Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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27 de jun de 2014

Parabéns pra você!

Por Cidinha da Silva



Se a carta é escrita como peça literária, posso me furtar de dizer um nome e nem por isso o texto será de um amor que não ousa dizer o nome, certo Wilde? 

Nestes tempos de exposição insana dos afetos em busca de crédito, visibilidade, audiência e repercussão, é exercício de esgrima fazer poesia. E quem prima por valores mais ligados à casa, à família, ao íntimo desvinculado das conquistas simbólicas de poder tão caras a tantas outras pessoas, se assusta e se retrai no jogo de aparências e estímulo às declarações midiáticas de apreço e as cobranças públicas destas declarações, uma sentença, não uma escolha. E, nesses casos, caro Wilde, a declaração de amor mais pura consiste em ser a sentinela que guarda o nome.

Mira, Wilde, o texto preferido por ela é curto, então preciso cuidar para não me estender. Apenas queria dizer que, entre as coisas todas que dela emanam, o jeito leal e desinteressado de amar as pessoas, de compreender suas histórias e a capacidade de fazer autocrítica e se refazer, são as que mais me encantam.

Pronto, caro Wilde, disse tudo o que precisava ser dito. O mais é viver e não ter vergonha de ser feliz ao passear de catamaran pelos rios da cidade natal relembrando a infância. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser uma eterna aprendiz. Eu sei, Cidinha, a vida devia ser bem melhor, e será! Mas, isso não impede que eu repita, é bonita! É bonita e é bonita!

25 de jun de 2014

Luisito, el vampi, ataca outra vez

Por Cidinha da Silva


Existem formas e formas de dar vazão ao espírito bélico de um guerreiro. Honrar os ancestrais guarani que modulam a agressividade de um rosto, por meio de gestos simples e nobres de respeito aos companheiros de profissão pode ser uma delas.

Luisito, ao contrário, prefere ser (ou só consegue ser) uma bomba-relógio feita à pólvora de racismo, violência e canibalismo, tingida por boa técnica para camuflar o tic-tac, o tatibitati, o desespero de mais um homem em conflito com a própria masculinidade, convulsionado por sentimentos devastadores, com os quais não sabe lidar, para os quais não busca ajuda.

Mas, não há como condoer-me, é muito cruel em suas metáforas, o tal Luisito. Aos negros, cuja origem socioeconômica é parecida com a sua (dizem que ele foi um menino extremamente pobre em Salto, sua cidade natal, e venceu na vida pelo futebol, como inúmeros meninos mundo afora), ele reserva o desprezo, a humilhação e a violência física como expressões do racismo que os afasta de seu corpo supostamente superior, aos chutes. Aos negros ele recusa aperto de mãos no início de uma partida.

É líquido e certo que os defensores do atacante dirão que Luisito agrediu apenas um negro, o francês Evra.  Poderão dizer mais, Evra é europeu, mesmo sendo senegalês, e Luisito, um pobre latino-americano massacrado pela imprensa e pela cultura anglo-saxônica. Pobrecito! O caso é que não é necessário matar 10 gays ou 10 mulheres para que um crime seja caracterizado como homofobia ou feminicídio, basta investigar e explicitar a motivação de ataque a pessoa única, porque é gay, lésbica, mulher, negro.  

Aos brancos, por sua vez, Luisito devota a violência reincidente da mordida. Quer comê-los, engoli-los, capturar a brancura deles dentro de si, talvez como recurso atávico e macabro da crença canibalista de que ao chupar-lhes o sangue, ao mastigar-lhes a carne, el vampi adquiriria todas as qualidades do branco, festejadas pela supremacia branca. Quem sabe, o sangue branco ingerido pudesse até apagar as origens indígenas expressas em seu corpo latino-americano, talvez afro-latino-americano (os pelo duro costumam ter pavor dos ancestrais negros). Quiçá, ao arrancar dos brancos nacos de carne e gotas de sangue,  Luisito realize o sonho de tornar-se um deles. 

24 de jun de 2014

Uma Historinha de São João

Por Cidinha da Silva

Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo, olha praquele balão multicor, como no céu vai sumindo (...)
 Saí para comprar tempero e voltar logo ao preparo das postas de peixe que me aguardavam pegando gosto no limão. Passou por mim uma garotinha de uns nove anos e me abriu um sorriso de quem troca dentes de cima de sua bicicleta. A senhorita simpatia me pegou tão de surpresa que não retribuí ao riso de pronto. 
Ela pedalou uns metros na direção contrária à minha e depois voltou, sorrindo de novo. Tirou um papelzinho do bolso, estendeu para me dar e disse baixinho "Feliz São João!” Tocada pela espontaneidade do gesto peguei o papel singelo. Sorri. Agradeci. Disse que o desenho do pequeno balão era lindo (em verde e rosa, ainda por cima) e guardei-o no bolso. 
Meu coração sudestino entendeu, naquele momento, que a gente urbana do lado de baixo do país não tem ideia do que seja o São João para o povo do lado de cima. É uma festa da alma. São rezas, profanidades, comilança e espírito de solidariedade.
 Na vendinha, procurei uma caneta bonita para dar de presente à garota, mas não havia nem Bic. Comprei então umas balas pra'quele anjo/erê. Olhei a rua e a encontrei encostada em sua bicicletinha, observando os jogadores de vôlei. A seu lado, um guardião, pretendente a namorado, primo ou irmão, não sei. O caso é que me dirigi a ela e disse: “Posso lhe dar uma coisa também?” Ela sorriu um sorriso enorme de quem tinha os dois dentões da frente emparelhados com caninos ainda de leite, e pegou as balas. É lógico que eu tinha um segundo punhado de balas na outra mão e tratei de oferecê-las ao guardião, que, desconfiado, aceitou. 
Um rapagão do vôlei ficou olhando para ver do que se tratava. Um distinto senhor assentado na varanda da casa, em frente da qual tudo se passava, também. Vi que eles cuidavam da cena e estavam certíssimos, mas não liguei para as atenções deles. Afinal, nada de mal acontecia. Era só nossa cumplicidade à luz do dia, para quem quisesse ver (Do livro Cada Tridente em seu lugar, de 2006).

23 de jun de 2014

Unidade latino-americana sem negros não serve



por Cidinha da Silva*

Por que você me chutou? Pergunta Evra, lateral do Manchester United. Porque você é negro! Responde Luís Suarez, jogador do time adversário, o Liverpool, em partida do campeonato inglês, logo depois da Copa de 2010. A conversa prossegue ríspida e Evra ameaça agredir Suárez, caso ele continue chamando-o de negro. Suárez conclui irônico: eu não falo com negros!

A atitude racista do jogador uruguaio está detalhadamente registrada em 115 páginas de processo da Federação Inglesa de Futebol, nas quais ele alegou que chamou Evra de negro de maneira amigável e conciliatória. Como não se tratava de contexto latino-americano onde o racismo é tolerado e relativizado, onde a palavra racismo é eliminada do discurso, ao tempo em que se fortalecem e reinventam as práticas racistas, não colou. Suárez foi banido do futebol por oito jogos, multado em 40 mil euros, proibido de pronunciar a palavra negro no futuro.

Perdoem-me Mujica, Beatriz Ramirez, Elizabeth Soares, Romero Rodrigues, Mizangas, Mundo Afro, mas não há ufanismo latino-americano que desvie meu olhar de um jogador racista, mesmo que a imprensa queira imputar-lhe contornos épicos como artilheiro da brava Seleção Uruguaia. Aliás, como sabemos todos, a decantada unidade latino-americana pouco ou nada inclui os negros, seja nas obras dos grandes pensadores de América Latina, seja na atuação de ativistas políticos sensíveis ao genocídio indígena nas Américas, mas blindados quanto ao genocídio negro, de ontem e de hoje.

Luís Suarez é um racista desprezível, não posso vê-lo de outra forma. Por isso, entre a Itália racista e o Uruguai de Suárez, sou Barwuah, o filho de migrantes ganenses que se fez Balotelli na terra de Mussolini.

* * * * * * * 

 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

22 de jun de 2014

Rose Marie Muraro: a saga de uma mulher impossível

Por Leonardo Boff

No dia 21 de junho concluíu sua peregrinação terrestre no Rio de Janeiro uma das mulheres brasileiras mais significativas do século XX: Rose Marie Muraro (1930-2014). Nasceu quase cega. Mas fez desta deficiência o grande desafio de sua vida. Cedo intiuíu que só o impossível abre o novo; só o impossível cria. É o que diz no seu livro Memórias de uma mulher impossível (1999,35). Com parquíssima visão formou-se em física e economia. Mas logo descobriu sua vocação intelectual: de ser uma pensadora da condição humana especialmente da condição feminina. Foi ela que no final dos anos 60 do século passado, suscitou a polêmica questão de gênero. Não se limitou à questão das relações desiguais de poder entre homens e mulheres mas denunciou relações de opressão na cultura, nas ciências, nas correntes filosóficas, nas instituições, no Estado e no sistema econômico. Enfim deu-se conta de que no patriarcado de séculos reside a raíz principal deste sistema que desumaniza mulheres e também homens.
Realizou em si mesma um impressionante processo de libertação, narrado no livro Os seis meses em que fui homem (1990,6ª edição). Mas a obra quiçá mais importante de Rose Marie Muraro tenha sido Sexualidade da Mulher Brasileira: corpo e classe social no Brasil (1996). Trata-se de uma pesquisa de campo em vários Estados da federação, analisando como é vivenciada a sexualidade, tomando em conta a situação de classe das mulheres, coisa ausente nos pais fundadores do discurso psicanalítico. Neste campo Rose inovou, criando uma grelha teórica que nos faz entender a vivência da sexualidade e do corpo consoante as classes sociais. Que tipo de processo de individuação pode realizar uma mulher famélica que para não deixar o filhinho morrer, dá o sangue de seu próprio seio? Trabalhei com Rose por 17 anos como editores da Editora Vozes: ela responsável pela parte científica e eu pela parte religiosa. Mesmo sob severo controle dos órgãos de repressão millitar, Rose tinha a coragem de publicar os então autores malditos como Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso Paulo Freire os cadernos do CEBRAP e outros. Depois de anos de longa discussão e estudo em conjunto reunimos nossas convergências num livro que considero seminal Feminino & Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças (Record 2010). Destaco apenas uma frase dela:”educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade”.
Sem deixar nunca de lado a questão do feminino (no homem e na mulher) voltou-se cedo aos desafios da ciência e da técnica moderna. Já em 1969 lançava Autonomação e o futuro do homem e previa a precarização do mundo do trabalho.
A crise econômico-financeira de 2008 levou-a colocar a questão do capital/dinheiro com o livro Reinventando o capital/dinheiro (Idéias e Letras 2012), onde enfatiza a relevância das moedas sociais e complementares e as redes de trocas solidárias que permitem aos mais pobres garantirem sua subsistência à revelia da economia capitalista dominante.
Outra obra importante, realmente rica em conhecimentos, dados e reflexões culturais se intitula Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade: querendo ser Deus? (Vozes 2009). Neste texto ela se confronta com a ponta da ciência, com a nanotecnologia, a robótica, a engenharia genética e a biologia sintética. Vê vantagens nessas frentes, pois não é obscurantista. Mas pelo fato de vivermos dentro de uma sociedade que de tudo faz mercadoria, inclusive a vida, percebia o grave risco de os cientistas presumirem poderes divinos e usarem os conhecimentos para redesenharem a espécie humana. Daí o sub-título: Querendo ser Deus? Essa é a ingênua ilusão dos cientistas. O que nos salvará não é essa nova Revolução Tecnológica mas, como diz Rose, é a “Revolução da Sustentabilidade, a única que poderá salvar a espécie humana da destruição…pois a continuarmos como está, não estaremos em um jogo ganha-perde e sim no terrrivel jogo perde-perde que significará a destruição de nossa espécie, na qual todos perderemos”(Reinventando o Capital/dinheiro, 238).
Rose possuía um sentimento do mundo agudíssimo: sofria com os dramas globais e celebrava os poucos avanços. Nos últimos tempos Rose via nuvens sombrias sobre todo o planeta, pondo em risco o nosso futuro. Morreu preocupada com as buscas de alternativas salvadoras. Mulher de profunda fé e espiritualidade, sonhava com as capacidades humanas de transformar a tragédia anunciada numa crise purificadora rumo a uma sociedade que se reconcilie com a natureza e a Mãe Terra. Conclui seu livro Os avanços tecnológicos com esta sábia frase:”quando desistirmos de ser deuses poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que é, mas que intuímos desde sempre”(p. 354).
Proclamada a 30 de dezembro de 2005 oficialmente pelo Presidente, Patrona do Feminismo Brasileiro e com a criação da Fundação Cultural Rose Marie Muraro em 2009 deixará um legado de fecundo humanismo para as futuras gerações. Rose Marie Muraro mostrou em sua saga pessoal que o impossível não é um limite mas um desafio. Ela se inscreve na linhagem das grandes mulheres arquetípicas que ajudam a humanidade a preservar viva a lamparina sagrada do cuidado por tudo o que existe e vive. Nesse afã ela se tornou imorredoura.
Leonardo Boff trabalhou na Ediora Vozes por 17 anos junto com Rose Marie Muraro

19 de jun de 2014

O brasileiro comum e o bumbum do Hulk!

Por Cidinha da Silva



O mundo masculino em suas versões machista e masculinista está em cólicas. Por motivo muito previsível, a exposição na vitrine consumista dos corpos de um belo espécime do gênero, publicamente desejado por milhares de fãs que destacam uma das partes de seu corpo atlético, as nádegas avantajadas, desenhadas e bonitas, incomuns aos homens ordinários.

Mas, sejamos sinceras, a bunda é apenas uma parte, a mulherada quer degustar centímetro por centímetro do corpo do boleiro Hulk e também as características outras que contribuem para aumentar o fetiche despertado pelo guapo, a saber: a tranquilidade para falar; a sagacidade para responder a questiúnculas de repórteres que pretendem fazer chacota dos nordestinos; certa timidez quando seu sex appeal é abordado nas coletivas de imprensa; certa economia nos gestos em contraste com o corpo enorme; a lealdade na hora do jogo, ao escolher não pisotear o adversário com o porte físico descomunal. Como é sabido, quando se trata de opção sexo-afetiva, a maioria das mulheres quer saborear o todo, mesmo que enfatize parte.

Os machistas estacaram na pré-adolescência, quando perscrutavam o pênis do vizinho no mictório para medir o tamanho. Eles se rasgam de ciúme, inveja e ressentimento porque outro homem que não eles, é desejado. Eles (em delírio machista) conseguem achar que “têm tudo” o que Hulk tem e as mulheres que endeusam seu corpo e o admiram “sofrem de falta de homem.” Falta que, no ápice do delírio, eles acham que poderiam suprir, já que, para eles, lepo lepo é sempre a mesma coisa.

Por sua vez, os masculinistas, machos com algum verniz intelectual, sacaram um papo de que as mulheres não poderão mais reclamar da objetificação do corpo da mulher, porque estas estariam objetificando os homens ao enaltecer a bunda do Hulk. Raciociniozinho tosco: como é possível opor uma ação isolada ou pequena, ínfima (mesmo que certo número de mulheres transforme homens de clubes de mulheres e festas privê em peças de carne para admirar, fantasiar, morder e beliscar) quando comparada a décadas de reificação do corpo da mulher em revistas e cines pornôs, na publicidade de produtos consumidos por homens, nos campos de futebol e outros esportes, nos quais os homens predominam? Décadas de esquartejamento em pedaços para consumo in natura? Outra vez se manifestam o recalque, o ciúme e a inveja, acrescidos da presunção de que para satisfazer uma mulher (independentemente de sua orientação sexual, inclusive), qualquer  corpo de homem serve, desde que tenha um pênis, ainda que em precário estado de funcionamento e conservação.

Entretanto, para salvação das mulheres heterossexuais, nem todos os homens são tolos alocados nesses dois grupos. Existem os homens transversalizados pelo feminismo que não se sentem intimidados pela corporeidade fulgurante de outro homem, não estão nem aí para ela. Homens que não estão em disputa com o Hulk, porque o boleiro-guapo tem seus dotes e cada homem seguro tem os próprios. Homens que não se importam que as mulheres, mesmo as que estão a seu lado, desejem outros homens, porque, afinal, eles também desejam outras mulheres e isso é uma questão íntima de cada pessoa. Homens que compreendem que as mulheres têm o direito de tornar públicas suas fantasias, predileções, de explicitar seus desejos, de dar nome ao que gostam e como gostam.

Homens que riem dos machos que, ao ler essa crônica, vão chamá-los de “veados” e afirmarão que homem-macho que se preza continua querendo a mulher no chinelo. Só restará o riso de escárnio, porque, homem de valor gosta de mulheres, gosta mesmo, e quer conviver com elas, de preferência, felizes, plenas e satisfeitas. 

18 de jun de 2014

Uma menção feita pelo Ferréz ao trabalho de Cidinha da Silva no El País é quase um gol!

Gol de letra


Quando o assunto é futebol, a cobrança para que o Brasil renda bons resultados no gramado, especialmente durante uma Copa do Mundo, se estende ao campo da literatura. É comum escutar da boca dos críticos ou de meros provocadores que a maestria brasileira com a bola não se repete com os livros sobre o universo futebolístico. A discussão soa ingênua – afinal por que é que a literatura deve dar conta, sistematicamente, dos ‘talentos’ de um país –, mas o fato é que, há algum tempo e cada vez mais, jogamos bonito também nos livros.
Desde que o futebol se enraizou em seu solo, há obras literárias brasileiras muito relevantes sobre esse esporte. Historicamente, os títulos que maior relevância e fama alcançaram são os de não ficção, mas não faltam boas referências em narrativas. Se falamos de crônica, gênero que costuma sofrer certo preconceito, a riqueza é ainda maior. A relação entre futebol e literatura perpassa, com diferentes olhares e níveis de envolvimento, a obra de renomados autores brasileiros como Mário de Andrade, Alcântara Machado, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Luís Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão e Sérgio Sant’Anna. ­No entanto, encontra seu ápice na crônica do dramaturgo Nelson Rodrigues, um autêntico carioca que nasceu fora do Rio de Janeiro, e de seu irmão, o jornalista e escritor Mário Filho.
Nelson é o nome mais influente na tradição da crônica de futebol no Brasil, enquanto Mário (que inventou o gênero no país) é autor de “O negro no futebol brasileiro” ­– um verdadeiro clássico que explica a origem do futebol-arte no Brasil, tocando temas imprescindíveis como o racismo, e que foi reeditado em inglês às vésperas do torneio para ser distribuído aos jornalistas internacionais. Ambos enxergavam no futebol uma manifestação cultural e sociológica da nação, muito além de um mero jogo. “O pior cego é o que só vê a bola”, dizia Nelson Rodrigues, famoso por sua acentuada miopia.
Com as ondas levantadas por um Mundial, é claro que a curiosidade futebolística se acentua. E autores e editores aproveitam para oferecer ao mercado novas histórias e análises sobre jogos, jogadores, times e campeonatos, com suas dores e delícias. Se de século XXI se fala, há os livros de Sérgio Rodrigues, Michel Laub, André Sant’Anna e Marcelo Backes, com romances; e José Miguel Wisnik, Ruy Castro e Airton de Farias, com seus relatos e ensaios de interpretação. Na seara do conto, nomes bacanas como Rogério Pereira, Ronaldo Correia de Britto, Fernando Bonassi, Cristóvão Teeza, Eliane Brum, Adriana Lisboa e Carola Saavedra fazem parte de uma antologia de textos inéditos organizada por Luiz Ruffato.

A partida dos escritores

O melhor da inserção do futebol na literatura reside nas histórias que dão conta das contradições brasileiras ao redor da bola. O jogo sempre suscitou no país dicotomias de amor e ódio, pobreza e elitismo, racismo e mescla social – e por aí vai. Nada mais atual que essas e outras discussões, calorosas já de antes e, também agora, durante a Copa.
Para o jornalista e escritor carioca Sérgio Rodrigues, autor de O Drible, romance em que o talento de craques do passado se opõe ao mercantilismo do jogo de hoje, “o futebol é uma narrativa pronta, tem o drama na própria história do jogo e do jogador”. Essa rica matéria de que é feito o esporte pode costurar as mais complexas tradições, mas também intimidar autores que se assustam com tanta autossuficiência. Seu livro foi bastante elogiado e já traduzido ao espanhol, ao francês e ao dinamarquês.
O poeta, contista e romancista paulistano Ferréz, ligado à produção literária da periferia de São Paulo, diz que odeia futebol, mas escreve sobre o tema em seu blog e nas redes sociais. São textos breves e poéticos, “motivados pela raiva que sinto por essa Copa”, em que ele nega a tradição de “país do futebol”: “Isso foi plantado. Ninguém está preocupado, está todo mundo pagando conta”, afirma.

Futebol e literatura: uma seleção

Quando é dia de futebol, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras)
O negro no futebol brasileiro, de Mario Filho (Mauad)
A pátria de chuteiras, de Nelson Rodrigues (Nova Fronteira)
Veneno remédio - O futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik (Companhia das Letras)
O drible, de Sérgio Rodrigues (Companhia das Letras)
Segundo tempo, de Michel Laub (Companhia das Letras)
O paraíso é bem bacana, de André Sant’Anna (Companhia das Letras)
O último minuto, de Marcelo Backes (Companhia das Letras)
Entre as quatro linhas – Contos sobre futebol, de Luiz Ruffato (Dsop)
Os garotos do Brasil – Viagem à identidade secreta dos nossos craques, de Ruy Castro (Foz)
Uma história das Copas do Mundo - Futebol e sociedade, de Airton de Farias (Armazém da Cultura)
Segundo ele, a boa literatura brasileira sobre futebol reside no trabalho de escritores periféricos, que “não têm esse ufanismo e não falam do jogador ou do clube e sim dos sentimentos das pessoas” – personagens que gostam de futebol, mas que vivem a realidade e não a ‘farsa’ do país do futebol. São autores como Michel Yakini, Cidinha da Silva e Marcos Telles.
Realmente, o assunto tem tudo para extrapolar a página. Tanto para Ferréz, como para Rodrigues, o Brasil não deveria ter se candidatado a sediar o Mundial. “Essa relação entre futebol, política, eleição, poder e FIFAnão nos traz nada. O que vai acontecer é que o país vai parar vários dias e deixar de andar pra frente. E a presidenta diz que o povo vai ficar com os estádios... Só faltava os estrangeiros levarem os estádios com eles”, alfineta o primeiro.
Rodrigues é mais brando, mesmo tendo críticas: “Uma vez que entrou, o país tem que fazer a Copa da melhor maneira. Mas o clima anda pesado pelo show de incompetência que demos para sediar o evento. As pessoas estão ressabiadas, e o orgulho nacional de ser um país de vencedores no futebol ficou obscurecido pelos problemas. Podemos até ganhar, mas permanece essa imagem negativa”, opina.
O jornalista e escritor carioca Ruy Castro, autor de uma biografia do Garrincha e do recém-lançado “Os garotos do Brasil – Um passeio pela alma dos craques”, é um apaixonado por futebol que, no entanto, faz coro a esse “complexo de vira-lata” ­– expressão cunhada no passado por Nelson Rodrigues para designar certo sentimento de inferioridade do brasileiro, em oposição à sua fama positiva no futebol. “Nunca o Brasil encarnou tanto o complexo de vira-lata quanto atualmente. E, de certa maneira, nunca [o país] nos deu tantos motivos para isso”, disse.

17 de jun de 2014

Dilma e Joaquim: uma mulher e um homem negro no poder




por Cidinha da Silva*

Dilma é mulher e por isso, mesmo na condição de chefe de estado, foi alvo de xingamentos de ordem sexual durante a abertura da Copa do Mundo no Brasil, oriundos da ala VIP, onde se empoleiram os endinheirados beneficiados por ingressos gratuitos, simplesmente porque sua presença enobrece os eventos.

Passados os xingamentos orquestrados pela elite econômica e cultural branca presente ao estádio, a Presidenta foi defendida por mulheres (nenhuma surpresa) e parcos homens que o fizeram mais por respeito a uma senhora (símbolo da mãe, da mulher de família), do que por compreenderem de maneira profunda o teor destrutivo das representações sexistas que estão na base da alastrada e duradoura violência contra a mulher e do feminicídio, recurso vil empregado por aqueles que não atribuem qualquer valor às mulheres e à sua vida, justamente por serem mulheres e por isso, matam-nas ao mínimo sopro contrário à vontade do macho soberano.

Joaquim é um homem negro, dirigente da mais alta corte de justiça do país, achincalhado por uma entidade de classe porque um advogadozinho, membro da entidade, em busca dos holofotes destinados aos factoides políticos, desrespeita o Presidente do STF, ameaça “pegá-lo” na rua, grita dentro do Tribunal, não aquiesce ao chamamento ao equilíbrio, ao respeito às pessoas, às regras de boa conduta e à casa. Joaquim é um homem negro íntegro que reage, faz valer sua autoridade como Presidente do STF, não capitula diante dostatus quo que tenta acuá-lo na camisa de força de um dito temperamento irascível.

Pedagógico é observar como até a masculinidade de Joaquim é subalternizada por seus detratores, pois, de que outro homem, senão de um homem negro, se esperaria a recepção passiva a um homem (branco) que lhe pusesse o dedo no nariz e o ameaçasse em seu próprio posto de comando? Ademais, soube-se mais tarde, pelo depoimento dos seguranças que interceptaram a ação midiática do advogado, que ele estava visivelmente alcoolizado e que, se estivesse armado, “atiraria na cara do Presidente”. Mas, ainda assim, a entidade de classe conseguiu igualar a reação correta, altiva e preventiva de Joaquim Barbosa a práticas da ditadura civil-militar, porque, aos olhos deles, o homem de masculinidade subalternizada é quem deveria aquiescer diante um sujeito qualquer.

Dilma e Joaquim têm em comum a ocupação de um lugar inusitado de poder e o desconserto generalizado causado pela presença de ambos nesse lugar. A escória elitista não os engole porque são exemplo positivo para a raia miúda, porque as meninas hoje brincam de ser Presidenta, vestem as bonecas como Dilma e as bonecas presidem. Porque Joaquim Barbosa inspira milhões de mulheres e homens negros. Porque ele representa a possibilidade real de que pessoas negras ocupem postos de comando e promovam transformações simbólicas e concretas na vida material e na expectativa de uma vida melhor para os seus.

* * * * * * *

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

12 de jun de 2014

Lençóis


Para o dia das namoradas!




Duas mulheres numa rua íngreme
Por Cidinha Da Silva
A moça iniciava a descida da ladeira e o vento cortava fino, de baixo para cima. O salto era alto, tanto quanto a nobreza a equilibrar-se sobre ele. A dúvida da assistência era se a saia de tecido fino, seda, talvez, em tons de verde e azul, resistiria à inclemência do vento. A torcida inconfessável dos homens era para que sucumbisse e a saia se desfizesse, que a bela ficasse apenas com a blusa laranja de alças delicadas, as sisterlocks em leve desalinho e o salto 12.
A gata também tinha torcida feminina. Não pensem que só os meninos notavam sua exuberância. "É de Iansã!" Dizia uma admiradora ao entrar no carro, saindo de uma joalheria na rua de cima. "Como você sabe?" Pergunta a amiga já dentro do veículo, no banco de trás. "É de Iabá! Não tenho dúvidas. Não é de Iemanjá, de Nanã, nem de Obá. Se fosse de Oxum teria mais dois dedos de saia". "Olha que pode ser de Euá, viu?" Comenta a segunda amiga, que conhecendo a motorista, acha por bem aboletar-se no banco da carona.
"Pode ser!" A entusiasta conclui, deslocando o freio de mão e preparando-se para descer a ladeira, bem devagar. No ritmo dos passos da diva. "Pode ser, mas o Xangô que mora em mim, avisa que ela é de Iansã." "Hunf! Que Xango é esse que nunca veio, nunca vi?" Pergunta uma das amigas. "Ousada desse jeito só pode ser de Iansã", ela insiste.
Sabedora da multa que está por vir, a intrépida motorista desliza na ladeira. A suposta filha de Iansã vence o primeiro terço da descida. Os homens saem às janelas e portas para vê-la, querem que a saia suba pelos ares. Algumas mulheres também não despregam os olhos dela e torcem para que o salto enrosque nos paralelepípedos. Contra tudo e todos, acariciada pelo vento, a bela segue, segura.
Motorista habilidosa, a moça do carro vermelho, dirige coladinho nela e mansa, doce, diz à semi-deusa: "Boa tarde, senhora dos ventos, da tempestade que tumultua meu peito. Permita que eu me apresente. Eu sou o Xangô que Oyá mandou para guardar seu caminho. Dê-me a honra de acompanhá-la em seu destino."
A mulher de Iansã tira os óculos escuros, sem qualquer surpresa. Olha o que ainda falta da ladeira, espreita três mulheres inofensivas dentro do automóvel, dá a volta, deslizando a mão pelo capô e resolve entrar. Cumprimenta a todas, simpática, agradece a gentileza e a motorista pergunta, "para onde vamos?"
Vão a um cartório, para onde a bela se dirigia na Barroquinha. Depois vão tomar sorvete na Ribeira. A motorista deixa as amigas por lá e vai levar a musa em casa. A essa altura já tem certeza de que ela é de Iansã.
É convidada a entrar e papo vai, papo vem, musiquinha, carinho, janelão para mirar o Sol se pondo atrás do mar e o tempo parece correr lento. Num dado momento, a mulher de Iansã vê o fio de contas da motorista sobre a mesinha do abajour e o saúda: "Saluba, viu Xangô?" A outra ri e explica: "É herança, preta!"
(Do livro BAÚ DE MIUDEZAS, SOL E CHUVA)

Resenha sobre Racismo no Brasil e afetos correlatos

CRÍTICAS, NÃO. OBSERVÂNCIAS – CIDINHA DA SILVA EM: RACISMO NO BRASIL E AFETOS CORRELATOS

Cidinha da Silva- Racismo no Brasil e afetos correlatosCRÍTICAS, NÃO. OBSERVÂNCIAS
Por Denise Bergamo
CIDINHA DA SILVA EM: RACISMO NO BRASIL E AFETOS CORRELATOS
Há tempos que me distanciei dos estudos de crítica literária, o saldo positivo que isso me dá, é que me livrei dos jargões cri-cris, mas em contraposição posso não dar o fino trato que a obra em questão merece.
Analisemos primeiramente o título, é uma assertiva emblemática de que por aqui, se pôs fim ao mito da democracia racial, logo de entrada Cidinha nos deixa o recado e para que fique bem claro Iansã está divinamente com seus dois chifres de boi a postos na capa, para fazer perceber os mais desavisados, na altura dos olhos para o início franco de um diálogo.
Sempre atenta aos meios de comunicação, a autora neste livro percorrerá as linhas construindo análises críticas dos anais televisivos. O marcante na obra é de como ela retrata ora objetivamente, ora subjetivamente a novela “Lado a lado”, sempre atenta a concessão que a transmite. “É novela, quer o quê? Para de chiar e mude de canal”. Braveja Cidinha ao introduzir um de seus textos opinativos sobre a novela.
Entre os debates, debates por que o livro nos leva ao diálogo direto com a autora, Cidinha se dedica a tracejar seus pensamentos de nossa “pós-moderna” contemporaneidade, abordando a práxis das figuras negras: Joaquim Barbosa, no campo judiciário, Anderson Silva, no desporto, Ellen Oléria, na música e ainda se tratando de nicho político, a discussão mais que profícua da PEC das empregadas domésticas.
cidinha afro carioca
Cidinha da Silva
Ao ler “Branquitude! Tremei! A PEC das Empregadas veio para ficar”, neste momento Lukactiano pelo qual passo, observo que Cidinha reprova a função que se atribui, até pelo contexto histórico que a escrita negra ganha quando inaugurada em ambiente nacional, ao negro ou a negra que escreve como militante, mas veja Sartre, agora resplandecido na figura de Sérgio Vaz, precisamos de artistas cidadãos e no que concerne a nós seres ontológicos, a arte é, ressaltando Lukács, um projeto despretensioso de se fazer a revolução. E isso é válido sim. E que não se cristaliza, ele se revigora a cada sintaxe posta no papel pela escritora. Sublime se ver como alguém que pode pela palavra citar mudanças.
Finalizo a sucinta observância de quem admira com o texto “Quanto mais mundo na vida da gente, melhor”. É banquete de prima para qualquer crítico, suas idas e vinda de um lugar só dela que não sabemos se existe ou não, trabalhado com o melhor da metafísica machadiana e da construção etnográfica mais detalhista e cheia de dedos que deixaria consternado as personagens de qualquer Flaubert ou Eça de Queiroz, com a malemolência de Jorge Amado faria Octavio Paz encontrar ali, naquele texto a explicação do que é se estar/ser inspirado.
É dele que Marcos Fabrício Lopes da Silva extrai um pedacinho da escrita de Cidinha, metáfora da qual a cultura ocidental atribuiria ás musas tamanha riqueza e felicidade compreendida em uma só sentença com tamanha sabedoria que se dá, se podemos usar de analogias, por um encanto feito pela própria Iansã, divindade que está na capa.
E será com esta sentença que fecho essa observância de quem admira: “Eu guardador de águas, inda não aprendi a ser rio.”

11 de jun de 2014

Crítica ao Baú de miudezas, sol e chuva

Crônicas no limiar do poético: Baú de miudezas, sol e chuva

por Rosane da Silva Borges[1]

Um texto só é um texto se ele oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei de sua composição e a regra de seu jogo.
                                             Jacques Derrida (A Farmácia de Platão)

Rosane da Silva Borges - Colunista Portal Áfricas
Rosane da Silva Borges – Colunista Portal Áfricas
Movida por escrita prolífica, Cidinha da Silva nos brinda em seu novo livro, Baú de miudezassol e chuva,com mais um conjunto de crônicas colhido, prioritariamente, do mundo ordinário, como é do seu feitio. De sua primeira obra, Cada tridente em seu lugar (2006), até este Baú, desenha-se um arco em que inapelavelmente flagramos a obstinada busca de uma prosadora para dizer a vida. Desde as experiências mais comezinhas até aquelas que se apresentam com algum verniz de complexidade, o olhar arguto da escritora captura parcela significativa dos sucessivos acontecimentos que dão substância à vida de cada um e de todos. Para aquilo a que não costumamos dar importância, ela vê, ou ao menos é o que sugerem suas crônicas, uma fase de incubação de ocorrências que podem informar sobre o humano e sinalizar para  um universal.
Sob a pena da escritora mineira, os eventos prosaicos são elevados à matéria de análise do social. São prosas, histórias sobre as pessoas, contadas de maneira simples, nas quais emerge o tema do indivíduo-valor. A propósito, este tema acompanha parte significativa das obras ficcionais brasileiras; é categoria que tece a dramaticidade de boa parte dos enredos de José Lins do Rego e de Graciliano Ramos, sem mencionar O triste fim de Policarpo Quaresma.
Baú de miudezas revela e guarda, a um só tempo, as coisas pequenas do cotidiano que nos instruem sobre a marcha do mundo. Aliás, o cotidiano é o cenário privilegiado sobre o qual ela se movimenta. As artes de fazer, as experiências do homem ordinário, no dizer de Michel de Certeau em A invenção do cotidiano,  ganham espessura nas narrativas de Cidinha,  que se mostram muito próximas da intensidade da vida real. Nessa tessitura, novos temas ganham vulto cada vez mais proeminente: vemos a escritora  avançar nas raias do mundo homoafetivo e das relações amorosas;  pensar os agenciamentos da procura por visibilidade em fase fulgurante das redes sociais, leia-se, do facebook; reposicionar o debate político sobre as práticas das religiões de matriz africana; traçar perfis de personalidades a partir de ângulos pouco ou nada explorados pela ortodoxia midiática; declarar amor às cidades, revelar admiração por talentos artísticos do mundo negro.  Ora divertidas, ora irônicas, ora austeras, as crônicas de Cidinha nos permitem perscrutar nosso mundo interno.
Alguns destaques. Em Fall in love, a prosadora nos mostra, em chave amistosa, mas nem tanto, o ridículo a que geralmente nos submetemos quando expomos nossas paixões, nossos amores (tópico que particularmente vem integrando meus interesses de pesquisa nos últimos tempos). Por certo, a expressão, à larga, dos sentimentos, dos nossos efêmeros estados de espírito no FB empobrece a experiência humana, banalizando atos e gestos que só têm sentido na partilha com o outro e não na visibilidade imediata que nos compraz (enunciamos nossa felicidade, alegria, tristeza, angústias).  Retiremos do Baú a passagem que nos leva a pensar sobre isso:
Gente graúda, peixe cascudo, quando apaixonado, morde a isca da exposição facebookiana e quer tornar pública sua paixão. Acho que é porque muitos de nós não tivemos adolescência, principalmente a de hoje, que se estende impunemente aos 30, 35, 40, à vida inteira. Pode ser também que, mesmo mais maduros, estejamos submersos à falta de ação política da vida pública supermoderna, e a exposição da vida íntima seja a única coisa restante a nos conectar ao mundo. (…) Esse amor também quer gritar sua existência e, se o Facebook é o amplificador do momento, a ele! (…). Seja lá como for, são deprimentes as relações de amor, ódio e estupidez com diário virtual das redes sociais. (p. 28 e 29).
Crônicas que flertam com a poesia, mas que se mantêm crônicas
Inevitavelmente, a produção de oito livros fazem tradição e vão delineando, traço a traço, a fisionomia da prosa de Cidinha da Silva. Sob os lençóis do tempo, algo se consolida no trajeto destas publicações. Acompanho todos os livros desta prosadora  (em 2007, escrevi a resenha de Cada tridente em seu lugar e em 2013 comentei, abreviadamente,  Racismo no Brasil e afetos correlatos. Nesse interregno, notei avanços progressivos que vão dando estatura para sua obra e decantando um estilo próprio). A nossa vocação para classificar e medir é incontornável. Categorizamos, dividimos por departamentos, ordenamos por gêneros, procedimento caudatário da lógica aristotélica. Sem querer, a fórceps, inserir as crônicas “cidinhianas”  em caixinhas taxinômicas, o material que ela nos apresenta reclama por alguma tipificação. Qual seria o lugar da escrita dos seus textos? Quais os traços singulares que se sobrelevam em Baú de miudezas?
Seja do ponto de vista da forma ou do conteúdo, as crônicas de Baú de miudezas se acercam do limiar do poético, mas não são poesia. Em “Vida de marisco” (p.27), o exercício de aproximação é manifesto: com apenas oito linhas, ostenta economia significante que cairia bem na faina poética. Procedimento semelhante se dá em “Memória” (p.35), onde a denúncia da covardia e da mesquinhez no amor não tolera delongas. Sob as lentes de Morris Croll, crítico da prosa barroca, Cidinha empreende o estilo coupe, o da sintaxe entrecortada, das frases breves e assindéticas, dos períodos enxutos, da concisão. Para esse crítico o inverso desse estilo seria a forma de escrita por adição, inclusões, longos torneios frasais, encadeados por conjunções coordenativas, que atam e desatam as frases: obras extensas, parágrafos extensos, períodos extensos, procedimento estilístico reiterativo, espraiado. O reconhecido escritor William Faulkner é um dos principais representantes desta corrente.
As concisões remetem a uma performativade linguística. Dizer é fazer, para a prosadora:
quando ela diz meu nome em tom grave, quando ri forte e divertida, há uma forma telúrica que escapa do lago e faz redemoinhos insondáveis. Quando ela diz venha, é sopro de vida, fogaréu de alegria, imperativo perfeito para meu coração que quer tanto segui-la.  (“A voz funda do rio”, p. 30).
Para além da forma, o lirismo presente em outras crônicas também nos aproxima do das fronteiras da poesia. “Concha, mi Conchita Buika”, um tributo à cantora negra nascida em Palma de Mallorca, Espanha, apresenta fortes doses de metáfora que dão ao texto um acentuado caráter lírico:
Argolas em outro preto e santo da corda do alento que me enlaça e me desvencilha do naufrágio no manguezal. Buika ecoa o passado corrosivo, liberto em seu grito, assustado e reprimido dentro. Seu canto é magma-sangue dos vulcões adormecidos. (p. 59).
Burilando seus textos, a escritora aqui examinada chega ao seu oitavo livro ensaiando imbricações, transitando nas fronteiras de gêneros literários. Em algumas vezes esse trânsito se dá com certa desenvoltura, em outras flagram-se inaptidões.
Fundamentalmente, não existem fronteiras intransponíveis capazes de impor distâncias telescópicas entre os textos literários; eles não encerram categorias restritivas e imutáveis; ao contrário, são elásticos, se interceptam e se recombinam à revelia da própria produção, dilatam-se, incorporam outros traços e elementos, metamorfoseiam-se. Os empréstimos e cruzamentos entre eles se intensificam cada vez mais em tempos de hibridismos. Testemunhamos debates febris em torno da hibridização, da mestiçagem cuja tonalidade narrativa é modelada pela afirmação de que a globalização, a mundialização é a grande facilitadora das aproximações, dos intercâmbios, das trocas e das misturas.
Tradições e influências: uma plataforma de aprendizado
Guardadas as devidas proporções, em alguns textos a autora projeta a aura de grandes nomes da literatura.  Vê-se o espectro do Drummond, de Cadeira de balanço, nas crônicas do “Duas mulheres numa rua íngreme”  (p.31) e em “Coisas que nem Deus mais duvida!” (p.54) deste fecundo Baú. Inevitavelmente, os textos não surgem num grau zero, mas num veio histórico, dentro de atividades preexistentes, sempre renovando-se, pois não são cristalizações formais no tempo.  Para o filósofo Jean-François Lyotard: “todo pensar é um re-pensar e não existe apresentação da qual se possa dizer é uma estreia. O aparecimento disto reitera aquilo. Não que reitere a mesma coisa ou repita a mesma cena”.
Qual a cena que Cidinha da Silva estreia? Como ela promove fisões e não apenas fusões[2] na esteira de uma tradição? Em Tradição e talento individual, T. S. Eliot assinala que todo poeta quando escreve está em dívida com seus antecessores, já que consegue desvencilhar-se de repertórios antecedentes. Às preocupações de Eliot, somam-se as do escritor argentino Jorge Luis Borges, em Kafka y sus precursores. Borges diz que um artista não acompanha apenas uma tradição, mas pode também criar uma tradição atrás de si. Para ele, a literatura produzida antes de Kafka é reorganizada, criando uma influência “para trás”.
Essa digressão mostra-se necessária quando confrontamos a obra de Cidinha com o papel que se reserva à literatura. Em nome de quê? é a pergunta que não quer calar. De livro em livro, equipando sua empresa literária com recursos estilísticos plausíveis, a prosadora garante sobrevida à crônica, no lastro de uma tradição que se renova sob suas lentes e nos oferece parâmetros para conceber e transformar a vida.
PS: Esta resenha me reconcilia com o campo literário, uma das minhas grandes paixões. Leitora voraz de literatura, voltarei a escrever, de quando em vez, sobre obras ficcionais.
Referências Bibliográficas
Bloom, Harold. A angústia da influência. 2ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 2002.
Borges, Jorge Luís. Obras completas. São Paulo: Globo, 2000, vol. II.
Croll, Morris. Style, rhetoric and rhythm. In: Rhetoric review. Vol. 16, n. 1, Autumn.
Derrida, Jacques. A farmácia de Platão. 3ª ed. São Paulo: Iluminuras, 2005.
Lyotard, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: Olimpo, 1979.
Silva, Cidinha da. Baú de miudezas, sol e chuva: crônicas. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2014.

[1] Jornalista, professora doutora do curso de Comunicação Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL), integrante da Cojira-SP (Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial) e do grupo Comunicadoras Negras.
[2] Fusão e fisão foram utilizadas por Marshall Mcluhan e teóricos da Inteligência Artificial (AI) em referência aos processos de conversão e transformação das tecnologias. Fusão corresponderia, segundo o teórico canadense, a um acostamento de uma estrada e ocorre quando há conversão de dois conceitos (ou perceptos) em um (os termos videoclipe, audiovisual, pós-moderno são exemplos de fusão). Fisão seria o outro lado do acostamento em que se realiza a divergência gradual de um novo objeto, em relação ao objeto-modelo: “sempre que o novo sistema de signos recebe o atrito do sistema anterior, o novo sistema se autonomiza e começa a perder o caráter de réplica perfeita”.