Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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30 de abr de 2016

Uma crônica para degustação





Miudezas de BH, capital brasileira dos bares
Por Cidinha Da Silva
Os bares da minha terra são pródigos em esquisitices, não só em comida de boteco.
Você entra em um e está escrito “é proibido ficar com agarramento nas dependências desse estabelecimento!” Noutro canto do mesmo bar encontramos o aviso aos homens e mulheres: “é proibido circular sem camisa e shortinho entrando na bunda é poblema da indivídua.”
Noutro bar você pode encontrar mistura de letra de forma e cursiva, em cartolina ou
papel de pão, proibindo o seguinte: “ apagar cigarro na mesa e deixar a bituca lá em cima” ou então, “não pode tirar caca do nariz e disfarçar debaixo da mesa”.
A melhor de todas foi estipular o tempo de duração dos beijos de língua, um
minuto no máximo, sob pena de o casal apaixonado ouvir o sonido do instrumento de aferição do tempo, manuseado pelo garçom-sentinela.
Um sujeito e uma senhorita (que mulher casada não se dá a esse desfrute na rua e
beijo gay ou lésbico está longe de ser tolerado) começavam o beijo. Plimmm! O garçom dava um tapa no marcador de tempo, os segundos iam correndo. Pressupõe-se que o casal atracado vá contando o tempo. Quando o cronômetro marca 50 segundos, o sentinela dirige-se solene à mesa dos beijoqueiros. Quando atinge a marca de sessenta segundos, no prego, o bicho faz um cocoricó, como galo cantando de madrugada e começa a tocar o hino do Atlético.
Conheço gente que vai a esse bar no Horto, perto do Independência, onde time que vai enfrentar o Atlético está morto, e se beija ultrapassando o tempo, só para forçar os cruzeirenses da turma e do ambiente a ouvirem o hino do Galo.
Os bares e a gente da minha terra são imbatíveis e inacreditáveis!

29 de abr de 2016

A dança entre Cronos e Tempo no livro Sobre-viventes!

As crônicas são, certamente, as filhas diletas do Deus grego Cronos, imperador do
tempo. No entanto, por esta perfilhação tão bem definida, elas costumam a carregar nas costas a marca dos dentes do pai. Elas nascem marcadas de tempo, eivadas de traços que as aprisionam em cenas e em contextos que as ligam umbilicalmente a situações definidas, realmente marcadas. Praticamente nenhum grande cronista, de Drummond a Rubem Braga, escapou disto.
No entanto, o que Cidinha da Silva traz aqui nestas páginas é uma surpresa ao leitor, um assomo!
Suas crônicas foram nascidas de outra divindade, do Deus Tempo: aquele que vai e volta, que faz curvas, que se curva, que dança na memória, baila no vento e se lança de hoje a um futuro amplo e indefinido, mas sempre certo. Tempo é uma divindade do Panteão Africano, um Deus poderoso, do qual cuidamos como filhos que lhe têm medo e respeito, por que sabemos que ele vai e que ele volta, e nunca sabemos de que dobra ele sairá na próxima cena! E assim, com esta vida herdada do Pai, é que se erguem as crônicas de Cidinha da Silva neste livro (Lívia Natália, no prefácio).

28 de abr de 2016

Sobre as crônicas de Sobre-viventes! (2)


A crônica “O que é da mulher o bicho não come” foi motivada por uma cena de telejornal. A notícia descrevia a recepção de uma cobra jararaca pelos correios. Desconfiada do conteúdo da caixa, a destinatária chamou a polícia. A crônica especula motivos para que uma pessoa envie uma jararaca a outra. Cria uma história para compreender o fato e entreter a cronista.

27 de abr de 2016

Sobre-viventes! Um livro para quem tem dendê!


Há que se ter domínio da linguagem para não se incorrer no pecado da pretensão. Precisa-se dominar o campo. Seguir o roteiro. Precisa a concepção de literatura. Sem vaidade deslumbrada. Um pro-jeto com caminho certo e direção. Profissional. De quem sabe dar um passo certeiro, pensando em outro. Para quem a crônica é mais um exercício de linguagem e expressão que, nesse caso, deslinda numa profusão de variedade estilística. Multiplicidade de estilo e unicidade de concepção fazem do sobre-viventes um livro único.
Aliás, este não é um livro escrito para os sobreviventes. Eles estão por toda a parte, é verdade. Têm voz e corpo. Recebem até homenagens, mas também a ironia cortante da navalha de Cidinha. Estão em tipos genéricos clivados pelo gênero e sexualidade. Estão na literatura, na política, no ativismo, em personagens de novela, no cancioneiro brasileiro. Estão, sobretudo, no perfil comum de muitos personagens, que pululam entre as linhas do texto, mas essas linhas não foram escritas para eles.
É um livro sobre viventes. Os que sabem viver e dão contorno à alma humana. Nada nobre. Nada mísera. Humana e só. Atravessadas pela flecha do racismo, da homofobia, da vaidade, do egocentrismo; atravessadas pela solidão – acuidade do viver nos tempos do agora. É um livro forte para um tempo frágil. Exige posicionamento – mérito maior da crônica. De-move. Incomoda. Seduz. Um livro para o qual não se derrama água morna. Livro pra quem tem pulso. Para quem inflama. Para quem explode. Pra quem tem dendê. Para quem ama (Eduardo Oliveira, no posfácio).

26 de abr de 2016

Sobre as crônicas de Sobre-viventes! (1)

Por Cidinha da Silva
Sobre as crônicas de Sobre-viventes! (1) Quando primeiro publiquei o texto “O dia em que Willian Bonner chorou”, um daqueles leitores da Web que querem dizer como os textos devem ser escritos requereu "dados concretos sobre o fato", em voz bravia e indignada. Queria saber se era mesmo verdade, a data do acontecimento, nome de testemunhas, etc. Eu que sou uma escritora de boa paz e naquele dia estava de boas dei uma dica ao dono da bola que ameaçava encerrar o jogo. Disse a ele algo mais ou menos assim: depois que Paulo Lins recebeu um montão de processos por utilizar nomes de personagens reais na primeira edição de Cidade de Deus (o pessoal queria participação nos ganhos dele com o filme) ficou uma lição. É preciso certo lastro de proteção no real para brincar com tubarões.

25 de abr de 2016

A Editora Malê realiza Encontro de Escrita Criativa gratuito com a escritora Cidinha da Silva

A Editora Malê realiza Encontro de Escrita Criativa gratuito com a escritora Cidinha da SilvA Malê Editora vai realizar o Encontro de Escrita Criativa para estimular a produção literária de jovens. A Malê é uma editora voltada para publicar autores que se encontram nas margens do mercado editorial brasileiro, com o objetivo de garantir-lhes visibilidade, assessoramento editorial e publicações com design, produção gráfica e impressão de qualidade. O encontro será realizado na ONG Cipó Comunicação Interativa, no dia 27 de abril, das 16h às 19h, com a mediação da prosadora e dramaturga Cidinha da Silva. Cidinha é autora de livros de crônicas, contos e romances, organizou a obra Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas nas áreas do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil, lançado pela fundação Palmares. No dia 13 de maio, vai lançar em Salvador seu novo livro de crônicas pela editora Pallas. O encontro promove a prática da escrita e da leitura, por meio de dinâmicas de produção textual e de análise e troca de impressões de textos selecionados, para estimular a capacidade de observação de estilos de construção literária nos gêneros conto e crônica. A atividade é voltada para o público que possui dificuldades de acesso aos meios de criação, aprimoramento e divulgação dos seus textos na cena literária.

Serviço:
Encontros de Escrita Criativa da Malê Editora
Local: ONG Cipó Comunicação Interativa. Av. Oceânica, Morro da Paciência, n. 3784, Rio Vermelho, Salvador.
Quando: 27 de abril
Horário: 16h às 19h.
Inscrições até 26 de abril, gratuitas, no site: www.editoramale.com.br

Uma literatura banta!

"Literatura não se faz sem alegria e precisão. Mas não é de qualquer alegria, a que falo. Nem de qualquer precisão. Ela tem rastro, tem rosto, tem tradição. E tradição se faz com inovação e ousadia. Dialoga com o passado criativo. Mantém e inventa valores. Confronta-os. Amplia a liberdade. Não teme. Não vacila. Avança. Assim, a literatura banta de Cidinha da Silva, que traz como marca de nascimento autonomia e liberdade, intencionalidade e humor, criatividade e crítica e, de maneira deliciosamente contemporânea, faz uma leitura singular do espírito humano. Assim mesmo: esse livro de crônicas tem o mérito, despretensioso, de navegar por entre a alma líquida dos humanos, de perceber suas cores, muitas vezes desbotadas, de sacar sua valia, tantas vezes escondida, de penetrar seus segredos – sem revelá-los. De juntar-se a eles. De aí conviver. De sorver da aventura humana o que de humano houver, ainda que nas raias da inumanidade. Ainda que disfarçados em mil farsas do dia-a-dia. Aliás, essa a alma humana captada pelo sobre-viventes: um desfile de cotidiano porque para ela não tem outra passarela" (Eduardo Oliveira no posfácio de Sobre-viventes (Pallas, 2016).

24 de abr de 2016

Excerto do prefácio de Sobre-viventes!


"Os textos de Cidinha da Silva servem, ora confrontando, ora esquivando-se para melhor acertar ao alvo, de estímulo para que estas discussões adentrem a cena escolar e, pela sagacidade de suas análises poderão envolver os jovens leitores em discussões que os atravessam, como em “É só alegria”, na qual a mulher negra e de dreadlock no fundo do táxi deveria alisar o cabelo com chapinha e dizer que era empregada doméstica para sair numa das alas de uma escola de samba. Eles igualmente podem se sentir tocados pelas crônicas que falam de relações afetivas entre homens e mulheres, em textos que discutem a banalização das violências várias contra as mulheres, e na reflexão muito apropriada sobre a chamada PEC das domésticas".

23 de abr de 2016

Dublê de Ogum!


Por Cidinha da Silva

Tudo começou com uma brincadeira quando ele ainda era criança. O menino subia na cisterna com a capa de prata colada ao pescoço, espada de plástico azul em punho e gritava: pelos poderes de Graiscow . Depois pulava no chão fingindo voar. A família preocupava-se porque ele já era um moço com sombra de bigode e não abandonava o brinquedo infantil, mesmo que o desenho-animado não passasse mais na TV. Às vezes ficava emburrado, pensativo. A mãe atribuía o fato ao fim do seriado.

Aos treze, completados em 24 de abril, muniu-se da capa e da espada e parou no portão da casa, de braços cruzados, olhar muito firme. Assim ficou por longos minutos. A avó que morava na casa de cima, disse que aquilo já passava dos limites e deveriam levá-lo a um psiquiatra. Levaram. A gota d’água para tomar tão difícil e dolorosa decisão familiar foi o dia em que o menino enfrentou um cachorro com sua espada de plástico, dizendo coisas esquisitas: “Não ouse me enfrentar, levantar a cabeça ou os olhos para me ver que sua cabeça rolará serra abaixo”.

Marcaram a consulta com uma psiquiatra. A avó foi junto. Primeiro a médica explicou às duas mulheres como trabalhava. Disse que não existiam loucos, mas pessoas inadaptadas ao mundo em que viviam, em sofrimento mental ou espiritual. Em alguns casos havia pessoas com deficiência de certas substâncias ou excesso de outras no organismo, coisa que a medicina ortomolecular já estava tratando. O importante era ter abertura para entrar no mundo da pessoa afetada e procurar compreendê-la, sem julgamentos. Alertou também que trabalhava com os sonhos e como se tratava de um adolescente, a família precisaria concordar em participar do tratamento.

A avó olhou para a filha, achou tudo muito estranho, principalmente o negócio dos sonhos, mas se era para o bem do menino, concordava. Como nos casos de decisões mais sérias, quem tomava a frente era a avó, estava todo mundo de acordo, leia-se, a mãe, pois o pai, sempre embriagado e ausente, nem via o que se passava.

O menino contou um dos sonhos. Ele se vestia como o Homem de Ferro, personagem dos quadrinhos, e uma matilha de cães o atacava. Ele desembainhava a espada e cortava a cabeça de todos, um por um. Tomado por ira terrível, cortava também a cabeça dos passantes que o observavam e não lhe rendiam graças.

Em outro, ele morava em país distante, onde todo mundo era preto e ele também. Vivia no coração da montanha mais alta e os moradores avisavam aos estrangeiros que aquela era a casa de um homem jovem, muito grande e muito forte, ferreiro de profissão. O trabalho na forja só era interrompido quando alguém subia a montanha. Ele se dirigia ao incauto e dizia: “O que te traz aqui, viajante? Por que tomaste minha estrada?” Alguns respondiam que andavam a esmo, a procura de um caminho; outros ouviram dizer que se rogassem a ele, o guardião da montanha e da forja, seus caminhos seriam abertos. Ele ria jocoso e indagava: “Como posso te abrir os caminhos se não tens um rumo a seguir?” E então explicava: “Embora aches que me procuras, buscas a ti mesmo e não te faltarei. Mas o caminho deverá ser feito por ti. Posso te conduzir em meus braços, mas a travessia será tua.” “E se eu não quiser, posso desistir?” Ele ri, dessa vez um riso estrondoso, de desdém e malícia. “Não há escolha, humano tolo e incrédulo. Quem chega até aqui é obrigado a atravessar.” “Você me chamou de humano. Você, por acaso, não é gente?” “Não despeje mais tolice do que tua cabeça comporta. Tu vieste aqui para conhecer os teus mistérios, os meus, não te é dado saber. Prepara-te, pois vais atravessar a montanha comigo.”

E cada pessoa que chegava a esse momento, não continha um grito de horror quando via o abismo de cerca de dois metros de largura que separava os dois lados da montanha. Como atravessar aquilo? Aquele homem sozinho até poderia fazê-lo, mas como atravessar com alguém no colo?

Alheio às conjecturas dos viajantes o homem se concentra diante do fogo. Retira a espada da forja, mira o horizonte, corta para a direita, para o centro e para a esquerda. Coloca-a acima da cabeça, amparada pelas duas mãos, deposita-a novamente na forja. Ajoelha-se no chão, parece fazer uma prece. Abre os braços e diz palavras desconhecidas. Toma a espada outra vez e ordena ao homem que o aguarda: “Siga-me, viajante!” “Para onde?” Ele pensa. “Para o abismo?” Pergunta-se o que fora fazer ali, despede-se da vida, pois é certo que vai morrer. E se fugisse? Impossível, conclui. O homem da espada era um potente guerreiro de um lugar chamado Ifé e o alcançaria em poucos passos. Isso se não o transformasse em pedra, bicho ou grão, por meio de algum raio, ou coisa que o valha. Poderia cortar-lhe a cabeça com a espada. Não, era mais prudente esperar a morte certeira no abismo.

O ferreiro, muito sério e determinado, chega a menos de um metro do buraco fundo que separa os dois lados da montanha e chama o homem: “Venha, é chegada a tua hora”. Finca a espada na pedra e pega o homem de oitenta quilos em seu colo. Ele se agarra ao pescoço do ferreiro como um bebê. O ferreiro retira a espada do chão, ergue-a para o céu, flexiona os joelhos e voa para a outra margem. O homem, quando abre os olhos, já está em terra, na margem oposta. O ferreiro dá outra ordem: “Siga por aquela estrada e encontrarás o caminho! Não olhe para trás.” “Não entendo, a estrada não é o caminho de volta?” O ferreiro ri e diz que sua parte está feita.

A médica impressiona-se com a riqueza de detalhes dos sonhos do garoto e pergunta o que eles despertam nele. O garoto diz sentir-se aquele homem, o que corta as cabeças, é de ferro e voa com uma espada na mão. Um dublê de Ogum, ela intui.

*Do livro Cada tridente em seu lugar, de 2006.

22 de abr de 2016

RELEASE SOBRE-VIVENTES! 9º LIVRO DE CIDINHA DA SILVA!

Sobre-viventes! (Pallas, 2016) é o 6º livro de crônicas de Cidinha da Silva, 9º de sua carreira literária que, neste ano completa 10 anos. Os números demonstram uma produção em papel prolífica, tanto quanto a da cronista que analisa o cotidiano da política e da cultura no Brasil, na perspectiva de africanidades e relações raciais e de gênero, em diversos portais e blogues do cyberespaço. Sobre-viventes! não foge à regra de 5 de seus livros de crônicas, exceção feita ao Baú de miudezas, sol e chuva (Mazza Edições, 2014), nos quais os temas leves se misturam aos temas densos, principalmente relacionados a questões de direitos humanos. Nas 130 páginas e 41 crônicas do livro, os leitores reencontrarão a perspicaz crítica da mídia que já apresentara suas armas num livro inteiro dedicado ao tema, Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013). Textos como O dia em que Willian Bonner chorou, O mundo dos aplicativos e Michelangelo dá um ninja no rio e é capturado, além de escrutinar o funcionamento deformador da mídia brasileira, não escapam ao humor ferino de Cidinha da Silva. Humor que se apresenta de variadas formas. É cáustico em Vida de gato, É só alegria e Higienópolis, por exemplo, e troca a corrosão pela ironia fina em textos como Marigô, Sujeito oculto e O livro de receitas da D. Benta. A crítica de gênero e sexualidade aparece vigorosa em crônicas como A heteronormatividade pira! e O leilão da virgem e a fita métrica. As manifestações de junho de 2013 também são abordadas, a exemplo do texto provocador Sobre o sono dos cavalos e o transporte público em São Paulo. O tema do letramento racial, desenvolvido pela autora à exaustão na Web, aparece em diversos textos de Sobre-viventes! com destaque para: Distinções entre abolição da escravidão e racismo; Piadinha racista na boca de personagem negro na novela e O pastor-deputado Feliciano e a Lei 10.639. Contudo, a maior parte das crônicas trafega mesmo pelo ordinário da vida revelado por um olhar arguto, ora crítico, ora divertido, ora irônico e ácido, ora amoroso (Antologia do quartinho de empregada no Brasil e Miudezas de BH, capital brasileira dos bares). Ainda em relação aos temas tratados no livro, mas também sobre a manufatura literária de Cidinha da Silva, Eduardo Oliveira assevera no posfácio que: “Em Sobre-viventes!, os viventes têm nome e rosto. Tim Maia, Emílio Santiago, Alice Walker, Assata Shakur, Nhá Chica, Anastácia, Luis Gama, Joaquim Barbosa, Madiba, Maria Goreti. São fortes e não são puros. Ambíguos e negros. Não se explicam para o mundo e não pedem licença. São presença, não modelo! Existem por si mesmos. Não sobrevivem, são viventes! Combatem, não lacrimejam. Muito mais que a ironia, presente na maioria das crônicas, temos uma fúria que atravessa suas páginas. Uma fúria santa? Não. Uma fúria banta! Avassaladora. Não poupa nenhuma paisagem: vamos do teatro à novela, das manifestações de junho ao Congresso Nacional, dos bares de BH ao show de reggae na Capital Federal. Múltiplas paisagens para múltiplas abordagens. Escrita a fio de navalha: perigosa, ardilosa, sedutora. Que expertise na manipulação da linguagem tem nossa autora! Faz literatura banta, universalizável desde seu lugar de pertencimento. Cria seu próprio modo de expressão. Constitui seu universo. Escolhe suas referências. Diz com o estilo o que não se pode dizer com a frase. Ultrapassa o dito com o dizer. Para mim, isso é literatura. Dizer para além do dito. Intencionalmente ocultar para revelar. Revelar ocultando. Nesse jogo, deslinda-se o humano. Mas, humano, é ainda genérico: nesse livro desnudam-se os sobreviventes e os viventes."

18 de abr de 2016

Teve baile de favela em Copacabana com milhares de Silvas contra o golpe

 Por Cidinha da Silva


A favela desceu no dia 17 de abril para tomar a orla de Copacabana pela manutenção da democracia, sob convocação da Furacão 2000 e, de modo indireto, pela frente formada por Yzalú, Luana Hansen, Flora Matos, Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, Flávio Renegado, Eduardo e Mano Brow, entre outros ícones da música que a juventude negra curte.

Rap e funk estiveram juntos para colocar a voz da juventude negra e periférica em evidência na cena da luta por democracia e respeito à Constituição no Brasil, por meio da presença de 50 mil pessoas, segundo os organizadores.
Na concentração no Posto 3 ecoavam músicas dos anos 1980, aquelas que falavam de amor. Do amor romântico, direito negado aos Silva das favelas que pegam trem lotado, trabalham e são criticados por serem funkeiros. Os que não podem amar a rainha do baile pela vida inteira porque serão mortos ainda jovens.
Mas o funk, como canta Bob Rum, no Rap do Silva, “não é modismo / é uma necessidade / é pra calar os gemidos que existem nessa cidade”.
Na nossa interpretação, a letra se refere aos gemidos das comunidades feridas em direitos humanos básicos, que embora expurgadas dos limites da urbe, também fazem parte da cidade.
Moradores do Pavão-Pavãozinho, Cantagalo, Cruzada, Vila Kennedy, Rocinha, Vidigal, Chapéu Mangueira, Babilônia, Vila Aliança, Santa Marta. Também do Complexo do Alemão, da Maré, dos morros de Santa Teresa  e da Baixada Fluminense.
No primeiro discurso da manifestação, uma liderança comunitária deu o tom. Ali se ouviria “o grito da cultura negra, o grito do funk”. Ali se veria a cara preta da juventude. Da “juventude negra funkeira  que hoje é também juventude universitária” e, segundo o discurso,” é isso (a ascensão dos negros)  o que eles (os golpistas) não querem”.
Várias letras de funk foram alteradas para contemplar a situação nacional, por exemplo, “qual a diferença entre o Charme e o Funk / o Funk (a Dilma) anda bonito / o Charme (o Lula) elegante”.
Essa letra, para quem não acompanha o movimento funkeiro, alude a supostas diferenças entre o Charme (ritmo mais lento e romântico) e Funk, mais forte e pegador.
Na interpretação política da moçada que sabe a força política de Lula junto ao povo, era a hora de aproximá-lo de Dilma para fortalecê-la, ou seja, de afirmar que não há diferenças significativas entre ambos.
Seguiram-se discursos que pontuaram a realidade das favelas, vivida pela maioria das pessoas presentes: “eu nunca vi bala perdida em área nobre”.
Não podiam faltar também o humor e a ironia: “O Cunha vai ganhar uma passagem pra sair desse lugar / não é de trem / nem de metrô / nem de avião / é algemado no camburão / eta Cunha ladrão!”
Gostaríamos ainda de destacar três aspectos: primeiro, a participação de muita gente do asfalto sob a liderança da favela, respaldando o discurso racial politizado que o Funk vocalizou neste momento.
Segundo, a participação dos partidos políticos de esquerda (PT, PCdoB, PCO, PSOL), centrais e associações importantes como CUT, CTB (Central dos Trabalhadores Brasileiros), MST, Movimento Negro, AMB (Associação de Mulheres Brasileiras), FAFERJ (Federação das Favelas do Rio de Janeiro), novamente, lideradas pelo funk.
Isso pode indicar alguma mudança no sentido de ampliação da escuta e abertura de diálogo para compreensão e abraço às demandas dessas pessoas e suas comunidades.
Terceiro, à medida que a manifestação era transmitida pela Web, observamos também o debate travado entre as pessoas inscritas para acompanhar o evento. E ali ficou explícito, mais uma vez, o espírito atormentado da casa-grande.
Várias pessoas, escondidas em codinomes, além das ofensas de praxe, misóginas e machistas à Dilma, além de elitistas, LGBTfóbicas e racistas aos manifestantes anti-golpe, expressaram seu ódio em frases como: “saiam daqui, eu comprei essa praia”; “vocês não merecem ser estuprados” e “urna eletrônica é fraude”. Raciocínio profundo de batedores de frigideiras.
Chegaram ao absurdo de defender Eduardo Cunha, com afirmações como “eles (os petistas) estão putinhos porque o Cunha está tirando a Dilma. Cunha neles”.  São mesmo muito tacanhos e querem recuperar anéis perdidos.
Durante meia hora, a transmissão caiu. Houve manifestação bem humorada em resposta, teria sido por ação da CIA; mas houve também reação racista e classista, “a favela roubou a câmera”, “teve arrastão e roubaram a câmera”.
Noutro momento, um professor, representante da rede estadual de ensino, em greve ignorada  pelo governo do Estado e pela mídia hegemônica há 30 dias, denunciou a situação e conclamou a população a apoiá-los, bem como aos estudantes que, a exemplo de São Paulo e Goiânia, ocupam escolas públicas pela melhoria das condições de ensino-aprendizagem.
A reação de um analfabeto político foi imediata: “Reclama com o Lula que é defensor dos pobres, né companheiro”?
Trata-se de professores estaduais em greve. Escolas ocupadas pela resistência de estudantes no Rio de Janeiro. Em que um ex-presidente poderia  interferir  para resolver o problema?
Por fim, todo mundo se mexeu, enquanto participava da manifestação ou enquanto a assistia de casa porque o que vimos foi “som de preto / de favelado”, ou seja, música dançante e discriminada por conta dos sujeitos que a vocalizam,  que “quando toca / ninguém fica parado”.

16 de abr de 2016

Sobre-viventes! O prefácio.


Por Cidinha da Silva

O prefácio é um abre-alas. Feito por alguém que nos empresta seu prestígio e nos avaliza, nos apresenta, nos recomenda ao leitor, à leitora. Alguém que se detém na obra e a esmiúça, descobre detalhes importantes, eixos articuladores e os apresenta a quem se interessa pela leitura, junto com os aspectos mais visíveis da obra.

Quem prefacia também se posiciona e, se for o caso, discorda do livro prefaciado com elegância. Oxalá, sejam discordâncias pequenas que não comprometam o nome da prefaciadora ao associá-lo à prefaciada.

Lívia Natália, a prefaciadora de Sobre-viventes! fez um exercício generoso e arguto ao apresentá-lo e o texto fala por si. Seleciono alguns excertos para degustação.

“As crônicas são, certamente, as filhas diletas do Deus grego Cronos, imperador do tempo. No entanto, por esta perfilhação tão bem definida, elas costumam a carregar nas costas a marca dos dentes do pai. Elas nascem marcadas de tempo, eivadas de traços que as aprisionam em cenas e em contextos que as ligam umbilicalmente a situações definidas, realmente marcadas. Praticamente nenhum grande cronista, de Drummond a Rubem Braga, escapou disto.

No entanto, o que Cidinha da Silva traz aqui nestas páginas é uma surpresa ao leitor, um assomo!

Suas crônicas foram nascidas de outra divindade, do Deus Tempo: aquele que vai e volta, que faz curvas, que se curva, que dança na memória, baila no vento e se lança de hoje a um futuro amplo e indefinido, mas sempre certo. Tempo é uma divindade do Panteão Africano, um Deus poderoso, do qual cuidamos como filhos que lhe têm medo e respeito, por que sabemos que ele vai e que ele volta, e nunca sabemos de que dobra ele sairá na próxima cena! E assim, com esta vida herdada do Pai, é que se erguem as crônicas de Cidinha da Silva neste livro.


Os textos têm elementos de humor sofisticados, são chistes: irônicos e assertivos, e, através deles, como na crônica “O Vizinho do 102”, fala-se da vida dos outros delimitando, pelas reticências que continuam o papo das vizinhas curiosas, que, a continuar falando da vida do vizinho do 102, elas ali passariam a vida e nós, postos no lugar de fofoqueiros por tabela, ficamos no ar das reticências, a querer saber mais de vidas que não são de nossa conta”...  (Lívia Natália, poeta, Professora Adjunta do Setor de Teoria da Literatura da Universidade Federal da Bahia).

Onde entram os negros no tabuleiro de Temer

Por Cidinha da Silva


Qual o projeto de Temer para os negros no Brasil? Existe um projeto? Existem os negros? Não temos respostas exatas, depoimentos, propostas, a não ser o discurso politiqueiro feito na premiação do Troféu Raça Negra, da Faculdade Zumbi dos Palmares, em 2011.
Naquela ocasião,Temer, depois de receber o aludido troféu, prometeu levar a Brasília a discussão sobre as cotas no serviço público federal. Até onde sabemos, nunca houve uma participação ativa dele nesse tema.
Temos pistas de seus propósitos. A primeira delas deriva do próprio perfil do vice-presidente. Ele seria decorativo, segundo autodefinição manifesta na carta de “sofrência” enviada a Dilma, em dezembro passado.
Ele desempenharia ainda o papel de “conspirador geral da república”, responsável pelo desenho da articulação do golpe de Estado.
O site Sensacionalista o caracterizou como “ejaculador precoce” por ter vazado áudio em que falava como presidente da república, dias antes da votação do golpe na Câmara dos Deputados.
E gente mais maldosa do que o site chegou a dizer que morto-vivo não ejacula
Ou seja, Temer deixa pistas como um morcego invasor de casas na calada da noite que bica frutos e pedaços de carne deixados à vista. Os morcegos são rápidos. Quase não os vemos e demoramos a identifica-los.
O olhar glacial de “mordomo de filme de terror”, apelido conferido ao vice pelo mortífero ACM, simula sobriedade e camufla o senhor de um império de intrigas palacianas.
E onde entram os negros aí? Não entram. Não existem nesse tabuleiro.
Não há nas posturas de Temer a mais leve menção às conquistas sociais dos governos Lula-Dilma para os negros. Ele se resume a dizer que manterá os programas sociais em um hipotético futuro governo forjado por via indireta.
Ele não deve sequer saber que 72% dos pobres que saíram da extrema pobreza são negros; que 72% das pessoas beneficiadas pelo Bolsa Família são negras e que 68% dessas famílias são chefiadas por mulheres. Que 71% dos beneficiados pelo Minha Casa Minha Vida são negros.
Não deve saber também que nos últimos 15 anos cerca de 150 mil negros obtiveram vagas nas universidades brasileiras, pelo ENEM, pelo PROUNI e pelo sistema de cotas raciais.
É seguro que não tenha ideia de que as cotas raciais foram responsáveis por democratizar a universidade brasileira. Não só pela entrada significativa de negros no corpo discente, mas também por ter sido o debate racial o impulsor de espaços para o debate da reserva de vagas para os estudantes egressos de escolas públicas.
A segunda pista está no documento “Uma ponte para o futuro” publicado e divulgado pela Fundação Ulysses Guimarães com aval do vice golpista.
A escorregadia peça de propaganda do governo do golpe não fala de sujeitos, de pessoas, de relações socioculturais. É um panfleto de economia, de “economês”, e prioritariamente, de questões fiscais, para as quais seriam exigidas “mudança de leis e até mesmo de normas constitucionais”, preservando-se “as conquistas autenticamente civilizatórias” (que ninguém explica o que seriam).
A “ponte para o futuro” pouco de detém até na concertação política. É um discurso tramado pelas elites econômicas, incomodadas com a mobilidade social do Zé povinho (negro, em larga medida), mesmo que seu lucro não tenha diminuído ao longo da última década e meia.
É que as mudanças simbólicas também incomodam muito. Incomoda que a mentalidade quilombola (eu posso ser livre) tome conta dos aeroportos, esteja presente nas universidades, no serviço público.
Ao ler o documento da corriola de Temer é inevitável rememorar a economista Maria da Conceição Tavares e sua assertividade quando criticava o discurso economicista de Aécio Neves no último pleito: “o povo não come PIB; come arroz e feijão”.
Por fim, Temer seguramente não terá o que dizer sobre duas questões candentes, sem solução que se vislumbre próxima: o aumento da violência contra as mulheres, notadamente contra as mulheres negras, inclusive com incremento da cifra de assassinatos.
Tampouco sobre a violência policial galopante que ceifa 84 vidas de homens negros, a maioria jovem, a cada dia no Brasil.

15 de abr de 2016

Sobre-viventes! Os créditos da obra.


Por Cidinha da Silva

Sobre-viventes! É meu nono livro de literatura, publicado no ano em que comemoro 10 anos de carreira. Sim, os números são importantes. São demarcadores do tempo e do espaço, sinalizadores da trajetória. Inclusive os números de que se perde a conta.

É um momento de muita alegria divulgar um livro novo, reunir pessoas para comemorar esse nascimento. Colocá-lo em circulação, com esse primeiro empurrãozinho, tão necessário para criar um clima de placenta que o fortaleça quando estiver só.

Sim, é um nascimento. Não de um filho, evento mais grave e mais bonito, mas, de um livro de literatura, um trabalho de arte.

A casa editorial é nova, a Pallas Editora. Uma honra, uma alegria compor o grupo de autoras e autores de uma editora que há 50 anos faz circular a cultura negra brasileira, com atenção especial às religiões de matrizes africanas. Agradeço pela confiança e acolhida.

Mas, aviso à Mazza Edições, primeira e queridíssima editora, que só a abandono no dia em que ela não me quiser mais.

Sobre a capa, gostaria de dizer que foi inspirada em uma das fotografias que mais me impactaram na vida. Uma imagem bela e forte da greve dos garis que movimentou o Rio de Janeiro em 2014 e escancarou um Brasil negro e quilombola.

Em uma das orelhas me apresento, em outra apresento o livro, o contexto em que foi feito. Eu mesma resolvi fazê-lo, como declaração de autonomia e senioridade no caminho que escolhi.

O prefácio luxuoso é da poeta Lívia Natália, que, generosamente aceitou fazê-lo num momento conturbado da vida, sem tempo, e quando nem me conhecia direito. Leu o original com vagar e atenção, pescou as pérolas e apresentou-as ao público. Obrigada, Lívia.

O livro tem também um posfácio, dessa feita do poeta Du Oliveira, que assinou como Eduardo Oliveira. Ele, Duda, o irmão de tempos imemoriais.  Gracias.

O dia do primeiro lançamento e o local não poderiam ser melhores. 13 de maio, aniversário de nascimento do taurino Lima Barreto (1881-1922), dia do Sobre-viventes! colocar a cara no sol (na lua)  na Katuka Africanidades, parceira querida, em Salvador.  Com comidinhas e bebidinhas, como manda a tradição.

E vai rolar sorteio de livros para o povo de Oyá! Venham todos! Do reino das tempestades e raios. De todos os reinos.

SERVIÇO
O QUE: Lançamento do livro novo de Cidinha da Silva, Sobre-viventes! (Pallas, 2016)
ONDE: Katuka Africanidades (Praça da Sé, n.01, em frente à cruz caída. Centro Histórico, Salvador)
QUANDO: 13 de maio de 2016, às 18:00
INFORMAÇÕES: 71 - 33221634


11 de abr de 2016

A ocupação das escolas em SP, segundo um novo documentário que está no YouTube

Por Cidinha da Silva


“Razões nós temos. Nós não somos rebeldes sem causa!” Essa é uma das reflexões feitas pelos jovens secundaristas que ocuparam as escolas públicas estaduais da cidade de São Paulo, no final de 2015, em resistência à autoritária reorganização escolar imposta por Geraldo Alckmin.
Dezenas de moças e rapazes nas escolas e centenas deles nas ruas enfrentaram com galhardia uma secretaria de educação inflexível e uma força policial violenta durante 26 dias heroicos, iniciados em 06 de outubro de 2015.
O processo foi registrado pelo cineasta argentino Carlos Pronzato e resultou no documentário “Acabou a paz, isso aqui vai virar o Chile”, disponível online.
Durante uma hora de duração do filme o expectador acompanha cenas do movimento estudantil de resistência e desobediência civil que tomou conta de São Paulo, conquistou o Brasil e também a simpatia internacional. Além de influenciar movimentos similares em Goiânia e no Rio de Janeiro.
Tem acesso também às vozes de sociólogos, educadores, analistas políticos, sindicalistas, representantes de associações estudantis, ativistas políticos, jornalistas independentes que analisam o movimento, seus vínculos com as manifestações de junho 2013 e  desdobramentos.
Mas ouve, principalmente, a voz dos estudantes que discutem a precariedade do sistema de educação paulista expressa na demissão de professores, superlotação de salas de aula, prédios abandonados. Livros e alimentos trancafiados e em processo de deterioração dentro dos prédios escolares.
Pronzato, realizador de “A rebelião dos Pinguins, estudantes chilenos contra o sistema”, de 2007, fez de “Acabou a paz, isso aqui vai virar o Chile”, um registro do protagonismo juvenil como personagem central. O movimento dos estudantes é mais destacado do que os indivíduos, as lideranças.
Esse movimento buscou o governo estadual na tentativa de dialogar antes da ocupação. Enviou abaixo-assinados, conseguiu apoio de vereadores, tentou agendar reuniões, mas nada deu certo. Não foi ouvido. Não foi considerado.
Restou apenas a alternativa de ocupar as escolas e as ruas. O documentário nos mostra a organização política horizontal construída pelos estudantes em cada escola ocupada e a surpresa causada ao governo Alckmin e à polícia militar que os reprimiu de maneira covarde e violenta.
Mostra também o processo de politização de muitos jovens que, antes do movimento de resistência à reorganização das escolas eram alheios à política, como se nota em alguns depoimentos. E, ao construí-lo alimentaram o mundo adulto com mais esperança no futuro.

5 de abr de 2016

Janaína Paschoal surtou e achou que estava lacrando! Ou a nova dancinha do imptma.


Por Cidinha da Silva
Gente! Que babado forte! Janaína Pachoal, a advogada do Impeachment, foi picada pelo veneno mortal da mosca azul. Aquela que infecta as aspirantes a celebridades instantâneas.
O que foi aquilo? Ela surtou no afã de lacrar. Lacração, a ciência do momento, não é para todo mundo. É preciso ter know how.
Minha teoria para o discurso messiânico de Janaína, tão comum entre os homens na política e que começa a contaminar mulheres, principalmente aquelas a serviço do patriarcado, é que rolou ali um ciumezinho das belezas múltiplas e polifônicas produzidas pelos artistas anti-golpe Brasil afora.
Vejam bem, falo de gente que faz arte, que produz transformação pela beleza, pelo senso crítico, pela ironia, pelo apuro estético em diálogo com a ética e que tem disponibilizado seus nomes, corações e mentes para a luta democrática, a favor do estado democrático de direito, da não-seletividade das investigações. Contra a misoginia e o machismo diuturnamente endereçados à Presidenta Dilma.
Celebridade (e aspirante à celebridade é ainda pior), sempre tem ciúme de artista. Porque nunca produzirão arte. Não veem aí o Lobão com essa estratégia esfarrapada de pedir desculpas a Gil, Caetano e Chico, chamando-os para o diálogo. Ora, pipocas! Quem é Lobão na fila do pão?
Janaína Paschoal perdeu as estribeiras no improviso. Errou a mão na retórica e tornou-se ridícula ao decretar o fim da “república da cobra”. Metáfora é coisa refinada, é para poucos. Autran Dourado dizia que as pessoas criam símiles achando que são metáforas.
Para criar boas metáforas é preciso conhecer a essência das coisas. É preciso amadurecer, interpretar corações e mentes e essas ferramentas não são adquiridas num cursinho rápido de retórica em sessões criminais disponibilizado no youtube.
Mas, por favor, deixemos as pombas giras em paz. Janaína Pachoal não pode ser comparada a uma delas. Elas são mais sofisticadas. Sabem transitar pela terra e têm artimanhas de sedução (de público, inclusive) e de comunicação, acima de tudo.
A performance de Janaína foi muito rudimentar. Está mais próxima de possessões demoníacas contratadas por pastores charlatões de igrejas caça-níqueis para enganar fanáticos.

3 de abr de 2016

Sobre ataque misógino da Isto É à Presidenta Dilma


Por Cidinha da Silva
Dois sentimentos tomaram meu espírito ao ler a matéria de capa de Isto É desta semana, “Uma mulher fora de si”, escrita por Debora Bergamasco e Sérgio Pardellas.
O primeiro foi de incredulidade diante de um material de ficção mal escrito e mal fundamentado, de enredo trôpego, travestido de jornalismo (sic).
A cada peça da montagem do golpe ao governo legítimo de Dilma Rousseff e de assalto à democracia evidencia-se o sentimento de estupefação diante dos lugares inacreditáveis onde conseguem chegar, à custa de métodos desleais e manipuladores.
O segundo sentimento foi de asco. É difícil concluir a leitura de tanta bílis derramada pelos dedos de dois jornalistas no teclado, fazendo com que a misoginia e o machismo tomem o lugar da política e do trabalho profissional de apuração de fontes.
As pessoas citadas no texto reduzem-se à função de “importantes assessores palacianos”. Não há citações diretas. Há dois ou três nomes mencionados de maneira assessória num disse-me-disse digno de fotonovelas.
Outras cronistas já destacaram a prática de “gasligthing” presente na matéria de Bergamasco e Pardellas que não aborda o suposto desequilíbrio emocional de uma mulher, como anuncia, mas ataca-a de maneira misógina.
O “gaslithing” é uma violência emocional que usa o método da manipulação psicológica para levar uma mulher a achar que é louca ou incapaz. Uma série de ações dirigidas induz as pessoas ao redor dessa mulher a acharem o mesmo. É o que pretenderam os dois jornalistas de Isto É.
É surpreendente ter uma mulher e mais ainda, esta mulher, a jornalista Debora Bergamasco, no exercício deste papel, uma vez que ela mesma foi vítima de acusações machistas por parte dos competitivos colegas de imprensa.
Quando da publicação da delação premiada de Delcídio do Amaral, em primeira mão pela Isto É, Debora foi acusada de ter acesso privilegiado à informação graças a um suposto envolvimento afetivo-sexual com um dos mandatários da República.
A tentativa de diminuição profissional de uma mulher sob a batuta de especulações sobre sua vida privada fez com que muita gente importante se solidarizasse e a defendesse, a despeito do teor manipulador do texto.
Lembro-me que Debora escreveu o seguinte alerta-desabafo na Web antes de disponibilizar a matéria da revista para seus seguidores: “Ser mulher é um desafio permanente, é uma superação cotidiana. É provar todos os dias sua capacidade, vencer o preconceito, a discriminação e o machismo”. "O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos" e "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher", de Simone de Beauvoir.
Santa sacanagem, Batman! Como o nome de Simone de Beauvoir pode ser usado em vão.
A Presidência da República reagiu à altura e anunciou pedido de direito de resposta: “Seria fácil rebater minuciosamente a escandalosa, leviana, sexista, covarde e – por que não? – risível peça de ficção que produz na edição deste fim de semana. Mas fazer isso seria tratar como jornalismo o que não é; seria conferir respeito ao que, no fundo, é inqualificável; seria pensar que algo ali pode ser crível e confiável, o que está muito longe de ser. O único respeito que merece é para os eventuais remédios que se possa tomar contra os delírios e surtos de descontrole da revista. Uma publicação fora de si”.
Só nos resta continuar nas ruas clamando pela visibilidade de mulheres de luta como as meninas do ensino médio que enfrentaram os policiais de Alckmim durante a ocupação das escolas em São Paulo, e por menos Debora Bergamasco no cenário político contemporâneo.