Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

31 de mar de 2012

Cartas de um pai (preso político) para o filho de 8 anos

Joel Rufino, autor de "Quando voltei, tive uma surpresa" (Rocco), é negro, como sabido. Foi preso político da ditadura militar. Naquele tempo, estranhava-se a presença de negros entre os presos políticos, era como se estivessem na ala errada, deveriam estar entre os presos comuns, seus iguais. A ditadura é também mais um capítulo do racismo brasileiro. É só olhar com olhos de ver. Sinopse da editora: Um luta desesperada e inglória de um pai na tentativa de evitar sofrimentos a um filho. Assim são as cartas enviadas pelo historiador Joel Rufino a Nelson, então com 8 anos, durante o tempo em que esteve encarcerado como preso político no Presídio do Hipódromo, em São Paulo, entre 1973 e 1974. Assim como o protagonista do filme "A vida é bela", Joel fez de tudo para esconder uma trágica verdade de seu filho. Mas seu objetivo não foi alcançado: sem ver o pai há muito tempo, Nelsinho entende que fora abandonado. Surge para Joel o maior dos desafios: explicar a uma criança que está preso, mas não é bandido. Desde as primeiras cartas, ele dizia que tinha sido "convidado" pelo governo brasileiro a "contar" algumas coisas que tinha feito. "Por exemplo, eu dei algumas aulas sobre coisas que o nosso governo não gosta que se conte, escrevi livros que nosso governo também não gosta." Joel dizia que sua vida seria decidida por um juiz e apostava: "Ele vai dizer: seu Joel, não tem mal algum o senhor ter as suas opiniões. Pode ir embora." Mas, ao contrário, ele foi ficando... Em seus relatos maquiados, Joel dizia que estava "hospedado" com mais 40 pessoas "que também não concordavam com o governo", entre engenheiros, estudantes, operários, professores, camponeses. Contava que faziam a comida, jogavam bola três vezes por semana ("eu estou com as canelas cheias de calombos porque todas as vezes que vou fazer um gol aparece um "grossoí para me chutar"), e que estavam aprendendo trabalhos manuais "bacanas" como fazer bolsa, colares, canetas, chinelos etc. De noite, viam TV ó até o dia em que o dono da televisão "se mudou" (foi solto) e ficaram sem poder assistir às novelas. Numa tentativa de se fazer presente na rotina escolar do filho, ele treina Inglês nas cartas, conta histórias como a de Zumbi dos Palmares, fala de livros como O velho e o mar, além de sugerir títulos infantis que lia em jornais velhos do presídio. Depois que Joel recebe uma caixinha de hidrocores coloridos do filho, passa a escrever as cartas usando cada cor para um trecho. E se exibe: "Meus amigos morrem de inveja, só eu tenho hidrocores coloridos!". Todas as cartas reunidas no livro têm o carimbo do presídio e foram guardadas por Teresa Garbayo dos Santos, a mãe de Nelsinho. É dela o alerta enviado a Joel sobre a necessidade de se esclarecer os fatos para o filho, "que começava a viver o afastamento como abandono." Ao ser informado de tudo, Nelson entrou debaixo da cama e lá permaneceu abraçado à gaiola com seu passarinho: "assim ele expressou a sua dor ao saber que o pai estava preso", relembra Teresa. As cartas que Nelsinho escreveu para o pai ficaram retidas na prisão. Quando eu voltei, tive uma surpresa recebeu o selo de Altamente Recomendável Jovem distribuído pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) aos livros que mais se destacaram no ano 2000. O prêmio da FNLIJ é um dos mais importantes do país. Além de ser um valoroso e raro documento sobre um pedaço da história de nosso país, é uma comovente prova de amor de um pai a um filho. Uma boa leitura para crianças, adolescentes e adultos.

30 de mar de 2012

Dois casos de flagrante desrespeito à dignidade das mulheres: o primeiro em 1828 e o segundo, ontem, março de 2012

(A sua honra não é sua / por Laura Candian Fraccaro / historiadora) "Em 1828, Policena fez uma denúncia contra Joaquina e sua filha Maria Josefa, acusando as duas últimas de a terem ferido gravemente. Acusava-as também de ter falado injuriosas palavras. Policena declarou que, passando em frente da casa das rés, ouviu muito barulho e pedindo silêncio a elas, foi levada para dentro onde foi ofendida e apanhou de porretes. As rés não negaram que bateram em Policena e admitiram que disseram algumas palavras. Disseram que deveriam ser liberadas, pois o que falaram à Policena, era verdade, ela era prostituta. Para as rés, Policena vivia em concubinato, era prostituta e tinha comportamento lascivo, deixando qualquer homem desviado de sua família. Quase em sua totalidade, exceto por uma, as testemunhas não viram o acontecido e pouco podiam declarar se não o que ouviram. Mas, impressionantemente, todos que testemunharam concordavam que Policena era prostituta por ser “publicamente conhecida como fadista.” Policena cantava fados, música portuguesa, em festas e vivia com um homem, o que para as testemunhas eram provas concretas de seu comportamento lascivo de prostituta. “Andar passeando”, “ser fadista”, “viver amasiada” podiam ser lembrados para caracterizar a mulher como prostituta quando fosse conveniente. Para as agressoras, lembrar que Policena estava sempre presente em festas, cantando, levou o foco da acareação para a própria Policena e não para a agressão. A sentença proferida pelo Juiz resume bem como as mulheres que tinham uma vida no espaço público eram consideras: “Ela (Policena) não é merecedora da indenização de injuria que procurou e da qual não pode cobrar coisa alguma vista a publica renúncia que fez da estima pública, quando como dos autos consta-se que conserva em variada e continua devassidão.” Em 2011, o Superior Tribunal de Justiça inocentou o estuprador de três meninas de 12 anos. Para o juiz responsável, as meninas “já se dedicavam à prática de atividades sexuais desde longa data”, retirando, assim, a presunção de estupro quando há relação sexual com menores de 14 anos. Em um futuro próximo, aquele que estuprar uma criança poderá sempre se servir do argumento de que a vítima era prostituta e se safar da acusação. Mas o que é ser prostituta para os agressores e homens da justiça? É a mulher que não tem honra. Quando se é mulher, sempre questionam sobre sua honra, seja hoje, ou há 200 anos atrás. Para muitos, ao sair de casa desacompanhada, passear sozinha, ir a festas, as mulheres abrem mão de poderem ser consideradas honradas e, por consequência, podem sofrer qualquer tipo de violência. Ao existirem, perdem direitos. Perdem o direito de defesa, de serem consideradas vítimas. Podem ser xingadas, violentadas, espancadas, porque deixaram de ser humanas, porque só são mulheres."

Os arquivos que choram - Angeli

12 sintomas do câncer de mama (o mais comum entre as mulheres)

29 de mar de 2012

Livro para crianças sobre mestre Pastinha

(Divulgação) "No dia 1° de abril, a partir das 10h, o setor infantil da Fundação Pedro Calmon recebe os autores do livro Pastinha – O menino que virou mestre de capoeira, José de Jesus Barreto (escritor) e Cau Gómez (ilustrador), que vão fazer uma sessão especial de autógrafos. O livro narra à história do maior mestre de capoeira Angola da Bahia e apresenta detalhes da vida desse garotinho, esperto e miúdo nascido no Pelourinho." Saiba mais: http://www.fpc.ba.gov.br/node/1815

28 de mar de 2012

A voz de Renato Rocha, o Negrete, ex-baixista do Legião Urbana

Eu não sou fã de rock, nunca fui. Não entendo nada de rock, nada, nada. Conheci o Legião quando "Eduardo e Mônica" bombou e eu estava numa festa no DCE da UFMG, na qual era a única pessoa que não sabia cantar a música. Neste tempo, meus amigos roqueiros detonavam a banda dizendo que aquilo "não era rock mesmo". Depois da morte do Renato Russo, todo mundo virou avatar do Legião. Cruzei com essa entrevista do Renato Rocha, ex-baixista do grupo, que ganhou notoriedade nos últimos dias, por ser, agora, um morador ilustre das ruas do Rio de Janeiro. A homofobia e o machismo campeiam nas declarações dele. O universo do rock, realmente não me interessa. Mas, achei que valia a pena postar a voz do Renato Negrete aqui, datada, é bom que se diga. É bom ver quem era ele, o que pensava e o contexto racial da banda e do rock de Brasília nos anos 80. A percepção de si mesmo como negro que, para se opor à opressão branca nomeia-se "pele vermelha" - é que os brancos massacraram os índios, mas também ao coletivo negro, se você não sabia, cara pálida! A entrevista foi feita pelo Luiz Pimentel e editada por Vivaldo Simões, não os conheço. Foi postada no blogue de um terceiro que não vem ao caso, pois não teve participação direta na coisa e tem na introdução umas opiniões sobre o rock nacional que não estou interessada em reproduzir. ZERO: Você era da turma dos Skinheads, não? RENATO ROCHA: Quando o punk começou a acabar, sobrou muito gayzola, muito playboy que se dizia punk. Eram aqueles caras que compravam calças Fiorucci, desfiavam e falavam que eram punks. Aí resolvemos ser cabeça raspada. A gente era uma equipe do terror, pra diferenciar dos punkzinhos gays. ZERO: Quem eram punkzinho gay? R.R: Os lambe-lambes (risos) ZERO: Que a gente conhece, quem era? R.R: Os dois lá, o Dado e o Bonfá, o Dinho, Philipe Seabra [vocalista e guitarrista do Plebe Rude], essa turma. ZERO: Por que lambe-lambes? R.R: Porque não faziam nada. Chegavam nas festas e ficavam bodeados num canto. Gostavam de Bauhaus e PIL. Eram fracassados. Os carecas chegavam chutando o teto. ZERO: Qual foi seu primeiro contato com o Renato e o resto da banda? R.R: Ah, a gente andava numa turma, ia pras festas. Tinha uma época que tinha umas cinco festas por noite. Festas de detonar, de barão. Pó, maconha à vontade. E não aparecia ninguém pra encher o saco. O mais fraco ali tinha seis Rolls Royces na garagem. Quem ia ter coragem de entrar pra dar uma geral? ZERO: Como você entrou para a Legião? R.R: Renato tinha cortado os pulsos em Brasília, estava na pré-produção do primeiro disco. Como ele tocava baixo, precisava de alguém para o lugar dele. Eu sabia todas as músicas, as letras. Entrei quatro dias antes do início das gravações. Acabamos virando a maior banda do Brasil. Mas quando ficou cheio de grana, o Renato não queria fazer mais nada.Ficou muito chato, alcoólatra. Aí ele começou a chutar todo mundo, tratava todo mundo muito mal. ZERO: Quando foi isso? R.R: Foi no final dos 80. Ele tava inacreditável, tomou varias overdoses. ZERO: Ele já não gostava de fazer shows? R.R: Depois de encher o cú de grana, só gostava de encher a cara. ZERO: Vocês eram amigos? R.R: Não. A gente era conhecido. Amigo, não. A partir do momento em que o cara só se preocupa com ele mesmo…só ele tem dor de cabeça, só ele tem exaqueca, só ele tem problemas… ZERO: Qual era o seu papel na banda? Você era apaziguador ou só chegava e tocava? R.R : Eu fumava meu baseado inocente, tomava minha dose de uísque e ficava pensando: “cara, eu estou fazendo a melhor coisa do mundo: ganhando grana pra fazer música, e neguinho fica aí se lamentando à toa, reclamando do bife”. Eu aproveitei minha fase rock. Os caras não tinham atitude roqueira, não falava com a galera, esnobavam os fãs. Pra mim ficar na Legião era um sacrificio. ZERO: Por que você acha que eles se sustentaram como banda tanto tempo? R.R: O Renato gostava de homem bonitinho e chamou o Marcelo Bonfá e o Dado pra tocar. O Dado só entrou porque o Renato queria o nome Villa-Lobos na banda. Aí ele ensinou o Dado a tocar. E o Bonfá era um pilha fraca, não aguentava tocar um show inteiro, não ensaiava, não treinava, não malhava, não comia, era um merda. Saia coma namorada, não queria pagar a conta e a menina pagava. Queria fumar um baseado mas não apertava, eué que tinha que apertar. Folgado e mão-de-vaca. É um cara muito babaca, nem a mulher dele aguenta ele. Era uma agonia, pois o cara não sabia tocar nada. ZERO: E como foi sua vida depois da banda? R.R: Eu tive uma fase ruim, fiquei em baixa. Namorei uma mulher errada e minha vida degringolou. Era uma mulher que só queria sacanear. Tipo Cleopatra. Fiquei muito alcoólatra, muito louco, tomava tudo. ZERO: Mas o Dado dizia que você já detonava antes de sair da banda. R.R: O problema do Dado é que ele não sabe nem escolher a roupa que vai vestir. A mulher dele é quem escolhe. Ele não sabe tocar, não tem personalidade própria. Ele é tão bundão que podia ter impedido minha saída. A gente ia para o mundo inteiro. Iamos pra Europa, ele bundou pra mulher dele. A mulher queria ter um filho e prendeu ele aqui. Ele botou pilha pra gente não gravar fora. ZERO: Foi depois do terceiro disco? R.R: Foi. A gente ia gravar em Portugal.Estava tudo certo. A Legião ia arrebentar e ele bundou. Ficou com medo da Fernanda. A mulher amarrava um lacinho no pescoço dele e ele saia na rua assim. Não representa nada para o rock brasileiro. Representa o gosto do Renato. E aí? Vai dizer que uma bicha daquelas era roqueiro? Em vez de comprar uma moto comprava uma lambreta. E ainda andava de lencinho. Como um cara desses pode dizer que é punk? Eu saia, ia nas favelas, cheirava pó, ficava nas quebradas, pegava as putas. Ai o cara dizia que eu estava aloprando. Ele é que não aguentava a pressão. Eu pegava as gatas e passava na frente dele, o cara ficava com aquela carinha de bunda. ZERO: Desde sempre eles tiveram essa atitude na banda? R.R: Eu fiquei puto porque era um bando de cuzão com uma oportunidade de ouro nas mãos. Todo mundo falando bem pra caralho. Minha maior frustração é isso cara. Um cara do gabarito do Dvid Byrne falando das possibilidades de sermos o maior sucesso do mundo e dois playboyzinhos babacas sacaneando. ZERO: Foi o David Byrne que ofereceu a oportunidade de vocês gravarem lá fora? R.R: Não, foi a gente que conseguiu. Éramos a melhor banda de rock n’ roll do Brasil. Éramos. ZERO: E você achava isso na época? R.R: Eu achava uma das melhores do mundo. O Renato sabia cantar todas aquelas letras maravilhosas em inglês. O disco ia arrebentar. A gente ia ser o U2 e o Dado não deixou. Ou melhor, a mulher do Dado. (…) ZERO: Ele (R.Russo) tinha uma atitude homosexual dentro da banda? R.R: Tinha. Sempre teve. Pirava, ia lá e dava para o roadie Mas é aquela história. Se o cara tem muito poder, ninguém fala a verdade. ZERO: A legião perdeu a atitude rock com a sua saída? R.R: Cara, rock exige uma certa agressividade. Rock não é para playboyzinho pasmo, tchutchuquinha. Dado tomava um copo de uisque e ficava bêbado. A Cracatoa Vermelha nem bebe. ZERO: Quem é a Cracatoa Vermelha? R.R: Bonfá(risos) ZERO: Quando foi a última vez que você falou com ele? R.R:´Foi na gravação de Uma outra estação. Ele virou pra mim e disse: “eu estou igual a você”. Pensei: “puta merda, fudeu” (risos) ZERO: E o Dado? R.R: Foi uma vez no ATL HAll. ELE pegou meu braço e disse: ” Não fala mal de mim na imprensa não”. Eu fiquei só rindo, porque o filho dele tava todo preocupado, com medo de eu dar porrada nele. O moleque ficava falando “pai, vamos embora” ZERO: Você ainda voltou pra gravar esse disco póstumo (R. Rocha participou da faixa da gravação instrumental da faixa Riding Song, que foi sobre posta a uma gravação dos 4 integrantes feitas durante as gravações do disco Dois). R.R: Gravei cara. Infelizmente eu grave. Ganhei um barão [R$ 1000]. Aquele cara me ridicularizou. Mas eu estava precisando de grana. ZERO: Você gastou toda a grana que ganhou na Legião? R.R: Não, eu comprei carro, moto. Depois vendi tudo. E eu não ganhei tanta grana assim. ZERO: Você foi ao enterro do Renato? R.R: Não fui porque não sou cretino. Mas um dia passei com a minha namorada e a mãe do Renato estava no Burle Marx pra jogar as cinzas. Aí o pneu da moto furou bem na frente. Eu falei: “caralho, Manfredo, solta do meu pé”. Mas eu sempre gostei do Manfredo, ele sempre foi uma pessoa muito sincera, só que ele se fodeu, cara, porque ficou com dois babacas. (…) ZERO: Quando você falou com Renato Russo pela última vez? R.R: Falei pelo interfone. Ele não quís me atender. Toquei na casa dele e ele respondeu que tava de ressaca. ZERO: O que você queria com ele? R.R: Ah, sei lá. Perguntar como ele tava. Ele alucinava, tomava todas e subia na mesa,(…)Cansei de levar ele doidaço, babando no taxi. Mas aí como ele era mentor da banda e da juventude brasileira, mascaravam esse comportamento. (…) ZERO: Como foi que você saiu da banda? R.R: O Renato Russo saiu do elevador e falou: “Você está fora da minha banda”. A gente ia assinar o contrato do Quatro Estações. Estavamos no prédio da EMI.Ai eu falei pra ele: “Cara, se você me apontar o dedo eu torço seu braço”. Fiquei na minha, puto, mas sabia que não era uma coisa do Renato. que era coisa dos dois perobinhas. O maior castigo é ter grana e não ser feliz. Eu tenho e sou feliz. …. ZERO: E sua banda Cartilagem, existe a quanto tempo? R.R: Uns três anos. MAs ainda não chegou a hora da banda. O público ainda não está preparado pras minhas letras. Minha música é pra libertar o jovem. ZERO: Parou com as drogas? R.R: Fumo meu baseado, tomo umas bebidas. ZERO: E a legião ainda dá grana? R.R: Não, dá uma miséria. Menos de mil reais por mês. Só que conversar com eles é tentar tirar leite de pedra. Eles são brancos, eu sou pele-vermelha. ZERO: Já pensou em se candidatar a algum cargo público? Opa, já. Prefeito de Mendes. O grande lance é entrar no esquema e não ser corrompido´por ele. Como eu entrei na Legião e não fui corrompido.

27 de mar de 2012

Chico Anísio, fama feita de preconceito

Luiz César, economista e redator do blogue Brasilquevai, desafia o coro dos saudosos enlutados e produz um artigo crítico sobre o humorista Chico Anysio. Tenho mais de 40 anos e me reconheço em muito da crítica feita no texto. Entretanto, há um deslize misógino quanto ao casamento do humorista com Zélia Cardoso de Mello. Vejo muitos homens que, sob o manto da crítica à aliança retrógrada ali materializada, aproveitam a oportunidade para desvalorizar as mulheres. Zélia era, à época, uma mulher adulta, vacinada e consciente de seu papel político de direita. Os semelhantes se sentem atraídos um pelo outro, se completam e se referendam! Chico Anysio não fez qualquer tipo de concessão ao se casar com ela (como o texto insinua), tratou-se sim, de um arranjo político-afetivo à altura dos protagonistas. É também deselegante e desnecessária a menção da crônica ao uso de cocaína, até porque, o autor não estabeleceu nexo plausível entre o tal uso e o fato das organizações Globo terem colocado o humorista na geladeira. Para finalizar, uma comentadora do texto lembrou-me da justificativa de Anysio para votar em Collor, em 1989: "o meu candidato precisa resistir a um ditado de dez palavras." (Por Luiz César / blogue brasilquevai) "Com a morte de Chico Anísio não morrerá a modalidade de humor por ele disseminada. Rafinha Bastos, Danilo Gentili e outros estarão aí para dar continuidade ao legado de deboches e de escárnio às diferenças que o humorista deixou estabelecido como padrão de riso na cultura televisiva brasileira. Nunca será demais lembrar que Chico Anísio, um escroque a serviço das Organizações Globo fez fortuna marcando as diferenças sociais em seu País: de gênero, de raça, de nível econômico, de religião e de condições de saúde. Quem não se lembra, tendo mais de 40 anos de idade, de suas imitações de gagos, fanhosos, velhos, mulheres, nordestinos, judeus, umbandistas e homossexuais? Gerações acostumaram-se ao riso fácil das caricaturas que fazia dos mais fracos, reproduzindo depois essa modalidade de humor nas escolas e ambientes de trabalho, de modo a perpetuar a discriminação que pesava sobre os que se encontravam em oposição ao ideário de normalidade da classe média. Chico Anísio não era um comediante como foi no seu tempo Oscarito, Zelloni, Golias e Zezé de Macedo. Foi um déspota do riso que apontava no meio da multidão o que era destinado à chacota e à humilhação. Acomodou-se ao regime militar e a ele serviu comandando sessões apelativas de riso que desviavam a atenção dos rumores sobre as atrocidades cometidas pelos algozes, que seus patrões diariamente ocultavam. Contribuiu para que se criasse em torno do último ditador do ciclo de governantes da ditadura militar, João Figueiredo, uma aura de simpatia e tolerância por meio de um quadro em que mantinha conversas intimistas com o governante. Afeiçoado a bajulações dos poderosos, ainda depois da ditadura Anísio chegou ao cúmulo de dar sustentação ao confisco da poupança praticado pelos sócios de seus patrões, os Collor de Mello, vindo até a casar-se, em troca disso, com uma das primas e ministra da economia do ex-presidente Fernando Collor, Zélia Cardoso de Mello. Viciado em cocaína, como ele mesmo declarou um dia às TVs, Chico Anísio nunca se recuperou da dispensa de seus serviços pela Rede Globo depois que a emissora – para a qual muito contribuiu com o elevado faturamento de seus programas – decidiu renovar sua imagem nos anos de 1990 apelando a uma nova abordagem de humor, representada por grupos humorísticos egressos do teatro. Antes que iniciasse a lenta agonia em direção ao destino igualitário da morte, a Globo cedeu à mágoa do humorista e deu-lhe a chance de um breve retorno à cena representando a idosa que fazia ligações telefônicas para o ditador Figueiredo. Só que nesse ato de despedida, quem estava do outro lado da linha era a mulher e ex-prisioneira política Dilma, a quem o preconceito do humorista jamais perdoaria por haver derrotado o estigma machista e vergar, sem os favores da Globo, a faixa de presidente da República. Um troco que, por felicidade, a vida dá aos homens sem caráter antes que caiam no esquecimento."

25 de mar de 2012

Ao (re) nascimento de uma doutora

(Por Michel Yakini) "Ontem fiquei orgulhoso de ser quem sou, de nascer onde nasci, de ter os amigos e amigas que a vida me presenteou. Ontem tive vontade de chorar, de chorar de raiva por nossa presença ainda estar silenciada nas vassouras e xícaras da universidade, chorar de alegria por me reconhecer no prestígio de uma doutora aprovada com todos os méritos nas cadeiras ainda injustas da academia, chorar no choro dessa menina-mulher que sempre sonhou em ser doutora, onde a maioria das jovens da sua vizinhança brincam com seus filhos precoces no colo. Ontem me senti vitorioso por ver a força e a preparação de uma mulher que falava como referência, com talento, com profissionalismo, mas emanava em seu respiro o amor e a seriedade por aquilo que faz e representa. Ontem aquela que é conhecida como uma das maiores universidades do mundo, se curvou pra celebrar uma jovem negra nascida e criada no bairro do Jaraguá, periferia de São Paulo. Curvou-se pra coroar um doutoramento pouco comum por ali, mas nada podia evitar esse merecido apogeu. Hoje as periferias do Brasil acordaram sorrindo, e muitos nem sabem porque, poucos estavam lá pra conferir, mas esse motivo de brinde, já era! É nosso e ninguém tira. Hoje o bairro do Jaraguá, usurpado e estuprado por suas riquezas há mais de 400 anos, que tem o privilégio de conviver com uma herança indígena viva e precária em meio a sua bela netureza, pode soltar um grito de vitória. Hoje é dia de subir no ponto mais alto daquele pico magistral e gritar que temos orgulho de sermos vizinhos, amigos e familiares de uma mulher que carrega quilombo no nome, é dia de bradar bem alto pra cidade inteira ouvir e saber que temos uma doutora entre nós. Uma doutora sem pompa de carpete, que caminha pelas ladeiras, caleja no asfalto, e trás como armadura as páginas do conhecimento. Uma doutora que afaga o concreto com sua semente de sabedoria, rasgando pedras com as raízes de uma arvore que dá frutos maduros e sombra aos seus semelhantes. E por mais que ela não assuma ou não goste de ser vista além de uma reconhecida pesquisadora, ela é, sem dúvida, uma referência positiva para nós, alguém que contribui pra que a periferia caminhe e vingue dias melhores sem sair do seu lugar, do nosso lugar. Hoje é dia de cantar parabéns pra gente! Cantar parabéns pra você! De fazer festa e batucada no fundo de cada quintal por sua/nossa conquista, DRA. ÉRICA PEÇANHA DO (re)NASCIMENTO, aprovada ontem (23/03/2012) com a tese "É Tudo Nosso! Produção Cultural na Periferia Paulistana" pela Universidade de São Paulo (USP)."

24 de mar de 2012

Eu e Barbosa

“Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera.” (Armando Nogueira) Eu acredito em goleiros negros! Não partilho o pressuposto de que negros sejam confiáveis para isso e não para aquilo. Por exemplo: muita gente acha que negro pode ser contratado para cuidar de cachorros (passear, dar banho, fazer comida, cortar o pelo, pintar as unhas), mas não pode ser o veterinário escolhido, caso o cachorro adoeça. Essa mesma gente destacou a negritude do Pitta quando do aparecimento e comprovação de suas falcatruas. “Nunca mais votariam em negros”, afirmaram. Entretanto, não ouvi ninguém atribuir à branquitude do Collor, a responsabilidade por seus desmandos e crimes. Obviamente, ninguém afirmou que deixaria de votar em brancos. Eu acredito em goleiros negros! Barbosa, o goleiro negro da Copa de 50 que, segundo declaração pública de Chico Anysio, o levou a desconfiar (da capacidade) de jogadores negros para segurar o rojão daquela posição, morreu pobre e no ostracismo, como a maioria dos jogadores negros de seu tempo (e de outros tempos). Mas, acima de tudo, viveu triste, infeliz e magoado, porque ouviu, diuturnamente, que poderia servir para cuidar de cachorros, mas não como veterinário.

23 de mar de 2012

Ogum!

‎"Onde eu vou / Que o mal se esconda / E não saia de onde está / Porque eu tenho Ogum de Ronda / No clarão do meu olhar / Eô, eô!/ Chegou Ogum com seu mariô!" (Roque Ferreira / Ogum)

22 de mar de 2012

Quando Thor encontrou Wanderson

Este texto pertence ao time da "fina adaga da palavra", expressão tomada por empréstimo a Leda Martins. Entretanto, mais uma hipótese me ocorre - a vítima era negra (setor mais invisibilizado dos 99%) e, a utilização desta evidência por Thor não me assustaria(como de resto pela branquitude), para "não ter visto" o Wanderson. Pode ainda ser usada delicadamente na defesa que o ex-ministro Thomaz Bastos fará. Prestemos atenção. (Por Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo). "Os dois têm, em comum, o nome estranho e improvável e a nacionalidade brasileira. Thor e Wanderson. O resto são diferenças que jamais os levariam a se encontrar. Thor, 1%, para usar a expressão consagrada no protesto Ocupe Wall St, anda num carro de quase 3 milhões de reais, uma McLaren. As multas por excesso de velocidade que Thor recebeu no período “probatório”, em que o motorista é testado logo depois de receber carteira de motorista, deveriam tê-lo impedido de dirigir. Mas regras no Brasil não costumam ser aplicadas para o 1%. A família de Thor tem dinheiro e as conexões que isso traz: não há muito tempo, o governador do Estado tomou carona no helicóptero do pai de Thor, um homem cuja maior ambição não é ser o homem mais sábio do mundo, ou o mais feliz, ou o mais generoso — e sim o mais rico, um recordista de moedas. Wanderson é o 99%. Bicicleta em vez de McLaren, e não por modismo ou por consciência ecológica. Simplesmente por necessidade. Feio por não ter a boniteza outorgada pelo dinheiro: não poderia comprar o corpo de jogador de rugby adquirido por Thor com duas horas de exercícios diárias, e nem as roupas, e nem os produtos de beleza. Pobre não pode aspirar a grandes feitos estéticos, e nem pequenos, para ser franco. Contra todas as probabilidades, Thor e Wanderson, com suas vidas paralelas e opostas, acabaram se encontrando na noite de sábado, numa estrada. Foi um encontro rápido. Thor em sua McLaren e Wanderson em sua bicicleta. Thor mal viu Wanderson. Salvo em circunstâncias excepcionais, os 99% são invisíveis. No final da reunião relâmpago, Wanderson estava em pedaços, destruído pela McLaren. A imprudência, segundo o pai de Thor, foi de Wanderson. Não há surpresa nisso porque no Brasil a culpa sempre foi dos 99%. E agora Thor retoma sua vida de herdeiro enquanto Wanderson lentamente vai desaparecendo de nossas mentes e de nossas conversas até ser devolvido à miserável invisibilidade em que esteve."

21 de mar de 2012

Eugenia Cultural

Em depoimento consistente e acalorado, o ator, diretor de teatro e gestor cultural, Hilton Cobra, nosso querido Cobrinha, questiona o resultado de edital público para gestão por 4 meses do teatro Glauce Rocha, no Rio de Janeiro. Seus argumentos apontam a falta de transparência do processo seletivo; a procrastinação no atendimento de recurso encaminhado pela Companhia dos Comuns, proponente de projeto não contemplado; o não-entendimento do teatro negro como uma arte feita com o o corpo inteiro, por diferentes comissões julgadoras; o monolitismo branco das comissões julgadoras de editais de arte (e outros), bem como a necessidade da ação política, para além da discussão estética, apenas. Vale a pena parar uns minutos, ouvir a aprender. Ngunzo, Cobrinha! http://www.youtube.com/watch?v=dFQgFz5X1eE

Espaço Literário Lélia Gonzales

20 de mar de 2012

Debates na UFRJ abrem comemorações aos 70 anos de Muniz Sodré

(Publicado em 13/03/2012 por leccufrj) "O professor Muniz Sodré será homenageado, na Escola de Comunicação da UFRJ, com palestras, leituras de sua obra e debates ao longo de 2012. Autor de mais de 30 livros, Sodré completou 70 anos, em janeiro, e é considerado um dos maiores intelectuais vivos da contemporaneidade. Com o objetivo de celebrar e partilhar a obra deste professor, pesquisador/pensador, o Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária (LECC) da UFRJ vai promover uma semana de palestras e minicursos temáticos sobre as diversas faces de Sodré. Além da homenagem ao autor, o Ano Muniz Sodré é, também, um modo de compartilhar o acesso ao conhecimento de sua obra, envolvendo estudantes da pós-graduação e da graduação, da UFRJ de outras universidades e público em geral. As atividades, no Campus da Praia Vermelha da UFRJ, começam dia 15 de março, quinta-feira, e só terminam no fim do ano. O LECCturas, grupo de leitura realizado na sala do LECC, quintas-feiras, a partir das 14h, este ano é dedicado a obra de Muniz Sodré. A ideia é estabelecer diálogos do público discente da comunidade acadêmica com a obra do autor, bem como apresentar as principais temáticas do pesquisador consagrado no campo de comunicação e áreas afins. A primeira leitura apresenta o autor e sua obra a partir dos textos “Muniz Sodré: perfil intelectual” e “A abominação do outro”. O LECC funciona na sala 124, do prédio da ECO e a programação completa para o primeiro semestre está no fim deste texto. O Colóquio Muniz Sodré promoverá, ao longo do ano, encontros mensais do próprio autor com estudantes de graduação e pós-graduação da UFRJ e de outras universidades. No primeiro semestre serão três palestras, sendo a primeira no dia 22 de março sobre “Cultura e produção cultural”. No dia 24 de maio Sodré falará sobre “Cultura afro e política”, e no dia 28 de junho sobre “Financeirização do mundo, educação e mercado”. O Colóquio será realizado na Escola de Comunicação. Para abril está marcada a Semana Muniz Sodré, que acontecerá entre os dias 16 e 20, no Salão Pedro Calmon do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. O evento, promovido pelo LECC, tem a coordenação geral da professora Raquel Paiva, coordenadora do LECC – ECO/UFRJ e que também mediará a mesa de abertura. Diversas gerações de discípulos de Sodré participarão das discussões temáticas em torno de sua obra. Entre os palestrantes convidados pesquisadores renomados como o historiador e escritor, Joel Rufino dos Santos (UFRJ), Maria Immacolata Vassalo de Lopes (USP), e o professor Juremir Machado (PUC-RS), jornalista, historiador. A conferência de abertura será feita pelo pesquisador francês Henri-Pierre Jeudy. Em diálogo com os demais saberes da prática jornalística, literatura e da cultura popular, serão realizados debates sobre a vida pública de Sodré. Entre os participantes estão o jornalista Alberto Dines (Observatório da Imprensa) e Cícero Sandroni (ABL). A riqueza das relações do intelectual com a cultura popular e o campo das artes também é expressiva em sua obra e será representada pela participação do Mestre Camiseta (capoeira). Por fim, com o objetivo de estimular novas gerações de pesquisadores do Campo, influenciadas pelo homenageado, serão ministrados minicursos, pelos atuais orientandos de Sodré do curso de Doutorado em Comunicação do PPGCOM-ECO/UFRJ e pelos discípulos do autor, doutorandos do Programa, todos pesquisadores do LECC. O objetivo geral do evento é propiciar a pesquisadores, professores e profissionais interessados instrumentos teóricos, intelectuais e práticos necessários ao desenvolvimento e à multiplicação do conhecimento, bem como o pensamento crítico e a perspectiva interdisciplinar. A programação completa do evento e todas as informações referentes às inscrições serão divulgadas em breve. Sobre o Homenageado Muniz Sodré de Araújo Cabral, nascido em 12 de janeiro de 1942, no município de São Gonçalo dos Campos (BA), é o que se pode chamar de um genuíno pensador brasileiro. Autor de mais de 30 livros, Sodré reúne em sua carreira extensa produção acadêmica nos campos da cultura e da Comunicação, o que o consagra como professor e pesquisador. Além disso, Sodré possui uma biografia política como jornalista-militante e o trabalho público-administrativo, como presidente da Biblioteca Nacional. Sua obra contempla o campo da Comunicação, Literatura, Filosofia, Educação, e reflete as mais diversas temáticas em um conhecimento múltiplo, fruto de sua experiência acadêmica, somado ao aprendizado adquirido na vivência com mestres da sabedoria e da cultura popular." Serviço Leccturas: Dia 15/03/2012 – todas as quintas-feiras, a partir das 14 horas, na sala 124 – LECC /ECO/ UFRJ – Aberto a interessados. Colóquio Muniz Sodré: 22/03/2012 – quinta-feira, uma vez por mês, na ECO/ UFRJ, das 14h30 às 16h – aberto a interessados, mediante inscrições. Semana Muniz Sodré: De 16 a 20/04/2012, das 10h às 18h, no Salão Pedro Calmon do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ – aberto a interessados, mediante inscrição. Inscrições Para se inscrever nos eventos da comemoração dos 70 anos de Muniz Sodré, basta enviar um e-mail para semanamunizsodre@gmail.com com as seguintes informações: Nome completo: Evento(s) escolhido(s): Dias de participação: Instituição: E-mail: Telefone: Na semana Muniz Sodré, aqueles que comparecerem a pelo menos 75% das palestras receberão certificado de participação do evento. Informações: LECC – Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária Lilian Saback – liliansaback@gmail.com Raquel Timponi – raquel.timponi@gmail.com Zilda Martins - zildamarti@yahoo.com.br http://leccufrj.wordpress.com/

17 de mar de 2012

Cia Capulanas e Cidinha da Silva nos palcos em 2013

A Cia Capulanas de Arte Negra é um dos 20 grupos selecionados pela 20ª Edição do “Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.” O programa tem como objetivo selecionar e apoiar a manutenção e a criação de projetos de trabalho continuado de pesquisa e de produção teatral, visando assim o desenvolvimento do teatro, além de proporcionar melhor acesso da população ao mesmo, por intermédio de grupos profissionais de teatro financiados pela iniciativa. A Cia Capulanas, que já havia sido selecionada na 19º edição do Programa, com o projeto “Pé no Quintal”, consolida uma trajetória de produção de arte negra com vistas à formação de público nas periferias de São Paulo. Nessa edição, tenho a imensa alegria de ser responsável pelo texto de SANGOMA: SAÚDE ÀS MULHERES NEGRAS, novo trabalho da Cia. As meninas acolheram meu desejo de trabalhar com elas e encomendaram a dramaturgia. Conversamos, elas disseram o que queriam e escrevi. Elas gostaram, se emocionaram e vão trabalhar com meu texto, pontapé inicial para a construção do espetáculo, obra coletiva da Cia Capulanas. A proposta de SANGOMA é abordar a saúde das mulheres negras detalhando subjetividades emocionais que produzem doença, a saber, a forma como o racismo e a discriminação racial impõem o silêncio, a rejeição, a frustração, a mágoa, a solidão, a ausência reiterada do amor que leva à dificuldade de abrir o coração ao amor, quando surge, e a reconquista da saúde pela dança, música, pela arte em geral, mas principalmente pela palavra que rompe o silêncio imposto, anima, revigora, dá voz. Também pelo silêncio opcional, pela estima fortalecida e pelo amor. O espetáculo virá a público em 2013. Até lá, muito trabalho. Ngunzo, Capulanas! Obrigada.

16 de mar de 2012

Paixão pelo futebol força mulher somali ao refúgio em Djibouti

CAMPO DE REFUGIADOS DE ALI ADDEH, Djibouti, 15 de março (ACNUR) – "Maymun Muhyadine Mohamed adorava correr e jogar futebol nas ruas de Mogadíscio. Suas habilidades lhe renderam uma medalha e um boné em uma competição local. Mas a milícia somali Al Shabaab viu sua diversão como um ato de desobediência. "Eles disseram 'as mulheres não devem praticar esportes. Você tem que parar de jogar e vestir sua hijab (vestimenta islâmica que cobre o rosto da mulher),'" diz Maymun, recontando sua história no Campo de Refugiados Ali Addeh em Djibouti. Não era como se Maymun fosse anti-islâmica. Ela vestia as roupas islâmicas quando não estava jogando futebol. Era apenas que, quando estava correndo e driblando no campo de futebol, suas longas vestimentas a impediam de se mover. Disseram a ela que se continuasse a praticar esportes, seria executada. No ano passado, os militantes ordenaram o marido de Maymun para controlá-la. Mas Abdi Abu Bakar, 23 anos, viu a alegria que sua esposa com a prática do futebol. Ele respondeu aos militantes que deveriam cuidar de suas próprias vidas. E então, como acontece corriqueiramente na Somália, numa noite a casa de Maymun foi atacada e seu marido foi assassinado. "Quando meu marido morreu, eu estava grávida de quatro meses", ela disse. Maymun esperou em Mogadíscio até sua filha, Fahima, nascer antes de decidir escapar. Ela vendeu sua medalha e boné por 30 dólares para conseguir deixar a Somália – isso foi como vender um pedaço de sua alma. Maymun tinha uma escolha: ou fugiria para o Campo de Refugiados em Dadaab no Quênia, ou faria uma longa viagem ao norte, para Djibouti. "Tinham muitas lutas no caminho para Dadaab", ela disse. "Mas a estrada para Djibouti é segura". Ela pegou uma carona em um caminhão com sua bebê, mas 30 dólares não eram suficientes para chegar a fronteira. Ela se encontrou implorando por ajuda e apavorada, pensando no que poderia acontecer com ela e sua filha. Mas havia mais bondade no caminho do que Maymun imaginava. Caminhões cheios de vegetais estavam indo de terras somalis em direção à Djibouti. Os motoristas foram bondosos o suficiente para dar carona a outros sobreviventes de conflitos que tentavam escapar da Somália. Ela atingiu a fronteira com Djibouti e foi surpreendida com outro fenômeno. Muitos daqueles que estavam deixando a Somália tinham planos de cruzar o Mar Vermelho para buscar trabalho no Iêmen e Arábia Saudita. "Éramos em 38 pessoas atravessando a fronteira," ela afirmou, completando que 31 pessoas do grupo optaram por continuar a viagem por barco em direção ao Iêmen. Maymun se recusou a correr o risco com uma travessia tão perigosa. Ela era mãe de um pequeno bebê e havia encontrado algo próximo da normalidade "Fui assistida pelas agências de refugiados desse país (Djibouti)", disse ela. "Não quero morrer no mar". No Campo Ali Addeh, Maymun frequenta a escola primária pelas manhãs e joga futebol com os meninos à tarde. Contrabandistas vieram ao campo, tentando convencer refugiados a fazer a viagem ao Iêmen ou ao Golfo Pérsico com promessas de boas oportunidades de empregos bem pagos como serviçais. Mas Maymun continua recusando. Como a maioria dos refugiados somalis, ela gostaria de se reestabelecer em um terceiro país. Ela quer passar pelo processo legalmente e com segurança. Mas, acima de tudo, ela nunca deseja perder sua alegria de viver.Ela ainda se lembra do dia em que seu marido foi morto e do momento em que teve que vender seus preciosos troféus esportivos para escapar da violência e bombardeio. "Inshallah, se eu ganhar outra medalha ou boné novamente, nunca os venderei", ela diz. "Manterei-os salvos e bem guardados e os mostrarei para minha filha quando ela crescer". Para Maymun, o futuro perfeito não tem relação com conflito, poder ou mesmo segurança financeira. "Eu não quero dinheiro. Não preciso de dinheiro", ela diz. "Só quero ter a chance de continuar jogando futebol e sentir alegrias". Por: Greg Beals e Charlemagne Kekou Akan no Campo de Refugiados Ali Addeh, Djibouti. Por: ACNUR.

13 de mar de 2012

Performance da Luli, contraparte do vento, em múltiplas nuances,quando dança

Artista da República Democrática do Congo se apresenta em 11 cidades brasileiras

(Divulgação). "Baloji é um artista belgo-congolense que mescla diferentes raízes no seu trabalho. Vindo do rap francês no seu último disco ele começou a pesquisar e agregar a música tradicional e contemporânea de sua terra natal, o Congo, ao seu repertório. O resultado é seu segundo disco, Kinshasa Succursale, para o qual ele montou a banda l'Orchestre de la Katuba, com importantes nomes da música congolense, com a qual irá se apresentar em 11 cidades:" 18 de Março - Belém / CCBEU - Centro Cultural Brasil Estados Unidos / 19h... 20 de Março - Brasilia / Teatro dos bancários/ 20h... 21 de Março - Rio de Janeiro / Espaço SESC Copacabana / 20 h... 22 de Março - São Paulo / SESC Pompeia / 21h30... 23 de Março - Santo Andre / Teatro SESC / 21h... 24 de Março - Santos / SESC Comedoria / 21h... 25 de Março - São Carlos / SESC convivência externa / 15h30... 28 de Março - Porto Alegre / Bongô Bar / 22h... 30 de Março - Belo Horizonte / SESC Palladium / 20 h... 31 de Março - Joao Pessoa / Teatro Arena / 20 h... 3 de Abril - São Luis / Teatro Artur Azevedo/ 20 h...

12 de mar de 2012

Wole Soyinka virá a Brasília, em abril

(Deu em O Globo). A arte e a política de Wole Soyinka "Numa das noites experimentais do Royal Court Theatre, espaço alternativo que começava a ganhar fama na Londres do fim dos anos 1950, Wole Soyinka, então um jovem aspirante a escritor recém-chegado da Nigéria, foi escalado para o papel de guarda de campo de detenção. A peça era inspirada no massacre de Hola, cometido no Quênia em 1959, quando agentes coloniais britânicos espancaram até a morte um grupo de prisioneiros nacionalistas. Minutos antes de entrar em cena, porém, Soyinka desistiu de atuar. O pequeno conflito que se seguiu a essa decisão, com os atores puxando o colega rebelde para o palco diante da plateia estupefata, diz mais que mil ensaios sobre os dilemas de representar a violência por meio da arte. Muito tempo depois, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1986, Soyinka relembrou a cena em seu discurso, justificando aquela recusa com uma série de perguntas: “Quando a representação é rejeitada pela realidade? Quando a ficção se torna presunçosa?”. Essas questões são centrais para um escritor e dramaturgo que sempre esteve profundamente envolvido com a política nigeriana, da luta pela independência contra as forças britânicas e a subsequente guerra civil, nos anos 1960, até hoje. Em 2010, ajudou a fundar um partido, a Frente Democrática por uma Federação do Povo, para enfrentar a coalizão conservadora que governa a Nigéria há mais de uma década. Autor será publicado no país pela primeira vez Às vésperas de vir ao país para a primeira edição da Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que acontece em Brasília entre 14 e 23 de abril, Soyinka se define, em entrevista ao GLOBO, como “um artista que não consegue se isolar das atualidades”. — Às vezes a realidade reprova a atitude do artista de se apropriar dos mistérios e tragédias de outros. É uma relação de quase “distanciamento”, mas um distanciamento paradoxal, já que o artista escreve de dentro do meio social e nunca está totalmente distante. No entanto, alguns escritores, por temperamento, são mais afetados, às vezes até sobrepujados, pela realidade. Como escrever sobre o Camboja de Pol Pot? Ruanda? Darfur? Como um escritor sírio pode manter a fé na criatividade durante o massacre em andamento lançado por Bashar Al-Assad [presidente da Síria] contra seu próprio povo? Como não entender se esse escritor jogar seu laptop no inferno que um dia foi a casa de um vizinho e pegar a Kalashnikov mais próxima? — provoca o escritor. Aos 77 anos, Soyinka se equilibra há décadas nesse “distanciamento paradoxal” entre arte e política. Essa tensão também está representada em sua vasta e diversificada obra, que passa por teatro, poesia, romance e ensaio, e só agora começará a ser publicada no Brasil. Durante a Bienal de Brasília, a Geração Editorial lançará uma tradução de “The lion and the jewel” (“O leão e a joia”), uma de suas primeiras peças, escrita no fim dos anos 1950, durante sua estada na Inglaterra, e publicada pela primeira vez em 1963. Com um humor satírico e uma mescla inovadora de traços estéticos ocidentais e africanos, “O leão e a joia” é, ao mesmo tempo, uma exceção e um caso representativo na obra de Wole Soyinka (ver artigo abaixo). Situada numa aldeia nigeriana, a peça é protagonizada por um jovem professor educado nos moldes europeus e um velho líder local, que disputam o amor da mulher mais bonita da região. A estrutura aparentemente simples, explica Soyinka, serve tanto para falar em chave de comédia sobre “a antiga batalha dos sexos” como para investigar “o que constitui a modernidade e a tradição”. Parte importante dessa investigação é conduzida através de uma apropriação criativa da cultura iorubá, que compreende a maior parte da população da Nigéria. As peças de Soyinka, tanto tragédias quanto comédias, são repletas de referências a rituais, danças e orixás (seu preferido é Ogum, que representa “a dualidade do homem em seus aspectos criativo e destrutivo”, diz). Mas o resgate desses elementos tradicionais não é uma forma de idealizar a cultura africana em oposição à ocidental, ressalta. — Cresci na cultura iorubá e a evoco constantemente como uma crítica de outras culturas e sociedades, mas não como uma alternativa perfeita e impecável. Contudo, ela é uma opção. E isso é cada vez mais importante num mundo percebido e apresentado em termos de oposições binárias entre cristianismo e islamismo. A cultura iorubá considera essa divisão ressentida e arrogante, especialmente se levamos em consideração sua história sanguinária de preconceito, intolerância e expansionismo assassino — diz o escritor, nascido em Abeokuta, no oeste da Nigéria. A grande presença da cultura iorubá no Brasil fez com que Soyinka tivesse, desde cedo, uma relação próxima com o país. Em um ensaio sobre Lagos, ele nota como a megalópole nigeriana deve muito de sua identidade aos escravos retornados do outro lado do Atlântico: da arquitetura à culinária, da música aos sobrenomes como Pacheco e Silva. Em suas pesquisas sobre as formas dramáticas tradicionais da África, o escritor se deparou com a sobrevivência de muitos desses rituais no Caribe e no Brasil. Soyinka considera fundamental para sua carreira o contato com pesquisadores brasileiros na Nigéria, entre eles o crítico literário Antonio Olinto, adido cultural em Lagos nos anos 1960, e sua mulher, Zora Seljan, que publicaram diversas obras de ficção e ensaios em torno de temas africanos. Soyinka conheceu Olinto (que morreu em 2009) e Zora (que morreu em 2006) depois de voltar da Inglaterra, onde passou boa parte da década de 1950, primeiro na Universidade de Leeds e depois em Londres. Na capital britânica, além de “O leão e a joia”, escreveu outra peça, “The swamp dwellers” (“Os habitantes do pântano”, em tradução livre). Retornou ao país natal no início dos anos 1960, para dar aulas e pesquisar teatro africano nas Universidades de Lagos, Ibadan e Ife. Nas décadas seguintes, embora tenha experimentado vários gêneros literários, dedicou-se sobretudo ao teatro e pensou em si mesmo sempre como um dramaturgo. — O teatro oferece a própria vitalidade humana como meio de transmissão. Isso é algo incomparável — justifica Soyinka, que ficou conhecido em seu país por peças como “A dance of the forests” (“Uma dança das florestas”), apresentada nas celebrações da independência nigeriana, em 1960, e alertava para o risco de uma repetição dos erros do período colonial. Ao mesmo tempo em que consolidava seu prestígio artístico, Soyinka se afirmava como um dos principais intelectuais públicos da Nigéria. Teve uma atuação destacada contra a guerra civil deflagrada pouco depois da independência e, por isso, foi preso em 1967. Passou 22 meses na cadeia, a maior parte deles na solitária. Mesmo detido, continuou a ter suas peças encenadas na Nigéria e no exterior — ainda em 1967, “O leão e a joia” ganhou uma montagem em Accra, capital de Gana. Depois de ser libertado, continuou a escrever e a militar, o que o obrigou a enfrentar alguns períodos de exílio. — Apesar dessas ausências instigadas pela política, nunca realmente deixei a Nigéria, porque minha perspectiva do país sempre foi interna — pondera. Escritor é ameaçado de morte por extremistas Hoje, a Nigéria continua no centro de suas preocupações. Além dos protestos contra a corrupção e o autoritarismo, suas bandeiras de toda a vida, Soyinka tem alertado os compatriotas para o risco iminente de uma nova guerra civil, dessa vez provocada pela ascensão do fanatismo religioso. No mês passado, ele denunciou à imprensa nacional que está ameaçado de morte pelo grupo extremista islâmico Boko Haram, que domina parte da região norte e, por meio de uma série de atentados nos últimos anos, exige a implantação no país da sharia (código religioso muçulmano). — Vivemos o risco de uma guerra civil, e uma muito grave. A corrupção é curável. Não totalmente, porque nenhuma nação jamais conseguiu isso, mas pode ao menos ser controlada por meio de punições rigorosas e de uma sociedade civil alerta e resoluta. Mas a manipulação religiosa é a faísca fatal — alerta. Intitulado “Este passado precisa abordar seu presente”, o discurso de Soyinka na cerimônia do Nobel, que começava com a lembrança do jovem ator-escritor indeciso sobre como lidar com a violência por meio da arte, terminava com uma denúncia vigorosa das consequências do projeto colonialista europeu na África, mesmo após as independências. Mais de duas décadas depois daquele dia, o escritor acredita que ainda há muito que combater: — O racismo continua entre nós, e não é só uma questão da cultura e da filosofia ocidentais. Estereótipos e preconceitos só mudam de local e de contexto, não desaparecem. A ascendência de noções religiosas anacrônicas, com sua bagagem de intolerância, faz com que o presente esteja cada vez mais à beira do abismo. A Nigéria é o nosso exemplo atual mais sério."

10 de mar de 2012

De Geraldo Filme, Vá cuidar de sua vida

"Vá cuidar da sua vida/ Diz o dito popular/ Quem cuida da vida alheia/ Da sua não pode cuidar/ Crioulo cantando samba/ Era coisa feia/ Esse é negro é vagabundo/ Joga ele na cadeia/ Hoje o branco tá no samba/ Quero ver como é que fica/ Todo mundo bate palma/ Quando ele toca cuíca/ Vá cuidar.../ Negro jogando pernada/ Negro jogando rasteira/ Todo mundo condenava/ Uma simples brincadeira/ E o negro deixou de tudo/ Acreditou na besteira/ Hoje só tem gente branca/ Na escola de capoeira/ Vá cuidar.../ Negro falava de umbanda/ Branco ficava cabreiro/ Fica longe desse negro/ Esse negro é feiticeiro/ Hoje o preto vai à missa/ E chega sempre primeiro/ O branco vai pra macumba/ Já é Babá de terreiro/ Vá cuidar"...

2 de mar de 2012

Inscrições abertas para Edital de Seleção de Propostas para o 6º FAN

A Fundação Municipal de Cultura, em parceria com a Associação Pró-Cultura e Promoção das Artes (APPA), realiza entre os dias 29 de maio e 3 de junho, a Mostra Movimentos Urbanos, que integra a programação do 6º FAN – Festival de Arte Negra. Quem quiser se apresentar nessa mostra deve se inscrever no Edital de Seleção de Propostas. As inscrições estão abertas até 20 de março e devem ser realizadas mediante a entrega dos envelopes da proposta e da documentação exigida no Edital, presencialmente ou por meio de procuração. As propostas serão avaliadas segundo os seguintes critérios: qualidade artística e viabilidade técnica e financeira; clareza e adequação da proposta escrita; e relevância da proposta. Na próxima segunda-feira, dia 5 de março, às 19h, a Fundação Municipal de Cultura vai realizar uma reunião pública no Centro de Cultura Belo Horizonte (Rua da Bahia, 1149, Centro), para dirimir dúvidas e prestar informações referentes ao Edital. PS: O Edital pode ser baixado no link www.pbh.gov.br.

1 de mar de 2012

Paulo Henrique Amorim, o “negro de alma branca” e os demônios de cada um de nós

(Por: Ana Maria Gonçalves). "Sempre fico com um pé atrás ao ler/ouvir afirmações enfáticas do tipo “Eu não sou racista”, ou “Fulano não é racista”. Ela já é perigosa quando dita sobre si mesmo, e mais ainda quando dita sobre o outro, que é o único que deveria saber de si. Racismo, assim como o machismo ou a xenofobia, é um tipo de sentimento que facilmente contamina quem é exposto a ele, de maneira ostensiva ou velada. É herdado, não tem muito para onde escapar. Principalmente em sociedades como a nossa que, durante muito tempo, lutou para esconder a discrepância entre prática e teoria, entre evidências de racismo e manutenção e construção de um modelo de democracial racial que nunca existiu. O que precisamos fazer é estar atentos a qualquer pensamento racista e combatê-lo ali, no nascedouro, não deixando que se naturalize e domine nosso modo de agir e de pensar. Acho que só assim podemos, brancos e negros, acabar de fato com o racismo (e outros ismos): de maneira individual, consciente e, acima de tudo, honesta. Não é através de leis ou de ações afirmativas, que defendo e acho mais do que necessárias para que sirvam de proteção e escada enquanto não somos capazes dessa revolução interna. É o trabalho de cada um, doloroso e vigilante, que pode avançar cada vez que um caso atinge proporções midiáticas, porque nos faz refletir à partir de situações que colocam figuras públicas no ambiente privado, vivenciando situações nas quais às vezes podemos nos reconhecer. Como humanos e imperfeitos que somos. Falo agora do recente caso envolvendo os jornalistas Paulo Henrique Amorim e Heraldo Pereira. Esse é um caso emblemático para entender a manifestação do racismo no Brasil, e que ele também pode ser praticado por pessoas consideradas “do bem”. Aliás, quase sempre é. Com raras exceções, nosso racismo é do tipo cordial, daquele que não necessariamente origina leis segregacionistas ou atos de ódio explícito, e por isso é difícil chamá-lo pelo nome que tem. Racistas convictos ou esporádicos somos todos nós. É sempre bom lembrar de uma pesquisa realizada pela USP : à pergunta “Você tem preconceito?”, 96% dos entrevistados responderam “não”; à pergunta “Você conhece alguém que tenha perconceito?”, 99% responderam que sim, e quando perguntados quem eram esses perconceituosos, eles disseram que eram amigos próximos, pais, irmãos. Então, racistas são nossos pais, tios, primos, amigos, namorados, vizinhos. E não há razões para acreditarmos que somos muito diferentes deles, mesmo porque também somos pais, tios, primos, amigos, namorados ou vizinhos de alguém. Racistas podem ser pessoas das quais gostamos e pelas quais somos capazes de fazer vista grossa em relação a um ou outro ato que, do nosso ponto de vista, é computado com um deslize, um momento de descontrole, uma atitude isolada. Para quem não é alvo do ato, é simples assim: um átimo, um momento “não era eu quem estava agindo”. Para quem o sofre, as consequências podem durar uma vida inteira, como podemos perceber em um trecho do “The envy of the world”, de Ellis Cose: “Eu me lembro alguns dos incidentes da minha infância que me acordaram para a verdade, incidentes que, algumas vezes de modo doloroso, me apresentaram a diferença entre branco e preto. (…) Eu tinha ido a Marshall Field Company, uma grande loja de departamentos em Chicago, para comprar um presente para a minha mãe. Enquanto eu circulava na loja imponente, calculando o que meu dinheiro podia comprar em um lugar tão caro e intimidante, percebi que estava sendo seguido – e que meu seguidor era membro da segurança da loja. De uma seção para outra da Marshal, o guarda me fazia sombra, com sua vigilância marcante e odiosa. Determinado a não me sentir intimidado, continuei a circular, tentando com todas as minahs forças ignorar o homem que estava caminhando praticamente nos meus calcanhares. Finalmente, incapaz de me conter, virei-me para encará-lo. Gritei alguma coisa – não me lembro mais o que – um uivo de orgulho ferido e ofensa. Ao invés de responder, o homem se manteve firme, encarando-me com uma expressão que combinava diversão e desdém. Devemos ter nos encarado por vários segundos, até que me toquei de que eu não era mais páreo para ele e seu desprezo do que um rato era para um gato. Corri pra fora, concedendo a ele a vitória (…) Décadas após aquele dia, lembro precisamente das minhas emoções – a raiva impotente, o ressentimento que fere, a vergonha, a decepção intensa comigo mesmo (por não me manter firme frente ao ataque silencioso do homem, por permitir que um intolerante fizesse eu me sentir um idiota, por não ser capaz de arranhar a auto-confiança arrogante do guarda.)” Essa é uma situação mais comum do que se poderia desejar, pela qual já passou a grande maioria dos negros, principalmente meninos negros. É é uma memória da qual boa parte deles nunca vai conseguir se livrar, porque geralmente marca o início de sua relação com um mundo que vai tratá-los de maneira hostil apenas pelo fato de serem negros. Alguns conseguem transformar essa mistura intragável de sentimentos em força para o ativismo e lutam para que não muitos depois deles passem por situções semelhantes. Outros não. Por isso é prepotente e insensível dizer a alguém o que se deve fazer ou deixar de fazer por se ser quem é. Ou seria o caso de sairmos por aí cobrando que todas as mulheres estejam o tempo todo louvando as mulheres que, no passado, lutaram pelos direitos das mulheres e para que violência doméstica e estupro, por exemplo, fossem considerados crime. Militância é para quem pode, quer, aguenta, tem tempo e estômago e, sobretudo, paciência para lidar com os absurdos que são capazes de dizer e fazer aqueles que ainda não conseguiram ou não querem se livrar de certos preconceitos porque, direta ou indiretamente, querendo ou não, sendo ou não complacentes, se beneficiam deles. Mesmo sendo Heraldo Pereira um negro alienado, como o acusa Paulo Henrique Amorim, o que especificamente confere a Paulo Henrique Amorim o direito de julgá-lo nesse sentido? É bom que se faça essa pergunta e se pense muito sobre ela, levando em conta o fato de já termos sido uma sociedade escravagista, antes de tomar partido nesse caso. Armando-se do direito de julgar a negritude de Heraldo Pereira como falsa ou verdadeira, Paulo Henrique Amorim escreveu, em 05/09/2009: “Enquanto isso, o Ali Kamel submete o jornal nacional a um longo exercício diário de onanismo. Por conta dos 40 anos do jornal nacional, William Bonner entrevista repórteres. A propósito, William Bonner, na sua ilimitada mediocridade, poderia poupar o espectador de usar ‘bonito’ ou ‘bonita’. Ontem, por exemplo, o funcionário de Gilmar Dantas (**) Heraldo Pereira, que faz um bico na Globo, fez uma longa exposição para justificar o seu sucesso. E não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde. Heraldo é o negro de alma branca. Ou, a prova de que o livro do Ali Kamel está certo: o Brasil não é racista. Racista é o Ali Kamel.” (Vou deixar Ali Kamel, seu livro e Gilmar Mendes de fora, porque são outros assuntos e outros processos, atendo-me aqui apenas ao processo de Heraldo Pereira, tendo salientado na frase acima as partes que o tocam, o que já é assunto mais do que suficiente) Dos artigos que li sobre o assunto, gostei mais do de Sueli Carneiro, que explica bem porque a expressão “negro de alma branca”, dita em qualquer contexto, por qualquer pessoa, é racista (grifos meus): “Nas eleições de 1996 para a prefeitura de São Paulo, a então candidata de nosso coração Luiza Erundina em discurso inflamado, bradou que Celso Pitta era um negro de alma branca e que ela era a verdadeira representante do movimento negro. Posto que as bandeiras que ela representava eram as que contemplavam as necessidades e interesses dos negros de São Paulo. Essa velha militante negra que vos fala, veio a público para contestar a então candidata lembrando-a de que uma das dimensões do racismo é negar a plena humanidade das pessoas e por plena humanidade entendemos a possibilidade de sermos, brancos e negros, do bem, ou do mal. Assim são os seres humanos. Existiam, na época, razões políticas de sobra para criticar a candidatura de Celso Pitta, a única imprópria era tratá-lo de “negro de alma branca” por pertencer ao campo ideológico adversário e seu comprometimento com suas práticas políticas e administrativas deletérias, que são de conhecimento público. Um negro pode ser corrupto, se posicionar contra os interesses de sua gente. O que podemos fazer diante disso, é lamentar e combatê-lo politicamente, jamais atribuir essa característica à sua condição racial. Aí mora o racismo, ao tentar encontrar a razão da “falha” na negritude da pessoa ou na suposta ausência dessa negritude em um@ negr@ como propõe a frase, negro de alma branca.” Li vários outros artigos tentando defender Paulo Henrique Amorim, e todos fazem malabarimos históricos e semânticos para justificar o ato racista. Entristece-me ver frases como “A expressão “negro de alma branca”, por mais cruel que possa ser, é a expressão, justamente, do anti-racismo (…)”, dita por jornalista que sempre achei, no mímino, sensato. Porque é simples assim: Paulo Henrique Amorim usou a cor de Heraldo Pereira para atacá-lo. É racismo e ponto. Tá na lei. Quem não concorda deve brigar para mudar a lei, e não para que Paulo Henrique Amorim esteja acima dela. Que o defendam porque o acham bom amigo, bom jornalista, bom ser humano; mas que entendam que pessoas assim também podem ter atitudes racistas. Pelo que li até agora, Paulo Henrique Amorim tem histórico na defesa de causas das militâncias negras, o que torna o caso ainda mais trágico, e triste, mas não excludente. Ele pode sim, com sinceridade, ser um dos poucos jornalistas de grande audiência a denunciar racismo e defender cotas, mas também ter cometido um ato racista, como o que cometeu, como o que Luiza Erundina cometeu, talvez num momento de raiva ou de guarda baixa. Esses são momentos perigosos, pelos quais podem passar, por exemplo, aquela nossa tia velhinha, rata de igreja, voluntária em programas sociais, que trata a empregada negra como “alguém da família”, tendo até a intenção de deixar-lhe algo em testamento pelos bons e longos anos de serviço prestados, e é capaz de berrar um “sua negrinha ……” para alguma negra que lhe contrarie fora de casa. Quero de verdade acreditar que foi isso que aconteceu com Paulo Henrique Amorim, ou, caso contrário, resta-me perguntar: o que foi mesmo que ele aprendeu em todos esses anos ao lado dos movimentos negros? Até que ponto esse engajamento foi realmente sincero ou jogo de cena? Porque, numa breve visita ao site dele, observa-se a arrogância, a prepotência e, sobretudo, a cegueira e a falta de respeito com que vem tratando o assunto, tentando fugir à responsabilidade e à gravidade do que disse. Ele disse algo que, pelos longos anos de militância que alega em sua defesa, deveria saber que não poderia ter dito. Se não sabia, está na hora de aprender, desculpar-se e seguir em frente. Tem a chance de fazê-lo nas retratações que publicará nos jornais; caso contrário, deveria tomar muito cuidado em não parecer demagogo e oportunista, militando por uma causa pela qual não demonstra respeito e acima da qual tenta se colocar: há anos os movimentos negros vêm lutando para que qualquer alusão depreciativa à cor seja punida. Sua defesa é um enorme desserviço a essa causa. . A defesa de Paulo Henrique Amorim: Uma das coisas que mais me irrita nos argumentos contrários às cotas é a apropriação e distorção de discursos de líderes negros. Todos fazem isso, principalmente com o famoso discurso “Eu tenho um sonho”, de Martin Luther King. Comentando o uso desonesto desse recurso em uma matéria da Veja, Liv Sovick escreve no excelente “Aqui ninguém é branco”: “(…) Salta aos olhos o uso descontextualizado do sonho de King, que muitas vezes é enaltecido para o estatuto de pensador utópico e não político. King se dirigia aos manifestantes, em sua maioria negros. Falou do propósito de estarem concentrados ali: cobrar a justiça econômica e social. Quando ele se voltou para o público nacional em geral, quatro minutos depois de começar um discurso que durou dezesseis, disse: “Também viemos a esse lugar sagrado para lembrar a América da urgência feroz do agora. Não é o momento de se dar ao luxo de esfriar os ânimos ou tomar a droga tranquilizante do gradualismo.” Retoma no parágrafo seguinte: “Seria fatal para a nação ignorar a urgência do momento”. As palavras famosas sobre o sonho de liberdade de um povo oprimido, motivo de uma esperança utópica dos negros, são enunciadas para confortar aqueles que apanharam e foram presos pela causa dos direitos civis, aqueles que iam voltar a enfrentar dificuldades. Na Veja as palavras são usadas como se descrevessem o atual estado brasileiro das coisas.” Antes, Liv tinha citado o trecho da revista: “Um absurdo ocorrido em Brasília veio em boa hora. Ele é sinal de que o Brasil está enveredando pelo perigoso caminho do tentar avaliar as pessoas não pelo conteúdo de seu caráter, mas pela cor de sua pele.” É exatamente isso que fazem todos os que citam o discurso de King para justicar o ataque às cotas: tentar nos fazer acreditar que, vivo e nos dias de hoje, King estaria do lado daqueles que negam a existência do racismo como fator de divisão sócio-econômica da sociedade, e não do lado dos negros que estão lutando de fato por essa igualdade, sofrendo as consequências do racismo e necessitando de ferramentas auxiliares para vencê-lo. Trazendo o caso mais para a nossa realidade, situação mais grave ainda é o da historiadora Isabel Lustosa, em relação a Luiz Gama, no descuidado, para ser boazinha, livro “Divisões Perigosas – Políticas raciais no Brasil contemporâneo“. Luiz Gama foi o primeiro escritor brasileiro a se assumir negro em seus escritos, tendo sido filho de uma africana, que ele diz ser Luisa Mahin, e de um português. Nascido livre mas vendido pelo pai como escravo aos 10 anos de idade, mais velho Gama consegue a liberdade, torna-se jornalista, poeta, advogado e protetor de escravos em fuga, respeitado por todos os intelectuais de sua época e um dos nossos mais importantes abolicionistas, entrando para a História como grande exemplo a ser seguido pelas gerações negras vindouras. Ele chegou a dizer em júri, escandalizando muitos dos abolicionistas com quem se relacionava: “Todo escravo que matar o senhor, seja em que circunstância, mata em legítima defesa”. Essa tese destaca a fala da principal estudiosa da obra de Luiz Gama no Brasil, a professora Lígia Fonseca Ferreira, que analisa um pouco do trabalho de Gama a partir de seu principal poema, na introdução do livro “Primeiras trovas burlescas e outros poemas”: “A bodarrada [138 versos] cristalizou a imagem de um Luís Gama em cruzada contra o branco”. Mas Gama, com sua poesia ácida e sátirica, atacava também a Igreja, a sociedade, o mulato que negava sua raízes negras, o preconceituoso, não poupando nem a si mesmo, como nos conta a tese do link. São os versos finais desse poema, que Isabel Lustosa reproduz e dos quais se vale para escrever: “Nessa matéria de raça a minha posição coincide com a de Luis Gama, personagem ele mesmo de uma infame história de escravidão. Com seu senso de humor e ceticismo crítico, ele relativizou a questão das diferenças de raça no Brasil, ainda em 1873, quando publicou no jornal paulista A Reforma o poema “A bodarrada”.” (pág. 143) Ou seja, ao dizer que relativiza a questão das diferenças de raça no Brasil, Isabel Lustosa não tem a menor vergonha de simplesmente ignorar a história e o histórico de luta de Luiz Gama. Ela não poderia terminar o artigo sem convocar um negro, usando-o em favor da causa que defende e que, possivelmente, seria contrária a dele, pois antes escreveu, ao comentar que tinha sido convidada por colegas do meio acadêmico a assinar o manifesto contra as cotas: “Sugeri a eles que procurassem intelectuais negros e pardos representativos para reforçar a causa.” (pág. 139) De fato procuraram e, na entrega do documento no Senado, fizeram questão de levar o ativista do Movimento Negro Socialista José Carlos Miranda que, ouso conjecturar, não teria sido levado se não fosse negro. Essa estratégia de usar negros que estejam dispostos a falar mal e ir contra lutas históricas dos movimentos negros é antiga nos EUA. Veja o espaço cedido por veículos de extrema direita, como Fox News, a intelectuais negros representativos como Thomas Sowell ou Walter Williams, que também já começam a ser louvados e cada vez mais citados no Brasil. Essa técnica de usar negros para ir contra os interesses dos próprios negros, ou de usar negros para atestar a ideneidade de um branco em um processo contra um negro, como fez Jair Bolsonaro, que convocou o cunhado negro para depor a seu favor e contra Preta Gil, Paulo Henrique Amorim também aplica, fazendo questão de ter negros entre suas testemunhas. Em uma defesa com a qual nem sei se todos eles concordariam. A primeira estratégia é apresentar Paulo Henrique Amorim como um grande defensor da igualdade racial no Brasil, ocupando quase cinco páginas com citações de matérias publicadas em seu site, anexadas no final. A partir daí, tenta provar que não houve crime algum, primeiro dizendo que o acusado estava na verdade falando da “subserviência da Rede Globo” e não do jornalista Heraldo Pereira (ver item 57). Mais adiante, temos: 61.Portanto, a questão principal de que se tratava não era a condição de negro do jornalista Heraldo Pereira, mas a postura da emissora em que ele trabalha, produzindo entrevistas e matérias! 62. A questão racial foi tratada pelo acusado porque, como sobejamente comprovado, ele se dedica ao tema há muito tempo, apontando a existência de racismo no Brasil e combatendo-o, inclusive defendendo a adoção de políticas públicas que permitam ao negro “abrir a porta da oportunidade”, como discursou Lyndon Johnson. É bem complicado entender o que quiseram dizer no item 66: 66. E foi exatamente nesse contexto que o acusado afirmou que o jornalista Heraldo é um “negro de alma branca”, ou seja, o negro bem-sucedido, que desmente a necessidade das políticas públicas formentadoras da igualdade racial e corrobora a tese de Ali Kamel, de que o Brasil não é racista. Esse trecho afirma que, por ser negro e bem sucedido, e apenas por isso, Heraldo desmente a necessidade de ações afirmativas? Ou há declarações de Heraldo nesse sentido? Sendo bem sucedido e negro, apenas por isso, Heraldo corrobora a tese de Ali Kamel? É isso? E esse argumento só vale para o Heraldo ou para qualquer negro? Se vale para qualquer negro, nenhum negro pode ser bem sucedido para não corroborar a tese de que não existe racismo no Brasil? A defesa continua: 67. A propósito, a expressão “negro de alma branca” tem raízes históricas e não tem cunho racista, como se sustentou na denúncia. E traz, no item 68, uma tradução para “Zumbi” que eu nunca tinha visto. Perguntei de sua existência ao Nei Lopes e ele também desconhece. Está lá que Zumbi quer dizer “Deus negro de alma branca”, definição que creditam a Leila Dias, de quem reproduzem uma fala que distorcem para concluir (item 69): “(…) Ou seja, a expressão “alma branca” está, na verdade, relacionada à pureza do espírito e à coragem para lutar contra a opressão, e não à alegada superioridade da “raça branca” em detrimento da “raça negra”, estampada na denúncia.” Bem, se “alma branca” está ligada a atributos positivos, “alma negra” seria seu inverso? E se a defesa aqui quer nos fazer acreditar que o “alma branca” usado por Amorim é na verdade uma coisa boa, ele estava elogiando e não criticando Heraldo Pereira? Isso fica ainda mais interessante quando, no item 71, citando matérias em que o acusado e Mino Carta chamam Pelé de “negro de alma branca”, a defesa nos pergunta: “Onde está a ofensa?” A defesa parece concluir isso mesmo, que Heraldo nunca deveria ter se sentido ofendido: 75. Portanto, no caso dos autos, a leitura das matérias demonstra que ainda que quisesse atribuir à expressão “negro de alma branca” conotação ou significado negativo (que não tem, conforme esclarecido), o contexto em que foi empregado demonstra que Heraldo Pereira foi assim denominado em razão de seu grande sucesso numa sociedade na qual, via de regra, aqueles de pele branca atingem tal status, tal notoriedade. Aqui, eu já começo a achar que essa defesa também merece um processo. Pela cara de pau, o assassinato da língua portuguesa!! (sim, há pontos de exclamação duplos em várias frases), e o descuido com que resvala, ela própria, no racismo que tenta descaracterizar. Entendo os motivos de ter perdido (não ter razão nem argumentos sérios), levando o acusado a fazer o acordo. Vejam a decisão de recebimento de denúncia e concluam vocês mesmos onde isso ia terminar. . O outro lado da história: É bem importante, para entender esse caso, assistir ao vídeo a que se refere Paulo Henrique Amorim, exibido em 04/09/2009. Queria destacar dois momentos nos quais, a não ser que Paulo Henrique Amorim acuse Heraldo Pereira de trabalhar no departamento de dramarturgia ao invés de no de jornalismo, Heraldo não me pareceu ser o “preto de alma branca” de que Amorim o acusa. Visivelmente emocionado, ao assisitir a uma reportagem que fez sobre João do Pulo, Heraldo Pereira faz questão de dizer: “Foi um momento que me marcou muito. Eu, repórter, fazendo uma cobertura para o Jornal Nacional, e o João do Pulo era um herói da minha geração. Negro, como eu, do interior de São Paulo, como eu, de uma família humilde, como eu. Eu o tinha como um ídolo.” Outro momento é quando fala da cobertura das viagens do presidente: “Eu estive em todos os continentes com o presidente da República, mas o que mais me marcou foi eu estar no continente africano. Eu estive na África, em Angola, estive num local, era um porto, um antigo porto de escravos, de onde vinham os escravos para o Brasil. Provavelmente, alguns dos meus antepassados podem ter saído dali para vir ao Brasil. Isso me marcou muito. (…) Também tive um outro momento nessa mesma viagem à África, quando estive na África do Sul, o Nelson Mandela tinha sido libertado, e pude, ainda durante o regime do apartheid, eu como um jornalista negro, brasileiro, fazer uma reportagem na África do Sul. Eu frequentava as áreas de negros e a equipe tinha brancos que frequentavam a área destinada a brancos. Ainda quando a África do Sul tinha aquela situação, eu fui um repórter que esteve lá no apartheid.” Foi esse vídeo, no qual Heraldo Pereira aproveita dois momentos que não me pareceram estar no script dos apresentadores Fátima Bernardes e William Bonner para falar de sua condição de negro, de seus ídolos negros e de duas reportagens que o marcaram, abordando a questão racial, que Paulo Henrique Amorim usa para chamá-lo de “negro de alma branca”. Não faz sentido. Essa defesa absurda de Paulo Henrique Amorim, feita por brancos e negros, alegando armação de inimigos políticos e pedindo que “negros e pessoas bem-intencionadas não se confundam: uma ação contra o racismo jamais viria de alguém da Rede Globo, a maior propagadora de racismo deste país”, abre um dos precedentes mais perigosos na luta contra o racismo no Brasil. Primeiro, porque concordam que um branco, no caso Paulo Henrique Amorim, pode duvidar da palavra de um negro quando ele diz que se importa sim com as questões raciais, como acabamos de ver Heraldo fazendo no vídeo em questão. Segundo, porque concordam que um branco pode dizer o que o negro precisa fazer para ser um verdadeiro negro. Terceiro, porque concordam que um branco podem dizer a um negro com o que ele pode ou não se ofender. Quarto, porque concordam que um branco pode distorcer o sentido racista histórico de uma expressão como “negro de alma branca” apenas por causa do lugar onde o negro ofendido trabalha e do tipo de profissão que exerce. Faço parte dos que não confiam no departamento de jornalismo da Rede Globo, por causa de situações como essas e de outras mais recentes, como a polêmica CNE X Monteiro Lobato, na qual estive diretamente envolvida. Mas nem por isso acho que o fato de Heraldo Pereira trabalhar lá autorize que ele seja vítima de ataques racistas e julgamentos em relação a como deve ser sua negritude. Quem fala sobre isso, e vale a pena ler, porque ela também aponta a amizade de Heraldo Pereira com um dos mais importantes jornalistas e ativistas negros do país, Hamilton Cardoso , é a jornalista negra Rosângela Malachias. Ou seja, será Heraldo Pereira realmente é tão alienado quanto querem nos fazer acreditar? Alguém já pensou em dizer ao Paulo Henrique Amorim como ele deve se comportar e onde deve trabalhar para ser um branco verdadeiro? Aliás, qualquer pessoa que ache justo atacar Heraldo apenas porque ele trabalha na Globo (eu não acho), sendo branca ou negra, e que tenha pelo menos um pouquinho de respeito pelas religiões de matriz africana como a umbanda e o candomblé, deveria aplicar o mesmo princípio e se lembrar imediatamente de que Paulo Henrique Amorim, aliado e defensor das causas dos movimentos negros, trabalha na Rede Record desde 2003. A Rede Record é propriedade do bispo Edir Macedo, tem em seu quadro de diretoria vários bispos, e faz parte de um negócio bastante rentável chamado Igreja Universal do Reino de Deus. Nos seus templos são feitos sucessivos ataques a terreiros e à reputação de filhos, pais e mães de santo de todo o Brasil, inclusive com incitação à violência, pelos quais e Rede Record já foi condenada judicialmente. Seria interessante ler, caso ele as possa fazer, as declarações públicas do militante Paulo Henrique Amorim em relação a casos como esses: 1 – A expansão das igrejas pentecostais brasileiras pelo continente angolano, principalmente a Igreja Universal do Reino de Deus, que já adquiriu vários meios de comunicação locais. Isso é um perigo principalmente nas aldeias mais isoladas, de onde crianças estão sendo expulsas acusadas de serem feiticeiras. Seria interessante se Paulo Henrique Amorim fizesse reportagens para a Record denunciando isso, isso ou isso. Ou então nos esclarecendo o que de fato significam isso e isso, que são notícias bem preocupantes. 2 – O que Paulo Henrique Amorim tem a dizer sobre soldados que torturam mãe de santo fazendo-a se sentar em formigueiro e arrastando-a por seiscentos metros porque, segundo eles, ela estava com “o diabo no corpo”, ao incorporar Oxóssi? 3 – O que Paulo Henrique Amorim tem a dizer do best-seller (mais de 3 milhões de exemplares vendidos), Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?, livro de autoria do dono da emissora na qual trabalha, bispo Edir Macedo? Muitos dos argumentos usados pelos fiéis da Universal para atacar terreiros e praticantes de religões de matriz africana são tirados desse livro e do que os pastores tem propagado durante os cultos, baseados nos ensinamentos do bispo-mor. Coisas como: “A alma da mãe de santo, por exemplo, é vendida ao orixá. Há uma chantagem diabólica nesse meio que obriga a pessoa que “faz santo” a renunciar, enquanto vive, a todas as coisas, inclusive a própria salvação. Ameaças são feitas de tal maneira que há um temor imenso entre os praticantes dessas seitas em deixá-las. (fl. 25).” “No Brasil, em seitas como o Vodu, Macumba, Quimbanda,Candomblé ou Umbanda, os demônios são adorados, agradados ou servidos como verdadeiros deuses.” “Na nossa igreja temos centenas de ex-pais-de-santo e ex-mães-de-santo, os quais foram enganados pelos espíritos malignos durante anos a fio. (fl. 25). Decepcionaram-se ao constatar que os mais fortes “protetores” com quem contavam não passavam de demônios. Impressionaram-se ao ouvir os próprios orixás e caboclos confessarem diante da multidão que não passavam de demônios, cuja missão é enganar, arrasar e destruir os seus “cavalos”. (fl. 26). Tirei esses trechos do processo movido pela Procuradoria da República da Bahia, do qual deixo o link para quem quiser conhecer um pouco mais do pensamento preconceituoso do dono da emissora na qual trabalha Paulo Henrique Amorim. Insuflados por esse tipo de pensamento, os fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus (que provavelmente contribuem para o pagamento do salário dos funcionários da emissora) invadem terreiros, destroem altares de oferendas, “exorcisam” frequentadores, torturam pais e mães-de-santo. Procurem por isso no Google e vão encontrar diversas notícias. 4 – Outro processo interessante também é esse que condenou a Rede Record a exibir um direito de reposta, baseado em intolerância religiosa e ataques às religiões de matriz africana. Leiam e tenham uma breve ideia do que vai ao ar na programação da emissora de Paulo Henrique Amorim . O processo ainda está correndo porque a Record apelou. Estou tentando conseguir mais informações e publico atualizações, caso consiga. Aliás, seria interessante, como repórter da casa, Amorim tentar saber lá dentro o que está acontecendo, os motivos pelos quais a Record se nega a dar declarações sobre o caso e, princicpalmente, porque embargou o belíssimo vídeo produzido como direito de resposta. Em sua defesa oral, ele enfatiza: “MEU PROBLEMA COMO CIDADÃO DE UMA REPÚBLICA LAICA, ONDE DEVE IMPERAR A DEMOCRACIA, É, NO CASO EM TELA, NESTA ACUSACAO, COM A GLOBO”. O que tem feito então, dentro da própria emissora, cujos programas atacam todas as outras religiões que não a oficial da Igreja pertencente ao grupo? Conhecendo um pouco o trabalho da Record, e levando isso em conta do mesmo jeito que estão levando o fato de Heraldo Pereira trabalhar na Globo, a alma de Paulo Henrique Amorim é de que cor mesmo? Branca ou negra? Do bem ou do mal? Engajada ou vendida? Ou será que esse tipo de classificação só vale pra negros? Se só vale pra negros, ainda assim, acham que não é racista? É bem complicado defender isso sem fazer colocações racistas, não é? A turma de blogueiros e comentaristas que faz a defesa de Paulo Henrique Amorim, a faz em nome de um corporativismo limitador do pensamento e do diálogo, inimigo do avanço das lutas sociais. Assim como durante a ditadura militar os movimentos negros foram obrigados e se calar em nome do nacionalismo, para que o Brasil pudesse passar a imagem de ser democrático pelo menos na questão racial, eles agora querem nos fazer acreditar que a atitude racista de chamar alguém de “preto de alma branca” deve ser varrida pra baixo do tapete em nome de uma unidade da esquerda contra a direita perversa. Eu quero é estar no centro. No centro dessa luta contra o racismo. Se querem fazer disso uma luta política, mantenham a superficialidade e a hipocrisia típicas desse tipo de bandeira furada e briguem entre vocês, os que são brancos (com a alma de que cor mesmo?). Já tem preto demais machucado e sendo usado como bucha de canhão nessa história de racismo.