Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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31 de dez de 2007

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis...ora!/Não é motivo para não querê-las.../Que tristes os caminhos, se não fora/A mágica presença das estrelas! (Mário Quintana)

24 de dez de 2007

Novo espaço de leitura prescinde de documentos para empréstimo de livros, em São Paulo

(texto de divulgação) "Um novo espaço de leitura está à disposição dos cidadãos da cidade de São Paulo desde as 11h deste dia 23. O "Acessa Livro", como foi batizado, é novo também no jeito de administrar o empréstimo e o uso dos livros que fazem parte do seu acervo. No "Acessa Livro", não é preciso se cadastrar, nem mesmo apresentar documentos, para poder ler e pegar livros emprestados. Quem quiser, pode levar livros para casa, e o compromisso com a devolução fica por sua conta. E o usuário que quiser também pode doar obras para que outros possam aproveitar. Para quem gostou da idéia e quer visitar o local, o posto Parque da Juventude fica na Av. Cruzeiro do Sul, 2.500, ao lado da estação Carandiru do Metrô. O horário de funcionamento é de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h30".

Projeto de lei para distribuir livros gratuitos aos professores

(Por Galeno Amorim) "O senador Cristóvam Buarque (PDT-DF) apresentou ao Senado projeto de lei que autoriza o Ministério da Educação a criar a Biblioteca do Professor. A idéia é distribuir dois livros por ano a cada educador das escolas públicas do país. Eles próprios escolheriam os títulos, entre obras de literatura, científica, didáticas ou técnicas. Os recursos sairiam do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). A proposta está na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, onde ninguém apresentou emendas. A relatora, deputada Maria do Rosário (PT-RS), deve anunciar seu parecer nos próximos dias".

Livros devem ter versões para deficientes visuais

(Por Galeno Amorim) "Os membros do Grupo de Trabalho criado pela Câmara Setorial do Livro e Leitura para tentar encontrar um meio para tornar os livros mais acessíveis aos deficientes visuais estão convencidos de que estão bem próximos de uma solução. A idéia é que os livros publicados no país também sejam oferecidos, no mercado, no formato braille, digital ou algum outro que venha a surgir. Pela proposta - em torno da qual já há um certo entendimento entre representantes das editoras e dos deficientes visuais -, isso passaria a vigorar a partir da data da regulamentação da Lei do Livro, prevista para acontecer no primeiro semestre de 2008. Nos casos em que não for possível colocar esses formatos diretamente nos pontos de venda, as editoras ou terceiros indicados por elas se obrigariam a atender os pedidos por encomenda. Só não há consenso, ainda, sobre os preços a serem cobrados por esses produtos, especialmente o braille, que tem um custo de produção bastante superior ao livro no formato convencional em papel. A próxima reunião da CSLL está marcada para os dias 6 e 7/3, quando as partes esperam chegar a um acordo".

23 de dez de 2007

CineCUFA - o cinema na tela da favela

Ao final do ano todo mundo faz balanços, não é? Para não fugir à regra e por não ter conseguido fazê-lo antes, posto aqui uma notinha sobre o CineCUFA, 1a edição, uma das melhores coisas que assisti em 2007. De 04 a 16 de setembro no CCBB, RJ, dezenas de filmes produzidos por periferias de todo o mundo foram apresentados para gente de todas as idades, mas principalmente crianças, adolescentes e jovens. Moçada oriunda das periferias da cidade do Rio de Janeiro. Mais de três mil pessoas visitaram a mostra e muitos educadores solicitaram à CUFA - Central Única das Favelas que produza uma coletânea dos filmes apresentados para atingir outros públicos, notadamente nas escolas. Para saber mais, inclusive sobre o processo seletivo para a 2a edição mostra, consulte www.cinecufa.com.br (release da mostra) "O CineCUFA é um festival dedicado às obras audiovisuais produzidas por periferias de todo o mundo e traz como proposta o incentivo à uma nova ordem cultural e artística, que tem como objetivo maior mostrar um novo ponto de vista: a capacidade de contribuir não somente com personagens que possam atuar à frente das câmeras, mas também como protagonistas atrás delas. Portanto na tela do Cinecufa, ou seja na tela da favela, os cineastas das periferias encontram a oportunidade de exibir o seu ponto de vista sobre os mais variados assuntos. Temos como objetivo fomentar a construção de uma identidade que passe a atuar mais fortemente no mercado cinematográfico, fazendo com que os realizadores dessa crescente vertente audiovisual reconheçam-se como representantes de um novo e legítimo movimento estético, social e político. A partir da seleção dos filmes, a proposta é traçar um paralelo entre a diversidade e a peculiaridade deste segmento de produção, abordando temáticas diversas, distribuindo curtas, médias e longa-metragens numa programação de 12 dias. De 04 a 16 de setembro o Centro Cultural do Banco do Brasil serviu de palco para para a nossa tela, para a festa revolução cultural. Devido ao barateamento dos equipamentos audiovisuais deu-se nas última décadas uma intensa produção oriunda da periferia que, por outro lado, ainda não conta com locais para exibição que atendam a esta demanda. E o CineCUFA vem contribuir para a diminuição da lacuna entre a produção audiovisual da periferia e o público, na maioria das vezes, não-conhecedor destas obras. Ao viabilizar essas exibições, o festival também inicia um processo de incentivo para que mais projetos sejam realizados".

22 de dez de 2007

Seppir Reeditará História Geral da África

(Deu no informativo da Seppir) "O ministro interino da Seppir, Martvs das Chagas, reuniu-se na terça-feira (18/12), com o secretário-executivo do MEC (Ministério da Educação), José Henrique Paim Fernandes, representantes da Fundação Cultural Palmares e da Unesco Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em Brasília, para tratar de parceria para reedição dos 8 volumes que compõem a enciclopédia História Geral da África, clássico elaborado pela Unesco. A reedição da enciclopédia se destina a bibliotecas de escolas e universidades públicas". Sobre a publicação: "A Unesco coordenou a elaboração de uma História Geral da África, em 1971, 'enfocada sob o ponto de vista da própria África'. O comitê a quem se delegou a tarefa era composto por 39 membros, dos quais dois terços eram africanos. No Brasil, a Unesco associou-se à editora Ática na edição dos oito volumes da coleção. No prefácio ao primeiro volume,M. Amadou Mahtar M’bow, diretor geral da Unesco na época, afirmou que 'a Unesco fará tudo o que for necessário para que esta História Geral da África seja amplamente divulgada, em várias línguas, e sirva de base para a elaboração de livros infantis, manuais escolares e programas de rádio e televisão. Desta maneira, jovens, escolares, universitários e adultos, da África e de outras partes do mundo, poderão dispor de uma visão mais correta do passado do continente africano e dos fatores que o explicam, assim como de uma compreensão mais justa de seu patrimônio cultural e de sua contribuição para o progresso geral da humanidade'". Aguardamos com ansiedade.

Blackitude convida: o ano cultural ainda não acabou em Salvador

21 de dez de 2007

Grupo Nós do Morro recebe recursos para refletir sobre 20 anos de atividade artística

Um colunista social noticiou que o grupo Nós do Morro, da Favela do Vidigal, Rio de Janeiro, recebeu uma dotação de R$ 250 mil reais do BNDES para a confecção de um livro sobre os 20 anos de trajetória do grupo. Louva a iniciativa, mas pergunta se “não seria melhor usar o dinheiro diretamente na favela”? Eu pergunto por que investir em arte na favela não significa investimento direto na favela? Pobre só tem fome de comida? Só tem necessidade de saneamento básico, luz, segurança e água? A fome de circo só tem sentido se cantada pelo Titãs, para o público de classe média do Titãs? Gente empobrecida materialmente também quer dinheiro e felicidade, justiça, liberdade e arte; quer inteiro e não pela metade. Algumas informações, de fato relevantes, não tiveram destaque. Os R$ 255 mil reais, este é o valor correto, foram concedidos ao grupo via Lei Rouanet, um instrumento público aberto à concorrência para qualquer projeto artístico-cultural legalmente constituído no país. “A realização do projeto compreende as fases de pesquisa e organização do acervo de material documental e artístico dos 21 anos de atuação do grupo; a publicação do livro comemorativo, com imagens do acervo, entremeado de depoimentos, artigos e ensaios, especificamente elaborados para a publicação; a promoção do evento de lançamento do livro; e a realização de uma exposição com as fotos e objetos do acervo do grupo. A estimativa é que a execução do projeto resulte na geração de 33 empregos diretos”, conforme disposto no sítio do BNDES. Trata-se de um livro de arte sobre as duas décadas do grupo Nós do Morro, “incluindo nesta narrativa a história do Morro do Vidigal e o cenário social e artístico no período. A edição do livro terá tiragem mínima de 3 mil exemplares, sendo 50% destinada à distribuição gratuita a instituições públicas de todo o país, tais como bibliotecas, escolas, universidades, centros culturais e museus. Os demais serão vendidos com preço abaixo dos praticados pelo mercado. A publicação será acompanhada de CD-ROM com imagens de peças e filmes do Nós do Morro”. É bom que se apresente o projeto integralmente, caso contrário, fica parecendo que é muito dinheiro para pouca coisa. Há uma mentalidade colonial e colonizada que nos domina e propugna que dinheiro aplicado à arte produzida por grupos como o Nós do Morro seria melhor utilizado no suprimento de necessidades básicas de moradores de favela. Arte, para morador de favela, não seria necessidade básica, seja a produção de arte, seja o consumo de bens artísticos. Há também elementos de burrice e desconhecimento nesse tipo de raciocínio. Para resolver os problemas estruturais das favelas são necessários milhões em investimento. R$ 255 mil nada significam para este tipo de finalidade, como também nada significam para a produção de espetáculos e artistas de “alto nível”. Aqueles mesmos que espernearam quando o Ministério da Cultura, na gestão Gilberto Gil, inverteu prioridades e passou a considerar mais os coletivos e seus projetos de intervenção cultural e, menos, as estrelas singulares e individualistas. Entretanto, R$ 255 mil reais significam muito para a proposta de intervenção artístico-cultural de grupos como o Nós do Morro. Que a Lei Rouanet e outras leis de incentivo à cultura alcancem, cada vez mais, grupos dessa natureza. Nós do Morro por ele mesmo: “O Grupo Nós do Morro surgiu na favela do Vidigal, no Rio de Janeiro e, desde então, vem alcançando amplo reconhecimento da sociedade pelo trabalho realizado junto à comunidade carente, tendo recebido diversos prêmios teatrais. Em 2003, com o sucesso do grupo foi criada a Companhia de Teatro Nós do Morro, com o objetivo de aperfeiçoar e dar continuidade ao processo de criação e produção de sua linguagem artística. A Companhia mantém o vínculo sócio-cultural com a comunidade original, tendo em seu elenco atores e técnicos fundadores e integrantes do grupo, que atende anualmente cerca de 300 crianças, jovens e adultos da comunidade, nas áreas de teatro e audiovisual. Os espetáculos do grupo foram encenados no Rio e em São Paulo, integrando a agenda cultural dessas cidades, e foram contemplados com diversos prêmios, incluindo uma Menção Honrosa da UNESCO em 2002. Além da criação do Grupo de Teatro, o Nós do Morro criou um Núcleo Audiovisual, em que são produzidos roteiros, filmes de longa e curta-metragem de ficção e documentários, como no fortalecimento de importantes parcerias com produtoras como Diller Trindade, Rio Vermelho, Raccord, e Copacabana Filmes, possibilitando a inserção no mercado de trabalho de vários dos seus técnicos e artistas. Com 20 anos de existência, hoje o Nós do Morro, que se tornou referência cultural e social, é um centro de formação artística que atende a 320 alunos no Vidigal, cumprindo sua missão de formar artistas-cidadãos e de dar sua contribuição às Artes através do desenvolvimento do processo de construção da linguagem cênica fundada na cultura nacional e popular”. (Do sítio do BNDES) “O surgimento do Nós do Morro, nos anos 80, ocorreu justamente em um momento em que as organizações comunitárias ganhavam força nas favelas do Rio de Janeiro. O movimento de formação do grupo promoveu uma fusão entre diferentes associações de favela. À época, a parte baixa do morro – mais próxima à avenida Niemeyer – era morada de artistas, intelectuais e jornalistas. Já na subida da encosta – nas partes média e alta – crescia o número de moradias da população mais pobre. Foi a partir da relação criada entre artistas e intelectuais e os jovens de baixa renda da comunidade do Vidigal que foi originado o Nós do Morro. Hoje, o chamado Casarão, sede das atividades do grupo, encontra-se na parte média do morro. Desde o início de suas atividades, já passaram por suas oficinas mais de 3 mil pessoas. Atualmente o Nós do Morro oferece cursos de formação de atores e técnicos em artes cênicas para cerca de 300 jovens e adultos da comunidade, ainda que com poucos recursos, vindos principalmente de um apoio anual da Petrobrás”. Visite a página do grupo: www.nosdomorro.com.br

20 de dez de 2007

Tributo da Matéria ao Espírito MC BLUL

(texto elaborado pela coordenação da campanha 'Reaja ou será morto, reaja ou será morta', Salvador, BA) "Mc Blul foi mais uma vítima da ação letal dos grupos de extermínio que atuam na periferia de Salvador e de outras partes do Brasil, exterminando a juventude negra com a chancela do Estado. Os corpos que eles deixam no chão, não encontram lugar na mídia semelhante ao "pit-boy" lutador de vale tudo da familia Greise que morreu no ultimo fim de semana, tão pouco resposta do poder judiciário que agi em câmera lenta para investigar as nossas mortes e até mesmo para julgar os processos da população carcerária. Não estamos esperando o Globo o Repórter fazer uma reportagem especial ou quem sabe até o Repórter Record, nós somos @s nossos portas vozes, estamos denunciando que no fim de semana os coveiros abrem covas com antecedência para atender a demanda gerada nesse período, que as agencias funerárias, cada vez mais numerosas em nossos bairros, lucram como nunca; que os fabricantes de armas festejam a nossa morte; que as grandes construtoras/imobiliarias (Odebrecht, etc.) lucram com a construção e reforma de presídios... Ou seja, nosso sangue é moeda corrente. Reaja ou será morto, reaja ou será morta!"

17 de dez de 2007

Lançado em Salvador o Centro Internacional de Estudos Avançados Sobre Brasil, África e Diásporas - CIEABAD

Mazza – Quais são os objetivos do CIEABAD? Carlos Moore – São vários. Primeiro, promover o estabelecimento, no Brasil, de genuínas instituições voltadas para os Altos Estudos sobre África, as Relações Raciais e as Diásporas Africanas. Segundo, acompanhar as relações do Estado brasileiro e das multinacionais brasileiras com os países do continente africano. Terceiro, monitorar a maneira em que a África é apresentada pela mídia deste país, bem como os assuntos referentes a esse continente; e prover a sociedade civil brasileira com canais de informações alternativos sobre a África e suas realidades. Quarto, incentivar as pesquisas internacionais e nacionais em torno a três grandes projetos: a) a definição das bases estruturais que poderiam facilitar, na África, o projeto de federalização do continente; b) a definição das bases estruturais que poderiam facilitar, no Brasil, a transição democrática para uma sociedade verdadeiramente multirracial; c) a definição das condições estratégicas que poderiam facilitar o surgimento, no século XXI, de uma aliança de países do Atlântico Sul, em torno a uma parceria Brasil-África. Com efeito, vemos essa possibilidade como um evento capaz de influir na democratização das relações internacionais e consolidar a tendência para a multiplicação dos centros de poder. Uma primeira conferencia internacional de especialistas incumbidos de chefiar os grupos de pesquisa que irão trabalhar nesse sentido está prevista para ocorrer em Salvador, Bahia, em abril 2008. Mazza – Como surgiu exatamente a idéia desse projeto? Carlos Moore – Na realidade, a idéia inicial partiu de Ivete Sacramento, em 2000, momento em que ela iniciava seu mandato de reitora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), e Hélio Santos. Ivete Sacramento até tentou transformar um órgão que já existia na UNEB – o Centro de Estudos das Populações Afro-Indígenas-Americanas (CEPAIA) – num Centro de referência para o estudo da África, das diásporas africanas e das relações raciais. Eu acabava de chegar no Brasil, mas aceitei o desafio. Lembro-me de que Hélio Santos me propôs a criação de um Instituto de Altos Estudos sobre África, as Diásporas Africanas e as Relações Raciais e, inclusive, quis estabelecer uma Fundação para o Desenvolvimento Afro-Americano para esses fins. Assim, em 2006, após muitas e longas conversas entre vários pesquisadores e intelectuais, brancos e negros, chefiados por Kabengele Munanga, Hélio Santos, Ivete Alves Sacramento e eu, decidiu-se, finalmente, a criar o CIEABAD. Mazza – Quais eram as suas preocupações ao tomar essa iniciativa? Carlos Moore – Eram várias. Primeiro, ajudar a consolidar a Lei 10.639/03, que eu, pessoalmente, considero como uma das iniciativas mais democráticas empreendidas por um governo neste hemisfério desde a lei que generalizou os Direitos Civis dos negros nos Estados Unidos, ao início dos anos 1970. Havia que apóia-la e evitar que ela fosse destruída por descumprimento, ou porque alguns grupos de interesses se aproveitassem dela para fazer o que sempre fazem: lucrar. Segundo, havia que impedir que as disposições positivas que o Estado brasileiro vinha tomando desde 2000 – introdução da noção das ações afirmativas, das cotas raciais nas universidades, do cadastramento e titularização das terras quilombolas, etc. – fossem freadas pela parte conservadora da sociedade que se opõe a elas. E, terceiro, estávamos preocupados em impedir que a relação do Estado brasileiro com a África fosse seqüestrada, também, pelos mesmos interesses que, aparentemente, estão tentando seqüestrar as diferentes conquistas democráticas da sociedade civil brasileira. Sabíamos que só a organização e a determinação poderiam ajudar a estender a ação democrática do Estado e proteger as conquistas sociais do Movimento Social Negro, por exemplo. "Mazza – É esse o sentido de sua proposta de criação de um Centro Internacional de Estudos Avançados sobre Brasil, África e as Diásporas (CIEABAD), a partir de Salvador? Carlos Moore – Sim. Ele corresponde a uma demanda que não cessa de crescer, não somente no Brasil, mas no resto do mundo, em se considerando a situação que vive o continente africano. Há muita preocupação em torno à África, especialmente entre os afrodescendentes e as correntes democráticas deste país e do mundo inteiro. Mazza – Um grande problema que confrontam os movimentos sociais, para realizar seus objetivos, é a falta de recursos. De onde provirão os recursos para sustentar um projeto tão ambicioso como o é o CIEABAD? Carlos Moore – Os recursos econômicos desempenham um papel importante na sobrevivência ou não de uma instituição. Entretanto, os recursos humanos, também, são vitais. Por isso, queremos juntar a ele somente as pessoas idôneas, cuja coerência política e probidade moral são inquestionáveis. Trata-se de um projeto que corresponde aos melhores interesses das sociedades civis africana e brasileira. Mazza – Tem-se notado que, freqüentemente, muitas das velhas reivindicações do movimento negro, que agora se concretizam como conquistas, são imediatamente aproveitadas para satisfazer interesses pessoais de indivíduos que até são hostis aos afrodescendentes. Carlos Moore – Os interesses mercenários existem desde que Roma os erigiu em princípio de governo. Roma espalhou essa prática pelo mundo antigo e hoje ela forma parte de nossas vidas cotidianas. Mas, o império romano caiu, como caem todos os impérios, diante da determinação dos povos agredidos e colonizados. Mazza – Como o senhor avalia a produção dos intelectuais negros para a superação da discriminação racial e do racismo? Carlos Moore – De modo geral, os movimentos negros deste continente, e seus intelectuais, apresentam as mesmas forças e fraquezas. São formidáveis na prática da denúncia, na ação radical direta, mas apresentam grandes problemas na teorização de suas próprias ações. Por outra parte, a maioria dos intelectuais negros que eu conheço, parece vacilar ainda entre a ruptura franca com os velhos esquemas reificados pelo Ocidente como superiores, e a exploração pioneira, a única que abre caminhos e cujo horizonte é sem fim. É como se hesitassem ainda a contrariar as estruturas dominantes e a querer galopar sobre dois cavalos indo em sentidos inversos! Cheikh Anta Diop foi uma das grandes exceções. Ele provocou uma profunda ruptura epistemológica nas Humanidades quando introduziu a África, os processos evolutivos e a questão racial como dados fundamentais na produção do conhecimento contemporâneo. Provocou um irreparável racha na fachada do pensamento único promovido pelo mundo acadêmico-intelectual ocidental e iniciou uma verdadeira revolução no pensamento de todos, brancos e negros. Mazza – O senhor pensa que algo similar poderia acontecer aqui, no Brasil? Carlos Moore – Felizmente, já está acontecendo sob nossos olhos. Nós já presenciamos a existência de uma nova geração de jovens, brancos e negros, que estão se interrogando sobre o racismo e o rumo que deverá tomar a Nação. Não acho que alguém possa os forçar a “calar a boca”. Em que pesem as manobras de intimidação de que serão objetos, no âmbito acadêmico ou intelectual, esses jovens deverão se lançar pelo único caminho digno de um verdadeiro intelectual – o caminho do pensamento crítico, sem se importar com a opinião daqueles que se comportam como verdadeiros carcereiros do pensamento". Fonte: Entrevista publicada pela Mazza Edições. www.mazzaediçoes.com.br

12 de dez de 2007

Minas e o sertão

"O mineiro é muito espectador. O mineiro é velhíssimo, é um ser reflexivo, com segundos propósitos e enrolada natureza. É uma gente imaginosa, pois que muito resistente à monotonia. É boa - porque considera este mundo como uma faisqueira, onde todos têm lugar para garimpar. Mas nunca é inocente". "O mineiro traz mais individualidade que personalidade. Acha que o importante é ser, e não parecer, não aceitando cavaleiro por argueiro, nem cobrindo os fatos com aparatos. Sabe que 'agitar-se não é agir.' Sente que a vida é feita de encoberto e imprevisto, por isso aceita o paradoxo; é um idealista prático, otimista através do pessimismo." "( O mineiro) não entra caninamente em disputas. Melhor, mesmo - não disputa. Atencioso, sua filosofia é a da cordialidade universal, sincera; mas em termos. Gregário, mas necessitando de seu tanto de solidão, e de uma área de surdina, nos contatos verdadeiramente importantes. Desconhece castas. Não tolera tiranias, sabe deslizar para fora delas. Se precisar, briga." "(O mineiro) tem memória longa. Não tem audácias visíveis. Ele escorrega para cima. Só quer o essencial, não as cascas. Sempre frequentado pelo enigma, pica o enigma em pedacinhos, como quando pica seu fumo de rolo, e faz contabilidade da metafísica; gente muito apta ao reino do céu." "(O mineiro) não acredita que coisa alguma se resolva por um gesto ou um ato, mas aprendeu que as coisas voltam, que a vida dá muitas voltas, que tudo pode tornar a voltar. Até sem saber o que faz, o mineiro está sempre pegando com Deus." (Texto de Guimarães Rosa; "Aí está Minas, a mineiridade." Revista Manchete de 25/08/57; imagens: flor de pequizeiro; caricatura de Guimarães Rosa, sertão mineiro em movimento)

11 de dez de 2007

"Cadernos Negros volume 30 - contos: Você precisa ler"

(Texto de divulgação) "Confirmado: é dia 14! E é com muito orgulho pelo caminho já trilhado e desejosos de prosseguirmos sempre adiante nessa longa estrada de lutas que convidamos você, seus familiares e amigos para celebrar conosco a concretização de mais um projeto, herdeiros que somos do legado de nossos ancestrais, que resistiram em nome de um sonho: a liberdade. Hoje nosso confronto se dá em vários campos: discriminação, invisibilidade, ausência de cidadania. Por isso estamos aqui, há 30 anos mostrando nossa cara e dando nossa cara a uma tradição que durante tanto tempo nos foi negada: a literária. Os Cadernos surgiram em meio à efervescência do movimento negro, em 1978. Desde então vêm perpassando gerações, acionando em seus leitores a consciência de que, sim, podemos e devemos ocupar nosso espaço nesta sociedade e país que foram construídos à base de muito suor de nossos antepassados. Embora com três décadas de vida, os Cadernos ainda enfrentam as dificuldades financeiras e culturais de sempre. O livro sai porque é feito na raça. A leitura ainda é pouco habitual entre a população, que, quando lê, opta pelo que o grande mercado oferece. Algumas luzes se acendem para se apagar em seguida. Mas a série Cadernos Negros já conquistou um público que a acompanha, além de merecer atenção em alguns centros acadêmicos. O lançamento do volume 30 de Cadernos Negros é mais do que uma festa, é um rito de passagem, a superação de mais uma fase e a preparação para outras que virão. Portanto, precisamos estar todos juntos, lá, nos encontrando, lendo, conversando e comentando sobre nossos contos. Enfim, sendo o que somos: povo brasileiro. E temos sede de literatura afro"! Autores (as): Ademiro Alves (Sacolinha). Luiz Carlos de Oliveira. Allan da Rosa. Márcio Barbosa. Conceição Evaristo. Mel Adún. Cristiane Sobral. Michel da Silva. Cuti. Miriam Alves. Décio Vieira. Oubi Inaê Kibuko. Edson Robson. Raquel de Almeida. Elizandra. Rosário Ngunza. Esmeralda Ribeiro. Ruimar Batista da Costa. Helton Fesan. Sergio Silva. Henrique Cunha. Sidney de Paula. Lande Onawale. Zula Gibi. Apoio: SESC – Paulista · Conselho Estadual de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo · Cone - Coordenadoria dos Assuntos da População Negra (PMSP) · Secretaria Especial de Políticas da Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) · Fundação Cultural Palmares · Revista Raça Brasil. Sobre os Cadernos Negros: "Os Cadernos foram criados em plena fase de redemocratização do país. Em 1978 surgiu o primeiro volume da série CADERNOS NEGROS, contendo oito poetas que dividiam os custos do livro, publicado em formato de bolso com 52 páginas. A publicação, vendida principalmente em um grande lançamento, circulou posteriormente de mão em mão, sendo distribuída para poucas livrarias, mas obteve um expressivo retorno dos que tiveram acesso a ela. Desde então, e ininterruptamente, foram lançados outros volumes - um por ano - alternando poemas e contos de estilos diversos. A distribuição aperfeiçoou-se, procurando chegar a um público mais amplo e diversificado do que aquele atingido pelos primeiros volumes. Escritores de vários Estados do Brasil vêm publicando nos Cadernos. É preciso assinalar que não existem outras antologias publicadas regularmente com textos de autores afro-brasileiros, em grande parte devido às dificuldades financeiras inerentes às publicações deste tipo. Sendo assim, os Cadernos têm sido um importante veículo para dar visibilidade à literatura negra. O material publicado nos Cadernos tem sido fonte para ensaios, teses e estudos diversos por parte de estudantes de Letras, pesquisadores e professores universitários. No campo estético ou enquanto forma de resistência cultural, os Cadernos têm tido importância inegável e, proporcionando oportunidade para o exercício de criação literária diferenciada, possibilita que os descendentes de africanos passem de objeto a sujeito da escrita, enriquecendo ainda a discussão a respeito da questão racial. A venda principal dos Cadernos ocorre no lançamento de cada volume. Estes eventos chegaram a reunir 2.000 pessoas, têm performances poético-dramáticas e espetáculos de dança. O público leitor de Cadernos é heterogêneo, sendo constituído, majoritariamente, por pessoas da comunidade afro-brasileira, especialmente universitários, professores e profissionais liberais. Mas também há leitores comuns e intelectuais pertencentes a outros segmentos étnicos da população. Os Cadernos atendem a uma demanda por um tipo de literatura não oferecida pelo mercado editorial. O seu nome tornou-se uma marca cujo alcance vai além dos limites de distribuição e venda dos livros. Os Cadernos Negros têm sua organização e editoração a cargo do Quilombhoje (que também se encarrega do lançamento e distribuição), o grupo arca com parte dos recursos e outra parte é dividida pelos autores participantes, num processo cooperativo que tem permitindo superar as barreiras impostas pelo mercado. Recentes volumes foram feitos em co-edição com uma editora" (informações retiradas do sítio www.quilombhoje.com.br)

10 de dez de 2007

Ministro do STF, Joaquim Barbosa, é escolhido Brasileiro do Ano

( Deu no Estadão) "O ministro Joaquim Barbosa foi escolhido, pela revista IstoÉ, o ‘Brasileiro do Ano’. Ele será homenageado em festa promovida pela revista no dia 10 de dezembro, em São Paulo. Joaquim Barbosa ganhou notoriedade no país com a sua atuação à frente do inquérito do mensalão, grande escândalo político transformado em Ação Penal pelo Supremo Tribunal Federal. Barbosa é o relator do processo, com 40 denunciados. Entre eles, José Dirceu, ex-chefe da Casa Civil. Depois de cinco sessões e 30 horas de debates, os ministros do STF decidiram receber a denúncia e Joaquim Barbosa foi aclamado pela mídia como herói nacional. Foi capa de duas revistas semanais e recebeu menções honrosas de uma terceira".

8 de dez de 2007

Benjamim, o filho da felicidade

(Por Heloisa Pires Lima) "Se, abristes este livro, e o estás lendo agora, saibas que, de repente, estás entrando em um outro tempo. Visitarás o século XIX, já no seu finalzinho. Depois, deves seguir pelo início do século XX. Seria extraordinário encontrar transeuntes com seus trajes de época, seus carros e prédios. Mas, tua entrada naquele mundo será mais fascinante ainda; ela se dará através dos circos daquele tempo. Assim, de repente. Heloisa Prieto percebeu que o instante de uma grande virada na vida, pode ser uma fonte caudalosa de boas histórias e criou esta coleção. Pois na virada daqueles séculos, havia uma que ela pediu para que eu recontasse. É a história de Benjamin, o maior palhaço negro do Brasil; alguns dizem, do mundo. Esta novela juvenil apresenta Benjamin de Oliveira( Pará de Minas,11de junho de 1870- Rio de Janeiro, 3 de maio de 1954), aclamado como o rei dos palhaços e o nome mais importante para a história do circo-teatro no Brasil. O ponto de virada foi ele deixar a fazenda onde vivia para fugir com o circo que passava pela cidade. Mas a forma como Benjamin construiu sua trajetória deixa algumas dicas valiosas sobre a arte de viver. Uma delas, as respostas rápidas frente às dificuldades. Mas também às oportunidades. Ágil, equilibrista, hábil no efeito, possuía todas as qualidades de um acrobata, antes mesmo de se tornar um. Talvez fosse acrobata porque já fosse perito na tomada de decisões precisas. Terás a chance de conhecer as múltiplas faces do gurí que sabia amansar cavalo chucro, vender doce, fugir com o circo, se tornar palhaço-cartaz, acrobata, palhaço de picadeiro, clown, ator, diretor de circo-teatro, escritor, empresário, ator negro dos primórdios do cinema brasileiro, gravar disco, inspirar uma Lei e, ainda, virar nome de ruas e praças. E como Benjamin não para de acrescentar uma ação inédita, a novidade apoteótica é o salto para dentro da literatura. Se conseguires estabelecer contato...pronto, terás uma bela história pra conhecer. Talvez, aches estranho um ou outro termo de época, um modo de pensar. Sem estranhamento, não se completa a experiência de decifrar um mundo pouco conhecido. Só assim, perceberás como Benjamin lidou com aquele tempo e como construiu sua própria e valiosa biografia. E quiçá, não voltarás inspirado? Quem sabe não perceberás um ou outro detalhe que sirva de pista para contares, de teu jeito, como era o século passado, seus circos e a história do valioso Benjamin? E assim, poderás trazer de volta aquele que sempre será reconhecido pelo significado de seu nome: o filho da felicidade". Editora FTD, 2007.

CrespoSim completa 4 anos e homenageia Angola

São Paulo tem museus com entrada franca até o dia 09/12

(Deu no UOl Diversão e Arte) "De 4 a 9 de dezembro o Museu de Arte Moderna (MAM), a Pinacoteca do Estado e a Estação Pinacoteca terão entrada gratuita para suas exposições como parte da programação da 1ª Semana Ticket é Cultura. Durante o evento, o MAM oferece a exposição "Panorama da Arte Brasileira 2007 - Contraditório", mostra que reúne artistas de 11 estados brasileiros com diferentes formas de expressão. Pinacoteca do Estado de São Paulo, um dos museus com entrada franca até 9/12 A Pinacoteca do Estado expõe seu acervo com obras de artistas como Cândido Portinari, Victor Brecheret, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e várias outras exposições temporárias, como "Elogio ao Silêncio", do artista plástico Rubens Mano, e "Trabalhando Duro o Dia Inteiro, Nu à Noite", do israelense Tal R, entre outras. A Estação Pinacoteca mantém cinco exposições que têm acesso gratuito: "Odetto Guersoni" no Gabinete de Gravura Guita e José Mindlin, "Uma Visão Geral", de Iran do Espírito Santo, "Em Trânsito, de Alberto Martins, xilogravuras de Alfonso Ballestero e mostra do acervo da Fundação Nemirovsky, "O Olhar do Colecionador".

6 de dez de 2007

Festa de Lançamento do CD "Djubafedeá", de Fanta Konatê e Petit Mamady Keita

"Este CD representa a vitalidade musical de Fanta Konatê e Família, em seu encontro com o Brasil. Um trabalho artístico e informativo de extrema sabedoria , confirmando a importância de sua cultura guineana como uma extensão para o reconhecimento da nossa própria cultura." (Simone Soul) "Confesso que fiquei completamente curiosa e encantada por aquela mulher tao cheia de energia, forca e carisma. seu positivismo e alegria de viver sao simplesmente contagiantes. seu talento como bailarina e sua voz rascantemente africana nos transporta para alem-mar, onde nossas origens sao mais verdadeiras." (Badi Assad) Data e local: 9 de Dezembro, Domingo ás 16h na Casa das Caldeiras Avenida Francisco Matarazzo, 2000 Água Branca- São Paulo - SP. Entrada- R$10 e R$5. Estacionamento- R$6. Outras informações: www.fantakonate.com www.myspace.com/fantakonate

5 de dez de 2007

Professor sulafricano comenta eficácia das ações afirmativas, no Brasil e na África do Sul

(Deu na Folha on line de 01/12/2007, por Paulo de Araújo) Sul-africano defende expansão de ações afirmativas no Brasil "Após o fim do apartheid na África do Sul, há 13 anos, as ações afirmativas implementadas no país foram o principal instrumento no processo de inclusão social dos negros, segundo Shadrack Gutto, professor para estudos africanos da Universidade da África do Sul, entrevistado com exclusividade pela Folha Online em São Paulo. Até então, os brancos --10% da população do país-- detinham 87% das terras, enquanto os negros, que representavam 90% da população, tinham 13% delas. A exclusão repetia-se na política, na educação e na economia. "A situação mudou graças às ações afirmativas colocadas a partir de 1994", afirmou Gutto à Folha Online. Ele esteve no Brasil para participar do "Seminário Internacional de Gestão Pública Compartilhada: Experiências de Ações Afirmativas", organizado pela Prefeitura de São Paulo Ele defende ainda a ampliação do espaço dos negros nas universidades sul-africanas. "Em algumas universidades, os professores brancos ainda são 80% ou 90%. E isso é um problema. Você não pode só ter brancos ensinando negros. É preciso também ter negros ensinando negros". Na entrevista, ele reivindica a ampliação das ações afirmativas no Brasil, tanto na educação quanto em outras áreas. "Ou os negros são excluídos das universidades ou se tornam parte do capital intelectual do país. E o Brasil será pobre se não tiver uma diversidade de cultura no sistema educacional, com brancos, negros e indígenas. Um país precisa disso", afirma ele. Leia abaixo a íntegra da entrevista concedida por Gutto à Folha Online": Folha Online- Como o senhor avalia a eficácia das ações afirmativas na inclusão social dos negros na África do Sul? Shadrack Gutto- A segregação na África do Sul já existia desde a era colonial. Depois, como todos sabem, o país tornou-se o centro de um racismo sistêmico e muito organizado durante o apartheid. Quando esse regime foi derrotado, graças aos esforços da comunidade internacional e do próprio povo sul-africano, foi preciso corrigir os erros históricos. Para isso, as ações afirmativas tiveram um papel imperativo, e já havia uma visão sobre sua eficiência. Em 1993, o partido Congresso Nacional Africano, que hoje governa o país, formulou o Programa de Reconstrução e Desenvolvimento. Quando chegou ao poder, em 1994, por meio das primeiras eleições democráticas, implementou diversas reformas para dar poder aos negros, que estavam excluídos da economia, da política, da educação. Houve então uma série de ações, incluindo reforma agrária, reforma nos serviços públicos e sociais e reforma na área educacional. Folha Online- Como era exatamente a situação dos negros até então? Gutto- Antes de 1994, os brancos, que eram 10% da população, detinham 87% das terras no país. Os negros, que representavam 90% da população, tinham apenas 13% das terras. Ou seja, a reforma agrária era fundamental. Primeiro, era preciso dar aos negros os títulos das terras que já ocupavam. Porque, até então, embora eles estivessem lá, o governo só concedia os títulos aos brancos. O governo também teve que comprar terras para assentar os negros que queriam trabalhar na agricultura. Havia um problema habitacional, porque eles não podiam morar em muitos lugares. Então, a questão habitacional também virou prioridade. Era necessário colocar recursos para que as pessoas pudessem fazer parte da economia e recobrar sua dignidade. Nesse sentido, a reforma agrária foi um dos principais passos. Folha Online- O senhor chama de ações afirmativas esse tipo de reformas? Gutto- Não se pode falar em um sentido estreito. As ações afirmativas são instrumentos para se corrigir os erros históricos, para incluir aqueles que estavam excluídos. As pessoas costumam usar o termo "ações afirmativas". Eu, pessoalmente, prefiro falar em "ações corretivas", porque você está corrigindo esses erros. O que você faz é dar às pessoas o direito de usufruir os direitos que elas já deveriam usufruir normalmente. As ações afirmativas visam construir uma sociedade normal a partir de uma sociedade anormal. São medidas para que as pessoas possam desenvolver todo o seu potencial como seres humanos. Porque no regime do apartheid, as pessoas não desenvolviam seu potencial. Folha Online- O que aconteceu na África do Sul nos últimos anos em termos de inclusão da população negra pode mesmo ser considerado exemplo de sucesso?" Gutto- Houve mudanças muito significativas. Um outro avanço importante, por exemplo, foi na questão dos serviços sociais, como benefícios e pensões para crianças, idosos e desempregados. Os negros não tinham acesso a isso. Era um privilégio dos brancos. Então, o governo teve que assegurar que todos, brancos ou negros, pudessem receber esses benefícios, já que são tão importantes, especialmente para os pobres. Folha Online- E a maioria das pessoas têm de fato acesso a esses benefícios? Gutto- Sim, a maior parte tem. Pode-se dizer que a África do Sul teve um grande sucesso nessa área. A questão da reforma agrária, porém, já é mais difícil, e as medidas ainda não foram suficientes. Ocorre que o governo tem que comprar essas terras, não se trata de expropriação. E fica difícil ter recursos suficientes, porque os preços seguem uma escalada de alta. Quando as pessoas sabem que o governo está interessado nas terras, inflacionam o preço. Por isso, o governo está agora começando a dizer "nós não podemos ficar apenas com as forças do mercado. Vamos tentar negociar preços razoáveis. E se não for possível, vamos expropriar e depois compensar". O governo não pode continuar jogando dinheiro em um buraco sem fundo. Mas é um processo longo. Somos um país democrático há apenas 13 anos. Folha Online- O senhor diria que a África do Sul é muito menos racista hoje do que era há tempos atrás? As ações afirmativas influem também no combate ao racismo? Gutto- O racismo permanece, não mais oficialmente, é claro. Mas para acabar com o racismo você tem que fazer uso sim das ações afirmativas. Porque, uma vez que há desigualdade na educação, nos serviços sociais, na política de emprego etc, o racismo permanecerá. As pessoas podem não te discriminar diretamente. Mas elas discriminam ao te excluir. Então, as ações afirmativas podem ser entendidas como mecanismos para destruir o racismo. Folha Online- Como são trabalhadas as ações afirmativas na área da educação? Gutto- Na África do Sul, havia universidades para brancos e para negros. As brancas ficavam com praticamente todos os recursos. Assim, as pessoas tinham uma educação e potencial desiguais em termos de conhecimento e aplicação desse conhecimento. As universidades para os negros eram apenas para ensino. Não para pesquisa. Hoje, os negros estão se tornando maioria dos estudantes da graduação. Mas os brancos são mais numerosos na área de pesquisa acadêmica. Por isso, em algumas universidades, os professores brancos ainda são 80% ou 90%. E isso é um problema. Você não pode só ter brancos ensinando negros. É preciso também ter negros ensinando negros. Folha Online- Há ações pontuais para incluir os negros no mercado de trabalho? Gutto- Sim. Os negros antes eram excluídos de posições mais altas, ou em área técnicas ou científicas. Uma das ações tem o sentido de fazer com que as empresas tenham um plano de inclusão em todos os níveis, de gerência para cima. Isso vale para negros, mulheres e portadores de deficiência. Mas é preciso mudar a mentalidade dessas empresas. Algumas não implementam os planos. Dizem que precisam de mais três anos, de mais cinco anos, e você não as vê implementando grande coisa. Há também uma lei que exige que as companhias sejam em parte geridas pelos negros. Para eles se tornarem donos também. Porque, se você não for dono do capital, seu papel é apenas o de consumidor. É preciso mudar isso para que os negros não sejam apenas consumidores mas também gestores da economia. Folha Online - A resistência contra essas mudanças é grande? Gutto-Sim. Sempre há grupos que se opõem. Mas não se vence sem luta. Em termos de legislação, há um grande trabalho feito na África do Sul. Mas em termos de implementação -o que depende da cooperação das pessoas-a luta continua. O papel do governo é não só regular, mas também fazer com que as pessoas respeitem as regras. Especialmente se as políticas são boas. Não se trata de afugentar investimentos, por exemplo, e sim de ser mais inclusivo. Sem isso na agenda, o racismo e o sexismo continuam. A luta para mudar, para destruir a mentalidade do apartheid, ainda está em curso. Folha Online- O Brasil adotou o sistema de cotas para propiciar o ingresso dos negros nas universidades. O que o senhor acha disso? Gutto-O Brasil começou a implementar suas ações afirmativas, mas ainda está muito centrado na educação, não foi para outras áreas. Quando estive em Salvador, em 2005, esse assunto veio à tona. E foi mostrado que os estudantes cotistas iam melhor do que aqueles que entraram pelo mérito. Isso deixa claro o quanto a exclusão era artificial, porque essas pessoas podem ir bem. Mas não bastam as cotas em universidade. É preciso tomar medidas para melhorar o grau de educação dos negros desde a escola primária. Para que no final, você não precise mais de cotas. Folha Online- Na época da implementação, havia muita gente contra. Um dos argumentos era o de que as cotas legitimavam o preconceito Gutto- O Brasil tem que tomar uma decisão. Ou os negros são excluídos das universidades ou se tornam parte do capital intelectual do país. E o Brasil será pobre se não tiver uma diversidade de cultura no sistema educacional, com brancos, negros e indígenas. Um país precisa disso. Folha Online-O senhor encara as cotas como uma solução temporária? Gutto- É uma solução temporária, até que os negros tenham as mesmas oportunidades de ir para a universidade e ter sucesso. Estamos falando sobre dar às pessoas algo que elas já teriam conseguido naturalmente, se não tivessem sido vítimas do racismo.

4 de dez de 2007

Carlos Moore lança novo livro, em Salvador

Lançamento de"Igualdade das relações étnico-raciais", em São Paulo

"A Publicação aborda os resultados da Consulta Étnico-racial, pesquisa realizada em São Paulo, Salvador e Belo Horizonte junto a quinze escolas de educação infantil e ensino fundamental das redes municipais de ensino sobre a implementação da lei nº 10.639/2003. A Lei estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira em toda a educação básica. Participaram da pesquisa professores, coordenadores pedagógicos, diretores, funcionários e os pais, mães ou responsáveis pelos alunos". Quando: Dia 7 de dezembro, no Auditório da Ação Educativa, à R. General Jardim, 660 - Vila Buarque - Tel. 3151-2333 - São Paulo - SP Programação: -14h30 Apresentação e debate sobre os resultados da Consulta Igualdade Étnico-Racial na Escola, realizada nos municípios de São Paulo, Belo Horizonte e Salvador. -17h30 Coquetel de lançamento do livro e com apresentação cultural

30 de nov de 2007

Grande Roda do Dia Nacional do Samba, no Planalto Central

Dia 02 de Dezembro é o Dia Nacional do Samba e Brasília não vai ficar fora dessa grande festa! "Reunir toda a comunidade em uma grande roda de samba na Rodoviária do Plano Piloto foi a melhor forma que sambistas da cidade encontraram para comemorar o Dia Nacional do samba, celebrado em todo país dia 02 de dezembro. Muito mais que um gênero musical , o samba é uma filosofia popular afro-brasileira, uma festa da consciência do povo, onde quem dá o tom maior é a amizade, o respeito, a solidariedade, a fé e a luta para se viver em paz". Você faz parte dessa festa! Venha comemorar! Dia 02 de dezembro (domingo). A partir das 10h. Na plataforma inferior da Rodoviária. Realização: Produção Criola. Apoio: Administração da Rodoviária do Plano Piloto. Grupo Adora Roda. Bar Raízes.

Lançamento de Dicionário Literário Afro-brasileiro

29 de nov de 2007

A quem interessar possa: quem é Oswaldo de Camargo

(Entrevista concedida ao Portal Afro) "Oswaldo de Camargo é jornalista, poeta, contista, novelista e músico amador. Acha pouco? Saiba que provavelmente seja a maior autoridade brasileira em literatura negra. Desde os 17 anos, Oswaldo de Camargo dedica-se a literatura e a seu acervo literário, um dos mais brilhantes quando o assunto é negritude. Nascido em 1.936, em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, ele é um dos responsáveis pela inclusão da literatura negra no circuito cultural do Brasil. Dono de um raciocínio ágil e aguçada inteligência, Oswaldo de Camargo surpreende por todo conhecimento que possui sobre os escritores negros brasileiros e livros que tratam da temática negra. Sobre este assunto, publicou em 1987 "O Negro Escrito", pela Imprensa Oficial do Estado, um dos raros trabalhos a tratar dos ainda marginalizados autores negros. Acompanhe a entrevista concedida pelo grande estudioso e descubra o maravilhoso mundo da literatura. Boa leitura! Portal – Podemos usar a expressão "literatura negra"? Existe literatura negra? Oswaldo de Camargo - Acredito que a partir do momento que o negro resolve falar de sua realidade e identidade como negro, trazendo as marcas de sua história, mesmo dentro de uma língua portuguesa, ortodoxa, acadêmica, que seja, se ele conseguir fazer isso com arte e se essa literatura estiver sancionada por uma produção, ela existirá. A produção existe. É fato. Portanto, atestada pela produção, a literatura negra existe. Quando o negro pega suas experiências particulares e traz, sobretudo o "eu", a persona negra, com suas vivências, que um branco pode imitar mas não pode ter, o nome que damos a isso é literatura negra. Portal – Quando surge essa literatura negra no Brasil? É possível identificar suas fases até os dias atuais? Oswaldo de Camargo - Ela começa a existir a partir do momento que o negro olha para si mesmo e passa a contar como negro suas experiências particulares, suas memórias, sua vida, suas diferenças, sua identidade, mesmo que esta escrita tenha como base um português camoneano. A grosso modo podemos iniciar este movimento com Luís Gama ao escrever o poema "Bodarrada", que traz o problema da identidade negra. Um texto como "Bodarrada" só poderia ter saído de um negro. O branco não pode idealizar isto, pois o autor está trazendo sua experiência particular de negro. É verdade que podemos citar, no século XVIII, Domingos Caldas Barbosa, mas aí de uma maneira mais enfraquecida, o "Eu", mesmo, aparece apenas com Luís Gama. Depois vem Cruz e Souza com "Consciência Tranqüila", "Escravocratas" e sobretudo "Emparedado". Essas obras são particularíssimas, jorram de dentro de um "Eu" negro. Continuando, podemos lembrar Lima Barreto e dizer que uma nova fase da literatura negra se inicia em 1926, quando aparece a figura de um poeta pobre e pequeno, Lino Guedes, que escreve com os olhos voltados para a comunidade negra. A diferença é que Luiz Gama e Cruz e Souza escreveram sobre o negro, mas não para um público negro. Já Lino Guedes escreve como negro, sobre o negro, para o negro, num momento de ebulição cultural e social. Não podemos considerar a obra de Lino Guedes como grande literatura, mas vale como marco do começo da negritude no Brasil. Depois vem Solano Trindade com sua poesia política, contestatória e marxista, que dá um rumo de grandeza à literatura negra cantando e exaltando Zumbi dos Palmares. Um contraponto ao trabalho de Lino Guedes, que era católico e moralista. Podemos dizer que a literatura negra atual segue essas duas tendências, somadas às influências africanas e sobretudo norte-americanas. Portanto, podemos ordenar desta forma: Domingos Caldas Barbosa, Luís Gama, Cruz e Souza, Lima Barreto, Lino Guedes e Solano Trindade. Portal - Todos estes nomes seriam nomes guias? Oswaldo de Camargo - Sim, são nomes guias. Portal - Então Solano Trindade seria o último grande nome guia? Oswaldo de Camargo - Diria que sim, pois para que possamos medir a importância de um escritor, de sua obra e vislumbrar até que ponto ela influenciou a produção literária de seus sucessores é preciso esperar 30, 50. Portal – A literatura africana influenciou ou influencia a literatura negra produzida no Brasil? Oswaldo de Camargo – O escritor negro brasileiro está muito desvinculado da questão africana. Quando ele escreve, está usando os padrões europeus, latinos, padrões herdados por uma cultura, digamos, ocidental. A literatura africana foi na maior parte ágrafa (sem escrita). Nossa literatura negra está enrolada com a literatura ocidental, sobretudo com a norte-americana, francesa, portuguesa e etc. Portal - A influência da literatura norte-americana é boa? Não seria mais interessante uma maior proximidade com a produção africana? Oswaldo de Camargo - Não. Nossa realidade está muito mais próxima da norte-americana. O escritor negro brasileiro conhece muito mais os conflitos e as questões de identidade do negro norte-americano. O africano não passou por isso. Estou falando da diáspora. O escritor africano não foi desraizado, mesmo com a invasão do colonizador ele não foi retirado de sua "casa" e mandado para uma terra estranha. Já os norte-americanos, assim como os brasileiros carregam esta herança. Então, quando o negro escreve no Brasil, ele naturalmente tem mais afinidade com o negro dos Estados Unidos. Uma unidade nascida da experiência comum da diáspora, que foi fundamental. Portal – Então, diante desse histórico, não há condições para uma unidade ideológica entre a produção brasileira e africana? Oswaldo de Camargo - A produção literária vem do subconsciente. O escritor não é um ser que escreve à toa. Ele mesmo determina o rumo que quer dar à sua obra. O ímpeto que leva africanos e brasileiros a escrever são diferentes. Os africanos "lutam" contra um invasor, nossa luta é pela afirmação de uma identidade, que foi esfacelada. Nós estamos tentando nos recompor, os africanos estão se defendendo. Portal – A literatura produzida por brancos que falava de negros foi prejudicial à "causa negra"? Oswaldo de Camargo – Depende muito do escritor. Por exemplo, Trajano Galvão, que iniciou no século XIX com os ventos do romantismo, olhou ao redor de si, descobriu o negro na senzala. e começou a escrever poemas, a grande linguagem da época, a respeito disso. Foi muito válido, foi muito bom. Ninguém tinha interesse em escrever sobre escravos. Escravos não mereciam literatura. Ninguém se deteria a analisar psicologicamente um escravo, que era apenas uma coisa, um vazio, no mesmo patamar dos animais. Então Trajano Galvão passa a se interessar e ergue o negro a condição de objeto de literatura. Foi uma valorização. Feita por branco? Sim, mas somente poderia ter sido feita por branco, que detinha a literatura naquela época. "Para que surja uma literatura é necessário que haja um caldo literário. E esse caldo já existia no Brasil. Já existiam vários poetas brancos escrevendo sobre negros. Mulatos também escreviam, mas não voltados para a negritude. Veja bem, naquela época, a partir do momento que o mulato escrevia, ele já não era mais considerado como negro. A partir do momento que ele aprende a ler e escrever, viaja para Lisboa e ascende socialmente, ele obscurece suas raízes negras. Portanto não produz essa literatura negra. Ele não tem conflitos de negro. Ele não tem conflitos de cor. Ele não pensa no fator cor. Ele vive com naturalidade a ilusão de ser um branco, por ter ascendido socialmente. Culturalmente era um branco. Então sua produção será geralmente a produção de um branco. Como escritor ele será um branco." "A única exceção que encontraremos no século XVIII será Domingos Caldas Barbosa. Um mulato que volta seu olhar para sua cor e escreve sobre isso. Não é a toa que Manuel Bandeira cita-o como precursor da poesia brasileira. Ele, um mulato, que foi chamado de orangotango por Bocage e de macaco por outros. Foi ridicularizado e humilhado por ter ousado entrar nos palácios, recitando e cantando o lundum, um rítmo de negros. Os intelectuais da época zombavam dele. Ele era satirizado pelos outros escritores. Tudo isso por assumir sua cor e ascendência." Portal – Existe algum elo que une os escritores brasileiros a outros de mesma língua (portuguesa)? Oswaldo de Camargo – O fator primordial não é a língua. A personalidade do escritor é que irá dar a cor para a língua. É como Kafka, que nasceu em Praga e fala o alemão. Não houve um encadeamento de experiência de escritores africanos de língua portuguesa com os brasileiros. É difícil imaginar que o escritor apenas por comungar a mesma língua irá compartilhar das mesmas experiências. Não esqueçamos da diáspora... "... Esta experiência enorme de sermos descendentes de escravos marca profundamente toda nossa produção e nossa vida. Tudo que fazemos está marcado pelo fato de sermos netos e bisnetos de escravos. Essa lembrança não se arreda tão facilmente. Portanto, nossa produção terá essa marca, é isto que a torna singular, diferente. É isto que justifica chamarmos o que escrevemos de literatura negra... quando ela tem os quesitos de arte..." Portal – Como podemos identificar essa literatura que é arte? Oswaldo de Camargo – É quando lemos um texto que tira o melhor partido das palavras, que se adapta perfeitamente ao que ele quer expressar e esta adaptação não é um texto científico, um compêndio, é um texto com arte. O escritor manipula a palavra com arte. Ele não quer apenas que o texto traga indícios de uma realidade e sim uma coisa complexa, um instrumento que vai mostrar, vindo do subconsciente, uma outra realidade, de uma maneira atípica. A visão do escritor é realista ou supra-realista, que pode mostrar uma realidade muito além do que se imagina, quando for verdadeiro. Caso não seja verdadeiro, não se discute... Não adianta discutir... Não entrou no subconsciente... ... Como dizia Carlos Drummond de Andrade: usar a chave... ele não abriu nenhuma porta... O grande verso do Drummond é "trouxe a chave?" Infelizmente, boa parte de nossos escritores não possui a chave... Portal - Será por isso, então que a literatura negra é tão pouco representativa? Oswaldo de Camargo - A literatura de modo geral é um instrumento frágil para se sustentar, independente de ser branca ou negra. Sozinha, a literatura é fraca, por trabalhar com a palavra. Ela não tem as atenções da mídia como tem a música e até mesmo as artes plásticas, por se aproximar mais de uma arte utilitária. Se você não faz então uma literatura academiável, que possa ser discutida em universidades, propositalmente você se marginaliza, pois seu tema é marginal. Você estará usando o instrumento literário para tratar de assunto que não é usual, um assunto que se ocupa da proporção mais empobrecida, menos respeitada, historicamente desvalorizada da sociedade brasileira... E tem mais, a literatura não é apenas escrever, ela tem que vender. As editoras não querem apenas um bom texto, elas querem é vender. Nenhum editor, com raras exceções, publica um texto apenas por sua beleza, ele quer é vender o livro. Portal – Mas aí ele não tem os mesmos critérios... Oswaldo de Camargo – Não tem. Nem pode ter, pois essa literatura não esta imbricada num processo tradicional do negro escrever. O negro escreve pouco. Portal - E lê pouco. Oswaldo de Camargo - Talvez até por isso. Percebe como é complexo? Por melhor que seja um livro com temática negra, ninguém garante que haverá um publico enorme para ele, pois o grau de impregnacão de uma realidade negra que o escritor quer propor, não existe na sociedade brasileira. O norte-americano já tem esta possibilidade. A sociedade americana está impregnada de uma questão negra, por fatores históricos, etc. A sociedade branca brasileira não é seduzida por este assunto, pelo contrário, esse tema nem existe para ela. Não existe uma questão negra para o brasileiro, em geral. Portanto uma literatura concebida com padrões negristas não terá a ressonância que tem um texto negro nos Estados Unidos. A sociedade americana, até por seu pragmatismo, proporciona ao escritor muito mais chance de vender, justificando um investimento, do que um escritor negro brasileiro de mesma capacidade. O escritor negro brasileiro é um grande herói. Ele aposta muitas vezes no vazio. É um profeta que acredita a despeito de tudo. E eu como um dos mais velhos escritores desta época, estou vendo que vale a pena apostar. Portal – Mas o senhor é uma instituição. Oswaldo de Camargo - Não sei... Sei apenas que sou um dos mais velhos. Sou um dos poucos que conviveu com Solano Trindade, o que foi uma grande honra. Comecei muito cedo e digo que vale a pena apostar Quando você escreve um texto nunca se pode prever seu caminho. Este texto pode começar a falar de verdade depois de 50 anos, então é um ato de aposta. Mas vale a pena de fato tentar traduzir, fazer uma nova leitura do país, escrevendo poema, conto, novela, ensaio, dentro de uma visão negra que o branco não poderia ter dado nunca, por não ter a vivência especifica do negro. Portal – Se o negro brasileiro não lê e o branco que lê não se interessa por nossos assuntos, para quem o escritor negro escreveria? Oswaldo de Camargo – A pergunta é interessante. Mas, em primeiro lugar o escritor escreve para ele mesmo. Como falou Dostoievsky.. "Eu escrevo para espantar meus demônios." O escritor precisa expor o que sente, dividir o que tem com os outros, mas primeiro consigo mesmo. Portal – É um ato de angústia, então? Oswaldo de Camargo - Sim, por que não? Ele pega um fato de sua infância, um amor frustrado, por exemplo. Frustração é que faz boa literatura e não o que dá certo. É por isso que a pessoa equilibrada não pode ser um bom escritor. Um pai de família que chega em casa tira os chinelos, beija a mulher, beija os filhos, senta-se à mesa, nunca poderá ser um bom escritor. Escrever é um ato de desencontro, de angústia. Ele vai escrever para compensar o que não é, desde que tenha talento. É a sublimação pela arte: Eu sou nada socialmente, mas sou um príncipe escrevendo. E este canto é o canto da liberdade, eu escrevo o que quiser. Posso ser um santo ou um demônio escrevendo... Portal – Canto da liberdade...A literatura seria uma das possibilidades de nós negros sermos livres? Oswaldo de Camargo – Sim. "Mas ter talento não basta para ser escritor. Existe todo um aparato para chegar a ser um bom escritor. É preciso saber entender o termo de uma palavra. A palavra pesa. A diferença entre a palavra "belo" e "bonito" pode modificar totalmente o sentido de um texto. O escritor é um alquimista do verbo. Ele tem o dom da mágica, é um demíurgo, cria um mundo com palavras. Para se fazer isto tem que se preparar, "ter a chave", e isto passa pela observação da obra dos outros, pela leitura, pela obsessão por alguns textos que marcaram sua vida. Até para imitar... Não existe um escritor sem outro escritor. Portal – E nem sem leitor... O senhor é otimista? Acredita na formação de uma geração de jovens negros brasileiros interessados por literatura? Oswaldo de Camargo – Este é um fenômeno geral. Não acontece apenas com o negro. Não existe uma questão negra isolada da realidade brasileira. Este drama da leitura é um drama geral do Brasil. A leitura não se tornou um hábito, uma paixão, uma obsessão. O Brasil seria outro país se houvesse a obsessão da leitura. A realidade brasileira seria melhor pensada. Haveria uma crítica violenta à estrutura partindo das grandes massas. A vida religiosa seria outra. Eu sou católico. Aqui é somente por tradição, pois as verdades religiosas profundas não são conhecidas... "Qual a força do Japão pós-guerra? Qual a força da Alemanha pós-guerra?. Cultura. E a cultura passa necessariamente pela leitura". "No século VIII foi escrita a Ilíada, de Homero, que se tornou a educadora da Grécia, que era lida pelos poetas ambulantes para o povo, nas casas, nos palácios. Hoje quem substitui Homero é a televisão. Ela está educando? Não, pelo contrário, está nivelando da maneira mais baixa possível, o que interessa a muita gente. E grande parte destas pessoas influenciadas por este subproduto continua sendo negra e miscigenada, que são os que detém as condições de dar o pulo, de dar o salto..." Portal - A vaidade maior de um escritor é ser lido? Oswaldo Camargo – Sim, mas pelo bom leitor, pelo leitor inteligente, que troca figurinhas com o autor, que indaga, é raro mas acontece. Aí é o prêmio máximo. Mas voltando à vaidade, minha vaidade é ter persistido num mesmo rumo. Muitos desistiram e eu consegui. Este é meu grande orgulho. Portal – Falando em persistência, os Cadernos Negros chegam à sua 23ª edição. Qual sua opinião sobre os Cadernos? Oswaldo Camargo - É uma proeza inédita no país, pertence à vida da resistência negra neste país. Examinar literariamente o peso disto já é outra história, uma coletânea é uma coletânea... Se em cada Caderno aparecer pelo menos um escritor com um texto legitimo terá valido a pena. Os Cadernos devem ser elogiados por sua persistência, por serem uma grande referência neste roteiro do negro trazer sua experiência particular de literatura. É uma referência obrigatória. Portal – O que o senhor pensa dos escritores brancos de hoje que escrevem sobre vivências e temas negros? Oswaldo de Camargo – Não há nenhuma novidade nisto. É um branco interessado no assunto. Ele fez. A visão dele irá somar-se a outras visões. É uma visão possível. Um branco também vê. O branco está fronteiriço ao problema negro, mesmo sendo da alta sociedade, mas ao lado, a quinhentos metros há uma favela. Mas que fique claro, ele não está fazendo uma literatura negra, está fazendo um livro de sociologia, de etnografia, de recolha de conhecimentos sociais. Quando eu falo de literatura negra, falo sobretudo daquilo que torna a literatura um ato neurótico. Você cria um mundo de um nada, aparentemente nada, mas este nada é você, seu subconsciente, sua memória... Neste campo eles não entram. Vários escritores brancos já escreveram com muita categoria, Florestan Fernandes, Otaviani, Roger Bastide e outros... Mas não peça-lhes para entrar neste campo da literatura que é criar com palavras um mundo calcado tão só na experiência particular de um temperamento. "Eu como negro sou um escritor, meu mundo é outro. Até pela geração que pertenço, pela religião que me salva e por minha sensibilidade... O escritor criará um mundo de dentro de si mesmo. Eis o ato neurótico. É o vazio e de repente o mundo."

28 de nov de 2007

Homenagem a Luiz Gama, na Faculdade de Direito da USP, dia 28/11

(fonte Afropress)"A Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania e a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) homenagearão hoje, o líder negro abolicionista Luiz Gama. Na solenidade, que marcará a passagem dos 125 anos de sua morte, será descerrado um quadro à óleo do poeta, que posteriormente irá ocupar espaço na Sala Visconde de São Leopoldo, área nobre da instituição. Gama foi um dos mais brilhantes lutadores da Causa da libertação do povo negro e mesmo sem ser advogado diplomado, (funcionava como rábula, pois embora tivesse freqüentado aulas não era aceito formalmente na Faculdade por ser negro), conseguiu a libertação de mais de 500 negros escravizados. A solenidade está marcada para 18h, no Salão Nobre da Faculdade de Direito, no Largo São Francisco. Depois da homenagem haverá conferência sobre o tema "O SISTEMA DE JUSTIÇA E O COMBATE AO RACISMO INSTITUCIONAL", com a participação dos professores Hélio Santos, Sueli Carneiro e Celso Lafer".

Eventos literários em São Paulo, dias 30/11 e 01/12

Sarau da Consciência Negra, promovido pelo coletivo VACAMARELA. Dia 30 de novembro de 2007, a partir das 19:30, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima. Rua Henrique Schaumann, 777. Pinheiros (SP) Programação: vídeo "Larguei os livros e me sujei com a merda toda." Produzido por Allan da Rosa, Matheus Subverso e Akins Kinte. Edições Toró. Fala sobre Moçambique: Professora Rejane Vecchia (FFLCH-USP). Literatura Africana de Língua Portuguesa. Música: Agnelo Filho (Coral USP) e Casa da Mãe Joana. Leitura e Declamações: Rui Marcarenhas e o seu MEIOHOMEM, Marcelino Freire (a confirmar) e Poetas integrantes da VACAMARELA. Palco Aberto ao Público! Lançamento d'o CASULO N° 7 Dia 1° de dezembro de 2007, a partir das 19:00, na Casa das Rosas. Av. Paulista, 37 O Casulo - Jornal de Literatura Contemporânea, periódico literário realizado pelo Coletivo VACAMARELA e patrocinado durante 2007 pelo VAI (Valorização de Iniciativas Culturais - programa de incentivo à projetos culturais da Prefeitura de São Paulo), chega ao 7º número e comemora 2 anos de atividades de divulgação da nova poesia brasileira publicando mais de 150 escritores de todo o país. Com o apoio da Prefeitura de São Paulo a publicação passou sua tiragem de 3 mil para 30 mil exemplares, todos com distribuição gratuita em quase 300 pontos da cidade, incluindo 150 escolas de ensino médio, 23 CEU, 88 Bibliotecas e Centros Culturais, entre outros. Confira nesse número: - Matéria sobre a Biblioteca Comunitária Machado de Assis (Ocupação Prestes Maia); - Poemas de Alberto Pucheu, Ana Elisa Ribeiro, Lígia Dabul; - Tradução de poemas de Bill Knott por Reuben da Cunha; - Resultado do 1º Concurso Literário "Saia do Casulo": premiação de 20 alunos do Ensino Médio com um kit de livros doados pelas Editoras Azougue, Lucerna, Escrituras e Lumme. Ainda nessa noite será lançada a Antologia VACAMARELA - livro que traz poemas em espanhol, inglês e português de 17 jovens poetas contemporâneos: Ana Rüsche, Ana Paula Ferraz, Andréa Catrópa, Carol Marossi, Donny Correia, Eduardo Lacerda, Elisa Buzzo, Fábio Aristimunho, Gustavo Assano, Ivan Antunes, Júlia Lima, Lilian Aquino, Paulo Moura, Renan Nuernberger, Thiago Ponce, Victor Del Franco e Vinicius Baião. Informações: contato.vacamarela@gmail.com

27 de nov de 2007

"Trompas d' África: percussão do triunfo", um espetáculo de Beth Béli

Espaço Bartolomeu. Rua Augusto de Miranda 786, Pompéia, São Paulo. Dias 30/11 e 01/12, às 22:00 e 02/12, às 20:00.

Conceição Evaristo em Belo Horizonte, dia 27/11/07

"Quase uma História", no teatro SESI, Rio de Janeiro

"Uma carta publicada na seção de leitores de um grande jornal, somada às histórias de pessoas afro-brasileiras (anônimas e reais) e à própria história da Cia de Dança Rubens Barbot, hoje Rubens Barbot Teatro e Dança, servem de enredo para Quase uma História - espetáculo de dança contemporânea que entrará em cartaz no Teatro SESI para uma curtíssima temporada. De cena em cena, Quase uma história se transforma numa grande colcha de retalhos, mas retalhos sobre o mesmo e infinito tema: a vida e como são as histórias negras em geral. O espetáculo fala de vidas de pessoas anônimas e solitárias, que constituem a sociedade e da importância do entendimento sobre a existência do Homem. A Rubens Barbot comemora 17 anos de trabalho e é a primeira companhia de dança contemporânea afro-brasileira do país".

26 de nov de 2007

Os filhos de Luzia

Nos tempos em que o Mar Morto ainda andava doente, éramos todos filhos de Luzia. Mãe parideira e dadivosa, origem do povoamento de todos os mundos, feito por filhos pródigos e corajosos, que ultrapassaram desertos, rios de crocodilos e quedas d’água, mares desconhecidos. Luzia a tudo assistia e a nada impunha limites. “Quer ir, vá. Filho é do mundo, não é da gente, não”. Tinha a autoridade do começo do mundo, de primeira ancestral, rainha maior. Quantos filhos teve, Luzia nunca soube. Sabe que hoje sente falta de muitos, sapientes, inventores, criativos, verdadeiros gênios que fizeram maravilhas nas terras desbravadas. Alguns filhos mais gananciosos renegaram Luzia, deixaram as próprias terras e invadiram as terras da mãe, e as esquartejaram, destruíram reinos, deram nomes e limites alheios à organização das antigas terras. Não satisfeitos, arrancaram do ventre de Luzia, os filhos que haviam permanecido com ela e os conduziram em navios luzieiros para um novo mundo. Circundaram a árvore do esquecimento sete vezes para forçá-los a apagar da memória à Luzia e seus ensinamentos, tornando-os escravos e impondo-lhes o trabalho forçado e castigos mil e milhões de atrocidades. Violaram as mulheres, cujo parentesco consigo esqueceram. As mulheres pariram crianças que não se tornaram filhas dos homens que as fecundaram. As crianças nascidas foram chamadas de mestiças, frutos da mescla. Cresceram fazendo o trabalho sujo, acreditando que eram diferentes e melhores do que os descendentes diretos de Luzia, aqueles que mantinham semelhanças físicas com ela. Os projenitores fomentavam a fantasia, interessava-lhes que os filhos de Luzia se mantivessem divididos, assim, enfraquecidos, despotencializados. O tempo passou e num dado momento os que detinham o poder quiseram alçar os frutos da mescla ao posto de depositários culturais do novo mundo, das boas influências vindas de todos os lados: multi-étnicos, multi-facetados, multi-diversos, multi-celebrativos. Tudo sem conflito, sem animosidade, sem perdas e sem ganhos, sem privilégios e desvantagens, sem dores, só cor e amor. Mais à frente resgataram do ostracismo a velha e superada Luzia, reivindicaram a ancestralidade esquecida, convocaram DNAs e os estudaram, concluiriam que tudo e todos eram misturados, que quem aparenta ser verde na cara, no DNA é vermelho. Quem tem aparência azul no corpo, no DNA é lilás. Mas e a perseguição aos verdes? Todos sabem que eles são caçados pelo sistema, não é mesmo? Será que ao sacarem o exame de DNA e mostrarem à polícia, provando que seu material genético é vermelho, o sistema os protegerá? Garantirá aos verdes, a sobrevivência e os protegerá do extermínio? São as perguntas que não querem calar e só o material genético com força de salvo-conduto poderá responder. /// Finalmente consigo postar um texto autoral, não tenho tido tempo para escrever para o blogue e tenho ouvido várias reclamações, além da minha insatisfação. Este "Os filhos de Luzia" será encenado por um grupo de mulheres, dirigido pela dodecana amiga Beth Beli, no espetáculo - Trompas d'África: percussão do Triunfo, com estréia marcada para o dia 30/11, em São Paulo. Assim que tiver mais detalhes sobre o espetáculo posto aqui. Quem puder, compareça.

25 de nov de 2007

Acharque racista em livraria de Brasília

Notícia divulgada na lista de discussão racial do Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil. "Ontem, dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, fomos à *Livraria Cultura de Brasília** *e presenciamos uma cena, senão absurda, criminosa - o lançamento de um livro intitulado "A revolução quilombola", do jornalista (?) Nelson Ramos Barreto, que consiste em desqualificar o pleito das comunidades quilombolas pela formalização da posse de seus territórios tradicionais, com foco na crítica ao processo de regularização fundiária destes grupos efetuada pelo INCRA por meio deste Governo. Fosse somente a divergência de posições a respeito da questão quilombola, não nos admiraria. O mais chocante foi ver homens de terno preto (fenótipo - brancos), com broches da *TFP* (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade), ao redor do "Príncipe Imperial" Dom Bertrand de Orleans e Bragança, bisneto da Princesa Isabel, discursando em prol dos "valores ocidentais" e do "direito de propriedade", contra uma "reforma agrária negra". Afirmando sempre que nunca houve "problema racial" no Brasil, o discurso de tais senhores pregava que a mestiçagem deveria ser incentivada e que, assim como o comunismo, a reforma agrária quilombola poderia matar milhões de pessoas. Nem é preciso dizer que a base para esse discurso ainda é o mito freyriano da mistura das três raças. Esqueceu, talvez, de que os negros após a "abolição" foram deixados à própria sorte, sem terras ou trabalho – quando se iniciou o processo de incentivo à imigração européia para uma formação mais civilizada da sociedade nacional (ideologia perene do branqueamento biológico e ideológico). Na contracapa do livro, podemos ter um aperitivo "A bondosa Princesa Isabel substituída por Zumbi, um escravocrata" (!). 23 nov (2 dias atrás) perversos do evento era a presença de um único negro que ficava parado como que exposto em um zoológico segurando o livro do jornalista. Tivemos certeza de que se tratava de um show de horror quando um dos jovens da TFP, também com seu terno e brochinho, nos disse "escutem o negro falar!" Ao que foi constestado, retrucou "façam um teste de DNA com os presentes nesta sala e vejam se existe raça!". O referido negro disse ter sido discriminado em suas andanças pelo Congresso Nacional por uma princesa da Etiópia.... Ele foi convidado a falar no evento, prestando uma homenagem ao autor do livro. No entanto, anteriormente aos discursos, circulava sozinho pela biblioteca. Em sua primeira fala, chegou a dizer que os quilombos sempre foram uma "farsa", pois os negros eram "obrigados" a fugir, contrariando seu desejo de permanecer nas casas grandes, junto aos seus senhores. Chocante a forma como o discurso estava descolado da imagem do sujeito. Muito triste ver em operação uma manobra comum a esses movimentos, a cooptação de um sujeito, com vistas à legitimação de um discurso contra ele mesmo. Imaginem a violação psíquica que sofre esse sujeito se prestando a esse papel. Por fim, os homens nos cercavam dizendo coisas do tipo "por que vocês não vão para Cuba?", ou "essas meninas são agentes provocadores enviados por alguém". Aliás, éramos as únicas mulheres do local, exceto por uma portuguesa bem jovem, provavelmente esposa de um dos nobres (?) senhores, e as funcionárias da loja, alienadas ao que se passava. A funcionária responsável pelos lançamentos de livros até tentou se desculpar, mas também tentou se desculpar com a categoria de clientes aos quais nos opomos. Não fosse nossa presença no lançamento, seria uma turma de fascistas juntos, comemorando mais uma grande obra de Nelson Barreto, que já escreveu contra a reforma agrária - detalhe: o princípe desafiava qualquer "sociólogo ou economista" a citar um exemplo de reforma agrária no mundo que tenha dado certo - e a favor do trabalho escravo (!) Registramos nossa reclamação na Livraria Cultura, da qual somos cliente. Nos surpreende, ainda, que uma livraria com este perfil tenha aberto espaço para um evento de caráter racista. Algum intelectual sério foi convidado para este evento? Por que o lançamento deste livro foi agendado para o dia nacional da consciência negra? No mínimo, a assessoria de imprensa da Cultura ou é muito ruim e desinformada, ou também é racista. É impressionante como este caso vem comprovar que existem pessoas "saindo do armário" para demonstrar seus preconceitos, seus valores fundados na exploração e violência (a exemplo das reações positivas ao BOPE da "ficção", e negativas às cotas nas Universidades; dos comentários sobre a fala do Governador do Rio de Janeiro sobre a necessidade de legalização do aborto por causa dos filhos das favelas, "naturalmente" marginais etc.). Outra coisa que isso nos mostrou: a briga é feia".

23 de nov de 2007

LIRA, um selo editorial para abalar "Velhorizonte"

Na próxima segunda-feira, a partir das 19h, na Quixote Livraria e Café (rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, Belo Horizonte), lançamento do selo editorial LIRA, do poeta e amigo Rique Aleixo.

Pelourinho na Rota da Rima, Salvador, 21 a 25 de novembro

"Entre os dias 21 e 25 de novembro, a Praça das Artes, no Pelourinho, será palco do projeto Pelourinho na Rota da Rima. A iniciativa vai aproximar várias linguagens artísticas, como o graffiti e a música, mas terá como cerne a literatura negra brasileira. Estruturado como seminário-espetáculo, o evento propõe uma aproximação entre o texto dos mestres Luís Gama, Lima Barreto e Abdias do Nascimento com os dos novos poetas da negritude, principalmente, aqueles oriundos da cultura hip hop. Entre os convidados - professores, pesquisadores, poetas, atores – destaque para as presenças do rapper brasiliense GOG e do grupo paulista Z'África Brasil, que fazem shows na abertura e no encerramento. Pelourinho na Rota da Rima é idealizado e produzido pelo coletivo Blackitude – Vozes Negras da Bahia em parceria com o Programa Pelourinho Cultural, do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), uma autarquia da Secretaria de Cultura da Bahia. O evento integra a programação especial do Pelourinho, em homenagem ao mês da Música e da Consciência Negra – por causa da morte do líder e símbolo da resistência negra Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695. "De nosso modo, reverenciamos Zumbi dos Palmares com menos festa, mas com uma ação efetiva. O objetivo central é discutir autores da chamada literatura negra brasileira, transitando pela poesia, prosa, drama e música", explica Nelson Maca, do coletivo Blackitude, que coordena o Pelourinho na Rota da Rima. Programação - Durante os cinco dias, a reflexão e a diversão se equilibram em aulas ilustradas, recitais, grafitagem e performance de teatro e dança. A programação, de quarta a sábado, começa sempre às 13h, com os grafiteiros Limpo, Lee 27, Roque ou Dimak executando ao vivo um trabalho relacionado aos temas do dia. Na abertura, o destaque fica por conta da trajetória do cantor e compositor Genival Oliveira do Gonçalves, mais conhecido como GOG, que será tema da palestra O poeta do rap, ministrada por Nelson Maca (UCSal), das 14h às 17h. A partir das 19h, o próprio GOG, que tem uma trajetória solidificada em duas décadas de rap e oito discos gravados, mostra ao vivo as canções de Aviso às Gerações, seu último cd. Antes de GOG, acontece o recital de poesia negra com os Poetas da Blackitude. O rapper brasiliense dividirá a noite com o grupo de rap local RBF – Rapaziada da Baixa Fria e interagirá com os dançarinos de break do grupo Independente de Rua, o grafiteiro Neuro e o DJ Joe. Nos dias seguintes, acontecem as palestras Abdias do Nascimento – Negro Drama, com o ator e diretor teatral Ângelo Flávio, que contará com a leitura dramática de um texto de Abdias pelo Coletivo de Atores Negros Abdias do Nascimento – CAN; Lima Barreto: Sentimento íntimo e luta coletiva, com a professora Sueli Santana (UNEB), e Luís Gama: Gênese da literatura negra brasileira , com o professor Sílvio Roberto (UNEB). As três palestras têm como público alvo professores, estudantes e a juventude e estão linkadas à Lei 10.639, que propõe a obrigatoriedade dos conteúdos africanos-brasileiros no sistema educacional brasileiro. No encerramento, o Pelourinho na Rota da Rima tem o prazer de promover o primeiro show em Salvador do grupo paulista Z´África Brasil, que tem se destacado no cenário nacional, e até internacional, com um rap que trabalha com sonoridades afro-percussivas e com letras que tratam aspectos do cotidiano do povo negro brasileiro. O show começará às 18h, e a participação local fica por conta do grupo Opanijé, do grafiteiro Peace e, novamente, dos dançarinos do Independente de Rua e do DJ Joe. Toda a programação tem entrada franca, porém a participação no seminário depende de inscrição prévia, que pode ser feita na sede do Programa Pelourinho Cultural, no largo do Pelourinho, casa 12". MAIORES INFORMAÇÕES: Pelourinho Cultural (Daniela Lustosa): (71) 3117-1509

22 de nov de 2007

I Encontro de Cinema Negro Brasil Africa, no Centro Afro Carioca de Cinema - Rio de Janeiro

"O encontro pretende divulgar a importancia da influencia da cultura Africana na formação da identidade do povo brasileiro, rompendo uma lacuna existente até hoje, sobre a historia e a sabedoria dos povos africanos atraves da sua cinematografia tradicional e moderna, mundialmente conhecida e praticamente inexistente aqui entre nós. O Encontro terá também a função de aproximar os cineastas Afro descendentes brasileiros com o cineastas africanos através de suas obras num foro de reflexões, debates e discussões na tentativa de abrir novos caminhos para a produção artistica entre os dois povos onde suas historias sejam mostradas e divulgadas por aqueles que as realizam hoje sujeitos de suas proprias trajetórias. O Encontro tem a intenção de formar uma plateia que possa se identificar e se espelhar com ela mesma atraves da realidade do seu povo de origem. Esta sendo realizado para fortalecer a nossa auto estima como afrobrasileiro que desconhecemos quem somos, por falta de comunicação com nosso continente de origem". Veja a programação completa: www.afrocariocadecinema.com.br Locais e horários: Cine Odeon BR dias 23 à 25 de novembro das 12h às 20h Cinelândia Centro Cultural Justiça Federal Dias 23 à 25 de novembro das 12h às 17h Cinelândia Caixa Cultural 26 de novembro das 12h às 18h Largo da Carioca Tenda na lapa 26 e 27 de novembro das 19h às 23h Arcos da Lapa Seminários: Cine Odeon BR 26 de novembro das 09h às 13h Centro Afro Carioca de Cinema 27 e 28 de novembro das 09h às 18h

20 de nov de 2007

"Nós Negras", em Brasília

"O Show Nós negras: uma homenagem às mulheres negras do samba, que está encantando Brasília desde outubro de 2007 vem agora unir força e beleza às comemorações pelo Dia da Consciência Negra - dia 20 de novembro - na Praça Zumbi dos Palmares, CONIC às 19h, entrada franca. O espetáculo que reúne um elenco de pérolas negras brasilienses formado pelas cantoras Teresa Lopes, Renata Jambeiro, Cris Pereira, Dhy Ribeiro, Kris Maciel e Kiki Oliveira vem mais uma vez prestar uma justa homenagem às mulheres negras que marcaram a história do samba com talento, graça e muita ancestralidade como Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra, Clara Nunes, Alcione, Mart´nália, entre outras. Acompanham as pérolas negras um nipe valioso de músicos formado por Dudu 07 cordas (violão), Nelsinho Serra (cavaquinho), Márcio Bezerra (clarineta), Nelson Félix (pandeiro) Alexandre Cidade (surdo), Marcelo Bicudo (percussão geral) e Luis Jambeiro (percussão geral)." Serviço: Show "Nós Negras" Data: Dia 20 de novembro (terça-feira) Local:Praça Zumbi dos Palmares - Conic Horário: a partir das 19h Entrada Franca