Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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27 de dez de 2014

2014 EM 12 FLASHES PESSOAIS. KAWÔ!

Por Cidinha da Silva



1 – A ressignificação de Brasília que passou a ser (para mim) um bom lugar para viver.

2 – A concretização de BAÚ DE MIUDEZAS, SOL E CHUVA, meu livro mais desejado, barrado de maneira esdrúxula em concurso literário de 2013. Prefácio e orelha escritos por mulheres que admiro demais, Grace Passô e Ellen Oléria, respectivamente.

3 – A Constatação de que entrevistas e abordagens críticas sobre meu trabalho, finalmente, começam a enfatizar aspectos literários, com destaque para as resenhas de Mariana de Assis (O Menelick 2º Ato, edição ZEROXIII), Ronald Augusto (Afrosul) e Márcia Cruz (Estado de Minas) sobre meu RACISMO NO BRASIL E AFETOS CORRELATOS e artigo de Marcos Fabrício Lopes da Silva no Observatório da Imprensa (edição 846), intitulado, CIDINHA DA SILVA: UMA ATIVISTA DA CRÍTICA DE MÍDIA.

4 – A generosidade da artista multimídia Jaciana Melquíades, a quem ainda não conheço pessoalmente, mas fez de mim uma de suas graciosas bonecas e também me presenteou com avatar que, convenhamos, apresenta ao público uma versão simpática (e melhorada) de Cidinha da Silva.

5 – A renovação dos votos de amor das pessoas que me amam apesar de todos os meus descuidos, ausências e imperfeições.

6 – Não ter (ainda) encontrado no LATTES (recentemente confeccionado) lugar para acomodar a fortuna crítica sobre minha obra, cerca de 30 artigos, ensaios, resenhas.

7 – Ter facilitado a parceria da Fundação Cultural Palmares (FCP) com o selo editorial Me Parió Revolução para publicação de ONDE ESTAES FELICIDADE?, livro composto por conto e relato inéditos de Carolina Maria de Jesus, acrescidos de seis ensaios textuais e um fotográfico sobre a obra da autora de Sacramento, MG. O prazer do trabalhado cotidiano com Dinha, além de poeta admirada, parceira de todas as horas.

8 – Ter facilitado na FCP a publicação da revista LEGÍTIMA DEFESA, organizada por Os Crespos, talvez, o documento de teatro negro brasileiro mais importante dos últimos 50 anos.

9 – Ter entrevistado Elisa Lucinda na Balada Literária e tê-la visto expondo-se negra ao público, em exercício pleno de oralitura, como sempre a li em sua literatura.

10 – Ter estado com Sueli Carneiro na bela Cachoeira (UFRB) e a contragosto tê-la acompanhado em uma atividade que era dela, para a qual me convocou. Chegando lá, como nos velhos tempos de Pelé e Coutinho, atuamos afinadíssimas, sem treino e sem combinados prévios. Antes disso, a alegria de vê-la na audiência de palestra minha, sorrindo e emanando bons fluídos como no tempo em que eu era menina.

11 – Ter garantido a publicação de AFRICANIDADES E RELAÇÕES RACIAIS: INSUMOS PARA POLÍTICAS PÚBLICAS NA ÁREA DO LIVRO, LEITURA, LITERATURA E BIBLIOTECAS NO BRASIL, no minuto final da prorrogação. Ter feito 55 convites a autoras e autores e ter recebido 48 respostas positivas e efetivadas de pronto; uma resposta positiva, mas que, por problemas diversos não conseguiu entregar o texto a tempo e apenas uma negativa, porque o convite foi feito de afogadilho (afora umas cinco pessoas que não deram resposta alguma). Uma obra embasada no pensamento negro sobre livro, leitura e cadeia produtiva do livro no Brasil que nasce clássico e foi mesmo pensado para sê-lo.

12 – O companheirismo, a solidariedade e apoio diuturno da amada Marthinha para que eu conseguisse aprovação no Doutorado Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento / UFBA, do momento em que divaguei sobre a possibilidade de me inscrever até a comemoração do resultado final. Nzaambi ye kwaatesa!

25 de dez de 2014

Na terrinha


Por Cidinha da Silva
Depois de acomodar a mala no táxi e do primeiro minuto de corrida silenciosa pergunto ao motorista: "tem chovido"? "Tem, não!" Ele responde. "Qué dizê, não chuveu muito hoje. Agurinha messs chuveu, mas agora num tá chuveno"...
Como o leitor e a leitora percebem, disso eu sabia, não chovia naquele momento e parecia não ter chovido antes porque estava tudo seco, sem aparência de chuva, por isso fiz a pergunta. Mas é que mineiro tem de dois tipos, o falante e o caladão, sendo que as duas personalidades podem se alternar na mesma pessoa. O primeiro tipo é aquele que você visita num domingo, se despede dele e vai para o ponto do ônibus. Você fica 40 minutos plantada no ponto e só passa um ônibus para o metrô. Você quer ir para o centro da cidade por cima da terra, está encasquetada com a vida urbana de tatu. Então, seu anfitrião aparece na varanda e solta um ingênuo "uai, cê tá aí ainda?" "Tô, o ônibus pro centro ainda não passou". "Uai, o ônibus não passa hoje não." "Como assim?" "Não passando, uai! Só tem ônibus pro metrô". "Uai, mas você não me avisou!" "Uai, ocê não perguntou"...
O senhor ao volante era falastrão ou estava em momento de língua solta, não se sabe. Sem mais perguntas ele continua: "esses dia pa trás aí chuveu tudo, teve dia de chuvê forte, mas forte, forte memo num foi, num inundou nada por aí afora". "E será que no dia 24 cai chuva? Ano passado choveu". "Chuva, ocê chama aquil'ali de chuva? Aquilo foi um pé d'água, São Pedro tava com a vó atrás do toco".
Eu rio solto e a viagem prossegue. De repente o motorista emite um gritinho espantado: "opcevê!" Eu olho na direção apontada pelo queixo dele. Não vejo nada demais, mas é prudente não comentar, haja vista que "opcevê" sinaliza coisas gritantes e é óbvio que você, mineira destreinada, é que não está enxergando o que salta aos olhos. Prescreve a etiqueta da boa convivência com mineiros que você deve exercitar princípios budistas, ou seja, observe, cale e reflita antes de emitir uma opinião. A depender da conclusão é prudente manter o silêncio. Mineiro é bicho armadilhoso, sempre te espera na curva.
Como não concluí nada que valesse a pena ser dito, me mantive muda e o homem explicou: "olha, moça, eu vou te falar procê um coisa, esse tempo de natal me dá uma gastura; é uma abraçação de cobra coral, tudo aque'as cobrinha pequenininha e colorida. O fulano põe pra lenhá incima docê o ano inteiro e chega no 25 de dezembro vem desejá feliz natal. Ôh raiva que me dá."
Eu continuo sem saber para o que é que ele apontava e o sinal já vai abrir, será que ele não vai contar? "É uma hipocrisia, minina, natal é hipocrisia! Num diz que é aniversário de Jesus Cristo?" Ele se vira para trás e me pergunta. Eu respondo diligente: "é, é sim!" "Então, ocê me explica u'a coisa, pra que tanto pisca-pisca? Parece que é aniversário de Thomas Edson, sô!"

24 de dez de 2014

Nilma Lino Gomes na SEPPIR


Por Cidinha da Silva
O nome me agrada, muito. É, de longe, o melhor nome entre aqueles especulados para o cargo. Aliás, o nome de Nilma não se ouvia, eu, pelo menos, não ouvi. Contudo, ouvi tanta bobagem, como é próprio do campo das especulações: nome de políticos negros de expressão local, que não conseguiram se reeleger e que agora rumam ladeira abaixo do ostracismo, porque nomes mais novos estão se consolidando e será difícil que se reelejam em 2018; nomes de artistas negros sem qualquer experiência pregressa de gestão; quaisquer nomes, quaisquer notas. Como se para os negros pudesse se destinar qualquer coisa.

Fico satisfeita, bola dentro da Presidenta Dilma, depois da bola lunática de Kátia Abreu na Agricultura, e de outras que estão por vir, infelizmente. Nilma Gomes é uma gestora em ascensão, jovem e bem formada, com experiência na gestão de uma universidade de perfil internacional como a UNILAB – um projeto belíssimo e ousado que, Oxalá, depois de sua saída não naufrague nas mãos de reitores/as politiqueiros/as e descomprometidos/as com África. Tem-se notabilizado pelo gabarito técnico, trajetória respeitável como um todo e admirável em vários aspectos, um deles, a imensa capacidade de diálogo e de composição. Admiro também sua independência, gosto muito de pessoas que se estabelecem pela competência técnico-profissional e a consolidação de sua liderança é alentadora para muitas pessoas de nossa geração. Nilma Gomes, para os mais novos que talvez não saibam e para os que têm memória difusa do assunto, membro do Conselho Nacional de Educação em 2010 foi responsável pela propositura de que o livro "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, recebesse uma nota explicativa sobre as expressões racistas utilizadas pelo autor, fato que gerou imenso debate na sociedade brasileira, notabilizado pela imprensa hegemônica e pela academia (a conservadora e a menos conservadora) e respondido de maneira enfática por organizações negras e pessoas comprometidas com o combate ao racismo no Brasil.

A Presidenta Dilma emite uma mensagem de não-retrocesso nas conquistas e maneira de operação da SEPPIR, ou seja, escolhe para suceder Luiza Bairros, alguém à altura de continuar o caminho exitoso trilhado na gestão da ministra, aliado à potencialidade de qualificá-la com os aportes específicos da área da Educação. A ministra Luiza é uma administradora por formação, a nova ministra Nilma, é educadora com habilidades de gestão. São diferentes perfis e trata-se de boa alternância. Particularmente, sentirei saudades dos discursos “improvisados” da ministra Luiza, de consistência política inigualável (não por Nilma em especial, são discursos sem par, mesmo), verdadeiras aulas que inexoravelmente levavam os que discursavam depois dela a destacar seu feito, como que a pedir desculpas pelo que viria depois.

Nilma Gomes, reitero, sabe dialogar, é uma de suas virtudes. Imagino que já esteja conversando com a ministra Luiza e que talvez mantenha boa parte da estrutura técnica da SEPPIR. Torço para que mantenha o melhor, que os critérios de permanência e inovação sejam técnicos e que fujam da velha política de acomodação dos sem-cargo e sem-mandato e dos compromissos políticos com tendências ou grupos, em detrimento das competências exigidas para determinadas posições. Por suposto, a habilidade política é fundamental, é preciso cercar-se de pessoas que saibam fazer articulação política, mas há que examinar e reavaliar quem permanece com a lupa da adequação ao novo projeto, ou mesmo à continuidade do antigo.

Nilma Gomes conversa bem com a ex-ministra Matilde Ribeiro também, escreveu bela orelha para o livro “Políticas de promoção da igualdade racial no Brasil” (2006-2010), publicação da Garamond neste ano de 2014. Bom sinal. É a terceira mulher a dirigir a SEPPIR e dialoga com as antecessoras, muito bom.

Aguardo ainda a apresentação pública de possibilidades políticas para a ministra Luiza Bairros. É preciso romper com a tradição de que os nossos concluem suas tarefas, são bem avaliados e não são convocados a exercer tarefas maiores e diversas, ficam relegados à própria sorte. Não nutro expectativas de que Luiza Bairros venha a ocupar outros ministérios de maior envergadura, num cenário de chegada de Cid Gomes e Helder Barbalho (outro dia comemorava sua derrota no Pará) e volta de Eliseu Padilha, para deter-me em apenas três desastres do novo ministério. Ficaria feliz demais se fosse surpreendida, entretanto, penso que o racismo estrutural e as alianças políticas pela governabilidade não o permitirão. Mas, desejo para Luiza Bairros, algum posto de representação deste governo na esfera internacional, ou que não seja posto de governo, mas um lugar cuja ocupação nos orgulhe e que esteja à altura da querida ministra.










11 de dez de 2014

Lançamento do Cadernos Negros 37, em São Paulo

VAMOS CELEBRAR MAIS UM CADERNOS NEGROS

 
 

Em primeiro lugar queremos agradecer seu apoio. Ele é fundamental para nós.

Depois de 36 anos as pessoas talvez se perguntem se Cadernos Negros ainda pode trazer novidades. Este volume 37 mostra que sim. Não só pela maior quantidade de jovens escritores e escritoras, não só por causa da presença marcante das mulheres, mas também porque mostra a força que a poesia de escritores(as) que publicam há mais tempo vem adquirindo ao longo dos anos.

A leitura tem mil e um problemas em nossa sociedade. E a receptividade a um trabalho de poesia afro sofre com bloqueios e boicotes às vezes sutis, às vezes descarados.

Mas também há muito incentivo por parte das pessoas interessadas.

Por isso é gratificante fazer mais um Cadernos Negros. Porque é o contrário de aceitar passivamente que "as coisas não podem mudar". Quando cada leitor ou leitora dá vida ao livro, as coisas mudam. Quando o texto se torna motivação e ação, as coisas mudam.

No dia 12 de dezembro de 2014, próxima sexta-feira, a partir das 19h, vai ser lançado o trigésimo sétimo volume da série, nabiblioteca Mário de Andrade, rua da Consolação, 94, centro de São Paulo. É um volume de poemas, com 224 páginas (inscreva-se abaixo).

Criada em 1978 por Cuti, Hugo Ferreira, Jamu Minka e outros poetas, a série significou a possibilidade de autores afrodescendentes publicarem seus textos de forma cooperativa, superando os limites impostos pelo mercado editorial e o silêncio determinado pela ditadura.

Este volume 37 dá continuidade à caminhada, sempre feita com muito esforço, carinho e determinação, contando com a iniciativa dos próprios autores e autoras, com a receptividade dos leitores e leitoras e sendo organizada por Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa.

O volume 37 traz vinte e oito poetas de várias cidades e Estados brasileiros.

Como afirma a profa. Maria Thereza Veloso, da Universidade do Alto Uruguai, "nestes Cadernos não tem guarida a palavra consentida, agrilhoada. Não cabe aqui a palavra policiada, ferida. Essa não. Nestas páginas viceja outra palavra, nascida do liberto encontro de luzentes poemas com zumbizeiros ideais de igualdade".

Ou como diz o ativista e editor Marciano Ventura:

Publicada anualmente desde 1978, Cadernos concebe uma comunidade em torno das obras publicadas, inspirando novas gerações de leitores(as) e escritores(as) Brasil afora.

Ou ainda a escritora Cidinha da Silva:

Em Cadernos Negros muitas vozes são lidas, diferentes texturas e tessituras são sentidas, internalizadas, refeitas a partir da interação texto-leitor, texto-leitora.

O lançamento é aberto e gratuito, mas é necessário inscrever-se no link a seguir (ainda há poucos lugares):https://docs.google.com/forms/d/1dgUdOGp98Nbfhel3abtJO12w_5Vab4sBmnqlgi-Zil4/viewform?usp=send_form (pedimos que quem já está inscrito chegue até 19h45 no máximo).

Haverá a exibição do curta "Vidas de Carolina", com Débora Garcia, em homenagem ao centenário de Carolina de Jesus; haverá bate-papo com os autores e esquetes de dança afro com Omo Ayiê.

Participação de Daniel, do sarau “O que dizem os umbigos”
e dos rappers Nup & Big.

Reflexão sobre como a literatura negra pode contribuir nas escolas, com a profa. Elisabeth Fernandes.

E vamos celebrar os autores/autoras Benê Lopes, Bruno Gabiru, Cuti, Dirce Prado, Edson Robson, Esmeralda Ribeiro, Fausto Antônio, Helton Fesan, Jairo Pinto, Juliana Costa, Kasabuvu, Márcio Barbosa, Mooslim, Raquel Garcia, Valéria Lourenço.

Que venha mais esse Cadernos Negros e que por enquanto ele seja definitivo!

É tudo nosso!


Neste volume 37, temos autorxs das seguintes cidades:

Brasília/DF: Cristiane Sobral, Denise Lima

Campinas/SP: Fausto Antônio

Carapicuiba/SP: Mooslim

Duque de Caxias/RJ: Valéria Lourenço

Limeira/SP: Dirce Prado

Recife/PE: Lepê Correia

Salvador/BA: Ana Célia, Ana Fátima, Benício dos Santos Santos, Fátima Trinchão, Fernando Gonzaga, Guellwaar Adún, Jairo Pinto, Jovina S., Luís Carlos de Oliveira‘Aseokaynha’, Mel Adún, Mil Santos

São Paulo/SP: Benê Lopes, Bruno Gabiru, Cuti, Edson Robson, Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa, Raquel Garcia

Viçosa/MG: Juliana Costa

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Preço do livro no lançamento: R$ 25,00

4 de dez de 2014

Coisas que nem Deus mais duvida!



Por Cidinha da Silva



A senhora brandia os braços, inflava bochechas e olhos, tremia a boca pequena. Era Madame Mim performando um poema.

Coisa boa não viria dali. A colega já havia feito caras e bocas de incredulidade quando apresentei meus livros no sarau. Reparei que não aplaudiu, assim como as outras pessoas fizeram comigo naquela noite.

Houve um preâmbulo antes do poema, a autora dizia: “No meu tempo (como vocês podem ver, eu sou velha), a gente chamava os pretos que a gente gostava de negão, quando era homem, neguinha, quando era mulher. Era carinhoso. Hoje, se a gente não for politicamente correto, pode até ser preso”.

Nessa hora, seus olhinhos de Madame Mim encontraram os meus e, de pronto, tratei de exuzilhá-los, fechei meu corpo com a mão direita e com a esquerda levantei meu Tridente. 

A chuva apertou e N’Zila rodou, me levou para fora das paredes de vidro da biblioteca, para o local exato onde havia feito minha saudação de chegada. Era uma encruza da Henrique Schaumann com Cardeal, 777, era o número da casa. N’Zila dançou para mim, apontou o céu, logo cortado por um raio de Kaiongo. Eu saudei N’Zila e o raio, agradeci. Quando um deles ilumina meu caminho é sinal de anunciação.

De volta ao sarau, de olhos abertos, aqueles versos mal feitos e ressentidos machucavam meu coração. A mulher velha desprovida de sabedoria destilava mágoa e saudade dos tempos da escravidão. Dizia num poema torto que solução para o racismo é que os pretos se pintem de branco e se tornem cinza (cinzas, quem sabe?) e os brancos se pintem de preto, obtendo o mesmo resultado.

Terminada a performance ouviram-se uns fracos aplausos constrangidos, outros, consternados, afinal, tratava-se de uma idosa e muita gente acha que a idade justifica tudo. Duas ou três pessoas, além de mim, não descruzaram os braços. Um rapaz muito sério, que se eu encontrasse andando pela rua, julgaria mestiço, levantou-se negro e mandou uma letra de rap aguda sobre a hipocrisia das relações raciais no Brasil. Tinha uns palavrões cabeludos e o menino de lâmina nos dentes colocou os tridentes nos devidos lugares.

Eu reuni meus livros e trocados, olhei a chuva intermitente e vi Kaiongo à minha espera, absoluta e bela, próxima ao cemitério.

Guardei a distância respeitosa da natureza que não se afina com a casa dos mortos. Kaiongo veio sorridente, me abraçou generosa, só amor. Eu entreguei o que era dela: “Toma, Senhora dos Raios, leva daqui essa carcaça, esse egum da mentalidade colonial e racista que inda sibila entre os vivos.” Kaiongo sorriu outra vez, cúmplice, e desapareceu soberana na noite sem lua.

Tambor das águas