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30 de dez de 2015

2015, o ano em que a Globo descobriu o racismo

Por Cidinha da Silva



Postado em 30 dez 2015
maju

A Rede Globo não descobriu o racismo em 2015, mas foi obrigada a confrontá-lo. Justamente por conhecê-lo bem, tratou de mascará-lo ao longo dos 50 anos de vida como empresa. Cuidou de oficializar a não existência do racismo no Brasil por meio de apologia à democracia racial, folclorização dos negros nos terrenos esportivo e cultural, acrescidos da discriminação racial explícita ao seguimento, principalmente em programas humorísticos, novelas e programação dos finais de semana.
Mas, por incrível que possa parecer, o que derrubou a Globo do cavalo foi a reação de grupos racistas, e também de indivíduos, à ascensão profissional da jornalista Maria Júlia Coutinho. A presença da repórter do tempo, como Maria Júlia ficou conhecida, no Jornal Nacional, espaço mais nobre da Globo, armou chuvas e trovoadas e os racistas saíram do armário.
Deram um tapa na pantera (a Globo). Grupos especializados em agredir personas negras nas redes sociais a atacaram. Segundo as investigações policiais preliminares e depoimentos dos acusados, as agressões e sua repercussão acumulam pontos, visibilidade e atestam a eficiência dos agressores em competições criminosas, cujo objetivo é desestabilizar pessoas negras famosas.
Movidos pelo mesmo objetivo, os grupos assolaram as atrizes Taís Araújo, Sheron Menezzes e Cris Vianna, valendo-se de semelhante léxico racista. Juliana Alves, outra atriz global, notifica que sofreu o violência igual, mas optou por enfrentá-la envolvendo-se em campanha educativa de combate ao racismo nos meios virtuais, idealizada pela ONG carioca Criola.
E agora Ali Kamell? Os ataques racistas à jornalista e às atrizes deixaram a Rede Globo de calças na mão, pois colocaram em cheque sua posição oficial de inexistência do racismo, expressa no livro “Não somos racistas” (Nova Fronteira, 2006), do diretor de jornalismo da empresa.
Choveria no solo molhado se afirmasse que a participação de pessoas negras como profissionais de destaque na Rede Globo, e de resto na televisão brasileira, é ínfima. Mais evidente seria se declarasse que os mesmos rostos negros, todos na área de jornalismo, aparecem com freqüência definida na telinha, ao longo das cinco décadas de vida da emissora.
Não me recordo de uma apresentadora negra de programa infantil, esportivo ou de variedades. Pensar em um protagonista negro no lugar de Luciano Huck, Fátima Bernardes, Xuxa (quando lá estava) ou Ana Maria Braga, deve soar como piada aos ouvidos de muitos leitores que devem professar o suposto mérito dos todo-poderosos do entretenimento.
A única lembrança de uma representante negra fora do jornalismo, que cada vez mais se configura como entretenimento também, vem da infância quando a cantora Alcione apresentava o programa de samba Alerta Geral (1978/1979).
As estrelas negras do jornalismo são ironicamente tratadas por revistas de celebridades como “os jornalistas negros mais queridos da Globo”. São, de fato, praticamente únicos. Além disso, não existe a lista dos “jornalistas brancos mais queridos”, só a relação dos parcos negros fora de lugar.
Glória Maria, veterana do grupo, é a mais visibilizada entre os “mais queridos negros”. Começou praticamente junto com a emissora, como estagiária, ainda na década de 1960. Abel Neto realiza competentes coberturas esportivas. Heraldo Pereira cobre folgas e férias de Bonner no Jornal Nacional.
Zileide Silva atua em grandes reportagens de teor político, tais como as eleições presidenciais e o cotidiano do Congresso Nacional. Tornou-se mais conhecida pela cobertura dos atentados de 11 de setembro de 2001. À época, a repórter era correspondente da Globo em Nova York. Ela, nos primeiros tempos, e Heraldo Pereira, ainda hoje, recebem maquiagem pesada que os empalidece. O racismo explica bem o porquê.
Quem tem TV a cabo e algum tempo livre durante a semana para acompanhar a gloriosa Flávia Oliveira nas tardes da Globo News, pode desfrutar de análise econômica simples e útil, acessível a quem é consumidor habitual de arroz, feijão, batatas e ovos fritos. Ainda no cardápio a jornalista especializada em economia oferece humor, ironia, assertividade e crítica de arte e cultura de primeira linha.
Se Flávia Oliveira comentasse os acontecimentos econômicos diários do Brasil e do mundo no Jornal da Globo, certamente traduziria o economês das variações do PIB, da oscilação das bolsas, do superávit primário, das commodities, para linguagem inteligível. Tudo isso faria mais sentido para as pessoas às quais a Globo quer convencer de que o aumento do salário mínimo é ruim. Compreenderíamos também como, na propalada crise, as pessoas de todas as classes socioeconômicas consomem tanto.
Maria Júlia Coutinho, depois de décadas sem renovação do time da TV Globo fechada, deu mais brilho ao seleto grupo. Em 50 anos de jornalismo global conseguimos formar uma seleção de titulares de futsal, sem banco de reservas.
A considerar o movimento ritmado da carruagem, o enfrentamento ao racismo, bem como outras pautas candentes de direitos humanos, se manterá distante da programação global. Esta é a lamentável, previsível e forçosa conclusão até para pessoas otimistas.
(Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).
Cidinha Silva
Sobre o Autor
Cidinha da Silva, mineira de Belo Horizonte, é escritora. Autora de "Racismo no Brasil e afetos correlatos" (2013) e "Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil" (2014), entre outros.

O ano em que nos proibiram o sonho e a alegria

Cidinha da Silva: O ano em que nos proibiram o sonho e a alegria

dezembro 30, 2015 10:18
Cidinha da Silva: O ano em que nos proibiram o sonho e a alegria
2015 entrará para meu recordatório pessoal como o ano em que a mídia e a oposição politica direitista e corrupta proibiram as pessoas, via coação pessimista e projeção de números negativos, de expressarem alegria, realização e esperança
Por Cidinha da Silva*
O ano se despedia triste porque enxotado pela turma do quanto pior, melhor. Não era um adeus como o dos anos recentes em que as pessoas exoneravam o velho para dar lugar à esperança do novo. Não, dessa vez não.
As lojas estavam abarrotadas, tanto as ruas e feiras simples, nas quais impera o consumo popular, quanto as lojas de grife, passando pelos espaços de consumo dos remediados e medianos. Todo mundo comprando.
Os aeroportos lotados, cheios de populares, suburbanos, periféricos, negros, vejam vocês, negros, para desgosto dos que eram donos dos ares em outros tempos. Como resposta, discriminação racial a passageiros negros. Represália notória pela perda de exclusividade branca nesse meio de transporte.
Mas ninguém discrimina mais impunemente. Contra-ataque dos jovens artistas discriminados em voo da TAM, performance a escancarar a filiação aos que tiveram suas vidas roubadas pela polícia assassina, Cláudia Ferreira, DG, Amarildo, entre tantos.
Os aviões deveriam ser meio de transporte que encurta distâncias, oferecem conforto e celeridade a seus usuários, não é? Mas aqui, no Brasil Mestiço, ainda são objeto de ostentação.
As rodoviárias também lotadas. Os navios não sei, mas devem ter lotação esgotada para cruzeiros. O perfil de tripulantes deve ser igualmente novo. Os resorts e a rede hoteleira das cidades litorâneas tiveram lotação esgotada nos feriados ao longo do ano, não têm reservas disponíveis para o réveillon e meses de verão.
Os movimentos sociais ressurgiram com roupagem renovada e rejeição aos vícios antigos que tentaram manipulá-los. Jovens ocuparam escolas pelo direito de estudar e resistiram à truculência policial do estado de São Paulo. Meninas nos ensinaram o que é o comportamento de uma garota em estado de luta. Encheram nossos corações de júbilo e esperança. Jovens negras e negros travestidos de reivindicações estéticas ousaram gritar pela existência plena e bela. Contudo, ainda assim, ou talvez por isso mesmo, um mormaço abafado e peçonhento reprimiu nosso sorriso. Só falamos da crise política transformada pela mídia em crise econômica.
O velho movimento social também inovou, uniu gerações, fez Brasília e o Brasil abrirem olhos espantados para força motriz das mulheres negras, cujo número de assassinatos cresce assustadoramente a cada ano.
As chacinas contra os jovens negros continuaram a ocorrer de Norte a Sul do país. Muitas. Incontáveis. Apenas temos como resultado oficial 82 homens negros mortos a cada dia, alvo de violência, majoritariamente policial. A novidade é que os jovens sobreviventes, os que escaparam da morte, mas prosseguem na condição de alvo, estão se tornando sujeitos políticos que organizam a resistência. Em marcha pela vida, pela justiça.
As pessoas felizes (sim, elas existem), retraídas, camuflam-se pressionadas pelo medo-imperador, pela patrulha de direita que enquadra até Chico Buarque. Imagine se fazem isso com ele, branco, rico, bem-nascido, intelectualmente considerado, pleno de simpatia e cuidados por parte de quem o ama e tem representatividade política, pense  o que fazem conosco? Essa gente “diferenciada” que eles não querem como clientes dos mesmos aviões. E olha que reagimos, não somos postes, só amarrados ao poste por eles e sua moral seletiva.
Frente a esse estado de coisas tenho a declarar que afora as conquistas pessoais múltiplas e resplandecentes, a superação de questões difíceis, aquelas que janeiro após janeiro não desgrudam do nosso calcanhar; a abertura de novos horizontes, quantas vezes a gente estaciona e não enxerga um palmo a frente do nariz? A realização de sonhos, a gente que passa boa parte da vida sem o direito e sem o hábito de sonhar… Afora tudo aquilo que nos faz avaliar que determinado ano foi melhor do que outros, este 2015 entrará para meu recordatório pessoal como o ano em que a mídia e a oposição politica direitista e corrupta proibiram as pessoas, via coação pessimista e projeção de números negativos, de expressarem alegria, realização e esperança.
*Cidinha da Silva é escritora. Publicou, entre outros,Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013) e Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasi (FCP, 2014). Despacha diariamente em sua fanpage
Foto: Pixabay

29 de dez de 2015

O selfie de Dieckmann e Casé com as empregadas e o contexto sociocultural das domésticas no Brasil

Por Cidinha da Silva


Quando vi a foto de Regina Casé e Carolina Dieckmann com as quatro trabalhadoras domésticas, na casa da primeira, na noite de natal, ratifiquei minha sensação de que Ana Muylaert, diretora de A que horas ela volta, um dos melhores filmes de 2015, acertou em cheio ao escolhê-la para o papel principal. Regina é a cara do Brasil.
As mulheres populares do país têm muitas caras e a de Regina é uma delas. Não nos surpreenderíamos se ela fosse uma das quatro trabalhadoras fotografadas. O mesmo não aconteceria com Carolina Dieckmann se tivesse sido convidada a protagonizar o filme. Embora a diretora tivesse total liberdade para fazê-lo, seria meio inverossímil ou, pelo menos, sua presença obliteraria o vigoroso debate de classe instaurado pelo filme. Seria algo semelhante à Lucélia Santos representando Isaura, a escravizada.
Creio que aqui começa o incômodo causado pela foto e pelo letreiro. Existe um contexto de hierarquia racial que subjaz à imagem que uma parcela do Brasil não deixa mais passar incólume. Pela razão mesma da resistência a que muitas pessoas brancas de hoje não se sintam herdeiras da casa grande, ainda que desfrutem confortavelmente de tudo o que foi construído pelas mãos, pés e cabeças do povo negro escravizado durante 350 anos e que o racismo tratou de assegurar nas mãos brancas devidamente lavadas.
As quatro trabalhadoras domésticas fotografadas evocam os 77 anos de organização sindical das trabalhadoras domésticas, iniciada por Laudelina de Campos Mello, em Santos, SP, na busca de 34 direitos garantidos à maioria das demais categorias de trabalhadores e que só foram parcialmente atendidos pela PEC das Domésticas em 2013. Evocam os 70 anos de atraso em relação às conquistas da CLT.
Elas nos lembram que existem cerca de 8 milhões de trabalhadoras domésticas em todo o país, incluindo adolescentes e crianças, e destas, em torno de 6 milhões não têm carteira assinada e não ganham sequer um salário mínimo. Mesmo que, provavelmente, as trabalhadoras em tela façam parte dos dois milhões que têm os direitos trabalhistas assegurados.
Não conheço Carolina Dieckmann, mas me passa uma impressão excelente. Gosto dela como atriz e avalio bem suas declarações sobre o ofício, educação dos filhos, sobre sua relação com as personagens. Lembro-me de uma que tinha câncer, perdeu o cabelo no tratamento quimioterápico e num determinado momento (não me lembro se a personagem ou a atriz) foi mostrada raspando os cabelos. Foi uma cena belíssima, comovente. Parece ser boa pessoa, a Carolina, e o mesmo se diz de Regina Casé. Não se trata aqui, de abominá-las porque são patroas. Por outro lado, não há também como isentá-las dos sentidos revolvidos pela imagem porque são pessoas legais.
Ademais, além do contexto sociocultural, há duas questões, o selfie itself e o texto que o reforçam. Esses retratos com artistas têm uma lógica própria. Se uma pessoa qualquer pede uma foto para outra, famosa, e trata de postá-la, pode ser uma coisa inofensiva, tipo, “ei, amigos, vejam quem está do meu lado”. Pode ser também uma armadilha como a que Kim Kataguiri armou para Ney Matogrosso, vinculando-o a uma manifestação pelo impeachment da Presidenta Dilma, fato que levou o artista a classificá-lo como imbecil.
Quando é o artista ou celebridade quem tem a iniciativa de postar as fotos tiradas com fãs, pessoas comuns ou trabalhadoras, como no caso das três senhoras e uma jovem, empregadas ou contratadas por Regina Casé, existem mensagens que essas pessoas querem emitir para seus seguidores. Carolina abraça carinhosamente uma das moças. Regina tem a delicadeza de se posicionar ao fundo. As mulheres-trabalhadoras estão na linha de frente. E, convenhamos, devem estar contentes, porque até prova contrária, as duas artistas são pessoas idôneas, boa gente, e quero crer que mantenham relações trabalhistas corretas com as pessoas que lhes prestam serviços.
Então, qual seria o problema? Por que estaríamos chorando de barriga cheia? Trata-se do bendito contexto, sobre o qual já falei. A gente ainda não se recuperou da imagem das babás negras postadas pela Fernanda Lima e de toda a discussão sobre elas protagonizada pela patroa. Tampouco da filmagem da funcionária ou prestadora de serviço que segurava um guarda-sol para proteger a apresentadora de TV, Angélica, da chuva, enquanto ela própria se molhava. Tão semelhante à pintura de Debret, de um escravizado que segurava o guarda-chuva aberto para proteger do sol o escravizador que urinava na rua. Ainda dói na memória também outra imagem das babás de Fernanda Lima colocando os filhos da patroa dentro do carro e permanecendo na chuva, à espera de outra viagem que as recolhesse.
O texto de Carolina Dieckmann diz muito pela falta: “Aqui, com essas lindezas batalhadoras, que fazem tudo tão caprichado e com tanto carinho, que a gente saiu de lá flutuando de amor”. Fofo! Admita! Mas, a gente é chata e pergunta: qual é o nome das lindezas batalhadoras? Ou isso não tem importância?
O nome das senhoras é irrelevante, como o era o nome das empregadas de Luciano Huck e Angélica que trabalhavam com a família quando o helicóptero que transportava o grupo sofreu uma pane? É isso? Tá bom, tá bom! Era mensagem do Instagram. Precisava ser curta. Afinal, uma imagem vale mais que mil palavras.

27 de dez de 2015

Internet impulsionou surgimento de um novo feminismo



Publicado há 1 minuto - em 27 de dezembro de 2015 » Atualizado às 10:16 
Categoria » Questões de Gênero
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Redes sociais ajudaram a divulgar campanhas que chegaram às ruas
Foram necessários 29 anos para que uma mulher voltasse a receber o título de personalidade do ano da revista norte-americana Time. Angela Merkel, chefe do governo alemão e uma das mais importantes líderes da política mundial na atualidade, se tornou a quarta mulher a receber o título desde a criação da honraria, em 1936. Marcado por discussões sobre a violência de gênero e por manifestações populares por igualdade e equidade, 2015 se despede com a inspiração da “mulher mais poderosa do mundo” e o alerta dado pelo Fórum Econômico Mundial de que serão precisos 118 anos para que mulheres e homens recebam o mesmo salário para cargos idênticos.
Nas redes sociais, dezenas de campanhas foram criadas para combater o abismo social e a violência de gênero. Em uma das primeiras mobilizações do ano, centenas de homens da Turquia e do Azerbaijão posaram de saia para demonstrar repúdio à morte da estudante Ozgecan Aslan, de 20 anos, assassinada em 11 de fevereiro, após ser atacada por um motorista de ônibus. Mais de 6 milhões de tuítes com o nome de Ozgecan foram publicados desde então, muitos com histórias de outras vítimas inspiradas a revelar suas memórias.
Três homens acabaram condenados à prisão perpétua pelo caso, e autoridades se viram forçadas a reconhecer o problema da violência no país. “É um julgamento simbólico para todas as mulheres vítimas de violência. Nossa luta por igualdade e por liberdade não termina aqui”, disse, à época, a parlamentar turca Meral Danis Bestas.
O assassinato da estudante grávida Chiara Arroyo, de 14 anos, pelo namorado de 16, que contou com a ajuda dos pais para enterrá-la no jardim, despertou um movimento ainda maior na Argentina. Nascia ali a mais expressiva mobilização do país contra a violência machista, o #NiUnaMenos (“Nem uma a menos”), que em 3 de junho reuniu 300 mil pessoas na Praça do Congresso, em Buenos Aires, para exigir políticas contra o feminicídio. A então presidente, Cristina Kirchner, se uniu às manifestações, ato acompanhado por diversos políticos, entre eles, o líder recém-empossado, Mauricio Macri, que se comprometeu com cinco demandas apresentadas pelo movimento.
Após nove mulheres serem mortas em casos de violência de gênero e depois do assassinato de uma líder transgênero, os argentinos organizaram, no mês passado, a #UnoMasXNiUnaMenos, um chamado para que os homens do país assumissem a responsabilidade de lutar contra esse tipo de crime. “Queremos exigir a nós mesmos desta vez. Não ao Estado ou à Justiça”, resumiu um dos manifestantes, em entrevista a um periódico local.
#SexismoDiárioA facilidade da comunicação pela internet fez surgir “um novo feminismo”, explica a historiadora e pró-reitora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Joana Maria Pedro. Ela ressalta como as ativistas de hoje “têm menos reservas, são mais diversificadas” e usam as redes sociais como meio de conscientização. “Muitas meninas nem chamam de feminismo, mas têm a clareza de seus direitos”, observa.
As demandas vão além da luta contra a violência física. Para desafiar a ideia de que “homens e mulheres têm direitos praticamente iguais”, uma campanha que começou no Reino Unido há três anos reuniu milhares de relatos de todo o mundo sobre situações corriqueiras com a tag #EverydaySexism (sexismo diário). Desabafos semelhantes ganharam força entre os brasileiros em 2015. No país, onde uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, de acordo com dados coletados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o debate de gênero nunca esteve tão presente. A questão foi tema do último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e de discussões promovidas pelas hashtags #PrimeiroAbuso e #MeuAmigoSecreto.
“Por aqui, o feminismo entrou mesmo na pauta”, afirma a pesquisadora Cristina Scheibe Wolff, do grupo Fazendo Gênero. “Mas isso parece ser uma reação a uma postura contrária ao feminismo. As mulheres latinas têm muito ainda pelo que lutar”, completa.
Encorajadas pela famosa apresentação da escritora Chimamanda Ngozie Adichie na conferência TEDx talk de 2013 — intitulada “Sejamos todos feministas”, que teve trechos remixados pela cantora Beyoncé —, mulheres nigerianas também usaram as redes sociais para reivindicar direitos e contar suas versões sobre a rotina no país. Em junho, após a reunião de um clube de leitura que discutiu Adichie, um grupo lançou a hashtag #BeingFemaleInNigeria, que rapidamente se transformou em trending topic local do Twitter — um dos assuntos mais comentados na rede social.
Foi pela internet também que indianas, mais conscientes de seus direitos depois da convulsão popular de 2012 e 2013, pressionaram as autoridades por mudanças no código penal, em resposta ao estupro coletivo de uma jovem estudante. Além de abordarem um tema considerado tabu, elas disseram estar #HappyToBleed (“Felizes em sangrar”) para protestar contra um templo que impede a entrada de mulheres menstruadas.

26 de dez de 2015

Retrospectiva em preto e branco, sem blackface!


Por Cidinha da Silva

Nos últimos cinco anos no Brasil, o debate racial vem ganhando a cena da vida comum, rompendo os limites dos movimentos sociais, notadamente do movimento negro clássico. O tema se expande e se consolida na agenda de direitos humanos, na perspectiva de garantia do direito fundamental de viver sem racismo.

Também os muros do debate acadêmico têm sido ultrapassados. O debate policial faz movimentos brandos de destaque do matiz de raça tão negado, mas, eficazmente acionado nas situações de arbítrio e violência que abatem 82 homens negros por dia e um número ascendente de mulheres negras, segundo informa o Mapa da violência 2015.

O principal responsável por evidenciar a supressão da vida da pessoa negra no país é o Movimento Negro em sua ação diuturna de enfrentamento ao racismo, em todas as instâncias, circunstâncias, espaços tradicionais e novos. Muitas vezes invisibilizado, negligenciado, mas, sempre ali, no front.

A novidade do momento são as redes sociais e seu caráter amplificador. Elas funcionam como teias e espalham fios que chegam a pessoas e lugares não imaginados. São blogues, contas no Twitter, perfis no Facebook, fanpages e outras redes que potencializam portais de notícias feitos pelo protagonismo negro. São ativos igualmente os coletivos virtuais que produzem intervenções diversas, de reflexões temáticas e produção de notícias à organização de manifestações públicas que arregimentam grande número de pessoas, como as marchas do orgulho crespo.

Aliado a isso, os portais com orientação política de esquerda e alguns periódicos digitais e impressos, também progressistas ou dedicados à defesa de direitos humanos têm dado abertura para a reflexão racial. Decorrem daí duas ações interessantes: a primeira, de acolhimento às novas incursões de seus próprios articulistas sobre o racismo, ou mesmo sugestão de pautas raciais a eles, de acordo com a temperatura da notícia. A segunda, materializada na cessão de espaço e até na contratação de pessoas negras (afrocentradas) como articulistas. Graças ao trabalho destas mulheres e homens, as vítimas das chacinas, negras e periféricas, têm saído da condição de meros corpos sem história engavetados no IML.

Mas é preciso ir além, pelo menos em quatro aspectos: a desnaturalização das práticas racistas; a qualificação e efetividade da denúncia; a criminalização da discriminação racial e a continuidade da atenção às denúncias quando se transformam em processos criminais contra práticas de racismo.

A imprensa digital de maneira equivocada (ou intencional?) tem se atido à superficialidade dos fatos, a aspectos politicamente corretos e ao potencial de comoção e convulsão de humores (refletidos nas curtidas e compartilhamentos) de casos de discriminação racial nas relações interpessoais, quase sempre no limiar da fofoca. São casos que envolvem artistas, celebridades e aspirantes a celebridades, ou pessoas comuns que, tanto na visão de certos órgãos noticiosos, quanto aos olhos da maioria dos comentadores on line, ganham verniz celebrativo porque migram do anonimato da vida ordinária para as milhares de visualizações na tela dos aparelhos digitais.  

Por outro lado, o espaço para debater o racismo em suas dimensões institucionais e estruturais na sociedade brasileira, por exemplo, a atenção necessária aos mecanismos que determinam nossa passividade frente ao genocídio da população negra, tem sido, intencionalmente, me parece, insuficiente.  Pífio, mesmo.

25 de dez de 2015

Não existe bolha para proteger do racismo

Por Cidinha da Silva


Mais um caso de racismo ganha milhares de curtidas no Facebook, que servem tanto para dizer que se gosta de algo, quanto para dizer que não se gosta, mas acha-se justo apoiar a causa e fazer reverberar o fato ou a reflexão. Também de compartilhamentos. Estes parecem indicar um pouco mais, desejam que mais pessoas tomem ciência daquilo que importa a quem lê e compartilha.

Uma criança negra de nove anos, filha de uma família branca, vai até o balcão de uma loja de doces em um shopping de grife escolher guloseimas, num exercício salutar de autonomia, enquanto mãe e avô brancos a aguardam assentados. Qual não é a surpresa da mãe quando à sua frente uma das atendentes da loja expulsa a filha do local, sob alegação de que ela não poderia “pedir ali, não poderia incomodar as pessoas”.

A mãe reage, grita com a atendente e talvez tenha lançado mão de sua superioridade de classe para colocar as coisas nos devidos lugares e proteger a filha negra de um episódio racista. Sim, episódio, porque, segundo a mãe, a filha negra que integra família de boas condições econômicas nunca sofrera racismo antes e vive em uma “bolha”. Entretanto, a mãe indaga solidária e indignada, “e as outras crianças negras que não gozam dessa proteção”?

Ora, as outras estão tão expostas quanto a menina discriminada da narrativa. A bolha não existe. Ela é criada pela ilusão de quem julga ter poderes para impedir a ação do racismo, de eliminá-lo pela boa educação, acesso a bens culturais e poderio econômico, oferecidos aos filhos negros.

A atendente discriminadora se esconde. Terá sorte se não perder o emprego. Em qualquer país sério no combate ao racismo, ela perderia, mas ali, deve seguir as normas de comportamento da casa em relação a crianças negras, segundo as quais, até que se prove o contrário, são ameaçadoras e esfomeadas pedintes. Acresça-se à receita a moral burguesa do trabalho que dignifica as pessoas, logo, se as crianças negras quiserem comer doces nobres, que trabalhem e arranjem dinheiro para comprá-los.

Todo o barulho feito na Web, principalmente no contexto brasileiro, não significa banalização dos eventos racistas, como podem julgar os apressados e os saudosos do silêncio cúmplice da democracia racial.

Mas, de nada adiantará insistir na bolha ou tratar a pergunta da criança como artifício de retórica e frase chamativa no Twitter.  O desespero da mãe para proteger a filha negra é compreensível, contudo, é imperativo responder de maneira assertiva, corajosa, educativa e íntegra à pergunta da criança, “mãe, isso (ser tratada como criança abandonada, cuja fome de vida estampada no rosto incomoda às “pessoas de bem”) também acontece com os brancos”?