Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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30 de ago de 2009

Marina Silva: também sou negra

(Deu na Veja de 29 de agosto de 2009, por Sandra Brasil e Lailson Santos ). "Também sou negra, mas seria muito pretensioso da minha parte me apresentar como similar ao Obama" "A senadora Marina Silva, do Acre, causou um abalo amazônico ao Partido dos Trabalhadores. Depois de trinta anos de militância aguerrida, abandonou a legenda e marchou para o Partido Verde, seduzida por um convite para ser a candidata da agremiação à Presidência da República em 2010. Para o PT, o prejuízo foi duplo: não só perdeu um de seus poucos integrantes imaculadamente éticos, como ganhou uma adversária eleitoral de peso. Os petistas temem, e com razão, que a candidatura de Marina tire muitos votos da sua candidata ao Planalto, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Na semana passada, Marina, de 51 anos, casada, quatro filhos, explicou a VEJA as razões que a levaram a deixar o PT – e opinou sobre temas como aborto, legalização da maconha e criacionismo. A senhora será candidata a presidente pelo Partido Verde? Ainda não é hora de assumir candidatura. Há uma grande possibilidade de que isso aconteça, mas só anunciarei minha decisão em 2010. Se sua candidatura sair, como parece provável, que perfil de eleitor a senhora pretende buscar?Os jovens. Eles estão começando a reencontrar as utopias. Estão vendo que é possível se mobilizar a favor do Brasil, da sustentabilidade e do planeta. Minha geração ajudou a redemocratizar o país porque tínhamos mantenedores de utopia. Gente como Chico Mendes, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, que sustentava nossos sonhos e servia de referência. Agora, aos 51 anos, quero fazer o que eles fizeram por mim. Quero ser mantenedora de utopias e mobilizar as pessoas. Sua saída abalou o PT. Além da possibilidade de disputar o Planalto, o que mais a moveu? O PT teve uma visão progressista nos seus primeiros anos de vida, mas não fez a transição para os temas do século XXI. Isso me incomodava. O desafio dos nossos dias é dar resposta às crises ambiental e econômica, integrando duas questões fundamentais: estimular a criação de empregos e fomentar o desenvolvimento sem destruir o planeta. O crescimento econômico não pode acarretar mais efeitos negativos que positivos. Infelizmente, o PT não percebe isso. Cansei de tentar convencer o partido de que a questão do desenvolvimento sustentável é estratégica – como a sociedade, aliás, já sabe. Hoje, as pessoas podem eleger muito mais do que o presidente, o senador e o deputado. Elas podem optar por comprar madeira certificada ou carne e cereais produzidos em áreas que respeitam as reservas legais. A sociedade passou a fazer escolhas no seu dia a dia também baseada em valores éticos. A crise moral que se abateu sobre o PT durante o governo Lula pesou na decisão?Os erros cometidos pelo PT foram graves, mas estão sendo corrigidos e investigados. Quando da criação do PT, eu idealizava uma agremiação perfeita. Hoje, sei que isso não existe. Minha decisão não foi motivada pelos tropeços morais do partido, mesmo porque eles foram cometidos por uma minoria. Saí do PT, repito, por falta de atenção ao tema da sustentabilidade. Ou seja, apesar de mudar de sigla, a senhora não rompeu com o petismo? De jeito nenhum. Tenho um sentimento que mistura gratidão e perda em relação ao PT. Sair do partido foi, para mim, um processo muito doloroso. Perdi quase 3 quilos. Foi difícil explicar até para meus filhos. No álbum de fotografias, cada um deles está sempre com uma estrelinha do partido. É como se eu tivesse dividido uma casa por muito tempo com um grupo de pessoas que me deram muitas alegrias e alguns constrangimentos. Mudei de casa, mas continuo na mesma rua, na mesma vizinhança. No período em que comandou o Ministério do Meio Ambiente, a senhora acumulou desavenças com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Como será enfrentá-la em sua eventual campanha à Presidência?Não vou me colocar numa posição de vítima em relação à ministra Dilma. Quando eu era ministra e tínhamos divergências, era o presidente Lula quem arbitrava a solução. Não é por ter divergências com Dilma que vou transformá-la em vilã. Acredito que o Brasil pode fazer obras de infraestrutura com base no critério de sustentabilidade. Temos visões diferentes, mas não vou fazer o discurso fácil da demonização de quem quer que seja. Um de seus maiores embates com a ministra Dilma foi causado pelas pressões da Casa Civil para licenciar as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira. A senhora é contra a construção de usinas?No Brasil, quando a gente levanta algum "porém", já dizem que somos contra. Nunca me opus a nenhuma hidrelétrica. O que aconteceu naquele caso foi que eu disse que, antes de construir uma usina enorme no meio do rio, era preciso resolver o problema do mercúrio, de sedimentos, dos bagres, das populações locais e da malária. E eu tinha razão. Como as pessoas traduziram a minha posição? Dizendo que eu era contra hidrelétricas. Isso é falso. Se a senhora for eleita presidente, proibirá o cultivo de transgênicos?Eis outra falácia: dizer que sou contra os transgênicos. Nunca fui. Sou a favor, isso sim, de um regime de coexistência, em que seria possível ter transgênicos e não transgênicos. Mas agora esse debate está prejudicado, porque a legislação aprovada é tão permissiva que não será mais possível o modelo de coexistência. Já há uma contaminação irreversível das lavouras de milho, algodão e soja. O que a senhora mudaria no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)? Eu não teria essa visão de só acelerar o crescimento. Buscaria o desenvolvimento com sustentabilidade, para que isso pudesse ser traduzido em qualidade de vida para as pessoas. Obviamente, é necessário que o país tenha infraestrutura adequada. Mas é preciso evitar os riscos e problemas que os empreendimentos podem trazer, sobretudo na questão ambiental. Na economia, faria mudanças? Não vou me colocar no lugar dos economistas. Prefiro ficar no lugar de política. Em linhas gerais, acho que o estado não deve se colocar como uma força que suplanta a capacidade criativa do mercado. Nem o estado deve ser onipresente, nem o mercado deve ser deificado. Também gosto da ideia do Banco Central com autonomia, como está, mas acho que estão certos os que defendem juros mais baixos. No seu novo partido, o PV, há uma corrente que defende a descriminalização da maconha. Como a senhora se posiciona a respeito desse assunto? Não sou favorável. Existem muitos argumentos em favor da descriminalização. Eles são defendidos por pessoas sérias e devem ser respeitados. Mas questões como essa não podem ser decididas pelo Executivo, e sim pelo Legislativo, que representa a sociedade. A minha posição não será um problema, porque o PV pretende aprovar na próxima convenção uma cláusula de consciência, para que haja divergências de opinião dentro do partido. Os Estados Unidos elegeram o primeiro presidente negro de sua história, Barack Obama. Ele é fonte de inspiração?Eu também sou negra, mas seria muito pretensioso da minha parte me colocar como similar ao Obama. Ele é uma inspiração para todas as pessoas que ousam sonhar. A questão racial teve um peso importante na eleição americana. Mas os Estados Unidos têm uma realidade diferente da do Brasil. Eu nunca fui vítima de preconceito racial aqui. A senhora poderia se apresentar como uma candidata negra na campanha presidencial? Não. É legítimo que as pessoas decidam votar em alguém por se identificar com alguma de suas características, como o fato de ser mulher, negra e de origem humilde. Mas seria oportunismo explorar isso numa campanha. O Brasil tem uma vasta diversidade étnica e deve conviver com as suas diferentes realidades. Caetano Veloso (cantor baiano) já disse que "Narciso acha feio o que não é espelho". Nós temos de aprender a nos relacionar com as diferenças, e não estimular a divisão. A história engraçada é que, durante as prévias do Partido Democrata americano, quando a Hillary Clinton disputava a vaga com Obama, um amigo meu brincou comigo dizendo que os Estados Unidos tinham de escolher entre uma mulher e um negro, e, se eu fosse candidata no Brasil, não teríamos esse problema, porque sou mulher e negra. A senhora é a favor da política de cotas raciais para o acesso às universidades?Há quem ache que as cotas levam à segregação, mas eu sou a favor de que se mantenha essa política por um período determinado. Acho que há, sim, um resgate a ser feito de negros e índios, uma espécie de discriminação positiva. Mas a senhora entrou numa universidade pública sem precisar de cotas, embora seja negra, de origem humilde e alfabetizada pelo Mobral.Sou uma exceção. Tenho sete irmãos que não chegaram lá. Aos 16 anos, a senhora deixou o seringal e foi para a cidade, a fim de se tornar freira. Como uma católica tão fervorosa trocou a Igreja pela Assembleia de Deus? Fui católica praticante por 37 anos, um aspecto fundamental para a construção do meu senso de ética. Meu ingresso na Assembleia de Deus foi fruto de uma experiência de fé, que não se deu pela força ou pela violência, mas pelo toque do Espírito. Para quem não tem fé, não há como compreender. Esse meu processo interior aconteceu em 1997, quando já fazia um ano e oito meses que eu não me levantava da cama, com diagnóstico de contaminação por metais pesados. Hoje, estou bem. A senhora é mesmo partidária do criacionismo, a visão religiosa segundo a qual Deus criou o mundo tal como ele é hoje, em oposição ao evolucionismo?Eu creio que Deus criou todas as coisas como elas são, mas isso não significa que descreia da ciência. Não é necessário contrapor a ciência à religião. Há médicos, pesquisadores e cientistas que, apesar de todo o conhecimento científico, creem em Deus. O criacionismo deveria ser ensinado nas escolas? Uma vez, fiz uma palestra em uma escola adventista e me perguntaram sobre essa questão. Respondi que, desde que ensinem também o evolucionismo, não vejo problema, porque os jovens têm a oportunidade de fazer suas escolhas. Ou seja, não me oponho. Mas jamais defendi a ideia de que o criacionismo seja matéria obrigatória nas escolas, nem pretendo defender isso. Sou professora e uma pessoa que tem fé. Como 90% dos brasileiros, acredito que Deus criou o mundo. Só isso. A senhora é contra todo tipo de aborto, mesmo os previstos em lei, como em casos de estupro? Não julgo quem o faz. Quando uma mulher recorre ao aborto, está em um momento de dor, sofrimento e desamparo. Mas eu, pessoalmente, não defendo o aborto, defendo a vida. É uma questão de fé. Tenho a clareza, porém, de que o estado deve cumprir as leis que existem. Acho apenas que qualquer mudança nessa legislação, por envolver questões éticas e morais, deveria ser objeto de um plebiscito. Seu histórico médico inclui doenças muito sérias, como cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose. A senhora acredita que tem condições físicas de enfrentar uma campanha presidencial? Ainda não sou candidata, mas, se for, encontrarei forças no mesmo lugar onde busquei nas quatro vezes em que cheguei a ser desenganada pelos médicos: na fé e na ciência."

27 de ago de 2009

Nova edição de A cor púrpura, em português

(Texto de divulgação). "A ficção que deu origem ao conhecido filme de Steven Spielberg - estrelado por Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey -, A cor púrpura, acaba de ganhar uma nova edição. Nessa semana a nova A cor púrpura (José Olympio, 336 pp., R$ 38 - Trad.: Betúlia Machado, Maria José Silveira e Peg Bodelson), de Alice Walker, chega às livrarias com uma edição que segue a nova ortografia e conta com uma capa criada especialmente para este retorno. O romance foi publicado nos Estados Unidos em 1983, mesmo ano em que conquistou o Prêmio Pulitzer de ficção. Lançado no Brasil pela primeira vez em 1986, o livro logo entrou para a lista dos mais vendidos e, depois de passar muitos anos fora de catálogo, volta às prateleiras das livrarias brasileiras".

Biografia de Nei Lopes será lançada em setembro

(Deu no Estadão de 25/08/2009,Por Lucas Nobile). "Descuidados com a história da música popular do País afirmam que a união entre refinamento e despojamento no samba foi enterrada com Mário Reis, em 1981. Os mais radicais defendem ainda que tal combinação deixou de existir quando o cantor decidiu trocar os palcos aos 28 anos, em 1936, por um cargo no gabinete da prefeitura do Distrito Federal. Injustiças como essas ignoram que ainda hoje o compositor e cantor Nei Lopes, que terá sua biografia lançada em setembro, é a personificação do último sambista ao mesmo tempo malandro e intelectual. Nei Lopes, cujo lançamento está marcado para o próximo dia 10, na Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, foi escrito pelo jornalista Oswaldo Faustino e faz parte da coleção Retratos do Brasil Negro (Selo Negro Edições/Grupo Editorial Summus, 120 pp., R$ 19,90). "O livro é mais um perfil biográfico. Como o próprio Nei diz, é apenas uma parte da biografia dele. Ele é um vulcão, uma usina de criação", diz Faustino, avesso ao termo "biografia definitiva", principalmente pelo fato de Nei Lopes ainda estar vivo e em plena atividade".

26 de ago de 2009

Marina Silva, minha candidata em 2010.

Quando escrevi o artigo “As patas do Norte não encontrarão pulgas no Sul”, postado aqui no blogue em 06 de maio de 2009, não imaginava que minha declaração de voto em Marina Silva pudesse tornar-se realidade. Era então um desejo, um sonho, e como não tenho acesso a informações privilegiadas por bola de cristal ou partidos políticos, fundamentais nas democracias representativas, concluo que minha intuição política é que está em boa forma. Na semana passada fui tomada pela alegria da vitória quando vi o rosto de Marina estampado na capa dos principais semanários do país. Marina Silva, uma mulher negra da Amazônia, de caráter impoluto (sobre poucas pessoas diria isso), de sorriso franco. Estive com ela frente a frente pela primeira vez no aeroporto de Brasília, enquanto aguardávamos uma conexão super lotada para Belém. Como sempre acontece quando encontro meus ídolos, não sei como me aproximar, quando acho um jeito, eles já foram. Como podem imaginar, nem a cumprimentei. Quando fomos pegar as malas em Belém, ouvi a voz dela atrás de mim – era o segundo momento em que o rosto da sorte se apresentava, não poderia perdê-lo. Respirei fundo e depois de muito ensaio disse “Marina”... “Sim”, ela respondeu sorrindo. Eu, estática, não disse mais nada. Não falei da chuva, do Fórum Social Mundial, não disse que estava encantada em conhecê-la, que tinha por ela uma admiração maior do que a Amazônia. Não disse nada. Ela, provavelmente familiarizada com esse tipo de gente, estendeu-me a mão e disse: “muito prazer, Marina”! Eu apertei a mão dela e continuei muda. Ela me deu dois beijos, sorriu de novo, soltou minha mão e continuou a conversa com um rapaz que a acompanhava. Quando, emocionada, encontrei Corina e Marcelo, os amigos que me aguardavam para dez dias de férias na casa deles, comentei sobre meu travamento no contato com Marina. Recebi como resposta a foto recentemente tirada ao lado dela. Estou em campanha e trato de assimilar as contradições de minha candidata: a posição contrária à legalização do aborto e a postura escorregadia quanto aos direitos de gays e lésbicas. Mas o Gabeira vai trabalhar isso com apuro, tenho certeza. Aliás, de público, parabenizo sua grandeza por reconhecer em Marina, melhores condições políticas para levar o PV à Presidência do que as próprias. O sucesso surpreendente da campanha de Gabeira ao Governo do Rio de Janeiro, que fez muita gente descrente da política passar a acreditar, ou voltar a acreditar em algo, poderia elevar aos píncaros qualquer ego. Mas Gabeira demonstra sensatez e maturidade política ao investir na potencialidade, na biografia e na representatividade política de Marina Silva. Tenho também uma ou outra discordância em relação à minha candidata, a principal delas é quanto à afirmativa de que o Governo Lula não investiu suficientemente na área social. Ora, que o Governo Lula a tenha abandonado à sanha do agro-negócio, em detrimento da sobrevivência ambiental da Amazônia e dos direitos dos povos da floresta, é inegável, Marina lutava sozinha, com isso concordo. Entretanto, é porque investe de maneira séria e competente na área social que o Governo Lula vem diminuindo o número de miseráveis e vem dando dignidade aos pobres. E por isso, este Governo continua a me representar e o Presidente Lula continua a ser o meu Presidente. Redistribuição de renda é outra coisa, também concordo, e vamos trabalhar para que Marina Silva arregimente base política, para além da base social conquistada pelo Presidente Lula e possa, assim, mexer nessa caixa de zangões. Creio que Marina constrói este discurso crítico à suposta precariedade do investimento social do Governo Lula, porque não pode dizer que o PT foi burro em não cogitar o nome dela para a Presidência e em lançar o nome Dilma Rousseff. Mas nós sabemos e podemos dizer: o PT foi burro. Marina é a novidade que precisávamos para, de fato, termos uma opção política. Eu votaria em Dilma como estratégia política para que em eleições próximas tivéssmos um homem negro como candidato à Presidência, Joaquim Barbosa, talvez. Agora eu tenho uma mulher negra para sonhar e por quem trabalhar, só minha intuição política percebeu isso, minha consciência estava distante de visualizar essa possibilidade. Fico imaginando a cara do Obama, quando Marina chegar lá. Se o Presidente Lula, este nordestino-mestiço-incomum, é o cara, o que dirá Obama de Marina Silva? Não sei, mas vou trabalhar muito para ver chegar esse dia. E enquanto ele não chega, atualizo a canção de 1989, quando até fiscal de apuração - eu que não gosto de atividade partidária -, cheguei a ser: passa o tempo e tanta gente a trabalhar, de repente essa clareza pra notar, quem sempre foi sincero e confiar, sem medo de ser feliz, quero ver chegar, Marina lá, brilha uma estrela, Marina lá, cresce a esperança, Marina lá, de um Brasil criança, na alegria de se abraçar! Marina lá, brilha uma estrela e cresce a esperança!

24 de ago de 2009

Livro novo de Ubiratan Castro

(Texto de divulgação). "O historiador Ubiratan Castro de Araújo lança, no dia 24 (hoje), às 18h, o livro Histórias de Negro, publicado pela Editora da UFBA (EDUFBA). A obra, que foi lançada no último dia 11 durante os festejos da Boa Morte em Cachoeira, chega à Salvador, considerada a cidade com a maior população de negros fora do continente africano. O evento é aberto ao público e será realizado na Academia de Letras da Bahia, no Bairro de Nazaré. O livro retrata, através de 12 contos, a vida e costumes do povo negro na Bahia. Tem orelha do poeta José Carlos Limeira e apresentação do historiador João José Reis que destaca os personagens dos contos como pessoas que a máquina do escravismo e do racismo tentou triturar com maior ou menor intensidade, no entanto, não caíram em lamentações, e nem se fizeram de vítimas. Não se deixaram vencer com facilidade. “São homens e mulheres que reagem, negociam, resistem, atacam, se juntam solidários, às vezes vencem, outras perdem, raramente desistem”, escreve João Reis. A capa do livro e todas as histórias são ilustradas em graffitti de rua pelo artista Denni Sena. Os leitores também contarão com glossário no final de canta conto, para maior compreensão dos falares específicos de cada personagem. Histórias de Negro está na segunda edição, com novo projeto gráfico, revisada e ampliada. A nova edição ganhou mais 5 contos. A primeira edição foi lançada em agosto de 2006 e tinha como título Sete Histórias de Negro. A obra trata da união entre a cultura oral e escrita, em uma narrativa que integra personagens negros dentro de um cotidiano baiano de ser e viver. Os textos são recortes do cotidiano com um tempero especial de quem é especialista em contar casos e histórias. Os personagens são marcados pelas dificuldades que os negros enfrentaram na história do Brasil, porém são apresentados com uma leveza e espontaneidade cativante". Ubiratan Castro de Araújo - Doutor em História pela Universidade de Paris IV (Paris-Sorbonne) e Mestre em História pela Université de Paris V, Ubiratan Castro tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil. É Membro da Academia Baiana de Letras e atualmente, o professor está à frente da Fundação Pedro Calmon (FPC), unidade da Secretaria de Cultura do Estado. A FPC atua na execução de políticas de promoção do livro e da leitura, na preservação da história e da memória do Estado, além da dinamização das bibliotecas e arquivos públicos. SERVIÇO: O quê: Lançamento do livro Histórias de Negro. Onde: Academia de Letras da Bahia (Av. Joana Angélica, 198, Palacete Góes Calmon. Nazaré, (71) 3321-4308). Quando: Dia 24 (segunda-feira), às 18h. Informações: (71) 3116-6918 / 6919 Entrada: Gratuita. Mais informações: ASCOM Fundação Pedro Calmon: (71) 3116-6918 / 6676

22 de ago de 2009

III Fórum Nacional de Performance Negra - Carta de Salvador

"Nós, representantes de 160 grupos e companhias de teatro e de dança negros de todas as regiões do País, artistas independentes, pesquisadores e acadêmicos, reunidos no III Fórum Nacional de Performance Negra, realizado no Teatro Vila Velha, em Salvador, nos dias 06 a 09 de julho de 2009, reafirmamos o compromisso com um teatro e uma dança que expressem o poder e o vigor da criação artística da população negra. A diversidade de propostas estéticas que fomentam nossas atividades e formas de inserção nas comunidades reflete valores comuns. Contudo, os obstáculos que muitas vezes enfrentamos para assegurar nosso fazer artístico impõem a necessidade de que os órgãos governamentais, para além do apoio à realização do Fórum, invistam na nossa efetiva participação nos espaços de decisão de políticas culturais, a exemplo de Conselhos, Câmaras Setoriais e Comissões, bem como criem ações afirmativas por meio de editais de incentivo e valorização das artes cênicas negras. Nossos modos de criar e de pensar a experiência negra são reveladores da dimensão dinâmica das matrizes africanas no Brasil e, assim, também requerem que empreendamos ações locais e regionais que potencializem os resultados do Fórum, viabilizando uma agenda nacional que inclui as seguintes prioridades: 1)Criação de uma rede de comunicação para fortalecer regional e nacionalmente o Fórum de Performance Negra; 2) Mapeamento dos grupos de teatro e dança negro nas regiões; 3) Realização de Fóruns de Performance Negra Regionais, Estaduais e/ou Municipais; 4) Fortalecimento de nossas práticas através da utilização da Lei 10.639/03 em favor de ações no campo das Artes Cênicas; 5) Efetivação do calendário de atividades referentes ao 20 de novembro, com ações desenvolvidas durante todo o ano; 6) Organização dos Grupos e Companhias para a participação nos espaços de decisão de políticas culturais; 7) Realização de ações de formação para a elaboração de projetos e participação em editais; 8) Constituição de espaços físicos para apresentação de produções das artes cênicas negras e para a sede dos Grupos e Companhias; 9) Utilização do selo do Fórum Nacional de Performance Negra em todo material promocional dos Grupos e Companhias que o compõem. Estamos certos(as) de que esta agenda nos levará por um caminho mais seguro e produtivo até o IV Fórum, que realizaremos em 2010, na cidade de Salvador, Bahia, que ora escolhemos como sede nacional deste que já é um marco no percurso histórico dos movimentos das artes brasileiras". Salvador, 09 de Julho de 2009.

21 de ago de 2009

Nova Rouanet terá fundos para artes cênicas e literatura

(Deu no Estadão de 19/08/09, por: Jotabê Medeiros). "A nova Lei Rouanet, o texto que incorpora sugestões de mais de 2 mil produtores de todo o País, vai chegar ao Congresso este mês bastante encorpada. O Estado teve acesso exclusivo às principais modificações. Em vez de cinco novos fundos de financiamento direto à cultura, serão agora sete - foram criados também o Fundo das Artes Cênicas e o Fundo da Literatura e das Humanidades (que não existiam no projeto original). A criação do Fundo das Artes Cênicas foi resultado direto da pressão das categorias ligadas ao teatro e dança no Ministério da Cultura. O Fundo da Literatura e das Humanidades atende a pedidos de grupos como o Movimento Literatura Urgente, que pedia a separação da produção literária do mercado editorial. O cinema dos documentaristas, curtas-metragistas e os festivais não terá um fundo específico, como pleiteava. Mas terá cadeira cativa no conselho do Fundo do Audiovisual, que terá dois conselhos gestores, um para o cinema industrial e outro para o independente. Dois sistemas de gestão paralelos, considera o Ministério da Cultura, permitirão que o cinema "de formação do olhar, de formação de quadros" também possa ser subsidiado (atualmente, os documentaristas e curtas-metragistas se queixam que não conseguem nem ser recebidos pelos departamentos de marketing das empresas). O texto definitivo, que será agora debatido pelo Congresso, traz ainda outras novidades. Cerca de metade do dinheiro (fala-se em 47%) arrecadado pelo Fundo Nacional de Cultura vai ser obrigatoriamente repassado a Estados e municípios. Mas é um dinheiro "carimbado", ou seja, não poderá ser utilizado em despesas de custeio dos Estados e municípios - terá de ser necessariamente transferido a artistas e produtores por meio de editais públicos. Outra novidade diz respeito ao "dirigismo cultural". Um dos artigos da nova legislação veta explicitamente a análise subjetiva e garante a impessoalidade no sistema de avaliação. O Ministério da Cultura instituiu há pouco mais de um mês um concurso de pareceristas para dar mais agilidade ao processo de análise de projetos. Conseguiu a inscrição de 500 novos analistas, e também está criando, na nova lei, um mecanismo novo - o sistema de avaliação entre pares. O sistema entre pares consiste no seguinte: ao entrar com um projeto no Ministério, o produtor pode ser convidado para avaliar um outro projeto de sua própria área, integrando um comitê de avaliação. O modelo é do sistema universitário, da Fapesp, e os pareceres dos analistas serão a base das decisões do Fundo Nacional de Cultura. A Comissão Nacional de Incentivo Cultural (CNIC) continuará existindo, mas atuará muito mais como um órgão de inteligência, semelhante ao conselho da Fapesp, instituição que é o modelo da nova legislação. O Ficart (Fundos de Investimento Cultural e Artístico), fundo de capitalização da Lei Rouanet, receberá mecanismos de maior atratividade para as empresas. O Ministério considera que o setor privado deve entrar com um patamar mínimo de investimento, e vai convidar os empresários para se associarem ao MinC em projetos de visibilidade comercial. O fundo financia uma parte, o empresário outro, e a possibilidade de lucro será atrativa, analisa o governo. O secretário executivo do Ministério da Cultura, Alfredo Manevy, confirmou as mudanças apuradas pela reportagem, e acrescentou que a nova Lei Rouanet trará a palavra "critério" como um dos maiores símbolos da mudança. "Não havia essa palavra na Rouanet antiga. Isso serve para que não se crie um vazio duvidoso. Os critérios para a aprovação de um projeto estarão definidos na lei, e partem de exigências como acessibilidade, preço, a estratégia de oferecimento ao público do produto cultural. Preço, horário, local de apresentação: tudo isso vai pesar na análise do custo de um projeto que será abatido com dinheiro público", afirmou. Principais mudanças: ACESSIBILIDADE - Quanto menor for o preço do ingresso, maior a possibilidade de ser financiado pela nova lei. NOVOS TETOS - Além de manter a renúncia fiscal, chave da Lei Rouanet (Lei n.º 8.313) desde sua criação, em 1991, a nova legislação estabelece seis faixas de dedução do imposto de renda devido - 100% de abatimento e do mínimo de 30%, outras quatro novas faixas foram criadas (90%, 80%, 70% e 60%). NOVOS FUNDOS - Além dos fundos do audiovisual, patrimônio, artes, cultura e diversidade, haverá agora os fundos para artes cênicas e literatura e humanidades. DOCUMENTÁRIOS E CURTAS - Setor reclamou de falta de atenção das políticas culturais e terá um conselho gestor separado no Fundo do Audiovisual. DIRIGISMO - Texto fala em veto à "análise subjetiva" e "garantia de impessoalidade". VALE CULTURA SÓ CHEGOU ONTEM AO CONGRESSO. SEM ASSINATURA: Chegou ontem ao Congresso, quase um mês após ser lançado em SP pelo presidente Lula, o projeto de lei que cria o Vale Cultura. O PL 5798/2009 demorou para ser enviado ao Congresso, segundo o ministro da Cultura, Juca Ferreira, porque faltava a assinatura do ministro da Fazenda, que estava em viagem oficial. O texto prevê a criação de um incentivo financiado por renúncia fiscal, para que trabalhadores de empresas de lucro real possam receber um cartão magnético com R$ 50. Estima-se que 14 milhões de trabalhadores sejam beneficiados, e que o sistema movimente cerca de R$ 7 bilhões no mercado".

20 de ago de 2009

Três livros para crianças e jovens

Recomendo três livros num breve comentário, haja vista que a pilha de livros lidos cresce como o pé de feijão da fábula e meu tempo permanece estático, como o menino que o olha crescer. Trata-se de algumas aquisições feitas durante o 11o FNLIJ do livro para crianças e jovens. Começo pelo Contos da lua e da beleza perdida, do autor nigeriano Sunny, belamente ilustrado por Denise Nascimento, conterrânea de BH, melhor ilustradora em atividade, a meu ver. São histórias tradicionais africanas recontadas, diga-se, sem o brilho e a beleza de Ulomma, primeiro livro do autor publicado no Brasil, também ilustrado por Denise. Vale por ser mais um mergulho nesse manancial desconhecido das culturas africanas e, principalmente, pelas ilustrações, cujo nível de sensibilidade, apuro técnico e graça, me comovem profundamente. Aproveito para lançar uma apelo ao vento: "trabalharemos juntas, um dia, Denise? Juro que escreverei algo bem bonito para estar à altura do seu registro de pessoas e imagens, histórias e desejos". A publicação é da Paulinas. Os dois livros seguintes são da Imperial Novo Milênio, editora e gráfica carioca, grata surpresa. Ambos foram escritos por Carlos Alberto de Carvalho, Iemanjá e Xangô, narrativas míticas e Histórias de ouvir da África fabulosa, com ilustrações de Maurício Planel. Gostei da leitura. O Iemanjá apresenta histórias da matricarca do panteão iorubá e de Xangô, meu querido, centradas nos mitos destes orixás. Têm valor pelo conhecimento transmitido e pelo jeito gostoso de narrar. As histórias do África fabulosa são ainda mais saborosas e ali fica mais nítido o trabalho de linguagem do autor. As encadernações são simples e os livros baratos, se quiser, confira.

18 de ago de 2009

Saudade de Gil, Dorival e Nana

Dorival é ím-par/ Dorival é par/ Dorival é ter-ra/ Dorival é mar/ Dorival tá no pé/ Dorival tá na mão/ Dorival tá no céu/ Dorival tá no chão/ Dorival é be-lo/ Dorival é bom/ Dorival é tu-do/ Que estiver no tom/ Dorival vai can-tar/ Dorival em C-D/ Dorival vai sam-bar/ Dorival na T-V/ Dorival é um Buda nagô/ Filho da casa re-al da inspiração/ Como príncipe, principiou/ A nova idade de ouro da canção/ Mas um dia Xan-gô/ Deu-lhe a i-lumina-ção/ Lá na beira do mar (foi?)/ Na praia de Arma-ção (foi não)/ Lá no Jardim de A-lá (foi?)/ Lá no alto ser-tão (foi não)/ Lá na mesa de um bar (foi?)/ Dentro do cora-ção/ Dorival é E - va/ Dorival Adão / Dorival é li-ma / Dorival é limão / Dorival é mãe / Dorival é pai / Dorival é o pe-ão / Balança, mas não cai / Dorival é um monge chinês / Nascido na Roma negra, Salvador / Se é que ele fez for-tuna, ele a fez / Apostando tudo na carta do amor / Ases, damas e reis / Ele teve e pas-sou (iaiá)/ Teve o mundo aos seus pés (ioiô) / Ele viu, nem li-gou (iaiá) / Seguidores fi-éis (ioiô) / E ele se adian-tou (iaiá) / Só levou seus pin-céis (ioiô) / A viola e uma flor / Dorival é ín-dio / Desse que anda nu / Que bebe gara-pa / Que come beiju / Dorival no Ja-pão / Dorival samu-rai / Dorival é a na-ção (Buda Nagô, de Gilberto Gil).

17 de ago de 2009

Pelos caminhos de Ogum anda Ricardo

"Se alguém perguntar por mim, diz que eu tenho andado na cola do artista plástico Jorge dos Anjos, filmando-o em seu ateliê, nós dois rindo de tudo o tempo todo. Quem chega perto nem pensa que é trabalho, mas é, sim, podem acreditar: meu primeiro vídeo-documentário, que registra a impressionante performance de Jorge na confecção das obras de sua nova exposição, A ferro e fogo, a ser inaugurada em outubro, na Galeria AM. Jorge dos Anjos, não é demais repetir, é o maioral, pelas bandas brasílicas do Atlântico Negro, quando se trata de resistência ativa (= força-invenção). Quem, por acaso, tiver dúvidas a respeito, que aguarde a nova série de trabalhos, realizados com ferro incandescente sobre feltro" (do blogue do amigo Rique Aleixo).

16 de ago de 2009

50.000 visitas ao blogue!

O contador de visitas do blogue opera há um ano e contabilizamos 50 mil visitas, oriundas de 89 países. É uma marca que comemoro, dentre outros motivos, porque o blogue me ajuda a ter disciplina para a escritura diária. Outro dia comentava com um amigo que, nos tempos de trabalho autônomo para custear a vida, eu escrevia entre 3 e 5 páginas criativas por dia, hoje, de volta ao mundo formal de trabalho, nos dias em que é possível escrever, escrevo entre 2 e 4 parágrafos, mesmo nos finais de semana, quando consigo criar um pouco mais, a média é de uma página e meia. Duas páginas e meia foi o máximo alcançado até o momento. Leio todos os dias, mais ou menos no mesmo ritmo, mas o tempo da escrita diminuiu muito, tempo mental... o ócio criativo é mesmo uma necessidade, mas sigo escrevendo nas condições materiais possíveis. De volta ao blogue, propriamente, nunca dei bola ao binômio local x global, aliás, nutro impaciência e descrédito por vários teóricos dedicados ao tema, principalmente os gringos que se instalam no Brasil para tratá-lo nas universidades, por meio de abordagens pseudo-democráticas e plurais dos empobrecidos e sua produção cultural. Mas, é forçoso admitir que meu blogue ultrapassa uma perspectiva local, no sentido de suplantar um blogue-porta-voz de um dado mundinho e também dirigido a um pequeno grupo. Admito que o blogue é global, haja vista a pluralidade de temas, o enfoque aberto e o alcance crescente de pessoas, é abusado! Embora seja, como praticamente todos os veículos do gênero, um clube de amigos e amigas, no qual me reservo o direito inalienável de promover pessoas queridas e amadas e de abrir espaço para o contestatório (merecedor de meus comentários) que se aproxime de maneira gentil e respeitosa, sem presunção, personalismo e/ou autoritarismo. Mas, mesmo com os limites de um clube, dá um gostinho bom não mais contar as visitas de mil em mil ou de 10 em 10 mil, e poder contá-las de 50 em 50 mil. Sendo assim, voltarei a falar dos números quando completarmos 100 mil acessos. Uma das grandes alegrias oferecidas a esta blogueira, diariamente, é perceber que várias pessoas se sentem motivadas a escrever a partir do diálogo com escritos meus, seja por eclodir delas o desejo de expressão pela palavra, seja pelo exercício do diálogo aberto e franco (ou nem tanto) com minha produção. Por fim, essas 50 mil visitas devem-se também aos amigos, conhecidos e aos admiradores do meu trabalho por terem anexado meu blogue aos respectivos sítios e blogues, isto, certamente, contribui para o incremento do volume de acessos. Muito grata. Até a vista. Até os 100 mil acessos.

9 de ago de 2009

Cooperifa levará chuva de livros à periferia de São Paulo, dia 12/08

(Texto de divulgação). "Pelo segundo ano consecutivo a Cooperifa vai realizar o projeto "Chuva de livros" que tem como objetivo incentivar o hábito da leitura na periferia. Neste dia, qualquer pessoa que comparecer ao sarau da Cooperifa vai ganhar um livro novo de presente. Este ano serão 500 livros, entre romance, conto, poesia, prosa, e vai de Drummond a Jorge Amado, Clássicos, infantis, etc. além de escritores e poetas da periferia. Ninguém vai ficar de fora. os livros serão distribuidos gratuitamente logo após o tradicional sarau que acontece no bar do Zé batidão (em torno das 22hs30), há quase oito anos. A ideia do projeto é que a pessoas tenham seu próprio livro, façam o quiserem com ele, mas que, de preferência, leiam. A qualquer hora. Em qualquer lugar. Os organizadores do evento garantem que não se trata de um evento cultural, e sim, de saúde pública."Quem lê enxerga melhor."

5 de ago de 2009

Brilhantes operárias - exposição em Contagem, MG

(Texto de divulgação). "Nesta quarta (05), o sarau da Coletivoz receberá o fotógrafo Ignácio Sertebrale, que trará a exposição "Brilhantes Operárias". Um olhar minuncioso sobre o trabalho das mulheres de Contagem. Trata-se de um trabalho itinerante que retrata histórias de "Brilhantes Operárias" de Contagem. Elas fizeram história e deram impulso às conquistas femininas, cada vez mais freqüentes. Enfrentaram preconceitos, foram ridicularizadas, mas não desistiram. Assim como elas, mulheres da década de 70, muitas outras ganharam seu espaço no mundo. O projeto, desenvolvido pelo fotógrafo Inácio Sertebralhe retrata, ao longo deste período, a realidade de algumas mulheres da cidade que, além de mãe, esposa e dona do lar, desenvolvem atividades até pouco tempo consideradas masculinas, por exemplo, ser juíza de futebol, motorista de ônibus e motogirl".

4 de ago de 2009

Os Desmandamentos

(Por: Geraldo Carneiro e Salgado Maranhão. Este manifesto se rebela contra a banalização indiscriminada da poesia e a palavra aviltada pelos demagogos, e é dedicado aos que julgam que ela não é passatempo de diletantes, mas artigo de primeira necessidade). 1- Mais uma vez virou moda dizer que a poesia agoniza, ou que a poesia morreu. E de fato ela sempre esteve morta para os não-poetas. E morreu também com Homero, com Dante, com Camões, com Baudelaire, com Drummond e com tantos outros, porque cada poeta é uma via, um beco sem saída. E a poesia é sempre plural: é o lugar dos paradoxos (viva Shakespeare!), do não-senso (viva Lewis Carroll!), mas também é o lugar da verdade. Quanto mais verdadeiro, mais poético, como dizia Novalis. Mesmo quando um poeta faz as suas conficções, acaba em verdades metafóricas. E, nestes desmandamentos, afirmamos que a poesia, quanto mais remorre, mais renasce. 2- É a linguagem que produz a realidade e a poesia. A poesia não tem camisa-de-força conceitual. Aos funcionários públicos da vanguarda, que se acham herdeiros do legado, ela finge que se dá, mas é só o discurso vazio do chefe da repartição. 3- A poesia é um problema sem solução. Felizmente. Ninguém tem a fórmula mágica, ninguém tem respostas para todos. Cada leitor que invente o seu mundo, e o desinvente a seu bel-prazer. Semelhante à culinária, cada qual que ache o seu tempero. Se for significativo, o erro vira estilo. Ou vice-versa. 4- A poesia pode tudo, só não pode ficar prosa ou senhora da razão. O novo não é reserva de mercado, nem nasce a priori. Há que se romper limites, correr riscos, ter lucidez na loucura. Mesmo que seja pelo avesso. (E, cá entre nós, não adianta ficar o tempo todo buscando o absoluto, porque isso já ficou obsoleto. Ao fim de tantos levantes, sejamos, também, irrelevantes.) 5- A poesia não é para quem a escolhe, mas para quem recebe o choque elétrico da linguagem. Não é poder ou privilégio, é um defeito que ilumina. Não vale transporte, não vale refeição, não vale copiar truques ou seguir tutores. Nem apelar, como os demagogos, para o amanhã. Mesmo porque já não há mais Canaã no Deserto dos Sinais. 6- Poema não é cadáver. É um artefato musical que sempre canta, mesmo quando tem horror à música. Quem busca entender o poema apenas cientificamente, dissecando sua morfologia como quem faz uma autópsia, perde a viagem. Conhecê-lo é entrar em seus labirintos, sem separar o corpo de sua subjetividade. 7- Não queremos a poesia prisioneira de uma única arte poética. Seremos clássicos e barrocos; pós-modernos e experimentais. Qualquer tema é e não é poético. Desde os pit-boys de Homero até a aspirina de João Cabral. Com talento, mesmo as formas antigas podem ser recicladas. Sem talento, nem com despacho na encruzilhada. 8- As influências, em geral, são bem-vindas, a não ser quando alijam a voz própria. Há poemas com tantas citações que, se extrairmos o que é dos outros, não sobra bulhufas. 9- Os conchavos e panelinhas fazem parte da natureza humana. Cada grupo tem o direito de inventar os seus heróis, para admirar a própria imagem no seu espelho narcísico. Mas o vôo do poeta é só dele e, sobretudo, da linguagem. A linguagem é o orixá, o poeta é o cavalo do santo. Ninguém é mais do que o que pode ser. 10- O problema da poesia não é só fazer bem feito, mas fazer distinto (no duplo sentido, que implica tanto em diferença, como em elegância). Ela é um exercício vital para manter o vigor da palavra. A poesia não é só questão de verdade, mas de vertigem. Por essas e por outras, é que somos poetas da vertigem: vertigem-linguagem, vertigem-vida. Último desmandamento: Pode jogar no lixo todos os desmandamentos anteriores, a não ser que haja sinceridade na poesia. Quem quiser adorar bezerro de ouro, que adore; quem quiser viver de pose, que mantenha sua prose. Mas que haja espaço e fé na poesia. E que ela continue a fabricar futuros, e, como fênix, se destrua e se reconstrua por toda a eternidade e mais um dia. "No Brasil dos anos 1970, escreveu a crítica Flora Süssekind, a marginalidade literária era tão prestigiosa “quanto uma tuberculose para os autores românticos”. Essa posição de heroísmo, que há três décadas espelhava um gesto crítico do autor, hoje se impõe a ele como realidade imediata e melancólica. E, se a literatura é marginal dentro da cultura brasileira, a poesia talvez ocupe sua periferia mais remota. Num país que ainda luta contra o analfabetismo, pode ser diferente? Sim, dizem os poetas Salgado Maranhão e Geraldo Carneiro (ao lado, em foto de Leonardo Aversa). Para os dois, a poesia tem seu lugar natural no centro dos debates — ao renovar a linguagem, aponta novos caminhos para a sociedade. Foi assim no romantismo, no modernismo, no concretismo, afirmam. Contra o marasmo atual (“um nada”, segundo Carneiro), os dois prepararam um manifesto intitulado “Os desmandamentos”, que será lido num grande encontro dia 10, às 21h, no Teatro Maria Clara Machado, com direito às presenças de Moisés (o ator Tonico Pereira), Oswald de Andrade e Olavo Bilac, além de poetas e atores. Numa conversa movida a garrafinhas de água mineral num bar da Urca, os dois falaram ao GLOBO sobre o que os incomoda no estado atual da poesia brasileira". O que há de errado com a poesia brasileira? SALGADO MARANHÃO: Estamos vivendo um momento morno da poesia carioca e brasileira. A poesia sempre comandou os debates, mas agora passamos por um momento em que ela não é relevante. Não é que não haja boa poesia, mas ela está muito pulverizada. GERALDO CARNEIRO: Houve essa pulverização. E uma coisa pior, que talvez seja reflexo disso: com a institucionalização da mentira no Brasil, a poesia ficou sendo uma espécie de reserva ecológica da sinceridade. Perdeu um pouco o lugar. É tão desimportante quanto a reserva dos botocudos da boca do Araguaia. Uma tribo em extinção. Essa irrelevância está ligada a uma mudança cultural ou tem a ver com o tipo de poesia que se faz? MARANHÃO: Ela perdeu o critério de qualidade. Como instituição, o poeta não está em lugar nenhum. Não há um lugar de excelência que ele possa disputar. Como não há uma exigência, fica uma coisa de que todos são poetas e ninguém é. CARNEIRO: Nós não queremos nos insurgir contra qualquer modelo poético. Hoje há uma falta de referências. A poesia caiu num nada, em que estamos vivendo. Por isso queremos fazer um manifesto que seja um divisor de águas na cultura brasileira. Como não estamos com essa bola toda, chamamos Moisés para ser o nosso porta voz e dizer nossos “Desmandamentos”. Como ele tem muito know how em abrir águas, esperamos que seja nosso divisor de águas e traga alguma luz para esse momento medíocre e confuso. Mas fazemos questão de não ditar um modelo. Queremos tirar da área essa banalização nefasta, a apropriação demagógica do discurso poético, e fazer com que ele, ressignificado, volte a ser a ponta de lança do debate político e poético da linguagem, que acaba refletindo na vida social e política do país. Há uma conjugação entre essas coisas que não pode se perder jamais. Quando Mallarmé falou em tornar mais puras as palavras da tribo, isso é fundamental para o exercício das coisas mais elementares da civilidade. Então, por trás do nosso manifesto, tem um desejo de fazer com que o país tenha um apreço maior pela linguagem. MARANHÃO: Hoje no país fala-se muito, mas é uma palavra aviltada. A palavra de demagogos, ou a da concisão, da vanguarda de repartição pública, a partir de parâmetros do concretismo. O concretismo prestou um grande serviço para a poesia brasileira. Foi um momento em que a poesia estava no debate, assim como no modernismo. Até a poesia marginal também tinha esse fulgor. Mas agora chegamos nesse mar quieto, sem onda, nesse marasmo. Esse marasmo não tem a ver com um certo ecletismo da nossa época, que vocês, ao falarem que não questionam nenhuma postura poética pois todas são válidas, acabam reproduzindo? CARNEIRO: Não. Nós queremos uma radicalidade em qualquer um desses procedimentos. Quando você propõe uma pluralidade indiferenciada, você está propondo nada... MARANHÃO: ...queremos que haja radicalidade na diferença... CARNEIRO: ...e que a poesia volte a ocupar um lugar fuindamental na discussão da contemporaneidade. Isso é uma tarefa complicada, e para isso convocamos também para nosso debate Oswald de Andrade e Olavo Bilac, que estarão lá caracterizados, cada qual com sua maneira de pensar a poesia, e farão parte do nosso debate. Inclusive porque um é um emérito necrófilo, Olavo Bilac, e o outro é um emérito antropófago. Então na pior das hipóteses, se não for uma boa discussão cultural, vai servir para alguém comer alguém (risos). MARANHÃO: Mas você levantou uma questão muito importante. Justamente isso, a gente quer que haja radicalidade na diferença. Acho até que há bastante diferença na poesia do Brasil. Mas eles estão muito rentes, não têm relevos. CARNEIRO: O concretismo voltou para a discursividade. A chamada poesia marginal partiu para a elaboração. Então o que está havendo é uma troca de lugares, uma espécie de changer de places de festa caipira. Está havendo um momento de perplexidade, indefinição e falta de radicalidade. Mas por que ser radical se tudo é válido? A radicalidade não pressupõe crítica, conflito? MARANHÃO: Nós estamos chamando para o conflito. Mas vocês não entram nele. CARNEIRO: Mas entraremos. Vamos xingar Oswald de Andrade, vamos xingar Olavo Bilac, vamos xingar nossos contemporâneos e eles nos xingarão também. O conflito é inerente à produção poética. Qualquer produção supõe isso. MARANHÃO: Hoje voltou um debate da época do concretismo de que a poesia palavra está morrendo, é desimportante. E nós dizemos que a poesia sempre esteve morta para os não poetas.Para quem tem o que dizer, ela nunca morrerá. CARNEIRO: Esses momentos de esterilidade se repetem, e neles é preciso apelar para a radicalidade, negar as negações do passado e afirmar novas afirmações. Desculpe a tautologia, estou parecendo um Wittgenstein da Urca, mas sem isso você não faz com que a poesia assuma o papel dela, que, como diziam as vanguardas, é tornar novo o discurso, fazer com que as palavras adquiram uma força não prevista até então. Nessa radicalidade, qual é a de vocês? MARANHÃO: Que a poesia não fale só das questões miúdas da vida, mas que fale também do sonho, da transformação. Há também esse discurso de que a poesia não pode falar de certas coisas. A poesia pode falar de tudo. Queremos que... CARNEIRO: ...que ela corra riscos, tenha coragem de assimilar a prosa, a loucura, os barbarismos. MARANHÃO: E que fale dos conflitos do momento em que se vive, do político ao estético. CARNEIRO: Não necessariamente no plano conceitual, mas dentro da linguagem. Que ela se abra para uma linguagem que não é asséptica, que não se deseja acadêmica, distante do mundo. MARANHÃO: Que ela se suje mais na vida. CARNEIRO: Que mergulhe nas impurezas do mundo. São ambições contraditórias: que ela seja absolutamente vital e também rigorosa. Os últimos movimentos poéticos se encastelaram em exigências que eram simplórias. Há no Brasil uma aproximação danosa da fala poética com o discurso teórico? CARNEIRO: Esse é um problema grave, do qual por exemplo eu sofro. Estudei na PUC muitos anos, fiz todas as cadeiras de graduação e pós. É uma doença da poesia brasileira, a famosa intertextualidade, que se tornou canônica... MARANHÃO: ...e que rouba a voz própria. Às vezes, se tirar o discurso do outro, não sobra nada. Mas vocês acham que isso é uma coisa específica do Brasil? CARNEIRO: É uma patologia brasileira. MARANHÃO: Em outros países da América Latina é diferente, há vigor. Não é uma coisa só estética, dissociada da vida. Nós queremos uma estética da existência, falar do aqui. O país está supurando desse discurso vazio e pobre. CARNEIRO: E ao mesmo tempo não queremos ter nenhuma afinidade linguística com demagogia. Estamos procurando um lugar extremamente problemático, contraditório, mas é o único que nos interessa. MARANHÃO: O Brasil tem essa riqueza da diversidade, essa riqueza erótica, telúrica. É um país vigoroso. Nós podemos ter essa força na poesia e já tivemos. Não tem um poeta que fale em voz alta. CARNEIRO: A poesia pode falar de tudo. Do íntimo, do sublime, do prosaico, do grotesco. A supressão de qualquer dessas modalidades do humano é uma tolice. E essa tolice tem sido praticada por todas as facções da poesia contemporânea no Brasil. É contra isso que nos insurgimos. Queremos o Frankenstein de todos. A poesia precisa ter essa ambição, que não é uma ambição de absoluto, mas de grandeza conceitual. MARANHÃO: Estamos perdendo essa seiva da identidade que já tivemos num determinando momento. Até o concretismo tinha isso, esse orgulho. Estamos perdendo, está ficando uma coisa flácida. Não tem um poeta que fale em voz alta. Essa identidade de que você fala é a identidade brasileira? MARANHÃO: Não. A poesia tem a ver com o lugar, com o país. Cabral é brasileiro, do mesmo modo que é universal. A poesia tem a ver com a linguagem do seu povo. Mas fala para o mundo, fala para todos, para onde quer que exista o humano. Você falou que a poesia brasileira tem se restringido ao miúdo, aos pequenos temas. Além da clausura da academia, vocês acham que há também um fechamento no intimismo? MARANHÃO: Sim. Há esse intimismo. Acontece o seguinte: a crítica discute que certos temas não são poéticos... ...há uma inversão? Antigamente o pequeno não era considerado poético. Hoje, o grande tema é que não é poético? MARANHÃO: Isso. Quando na verdade a poesia pode falar do pequeno ou do grande. CARNEIRO: De tudo. Do íntimo, do sublime, do prosaico, do grotesco. A supressão de qualquer dessas modalidades do humano é uma tolice. E essa tolice tem sido praticada por todas as facçlões da poesia contemporânea no Brasil. É contra isso que nos insurgimos. Queremos o Frankenstein de todos. Há uma setorização do poético? Poetas-especialistas? CARNEIRO: Tem, especialistas e grupelhos. Tem grupos que acham que a poesia tem que ser só a do demiurgo, ou só a da metalinguagem, ou a da concisão. Todas essas coisas são importantes, mas o que eu acho mais importante é que não se excluam essas possibilidades, se não fica um fazer poético totalmente dissociado da importância histórica que a poesia tem que ter. Mesmo que o circuito dela seja minúsculo, o que é inevitável, já que ela está criando uma nova linguagem, é fundamental que esse circuito seja vastíssimo do ponto de vista conceitual. A gente precisa fazer com que a poesia tenha de novo essa ambição, que não é uma ambição de absoluto, mas de grandeza conceitual. MARANHÃO: Quando há essa pulverização, é fratricida. Um grupo mordendo o outro por um espaço que não existe. CARNEIRO: O problema é que nem fratricídio mais tem. Não tem nem Caim e Abel, não tem nada. Por isso chamamos o Moisés. E também algumas deusas pagãs, cujos nomes manteremos em segredo para que os exus de Brasília não façam ebós mal despachados contra elas. MARANHÃO: Vai ser uma noite de confronto, mas de brincadeira e humor. A coisa foi ficando séria demais. Não pode brincar, porque o espaço é pequeno, a defesa de seita das correntes vai ficando muito sem humor. As pessoas vão tratando os outros como inimigos. Queremos brincar com isso. A poesia não é de ninguém, ninguém tem reserva de mercado. E o que vocês querem dizer quando falam em falta de critérios, de espaços de excelência? CARNEIRO: O espaço de circulação da poesia brasileira hoje é medíocre. A produção não é medíocre. Tem muito boa poesia, mas não está havendo critério para avaliar. Os craques da crítica hoje não escrevem mais. Davi Arrigucci, José Miguel Wisnik, Roberto Schwarz, Antonio Candido. Os grandes críticos do Brasil abandonaram os rodapés. O exercício da crítica tornou-se uma coisa de terceira categoria. Ainda há bons críticos. No suplemento de vocês tem o José Castello. Mas são críticos que trazem hoje também uma melancolia, como se fossem Fausto de Goethe. O Nelson Ascher tem escrito pouco. É preciso que nós também escrevamos, que a poesia volte a ser uma atividade central. Quando você se insurge contra o marasmo da linguagem, isso tem repercussões políticas sempre, que não passam pelo repertório vocabular que você usa, mas passa pelas práticas de linguagem. Quando o "Jornal do Brasil" fez o suplemento literário nos anos 1950, aquilo foi uma revolução na imprensa brasileira. São pequenas ações, que se dão num âmbito muito restrito, e que provocam reações fundamentais. Quem está fazendo hoje esse papel de crítica da linguagem demagógica? O CQC. A poesia é justamente isso, um custe o que custar levado às ultimas consequências. O demagogo lê aquilo, às vezes nem entende, mas diz “tem uns caras aqui prestando atenção na gente”. A peça do Vianinha e do Gullar, “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Aquela peça inibiu profundamente a direita brasileira. MARANHÃO: O problema é chamar a discussão para outro terreno. Hoje ela se dá ou no escracho dos programas de televisão, ou pela via demagógica. Falta essa discussão em que a estética esteja no primeiro lugar. O caderno do "Jornal do Brasil" tinha isso. CARNEIRO: Num nível em que o Estado brasileiro foi contaminado e teve que melhorar o nível da própria linguagem, para corresponder àquilo. Era lida por uma minoria, mas tinha um poder de formação de opinião e pressão política. Vocês falam nos problemas do excesso de seriedade, mas no Rio o que se vê mais claramente é uma tradição performática, da poesia associada a eventos culturais. Nisso também não há às vezes uma falta de rigor? CARNEIRO: Essas contradições são altamente estimulantes. Você não precisa assumir a postura de Moisés para dizer as coisas mais sérias. Como a semana de 1922, disse as coisas mais sérias, mais importantes, com humor, às vezes até forjando situações ridículas. A seriedade do discurso poético inclui uma corrosividade que na poesia moderna está muitas vezes ligada ao humor. James Joyce é um piadista. Robert Musil é um piadista. MARANHÃO: Não é um humor descuidado, mas que mostra até onde a língua pode ir. CARNEIRO: No "ABC da Literatura", o Pound diz que a pior ameaça para a litertura é a gravidade. Você assumir uma carranca e dizer “eu sou o detentor da verdade”. É que, quando criticam a seriedade, para quem lê nas entrelinhas parece que isso é reedição das antigas rixas entre poetas cariocas e paulistas. Vocês não fariam também uma crítica ao Rio? Não há um lado negativo na postura festiva carioca? CARNEIRO: Não... MARANHÃO: ...sim, quando leva às últimas consequências a banalidade. CARNEIRO: É, quando não tem conteúdo é horrível. Quando tem é uma maravilha. MARANHÃO: Quando fica só performático, frágil, frouxa... Nada contra a performance, mas queremos que tenha eixo, que tenha texto. Não há uma cultura de celebração mútua nesses encontros? CARNEIRO: Olha, eu por exemplo, adoro celebrar esse cara. Toda vez que vou falar poesia digo para chamar ele. É uma coisa talvez até de homossexual enrustido. Mas o fato é que é muito gostoso celebrar poesia. Tem pessoas taciturnas, macambúzias, que não gostam de celebrar nada. A vida para mim é celebração e a poesia para mim é celebração, uma festa dos conceitos, das palavras, dos neologismos. E existem também poetas do desespero e da solidão. Eu e meu amigo Salgado Maranhão, que é um poeta extremamente consistente, temos momentos de melancolia escrevendo. Não somos poetas alegrinhos. Não somos Oswald de Andrade nem Juó Bananère. Somos poetas que temos infelizmente uma dose de melancoilia e até depressão, mas a acelebração da vida e da festa da poesia, isso é maravilhoso MARANHÃO: Mas você chamou atenção para uma coisa importante do ser carioca. A cidade tem esse espírito, e nós estamos em sintonia com ele. Nós vivemos aqui e incorporamos essa natureza do Rio de Janeiro. Mas não queremos ficar nessa coisa... CARNEIRO:...do besteirol da beira-mar. Não. Mas se você está na beira-mar, então a beleza, você ter nossas deusas que estarão lá... Um moisés com uma batina e uma barba de Papai Noel. Você não teria o Tonico Pereira em São Paulo. Aqui temos esse humor que foi importante para a arte moderna. Erik Satie, todos os poetas do surrealismo, do dadaísmo, o James Joyce, depois que abandonou o bode da juventude. Essa alegria do verbo que se faz carne, é uma festa que o verbo se faça carne à beira-mar no Rio de Janeiro e que isso seja uma coisa relevante. E se for irrelevante, é aquilo que eu te falei. Tem lá os necrófilos e os antropófagos e alguém vai comer alguém. (risos)

3 de ago de 2009

Hip hop é compromisso

(Deu em O Globo, por: MV Bill). "Semana retrasada fui surpreendido por denúncias irresponsáveis a meu respeito, numa tentativa de manchar minha imagem. Produziram um espetáculo aparentemente jornalístico que sugeria ser eu testa de ferro de empresas supostamente piratas, insinuando que desviei milhões de reais, quando não tenho sequer a minha própria empresa. E ainda tentaram induzir as pessoas a pensarem que o livro que escrevi era bancado por dinheiro público. O que é comprovadamente falso. O fato de, numa relação comercial privada, eu usar uma mesma produtora que tem projetos com a Petrobras não permite a ninguém concluir que exista alguma triangulação, como não existe! Isso inclusive já foi confirmado pela própria estatal. Só que miraram num alvo, mas acertaram no próprio pé. O curioso é que, depois, foi descoberto que a empresa questionada é uma agência da área artística reconhecida no mercado, tanto que boa parte da respeitável mídia - inclusive a "denunciante" - recorre a seus serviços. Que ironia... Mas para mim o caso não está encerrado, pois o fato de eu não ter absolutamente nada com essa história, me motiva sim a contribuir para uma grande reflexão, aproveitando essa tentativa de maldade para trazer uma discussão de verdade. Li muitos questionamentos e defesas de artistas sobre suas dificuldades para se manterem no mercado formal e legal. Li muito sobre o que hoje é quase um câncer que corrói praticamente todo o mercado cultural/artístico no Brasil: a necessidade de boa parte dos artistas e riadores precisarem de empresas que vivem da intermediação entre o patrocinador e a arte. Li sobre artistas que recorreram a essas agências culturais para formalizar seus shows que efetivamente ocorreram. E para entender melhor esse problema procurei alguns profissionais da área tributária e, entre outras coisas, pude concluir que não existe dados sobre o impacto da cultura brasileira no PIB nacional, ou seja, não existimos formalmente. Entendi que nós, profissionais autônomos, pagamos sobre o valor do serviço prestado 11% de INSS, 5% de ISS e ainda Imposto de Renda, de acordo com tabela. Além disso, todas as essoas jurídicas que nos contratarem deverão recolher mais 20% sobre o total do cachê para o INSS, independentemente do valor do serviço, e ainda correr o risco de haver caracterização de vínculo empregatício. Entretanto, não é vantagem para nenhum trabalhador permanecer no mercado informal, não há auxílio doença, aposentadoria, e nem são garantidos os benefícios dos contratados com carteira: férias, gratificação de um terço do salário nas férias, descanso remunerado, décimo terceiro, pagamento de hora extra, FGTS, etc. Na verdade, um trabalhador informal acaba ficando à margem das estatísticas e da realidade da classe trabalhadora brasileira, lembrando que a categoria de trabalhadores de "carteira assinada" sempre se destacou como minoria. No caso de profissionais ligados à cultura, essa situação ainda piora quando observamos que, além do indiscutível excesso de tributos, possuímos algumas características que, de acordo com as regras do jogo, contribuem ainda mais para elevar o custo de uma possível contratação, como, por exemplo, o fato de que a maioria desenvolve suas atividades em horário noturno e aos finais de semana. Diante dessa realidade, podemos afirmar que, do ponto de vista financeiro, é praticamente impossível contratar um profissional da área cultural através de registro em carteira. Outra característica é que as funções exercidas pelos profissionais ocorrem em períodos determinados e dificilmente são de ação continuada, inviabilizando sua contratação nesse formato. Toda essa instabilidade obviamente intimida a abertura de empresas próprias, principalmente se pensarmos nas dificuldades para se abrir uma empresa e mantêla em funcionamento neste país. E olha que nem estou falando dos artistas iniciantes, que em geral trabalham para divulgar, não por cachê, mas que estão submetidos às mesmas regras, incluindo pagamentos de músicos e todos os encargos inerentes à atividade. Mas é bom deixar claro que as coisas ditas por mim não são motivos para burlar a legalidade; pelo contrário, ela precisa ser a nossa meta, sempre. Tenho nítido que, como cidadão, espero sempre que o dinheiro público seja bem aplicado, mas não podemos esconder que quem trabalha no meio artístico acaba meio órfão, sem ter uma regulamentação própria para seguir, tendo que se adaptar a uma realidade que não é sua. Portanto, convido todos os que pensam cultura neste país, em especial os parceiros das secretarias e do Ministério da Cultura, para juntos levarmos essa discussão adiante, sem eleger um bode expiatório, mas sim construir uma nova lógica para a cultura brasileira. De certa maneira, agradeço o mal que tentaram fazer comigo, pois a conclusão a que chego é que, ao mesmo tempo em que fiquei indignado por meu nome ter surgido num rolo que não me diz respeito, sinto muito orgulho por ser um artista/militante discriminado por sua origem social, mas que está tendo mais uma vez a coragem e a responsabilidade de botar o dedo na verdadeira ferida da cultura brasileira". (*MV Bill é cantor de rap, escritor e um dos fundadores da Central Única de Favelas - Cufa).