, se houver importância no que escrevo, quem me lê está mais apto a avaliar do que eu.


Quem é a Cidinha da Silva por traz dos livros? Além de escrever como você distribui o seu tempo, o que lhe dar prazer?
Eu estudo muito, leio menos do que gostaria e ocupo grande parte do meu tempo trabalhando em coisas que geram renda e não são literatura. Recentemente, por exemplo, encerrei um período como gestora pública de cultura e inicio outro como doutoranda em difusão do conhecimento na Universidade Federal da Bahia. Quanto às coisas que me dão prazer, gosto muito de desfrutar da arte, de um modo geral, de viajar e conhecer novos lugares e também de estar com as pessoas que gosto.


O que você deseja para o futuro? Como você vê o negro no futuro no nosso país?
Pessoalmente, desejo mais tempo para escrever e realizar meu projeto literário. Quanto ao futuro do negro no Brasil, é como a letra do pagode baiano que arrebentou no carnaval: “é tudo nosso, nada deles!”


Deseja comentar ou acrescentar algo que eu não perguntei?
Sim, recentemente organizei uma publicação muito importante que se chama “Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil”.   obra apresenta diagnóstico robusto da realidade sociocultural do setor do livro, leitura, literatura e bibliotecas (LLLB), transversalizado pelas dimensões de raça e africanidades. Traz a público o pensamento de 48 mulheres e homens, predominantemente negros (90%, 43 autores) sobre o tema do LLLB no Brasil, contemplando dimensões preciosas e múltiplas que visam produzir conhecimento qualitativo, consubstanciado em argumentos potentes sobre as relações raciais e de africanidades, visando alimentar as políticas públicas do LLLB e considerando os desafios da encruzilhada do combate ao racismo e da formação do leitor-literário. O livro tem distribuição gratuita, foi publicado pela Fundação Cultural Palmares e as pessoas interessadas podem solicitá-lo pelo e-mail biblioteca@palmares.gov.br

19 de mar de 2015

Nova temporada de Sangoma - texto de Cidinha da Silva e Capulanas Cia de Arte Negra

BRASIL / ÁFRICA

CAPULANAS CIA DE ARTE NEGRA: ESPETÁCULO SANGOMA
por Maria Helena Barros


Capulanas (Foto: Daniel Fagundes)


O grupo Capulanas é composto por jovens negras de movimentos artístico políticos de São Paulo. A Cia nasce da vontade de dialogar com a sociedade sobre as descobertas, anseios e percepções da mulher negra. A proposta é de fortificar a imagem da mulher negra, e para isso as organizadoras se apropriam do pensamento da cultura popular, onde todas as artes se fundem: a música, a dança, poesia, artes plásticas, teatro e outros.



Cena de Sangoma (Foto: Guma)


Entre os destaques lançados pelo coletivo está a peça ‘O Sangoma’. Elaborado em 2013, foi a terceira produção teatral do grupo. O espetáculo, que realiza ciclos de temporada em exibição a cada ano, discute temas relacionados à saúde da mulher negra, retratando seis personagens que habitam uma casa sagrada (Sangoma) e que possuem entre elas laços ancestrais. As protagonistas rompem o silêncio e compartilham suas histórias de vida e seus caminhos para chegar à cura.  A ideia de criar a peça surgiu através de pesquisas que o grupo realizou sobre a relação da mulher negra com a dor e de que maneira isso refletia em sua vida.



Cena de Sangoma (Foto: Guma)


A encenação é dirigida por Kleber Lourenço e o texto foi escrito em parceria com a escritora Cidinha da Silva. A peça se passa na sede do grupo e cada cômodo é utilizado como cenário. Deste modo, o público é convidado a percorrer pelos espaços conduzidos pela personagem Sangoma, espírito que habita a casa e representa todas as mulheres, interagindo e vivenciando de perto a profundidade dos depoimentos das personagens, o que também torna a atração intimista e acolhedora.


Em cada ambiente há uma história sendo contada. São narrações que trazem temas como amor, abandono, dor, recordações de infância e superação que, acompanhadas de cantos e danças, emocionam e envolvem os espectadores.



Cena de Sangoma (Foto: Guma)


Sangoma provoca muitas reflexões sobre como é ser mulher negra e suas lutas diárias em uma sociedade ainda machista e preconceituosa. Também é inspiração, pois encoraja a continuar lutando para que histórias como algumas presentes no espetáculo não se repitam.

 Serviço:

Temporada: de 14/03 a 19/04 – sab, às 20h; dom, às 19h
Onde: Goma Capulanas – Rua José Gomes Magaldi, 1121
Telefone: (11) 2619-7694

Para conhecer mais sobre o Grupo Capulanas Cia de Arte negra e ficar por dentro das temporadas de apresentação acesse:

13 de mar de 2015

Livro, leitura e africanidades no Sarau da Brasa


Cidinha da Silva ministra aula inaugural do mestrado em Crítica Cultural da UNEB (Alagoinhas, BA, dia 18/03/2015)

10 de março de 2015

LITERATURA NEGRA: COMBATE AO RACISMO E ESCRITA LITERÁRIA

O Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural convida para a Aula Inaugural 2015 que acontecerá no dia 18 de março de 2015, as 14 h, no Campus II da UNEB/Alagoinhas.
LITERATURA NEGRA: COMBATE AO RACISMO E ESCRITA LITERÁRIA
Cidinha da Silva
Cidinha da Silva é prosadora, ensaísta e dramaturga. Organizou os livros
Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003, 3ª edição) e
Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014). Tem oito livros de literatura publicados, sendo os mais recentes,
Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013) e
Baú de miudezas, sol e chuva (Mazza Edições, 2014). É doutoranda no Programa Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento da Universidade Federal da Bahia.
É editora do blogue:
http://cidinhadasilva.blogspot.com.br/

11 de mar de 2015

Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil - lançamento em São Paulo


Cidinha da Silva em cartaz com Capulanas no espetáculo Sangoma

Grupo de arte negra apresenta espetáculo sobre mulheres

Entre os dias 14 de março e 19 de abril, no Goma Capulanas, a Cia Capulanas – grupo de Arte Negra – apresenta nova temporada do espetáculo Sangoma, sob direção de Kleber Lourenço e texto de Cidinha da Silva e Capulanas. No elenco Adriana Paixão, Carol Ewaci Rocha, Débora Marçal, Flávia Rosa, Priscila Preta e Rose de Oyá.
A peça fica em cartaz até o dia 9 de novembro (Divulgação)
A peça fica em cartaz até o dia 19 de abril (Divulgação)
sangoSangomas – mulheres escolhidas espiritualmente por seus ancestrais para darem continuidade aos trabalhos de cura espiritual e física dentro da comunidade – é uma peça ambientada em uma casa onde os espectadores percorrem cada cômodo sentindo de perto o depoimento das seis personagens que ali vivem. São vozes muitas vezes caladas, que despertaram do silêncio para brotar vida e relatar as enfermidades causadas em suas relações com o mundo, com o outro e os caminhos que percorreram para chegar à cura.
A construção das personagens e suas histórias de vida foram compiladas a partir de atividades de formação realizadas pelo grupo em 2012. Temas como saúde cultural, física e psíquica de mulheres negras foram fundamentais para o desenvolvimento dos textos, criados em parceria com a escritora Cidinha da Silva.
Serviço:
Sangoma
Goma Capulanas
Rua José Barros Magaldi 1121, Jd Ibirapuera
Até 9 de novembro
Sábados, às 20h; domingos, às 19h
Grátis.

8 de mar de 2015

Entrevista integral de Cidinha da Silva​ ao jornal Pampulha

Cidinha da Silva é prosadora, ensaísta e dramaturga. Organizou os livros Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003, 3ª edição) e Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014). Tem oito livros de literatura publicados, sendo os mais recentes, Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013) e Baú de miudezas, sol e chuva (Mazza Edições, 2014). É doutoranda no Programa Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento da Universidade Federal da Bahia. é editora do blogue http://cidinhadasilva.blogspot.com.br/

Quando decidiu que queria ser escritora?
Desde que aprendi a ler, leio muito e à medida que lia, queria criar minhas próprias histórias. Essa foi a motivação e veio desde a infância.

Seus textos são sempre permeados pela temática negra, o que te inspira para escrever? E o que te motiva?
Não, nem sempre. Racismo, discriminação racial, desigualdades raciais decorrentes e suas manifestações no cotidiano brasileiro são temas centrais no meu trabalho literário, mas não o monopolizam. Minha escrita busca ser múltipla, polifônica. O que me motiva é o meu desejo de me comunicar com o mundo a partir do meu olhar para o mundo e suas coisas, pessoas e relações.

Você acredita da existência de uma escrita negra? Digo, fala-se em escrita feminina, mas também o modo de experienciar o mundo e exprimi-lo em palavras é diferente de uma perspectiva negra e de uma perspectiva branca. Há diferença? Como? Por que?

Sou uma mulher negra afro-centrada, isso me define e me inscreve no mundo. Serei assim como escritora, médica, gari, cozinheira, professora universitária, catadora de mariscos, funkeira, partideira, etc. Logo, professo a escrita negra da mulher negra afro-centrada que sou. Haverá outras escritoras negras que se definirão apenas como escritoras e será uma definição tão legítima e lícita quanto a minha. Ou seja, as pessoas são livres e podem ou devem se definir como quiserem, se quiserem. Penso então que a literatura negra, como se convencionou dizer, é um conceito em construção, mas, um elemento fundamental em minha compreensão do tema é que haja uma definição de pertencimento que parta de quem escreve, de dentro para fora.

Minha experiência como mulher negra é única, no sentido de que sou um ser individual que se dedica à criação literária, mas é também coletiva, no sentido da pertença a uma comunidade de destino que faz com que negras garis e negras médicas no Brasil experimentem desigualdades decretadas pelo racismo e pela branquitude. Temos então uma singularidade que, imagino, reflita-se em nossa escrita, não importando a forma que utilizemos para nos auto-definir.

Na sua profissão, você percebe preconceitos de gênero? E racial? Pode me contar situações? (Fique livre para contar "casos", como uma boa mineira, rs).

Todas as mulheres enfrentam discriminação de gênero em sociedades machistas, patriarcais e misóginas. Todas as lésbicas enfrentam discriminações em sociedades heteronormativas. Todas as pessoas negras enfrentam discriminação racial em sociedades racistas. A discriminação faz parte da ontologia dessas sociedades. Os exemplos, em regra empobrecem o todo, porque dão a impressão de que o todo discriminatório é sazonal, assim, prefiro usar exemplos coletivos e gostaria que, se forem citados, que o sejam com o preâmbulo que escrevi:
1 – Existe discriminação quando se espera que uma escritora negra escreva apenas sobre determinados temas, que não fale de flores, amores e coisas que não tenham a ver com sofrimento, racismo, etc.
2 – Existe discriminação quando jovens negros são assassinados à razão de 83 por dia, num país que não tem pena de morte oficial, mas convive pacificamente com o assassinato de jovens negros justificado pela condição de suspeitos preferenciais.


Você concorda com o tipo de crítica, acima descrita, ao discurso da Arquette?
Sim, concordo, mas não acho que ela tenha obrigação de contemplar as mulheres negras e latinas em seu discurso, lamento que ela não tenha visão ampliada e politicamente comprometida para fazê-lo. Ela se restringiu à realidade do mundo euro-descendente ao qual pertence. Suas colegas de trabalho negras têm questões anteriores à briga por salários iguais, elas sequer conseguem trabalho.

O movimento feminista daqui também é "cindido" pela questão racial?
Essa questão dá pano pra manga, mas é muito interessante e complexa.

De um modo geral diria que, durante toda a década de 1980, pensadoras negras como Lélia Gonzales e Sueli Carneiro fizeram três movimentos distintos e complementares:
1-      Provocaram o feminismo (que naquele momento histórico podia ser chamado de feminismo branco) a debater sua responsabilidade na produção de lugares subalternizados que as mulheres brancas reproduziam para as mulheres negras, em nome da conquista de sua própria liberdade. Por exemplo, as mulheres brancas que brigavam pelo direito ao trabalho e salários iguais aos homens, não viam problema algum em ter em casa uma empregada doméstica negra com direitos trabalhistas precarizados, super-exploradas, mal remuneradas e muitas vezes sujeitas a abusos sexuais praticados por homens da casa.
2-      Instaram o feminismo branco e as mulheres negras organizadas a pensar o lugar de privilégio das brancas e o lugar subalternizado das negras.
3-      Por meio de suas reflexões e ativismo político, pavimentaram o caminho para a organização autônoma das mulheres em coletivos de mulheres negras e ONGs, movimento de mulheres e organizações feministas negras. Parte significativa dessa impulsão e da consolidação de espaço social e político para a representação das mulheres negras se deu a partir de ensaios de políticas públicas para o setor propostos pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

Na década de 1990, o fortalecimento da autonomia das mulheres negras fez crescer a tensão com o movimento feminista que continuava branco, mas contava com número crescente de mulheres negras que se identificavam com o feminismo e lutavam para enegrecê-lo. Organizações como Geledés-Instituto da Mulher (SP) e Criola – Organização de Mulheres Negras (RJ) tiveram papel fundamental no processo. Já nessa década, o feminismo é forçado a interagir mais com as mulheres negras organizadas e algumas frestas se abrem.

Na década de 2000, a partir do processo organizativo da III Conferência Mundial Contra o Racismo (ONU, África do Sul, 2001) cria-se a AMNB – Associação de Mulheres Negras Brasileiras que soluciona um problema histórico de representação coletiva das mulheres negras. A luta e as conquistas da saúde da população negra tem um impulso fantástico dado por mulheres da área. O movimento feminista, consequentemente, foi forçado a se abrir. Ali começaram os primeiros passos do movimento feminista antirracista que se consolidaria na década seguinte. Desenha-se uma perspectiva teórica de feminismo negro, atuante em universidades e em alguns grupos de mulheres negras espalhados pelo país.

Hoje temos alguns grupos feministas que rejeitam a ideia de feminismo branco, são organizações que, simplesmente, só compreendem o sentido da luta feminista se ela for também antirracista. Por outro lado, as mulheres negras continuam fortalecendo sua autonomia e aprofundam o diálogo e a discussão das contradições vividas com as feministas brancas. As organizações de mulheres negras programam para o dia 18 de novembro de 2015 a Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, em Brasília, um momento político que prevê a participação de milhares de mulheres negras de todo o país.


Como é ser uma mulher negra no país?
Basta dizer que as mulheres negras ocupam a base da pirâmide socioeconômica e, mesmo sendo mais escolarizadas que os homens negros, ganham menores salários. Além disso, existem os estereótipos de hipersexualização e em pleno século XXI somos submetidas a séries televisivas ridículas e racistas tais como O sexo e as negas, recentemente veiculada pela Rede Globo.

Como a questão salarial apontada por Arquette, quais são as principais demandas das mulheres negras?
Olha, sugiro consultar o blogue http://www.2015marchamulheresnegras.com.br/, elaborado pelas ativistas negras mais atuantes no país hoje. Já fui ativista, mas hoje, sou apenas uma escritora.

Aqui, proponho uma "brincadeira": se você estivesse no lugar da atriz Patricia Arquette, como todos os holofotes virados pra si em uma das cerimônias mais vistas do mundo, qual seria seu discurso?

Seria algo bem elaborado que não terei tempo de fazer aqui, opto então, por elencar dois pontos que seriam desenvolvidos nesse discurso:
1 – Destacaria a necessidade de ações afirmativas para promover mulheres negras nas funções de roteiristas, produtoras e diretoras, entre outras funções prioritárias na indústria cinematográfica.
2 – Mostraria em um quadro comparativo a frequência de trabalhos desenvolvidos por artistas brancas e negras que tenham a mesma formação artística, como também compararia os salários de artistas negras e artistas brancas. Também me ocuparia de demonstrar que artistas negras recebem menos oportunidades de trabalho que as brancas e isso impede que elas aprimorem sua técnica, logo, cada vez receberão menos convites porque são consideradas atrizes inexperientes e não tão boas.

http://www.otempo.com.br/pampulha/o-oscar-%C3%A9-delas-1.1004724