Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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30 de nov de 2012

Mostra de teatro Melanina Acentuada, em São Paulo


Quinta-feira, 29 de novembrode 2012, a estreia de Namibia, não! dará início à ocupação Nova Dramaturgia da Melanina Acentuada, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, em São Paulo. O projeto foi selecionado poredital público da Funarte no segundo semestre de 2012 e abre, em três frentes, uma reflexão sobre a escrita teatral de autores negros brasileiros na atualidade.
Até 7 de abril de 2013, companhias da Bahia e de São Paulo apresentarão onze espetáculos, com temas adultos e infantojuvenis, criados por dramaturgos de ascendência predominantemente africana. Além das montagens, a mostra promove mesas de debate conduzidas por artistas e professores universitários, com foco na estética e produção da escrita teatral afrodescendente no Brasil. E mais: numa terceira frente de investigação, o projeto trará ao Arena leituras dramáticas de nove textos inéditos de autores negros contemporâneos.
A programação de Nova Dramaturgia da Melanina Acentuada dá continuidade ao processo deflagrado pelo Teatro Experimental do Negro (TEN), primeira companhia negra brasileira criada em 1944 pelo ator e dramaturgo Abdias do Nascimento, e pelo Teatro Profissional do Negro (Tepron), formado nos anos setenta por Ubirajara Fidalgo. Os dois movimentos abriram caminho e procuraram dar visibilidade à produção e ao pensamento de dramaturgos afrodescendentes que, segundo o coordenador do projeto, Aldri Anunciação, “ao longo desses anos assumiram a escrita e retiraram palavras de suas veias, possibilitando um diálogo de suas almas com todos os cidadãos brasileiros”.
Das veias de Aldri Anunciação saiu o texto de Namíbia, não!, peça contemplada com o Prêmio Braskem de Melhor Texto de Teatro em 2011, que tem direção do ator e dramaturgo Lázaro Ramos. O espetáculo, em cartaz no Arena de 29 de novembro a 17 de fevereiro, aborda a questão do racismo a partir da relação identitária Brasil-África. A história aborda a publicação de uma medida provisória, em um momento futuro da história do Brasil, que determina, como reparação de danos causados pela União, o retorno de todos os de ‘melanina acentuada’ à Africa-mãe. A situação obriga dois personagens, André e Antônio, a passarem o dia trancados no apartamento, onde discutem questões sociais e econômicas, seus anseios pessoais e o iminente ‘retorno’ à Africa.
Na programação da mostra Nova Dramaturgia da Melanina Acentuada, estão presentes os espetáculos As Paparutas, infantojuvenil escrito por Lázaro Ramos em 1999, O Subterrâneo Jogo do Espírito, espetáculo solo de Rodrigo dos Santos inspirado na obra e na vida do músico e ativista político nigeriano Fela Kuti (1938 -1997), Além do Ponto, nova pesquisa cênica do grupoOs Crespos sobre as relações de afetividade entre homens e mulheres negras, e criações dos grupos paulistas Coletivo Negro e Clariô (veja, abaixo, a programação completa).
As palestras, sob coordenação de Leonel Henckes, começam com os temas As Influências Estéticas da Dramaturgia Neegra no Brasi (5 de dezembro), com o Prof. Dr. Júlio Moracen Naranjo (UNIFESP), e Assinatura e Autoria do Negro na Dramaturgia Brasileira (12 de dezembro), com Profª. Drª Evani Tavares (UFBA). Também a primeira das leituras dramáticas, coordenadas por Lilih Curi, acontece em dezembro: dia 19, o texto Virgínia, de Tássio Ferreira, com direção de Christian Duurvoort, abre o ciclo.
Sobre Aldri Anunciação – Natural de Salvador (BA), é ator e dramaturgo. Formado em Teoria Teatral pela Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO), é criador do texto teatral Namíbia, não!, selecionado para o Núcleo de Leituras – Negro Olhar, em 2010, no Centro de Cultura Laura Alvim. Esse mesmo texto foi premiado com o Prêmio Fapex de Teatro de 2010, e publicado no mesmo ano Editora EDUFBA. Em 2011, Namíbia, não! ganha a direção de Lázaro Ramos e conquista o Prêmio Braskem de Melhor Texto de Teatro de 2011. Aldri Anunciação é autor da Trilogia do Confinamento, da qual fazem parte os textos Namíbia, não!O Sistema Único e O Homem do Fundo do Mar.
Serviço:
Mostra Nova Dramaturgia da Melanina Acentuada
Projeto contemplado pelo edital de ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet
Rua Dr. Teodoro Baima, 94, Vila Buarque, tel (11) 3256-9463
De 29 de novembro de 2012 a 7 de abril de 2013
Realização: Tô Ligado Produções │Coordenação geral: Aldri Anunciação │Coordenação de palestras-debate: Leonel Henckes │Coordenação de leituras dramáticas: Lilih Curi │Gestão financeira: Cardim Projetos e Soluções Integradas │Produção: Wellington Borges │Projeto gráfico: Autor Visual – Design Gráfico │Produção executiva: Wellington Borges
Espetáculo Namíbia, não! 
De 29 de novembro a 17 de fevereiro │Quinta a domingo, 20h
Realização: Tô Ligado Produções│Direção geral: Lázaro Ramos │ Texto: Aldri Anunciação│Elenco: Flávio Bauraqui e Aldri Anunciação │ Atores substitutos: Fernando Santana eSérgio Menezes │Assistência de direção: Ana Paula Bouzas e Thiago Gomes │Direção musical: Arto Lindsay, Wladimir Pinheiro e Rafael Rocha │Supervisão artística: Luiz Antônio Pilar │Produção musical: Rodrigo Coelho e Rafael Rocha │Produção executiva: Maria Bacana, Kalik e JLM Produções Artísticas │ │Cenário: Rodrigo Frota │Figurino: Diana Moreira│Preparador de lutas: Felipe Khoury
Duração: 70 min. Recomendação etária: 14 anos | Ingressos: R$ 20 (meia: R$ 10). A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo – um ingresso por pessoa
Espetáculo infantojuvenil As Paparutas
Dias 23 e 24 de fevereiro │Sábado e domingo, 16h
Texto: Lázaro Ramos │Direção: Luís Antônio Pillar │Idealização e coordenação geral: Maria Gal │ Assistente de direção: Marco Bravo │ Preparadora corporal: Juliana Nogueira │Direção musical: Alexandre Elias │ Cenário e figurinos: Ronald Texeira │Elenco: Maria Gal, Samuel de Assis, Priscilla Marinho, Renata Celidonio, Cristiane Amorim, Livia Guerra e Munir Kanaan│Direção de produção: Letícia Torgo│Produção executiva: Patrícia Freitas │Realização:Realiza! Produtora Cultural Boa Nova Produções Artísticas 
Recomendação etária: livre | Ingressos: R$ 20 (meia: R$ 10). A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo – um ingresso por pessoa
Espetáculo O Subterrâneo Jogo do Espírito
De 28 de fevereiro a 3 de março| De quinta a domingo, 20h
Direção, dramaturgia e interpretação: Rodrigo dos Santos │Produção: Anna Paula Black, Cridemar Aquino, Sarito Rodrigues e Valéria Monã │ Direção de movimento e preparação corporal: Denis Gonçalves │ Assistência de direção: Ângela Câmara │ Cenário: Cridemar Aquino e Fátima Souza │Figurino: Rubens Barbot │Adereços: Geórgia Victor │Design gráfico:Luiz Carlos Gá │Revisão de Texto: Malu Resende │Fotografia: Silvana Marques │Vídeo:Shirley Cruz e Paulinho Sacramento
Ingressos: R$ 20 (meia: R$ 10). A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo – um ingresso por pessoa
Espetáculo Movimento nº1: O Silêncio de Depois
De 7 a 10 de março | De quinta a domingo, 20h

Direção: Coletivo Negro │Texto: Coletivo Negro
Ingressos: R$ 20 (meia: R$ 10). A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo – um ingresso por pessoa
Espetáculo Além do ponto
De 14 a 17 de março | De quinta a domingo, 20h

Realização: Os Crespos │Atores: Sidney Santiago, Lucélia Sérgio e DJ Dani Nega│Dramaturgia: José Fernando de Azevedo e Os Crespos│Direção: José Fernando de Azevedo │Trilha sonora, arranjos e execução: DJ Dani Nega │Direção de arte: Antonio Vanfill│Produção: Eliana Filinto e Os Crespos │ Edição de vídeo: Mario Matiello │Fotos: Roniel Felipe │Música: Ricardo Henrique e José Fernando de Azevedo 
Ingressos: R$ 20 (meia: R$ 10). A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo – um ingresso por pessoa
Espetáculo Seu Bomfim
Dias 21 e 22 de março | Quinta e sexta, 20h

Atuação, criação, direção: Fábio Vidal │Direção: Meran Vargens │Maquiagem: Marie Thauront│Cenografia e figurino: Moacir Gramacho │Formação de público e divulgação: Gabriela Sandyeggo │Produção: Emerson Cabral
Ingressos: R$ 20 (meia: R$ 10). A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo – um ingresso por pessoa
Espetáculo Casa Número Nada
Dia 23 de março | Sábado, 20h

Direção: Fábio Vidal │ Texto: Mariana Freire e Fábio Vidal │Atuação: Mariana Freire │Trilha sonora: Luciano Salvador Bahia │Cenário: Mariana Freire │Produção: Patrícia Rammos 
Ingressos: R$ 20 (meia: R$ 10). A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo – um ingresso por pessoa
Espetáculo Sebastião
Dia 24 de março | Domingo, 20h

Autor, encenador e ator: Fábio Vidal │Orientação e colaboração dramatúrgica: Gil Vicente Tavares │Direção de arte: Moacyr Gramacho │Figurino: Silvia Costa │Direção musical:Emerson Cabral │Produção de trilha sonora: Cassius Cardozo│Programação visual e design:Clara Ribeiro e Aldo Gustavo Ribeiro│Assessoria de mídias sociais: Moisés Costa Pinto│Foto: Alessandra Nohvais│Vídeos: Tatiana de Lima│Edição de imagens: Thiago Gomes│Locuções: Evelin Buchegger │Coordenação de produção: Ilma Nascimento│Produção executiva: Viviane Jacó
Ingressos: R$ 20 (meia: R$ 10). A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo – um ingresso por pessoa
Espetáculo Réquiem por um Sorriso ou Sobre os Palhaços na Varanda
Dias 28 e 29 de março de 2013 | Quinta e sexta, 20h

Realização: Kalik Produções Artísticas, Zé Fini Filmes │Texto: Diego Pinheiro │Elenco:Fernando Neves, Neyde Moura, Rui Manthur e Susan Kalik │Direção: Thiago Gomes│Assistência de direção: Fernanda Júlia │Cenografia: Rodrigo Frota │Figurino e maquiagem:Thiago Romero│Direção musical: Luciano Bahia│Coordenação de produção: Susan Kalik│Produção executiva: Francisco Xavier e Naiara Vieira
Ingressos: R$ 20 (meia: R$ 10). A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo – um ingresso por pessoa
Espetáculo Siré Obá – A Festa do Rei 
Dias 30 e 31 de março | Sábado e domingo, 20h

Texto: Fernanda Júlia, Thiago Romero e Cia de Teatro Nata│ Direção: Fernanda Júlia│Elenco: Daniel Arcades, Fabíola Júlia, Silano,Guilherme Silva, Marcelo Oliveira, Vânia Santana e a yalorixá Roselina Barbosa│ Músicos: Thiago Romero, Sanara Rocha, Deilton José, Cosme Lucian│ Cenário, figurino, maquiagem e programação visual: Thiago Romero│ Direção musical: Jarbas Bittencourt│Preparação vocal: Marcelo Jardim│ Preparação corporal e orientação coreográfica: Marilza Oliveira│Produção: Kalik Produções 
Ingressos: R$ 20 (meia: R$ 10). A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo – um ingresso por pessoa
Espetáculo Urubu Come Carniça e Voa
De 4 a 7 de abril | De quinta a domingo, 20h
Direção: Mário Pazini│ Texto: Grupo Clariô
Ingressos: R$ 20 (meia: R$ 10). A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo – um ingresso por pessoa
Palestras-debate, coordenadas por Leonel Henckes
Gratuitas, com formato interativo, ministradas por profissionais de excelência na área de artes cênicas.
As Influências Estéticas da Dramaturgia Negra no Brasil
5 de dezembro | Quarta, 19h

Prof.Dr.Júlio Moracen Naranjo (UNIFESP)
Assinatura e Autoria do Negro na Dramaturgia Brasileira
12 de dezembro | Quarta, 19h

Profª.Drª Evani Tavares (UFBA)
O Personagem Negro na Ficção Dramática
16 de janeiro | Quarta, 19h

Prof. Dr. Joel Zito Araújo (ECA /USP)
A Criação Coletiva/Colaborativa na Dramaturgia Afro-Brasileira
30 de janeiro \ Quarta, 19h

Diretor Márcio Meireles (Bando de teatro Olodum)
A Dramaturgia Infantil sob o Olhar do Autor Negro e o Personagem Negro na Dramaturgia Infantil
20 de fevereiro | Quarta, 19h

Diretor-Ator Lázaro Ramos e Diretor Luiz Antônio Pilar
Impasses Poéticos na Cena Brasileira: Negra Cena de Alma Branca
27 de fevereiro | Quarta, 19h

Profª. Drª. Tania Brandão (UNI-RIO)
Transposição de Narrativas Literárias para a Dramaturgia Negra
06 de março de 2013 às 19h

Prof. Dr. Luiz Silva “Cuti” (Unicamp)
Questões para uma Dramaturgia Afro-Brasileira
20 de março | Quarta, 19h

Prof. Dr. José Fernando de Azevedo (EAD/ECA /USP)
O Estereótipo do Personagem Negro na Dramaturgia Brasileira
27 de março | Quarta, 19h

Diretora Fernanda Júlia (Cia. Nata de Teatro)
Dramaturgo Negro x Dramaturgia com Temática Negra
3 de abril | Quarta, 19h

Dramaturgo-ator Aldri Anunciação
Leituras dramáticas, com coordenação de Lilih Curi
Gratuitas
Virgínia, de Tássio Ferreira
19 de dezembro | Quarta, 19h

Direção: Christian Duurvoort
Na África não tem Cowboy, de Ed Anderson Mascarenhas
9 de janeiro | Quarta, 19h 

Direção: Roberto Morettho
Matador de Meninos, de Uendel de Oliveira Silva
9 de janeiro | Quarta, 19h

Direção: Julio Moracen
O Homem do Fundo do Mar, de Aldri Anunciação
23 de janeiro | Quarta, 19h

Direção: Lilih Curi
Antes que Anoiteça em mim, de Elisio Lopes Jr.
23 de janeiro | Quarta, 19h

Direção: Aldri Anunciação
Olorum, de Gildon Oliveira
21 de fevereiro | Quarta, 19h

Direção: Carlos Francisco
A Velha Sentada, de Lázaro Ramos / Adaptação de Elísio Lopes Jr.
22 de fevereiro | Quarta, 19h

Direção: Leonel Henckes
Corpo Frio, de Fernando Santana
13 de março | Quarta, 19h

Direção: José Fernando de Azevedo
O Sol de Dezembro, de Diego Pinheiro
13 de março | Quarta, 19h

Direção: Lilian Solá Santiago

28 de nov de 2012

Subúrbia e Guimarães Rosa



Por Cidinha da Silva

Outro dia ouvi Guimarães Rosa na boca de uma Preta Velha (entidade das religiões afro-brasileiras) em uma telenovela. Dizia a venerável voz à Conceição, consulente atormentada: a vida é assim mesmo, minha filha, esquenta e esfria, aperta e afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que a vida quer da gente é coragem.

Curioso! O mesmo trecho escolhido pela Presidenta Dilma Roussef para concluir o discurso de posse. No caso desta, demonstração de erudição sensível, além de cala-boca no tucanato mineiro que a acusava de bandeamento para o lado dos gaúchos. Na emissão da Preta Velha, entretanto, o trecho rosiano é signo de reapropriação da cultura popular pelos autores de Subúrbia, telenovela em foco.

Rosa bebeu da cultura do povo do sertão de Minas para compor sua obra. As mesmas brenhas alegóricas de onde vem Conceição, personagem central da história. O povo de Minas e do Brasil bebe da ancestralidade negra, ontem e hoje. Rosa, então, está bem posto e faz sentido na boca de uma Preta Velha, de onde a vida e suas exigências emanam.

É tudo círculo. Roda. O mundo gira e volta ao lugar do princípio. Da sabedoria popular na terra e da sabedoria ancestral que se manifesta pela Preta Velha. Bonita, a poética de Subúrbia!

27 de nov de 2012

Evoé, Delegado!



Por Cidinha da Silva

Eu também me sentia pisando um chão de esmeraldas, quando levava meu coração à Mangueira. E era seu Delegado, o dançarino, quem me recebia à porta e acompanhava a porta-bandeira que me oferecia o estand

arte para o beijo leal de saudação.

E seu delegado evoluía, lépido, fagueiro, no passo manso dos 90 anos. Era a jóia da coroa banto carioca, pavoneando o catavento verde e rosa! Abram alas! Seu Delegado e a Mangueira vão passar desfilando elegância e tradição. E lá vêm Ana Pi, Deborinha e Cláudio Adão, bambas-mirins da escola de dança, alegria da renovação.

E todos os meninos da Mangueira fazem a corte de recepção ao mestre, com pandeiro, cuíca, berimbau, feijoada e samba do bom: Xangô, Cartola, Carlos Cachaça, Sinhô, Padeirinho, Preto Rico, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Tom Jobim e as meninas, dona Neuma e dona Zica.

A Portela celeste vem também lhe render graças, Manacéia, Zé Ketti, Tia Doca, Candeia, Clara Nunes, João Nogueira que dá uma piscadela de boas vindas a Sabotage, escondido numa esquina de rima quebrada.

E vem toda a gente que fez bailar nossa alma, Caymmi, Pastinha, Garrincha, Didi, Leônidas, Vila Lobos, Pixinguinha, Elizeth e Chiquinha Gonzaga escoltadas por Cássia Eller de um lado e Elis do outro, Cazuza e Roberto Ribeiro. Marçal, Mano Décio da Viola, Aniceto, Monsueto, Paulo Moura e Luiz Carlos da Vila. Noel, Aracy de Almeida, Ataulfo, Gonzagão, João do Vale e Itamar Assumpção, não poderiam faltar. Fernando Pinto e Joãozinho Trinta se encarregam das alegorias. Moreira da Silva, Bezerra, Jovelina e Gonzaguinha chegam juntos e malandreiam um partido sobre a soneca da tarde tirada no cantinho onde a coruja dorme. Vai ter samba do bom!

Tim Maia chega atrasado, festeiro. Ele que fora incumbido de cantar para seu Delegado, o canto das rosas que falam no azul da cor do mar.

Foto: Ana Pi e seu Delegado, na Mangueira, em 2011


26 de nov de 2012

Os três mosqueteiros, Jorge, Márcio e Afonso



Por Cidinha da Silva

Caríssimos autores de Lado a lado, Cláudia Lage e João Ximenes Braga, mui respeitosamente, quero perguntar-lhes por que Olavo, Vilmar e Elias, os três garotos negros de Lado a Lado, não frequentam a escola???

Certa estou de que as competentes historiadoras que os assessoram são sabedoras de que o fim do século XIX e as primeiras décadas do XX foram palco de discussões acaloradas e ações múltiplas para promover a educação da população negra descendente de pessoas escravizadas. Caso não saibam, fato bastante compreensível, posto que não abarcamos todos os campos, sugiro consulta aos trabalhos de Marcos Vinicius Fonseca e Ana Flávia Magalhães Pinto, historiadores da educação e da imprensa e grandes conhecedores do período.

Notava-se, naquele momento histórico, entusiasmo generalizado pela educação, como caminho de superação dos atavismos da escravidão. Havia o que alguns historiadores chamam de “ação branca” para abordar o problema da educação dos negros. Elites intelectuais e políticas pregavam a necessidade de os negros serem escolarizados para atender aos fins pragmáticos dos interesses dos brancos, de transformá-los em bons trabalhadores e bons cidadãos.

Paralelamente, havia a “ação negra.” Os jornais da Imprensa Negra (outro tema merecedor da atenção dos autores – quem sabe a antenada Isabel não teria acesso a um desses periódicos?) apresentavam editoriais e artigos instando a população negra a participar da educação formal, a eliminar o analfabetismo entre os pares. Desde o século XIX havia escolas de/para negros, conduzidas por professoras e professores negros em suas próprias casas, sendo que alguns chegaram mesmo a constituir escolas integradas ao sistema formal de ensino. O Colégio Perseverança, de Campinas, por exemplo, surgiu ainda no período escravista, em 1860. Lá, estudavam meninas negras e mestiças que tinham alguma condição econômica, mas também meninas pobres, que não podiam pagar.

Será muito legal que Zé Maria (Lázaro Ramos) ensine a Capoeira ao pequeno Elias (Afonso Nascimento Neto) e a Olavo (Jorge Amorim), seu doce protetor, assim como o velho africano Benedito ensinou arte em movimento ao menino Vicente, que viria a tornar-se o lendário mestre Pastinha. Mas, é importante que, junto com Olavo e Elias, Vilmar (Márcio Rangel), de alguma forma, incorporem a discussão sobre a escolarização dos negros na trama.

É coerente que a mãe (Ana Carbatti) e a tia dos garotos, Berenice (Sheron Menezzes), dado o caráter duvidoso de ambas, não se importem com a escolarização dos meninos. Não faz sentido, entretanto, que mais ninguém à volta deles, note a questão. O enredo fica desarmônico quando gente como Jurema, Zé Maria, Afonso, Chico, personagens preocupados com o destino coletivo dos negros, sequer percebem que dois rapazinhos e uma criança negra, de estrito convívio com eles, não vão à escola. O tema poderia ser pauta de conversa frugal entre Isabel, uma mulher à frente do próprio tempo, e Laura, uma professora atualizada e sensível, assim, na cozinha, enquanto elas preparam uma refeição. O que não é possível, nem aceitável, é que todos naturalizem a ausência de escola formal na vida dos três meninos negros de Lado a lado. Falta coerência humana e também com o tempo histórico.

Além da passagem pelas várias publicações de Ana Flávia Pinto e Marcos Vinícius Fonseca, sugiro a leitura de Diário de Bitita, no qual há dados preciosos sobre a relação da especial criança negra Carolina Maria de Jesus com a educação formal da década de 1910. A escola precisa ser um tema da vida das três crianças negras de Lado a lado. Aguardamos!

24 de nov de 2012

Escritoras negras, nós e caminhos!



Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Mulher Negra 2012.
Por Cidinha da Silva

Minha editora, Charô Lastra, pauta um texto sobre mulher negra e literatura, como objeto e como sujeito literário, para a blogagem coletiva sobre mulheres negras, com o objetivo de aproximar o Dia da Consciência Negra e o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher.

A primeira sensação é de que estamos bem como atrizes principais na cena, observados os limites de um cotidiano racista, obviamente. Ruth Guimarães, nossa mais-velha, tem mais de 90 anos e continua produzindo. Geni Guimarães, com sua prosa dura e doce, voltou a escrever, a publicar e a circular pelo mundo da literatura. Conceição Evaristo é cada vez mais reconhecida e tem sido traduzida para outras línguas. Mirian Alves se reinventa constantemente e dialoga com a moçada mais jovem. Ana Maria Gonçalves publicou há alguns anos, Um defeito de cor, um dos romances mais importantes da literatura brasileira nos últimos 40 anos. Elisa Lucinda encanta mais a cada livro, com sua poética de amor e dengo. Carolina de Jesus, sempre atual, tem sido relida e reinterpretada pelas novas gerações de pesquisadoras/es.

As novas escritoras também estão com a pena leve, pondo bons textos na roda. O corpo da mulher negra, nestes textos novos, é sexualizado pelo desejo de senhoras de suas próprias vontades. É um corpo valorizado por suas características étnicas e por sua forma guerreiro-amorosa de se inscrever no mundo. É contraposição autoral e digna à velha figura da mulher negra de cama, mesa e banho, abundante na literatura canônica.

São marcantes, a presença da ancestralidade feminina, da religiosidade de matrizes africanas, bem como da memória como guardiã dos saberes das pessoas mais-velhas. São textos que recobrem expressões plurais de mulheres negras, que têm identidade, sim, mas não abrem mão do direito à alteridade.

Outra novidade significativa, é que interiores de becos, quebradas, periferias e favelas ganham luz do Sol que os enegrece, projetada por escritoras, para as quais, em substantivo número de vezes, ser negra não é a filiação identitária primordial, mas, mesmo assim, elas têm sido efetivas em tingir de preto o lugar geo-político-afetivo representado por criadoras negras altivas e transformadoras.

Entretanto, ainda pouco nos é dado a conhecer sobre escritoras negras latino-americanas e caribenhas, para não mencionar a ausência de informação e tradução de escritoras africanas.  O que sabemos de Maryse Condé, escritora de Guadalupe? O que conhecemos de Simone Schwarz-Bart, também de Guadalupe, publicada no Brasil pela Marco Zero (A ilha da chuva e do vento)? O que sabemos de Mayra Santos-Febres e Micheline Coulibay, contistas do Caribe, apresentadas no Terras de Palavras, da Pallas Editora. Nada! Nada sabemos sobre escritoras afro-caribenhas.

E quanto à África, às literaturas africanas, quando despertaremos para elas?  Até quando escritoras como somáli Ayaan Hirsi Ali, autora de Infiel (Companhia das Letras, 2007)  terão destaque como espécime exótico da dor africana, servida com café e biscoitos finos nos balcões de livrarias dos aeroportos brasileiros? Até quando Sobonfu Somé, escritora do Burkina Faso (O Espírito da Intimidade, Odysseus, 2003), aquela que veio ao mundo com a missão espiritual de transmitir ao Ocidente os ensinamentos sobre a vida comunitária do povo Dagara, seu povo, permanecerá como um diminuto diamante, perdido no cascalho das prateleiras das livrarias? Até quando os legítimos representantes das literaturas africanas de língua portuguesa, largamente divulgados no Brasil, serão apenas os grandes escritores Mia Couto (Moçambique) e José Eduardo Agualusa (Angola)? Quantas Paulinas Chiziane sucumbirão à passagem atlântica do nosso desconhecimento, até que nossos olhos se descortinem para vê-las, para lê-las?

Creio que será assim até que ações afirmativas sejam implementadas para modificar esse quadro. SEPPIR, Biblioteca Nacional, Ministério da Cultura, precisam traduzir essas e outras autoras e divulgá-las amplamente. A sugestão, há tempos, foi feita. Resta realizar!

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Mulher Negra blogagemcoletivamulhernegra.wordpress.com

23 de nov de 2012

Dias de glória neste novembro negro!



Por Cidinha da da Silva

Obama reeleito para a Presidência dos EUA. Joaquim Barbosa eleito Presidente do Supremo Tribunal Federal. Maria Aparecida Moura aprovada em concurso para Professora Titular na Escola de Ciência da Informação da UFMG, primeira mulher negra a ocupar posto de tamanha envergadura na instituição.  Novembro memorável, este! Ainda que para nós, haja um átimo de tristeza pontilhando o júbilo, por continuarmos inaugurais em posições de destaque e mando.

Há nove anos, em 2003, compareci à posse de Joaquim Barbosa no STF, convidada por ele, como manda o regimento da casa. Por pouco não fui. Não levei a sério a notícia de que havia um convite para mim. Eu havia conhecido o Ministro três anos antes, em Genebra, durante o processo preparatório da III Conferência Mundial Contra o Racismo. Estávamos hospedados no mesmo hotel e Sérgio Martins nos apresentou. Eu apertava a mão dele embevecida, já conhecia sua história e era fã. Ele sorria simpático, solícito. Eu, completamente desconsertada, disparei: como o senhor é jovem. Ele riu solto e respondeu: se sou tão jovem, você não vai me chamar de senhor, não é? E assim, começamos a conversar. Não sei o que falei ou ele, lembro-me que quando nos despedimos, Joaquim me deu um cartão e disse que o procurasse, caso pudesse ser útil em algo.

Depois disso, ainda nos encontramos em Santiago (ou terá sido em Quito?) e mais uma vez ele me impressionou. Conversávamos no jardim, durante um intervalo dos trabalhos e aproximou-se uma jovem jornalista, pediu licença, nos cumprimentou e perguntou, em espanhol, se Joaquim não poderia preparar um artigo para o jornal que circulava diariamente durante a semana de trabalhos. Joaquim assentiu: claro que sim, com prazer! Em que língua?

Não se tratava de um esnobe, como os apressados podem inferir, mas de um homem atencioso, que fala várias línguas e queria saber da jornalista em qual delas, dentre aquelas em que é fluente, seria mais adequado escrever para o jornal que obedecia o critério da ONU, de acolher manifestações em qualquer uma das seis línguas oficiais.

Um dia lancei mão do cartão ofertado por Joaquim e o convidei para falar sobre o tema da constitucionalidade das ações afirmativas para adolescentes e jovens negros, com os quais trabalhava. Ele interrompeu as férias para me atender, tanto ao telefonema, quanto ao chamado para a palestra e me disse de cara: Cidinha, esse tema não é árido demais para os meninos? E convicta, respondi: não! Nada de aridez! Eles precisam conhecer a letra da lei para praticar a autodefesa.

Quando Joaquim chegou ao nosso espaço de trabalho, uma hora antes do horário do início da conversa, emocionada, levei-o ao local onde ele se acharia em casa, a biblioteca, e lá, tinha certeza, reconheceria o esmero que tivemos para montar o acervo. Deu certo! Ele elogiou os livros que abrigávamos por lá.

Neste 22 de novembro, assistir pela TV a posse de Joaquim Barbosa como Presidente do Supremo, é como assistir a reeleição de Obama nos EUA, a mesma emoção. A posse de minha irmã Cida Moura, como Professora Titular da Escola de Ciências da Informação da UFMG, ocorrida dia 20 de novembro, tem sabor diferente. É o gosto da vitória da minha geração. Eu sinto que fui aprovada no concurso e tomei posse junto com ela.

Cida Moura não passa a ser minha irmã porque agora é Professora Titular, nada disso! Somos irmãs desde o tempo em que pareamos esteira e saudamos nossa mãe. Desde quando ouvi pela vez primeira, um bolachão do Olodum e outro do Ilê Aiyê na casa dela. Desde o tempo em que Ana, minha sobrinha mais velha, era menina e hoje é bailarina esplendorosa, encantando os palcos do mundo.

Cida é mulher simples, discreta, trabalhadora incansável, orientadora atenciosa e perfeccionista, paciente e compreensiva, sem abandonar o alto nível de exigência. É mãe amorosa e presente. É amiga dedicada e solidária. É admirável, enfim. Fará muito bem à conservadora UFMG, uma das universidades brasileiras mais refratárias à adoção de ações afirmativas institucionais de combate ao racismo, a convivência com Cida Moura como Professora Titular. Funcionária de carreira, concursada, legitimada por méritos individuais, singulares e irretocáveis, como propugnam os detratores das ações afirmativas. Embora saibamos que as implicações da badalada construção da idéia de mérito, para negros e brancos, seja profundamente diferente (e desigual).  

Desejo, minha irmã, que você não seja cristalizada no lugar de exceção. Que Oxum devolva refletidos no espelho, os olhares ruins que, por desventura ousem te dirigir. Que as águas te protejam dos vendavais externos, tal qual a placenta protege o que está sendo gerado. Que você tenha saúde, alegria, amor, perfume e mel pelo caminho. Ora iê iê ô! Ora iê iê!

Fotos de Cida Moura, escolhidas por Ana Pi, a filha!


22 de nov de 2012

Se eu não chegar a ver, vai nascer de mim quem vem para ver



Por Cidinha da Silva

Eu gostaria de assistir Subúrbia por simples deleite, como assisto Lado a Lado, mas fiquei tão impressionada com as reações negativas, lidas e ouvidas, que me impus a tarefa de analisar a mini-série e destacar o sem-número de boas impressões causadas pela obra em mim. Mas é chato, confesso. Eu quero apenas ser telespectadora, gostar, como gosto, e degustar o que mais me interessa, o texto.

Recuso qualquer roteiro didático para acompanhar Subúrbia. O fato de autores, atores e atrizes terem pensado isso ou aquilo no momento da concepção, não garante o resultado performático desejado, ou seja, existe uma grande distância entre pensar a obra e conseguir realizá-la. E todas as pessoas têm o direito de achar o que quiserem! Abaixo a leitura de telepronto que alguns querem impor ao telespectador. Tampouco, desejo criar um roteiro (didático) próprio para amealhar seguidores. Sou do time de Carlinhos Brown, a poesia é necessidade básica. Quero falar sobre um trabalho de arte que me emociona e traz elementos importantes (e novos) para a teledramaturgia do negro, na verdade, sobre o negro no Brasil, ainda. Tudo isso pelo meu olhar, nada mais!

Não me forçarei a ver o que quer que seja, nem levarei meus discursos prontos sobre as mulheres negras, por mais que os julgue criativos, supostamente consonantes com a tradição (embora, muitas vezes, não passem de aspectos superficiais), para a leitura da telenovela. Cada pessoa venda seu peixe com a técnica que tiver nas mãos, com a linguagem de sedução e convencimento de idéias que tiver conseguido criar ao longo da vida.

São muitos interesses em disputa para “garantir” outras edições da mini-série. Tenho consciência de que Lado a lado conta com atrizes e atores consagrados, com lugar ao sol global garantido, na medida limitada em que artistas negros conseguem ter garantias na profissão, fora das produções chamadas de época e dos papéis de/para negros. Em Subúrbia, Haroldo Costa, ícone da cultura brasileira, é conhecido na TV, entretanto, como grande especialista em samba. Rosa Marya Colin é uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos, porém, muita gente a está descobrindo agora, como Mãe Bia. Triste país, o nosso. Mas, os tais interesses não me roubarão o prazer de assistir Subúrbia e de me deter nos detalhes que me cativarem e me ajudarem no entendimento da construção de um texto primoroso.

Agora volto a falar sobre Lado a lado, quando me sentir mais livre, retomo Subúrbia. Eu nunca pensei que Zezéh Barbosa (encarcerada por papéis cômicos e estereotipados) pudesse umedecer meus olhos, mas a voz que ela emprestou à tia Jurema para convencer o Zé Maria de que sua luta pelo fim dos maus tratos aos marujos nos navios havia sido justa e vitoriosa, mesmo punido com a expulsão da Marinha, me fez aplaudi-la em cena aberta. E Jurema lembrou ao Zé sua responsabilidade sobre o sorriso de encantamento de Elias e dos outros meninos do Morro. E que a luta de Zé Maria e João Cândido frutificaria para Elias e para os filhos dele. Arrepiei! Fui ao Orun, em êxtase, e lá encontrei João Do Vale, que cantou para mim: eu chego lá, queira ou não queira, eu chego lá! Se eu não chegar a vê, vai nascer de mim, quem vem pra ver. Quando voltei, Zé Maria dizia que o alto mar era seu chão. Poesia fina na novela das seis.

Como eu pensava, João Cândido não foi soterrado pelos autores, ele aparece onde cabe na novela, ou seja, na fala dos demais personagens. É assim que Guerra e Edgar interpretam lamento indignado e convincente sobre a revogação da anistia aos marujos, a expulsão de um grupo e a prisão do soberano João Cândido. No folhetim, João Cândido tornou-se herói de todas as pessoas de bem. Por falar em personagens negras destacadas, o enlevo da interpretação de algumas artistas brancas com a personagem de Camila Pitanga é lindo, comovente, convincente, e expressa a sincera admiração de Laura e Diva Celeste por Isabel.

Sinto falta de que Isabel e Laura discutam os tratamentos morais diferenciados recebidos pela busca de liberdade de cada uma delas. Isabel pode morar sozinha, a despeito das idéias e posturas ultrapassadas do pai, que, em última instância, queria a filha negra respeitável como uma branca, orientada pelos padrões morais estabelecidos para as mulheres brancas. A irmã de Berenice, também negra, aparentemente não trabalha, tem três filhos e não tem marido, sustenta-os com um dinheiro que não se sabe de onde vem e não há problema por isso, ela cabe na lógica negra, mais flexível também, porque considerada inferior, logo, seriam comportamentos típicos de gente menor. Berenice tem um homem e não é formalmente casada e não existe problema nisso, desde que ela seja mulher só daquele homem. Laura, por sua vez, tem limites sociais muito mais duros no campo da moralidade, porque é branca e sair da norma é coisa de gente menor, de gente preta. Seria muito interessante que as duas discutissem isso para não consolidar a ilusão de que elas são iguais e passam pelos mesmos problemas em uma sociedade atavicamente machista e quem sabe, Laura até sofra mais.

E por falar nele, no machismo, quanta poesia e delicadeza para Afonso esquivar-se da filha, diante do nocaute de Zé Maria, causado pela mulher-estilhaço-Isabel no coração de ambos, pai conservador e amante covarde, conforme auto-definição do próprio Zé: eu vou embora. Ninguém precisa de mais um homem machucado aqui.

E Zé Maria precisa segurar a onda, senão vai perder Isabel, já-já. Ou ele amadurece ou não vai dar. Se for posar de pretinho desamparado, humilhado pelo sucesso da mulher negra, fodeu! Minha heroína não retrocederá um passo, não diminuirá uma centelha do próprio brilho para ter a companhia do amado aturdido pelo macho interior, que não aceita a independência da mulher. Isso, nunca!

20 de nov de 2012

O fogo tempera o aço, como o tempo tempera as gentes

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Mulher Negra 2012.

Por Cidinha da Silva

“Onde você for, que o mal se esconda / e não saia do lugar / porque você tem Ogum de ronda / no clarão do seu olhar.”

Naquele agosto de 91, a primavera chegou mais cedo, quando recebi em Belo Horizonte, um telefonema dela. Era o fim das noites de angústia, das tardes bucólicas, burocráticas e tristes no trabalho de apenas sobreviver. Da vida de horizontes curtos, apesar dos 20 anos.

Sueli Carneiro me fez nascer pela segunda vez, quando, atendendo a um pedido meu, me convidou para trabalhar e viver em São Paulo. E por isso serei grata em todas as vidas que me for dado viver. Sou grata também pelas lições aprendidas via Método SC. Contumaz (às vezes duro demais), mas amoroso, tal qual o Método Maia.

Sueli, como a sinto, é essência de ferro, vento, ouro e amor de mãe. Lulu que o diga, aquela que a vida inteira precisou dividir a mãe com o mundo e à medida que cresceu e maturou a menina linda, sentiu orgulho imensurável dela. Confio na irmandade taurina para afirmar.  

Foi Luanda, aliás, quem me propiciou a segunda lição do Método SC. Em uma situação de festa, eu, em Geledés havia três meses, tive a atenção chamada por Sueli, de maneira brusca e desproporcional. Assustada, eu não reagia e Lulu, do alto dos 13 anos e do domínio sobre o coração da mãe, avisou: “mãe, você está machucando a minha amiga, solta ela!” E eu pude respirar.

Aquilo rendeu pesadelos nas férias, dor da falta de entendimento e quando busquei explicações, era tudo atribuído às cervejas. Ficou o mais importante, o tempo tempera as gentes, como o fogo tempera o aço.

A primeira lição foi a generosidade de Sueli ao me dar a vida, sabendo tão pouco de mim, não conhecendo minha família, minha origem, só meus olhos ávidos de vida e certos de que São Paulo era meu lugar no mundo. A aposta de Sueli no meu sonho me ensinou a respeitar as pessoas jovens, a não desdenhar de seus mistérios. Esta foi a mais preciosa de todas as lições e posso afiançar que a aprendi direitinho.  

Quando primeiro cheguei a São Paulo, em 88, para assistir a uma das sessões do Tribunal Winnie Mandela, eu ainda não conhecia Sueli pessoalmente, nem sabia direito como ela era, mas quando vi aquela preta reluzente, pura luz preta no ambiente, de testa reflexiva e sorriso franco, de olhos vivos, atentos ao mundo, ao novo, dedos finos, elegantemente alternados no queixo e microfone armado, pensei, é ela! É esta mulher que escolho para me fazer quem quero ser.

Eu estava hospedada na Vila Sônia e não tinha noção das distâncias da cidade. Então, num domingo, Sueli, que morava perto dali, deslocou-se até o lugar onde eu estava para discutir comigo um projeto de pesquisa, para o qual faltava interlocução na universidade. Eu me senti tão valorizada, tão importante, tão gente, que, a partir daquele momento, passei a dedicar minha vida para provar àquela mulher que o cuidado que tivera comigo, não fora em vão.

E continuei indo a São Paulo todos os anos desde então. Economizava centavos para a viagem à terra que para mim era Sol acima de qualquer cinza. Eu passava muito tempo em Geledés e adorava quando Sueli me convidava a acompanhá-la nas coisas que fazia. Era tanta gente importante que ela me apresentava, gente que olhava para ela com apreço e admiração. E quando eu pegava o microfone, abusada, como sempre fui, ela me ouvia com atenção e olhos enluarados, e sorria. Sorria e balançava a cabeça como Steve Wonder a cantar. E eu me agigantava, Coutinho esgrimindo seus dotes para Pelé observar.

Vinte dias depois do telefonema que adiantou a primavera, me apresentei àquela que passaria a comandar meu exército interior. Ainda demorou mais de dois anos para que eu conseguisse trabalhar diretamente com ela e nesse período fui testada, inúmeras vezes.

No primeiro teste, outra diretora, talvez enciumada pela forma como eu idolatrava Sueli Carneiro e também para demonstrar poder, me ofereceu, na frente dela, uma viagem aos EUA. Eu deveria representá-la numa conferência e ler um trabalho seu. Eu tinha 24 anos, saíra da roça para a cidade grande há pouco tempo e a tentação era grande. Sueli, calada, apenas observava. Serena, agradeci a lembrança e o oferecimento, mas não poderia aceitar porque não falava uma gota de inglês. A diretora insistiu, contrariada, irritada. Argumentou que não era necessário dominar a língua, ela treinaria a leitura do texto comigo. Não, obrigada, eu não falo inglês, reiterei, orientada pelos velhos que sustentam meu Ori e pela certeza da lição aprendida com meus pais, de que na vida, a gente deve ter valor, não, preço.

Foram extenuantes os testes ao longo de vários anos de convivência, também as dores, os jogos de interesses e poder, sacrifícios da vida pessoal e frustrações decorrentes, que foram matando aos poucos a alegria, e me levando a desistir da política e a retomar o sonho da literatura. O saldo é positivo, lógico. Sou quem sou, porque um dia Sueli Carneiro me deu a vida e, justamente, para honrar este presente, entendi que precisava seguir meu próprio caminho e reinventar meu lugar no mundo.

E é essa reinvenção que faço nas crônicas diárias, nos livros, nas intervenções públicas, no aprendizado com as pessoas mais jovens. Minha cidade e minha família me deram régua e compasso. Sueli me deu uma tela ampla para xilografar minha história.

Ogum iê! Sueli Carneiro! Mulher do ferro, do vento, do ouro e do amoroso coração de mãe!

*Um cheiro para Ellen Oléria que cantou Zumbi no meu ouvido todo o tempo em que me dediquei à escrita desta declaração de amor e gratitude à Sueli Carneiro.

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Mulher Negra (blogagemcoletivamulhernegra.wordpress.com).

João Cândido, o neto de Francisco Ayrá



Por Cidinha da Silva

(...) Quase ao mesmo tempo chegou aqui em casa o tio Aroni, compadre dos velhos e melhor amigo do vô, acompanhado pelos filhos, Ajagunã e Anauá. Deram boa noite a todos e o João Cândido, muito atencioso, os levou até vó Berna. Tio Aroni e a vó se abraçaram em silêncio no calor daquela amizade de muitos anos. Os rapazes tomaram a benção e abraçaram  vó Berna também. Depois dos cumprimentos, o tio pediu licença para preparar o corpo e instruções do local onde deveria fazê-lo. O vô e o tio Aroni, pertenciam a uma espécie de irmandade masculina, e quando um integrante morria, havia esse ritual, sempre conduzido pelo tio.

A passagem dos três homens deixou um rastro de aguapé, alecrim e alfazema. Umas folhas de pata-de-vaca e amoreira caíram do saco de pano. Ajagunã e Anauá, os filhos da mata, nomeados pelo espírito das folhas, cobriram o corpo do vô com um tecido branco cheiroso e o tiraram da cadeira de praia para o quarto indicado por vó Berna. João Cândido pediu para acompanhá-los, eles permitiram, mas só até a porta. Tio Aroni, por sua vez, já estava na cozinha, maquinando os segredos dele entre ervas, folhas e água.

O povo, aos poucos foi chegando. Uma infinidade de vizinhos, amigos, conhecidos, parentes, admiradores. Nossos avós eram muito antigos e queridos no bairro que ajudaram a construir. Vó Berna aproveitou a presença das tias Neusa e Dinda, dos tios Ainan e Aganju - só faltava meu pai, o filho viajante -, e foi para o quarto ajeitar a roupa do vô Francisco.

Emocionada, a vó nos contou que quando ligou o ferro na corrente elétrica para passar a calça de linho e a bata de cambraia brancos, cosidos por ela, lembrou-se do primeiro passeio de trem feito pelos dois. Quantos vagões, quantos trilhos, quanta carga, quantos viajantes e ferros de passar passaram por sua vida, toda vivida ao lado de vô Francisco. Enquanto tirava os mais escondidos amassadinhos da roupa, recordou o ferro de passar alimentado por brasas, o motor à lenha da maria-fumaça, as roupas da juventude passadas pelo ferro antigo, as conquistas da família, a consagração de vô Francisco como artista, a vida simples e feliz que os inscrevera no mundo.  Como seria, agora, a vida sem ele?

 Distraída no conforto das lembranças, vó Berna não viu que Ayana e João Cândido a esperavam. Quando se apercebeu, exclamou com seu jeito brincalhão:  “Os menino, cês tão aí, na espreita, acocorado feito dois calango véio?”. O primo João Cândido tentou sorrir, mas o choro o fez correr para abraçar a vó. Ele fora a única das crianças ausente no momento da passagem do avô. A prima Ayana abraçou o abraço dos dois e choraram juntos.

Vó Berna os acalmou, esticou-se para desligar o ferro de passar. O primo lamentou choroso que os homens não o tivessem deixado acompanhar o ritual de limpeza do corpo. Vó Berna explicou tratar-se de coisa de homem.  “Eu também sou homem”!, ele falou alto, do lado de fora a gente ouviu. “Um homenzinho de doze anos”, vó Berna o consolou. “Ainda não é hora.” Nossa vó olhou-o na menina dos olhos e percebeu que o primo estava abafado. Estendeu o coração para que o João se abrisse no colo dela.  “Ai, vó, só vejo uma baleia encalhada”, ele começou a falar, mas foi interrompido por Ayana. “Aonde, JC?” “Na praia, Ayana.” Ele respondeu impaciente. “E tem um monte de gente querendo desencalhar a baleia. Eu também estou lá, tento, tento e não consigo. O tempo vai passando e a baleia vai morrer se não voltar ao mar”. O João chorou, calado. Vó Berna o incentivou a falar mais. “Continua meu filho, liberta sua baleia.” “Ah... vó, é tão difícil. A baleia é pesada, enorme e eu sou tão pequeno. Ela vai morrer.

Vò Berna ao relembrar a conversa com o João achava um jeito de falar conosco sobre a impossibilidade de evitar a morte e também sobre os recados que ela nos trazia.  “A morte, João, chega para todos os vivos: animais, plantas, gente, até para a água. Quando ela alcança alguém próximo e querido, é um sinal para corrigir coisas desandadas na jornada, ou para afirmar o caminho certo, se as coisas estiverem bem. O importante é encarar a morte como passagem para um tempo de melhor-viver. Se as estradas por onde andamos estão feias e nubladas, sujas e espinhosas, é hora mudar de lugar, procurar o sol, os pássaros, as flores. Mas se estão bonitas, floridas, ensolaradas, além de permanecer nelas e desfrutar de todas as belezas e cores, devemos convidar mais gente para fazer o caminho ao nosso lado.” “Mas e a baleia, vó? Vou deixar ela morrer?”, o João pergunta angustiado. “Existem coisas, meu pequenino João, mais fortes do que a nossa compreensão e as nossas forças. Elas acontecem, simplesmente. O sofrimento da baleia é o maior de todos, a dor física, a falta de ar e água, a preocupação com as baleinhas  desamparadas no mar. Uma dor enorme, quase do tamanho dela, deve produzir  aqueles roncos de desespero no estômago da coitadinha, e ela, neste momento, não passa de um peixão sozinho e indefeso.”  “Oh, vó e a baleia, ela também pensa na vida dela quando está morrendo?”  “Talvez, Ayana, o que você acha?” “Ah vó, durante aquele tempo sem conta, ela deve pensar em todas as atitudes baleísticas da pessoa dela: o susto dado nos humanos, mesmo sem querer; os cardumes devorados por pura gula, aproveitando-se da sopa que os peixes deram em frente à sua bocarra. Essas coisas de baleias.” “Imagino também vó”, completa o João reflexivo, “que brincando no oceano, ela apitou como um navio e deu falsas esperanças a um grupo qualquer de náufragos. Isto deve ser uma lembrança doída para qualquer baleia pensativa”.

Vó Berna se alegrou com o entendimento do ciclo da vida demonstrado por seu neto destemido e por Ayana, sua flor mais bela. “Isso mesmo, crianças, vocês estão compreendendo o sentido da morte para quem fica, a necessidade de ressignificar o viver. Aproveito para entregar a vocês os pentes deixados por Francisco para cada um. João Cândido, meu menino, seu avô sabia que mesmo sem conseguir desencalhar a baleia, você não desistiria de tentar, talvez até telefonasse para o corpo de bombeiros”, brinca nossa avozinha matreira. “Por isso, ele destinou a você este pente, símbolo de duas coisas principais, a generosidade e a solidariedade. Para você, Ayana, nossa netinha de saúde mais frágil quando nasceu, ele deixou este aqui, o pente da perseverança. Lembra-se da história da flor amarela de cinco pétalas da cor do sol? Ele contava para acalentar seu sono enquanto pedíamos aos deuses infantis para não levarem você da gente.”

“Que fofo era o vô. Os pentes se completam, não é vó? O pente do JC também poderia se chamar perseverança. Eu fui cuidada pelo amor de vocês e isso me ajudou a vencer minha batalha pela vida, no entanto, o pente do amor foi descansar nas mãos do Abayomi, o curioso pelo início das coisas.”

Vó Berna se emocionou novamente com a sagacidade dos primos, mas interrompeu as lágrimas para dar uma ordem -- João deveria levar a roupa passada até a porta do quarto onde estavam os homens, com cuidado, para não amassar.

Trecho do livro Os nove pentes d'África, de Cidinha da Silva.