Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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25 de mai de 2017

Impressões sobre o Brasil golpista pós-delação dos irmãos Batista

Por Cidinha da Silva

No mundo impossível em que vivemos desde 17 de abril de 2016 é duro admitir que a declaração / delação / projeto para lavar as mãos de crimes, executados pelos irmãos Batista, trouxeram algum alento para nossa energia em descenso.

Eles atuaram como uma bolsa de sangue (contraditoriamente) bom e saudável injetada na veia de doentes muito frágeis e já incapazes de produzir sozinhos, a quantidade necessária de leucócitos, hemácias e plaquetas para ter vigor. Ânimo. Tônus.

Quem já se achava morto, reanimou-se com as provas de recebimento de propina por Temer e Aécio, o conseqüente afastamento deste do Senado, a prisão da irmã-mentora e a possibilidade real de que o ilegítimo caia por prática de crime de responsabilidade.

Antes disso, a greve de 28 de abril fora um sucesso. O Brasil parou mesmo, inclusive o Brasil profundo manifesto em inúmeras cidades do interior. Mas, isso ainda era pouco quase tudo estava a mercê da manipulação da grande mídia e sua construção de narrativas de sustentação ao golpe midiático-parlamentar que opera em várias frentes e de maneira articulada.

O rádio, por exemplo. A narrativa dos programas de debates da conjuntura política prima pela confusão deliberada. Ora são comentadores que você ouve por cinco, dez minutos e, ao cabo, não consegue saber o que exatamente postulam. Não existem argumentos. É um amontoado de achismos com a intenção de agradar a gregos e baianos.

Outros fixam-se em detalhes de segundo ou terceiro plano, ou mesmo em coisas aleatórias, com o objetivo nítido de desviar a atenção do ouvinte das questões centrais, a exemplo da suposta depredação de prédios públicos em Brasília na manifestação de 24 de maio, em detrimento do foco na necessidade de sangue no Hemocentro daquela cidade para atender aos feridos pela polícia, Força Nacional e Exército, este último convocado por Temer em violação constitucional flagrante. Ou mesmo do assassinato de dez trabalhadores rurais no Pará, como se a violência praticada estado em Brasília não fosse a mesma que matou uma mulher e nove homens de um sindicato de trabalhadores rurais numa nova edição de Eldorado dos Karajás.

Em comum, os cronistas do rádio ameaçam a população pobre e sem acesso a fontes de informação diferentes do rádio e da TV, ouvinte daqueles programas, com o mesmo discurso de “baderna e ataque ao patrimônio público” utilizado por Temer para acirrar a repressão, acrescido de um pavor ao que chamam de “nova Venezuela.”

Nessa toada aproveitam para realimentar o consenso dos golpistas de que “era necessário tirar a Dilma” de qualquer maneira que não fosse pelo voto e ameaçam: “é Venezuela, sim! A Dilma ta querendo voltar, não ta vendo aí? Quer anular o impeachment.”

Ora, reivindicar a anulação do impeachment faz parte da briga jurídica, é um caminho legal diante da comprovação de que não houve crime de responsabilidade, da confissão dos bandidos golpistas e das provas do golpe arquitetado e posto em prática. Não se trata de algo só para “encher o saco” como fez Aécio ao pedir a impugnação da chapa Dilma-Temer, depois de derrotado nas eleições de 2014. Mas, não chegam a discutir sequer a viabilidade política dela voltar ou a acordo político da convocação imediata de eleições gerais, haja vista que seria impossível para ela governar com esse Congresso que aí está.


Não, nada disso. “Tirar a Dilma e manter a Dilma fora” continua sendo ponto pacífico para eles e, para garanti-lo, talvez até resgatem as aposentadas panelas e manifestações de rua orquestradas pelos empresários. O país e seu povo são pano de fundo, são o que menos importa nessa história toda.

Agradecimento a quem esteve em Brasília no massacre de 24 de maio de 2017

Por Cidinha da Silva


Eu não estive em Brasília no dia 24 de maio de 2017. Não aspirei gás lacrimogênio, não sangrei, ferida pela polícia, não corri de cavalos, bombas, porretes, tiros de armas de fogo. Só meu coração esteve junto com vocês, mas é pouco, diante do que cada uma e cada um de vocês enfrentou naquele massacre.
Então, do lugar mais profundo, honesto e amoroso do meu dentro, agradeço a cada uma e a cada um de vocês por terem colocado a vida em risco para gritar que não admitimos não ser tratados como gente.
Vocês foram demais. Vocês são demais. Muito obrigada por lutarem por nós. Toda a minha admiração, respeito e gratitude. E Diretas Já!

15 de mai de 2017

CHAMADAS PARA ARTIGOS – nos 54 e 55 Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

CHAMADAS PARA ARTIGOS – nos 54 e 55
Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea
English version attached
Versión en español adjunta

A revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea está recebendo artigos e resenhas para os números 54 e 55. Publicada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, a revista tem o compromisso de fomentar o debate crítico sobre a literatura contemporânea produzida no Brasil, em suas diferentes manifestações, a partir dos mais diversos enfoques teóricos e metodológicos, com abertura para o diálogo com outras literaturas, em especial da América Latina.

Revista 54 (maio/ago. 2018)
Seção temática: Literatura e outras alteridades
Propõe-se uma reflexão acerca das produções literárias brasileiras contemporâneas que abordam as diferenças e a pluralidade de sujeitos e vozes que compõem socialmente um determinado aspecto da diversidade humana. Serão aceitos artigos que abordem obras e autores que incluam no raio de visibilidade aquele indivíduo marcado por uma singularidade que o situa fora do padrão cristalizado como o “normal” no que diz respeito ao corpo, aos sentidos, à inteligência ou à expressão do comportamento; ou seja, pessoas com algum tipo de deficiência (cegueira, surdez, deformidades, mutilação, nanismo, síndrome de Down, autismo, entre outros). Serão aceitos artigos de diferentes orientações teóricas e metodológicas que, separada ou associadamente: a) discutam o conceito de deficiência, em sua abordagem sócio-histórica ou filosófica e sua relação com a literatura; b) analisem a representação e autorrepresentação dessas alteridades em obras da literatura brasileira contemporânea; c) discutam obras específicas produzidas por escritores originários desses grupos minoritários; c) reflitam sobre a relação da pessoa com deficiência com os processos de produção, circulação e recepção das obras da literatura brasileira contemporânea; d) abordem atuações culturais relacionadas à temática nas mídias sociais e internet; e) debatam o papel das indústrias culturais e/ou das políticas públicas na visibilidade desses textos e práticas.
Dossiê proposto por Alessandra Santana Soares e Barros (Geine-UFBA) e Gislene Maria Barral Lima Felipe da Silva (Gelbc-UnB).
O prazo final para o envio de artigos para a seção temática do nº 54 é 30 de maio de 2017.

Revista 55 (set./dez. 2018)
Seção temática: Autoria na cultura do presente
O dossiê propõe uma reflexão sobre os modos de autoria na cultura do presente. O design de si (Groys) tornou-se central em muitas das obras artísticas e literárias do século XXI, oferecendo à crítica a oportunidade de esquadrinhar aspectos que até pouco tempo pertenciam à esfera privada e hoje são mediadas pela intervenção direta do autor. É possível arriscar também que o modo como o autor está presente na própria obra tem transformado as formas artísticas e literárias, recorrendo-se frequentemente a registros e gêneros que excedem o campo da especificidade artística. Essas práticas também podem ser lidas como modos de intervenção do autor no mercado cultural contemporâneo (Topuzian). Explorando, pois, a articulação entre o aceno que as obras contemporâneas fazem na direção de formas não literárias ou artísticas e a frequência com os autores têm se transformado em personagens de si mesmos, é possível indagar um curto-circuito entre vida e obra, entre crítica e ficção, entre arte e mercado. Considerando esse panorama, o presente dossiê se propõe a reunir ensaios de pesquisadores e professores que contemplem os seguintes temas: a) a autoria como design de si; b) a inespecificidade (Garramuño) das produções artísticas contemporâneas; c) a obra como laboratório (Laddaga); d) as intervenções autorais no mercado cultural.
Dossiê proposto por Paloma Vidal (Unifesp), Cristian Molina (UNR) e Luciene Azevedo (Ufba).
O prazo final para o envio de artigos para a seção temática do nº 55 é 30 de setembro de 2017.

A revista conta também com uma seção de tema livre, onde são publicados artigos de diversas abordagens sobre a literatura brasileira contemporânea. Há ainda espaço para resenhas de obras de ficção, poesia, crítica literária e teoria literária publicadas nos últimos 24 meses.

As colaborações para a seção de tema livre são recebidas em fluxo contínuo.

As normas para publicação estão disponíveis em: https://goo.gl/lpWufc   

As colaborações serão recebidas pelo sistema da revista. Para enviar seu texto, acesse a área de Submissões: https://goo.gl/kPHVuh

Para outras informações, entre em contato conosco por e-mail: revistaestudos@gmail.com

Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea
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13 de mai de 2017

Uma crítica, um passo adiante


Por Cidinha da Silva

Hoje, antes do belíssimo Estratosférica, de Gal Costa, fizemos uma roda de conversa e leitura dos livros Canções de amor e dengo e [In] contadas com quem se animou a enfrentar uma daquelas chuvas que paralisam Salvador.

Logo na chegada encontrei João José Reis, frequentador assíduo da Boto cor de rosa livros, arte e café. Muito simpático, foi o primeiro a me cumprimentar. A seguir me contou que lera meu #Paremdenosmatar!, que havia sugerido/requisitado uma resenha sobre ele para a revista Afro-Ásia, por ter gostado muito do livro. Elogiou minha escrita e alguns textos em especial. Conversamos sobre Luiza Bairros e um pouco da história de sua convivência com ela e, por fim, com muito cuidado, me olhando nos olhos e escolhendo as palavras, fez uma crítica delicada ao # Parem, à qual chamou de comentário.

De pronto, não rebati a crítica, mas tentei explicar como procurei resolver o problema em alguns textos, basicamente ligado à publicação no calor dos acontecimentos, o que não raro dificulta leitura de quem não está acompanhando o caso. Ele me falou sobre a necessidade de resolver a questão para que os textos tenham mais longevidade.

Gostei muito das ponderações, fiquei agradecida, mas, como não sei se agradeci de maneira apropriada a meu leitor ilustre, aproveito para fazê-lo publicamente.

A mim, toda crítica fundamentada é bem-vinda e me ajuda muito a rever o que for necessário rever (e refazer) e, por outro lado, testa e confirma as escolhas, nas quais a convicção me ampara.

Desse modo, com a colaboração da crítica, a segunda edição da obra poderá ser ainda melhor. E outros textos de mesma natureza, também.Obrigada, João.

NOTA SOBRE A ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO E O RACISMO

Crônica publicada no livro Sobre-viventes! (2016)
Cidinha Da Silva
NOTA SOBRE A ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO E O RACISMO, BLOGAGEM COLETIVA 13 DE MAIO
Por Cidinha da Silva para o Blogueiras Negras
A abolição da escravidão é um tempo de longa duração. O evento terminou, mas o tempo dele perdura.
O racismo, como sistema ideológico, não é desdobramento da escravidão. Trata-se de uma formulação construída no século XIX para justificá-la, para ratificar a inferioridade atribuída às pessoas escravizadas.
Discutir o racismo, explicitá-lo, combatê-lo, é mais profícuo e profundo do que insistir nos efeitos da escravidão que fossilizam o lugar da lentidão inexorável das mudanças socioeconômicas necessárias para o crescimento da população negra, atribuído ao ônus da escravidão. Vil armadilha!
É o debate sobre o racismo que nos permite decodificar a estratégia de pessoas brancas e até mestiças confusas e embranquecidas que ressignificam o lugar da casa-grande a cada pequena ação. Dia desses publiquei crônica que narrava uma cena de discriminação racial protagonizada por um homem negro que discriminava uma mulher negra durante cena de novela e tive exemplo desse raciocínio.
O texto ativou o seguinte comentário: “Ah! Por favor! Adoro a página (Nomes Afro e Africanos e Seus Significados) e estou sempre na luta contra o racismo, intolerância religiosa, na luta dos gays, violência doméstica e tudo mais… mas, sinceramente, já virou paranoia, até a novela? Pelo amor de deus!!!!!! Nada mais se pode falar que é discriminação, bulling, etc… até negro falando com negro vocês agora acham que é racismo? Vocês estão precisando procurar um tratamento, porque o racismo está em vocês, me desculpe.”
É uma assertiva pobre, previsível, fácil de analisar à luz do modus operandi do racismo no Brasil, vejamos:
1 – O texto citado pela leitora é autoral, assinado, mas ao invés de criticar a autora, sabidamente negra, ela se dirige ao coletivo negro, aconselhando-o a procurar tratamento psicoterapêutico ou psiquiátrico, pois o racismo estaria internalizado nos membros do coletivo, adoecendo-os. O racismo funciona exatamente assim, toma parte pelo todo. Os racistas destacam parte do grupo, fazem generalizações absurdas e tentam atingir a todos, porque não importa o indivíduo, importa que ele integre o coletivo discriminado.
2 – Como o objetivo de se auto-preservar e proteger, a pseudo defensora dos negros, em primeira mão, nomeia as causas em que está envolvida: adora coisas de negros (a fan page citada), luta contra o racismo, violência doméstica, intolerância religiosa, a favor dos gays e deve saber o que é melhor para esses sujeitos, pois quando os discriminados ousam levantar a voz contra a opressão, cometem exagero.
3 – O mundo do entretenimento, da novela ideologicamente construída seriam locus inofensivos, segundo o raciocínio rastejante da leitora. Logo, enxergar o racismo ali seria despropositado, paranóico.
4 – Por fim, a contradição: o racismo seria um problema internalizado pelos negros, segundo sua compreensão, mas estes não cometeriam atitudes discriminatórias em relação a outros negros. Deste modo, a percepção da autora quanto à discriminação racial de uma personagem negra contra outra seria absurda, ainda mais, em uma novela.
5 – Como coroamento de tudo, um pedido de desculpas que infantiliza os leitores e leitoras do comentário, como se a autora dissesse: “Sinto muito, mas eu precisava alertá-los, vocês são idiotas.”
Viram? Não é difícil. É cansativo, mas não é difícil. Se nos detivermos no legado da escravidão faremos o jogo da leitora, estacaremos no lugar de vítimas, na moradia da subalternidade. Ficaremos de braços abertos para sermos resgatados por redentoras, como ela.
Contudo, se assumimos o lugar de alvos do racismo, olharemos dentro dos olhos dos racistas, decodificamos suas práticas e ardis e poderemos destruí-los.
Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Luiza Mahin organizada pelas Blogueiras Negras nos 125 anos de Abolição.

7 de mai de 2017

Dia 13 de maio, roda de leituras e conversa na Boto cor de rosa


Autonomia de articulistas em portais de notícias x isenção dos portais


Por Cidinha da Silva
As recentes reações negativas ao texto “Foi avanço, não retrocesso” de Flávia Oliveira, publicado no portal Geledés, me levaram a pensar na tensão entre a autonomia de articulistas em portais de notícias x isenção dos portais na veiculação dos artigos. Mais ainda quando se trata de um portal calcado no ativismo político, como o Geledés.
Flávia Oliveira, jornalista de economia é, originalmente, articulista de O Globo e costuma ter seus artigos reproduzidos no portal Geledés. Desta feita, deu prosseguimento ao debate sobre os direitos das mulheres na reforma previdenciária e deixou muita gente descontente, pois, leitoras e leitores indignados do portal não consideram a possibilidade de discutir reformas com o (des) governo Temer. Só aceitam debater ampliação de direitos, sem qualquer retrocesso.
Flávia Oliveira havia publicado no mesmo portal, texto anterior sobre o tema em que defendia a necessidade de tratamento diferenciado entre homens e mulheres, entre áreas rural e urbana para efeitos de aposentadoria. De certa forma ela continuou o assunto no artigo em questão argumentando que as alterações ocorridas no projeto de lei avançam em relação ao texto original da reforma e atribuiu isso à pressão social. Na resposta positiva a esta pressão residiria o avanço, segundo seu argumento.
Ocorre que no calor do debate político a posição técnica com pretensões de isenção cheira à perspectiva dos isentões, esse tipo acovardado e oportunista que trombamos pela rua a todo instante. Os isentões têm lado, obviamente, aproximam-se por exemplo do discurso de Miriam Leitão, colega de Flávia Oliveira que produz a pérola isentona: “A reforma trabalhista não resolve os inúmeros problemas do mercado de trabalho, mas dá passos importantes”.
Quais? Talvez, a aprovação do seguinte ponto: "Gestantes e quem está amamentando poderão (sic) trabalhar em ambientes insalubres se isso for autorizado por um atestado médico. No caso das grávidas, isso só não será possível se a insalubridade for de grau máximo".
De volta ao texto de Flávia Oliveira, a questão é que interpretaram a posição da articulista como posição do portal Geledés e todas as críticas se dirigiram a ele, o portal. Não me disponho aqui a discutir a fundo a perspectiva de Flávia Oliveira, analista econômica que me ajuda muito a entender os processos da economia brasileira, interessa-me a leitura que fizeram de uma articulista confundindo-a com a voz de um portal. Pergunto-me se em outros portais de notícias, cuja verve ativista não seja tão forte (e tão negra) quanto o Geledés, esse tipo de troca da parte pelo todo se daria de maneira tão incisiva.
O portal me parece primar pelo propósito de reverberar para o público negro e, de um modo geral, para a opinião pública, a presença e a diversidade de vozes e pensamento das mulheres negras na cena política, cultural, artística, econômica, sobre as coisas do mundo, enfim. Flávia Oliveira, eu e tantas outras estamos nesse barco, seguimos essa toada.
Parece-me que ocorreram três questões: a primeira é que o título do artigo não foi feliz (Foi avanço, não retrocesso). Ficou parecendo clichê de assembléia de partido ou sindicato e caiu como nitroglicerina em estômagos já fragilizados por tanta coisa indigesta imposta por Temer e seus asseclas. De cara, as pessoas que não acham possível dialogar com esse desgoverno (este é o segundo ponto) criaram uma indisposição ao que viria depois e ficou muito fácil ler o texto de maneira atabalhoada e juntar o descontentamento com a escrita e seus argumentos pouco convincentes do ponto de vista político, ao fato de Flávia ser articulista de O Globo e de Geledés, por via de conseqüência, veicular a “opinião vendida” desse veículo de sustentação do golpe 2016. Não foi feita também pela autora, uma referência direta ao texto anterior que situaria melhor o leitor de oposição e poderia resguardá-la das críticas mais fervorosas e pouco argumentativas.
A terceira questão é técnica. O portal precisa encontrar uma forma para que, quando as matérias forem divulgadas e “printadas” o nome da/do articulista apareça colado ao texto. Assim não haverá risco de que alguém leia um texto qualquer como opinião da instituição, porque, aparentemente assinado por ela. Isso, obviamente, não exime o portal das interpretações que queiram colar opiniões discordantes do interprete à instituição Geledés, no afã de desqualificá-la. Esses são outros quinhentos sobre os quais portal algum poderá ter ingerência.

4 de mai de 2017

Cidinha da Silva na FestiPoa, em Porto Alegre - 10 de maio de 2017

FestiPoa Literária: uma década de literatura livre marcada por debates, leituras e homenagens

Evento volta a ocupar nesta quinta diferentes espaços culturais da cidade

Por: Alexandre Lucchese
04/05/2017 - 07h01min | Atualizada em 04/05/2017 - 07h01min
FestiPoa Literária: uma década de literatura livre marcada por debates, leituras e homenagens FestiPoa Literária/Divulgação
Grande homenageada desta FestiPoa, Heloísa Buarque de Hollanda partipa da abertura nesta quinta, no Instituto GoetheFoto: FestiPoa Literária / Divulgação 
Ao longo de 10 anos, a FestiPoa Literária se consolidou como o principal evento literário independente da Capital. Criada e mantida por um grupo de amigos, sem vinculação a grandes instituições e com poucos apoiadores, a Festa Literária de Porto Alegre volta a ocupar nesta quinta-feira diferentes espaços culturais da cidade para debates, leituras e lançamentos. A nova edição concilia as facetas pelas quais o evento ficou conhecido: revelação de novos autores, discussões sobre temas à margem dos grandes festivais e tributo a quem fomenta a produção e o debate literário local e nacional.
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A grande homenageada desta edição é a professora e escritora Heloisa Buarque de Hollanda.
— É bem intencional escolher como homenageada alguém que pesquisa a literatura feminina, com uma história de militância no campo intelectual e acadêmico. Além disso, Heloisa é uma poeta e professora que se tornou referência em relação à literatura marginal e de periferia, não canônica — afirma Fernando Ramos, idealizador da FestiPoa Literária.
Heloisa participa da abertura do evento nesta quinta, às 19h, no Instituto Goethe (24 de Outubro, 112), em um bate-papo com Ramon Nunes Mello e Guto Leite. Entre outros debates que devem atrair o público, está um encontro sobre autoria feminina, no domingo, às 15h30min, na galeria La Photo, tendo como convidadas as autoras Natalia Borges Polesso, Moema Vilela e Carol Bensimon. 
A literatura negra também estará bem representada, com pelo menos dois nomes significativos da nova geração: o quadrinista paulistano Marcelo D'Salete participa de um bate-papo neste sábado, às 15h30min, no Instituto Goethe; e a escritora mineira Cidinha da Silva, radicada na Bahia, estará em um debate no dia 9 de maio, às 18h30min, na Sala Fahrion do Campus Central da UFRGS.
Para quem quer conhecer autores que estão renovando a poesia brasileira, a grande oportunidade será a roda de leitura Estados em Poesia. O projeto colaborativo, que já ocorreu em outros Estados, terá uma edição gaúcha nesta sexta-feira, às 19h, na Casa de Teatro (Garibaldi, 853), com homenagem ao escritor Marcelino Freire. Após as leituras, haverá também o lançamento da antologia poética E Agora Como Nunca, organizada por Adriana Calcanhotto, com a presença do fluminense Ramon Nunes Mello e da gaúcha Angélica Freitas, selecionados para o projeto.
Uma ausência também será lembrada na festa. O escritor João Gilberto Noll, morto no final de março, era um dos convidados da programação.
— Pretendia reunir Noll com dois escritores para um bate-papo sobre a carreira dele. Era uma referência sempre presente, que vinha dialogando muito e estimulando os escritores mais jovens – conta Ramos.
Entre as homenagens a Noll, haverá uma palestra sobre o romancista com o professor e poeta mineiro Gustavo Cerqueira Guimarães, no dia 12 de maio, às 19h, na Aldeia (Santana, 252). A FestiPoa Literária segue até 13 de maio — para conferir a programação completa, acesse fb.co/festipoa.

27 de abr de 2017

Mais um menino preto

Por Cidinha da Silva


Escritora Cidinha da Silva comenta morte do adolescente baiano Guilherme dos Santos Pereira da Silva, de 17 anos, baleado por seguranças enquanto comia frutas no quintal de um restaurante
Por Cidinha da Silva*
Ei Shuravel, sabe a jaca que você não gosta? Que cai no chão, suja tudo e deixa para o seu olfato um cheiro insuportável? Pois é, mataram mais um menino preto aqui na Bahia por causa dela. Porque comia jaca no quintal de um restaurante sem pedir licença, você acredita?
Quatro meninos estavam sentados, comiam jacas caídas no chão de uma terra grilada, que se tornou propriedade privada defendida por homens armados. Frutas a serem devoradas por bichos ou varridas, jogadas no lixo depois de espatifadas na queda.
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Sentados eles comiam, ouviram tiros e correram. Um deles se perdeu do grupo, sumiu. Tinha 17 anos, sonhos e vontade de comer jaca, planta nativa de pouco valor comercial.
Os amigos voltaram para procurá-lo. A família foi avisada e também fez buscas. Passaram duas vezes pelo local onde depois de dois dias de sumiço, o corpo desfigurado, misteriosamente, apareceu. Como se tivesse estado ali, sempre. Os familiares reconheceram o boné e o relógio. O corpo, um irmão só conseguiu identificar por uma cicatriz na perna, 25 pontos levados após um tombo de cavalo.
Não é inacreditável, Shuravel? Assistimos impotentes a mais um capítulo do genocídio da juventude negra. Dessa vez, uma vida eliminada por conta de uns bagos de jaca.
Foto: Agência Brasil

25 de abr de 2017

No BUSUFBA, ônibus da universidade, éramos 18 pessoas, 14 negras. Eu contava e sorria. Um menino no fundo do micro-ônibus percebeu minha contagem e sorriu para mim e flagrou uma lágrima caída de um tempo em que seríamos só dois negros em meio àquela gente  da universidade no transporte dentro do campus, eu e o motorista.  Como diz meu amigo Ni Brisant, hoje foi um dia que valeu a pena ser vivido.

24 de abr de 2017

CANÇÕES DE AMOR E DENGO: UMA LEITURA

Por Luciana Moreno

A ideia inicial era tecer uma análise sobre o livro de poemas da Cidinha, mas tragada por sua leitura considero que vale mais narrar a minha experiência literária ao me deleitar com as Canções de Amor e Dengo. Como ao longo do processo de ler o livro, as canções do meu repertório afetivo me tomaram, começo lembrando um verso de Caetano: “Os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil que votamos aos maços de cigarro”, porque é assim que ingresso em minha incursão nessa experiência de leitura. Antes de trazer a chave para entrar nos poemas, me encantou o formato do livro. Aparentemente é um livro de bolso. Essa característica, entretanto não evoca uma decisão mercadológica, capitalista. É também uma via para baratear custos e popularizar o texto (o que considero maravilhoso). Mas é sobretudo um meio de consolidar a ação revolucionária da Mi parió e da própria Cidinha de “editar ‘livros semiartesanais, bonitos de encher os olhos e a alma, mas sem esvaziar os bolsos”. Livros desse tamanho são delicadezas tratadas como relíquias, preciosidades que exigem cuidado. É preciso entrar neles com os “pés de flor” que encontraremos nos versos lá dentro do livro.
Ainda sobre o prazer de tocar no livro, cheirar suas páginas, alisar suas dobras, nós, leitores, somos presenteados com um fino e belo pedaço de tecido que se roça em nossas mão durante a leitura. O verde, o marrom, o branco, um leve rosa que não aparecerão nas páginas ficam grudados no corpo. E o dourado riscado no pano arremata a beleza da qual ando carente. Confesso! Durante as muitas leituras que fiz do livro, numa delas, o tecido caiu. Fiquei órfã. Senti-me obrigada a colar novamente o tecido. Eu acho que é porque depois que a beleza, a delicadeza, o singelo se grudam na gente é mesmo insólito continuar sem isso. Refiro-me à leitura. Mentira refiro-me também à leitura, mas sobretudo à vida, ao amor.
Então, abri o livro. Pássaros e flores me assaltaram. Era o amor mesmo que me elevava. Pronto, eu era a leitora, a amante, viveria ali entre as páginas. Mas Cidinha me trai logo na entrada e nas primeiras páginas joga água na leitora que eu quero ser. Que é justamente aquela leitora desprendida da professora, da pesquisadora em teoria da literatura e me amarra de volta a uma das minhas personas. Diz a mim em seu “Manifesto”, aos críticos, aos pesquisadores, munidos da máquina de dissecar textos literários, de encaixotar escritoras que façam o que quiserem, mas não a obriguem a qualquer coisa. Ela sabe que nós a pesquisaremos, ela sabe que nós escreveremos sobre ela, todavia ela seguirá seu caminho com as roupas e as caixas que lhes convier. Se lhes convier. Até porque, a ancestralidade, desde sempre já a aponta para o fogo, o trovão, a justiça.
Vou encontrando o olhar lírico da cronista. Ali estão o amor e o dengo, mas sem perder de vista a crítica social, o cotidiano como fonte primária, a vida presente, os homens e mulheres do presente, o tempo presente, como declara o poeta gauche, seu conterrâneo. Na linguagem tem “é coisa, viu?” Em bom baianês, a escritora da multiterritorialidade, cidadã do mundo, que nasceu em Minas, morou em São Paulo, em Brasília, que viajou por diversos lugares e agora vive na Bahia coloca as marcas do nosso falar nos textos. Nos jogos com a palavra derruba a ideia de que senzala pode ser sinônimo de quilombo, brinca com a sonoridade do vocábulo para fazer o que de melhor sabe fazer: nos tirar da superfície, nos arrancar das obviedades da fala corriqueira que se cola na gente e nos acostuma a não pensar. Ora potencializa a ordem do discurso, ora subverte-a. Até porque aqui “ninguém se acha. A gente é”, como um dos seus versos nos aponta.
As páginas se seguem sendo encharcadas de águas que fluem, afogam, secam e refluem. Nesse sentido mesmo. Há enchentes nas primeiras páginas, seguidas de secura e dor funda no depois, mas que, para nossa sorte, retornam cheias, abundantes, alvissareiras.
As poetas são maravilhas nas vidas de seus leitores porque nos mostram que as loucuras são humanas. Me conforta ler o “Vermelhor”, porque eu também quando não encontro respostas no universo da racionalidade, confio no “ônibus vermelho” que vai passar, ou digo, se ele me ama o terceiro carro a passar nessa via será preto e estará com o vidro aberto. E eu sigo confiando que minha brincadeira é resposta certeira, nem de longe é maluquice.
Essas águas de dengo e amor e muita, mas muita dor também são ginga, corpo, movimento e aqui na porta do poema o verbo decantar pode tanto ser fazer loas, quanto se livrar de impurezas ou se separar de algo ou alguém. Decantar na “Química sentimental” é a faca amolada da solidão, são os dias de espera. Então, ainda que haja amor quem caminha por essas páginas poéticas vai ser convidada a também fechar a cara. E vai ouvir o refrão de Nelson Cavaquinho: “tire seu sorriso do caminho”, porque há horas em que só nos resta fazer a dor imperar.
Mas no logo depois virá com força a Canção da chegada, aquela dos dias de luz, em como canta Gal a composição de Gil: “quando a gente está contente tanto faz o quente, tanto faz o frio tanto faz”. Tudo abre comportas.
E se conselho fosse bom eu diria que a minha experiência com os dengos e o amor desses poemas me disse que ainda que não saibamos se o que mais cala é o que um dia desejamos e nunca tivemos ou o que desejamos e tivemos a sorte de ter no agora... O amor é um imperativo! Eu diria pela voz desses poemas que amor é entrega, com a quase certeza do abismo, da ferida, das ranhuras e ainda que haja o desamor, o amor em si mesmo é a chave para a renovação.
Assim, fecho as comportas do livro com as águas que encharcaram tudo. Com leveza, sim com força também. Indomáveis. Intransponíveis, porque a despeito de nossas vontades, as águas retornam exuberantes. E chega o tempo da “oguniação” cessar nos dizeres da poeta e se inaugura o tempo da “oxumniação”. Das águas. Da esperança. Que venham. Porque o que nós leitores mais desejamos é que ainda que haja fúria, desesperança e medo, em algum tempo digamos: “Enfim chegaste, minha rainha, plena estou para te receber”.

A experiência de ler os poemas inaugurais da Cidinha teceram outras manhãs. Teceram as minhas manhãs e ainda que por alguns minutos fizeram da professora, a dengosa amante. Agradeço.

20 de abr de 2017

A volta dos que não foram


Por Cidinha da Silva

Triste e constrangedor foi o breve discurso da desembargadora Luislinda Valois em cerimônia administrativa do desgoverno Temer, na qual alçou o usurpador ao posto de “padrinho das mulheres negras”. Se falasse apenas por si seria lamentável,  mas ela o fez em nome das mulheres negras mães e avós. Isso foi inaceitável e mereceu respostas contundentes.

Não conheço a desembargadora pessoalmente, nunca estivemos cara a cara. Conversamos uma vez, por e-mail, quando a procurei para apresentar a plataforma de minha candidata à Ouvidoria da Defensoria Pública do Estado da Bahia e para pedir seu apoio. A resposta foi solícita. Declarou que conhecia Vilma Reis e a apoiava desde o primeiro momento. Escrevi um pequeno depoimento a partir da conversa e submeti-o a ela para aprovação. Estava tudo certo, menos seu título honorífico, eu a chamei de juíza. Luislinda me corrigiu de maneira muito gentil e serena, era desembargadora. Desculpei-me, ela aceitou as desculpas e publicizamos sua adesão à campanha.  

Conto isso para dizer que não tenho qualquer senão à Senhora Luislinda por ser do PSDB. Quando a procurei para compor uma lista de suporte supra-partidário à candidata à Ouvidoria da DPE-BA foi por sabê-la mulher negra de luta, acima de qualquer sigla. Pela consciência de que pertencemos à mesma comunidade de destino e de que era importante seu aceno àquela mulher negra candidata.

Penso que do ponto de vista pessoal, a desembargadora (não a chamarei de ministra porque não reconheço o governo ilegítimo) pode afirmar qualquer coisa, pode ser grata por qualquer coisa, são questões íntimas. Portanto, sem qualquer objeção, pode afirmar-se identitariamente como “preta, pobre, da periferia, candomblecista, divorciada e sem padrinho (antigamente), mas agora apadrinhada por Temer”. A condição de afilhada do ilegítimo é uma opção legítima, mas questionável.

Assumir-se publicamente apadrinhada pelo usurpador da Presidência da República, orgulhando-se disso, é algo retrógrado, porém, aceitável, compreensível dado o perfil político da desembargadora e certa característica geracional, como bem discutiu o jornalista Marcos Romão em artigo recente. Assumo a responsabilidade sobre a grave afirmação, pois, muitas mulheres negras da geração da senhora Luislinda se fizeram na vida sem padrinhos e, se tivessem um, não gostariam que fosse Temer.

Talvez, por trás da louvada “coragem e galhardia” de Temer (PMDB) ao convidá-la para ocupar um ministério do governo golpista, levando-a aos prantos, exista uma crítica aos governantes anteriores que não a reconheceram, não a convidaram para postos à sua altura; gente de sua própria sigla partidária (PSDB) no estado natal (BA) e no governo federal. Foi Temer, seu padrinho, quem a convidou. E só mesmo uma mulher muito agradecida poderia detectar um “coração grandioso” naquele peito decorativo.

De toda sorte, não podemos culpá-la. Do ponto de vista pessoal a desembargadora pode afirmar qualquer coisa, em que pese entendermos o funcionamento do racismo que conduz muitas pessoas negras a aceitarem a subserviência como estratégia de ascensão social e de “reconhecimento” de trajetórias. Contudo, ela não pode entregar a Temer o título de padrinho das mulheres negras em nome delas. Em nosso nome. Contra isso se insurgiram organizações representativas das mulheres negras como a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras - AMNB e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas – CONAQ, entre outras. Também levantaram a voz mulheres negras pertencentes a coletivos e outras sem vínculo institucional. Todas enojadas com o servilismo da declaração.

Se migrarmos do campo da política para a arte, talvez fique mais fácil entender porque o apadrinhamento nos causa tanta repulsa. No episódio de reação e resistência ativa ao morfético seriado O sexo e as nega, de Miguel Falabella, da rede patrocinadora e mantenedora do golpe de 2016, três artistas negros me escreveram na intenção de me demover da decodificação do racismo explícito do programa de entretenimento.  Em linhas gerais, os colegas argumentavam que eu não sabia como a Globo funcionava por dentro e era necessário jogar o jogo com as cartas da emissora. Falabella era um aliado (um padrinho, se quiserem) incompreendido, e, se o deixássemos trabalhar, ele abriria portas nunca antes abertas para os artistas negros na TV.

Inexistia ingenuidade na posição dos colegas. Tratava-se de posicionamento político, discutido, ponderado, público como o da desembargadora e, como tal, criticável. Não esperem condescendência por tratar-se de uma mãe a avó septuagenária. Tratamos de política, agimos politicamente.

Para garantir seus interesses, defensores de Falabella criaram um grupo virtual no afã de discutir ações de reforço a ele e para desfazer o que acreditavam serem equívocos do Movimento Negro e de outras pessoas, intelectuais, artistas, etc, que atacavam o seriado (ou se defendiam dele, como penso). Pois, de maneira desavisada ou mal intencionada, já que eu pertencia ao outro campo e isso era público, alguém me inscreveu nesse grupo e só por isso soube de sua existência, pois era fechado. Considero possível a má fé do ato, pois havia pressões de todos os lados pela solidariedade pública ao padrinho – sabemos que dentro da emissora, atrizes e atores negros importantes eram diariamente emparedados a se posicionar em favor do autor do seriado. Pobre da raia miúda que poderia se beneficiar de papeis criados por ele. E talvez alguém que tivesse querido, mas não tenha podido resistir à pressão tenha se vingado ao tentar me infiltrar no grupo.

Pois bem, como a política tem lados e deve ter ética, imediatamente comuniquei ao grupo que, por engano, alguém havia me adicionado e, como era de conhecimento público, eu pertencia a outro campo de artistas, contrário à execução do seriado por considerá-lo racista, e por isso achava que deveriam me excluir do grupo, sob pena de minha permanência permitir que eu tivesse acesso a informações privilegiadas que não me diziam respeito. Devem ter concordado comigo, pois me excluíram. Por que fiz isso? Por que não quis espioná-los? Porque não pratico a espionagem como tática política. Porque eles eram meus iguais e embora estivéssemos em campos opostos, não éramos inimigos.

O mesmo acontece com a leitura crítica do discurso da desembargadora Luislinda. Somos iguais, estamos em campos opostos e ela será criticada com a dureza necessária. É certo que ela pode pavimentar o caminho discursivo mais confortável de agrado ao chefe. É um direito. Pode ser uma tática do jogo. Mas não pode dizer que as mulheres negras lhe concederam mandato para transformar Temer em padrinho. Vamos ao debate. Construiremos nossos argumentos daqui e ela que sustente os dela de lá.

Temer não é e nunca poderia ser padrinho das marisqueiras atingidas pelo corte do Defeso, conquista social que lhes garantia rendimento nos períodos em que é proibida a pesca e o recolhimento de crustáceos, com o objetivo de assegurar-lhes condições saudáveis de reprodução. Tampouco das mulheres negras das ocupações nos centros urbanos, antes atendidas pelo programa Minha Casa Minha Vida na modalidade Entidades que permitia que famílias organizadas de forma associativa (cooperativas e associações, por exemplo), produzissem suas unidades habitacionais. Ainda, não é e nuca será padrinho das quilombolas, cuja demarcação e titularização de terras foi travada; das usuárias das extintas farmácias populares que ofereciam descontos de 40% na aquisição de medicamentos; de todas as gerações de mulheres negras vitimadas pelo congelamento dos recursos destinados à saúde e educação por vinte anos.

Temer não é e nunca poderia ser padrinho das mulheres negras prejudicadas em sua primeira semana de desgoverno quando cortou milhares de bolsas de manutenção de estudantes cotistas por todo o país; das negras incluídas entre os 93 mil estudantes de graduação e pós-graduação que tiveram estudos interrompidos pelo corte abrupto do programa Ciência sem Fronteiras; das outras milhares atendidas pelo extinto Programa Nacional de Combate ao Analfabetismo; das que foram atingidas pela redução dos repasses do FIES e do Prouni; das que não poderão se inscrever no ENEN dada a majoração exorbitante do valor da taxa de inscrição numa economia devastada em que as pessoas passam a economizar centavos; daquelas que ainda não sabem como serão tratadas conquistas como a Lei 10.639/2003 na Base Nacional Comum do Ensino Médio. 


Eu me pergunto que “coração grandioso e cheio de carinho” é esse do usurpador? Mas, numa coisa concordo com a desembargadora, a caneta de Temer deve ter sim, prazer imenso em assinar todos esses desmandos.