Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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30 de abr de 2013

Um texto para Geledés, quando completou 21 anos de História!


Por Cidinha da Silva


Geledés completa neste 30 de abril, 25 anos de vida! Parabéns! 
Quando penso na História desta Organização, penso em minha inscrição no mundo, pois vivi lá, alguns dos anos e acontecimentos mais importantes da minha vida. Cheguei com uma mala de sonhos em setembro de 1991 e saí, em dezembro de 2004, com a maioria deles realizada e tendo sonhado outros que sequer imaginava sonhar. 
Vivi alguns sobressaltos, até pesadelos, todos, entretanto, inerentes ao fazer político e aos humanos que fazem a política, ou seja, nada que maculasse o saldo final: positivo e operante! 
Lá, aprendi a ser soldada e comandante, mas me cansei da guerra. Ela, a guerra, é que não arrefece, assim, quem luta contra o racismo no Brasil, pode dar-se o luxo de escolher a trincheira. Isto não configura uma vantagem, propriamente, mas como guerrear é imperativo, que pelo menos possamos escolher o campo onde sejamos mais felizes. 
Geledés protagonizou capítulos importantes da História contemporânea do negro no Brasil e da luta pela superação do racismo e da discriminação racial. Numa passada superficial pela memória relembro seis deles.
1 – Como uma das ONGs negras mais velhas e consistentes do país, Geledés foi pioneira ao pensar um programa de comunicação para estruturá-la, responsável por fomentar o diálogo dos demais programas e ações da instituição com o mundo. 
2 – Geledés iniciou diálogo político independente, sem tutela, com um setor fundamental da juventude negra brasileira (hoje, sujeito autônomo e consolidado), o Movimento Hip Hop paulistano. Contribuiu para o aprofundamento da discussão racial junto às lideranças do Movimento, para a consolidação do próprio conceito político de juventude negra no Brasil, falamos de finais dos anos 80, início dos anos 90. 
3 – O trabalho realizado por Geledés com o SOS Racismo – Serviço de atendimento jurídico às vítimas de discriminação racial, inaugurou a alameda de trabalhos sobre o tema que veio a consubstanciar a área de Direito e Relações Raciais no país e fez "pegar" a Lei 7.716/89. 
4 – Iniciou, em 1994, o diálogo com diversas organizações negras da América do Sul, embrião da Aliança Estratégica de Organizações Negras da América Latina e Caribe que desempenhou papel essencial no capitaneamento de nossas demandas durante todo o processo preparatório de Durban e realização da III Conferência Mundial Contra o Racismo. 
5 – Geledés foi determinante na constituição da AMNB - Articulação de Mulheres Negras Brasileiras que, finalmente, é representante legitimada do coletivo de negras brasileiras organizadas, quer em instâncias nacionais, quer no exterior. 
6 - Por fim, o projeto Geração XXI, implantado em 1999, e demais programas de ação afirmativa que o seguiram, com vistas à promoção do acesso, permanência e sucesso de jovens negros em boas universidades, dois anos antes da III Conferência Mundial Contra o Racismo e da implantação das cotas para negros na UERJ, ambos em 2001. Antes também do grande debate sobre as ações afirmativas, como uma das estratégias possíveis de enfrentamento do racismo no Brasil. 
Daqui do blogue envio um beijo saudoso, um agradecimento emocionado e votos de vida longa e produtiva à casa que me acolheu durante 13 anos, me ensinou muito do que sei e me possibilitou ser quem sou. 21 anos não são 21 dias, mas os dois medidores de tempo são tempos de iniciação. 
 Para Geledés, uma canção: “Quem foi que falou que eu não sou um moleque atrevido?/ Ganhei minha fama de bamba/ No samba de roda/ Fico feliz em saber/ O que fiz pela música, faça o favor/ Respeite quem pode chegar/ Onde a gente chegou/ Também somos linha de frente de toda essa história/ Nós somos do tempo do samba/ Sem grana, sem glória/ Não se discute talento/ Mas seu argumento, me faça o favor/ Respeite quem pode chegar/ onde a gente chegou/ E a gente chegou muito bem/ Sem a desmerecer a ninguém/ Enfrentando no peito um certo preconceito e muito desdém/ Hoje em dia é fácil dizer/ Que essa música é nossa raiz/ Tá chovendo de gente que fala de samba e não sabe o que diz/ Por isso vê lá onde pisa/ Respeite a camisa que a gente suou/ Respeite quem pode chegar onde a gente chegou/ E quando pisar no terreiro/ Procure primeiro saber quem eu sou/ Respeite quem pode chegar onde a gente chegou." (Moleque atrevido, de Jorge Aragão, Flávio Cardoso e Paulinho Rezende).

Eu sou coluna de aço! Se quer passar, arrodeia!



Por Cidinha da Silva

Yeda Castro proclamou feliz e orgulhosa: “Finalmente a Academia conseguiu reunir a elite tradicional branca baiana com a realeza nagô, que se orgulha de ser negra!”

Permito-me discordar, querida professora, diria que, finalmente, a Academia de Letras da Bahia, composta pela elite tradicional branca baiana dobrou os joelhos à realeza nagô, à realeza negra manifesta nos 87 anos da Iyalorixá Stella de Oxóssi! É gesto simbólico, mínimo e forçoso de ampliação do reconhecimento do papel determinante das mãos, pés e ciência africanos na construção do Brasil.

Outro Castro, Ubiratan, sentado em confortável pilão de madeira maciça, escoltado por Bimba e Pastinha, comenta que está tudo bem posto, o novo está nascendo pelo Fogo Grande da Casa de Xangô, regida pela Caçadora, que agora ocupará no Ayê, uma cadeira que foi sua. Bimba, de braços cruzados, assente. Pastinha ginga e com uma mão abraçando o peito e outra acarinhando a barba diz: “É nagô, mas é angoleira.” Bira gargalha gostoso. Bimba meneia a cabeça em negativa, mas sorri da manha de Pastinha. Deus é mais!

“A Caçadora precisa de coragem, pontaria e rotina.” É Bira de novo, dando rumo à prosa. “Silêncio também”, pondera Bimba, “senão espanta a caça”. “É verdade”, acrescenta Pastinha. “Mas a Dona faz barulho, não é?” “Muito”, diz o Bira! “É a coragem se revelando para dizer que é tempo de Iansã ser Iansã, de Xangô ser Xangô, de Oxum ser Oxum, sem vestimentas de batismo católico necessárias em outros tempos”. “Foi certeira”, conclui Bimba.

E Bira retoma a palavra: “todas as homenagens feitas às Iyalorixás Stella de Oxóssi e Beata de Iyemonjá, à Makota Valdina e ao mundo banto que sua ancestralidade carrega, serão pequenas reverências ao matriarcado de origem africana que há séculos oferece sábia sustentação espiritual ao povo brasileiro, de maneira generosa e indistinta. Serão gestos simbólicos de reconhecimento e agradecimento a um legado atemporal e imensurável. São medidas bem-vindas e necessárias, embora insuficientes. Só mesmo a alegria dos filhos novos que nascem em cada casa de àsé, pelas mãos e pela navalha das Iyás, das filhas e netas, para reverenciar a tradição da maneira fundamental que a manterá viva. Okê Arô, Mãe Stella! A Caçadora traz alegria!”

29 de abr de 2013

Adeus IMACO. Triste Horizonte!



Por Cidinha da Silva

O domingo era de sol e embora certa nostalgia pela companhia de Itamar Assumpção tomasse conta dele, era produtivo e feliz. Então sobe a fumaça tóxica da demolição de memória importante da minha adolescência no Parque Municipal. A prefeitura do prefeito rejeitado e reeleito derrubou o IMACO. Ai, meu coração!

Quando a gente era criança, eu e meus irmãos íamos ao Parque Municipal, levados por meu pai. Ele apontava o colégio e dizia a mim, que sempre mostrei interesse pela arte de aprender, que aquele colégio era muito bom, que era público e que eu podia pensar em estudar ali. Meu pai me autorizava a sonhar o melhor.

Só entrei no IMACO uma vez, já nos anos 2000, para dar uma palestra para um grupo grande de professores, naquele auditório enorme. Foi aí que o vi por dentro. Minha memória é mesmo de vê-lo de fora, entre as árvores centenárias do Parque Municipal, próximo à sombra do bambuzal, testemunha de tantas conversas definidoras que tive na vida e da lagoa de água preta cheia de patos e barcos furados, de remos nada confiáveis.

Mas na adolescência a escola foi palco de muitas disputas dos aspirantes a crânios. Eu tinha um grupo de amigos que procurava as melhores escolas para fazer o ensino médio e o IMACO estava entre elas, ao lado do Estadual Central e da Escola Técnica. Quem estudava numa dessas, era respeitado por nós. Eu tinha uma prima que era aluna do IMACO e embora nunca tenhamos sido próximas, sempre a admirei por isso.

Saber que o IMACO foi demolido por força de lei aprovada na calada da noite me lembra um samba doído sobre a demolição da Lagoinha, umas das zonas boêmias de BH, que nos anos 80, sucumbiu à especulação imobiliária, depois de ter-se tornado reduto de sujeitos sociais considerados descartáveis: travestis sem glamour, velhos e decadentes, artistas e prostitutas abandonados e destruídos pela vida dura e pela dependência de drogas, portadores de HIV e doentes de Aids. “Adeus Lagoinha, adeus / Estão levando o que resta de mim / Dizem que é por força do progresso / Um minuto eu peço / Para ver seu fim”...

Ao invés de tombar a Praça Vaz de Melo como patrimônio público, como referência cultural e identitária para putas, malandros, estudantes, intelectuais e artistas, preferiram demoli-la. Eles são assim, levam o que resta da gente. Mas a memória insiste, o imaterial, o subjetivo, a lembrança daquilo que a gente nem viveu, mas foi importante para tantas gerações.

É um belo horizonte que se vai e uma Velhohorizonte que cada vez mais se enraíza e nos envenena, nos deixa tristes, muito tristes, como quando a gente mira da Afonso Pena as montanhas da Serra do Curral d’El Rey e se dá conta de que elas são só capa, fachada oca do minério de ferro sangrado de seu miolo. Ou quando presenciamos, desesperançados, a transformação do Acaiaca, cinema no prédio de mesmo nome, primeiro arranha-céu da cidade, em igreja evangélica. Fim idêntico teve o Amazonas, que não exibia filmes excelentes, mas era um cinema grande, de apelo popular.

Na vitrola Itamar continua. “Na vida sou passageiro / Eu sou também motorista / Tenho dom pra costureiro / Com queda pra macumbeiro / Agora sou também mensageiro / Me calo feito um mineiro / No mais, vida de artista.” 

27 de abr de 2013

Mãe Stella: "O tempo leva o que não se escreve"




Por Marjorie Moura 
Jornal A tarde

  • Margarida Neide | Ag. A TARDE
    Mãe Stella é a primeira intelectual do movimento afro a ser nomeada para a Academia
A cadeira nº 33 da Academia de Letras da Bahia (ALB), cujo patrono é Castro Alves, passa a partir de agora a ser ocupada por uma nobre personalidade, Maria Stella de Azevedo Santos, a mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. Enfermeira de formação, é autora de cinco livros que tratam da herança cultural africana e sua interpretação. Por seu trabalho, ganhou o prêmio jornalístico Estadão em 2001, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em 2009, e da Universidade Federal da Bahia, em 2005. Foi agraciada com a Comenda Maria Quitéria (Prefeitura de Salvador), Ordem do Cavaleiro (Governo da Bahia) e Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.
Marjorie Moura - O candomblé é conhecido pela oralidade, pela transmissão dos conhecimentos de forma oral.  A senhora rompeu esta tradição ao escrever sobre a tradição africana. Como se sente diante deste reconhecimento com sua eleição para a ALB?
Mãe Stella - Vejo tudo isso como uma evolução, uma grande evolução. O povo vai crescendo, se conscientizando  sobre a verdade de nossa cultura e chegamos aqui. Os praticantes da religião do candomblé eram vistos como analfabetos pela sociedade porque falavam outra língua e vinham de um novo mundo. O destino da escravidão nos trouxe ao Brasil e nossa cultura e tradição vieram junto e sobreviveram a tudo. Hoje isso é reconhecido na academia como um legado que não pode ser dissociado da cultura brasileira.
Marjorie Moura - Inclusive até palavras desta língua que era desconhecida fazem parte hoje de nosso vocabulário...
Mãe Stella - É claro, assim como as palavras indígenas também foram incorporadas ao nosso dia a dia. Assim com tem gente que fala palavras estrangeiras. A cultura é assim, cheia de influências que vêm de todos os lados.
Marjorie Moura - O fato de a senhora ter sido escolhida para ocupar a cadeira cujo patrono é Castro Alves e que teve como último ocupante o professor Ubiratan Castro tem um significado especial?
Mãe Stella - Nada poderia ser mais especial. Castro Alves tem uma poesia vigorosa e foi uma das primeiras vozes no Brasil a se levantar contra a escravidão. A força dos versos de "Navio Negreiro" calou fundo na sociedade brasileira ao reconhecer nos escravos africanos pessoas iguais a qualquer outra. Depois, a contribuição do professor Ubiratan  Castro para a preservação de nossa cultura. Diante disso, ninguém nunca pensaria que uma mãe de santo poderia chega a ocupar este posto. Isso mudou pela nossa luta, mas também por meus livros, porque o que a gente não escreve o tempo leva.
Marjorie Moura - Seus títulos lhe levaram a esta eleição?
Mãe Stella - Com certeza, mas os títulos, e foram muitos, são muito justos e resultado de muito trabalho. A gente se entregou muito, se empenhou muito para chegar até aqui.
Marjorie Moura - Tem gente sonhando com cânticos de suas filhas de santo e toques de atabaques em sua posse. Falaram até que Jorge Amado ficaria feliz em assistir. Ela já foi marcada?
Mãe Stella - A posse vai depender da academia e ainda não foi marcada porque estas cerimônias têm seu ritmo próprio e não sei como vai ser a organização. Mas é certo que o evento pode ter algum toque da religião africana porque ela é muito forte e vai agradar a muita gente, não é? (risos).

Batuque no Muquifu sinhá não entra...





Doméstica, da Escravidão à Extinção. Uma Antologia do Quartinho de Empregada no Brasil
Primeira Mostra de Longa Duração do Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos

Por Padre Mauro Silva


No dia 27 de abril, próximo sábado, é o dia da Empregada Doméstica (Festa de Santa Zita de Luca - Padroeira das Empregadas Domésticas), estamos preparando um evento que irá acontecer no Muquifu - Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos.

Há muitos anos sonho com algo assim... Comemorar o dia da Doméstica (também é meu aniversário) e poder criticar este modelo racista e escravocrata que se silencia diante de milhares de mulheres negras e pobres que, no Brasil, vivem em regime de semiescravidão, sendo exploradas, humilhadas e mal pagas, dentro das casas das madames e também das patroas de classe média, porque, sabidamente, no Brasil, a trabalhadora doméstica é símbolo de status (e resquício da escravidão) de quem pode pagar e julga que tem uma empregada, como tem uma coisa qualquer.

A coisa está pegando fogo aqui no Quilombo do Papagaio - Barragem Santa Lúcia! Eu tenho centenas de amigas que trabalham como Domésticas e algumas delas moram no Quartinho de Empregada, acreditem! Por isso elas estão loucas para contar sua História. Algumas estão preocupadas e querem defender suas patroas Outras, mais libertárias, menos oprimidas, querem denunciar as injustiças que viveram nas senzalas de ontem e de hoje. Esta primeira Mostra de Longa Duração do Muquifu - Doméstica, da Escravidão à Extinção. Uma Antologia do Quartinho de Empregada no Brasil - vai dar pano pra manga.


Durante o evento - Comemoração do Dia das Empregadas Domésticas - organizaremos uma oficina para a montagem de um Quartinho de Empregada. Vamos colocar dentro do quartinho apenas o que elas decidirem: caminha, vassouras, material de limpeza, televisãozinha, aparelho de telefone para atender os desmandes da patroa e sua família a qualquer hora do dia e da noite, retratos, pôsteres de cantores, perfumes, roupas, armário... Somente elas poderão escrever nas paredes brancas do quartinho suas memórias, histórias, protestos, agradecimentos etc. Esta será a primeira "peça" do acervo do Muquifu.

O Muquifu defende que cada um vá lavar sua própria privada e busca argumentos para o surgimento de uma sociedade nova, onde não haja mais lugar para Sinhás. Não acreditamos mais em discursos do tipo “Ela é como se fosse da família”, ou ainda “Mas quem é que vai lavar os banheiros, afinal?”, “Isso que dá não querer estudar.” Vamos ampliar este debate?! A Mostra Doméstica ainda não está pronta, ela será uma construção coletiva.

Para este dia 27 de abril estão convidadas exclusivamente as Empregadas Domésticas (Babás, Motoristas Particulares, Jardineiros, Lavadeiras, Passadeiras, Cozinheiras, Diaristas, Faxineiras, Horistas, Cuidadores de Idosos... Pessoas que exercem trabalho remunerado - semiescravo - no ambiente doméstico). Ou seja: Batuque no Muquifu sinhá não entra. Desculpem-nos, caras pálidas, mas esta festa é exclusiva para as Empregadas Domésticas.

26 de abr de 2013

Ialorixá Stella de Oxóssi é a nova 'imortal' da Academia de Letras da BA


mae-stella-oxossi

Mãe-de-santo foi eleita pelos acadêmicos na tarde desta quinta-feira (25).
Ela ocupa cadeira 33, que era do historiador e professor Ubiratan Castro.


A ialorixá do terreiro Ilê Axé Opó Afonjá, Mãe Stella de Azevedo dos Santos, também chamada de Mãe Stella de Oxóssi, a partir desta quinta-feira (24), passa a ocupar a cadeira de número 33 da Academia de Letras da Bahia.

A mãe-de-santo recebeu 22 votos dos acadêmicos em sessão realizada nesta quinta-feira (25) com objetivo de escolher o novo nome para vaga deixada pelo historiador Ubiratan Castro, que morreu em janeiro.

Mãe Stella foi comunicada pelo presidente da Academia, Aranis Ribeiro Costa, e aceitou ser a nova "imortal". "Acredito que é a primeira vez que uma mãe-de-santo entra em uma Academia de Letras. Isso é absolutamente pioneiro, não tenho conhecimento disso em nenhum outra do Brasil ou do mundo. Representa o reconhecimento de uma cultura, de uma raça e da história de um povo. É uma figura notável", comemora.

O poeta Castro Alves é o patrono da cadeira 33, que já foi ocupada por nomes como Francisco Xavier Ferreira Marques, Heitor Praguer Frois, Waldemar Magalhães Mattos, além de Ubiratan, que era presidente da Fundação Pedro Calmon.

A Academia de Letras da Bahia tem 40 membros, entre eles, João Ubaldo Ribeiro, José Carlos Capinan, Myrian Fraga, Cid Teixeira, Ruy Espinheira Filho, Consuelo Pondé, Hélio Pólvora, Florisvaldo Matttos e Edivaldo Boaventura.

Mãe Stella é colunista do jornal A Tarde e autora de livros como "Meu tempo é agora", "Òsósi - O Caçador de Alegrias" e "Epé Laiyé- terra viva". Em 2009, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

Fonte: Portal Geledés

24 de abr de 2013

É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!





por Cidinha da Silva*

Escrever textos opinativos sobre novelas ou aspectos delas, é um grande aprendizado. É vespeiro de abelhas bravas e vingativas. Você passa pelo inferno do desprezo, ora intelectualóide, ora esquerdizante e vai até outro inferno, do pessoal que compra a ideologia da novela e a assisti (ou diz que não assisti) sem laivo de criticidade. É um risco para a reputação da cronista, porque de uma ponta a outra há um corredor polonês inclemente, preparado para bater.

Mesmo a crítica mais participativa, aquela localizada no entremeio dos infernos, confunde papeis. São ditas coisas como “Muito bom o texto! Faça-o chegar à autora da novela!” Ora, faça-o você, se acha que vale o trabalho de movimentar-se nessa direção. A escritora escreve, põe o texto no mundo e ele anda com as próprias pernas. E quem quiser que o carregue, promova, critique, execre-o, com argumentos, por favor, principalmente no caso dos textos opinativos. Assim a autora se sentirá motivada a debater.

Ainda outra dimensão negativa, é que o texto sobre novelas publicado na Web é lido de maneira imediatista e grudada no tema abordado. É um texto sem asas, em que pese o fato de muitos leitores não aceitarem convites para ampliar o real. Parece que o peso da superfície livro é que continua a possibilitar vôos mais satisfatórios.

Pelo lado mais positivo, este tipo de crítica também encerra a percepção de que autora não consagrada joga nas onze. Ou seja, escreve, corrige, edita, escolhe ilustração, publica, divulga e deve fazer o texto chegar às mãos dos possíveis interessados.

A resposta aos textos novelísticos é também campo fértil para a manifestação dos donos da verdade. Gente que tem coisas prontas a dizer e que, pretensamente, pairam sobre a abordagem chinfrim da cronista, bem como sobre a percepção insignificante dos demais mortais. Um exemplo significativo, que não se refere à novela, propriamente, mas se adéqua de maneira perfeita ao perfil de dono da verdade exercido na Web, é a afirmação de que o espaço midiático e a repercussão conseguidas pela declaração de amor de Daniela Mercury à companheira, Malu Verçosa, é “um pouco exagerado demais.”

É de dar nó em pingo d’água! A coisa é “um pouco exagerada demais!” Diria que o sujeito inventou um pleonasmo torto precedido (contradito) por um quantificador de leveza linguística (a função inventada para o advérbio “pouco”, na frase). Tudo disfarce cínico da heteronormatividade para desqualificar a atitude da cantora, perfeitamente afinada com o respeito aos direitos humanos das pessoas LGBT no Brasil.

Existe uma versão ainda mais tosca dos donos da verdade, os fatalistas: "É a Rede Globo”! O que esperavam? O que assusta é vocês ainda esperarem alguma coisa das novelas.” Ou ainda, “É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!” As variações são muitas, tem o cara que diz: “Se eu não gosto, desligo a TV, não fico revoltadinho e abro mil assuntos no Face.”

Tem também outro tipo, metido a descolado: “Eu queria entender porque a autora ainda se da ao desfrute de assistir a um programa de uma emissora notoriamente racista. Se por questões de análise social ou se por entretenimento, no meu caso nem um nem outro”. A escritora avisa que não há uma resposta precisa para essa neurose. De um modo geral, cronista é gente à toa, mete-se onde não é chamada e vive procurando assunto. Essa é a verdade singela que não dá para ocultar desde os tempos de Machado e Lima Barreto.

É candidato a rei também, o arauto da esquerda: “O povo ainda não entendeu que uma mídia corporativa burguesa não pensa no povo e cultura como seres humanos, só pensam no lucro... o pior é que o povo ainda dá audiência.” É dureza receber essas mensagens, ainda mais para a autora que não é noveleira. Ela apenas lê a telenovela quando a assiste.

Tem os comentários impossíveis de decodificar, seja por pretenderem uma ironia (fracassada), seja por serem vagos ao afirmarem uma coisa, ao mesmo tempo em que contrariam o que disseram antes. É confuso mesmo. Você lê, relê e não consegue perceber se a concordância (ou discordância) é com a afirmação da autora ou com a crítica a ela.

Outros comentários mostram porque a novela emplaca, explicitam o tipo de pensamento representado por ela, expresso na voz do público. Note-se um vernizinho intelectual, estratégia da comentarista para tentar se diferenciar da massa ignara, quando emite juízo de valor sobre a crônica a respeito do núcleo de moradores de favela da telenovela Salve Jorge: “A novela não é grande coisa mesmo, mas é ficção e não documentário. E quem acha que novela vai fazer pensar? A maioria dos jovens de favela e periferias não querem nada mesmo: vejo aqui, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, rapazes soltando pipas, fazendo rachas com motos... moças que não trabalham, só querem namoro, e olha que não se vestem mal, não... não sei onde acham dinheiro pra comprar; é cabelo chapado, shortinhos curtos, funk em volume ensurdecedor, etc, etc...”

Felizmente, predominam os comentários inteligentes, lúcidos, mas a gente que lê o mundo, destaca sempre o que precisa ser reconstruído, por isso a ênfase naqueles que deixam escapar visões de mundo que interessam muito à ideologia da novela.

Bom exemplo de comentário positivo é o que segue. “Desligar a TV é uma boa mesmo, mas não resolve o que se discute aqui: invenções e reforços dos estigmas racistas! Por favor, a idéia é questionar e combater violências, não fechar os olhos, as portas, as janelas, a TV, os ouvidos... Detesto novela, não as assisto, mas estou com quem questiona o que elas veiculam.”


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum

23 de abr de 2013

Dublê de Ogum!




Por Cidinha da Silva

Tudo começou com uma brincadeira quando ele ainda era criança. O menino subia na cisterna com a capa de prata colada ao pescoço, espada de plástico azul em punho e  gritava: pelos poderes de Graiscow . Depois pulava no chão fingindo voar. A família preocupava-se porque ele já era um moço com sombra de bigode e não abandonava o brinquedo infantil, mesmo que o desenho-animado não passasse mais na TV. Às vezes ficava emburrado, pensativo. A mãe atribuía o fato ao fim do seriado.

Aos treze, completados em 24 de abril, muniu-se da capa e da espada e parou no portão da casa, de braços cruzados, olhar muito firme. Assim ficou por longos minutos. A avó que morava na casa de cima, disse que aquilo já passava dos limites e deveriam levá-lo a um psiquiatra. Levaram. A gota d’água para tomar tão difícil e dolorosa decisão familiar foi o dia em que o menino enfrentou um cachorro com sua espada de plástico, dizendo coisas esquisitas: “Não ouse me enfrentar, levantar a cabeça ou os olhos para me ver que sua cabeça rolará serra abaixo”.

Marcaram a consulta com uma psiquiatra. A avó foi junto. Primeiro a médica explicou às duas mulheres como trabalhava. Disse que não existiam loucos, mas pessoas inadaptadas ao mundo em que viviam, em sofrimento mental ou espiritual. Em alguns casos havia pessoas com deficiência de certas substâncias ou excesso de outras no organismo, coisa que a medicina ortomolecular já estava tratando. O importante era ter abertura para entrar no mundo da pessoa afetada e procurar compreendê-la, sem julgamentos. Alertou também que trabalhava com os sonhos e como se tratava de um adolescente, a família precisaria concordar em participar do tratamento.

A avó olhou para a filha, achou tudo muito estranho, principalmente o negócio dos sonhos, mas se era para o bem do menino, concordava. Como nos casos de decisões mais sérias, quem tomava a frente era a avó, estava todo mundo de acordo, leia-se, a mãe, pois o pai, sempre embriagado e ausente, nem via o que se passava.

O menino contou um dos sonhos. Ele se vestia como o Homem de Ferro, personagem dos quadrinhos, e uma matilha de cães o atacava. Ele desembainhava a espada e cortava a cabeça de todos, um por um. Tomado por ira terrível, cortava também a cabeça dos passantes que o observavam e não lhe rendiam graças.

Em outro, ele morava em país distante, onde todo mundo era preto e ele também. Vivia no coração da montanha mais alta e os moradores avisavam aos estrangeiros que aquela era a casa de um homem jovem, muito grande e muito forte, ferreiro de profissão. O trabalho na forja só era interrompido quando alguém subia a montanha. Ele se dirigia ao incauto e dizia: “O que te traz aqui, viajante? Por que tomaste minha estrada?” Alguns respondiam que andavam a esmo, a procura de um caminho; outros ouviram dizer que se rogassem a ele, o guardião da montanha e da forja, seus caminhos seriam abertos. Ele ria jocoso e indagava: “Como posso te abrir os caminhos se não tens um rumo a seguir?” E então explicava: “Embora aches que me procuras, buscas a ti mesmo e não te faltarei. Mas o caminho deverá ser feito por ti. Posso te conduzir em meus braços, mas a travessia será tua.” “E se eu não quiser, posso desistir?” Ele ri, dessa vez um riso estrondoso, de desdém e malícia. “Não há escolha, humano tolo e incrédulo. Quem chega até aqui é obrigado a atravessar.” “Você me chamou de humano. Você, por acaso, não é gente?”  “Não despeje mais tolice do que tua cabeça comporta. Tu vieste aqui para conhecer os teus mistérios, os meus, não te é dado saber. Prepara-te, pois vais atravessar a montanha comigo.”

E cada pessoa que chegava a esse momento, não continha um grito de horror quando via o abismo de cerca de dois metros de largura que separava os dois lados da montanha. Como atravessar aquilo? Aquele homem sozinho até poderia fazê-lo, mas como atravessar com alguém no colo?

Alheio às conjecturas dos viajantes o homem se concentra diante do fogo. Retira a espada da forja, mira o horizonte, corta para a direita, para o centro e para a esquerda. Coloca-a acima da cabeça, amparada pelas duas mãos, deposita-a novamente na forja. Ajoelha-se no chão, parece fazer uma prece. Abre os braços e diz palavras desconhecidas. Toma a espada outra vez e ordena ao homem que o aguarda:  “Siga-me, viajante!” “Para onde?” Ele pensa. “Para o abismo?” Pergunta-se o que fora fazer ali, despede-se da vida, pois é certo que vai morrer. E se fugisse?  Impossível, conclui. O homem da espada era um potente guerreiro de um lugar chamado Ifé e o alcançaria em poucos passos. Isso se não o transformasse em pedra, bicho ou grão, por meio de algum raio, ou coisa que o valha. Poderia cortar-lhe a cabeça com a espada. Não, era mais prudente esperar a morte certeira no abismo.

O ferreiro, muito sério e determinado, chega a menos de um metro do buraco fundo que separa os dois lados da montanha e chama o homem: “Venha, é chegada a tua hora”. Finca a espada na pedra e pega o homem de oitenta quilos em seu colo. Ele se agarra ao pescoço do ferreiro como um bebê. O ferreiro retira a espada do chão, ergue-a para o céu, flexiona os joelhos e voa para a outra margem. O homem, quando abre os olhos, já está em terra, na margem oposta. O ferreiro dá outra ordem: “Siga por aquela estrada e encontrarás o caminho! Não olhe para trás.” “Não entendo, a estrada não é o caminho de volta?” O ferreiro ri e diz que sua parte está feita.

 A médica impressiona-se com a riqueza de detalhes dos sonhos do garoto e pergunta o que eles despertam nele. O garoto diz sentir-se aquele homem, o que corta as cabeças, é de ferro e voa com uma espada na mão. Um dublê de Ogum, ela intui.

*Do livro Cada tridente em seu lugar, de 2006.

22 de abr de 2013

Outra vez, a novela! Agora com piadinha racista na boca de personagem negro.



Por Cidinha da Silva

Deuzuite (Susana Badin) enquanto ouve Alcione, alento para sua dor de mulher traída, conversa com as filhas e imita a forma da arqui-rival, Maria Vanúbia (Roberta Rodrigues), chamá-la. Deuzuitessssss, com o S longo, como uma bomba de matar pernilongos.

O que isso significa? É escolha da atriz, certamente. Um caco incluído por ela que reforça o papel da colega de cena, valoriza o trabalho de criação feito por Roberta na caracterização de sua personagem, fortalece o núcleo de favela da trama. Muito legal, tanto a atitude, quanto a cena protagonizada por Susana.

Em contraposição, o tal Pescoço (Nando Cunha) continua enfiando o pé na jaca. Juro que pretendia não mais comentar a triste figura, mas em capítulo recente, minha indignação foi acordada.

Pescoço discutia com Vanúbia, enquanto ela, junto com uma amiga, bronzeava-se na laje de casa. Ele queria que a bela assinasse uma carta aliviando a barra dele com a esposa de todas as horas, depois da traição.

A moça dá uma desbaratinada no espertalhão e ele, na conclusão da cena, de um jeito que talvez pretendesse não ser notado, apelida os cabelos da amiga de Vanúbia de “cabelo de samambaia” (como se precisássemos de mais primos de Bombril e Assolam para infernizar a vida das meninas negras na escola). Logo a seguir, quase grunhindo ironiza a musa da laje: “Ta queimando o que aí cumpadi? Só se for a palma da mão!” (aponta a própria palma como é usual no Brasil para ilustrar as assimetrias raciais impregnadas no cotidiano).

É baixaria demais! Tenho certeza de que por piores que sejam os diálogos da novela (e há vários intragáveis), Glória Perez não escreveria uma estupidez  desse tamanho.  Isso é caco posto pelo ator, provavelmente com incentivo do diretor para caracterizar um personagem negro ridículo, caricato, com racismo internalizado, que talvez concorra a uma vaguinha no Zorra Total ou a escada preta no eterno Programa do Didi, em 2014. Será? Esse pessoal coloca o doce na boca da criança para ela achar que a vida é riso frouxo e depois tira, sem qualquer cerimônia.

A cena me deixou enojada... o mesmo asco que sinto quando no trânsito, no momento de uma barbeirada,  alguém diz que só podia ser mulher ou preto no volante e quando é mulher preta, a coisa fica ainda pior. Esse racismo em versão jocosa brasileira tem sido eficientíssimo na subalternização de um povo que poderia ser mais altaneiro, caso fosse ousado o suficiente para rebelar-se em coisas simples, pequenas, pretensamente inofensivas, como o papel de Pescoço.

Vida que segue! E nós, de maneira deprimente, atuamos como agentes de inoculação do pior veneno racista, aquele disfarçado de doce na boca de criança. 

21 de abr de 2013

O jovem Mandela: um relato romanceado


A Editora Nova Alexandria lança, em maio, o relato romanceado, escrito por JeosaFá, que relata a trajetória da pobreza, da luta e do cárcere político até a presidência da República, percorrido por um dos principais personagens da história contemporânea.

o jovem mandela
Desde a pobreza no sertão da África do Sul, até o reconhecimento mundial - este foi o caminho percorrido por uma das principais lideranças populares e avançadas do mundo contemporâneo: Nelson Mandela. 
Sua vida, contada no livro O Jovem Mandela, de JeosaFá, que a editora Nova Alexandria lança em maio, é o relato da luta de uma existência inteira contra as condições aviltantes dos trabalhadores nas minas de diamantes mais profundas do mundo, a miséria nas favelas de Johanesburgo, a opressão das populações negras e de origem indiana, o desumano sistema de apartheid.
Desde muito cedo o jovem Nelson Rolihlahla Mandela escolheu entre o conforto de uma vida alienada e os riscos da luta contra o regime de segregação racial. Neste livro, Jeosafá Fernandez Gonçalves constrói um enredo ficcional que articula literatura e realidade para dar corpo às angústias e às ações desse importante personagem da história contemporânea. Apresenta os passos decisivos da formação do homem e do líder que derrotou o apartheid, dando ao leitor um painel dos fatos históricos, uns dramáticos e trágicos, outros gloriosos, desta epopeia plena de grandeza.
Fundador da Liga da Juventude do Congresso Nacional Africano (CNA), Nelson Mandela tornou-se o principal líder do CNA. Sua vida se confunde com a luta pela democracia e pela liberdade e, embora o território principal de suas ações tenha sido sua África do Sul mergulhada em um dos sistemas políticos mais abomináveis conhecidos, o apartheid.
Da infância de pés descalços no sertão africano, no início do século XX, à prisão política da qual saiu para se tornar Presidente da República após vencer a primeira eleição livre em seu país, ao fim do mesmo século, Mandela seguiu um roteiro de aprendizagem, persistência e esperança que lhe deu forças para suportar sucessivas perdas de amigos, assassinados sob tortura ou em confrontos com o apartheid; de familiares, com os quais sempre manteve fortes laços de afeto; além de uma sentença de prisão perpétua absurdamente injusta, a partir de um julgamento de exceção, forjado nos mínimos detalhes para eliminar do caminho os opositores do regime racista.
No interior da prisão da ilha de Robben, em que cumpriu a maior parte dos 27 anos em que esteve encarcerado, Madiba, como também é conhecido entre os amigos e parentes, organizou o que ficou conhecido como Universidade Mandela, iniciativa de educação geral e formação política que reuniu, anos a fio, em debates, palestras e verdadeiras aulas, com currículo estabelecido pelos próprios participantes, até mesmo os guardas do presídio. Muitos jovens condenados à ilha de Robben, após cumprirem a pena, voltaram para a luta antiapartheid mais bem preparados do que quando nela ingressaram. O amor de Mandela pela juventude está estampado em seu sorriso – que, quando se abre, o torna um menino novamente, um legítimo representante da “juventude do mundo”, expressão muito empregada por sua geração de “lutadores da liberdade”, como, com justiça, também se autodenominavam.

19 de abr de 2013

O preço da admiração



Por Cidinha da Silva

A moça posta vídeo de um grupo de cantores gospel no mural da escritora. Esta, por sua vez, xinga o Facebook, pois, rebelde, o parvo não atende sua solicitação de barrar todas as postagens que não sejam de sua autoria. O sistema permite que alguns burlem a ordem expressa.

A escritora, pela milionésima vez, apaga a postagem indesejada e envia à intrusa a recomendação usual: “por gentileza, se desejar submeter algo à minha apreciação, faça-o como mensagem privada e eu decido se quero ou não postar, e quando o farei, se resolver fazê-lo.” As respostas variam pouco: um pedido de desculpas aqui, a atribuição da traquinagem ao filho ou outra criança da casa acolá, ou o uso por parte do próprio emissor da senha permissiva de que “pensou que não tivesse importância” e/ou a escritora iria gostar.

É um bla-bla-blá chato para justificar o injustificável, ou seja, o perfil de uma pessoa nas redes sociais só é público se o dono ou administrador o abre para a participação do público, se convida as pessoas a postarem, se elas são bem-vindas ao fazê-lo, principalmente quando se trata de divulgação de coisas de gente adicionada ao perfil. Se o que se quer é mesmo compartilhar (palavra tão bonita, cujo sentido está esvaziado, hoje), há mecanismos adequados que não a postagem agressiva.

E quem não é invasivo ao postar uma coisa ou outra em mural alheio, é gente amiga, íntima o suficiente para saber o quanto as suas próprias coisas são também coisas da dona do perfil, portanto, bem-vindas.

Mas a moça era insistente e resolveu precificar sua admiração na resposta à autora, disse o seguinte: “engraçado você dizer que não posta coisas do mundo gospel... eu que te admirava tanto pela sua visão de mundo... sei que temos religiões diferentes, mas se for música boa, gospel ou não, pensei que você fosse reconhecer... mas, tudo bem, querida, isso é não ter preconceito...”

O mural da escritora, ao contrário do que a leitora pensa, não está aberto às manifestações artístico-musicais, políticas, etc, que pessoas adicionadas julgam boas. O juízo de valor vigente ali é, exclusivamente, o da dona do perfil. Por outro lado, o mural não é espaço de apologia religiosa, é, sim, lócus de exposição reiterada, poética e contextualizada de valores civilizatórios de matrizes africanas, muitos deles, representados pelos Orixás e  N’Kises.

A escritora é completamente impaciente com a hipocrisia do “frequentar sex shop não pode, mas, se for sex shop gospel, pode”; não pode dizer “nossa senhora”, porém “nossa senhora gospel”, é permitido. Não pode dançar na boquinha da garrafa, nem pode quebrar no funk, do mais leve ao pancadão, mas pode “bater na portinha do senhor que ele abre, abre, abre”, como diz o sertanejo universitário gospel, ou seria um funk gospel? Existe nesta cultura um projeto de dominação ideológica, mercadológica e de lobotomia dos consumidores para os quais a escritora não abre espaço. Só excetuou a manifestação das associações de religiosos evangélico-pentecostais contrários à bestialidade de Marco Feliciano.

Na supermodernidade cotidiana os sentimentos têm preço: “olha, eu te admirava viu? Mas se você não atender aos meus reclames, se não suprir minhas carências de alguém que diga o que quero ouvir, como forma de pagamento para minha admiração, fico de mal, não admiro mais.”

Fazer o que? Ossos do ofídio, baby!  A escritora vem de um tempo, no qual a pessoa se quisesse gostar, gostava. Se quisesse admirar, admirava, e a pessoa gostada e admirada não se tornava refém disso. Um tempo em que artista era artista, celebridade era celebridade.

Nos tempos supermodernos aplicam-se os pressupostos celebrativos a qualquer pessoa que tenha o mínimo de visibilidade e ela é esvaziada da condição humana para transformar-se em alguém que atende às vontades do público soberano. A escritora acha que isso é loucura e ela ainda não enlouqueceu.

Por que correram, deputados?



por Elaine Tavares



A cena protagonizada pelos deputados seria risível se não representasse claramente o que pensam dos índios. Os engravatados correram, desesperados, quando viram um pequeno grupo de indígenas avançando  em danças rituais pelo meio do plenário. Para eles, aqueles homens e mulheres nada mais são do que selvagens, perigosos e ameaçadores. Não conseguem os ver como cidadãos brasileiros, iguais a eles em direitos e deveres. Os deputados correram por que? De medo? E por que teriam medo? Porque sabem muito bem o que fazem e como tratam os povos indígenas nesse país
Elaine Tavares
Elaine Tavare
As comunidades indígenas do Brasil estão em processo de crescimento. Desde 1991 , segundo mostraram os dados do IBGE, o aumento da população foi de 205%. Hoje, o Brasil já contabiliza 896,9 mil índios de 305 etnias, e em quase todos os municípios (80%) tem alguma pessoa autodeclarada indígena. Até mesmo alguns grupos já considerados extintos, como os Charrua, se levantam, se juntam, retomam suas raízes, formam associações e lutam por território. Isso significa que a luta que vem incendiando a América Latina desde o início dos anos 90 já chegou por aqui.
Não é sem razão que causou tanto estupor a declaração dos Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, de resistir até o último homem caso forem retirados de suas terras. É que as comunidades já estão fartas de conversinhas e promessas governamentais. Querem ver seus direitos garantidos agora e estão dispostos a lutar. Isso também coloca todo mundo em polvorosa, porque, de certa forma, quando os índios estão quietinhos nas aldeias, são muito bem vistos. Mas, bastou levantar o tacape para que os racistas e reacionários de plantão já se alvorocem. É o que acontece hoje em Santa Catarina, quando é chegada a hora da desintrusão da terra indígena do Morro dos Cavalos. Aceitos por vários anos, vivendo em condições precárias em poucos hectares, agora que tiveram as terras definitivamente demarcadas e lutam pela desocupação do território, provocam o ódio de comunidades pacatas e cheias de "gente de bem".
Também é o que se vê na luta contra Belo Monte e as demais hidrelétricas que poderão destruir boa parte da vida no Xingu. As revoltas das comunidades indígenas e ribeirinhas incitam os velhos ódios e não faltam as vozes a clamar contra o que chamam de "obstáculos ao progresso". Já as fazendas de gado e de monocultura que destroem pouco a pouco a Amazônia são vistas como "desenvolvimento". Da mesma forma foram julgados como baderneiros e oportunistas os indígenas que ocuparam e resistiram na Aldeia Maracanã por sete longos anos, querendo unicamente preservar um espaço histórico. Foram retirados à força, como se fossem bandidos.
Agora, os ataques vem do governo e do Congresso Nacional, no qual tramita uma proposta de mudança na Constituição, a PEC 215. Essa proposta tem por objetivo transferir para o Congresso Nacional a competência de aprovar a demarcação das terras indígenas, criação de unidades de conservação e titulação de terras quilombolas, que até então é de responsabilidade do poder executivo, por meio da Funai, do Ibama e da FCP, respectivamente. A aprovação da PEC põe em risco as terras indígenas já demarcadas e inviabiliza toda e qualquer possível demarcação futura.
Além disso também está em vigor a portaria 303, da AGU, que define que qualquer terra já demarcada pode ser revista e tirada das comunidades, basta que dentro delas haja algo que seja do interesse dessa gente sempre pronta a sugar as riquezas do país (minérios, petróleo, rios). Ou seja, é a forma moderna de dominação dos mesmos velhos opressores. Se antes eram os arcabuzes, agora é a lei. E o que é mais espantoso, uma lei que viola a Carta Magna.
Por isso é que os indígenas brasileiros organizados decidiram fazer uma ação em Brasília, junto aos deputados. Sabem que não dá para confiar numa casa cujos habitantes foram eleitos por grupos econômicos que sistematicamente vêm rapinando as riquezas da nação e, portanto, não hesitarão passar por cima de comunidades inteiras se isso for necessários aos seus interesses. E tanto isso é verdade que ontem (dia16.04) eles estavam lá, tentando conversar, tentando entrar na casa que dizem, é do povo. Mas, estavam impedidos. Só que decidiram não aceitar uma imposição sem sentido. Se a casa é do povo, entrariam. E foi o que fizeram. Forçaram a porta e adentraram ao plenário, onde os engravatados os ignoravam.
A cena protagonizada pelos deputados seria risível se não representasse claramente o que pensam dos índios. Os engravatados correram, desesperados, quando viram um pequeno grupo de indígenas avançando  em danças rituais pelo meio do plenário. Para eles, aqueles homens e mulheres nada mais são do que selvagens, perigosos e ameaçadores. Não conseguem os ver como cidadãos brasileiros, iguais a eles em direitos e deveres. Os deputados correram por que? De medo? E por que teriam medo? Porque sabem muito bem o que fazem e como tratam os povos indígenas nesse país.
A vergonhosa correria rendeu frutos aos indígenas. O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), acabou propondo uma saída honrosa. A casa suspenderia  a criação da comissão especial que iria apreciar o mérito da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 e criaria  um grupo paritário para discutir os temas de interesse dos povos indígenas. Os índios reunidos no Salão Verde conversaram e deliberaram aceitando a proposta .
Agora é vigiar porque esse não vai ser um debate fácil. Tanto o governo como os grupos de poder que financiam a maioria dos deputados querem poder dispor das terras indígenas que estão cheias de riqueza. Mas, o fato é que a ação do "abril indígena" conseguiu pelo menos colocar em pauta um tema que já vem caminhando desde anos e não recebe a devida atenção nem pela mídia nem pelos deputados. Foi uma vitória, parcial e temporária, mas ainda assim uma vitória. O que prova por a + b que só a ação direta e organizada faz a vida das gentes avançar. E, para aqueles que estão aí, na luta sempre, a cena do apavoramento dos deputados deixa muito claro que eles sim, têm medo, embora não tenham prurido de destruir sistematicamente o modo de vida dos povos indígenas. A lição do abril indígena é singela: é preciso fazer com essa gente que não leva em conta os desejos das maiorias voltem a ter medo delas. A luta de classes avança por aqui também... 

18 de abr de 2013

Thatcher x Cher


Por Cidinha da Silva

Foi-se a Dama de Ferro em um funeral de 15 milhões de dólares! Dinheiro aplicado no meticuloso planejamento do espetáculo pós-morte,  desenhado pela própria Thatcher como ato derradeiro de culto à personalidade, rumo à mitificação, enquanto mantinha a lucidez, perdida 8 anos antes de sua morte.

Não foi diferente de Stalin e outros ditadores do Leste europeu, tampouco de figuraças populistas  como Péron e Evita, mas o caso de Thatcher traz o impacto do século XXI, da transmissão de tudo em tempo real, da espetacularização da vida e da morte, marco da pós-modernidade. 

Ratifica-se em versão sofisticada, uma concepção de História vinda dos tempos dos reis europeus modernos. Aquela feita por grandes nomes e feitos, homens de destaque e, neste caso, uma mulher que durante toda a década de 80 influenciou os destinos econômicos e políticos do mundo.

Os jovens, também como resultado do culto à História dos grandes e vencedores, têm cada vez mais dificuldade para conectar o presente em que vivem a fatos da História recente.  No twitter, por exemplo, ao ver a notícia da morte da ex-primeira ministra britânica, Margaret Thatcher, não foram poucos os que lamentaram a morte da cantora estadunidense Cher, vivíssima, até onde se sabe.  E ainda houve aqueles que aproveitaram  para tecer comentários sobre a estética da artista, sua importância para a cultura pop e o significado de perdê-la por "morte trágica".

No Brasil não ficamos distantes. Quando morreu o centenário arquiteto Oscar Niemayer, muita gente lamentou a suposta  morte do jovem futebolista Neymar.  

Tempos sombrios de velocidade da informação desassociada da qualidade de compreensão, até mesmo de discernimento. 

17 de abr de 2013

Ogum's Toques 15


LITERATURA NEGRA – INALDETE PINHEIRO


Por LarissaSantiago / Blogueiras Negras
Morando no Recife há tanto tempo, eu ouço histórias de personagens incríveis tão bem contadas que ouso recontá-las vez por outra; eu as vivi ou ouvi com a curiosidade de uma filha que quer entrar no universo da mãe, do pai, da família… [Inaldete em Essas Mulheres – Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha]. 
inaldete.pinheiroProfessora Inaldete é conhecida pelo Recife como a contadora de histórias, a mulher sábia das oficinas noNúcleo Afro, a pesquisadora de maracatu e das mulheres de maracatu. Foi conversando com um colega na Rua da Moeda que descobri que ela além de ser tudo isso é também a fundadora do Movimento Negro no Recife (junto com Silvio Ferreira e outros mais). Atuando no Movimento Feminista desde 1979, é também é responsável pela articulação de ações entre mulheres de seis comunidades negras do interior de Pernambuco, remanescentes de antigos quilombos.
Nascida em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, Inaldete Pinheiro de Andrade é formada em Enfermagem pela UFPE e tem mestrado em Serviço Social e Administração Hospitalar pela mesma universidade. E usando seu conhecimento na área de saúde, ela fez parte do GT Saúde da População Negra da Prefeitura do Recife e da Comissão do Programa de Anemia Falciforme da Secretaria Estadual de Saúde.
“Na mitologia angolana existe uma aranha chamada Ananse. Ela tece a história do mundo. Quando ela sai da sua teia, ela puxa o fio e vai contando histórias.”
Professora Inaldete é aquela que tece: dona de uma vasta literatura, é filiada à União Brasileira de Escritores (UBE) e seus livros e publicações dão ênfase na difusão da riqueza da cultura negra em Pernambuco, fazendo análises sobre Racismo e Negritude além de alguns especialmente direcionados às crianças.
Carismática e Militante foi protagonista na defesa da inclusão da disciplina História da África e da Cultura Afro-pernambucana, primeiro no currículo da rede de ensino municipal do Recife, depois na grade da rede pública estadual. Os esforços na Câmara Municipal do Recife e na Casa de Joaquim Nabuco, em legislaturas passadas, não vingaram. Contudo, tal mobilização não foi em vão, pois anos depois Inaldete testemunhou a defesa incansável da proposição por parte do então deputado federal Humberto Costa no Congresso Federal. A aprovação e sanção de lei federal neste sentido ocorreu oito anos depois, em 9 de janeiro de 2003, com o número 10.639, tornando obrigatório o ensino da História da África e da Cultura Afro-brasileira nos três níveis de escolaridade.
Para nosso orgulho, Inaldete Pinheiro de Andrade, é detentora do título de Cidadã Recifense (2011), recebendo a Medalha Zumbi dos Palmares pela sua contribuição com a história e memória do povo negro pernambucano. Há quatro décadas ela vem fazendo ecoar da capital pernambucana o vigor de sua militância e do povo negro.
*** Alguns de seus livros: “Cinco cantigas para se contar” (1989), “Pai Adão era Nagô” (1989), editado pelo Centro de Cultura Luiz Freire, “Racismo e anti-racismo na literatura infanto-juvenil” (2001), pela Etnia Produção Editorial, “A Calunga e o Maracatu” (2007), editado pela Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife, e “Baobás de Ipojuca” (2008), pelas Edições Bagaço, são exemplo de sua preocupação com a educação em cultura afro-brasileira.