Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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30 de set de 2012

Sobre um certo "decoro de cor"


Por Cidinha da Silva

Gosto de textos críticos sem condescendência, sem bajulação e com espaço para discordância dos argumentos ou entrelinhas do autor, como este Entre os cinco por cento. Por exemplo, a expressão "decoro de cor", pretensamente original, mas em nada destoante dos clichês "questão de pele", "da cor do pecado"... Bonvicino podia ter-se poupado e também a nós, dessa invencionice repetitiva e infértil.

Também acho temerária a afirmação de que o querido Ronald é o "principal poeta negro do Brasil." Opinião respeitável, mas pouco abrangente para um país que tem como poetas negros, grandíssimos poetas como Edimilson de Almeira Pereira, Salgado Maranhão, Ricardo Aleixo e Elisa Lucinda (não me importa que torçam o nariz para a presença de Elisa na minha lista).

No mais, a caracterização da poesia contemporânea é lapidar: "A poesia brasileira chamada “contemporânea” constitui-se em uma massa informe de poemas em prosa, cortados em linhas. O nome dos autores são diferentes, entretanto, os poemas são quase todos iguais. E irrelevantes. Tal produção é tributária daquilo que já se considerava um barateamento poético há vinte anos pelo menos. Hoje, o autor prevalece sobre a obra e a propaganda sobre a reflexão." Demais!

Quando um texto assim, bem escrito, fundamentado, sobre a obra de um escritor negro é publicado, sinto-me feliz e valorizada. É quando nossa biografia e nossa legitimidade temática não são postos acima daquilo que somos em essência, escritoras e escritores, mesmo que persista o novo-velho "decoro de cor."




Por Régis Bonvicino

Na verdade, Cair de costas é, do ponto de vista editorial, o primeiro livro de poemas de Ronald Augusto, porque reúne cinco plaquetes, lançadas a partir dos anos 1980, com tiragens pequenas, que propunham a leitura de sua poesia aos amigos. Cair de costas reúne a parte de formação do trabalho do guitarrista da banda os poETs. Não há, em Cair de costas, inovações formais ostensivas na aparência, embora essa poesia não seja nostálgica ou grandiloquente, com temas kitsch. Ronald vale-se, genericamente, dos recursos legados pelo modernismo (1922), pelo concretismo (1956)  e pela dicção direta das letras de mpb e rock and roll dos anos 1960. Os poemas são breves, caligráficos ou curtos, estes mais discursivos. A poesia brasileira chamada “contemporânea” constitui-se em uma massa informe de poemas em prosa, cortados em linhas. O nome dos autores são diferentes, entretanto, os poemas são quase todos iguais. E irrelevantes. Tal produção é tributária daquilo que já se considerava um barateamento poético há vinte anos pelo menos. Hoje, o autor prevalece sobre a obra e a propaganda sobre a reflexão.
O que torna relevante este Cair de costas? Primeiro o fato de seu autor lançar seu primeiro, digamos assim, livro comercial, aos 51 anos. O que isso revela? Revela decoro e indica que ele trafega no sentido oposto da última e irrelevante poesia brasileira.  Decoro, do latim decorum, decência, respeito próprio, dignidade. Decoro, de cor. Ronald é um poeta negro a lidar com o legado branco hegemônico da poesia, de um modo crítico e  severo, nesse caso, em uma perspectiva política sem apelações. Com alto decoro. Leia-se: “...zulu o grande claro da página onerado por poucas palavras...”. Creio que esse verso possui, também, um significado de carta de intenções. Em Cair de costas, Ronald trabalha, de modo sistemático, com os preconceitos brancos da linguagem e daí decorre sua originalidade, porque eficaz. Alguns exemplos: “Preto, estátua de granito denegrido”, em um poema no qual critica Gregório de Matos ; “... mono o / preto a quem a tribo branca // palma após lama / faz mercê”; e, por fim, “por que dizer escuras / em lugar de escólios?”.
Além de “poeta negro”, Ronald é, principalmente e apenas, um poeta, como deixa entrever em: “meu sangue de sibas / esta sibila numa prosa perturbada / tratando de pegá-lo no / contrapé / através” (“o barroco boca”). A siba é, como todos sabem, um molusco de cerca de 30 cm, dotado de dez tentáculos providos de ventosas na cabeça. A siba segrega um líquido negro ao ser atacado. Faz sentido no percurso de Ronald, porque ele inverte as situações: da condição de “vítima” migra para a de crítico, da de segregado para aquele que, ao ver-se discriminado, como todo poeta, diz através, diz pelos flancos da língua, que se faz arte. Os poemas estilhaçados são, as mais das vezes, poemas ornamentais, vazios. Ronald Augusto, ao pegar pelo contrapé, busca exatamente  o contrário do ornamento: dar sentidos firmes aos fragmentos: “...o preto de porte palmarino / rapando as escamas dum sonâmbulo / outdoor repondo outras...” ou :”... num abono-pente-de-velha/ (cenho?) // o buana brancarano me acena: / ébano...”. “Buana”, como todos sabem, quer dizer “senhor ou senhora, no sentido de escravidão”. A libertação negra vem, nesse poeta, lado a lado, com a libertação da poesia em si de seus incontáveis clichês. A maior parte do que se diz sob a forma de poesia é banal e desnecessário. Ronald torna a poesia necessária. Ronald Augusto é o principal poeta negro do Brasil, porque, além de “fazer poemas”, é um crítico de primeira linha, um músico, uma figura rica e complexa. Ronald Augusto está também entre os 5% de poetas que valem a pena no Brasil. 
Régis Bonvicino é poeta, autor de Até agora (reunião de seus dez livros de poesia, 2010, Imprensa Oficial do Estado de são Paulo).

29 de set de 2012

Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia


 
Por Cidinha da Silva

O conteúdo do livro de Nelson Motta faz jus ao título. O Tim Maia apresentado é mais do que um homem complexo, é quase uma força da natureza. Incontrolável como um vulcão, um tornado, um tufão. Imprevisível como uma tormenta. Um homem de emoções fortes, coração mole e cabeça dura, embora pensante e perspicaz. Sua porção maior de racionalidade chamava-se Maria Imaculada, a mãe, a quem ele dedicou todos os discos. 
Motta não lança mão de psicologismos para decodificar o Tim, mas poderia ter aprofundado a pesquisa com os familiares para oferecer à curiosidade de quem lê, elementos mais sólidos para aventurar-se na tentativa de compreender Tim Maia. Entretanto, sua relação com o som, a música, com a arte de cantar são exaustiva e competentemente exploradas pelo biógrafo. 
A humanidade de Tim fica bem evidenciada nas relações de amor com crianças (os dois filhos e outras, de orfanato) e animais, de cães ferozes a bois e vacas de laboratório, instalados no quintal Maia. Em contrapartida, o machismo, a misoginia e homofobia do músico são naturalizados, não há qualquer comentário crítico do biógrafo mesmo diante do espancamento de uma companheira de Tim perpetrado pelo próprio. Imaginem o estrago.

Alguém pode argumentar que não é tarefa do biógrafo julgar ou criticar o biografado. Muito bem, ocorre que em situações de outra natureza, às quais Motta julga excessivas, existem críticas. Por exemplo, o período “caretão” da vida de Tim, vivido na seita Cultura Racional, como fiel leitor e seguidor do livro Universo em Desencanto. Motta são se furta da crítica ao "irracionalismo" da opção de Tim. Fica evidente que a ausência do olhar de gênero é reflexo da falta de uma noção mais sólida de respeito aos direitos da mulher, ou uma visão da mulher como gente, menos como peça de “cama, mesa, banho e outras necessidades”.

A despeito desses escorregões e tombos, feios e seqüelantes, a escrita de Motta é muito bem feita, envolvente e fluida. Mesmo diante do degradê racial que palmilha o texto de cabo a rabo. A gente se impacienta com o apego desmesurado do biógrafo a um jeito antiquado de descrever as relações raciais no Brasil, quer seja, a ênfase num mosaico de cores, inútil para caracterizar as pessoas. É um desfile de “mulatos e mulatas, claros, escuros, foscos, moreninhas e moreninhos, negões”, etc, e confusões também. Para minha surpresa, dois negrões aptos a desfilar no Ilê Ayê, Wilson Simonal e Jorge Benjor tornam-se mulatos na descrição do Motta. Há uma tendência também a “morenizar” os pobres da trama, Roberto Carlos, por exemplo, além dos olhos tristes, tinha os cabelos crespos e a pele morena, em contraposição aos “branquinhos” da Bossa Nova, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão e companhia, moradores da zona sul carioca. Isso cansa, essa insistência num Brasil de relações raciais folclorizadas e sem coragem de explicitar os ardis do racismo e da discriminação racial. 

Há falhas de pesquisa ou escolha de dados que deixam lacunas substanciais para o bom entendimento do relacionamento de Tim com os filhos. Leo, o primeiro filho de Tim, aparece na gestação, no momento do nascimento  e depois aos 8 anos, quando Tim vai ensiná-lo a tocar violão pelo “método Maia”, expressão cunhada por Motta para batizar todas as atividades ou atitudes particularíssimas de Tim. Depois o garoto desaparece. Telmo, o segundo filho, cujo nome de registro é Carmelo, aparece na notícia da gestação, no nascimento, no conflito de identidade na escola quando é chamado de Carmelo e não responde à professora. O garoto então desaparece da vida do pai, só se faz presente nas reclamações de Tim para vê-lo na casa da tia (irmã de Tim que o educava) em horários Maia, às 4 da manhã, por exemplo. Telmo reaparece aos 18 anos para negociar a realização de shows de Tim Maia no Canecão, Rio de Janeiro. Ora, a presença de Léo e Telmo na biografia é insignificante frente ao "amor gigantesco que Tim nutria pelos filhos", segundo definição do próprio Motta. O sumiço de Léo é o mais intrigante. Este não é filho biológico de Tim, mas o texto não indica que ele o diferenciava de Telmo por esse motivo. 
A relação com a mãe dos dois filhos foi muito tumultuada, embora não tivesse sido diferente de outras mulheres no aspecto tumulto, “cama, mesa, banho e outras utilidades”, embora pareça  que o amor foi maior. Mas será que por algum motivo não revelado, o Tim deixou de amar o Léo e por isso o Motta lhe deu um chá de sumiço? Ou ele teria sumido por falha do biógrafo? Mistérios! 
Selecionei três trechos do livro que ilustram bem o caráter e opiniões de Tim sobre certos temas. Antes disso, vale dizer que Motta desperdiça gramas e gramas de celulose descrevendo tipos, embalagens e formas de preparo e uso de maconha e cocaína ao longo das últimas décadas do século XX, no Rio de Janeiro. 
Sobre as mulheres: “Não precisa nem falar que eu já sei de tudo. Eu te avisei, mermão, essa mulher ia foder com a sua vida... Era o que ele sempre dizia de todas as mulheres de todos os amigos, embora o casamento de Fábio tivesse durado quase dez anos.” 
Sobre o próprio sucesso: "O segredo do meu sucesso é o equilíbrio: metade das minhas músicas é esquenta-sovaco e metade é mela-cueca.” 
Fato emblemático e não-raro da relação de Tim Maia com o público, como ídolo popular: "Ao subir a escada da delegacia, empurrado por dois canas, Tim viu que tinha muita gente na calçada em frente e que já o tinham visto. Parou e soltou a voz: - Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir / tenho muito pra contar / dizer que aprendi / que na vida a gente tem que entender / que um nasce pra sofrer / enquanto o outro ri... O povo começou a cantar junto, a bater palmas e gritar seu nome. Os tiras tentavam empurrar 128 quilos escada acima, mas ele não se movia nem parava de cantar. Mais gente chegava, as putas e os travestis gritavam, todos cantavam, a voz querida e poderosa de Tim Maia enchia a noite de Copacabana. Diante da avassaladora solidariedade popular, da barulheira infernal e do adiantado da hora, o delegado reagiu com bom senso e bom humor – 'libera o elemento'.”

28 de set de 2012

Entrevista da Ministra Luiza Bairros


"Do ponto de vista das políticas públicas, temos feito tudo o que é possível para que a igualdade racial se estabeleça"

"Do ponto de vista das políticas públicas, temos feito tudo o que é possível para que a igualdade racial se estabeleça"Ampliar
  • Crédito: Agência Brasil
Em entrevista ao programa Bom Dia Ministrodessa quarta-feira (26), a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, falou sobre o lançamento da primeira etapa do Plano de Prevenção à Violência Contra a Juventude Negra, o “Juventude Viva”, cujo piloto será colocado em prática em Alagoas. Leia abaixo trechos da entrevista, editada pelo Em Questão.
Preconceito 
O racismo é um fenômeno extremamente elástico, que vai tomando formas diferenciadas à medida que a sociedade também vai mudando. Mas, do ponto de vista das políticas públicas, temos feito tudo o que é possível para que a igualdade racial se estabeleça. 
Discriminação 
O que as ideias racistas fazem é desvalorizar as pessoas. E, desumanizando as pessoas, se tem uma dimensão de que a vida vale menos. Felizmente, com o trabalho que tem sido desenvolvido pelos movimentos sociais, em primeiro lugar e, na continuação, o trabalho que temos feito, a partir do governo, acredito que esse tipo de mentalidade na sociedade brasileira tende a mudar. 
Violência 
Tivemos, no Brasil, no ano de 2010, 19 mil mortes entre jovens negros, contra 7 mil entre jovens brancos. Existe uma diferença abismal nesses números. Portanto, isso exige, da nossa parte, uma preocupação específica com esse segmento da população. Isso dá para nós todos bem a ideia de como esse problema é urgente, não apenas para a população negra, mas para o futuro do Brasil.
Processo histórico
O Estado reconhece que existe um processo de vitimização em um determinado segmento da população, no caso os negros e, em função dessa constatação, se coloca como um responsável primário para poder modificar esse tipo de situação. Para mim é mais importante, hoje, a gente pensar naquilo que ganhamos do ponto de vista não apenas de consciência social, mas de responsabilização do Estado. 
Juventude Viva 
O Juventude Viva foi pensado para ser trabalhado em 132 municípios brasileiros, que são responsáveis por 70% das mortes violentas de jovens negros. Nós estamos começando uma experiência piloto no estado de Alagoas. Obviamente, a ideia é que isso possa ser espalhado por todo o Brasil. 
Além da Secretaria-Geral e da Seppir, que o coordenam, [o plano conta com] a saúde, a cultura, a educação, esporte e justiça. Cada um desses ministérios entra no programa com um conjunto de possibilidades, que serão utilizadas de acordo com o diagnóstico que se fizer em cada um dos municípios. 
Educação
O Ministério da Educação, por exemplo, tem uma contribuição com o Programa Mais Educação, que tem sido uma aposta muito grande de fazer com que as escolas se tornem de tempo integral, fazendo com que os estudantes tenham a possibilidade de participar de atividades não só curriculares, mas extracurriculares também. 
Saúde
No caso do Ministério da Saúde, tem a ver com a possibilidade de ter uns agentes jovens de saúde. O protagonismo da juventude é extremamente importante para que nós possamos criar uma relação mais positiva com a vida. 
Cultura
O Ministério da Cultura entra com as praças de esporte e lazer e com as usinas culturais, que são extremamente importantes para fazer com que a juventude tenha alternativas. O jovem deve ser encarado, ser tratado, como alguém que tem contribuições efetivas para dar à sociedade e, portanto, merece estar vinculado às ações e atividades que são valorizadoras da vida e dos seus talentos. O Ministério da Cultura oferece as usinas culturais, que estão previstas para se realizar até 2014, como espaços de convivência, de exercício da criatividade, da inovação, que é algo que fundamentalmente os jovens necessitam.
O programa é transmitido ao vivo pela TV NBR e pode ser acompanhado na página da Secretaria de Imprensa da Presidência da República.

27 de set de 2012

Carnes frescas e afins



                                                                                                                  
Por Cidinha da Silva

 Ninguém me tira da cabeça que aquilo era carne de cavalo. Seu Benzoildo nunca inspirou confiança como dono de açougue. Virava e mexia, o pessoal passava mal ao comer a carne dele, digo, do açougue “Carnes Frescas e Afins”.
      
Você fritava, a bicha endurecia, parecia filé de pneu na hora de mastigar. Refogava, a bicha espumava e exalava mau cheiro de espantar urubu.
            
Carne de gato não era segredo que ele vendia. Quem tinha gato no bairro passou a prender em gaiola, amarrar em coleira, pra proteger dos facões amolados e das mãos ligeiras de seu Benzoildo. Gatuno de gatos. “Achado não é roubado”, defendia-se. Pegava os bichanos na rua para alimentar... “deixar gordinhos e passar a faca”, a vizinhança completava. Desenvolveu a tese, assimilada pela população, de que a carne de gato era prima da carne de coelho, portanto, apropriada ao consumo humano. O povo aventava que carne de cachorro também era vendida no estabelecimento. Como ele matava cada espécie de bicho era tema de churrascos, cervejadas, rodas de truco e samba da moçada.
             
Certeza mesmo tiveram no dia em que seu Benzoildo diversificou os negócios e abriu, no bairro vizinho, uma revenda de couro de animais para tambores. Ele só não esperava que alguém reclamasse. Dona Ermira visitou a loja, reconheceu o couro do Dirceu, seu gato, comprou, represando as lágrimas. Candidamente solicitou nota fiscal, com especificações detalhadas do produto. Juntou fotos do bichano, fotografou o couro, amealhou testemunhas e perfilou-se no juizado de pequenas causas para dar queixa.
            
O juiz, para infortúnio de seu Benzoildo, estava enlutado pelo desaparecimento do Hildo, seu gato, preto como uma pantera. Encolerizou-se, proferiu sentença de fechamento do estabelecimento e intimou seu Benzoildo a depor. O depoente esperneou, negou as acusações, alegou inocência, perseguição política e simulação de provas. Não adiantou. Começava a derrocada de seu Benzoildo.
            
Solerte, o juiz expediu outro mandado, desta feita acionou a Vigilância Sanitária para vistoria criteriosa no açougue “Carnes Frescas e Afins”. Onde já se viu – “afins” –, o proprietário mesmo já se denunciava. Chegaram homens e mulheres vestidos de branco, com máscaras esquisitíssimas, botas, luvas, pranchetas, vidros para coletar amostras, máquinas fotográficas, um arsenal. O povo juntou na porta do açougue, alguém tratou de escrever uns cartazes, bradavam por justiça. Fizeram uma lista enorme com o nome dos gatos desaparecidos e afixaram no poste. Leram para a rede de TV que apareceu por lá. Seu Benzoildo não cria no que via.
            
Uma técnica da vigilância sanitária examinava as paredes do fundo do açougue com um martelinho e a cada toc-toc, colava o ouvido para examinar o som produzido. Encontrou o esperado, chamou uma colega de trabalho para conferir. Era mesmo barulho de coisa oca. Sem dificuldade, lastreados pela experiência, encontraram o fundo falso, forçaram e chegaram ao início do túnel que levou a equipe de sanitaristas a um quarto fétido e mal iluminado, nos subterrâneos do “Carnes Frescas e Afins”. Lá depararam com dezenas de peles de gato penduradas em varais, algumas cabeças de cavalo com olhos estatelados, fixadas na parede, tíbias e fêmures imensos, provavelmente dos cavalos mortos, amontoados em um canto, infestados de moscas e varejeiras. Abriram uma porta menor e encontraram cachorros à espera do desossamento, apenas sem couro, semi-congelados.
            
Completava o cenário de horror os instrumentos usados para matar os bichos, tirar o couro, desossá-los. Fotografaram tudo, coletaram amostras e imediatamente ligaram para o juiz: “Olha dr. Anacleto, tem infração suficiente pra ele envelhecer na cadeia”. O mandado de prisão foi imediato. A polícia foi chamada para conter a multidão furiosa que queria depredar o açougue. Alguém mais lúcido conteve a massa, argumentando que se destruíssem o lugar, ajudariam o açougueiro, pois destruiriam as provas. Começaram a chegar advogados, firmas de advocacia, oferecendo-se para mover ações indenizatórias contra seu Benzoildo. Parecia saguão de aeroporto em dia de acidente aéreo, bando de urubus querendo uma lasquinha.
            
Foi assim que o bairro do antigo “Carnes Frescas e Afins” se tornou um enclave vegetariano na região.

Do livro "OH, MARGEM! REINVENTA OS RIOS!"

26 de set de 2012

Miss negão


Por Cidinha da Silva

Amooor, há dias quero te perguntar uma coisa e sempre esqueço. O que significa essa faixa verde-limão, alfinetada no seu paletó?
–  Ah... faz parte do meu uniforme?
–  Como assim Lírio Wagner?
– Ihhh pretinha, tá nervosa por quê? Faz parte do meu uniforme de segurança, ué.
– Explica isso direito, não tô entendendo nada. Tira esse ipod do ouvido e venha aqui conversar comigo.
– Oh pretinha mandona, mas eu te amo mesmo assim.
– Vamos logo, sem enrrolação. Todos os seguranças do hospital têm uma faixa “Cheguei e avisei pra todo mundo” pregada no uniforme preto?
– Não, pretinha linda. Só eu, o seu negão predileto. Único, melhor dizendo.
– Ai, meus sais. Não estou entendendo, LW.
– Ih pretinha, você complica as coisas. Aposto que tá encanada, achando que tem treta no meio, tem nada não. É o seguinte: você sabe que eu sou o único negão da segurança da diretoria, né? Sem privilégios, porque esse povo não dá mole pra preto, conquistei o posto na manha, na competência.
– Tá, pretinho, eu sei.
– Então, como eu sou o mais antigo do grupo, o chefe novo da segurança achou que eu merecia um lugar de destaque. Ele me mudou de lugar, da recepção da diretoria pra garagem. O serviço é de maior responsabilidade. Eu fico atrás das pilastras de botuca nos carros que chegam. Nunca se sabe se alguém vai tirar uma arma pesada do porta-malas, é minha função observar o movimento de quem chega. Mas o chefe achou que um negão como eu, todo de preto, poderia não ser visto por algum carro e pra minha própria segurança, ele comprou, do bolso dele, essa faixa pro meu uniforme.
– Oh meu amor, meu querido e ingênuo amor, e você trabalha com isso afixado na roupa?
– Claro! Você acha que eu iria contrariar o chefe? Ainda mais que ele tá pensando no meu bem. Não é toda chefia nova que considera funcionário antigo assim, não. Tô fazendo o maior sucesso. Os colegas até me deram um apelido novo: “miss negão”.

23 de set de 2012

Oléria, Brown e o vínculo estético!




Por Cidinha da Silva

Eu trabalhava num relatório e passei os olhos pelo Face, exatamente no momento em que emergia  a onda Ellen Oléria no The Voice Brasil! Mas que diabo era o tal Voice? Domingo na TV só sei os horários do futebol e ainda faltavam horas para o Corinthians e Botafogo, para o Atlético e Grêmio.

Vibrei com o resultado de Oléria, escolhida pelo júri do programa. A vitória de uma é vitória de todas, mas confesso que a urgência da entrega do trabalho aliada à  vontade de ver os dois jogos mais tarde, não me moveu do computador para a TV.

No corpo das mensagens busquei  alguma imagem da poderosa cantando e nada encontrei. Agora, horas depois, consegui, e ao vê-la, soube que na tarde deste 23 de setembro de 2012, nasceu para o Brasil, em cadeia nacional, Ellen Oléria, ela, que a nós, comove e representa desde que começou a cantar.

Acostumem-se com essa boca que engole o mundo e o devolve ainda maior. Acostumem-se às ondas sonoras do Oceano-Oléria! E Brown, olha a responsa, velho! Chega pra cá! Ellen Oléria está te chamando. 

22 de set de 2012

Vi a imagem, rememorei o texto!



*Alugam-se moços
Por Cidinha da Silva

 Elas querem dançar e alugam moços. São senhoras bem-sucedidas e solitárias. Amantes infelizes. Não refizeram a vida amorosa e desejam fazê-lo. No fundo, acham que sexo é bom, sexo com afeto é ótimo e sexo com amor é divino.

Inventam o amor para sobreviver. As amigas casadas, cansadas de emprestar os maridos e de ouvir as reclamações deles, encontraram uma solução: alugam moços dançantes para as festas do grupo. Uns tipos garbosos, bem apanhados, estilo anos dourados. Elas vivem momentos de delícia com aqueles corpos jovens, cheirosos, bons pés para valsar. Sempre rola um dinheirinho no bolso, um bilhete discreto com o endereço e horário para o encontro. Dali, ninguém sai acompanhada por um deles, é festa de família.

 Enquanto isso, na sala de justiça, o rei da soja, de protuberância abdominal mastodôntica, pescoço de sapo, olhos, boca e pele de jacaré albino, expõe mulher jovem, de beleza gelada e estática, mas, bela. Durante a entrevista, afirma que elas gostam de conforto, bons restaurantes, viagens à Europa em cadeiras de primeira classe ou jatinhos particulares, compras na Champs Elysées. Eles, homens maduro-ricos, segundo particular definição de si e de seu grupo, gostam de boa e bela companhia. Da juventude, do viço. É uma troca.

Para as mulheres maduras, a fantasia continua. O moço dançante sugere o apagar das luzes, até do abajour. Tudo para facilitar o ato. Ao resenhar o pós-encontro ao telefone, elas fabulam as peripécias do amante, transformam a escuridão num clima, numa vela mágica e perfumada, que ele, príncipe encantado, sacara de seu embornal de segredos. Depois, uma variação de caminhos para enfrentar a solidão. Bebidas, choro, farinha, cannabis, sessões extras no psicanalista, aumento da dose de Tranquinal, Nervium, Ansienon, Deprax, Pondera, Zoloft. Qualquer coisa que anestesie, alivie. Ampare e não impeça o próximo encontro.

*Do livro VOCÊ ME DEIXE, VIU? EU VOU BATER MEU TAMBOR!, de 2008.  

18 de set de 2012

Políticas educacionais e racismo: Monteiro Lobato e o Plano Nacional Biblioteca da Escola



Do Portal Áfricas
Ana Maria Gonçalves
Por Ana Maria Gonçalves
Em recente viagem a Montgomery, no Rosa Parks Museum, encontrei com uma família de New Orleans, também evitando o confronto com o furacão Isaac. Negros, como eu e o guia que nos atendeu. Depois da visita, em resposta ao questionamento se tínhamos alguma pergunta a fazer, o guia se sentiu à vontade para nos contar sobre a presença ainda muito forte do racismo na cidade. Apesar de termos visto várias rodas de negros e brancos conversando amigavelmente no bar e no restaurante do hotel onde nos hospedamos, o guia nos contou que ainda há lugares pelos quais negros não andam; outros, onde negros não entram; e muitas regiões ainda completamente segregadas. Mas o que mais me chocou, e acompanhou durante o resto da estadia, foi a informação de que ainda há um núcleo bastante ativo da Ku Klux Klan que, durante a campanha presidencial de 2008, fazia questão de se vestir a caráter, lotar a traseira de caminhonetes e assombrar os bairros negros. Paravam em frente às casas que ostentavam símbolos da campanha do Obama, chamavam a atenção dos moradores e arrancavam adesivos de carros, bandeiras e as placas que continham fotos ou o número do candidato negro. Sabendo disso, e primeiro inconscientemente, mas depois tendo exata noção do que fazia, não me senti mais à vontade para circular pelo hotel com o livro que estava lendo, The Montgomery Bus Boycott and the Woman Who Started It,  escrito por Jo Ann Gibson Robinson, a professora que convocou o boicote aos ônibus de Montgomery, depois da prisão de Rosa Parks.
Dias depois, visitei o King Memorial e assisti a um culto na Dexter Avenue King Memorial Baptist Church, a igreja onde Martin Luther King pregava e de onde comandou o boicote, iniciando sua luta pelos Direitos Civis. Dado interessante é que a igreja fica a menos de 100 metros do Capitólio, sede dos estados confederados do Sul durante a Guerra Civil norte-americana. Antes do início do culto e por pelo menos uns 10 minutos, o reverendo falou sobre política. Sua frase inicial foi “They want our boys to run for football, but they don’t want our boys to run for president”, deixando muito clara a importância de todos os membros da igreja e seus conhecidos estarem registrados para votar, e salientando que a igreja da rua Dexter estava à disposição para tudo o que precisassem, fornecendo carro e acompanhamento até os locais de registro e de votação, e apoio psicológico e legal em qualquer problema enfrentado. “Any emergency, and you know what I mean; and I mean it”, foi o que ele disse. Não citou a Klan, claro, mas era disso que estava falando, principalmente porque depois da eleição do Obama, a organização, que nunca se extinguiu de fato e é legal nos EUA, tem ensaiado uma revigorada em lugares tradicionalmente racistas, como Montgomery.
 A Klan nasceu como organização secreta no início da Guerra Civil, e sua missão era restaurar a ordem, ou seja, retornar o negro para o seu devido lugar: os campos da escravidão. Não chegou a crescer muito nessa época, e quase foi extinta em 1871, para renascer com toda força na década de 1920, no rastro da I Guerra Mundial, chegando a ter milhões de adeptos. Embora enraizada nos estados do sul, a Klan foi um fenômeno nacional. Um bom livro sobre o assunto é Hooded Americanism – The History of Ku Klux Klan, de David M. Chalmers.
Todos os estados, mesmo os do norte, tiveram vários núcleos da Klan, alguns mais violentos do que os outros, e todos unidos pelo que chamavam de “klannishness”, que era basicamente viver entre os que tinham as mesmas ideias, a mesma herança e os mesmos ideais. O estado de Nova Iorque, por exemplo, tinha células da Klan em quase todos os condados e, na capital, seus membros faziam paradas frequentes pela cidade, reuniões no Central Park e nas salas de uma corte masgistrada no distrito do Brooklyn, com seu líder sentado na cadeira do juiz, e em quartos alugados do Chelsea Hotel, onde também eram realizados os rituais de iniciação. Uma matéria no New York Times, de 1923, estimava em 200.000 o número de membros da Klan no estado. Um lei estadual, a Walker Law, que passou com margem muito pequena, foi instituída para brecar o crescimento da organização, proibindo seus membros de usarem máscaras em público, de usarem o correio para envio de propaganda, de exercerem cargos políticos e administrativos nos quais pudessem beneficiar a organização, e decretando o fim do secretismo das listas de filiados. A lei provocou protestos e violência, amplamente mostrados nos jornais locais, juntamente com a violência, os linchamentos e os enforcamentos que promoviam em todo o país. Calcula-se que a Klan tenha assassinado mais de 1.000 pessoas, concentrando-se nos negros sulistas.
Os anos de 1927 e 1928 foram bastante movimentados e problemáticos para a Klan, com confrontos em Manhattan e no Queens, durante o desfile comemorativo do Memorial Day, em honra aos soldados mortos na Guerra Civil. Mil e quatrocentos homens e mulheres da Klan apareceram paramentados para desfilar, e a polícia achou que seria melhor permitir, evitando um confronto que colocasse em risco as vidas das pessoas que foram assistir ou desfilar. Quando perceberam que teriam a companhia da Klan, algumas organizações, como os escoteiros, se retiraram da formação. As autoridades tentaram, em vão, convencer a Klan a desistir, primeiro amigavelmente e depois usando a força policial, com carros e até ônibus para bloquear o caminho dos encapuçados, que passaram por cima de tudo, até conseguir o que queriam. Em 1928, quando a Klan sofria debandada em várias partes dos Estados Unidos, seus principais líderes foram para Nova Iorque, promovendo uma série de comícios e tentando eleger políticos e ocupar cargos de comando na administração pública e na força policial do estado. Tudo isso era amplamente coberto pelos jornais, e era impossível que qualquer pessoa, de qualquer lugar nos Estados Unidos, não soubesse exatamente do que se tratava e quais os propósitos da Ku Klux Klan. E é muito importante ter isso em mente quando nos lembramos que Monteiro Lobato morou em Nova Iorque entre 1927 e 1931, como adido comercial representante do governo brasileiro. Porque foi também nele que pensei sentada em um dos bancos da Dexter Avenue King Memorial Baptist Church. Rodeada de negros que, certamente, já tinham encontrado um encapuçado pela frente e buscavam forças para, também certamente, enfrentá-los de novo na eleição presidencial do próximo novembro. Era também em Monteiro Lobato que eu pensava porque, em meio às demonstrações da Klan e ao bom combate exercido pelo estado e pela cidade de Nova Iorque, ele conscientemente escolhe o lado da Klan e escreve ao amigo Arthur Neiva, em carta enviada de Nova Iorque durante o tumultuado ano de 1928, criticando o Brasil:
 ”País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. (…) Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva.” (Monteiro Lobato, 1928)
Lembrei-me também de Lobato porque já estava pensando em escrever sobre mais um capítulo da história do parecer do MEC sobre o Caçadas de Pedrinho, sobre o qual vou falar mais adiante. Antes, queria falar um pouco sobre racismo e o processo de universalização da escola pública no Brasil.
Afinal, do que (não) falamos quando (não) falamos de racismo?
Para se ter uma ideia de como tudo ainda é relativamente novo e tabu entre nós, o dicionário Houaiss nos informa que a palavra “racismo” foi dicionarizada apenas em 1982. Uma das coisas mais complicadas ao se falar sobre racismo, no Brasil, é conseguir que as pessoas se desarmem, para então entenderem o que está sendo falado. A palavra em si já é quase uma ofensa, fazendo com que grande parte dos brancos, ao ouvi-la, sinta-se na necessidade de se defender, partindo para o negacionismo ou para a ignorância (também no sentido de precisar “ofender” de volta), passando às vezes pelo “ah, era só uma brincadeira”. Se a gente quer mesmo não precisar mais falar de racismo, atitudes como essas não deveriam acontecer, porque são parte do seu sistema de perpetuação. Desmerecer o debatedor, não falar sobre, negar, ridicularizar ou diminuir qualquer problema nunca vai fazer com que ele desapareça; e disso sabemos bem, pois quase 125 anos depois do fim da escravidão, ainda estamos às voltas com um de seus maiores males. A tão sonhada “democracia racial” ficou só no sonho, porque quase nada de concreto foi feito para alcançá-la.
 Em relação ao racismo, não se muda o pensamento e os sentimentos de uma pessoa de um momento para o outro. É necessário também transformar o ambiente a sua volta, para que ela não veja como natural um comportamento ou uma situação que deveriam ser considerados desvios. Mal comparando, é o caso do peixe que nunca saiu da água e nem se questiona se outro estilo de vida é possível e natural a outras espécies. Afinal, naturalizou como universal o ambiente que o cerca, e é incapaz de entendê-lo como hostil, agressivo aos que não possuem brânquias. Pense na universidade pública brasileira antes das cotas para negros: quantos eram os brancos, ali dentro, entre dirigentes, professores e alunos, que se atentavam para o fato de serem quase 100%, num país onde representam 50% da população? Pouquíssimos, ouso dizer, porque estavam no seu ambiente natural. E para preservar esse ambiente e todo o período em que se viveu nele, sem notá-lo, também é natural que não se deseje contaminá-lo com a palavra racismo. Porque, ao ouvi-la, é impossível que se deixe de fazer alguma coisa, nem que seja resolver ignorá-la. Faz-se um pacto pela ignorância, porque assim também se ignora o privilégio, nem sempre merecido e nem sempre consciente. Porque se tem alguém sendo prejudicado, obviamente tem alguém sendo beneficiado, querendo ou não. Porque o racismo é assim: enquanto prejudica negros como um todo, privilegia brancos como um todo, queiram eles ou não, queiram eles saber disso ou não. A culpa quase nem é de ninguém individualmente, salvo os racistas convictos e atuantes, mas cada um que se toca que está se deixando levar pela maré, deveria ter a obrigação moral de parar, nadar um pouquinho contra a corrente dos pensamentos naturalizados, e tentar escutar e entender os que ficaram pra trás não por causas naturais, mas porque uma certa bomba de sucção foi ligada, e ela só atrai aqueles com alta concentração de melanina. Se não quer ajudá-los, não há o menor problema, pois cada um tem os seus com os quais se preocupar, mas é cruel tentar impedir-lhes o avanço com falsas teorias, mentiras, empiricismos, descaso, falas e dados forjados, censuras nos meios de comunicação, compadrismo em relação a quem defende o mesmo ponto de vista que, quase sempre, é baseado na ignorância e propagado apostando nessa mesma ignorância por parte dos receptores de informação. Porque são baseadas na ignorância as opiniões de que o país não deve fazer nada para privilegiar cidadãos que, por ele, foram e continuam sendo prejudicados. Porque é disso que o racismo se vale e é a através do qual se perpetua: o pacto pela ignorância.
Tipos de racismo - Ninguém precisa se sentir atacado quando falamos do racismo em livros adotados pelo Ministério da Educação, porque aqui estamos falando de racismo institucional. Generalizando um pouco, e usando informações do livro “I’m not a racist, but…“, de Lawrence Blum, podemos dividir racismo em três categorias:
- Racismo Pessoal – aquele que aparece em pensamentos, crenças, comportamentos e atitudes de indivíduos racistas.
- Racismo Social ou Sociocultural – aquele que aparece em pensamentos, crenças, comportamentos, atitudes e estereótipos compartilhados por um grupo de pessoas e expressos através de religião, cultura popular, propagandas, meios de comunicação etc…
- Racismo Institucional ou Estrutural – aquele oriundo de inferiorização, antipatia e/ou descaso perpetrados por instituições como escolas, polícia, sistemas de saúde e judicial etc…
Lawrence Blum nos alerta que cada um dos três opera em complexa interação com os outros: “Racismo Institucional persistente encoraja a crença pessoal, ou a suspeita, de inferioridade racial. Racismo pessoal reflete o racismo social já existente e o sustenta. Racismo pessoal atrapalha ou bloqueia o ímpeto moral de mudar instituições racistas.” (pág. 9) Racismo pode estar presente em símbolos, piadas, imagens, ditos populares, gestos e comentários, que podem ser racistas por si só, independente do motivos que as pessoas têm para usá-los, e mesmo se o sabem ou não (de novo, a tal da ignorância). Alguns são conhecidos, como as piadas racistas, que quase todo mundo conta sabendo que são racistas, para depois se espantar quando alguém se ofende, chamando-o de super sensível ou fazendo uso do termo mais do que vazio “politicamente correto”, ou então fazendo-se de vítima, com o famoso “Nossa! Eu não tinha intenção de ofender”. Vejo também muitos comentários do tipo “Não sei porque não posso usar uma camiseta com a frase 100% branco”, e o que as pessoas não percebem é a falta de simetria nessa observação, fruto da ignorância histórica. Historicamente, no Brasil, em se falando de escravidão, os negros, e não os brancos, foram vítimas de opressão, ódio, inferiorização, discriminação, preconceito etc… Então, o significado de tentar reverter um pouco o dano desse processo histórico usando uma camiseta “100% Negro” não pode ser comparado ao significado de se usar uma camiseta “100% branco”. É como se o “100% Negro” quisesse seguir adiante, superar, e o “100% branco” o puxasse pra trás, levando-o para o lugar onde ele sempre esteve, onde a opressão era 100% branca. Porque branco não era escravo; negro sim. E aí reside o absurdo da afirmação que Ali Kamel fez em seu livro Não somos racistas, e que já vi repetida na grande mídia pelo menos por Demétrio Magnoli e Demóstenes Torres, a de que a escravidão no Brasil era democrática, porque os negros também podiam ter escravos. Ora, se é que pode haver alguma coisa de democrática em regimes escravocratas, deveria ter sido permitido que negros também escravizassem brancos.
Muitos brancos dizem não achar ofensivos o uso de termos como “macaco/a” para se referir a negros, por não pensarem direito ou por não conhecerem o legado histórico da escravidão. Usando a ciência de encomenda como muleta moral à escravização de africanos, os eugenistas e os religiosos chegaram escrever estudos para provar que eles não eram bem humanos, e sim humanóides que, numa escala evolutiva, estavam infinitamente mais próximos do macaco do que do homem ideal, o caucasiano. Chamar um negro de macaco, e isso geralmente é feito com a intenção de ofender, porque sabe-se que ofende, é resgatar o forte legado histórico da eugenia, com todo o peso de gerações e gerações de negros que vêm sofrendo racismo através dos séculos. Brancos que dizem que o chamamento não é ofensivo, e que ligam o sistema de auto-defesa alegando que na escola, por serem muito brancos, eram chamado de alemão azedo em bicho de goiaba, deveriam imaginar a seguinte cena e analisá-la dentro de contextos históricos próprios: torcedores querendo ofender, por exemplo, o jogador Roberto Carlos, jogam bananas dentro de campo, enquanto torcedores querendo ofender o ex-goleiro Tafarel jogam goiabas. Levantando-se a casca da banana, encontraremos tudo lá: captura, sequestro, porão de navio, marca corporal feita a ferro em brasa, separação de parentes, trabalhos forçados, condições sub-humanas de vida, teorias racistas de hierarquização, castigos físicos e psicológicos, estupros, privações, humilhações, pobreza, descaso etc etc etc… Levantando-se a casca da goiaba, podemos até encontrar alguns bichos, mas a grande maioria de nós, pelo menos os criados no interior, comia goiaba com bicho e tudo e nem percebia, porque não havia “legado histórico”, ou “indigestão” referente ao que o bicho da goiaba representa no passado da humanidade. A banana, aqui, entra na categoria dos símbolos, aqueles que, em determinada situação, já são racistas por si só, como as cruzes em chamas da Klan para negros norte-americanos, ou a suástica para os judeus.
Ou seja, o assunto é complexo, e é impossível que se possa ter qualquer opinião decente informando-se apenas pelo que sai na mídia. Principalmente em jornais e revistas que, em editoriais e colunas de colaboradores apadrinhados (e aqui também uso o apadrinhamento já tão bem mostrado por Roberto daMatta, em “A casa e a Rua”) no sentido meio “klannishiniano” da palavra: viver entre os que têm as mesmas ideias, a mesma herança e os mesmos ideais.), se colocam firmemente contra qualquer iniciativa dos Movimentos Negros (e aqui é sempre bom que se diga que também há muitos brancos nesses movimentos). Desconfiem sempre das intenções de quem diz frases como “para encerrar o assunto”, ou “para acabar de vez com a polêmica”, “para colocar um ponto final nesse imbróglio”, porque a conversa ainda nem começou, ou não está sendo televisionada, e a gente ainda tem muito que aprender sobre a resistência dessa doença moral na nossa sociedade. Casos pontuais como esse do livro Caçadas de Pedrinho são interessantes porque permitem que certos processos históricos sejam trazidos à tona dentro de um contexto atual. Nesse caso específico, quero falar um pouco do processo de implantação e desenvolvimento da educação pública no Brasil, e como isso é determinante para a situação que estamos vivendo agora.
Educação pública: de brancos para brancos
Há uma lei de 1835 que proibia os escravos de receberem educação pública. Não que isso tenha feito grande diferença, porque senhores raramente permitiam que seus escravos estudassem, mas é importante saber que existiu a lei, implantada pelo governo brasileiro, e foi prejudicial a boa parte da população brasileira. Educação era então visto como privilégio da elite branca, proibida para os negros (aliás, “negro” era usado como sinônimo de escravos, independente de sua condição), pois poderia provocar neles o desejo de se emancipar ou se rebelar, colocando a sociedade (branca) em perigo. A primeira vez que se pensou em educar negros no Brasil foi durante a discussão em torno da Lei do Ventre Livre, de 1871, com o propósito de integrá-los à sociedade como trabalhadores livres. Marcus Vinícius Fonseca escreve em “A educação dos negros: uma nova face da abolição da escravidão no Brasil“ que, temendo o fim da escravidão, os proprietários rurais achavam indispensável “a criação de um sistema de educação voltado para o trabalho, e dento desse sistema, uma modalidade de educação para as crianças livres de mãe escrava, objetivando que elas se convertessem em seres úteis à ordem social estabelecida mediante a agricultura.”(pág. 83). A lei estabelecia que as crianças nascidas de ventre livre ficariam sob a autoridade dos donos de suas mães até os oito anos de idade, quando então poderiam ser entregues ao Estado, mediante indenização de 600$000, ou mantidos pelo senhores, trabalhando até a idade de 21 anos, quando deveriam, “sempre que possível” – e isso é importante, porque foi uma brecha na lei conseguida pelos agricultores – proporcionar-lhes instrução elementar.
Para atender às crianças que seriam entregues ao Estado, que também ficaria obrigado a dar-lhes instrução e um pecúlio para quando atingissem a maioridade, através de taxas pegas pelos donos de escravos, o Ministério da Agricultura promoveu uma série de encontros e pediu que as províncias fornecessem listas regionais do número de crianças nascidas anualmente, para que fosse calculada a estrutura necessária. Foram firmados contratos com várias agrônomos, para que eles fundassem estabelecimentos que ensinariam essas crianças a trabalharem na terra, e com instituições religiosas que já atendiam órfãos. Paralelamente, também estava sendo estudada uma a proposta de se criar centros de excelência educacional, para o desenvolvimento e implantação de técnicas modernizadoras da agricultura brasileira, mas abertos apenas para os filhos dos agricultores. Tendo como base dados coletados em 1877, em 1878 teríamos 192.000 crianças nascidas livres de mães escravas, desde a promulgação da lei. Desse número, anualmente, 24.000 estariam em condições que serem entregues ao Estado, mas acreditava-se que apenas a sexta parte, 4.000, o seriam. O governo, que já estava bastante preocupado em não conseguir cuidar de todas, surpreendeu-se quando chegou o 1879 e recebeu, em todo o Brasil, apenas 113 crianças. Subestimou-se enormemente a capacidade de os senhores abrirem mão da escravaria, e percebeu-se que manter os filhos das escravas, a quem deveriam dar educação, “sempre que possível” era muito mais lucrativos para eles, que preferiam que suas escravas continuassem engravidando para então abandonarem as crianças nas rodas dos enjeitados, não tendo que pagar taxa de matrículas sobre elas (eram que essas taxas, de matrículas – ou registros – de escravos, que os governo formaria o pecúlio para cuidar dos libertados). Sem o filho, a escrava poderia ser alugada como ama-de-leite, rendendo ao seu dono 600$000 anuais, que era exatamente o que o governo pretendia pagar como indenização pelos ingênuos. Ao fim e ao cabo, criança nenhuma nascida de ventre livre chegou a ver a liberdade, porque ainda não tinham completado 21 anos quando veio a Lei Áurea.
Para quem quiser se aprofundar no assunto da educação dos negros no Brasil, além do livro acima, indico também “População negra e educação: o perfil racial das escolas mineiras no século XIX”.
Uma simples folheada nesses livros já deveria corar quem, contra as cotas, diz que os movimentos negros deveriam é estar lutando pela melhoria do ensino de nível básico. Geralmente, quem fala isso é das classes que, na primeira oportunidade, partem para o ensino privado, abandonando o ensino público à própria sorte e miséria, ms se achando no direito sagrado, “meritório”, dizem eles, de se apropriarem dele, e monopolizarem-no, quando lhes é do interesse, na universidade pública.
Raça, educação e o papel do MEC
As informações abaixo foram todas retiradas do excelente livro Diploma of Whiteness – Race and Social Policy in Brazil, 1917-1945, de Jerry D’Ávila.
Nesse livro dá para acompanhar como, de maneira sutil e às vezes nem tanto, a educação pública brasileira nunca esteve voltada para os interesses de boa parte de seu público – os alunos negros e pobres. Logo no início, ele diz:“Os líderes da educação pública no Brasil na primeira metade do século XX não impediam os alunos negros de frequentarem suas escolas. Ao contrário, entre 1917 e 1945 eles se engajaram numa sucessão de expansões do sistema escolar e projetos de reforma que buscavam colocar a escola pública ao alcance dos brasileiros pobres e dos negros que no início do século estavam basicamente excluídos da escola. Esses educadores buscavam “aperfeiçoar a raça” – criar uma “raça brasileira” saudável, culturalmente europeia, fisicamente em forma e nacionalista. (…) As elites brasileiras da primeira metade do século XX tendiam a acreditar que os pobres e não-brancos eram extremamente degenerados. Ao definir esse estado de degeneração em termos médicos, científicos e sociais, eles reivindicaram para si o poder de regenerá-lo e assumiram o controle da educação pública. Eles tratavam as escolas como clínicas nas quais as doenças associadas à mistura das raças brasileiras poderiam ser curadas. Suas crenças proveram motivos para a construção de escolas e moldaram os modos de como essas escolas deveriam funcionar e as aulas que seriam dadas.” (pág. 3) “O estilo próprio dos pioneiros da educação no Brasil transformou o sistema público emergente em espaços nos quais séculos de supremacia branca europeia foram reescritos nas linguagens da ciência, do mérito e da modernidade. As escolas que eles criaram foram desenhadas para imprimir a visão de uma elite branca de uma nação brasileira ideal em crianças negras e pobres, que era a substância desse ideal.”(pág.5) Ou seja, a elite brasileira já achava que éramos uma raça perdida para os padrões de pureza europeus, e precisávamos encontrar uma maneira só nossa, o nosso jeitinho de criar branquitude, e as escolas públicas foram os laboratórios dessa experiência.
É bom lembrar que quando o sistema de ensino público brasileiro foi desenvolvido, com a criação do Ministério de Saúde e Educação, as ideias eugenistas estavam em moda por aqui, seu controle foi entregue não a pedagogos ou educadores, mas a médicos e cientistas sociais, que foram capazes de criar uma noção de valor social, baseada em raça mas quase sem falar de raça, que criou uma hierarquia racial estável, efetiva e duradoura, porque parecia se basear me valores científicos e mérito. As coisas aconteceram simultaneamente, mas antes de falar sobre o que os alunos eram submetidos em salas de aula, quero falar do treinamento dos professores, extremamente importantes para que a transformação de pobres e negros em brancos fosse realmente efetiva. Apresentada como parte de um processo de profissionalização, a drástica mudança nos quadros de professores do ensino público favoreceu enormemente o branqueamento da profissão.
Antes da reforma, o quadro de professores do ensino público brasileiro era majoritariamente formado por homens negros e mulatos, que tinham sido alfabetizados por instituições religiosas nas quais tinham sido abandonados. Esses professores chegavam a fazer parte de uma classe média ascendente, ocupando inclusive cargos de direção nas escolas e sendo bastante respeitados pelos alunos. Os reformadores decidiram que eles não serviam mais, e resolveram formar uma nova classe de professores levando em consideração classe, raça e gênero, substituindo-os gradativamente por mulheres, brancas da classe média. Para isso foram fundadas escolas como o Instituto de Educação, e somente alunas que ali se formassem, e que na maioria das vezes tinham um “pistolão, poderiam ser contratadas pelo Estado. O livro de Jerry Dávila traz várias fotografias que mostram esse processo, ao longo dos anos. Nas palavras do secretário de Educação Anísio Teixeira, “A escola deve dar ao nosso povo o certificado de saúde, inteligência e caráter, que é indispensável para a vida moderna. Tal tarefa não pode ser confiada a qualquer um, muito menos a um grupo de homens e mulheres que é insuficientemente preparado, ao qual falta visão intelectual e social, e que não faria mais do que bastardar o processo educacional a um nível desmoralizante de ineficiência técnica e indulgência espiritual no qual se encontra em muitos casos” (pág. 102) Ou seja, é claro que não acreditavam que professores negros e mulatos fossem capazes de ensinar branquitude.
A primeira reforma no sistema de formação de professores foi feita pelo eugenista Afrânio Peixoto, que dirigiu o Sistema de Instrução Pública do Rio de Janeiro, que estabeleceu o padrão a ser seguido no restante do Brasil. Nessa e nas reformas posteriores foram colocadas várias barreiras que impediam, sempre de maneira “científica”, a entrada de alunos/as negros nas escolas de formação de professores. Primeiro, foram acrescentados três anos ao currículo, separando-o da educação secundária, afastando os pobres que precisavam começar a trabalhar mais cedo. Foi estabelecida uma bateria de exames de admissão que envolvia critérios acadêmicos, físicos, estéticos e psicológicos. Os alunos do Instituto eram avaliados por seus pares, colocando em situação bem complicadas as negros que conseguiam furar os primeiros bloqueios, pois sobre eles recaia a tão propalada e conhecida degeneração. Não havia vagas para todos que queriam entrar e cumpriam com os critérios estabelecidos,e que às vezes tinham estudados mais de um ano em cursos preparatórios particulares, e pistolões eram necessários, favorecendo a população branca. Para se ter uma ideia, dentre os exames físicos realizados, estavam os de peso e altura, já definidos de antemão segundo padrões encontrados entre a população branca. Tudo isso era analisado e aplicado a uma fórmula, junto com os resultados do Alfa Scale, segundo Jerry Dávila, “um exame psicológico desenvolvido nos Estados Unidos para testar recrutas do exército para a Primeira Guerra Mundial, e que por anos serviu de fonte de estudos para diferenças de habilidades ocupacionais, étnicas, raciais e geográficas nos Estados Unidos.” Ou seja, foi forçadamente formado um time de professoras brancas da classe média que, segundo os reformadores, todos homens, poderiam ser melhor controladas e habilitadas para incutir nos alunos os ideais de branquitude tão almejados pela nação.
Com esse corpo de professores, mais equipes treinadas para o acompanhamento do desenvolvimento dos alunos, esses eram submetidos a diversos testes, entre eles, os de inteligência, também desenvolvidos nos EUA e destinados a separar alunos em classes diferentes, tomando como base suas aptidões. O teste principal, Terman Group Test, foi desenvolvido tendo como crença principal que a capacidade eugênica de algumas crianças eram inerentemente melhores que a de outras. Em linhas gerais, isso significava que certas crianças estavam fadadas a não aprender, mais especificamente as já nascidas degeneradas, eram, sem qualquer outra avaliação, colocadas em salas “mais fracas”, junto com seus pares. O departamento de Ortofrenologia e Higiene Mental, dirigido por Arthur Ramos, avaliava a capacidade de as crianças, principalmente as crianças problema, se adaptarem às sociedades modernas, combinando influências que iam da psicologia freudiana à criminologia e antropologia italianas, Lombroso incluído. Os estudos de Lombroso, que faziam ligação entre características físicas e fenotípicas em criminologia, também eram usados no departamento de Antropometria, coordenado por Bastos D’Avila, que usava as fichas antropométricas dos alunos, na maioria das vezes feitas e mantidas sem o conhecimento dos pais. Estas fichas, além de tentaram provar a inferioridade dos alunos negros, também tinham o intuito de servir de base, através de sistema de medidas chamado de Lapicque Index, para a detecção de características africanas latentes em alunos considerados brancos. Bastos D’Avila chega inclusive a sugerir a compra de alguns cefalômetros para medir o tamanho do cérebro das crianças e confirmar a confiabilidade do Dubois Cephalization Index, que categorizava os estudantes em normais, super-normais ou sub-normais. O mais interessante nesses estudos de D’Avila é que quando ele encontrava resultados que contradiziam suas crenças de hieraquia racial, quando as crianças negras se provavam iguais ou superiores às crianças brancas, D’Avila dava um jeito de manipular os resultados, ou justificar que as melhores crianças brancas, aquelas mais ricas, não frequentavam escolas públicas.
Parece difícil de acreditar, mas essas foram políticas públicas implantadas pelo governo brasileiro, através do Ministério da Educação, e há muitos outros dados assustadores no livro de Jerry D’Avila. Seria bom que os que cuidam das políticas educacionais de hoje em dia o conhecessem, e soubessem o quanto disso tudo ainda pode influenciar suas decisões. As crianças negras sempre foram desrespeitadas nas escolas públicas, por outras crianças, por professores e funcionários, por diretores, por secretários, ministros e presidentes. E continuam a ser, como nesse caso com o livro Caçadas de Pedrinho, comprado e distribuído pelo Ministério para alunos do ensino fundamental e médio, de todas as escolas do Brasil. Nesta próxima terça-feira acontece mais um passo importante dessa história, em audiência de conciliação convocada pelo ministro Luiz Fux, depois que o proponente da ação, Sr. Antônio Gomes da Costa Neto (Técnico em Gestão Educacional da Secretaria do Estado da Educação do Distrito Federal, mestrando da UnB em Educação e Políticas Públicas: Gênero, Raça/Etnia e Juventude, na linha de pesquisa em Educação das Relações Raciais), em conjunto com o Instituto de Advocacia IARA, resolveram apelar para o Supremo Tribunal Federal, numa última tentativa de fazer o Ministério da Educação cumprir a lei. Porque é a lei que o Ministério descumpre ao distribuir livros com passagens racistas, como também viola as leis Diretrizes da Educação, estabelecidas pelo próprio Ministério, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estatuto da Igualdade Racial e, se procurarmos, vamos achar mais. E isso, sem ter conseguido cumprir a Lei 10.639/03, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileiras e africanas nas escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio. Quem quiser entender melhor a história, deixo dois links de textos anteriores:
O livro Caçadas de Pedrinho é um livro paradidático, ou seja, material de apoio. Mas o Ministério da Educação também não conseguiu lidar com o problema do racismo e da falta de representatividade de negros e índios nos materiais didáticos. A situação é grave, como pode ser vista em livros como Racismo em livros didáticos, de Paulo Vinícius Baptista da Silva, Um olhar além das fronteiras, de Nilma Lino Gomes e Racismo e anti-racismo na educação, organizado por Eliane Cavalleiro, entre muitos outros. É de Eliane Cavalleiro também um livro importante para se entender racismo na escola, Do Silêncio do lar ao silêncio escolar.
Com essas leituras dá para perceber que não é apenas a pobreza que prejudica alunos negros dentro do ambiente escolar. O racismo está presente e é fator determinante no rendimento e evasão de alunos negros, como mostram alguns estudos feitos com irmãos e, portanto da mesma classe social e mesmo ambiente cultura. No caso onde há um irmão negro e um irmão branco, esse último tem notas melhores. Ao ter que preocupar com o racismo, ao ter que pensar em se defender de “brincadeiras” e humilhações, na maioria das vezes não sendo apoiado por professores, o aluno negro perde o foco, e acaba acreditando que não vai mesmo pra frente, numa profecia auto-realizável.
É importante acompanhar a luta, para ver se o Ministério da Educação vai ceder a pressões ou se, finalmente, vai começar a tratar com seriedade e ajudar a reverter um processo que ele mesmo instalou, oficialmente, deixando de lado as necessidades específicas das crianças negras, maioria esmagadora nas escolas públicas brasileiras. Vamos acompanhar para ver se o MEC vai se acovardar diante das necessidades de acordos políticos em anos eleitorais e assumir suas responsabilidade na educação de cidadãos conscientes e combativos do racismo. Além de Caçadas de Pedrinho, o MEC também adotou, compra e distribui os seguintes livros, todos permeados de racismo e outros ismos, fazendo-o mesmo depois que essa polêmica veio à tona:
PNBE 2011: Histórias de Tia Nastácia
PNBE 2010 (ensino fundamental): Reinações de Narizinho
PNBE 2009 (ensino médio): Negrinha
PNBE 2009 (ensino fundamental): Memórias de EmíliaO picapau amareloViagem ao Céu

Há uma grande defesa de Monteiro Lobato, tido como patrono da literatura infantil brasileira. Mas é necessário, nesse caso, entender também o homem e suas lutas, e os motivos pelos quais seu racismo tão flagrante, chegando a ponto de desejar uma Ku Klux Klan brasileira, nunca foi tratado nem por seus principais biógrafos, que até hoje negam que ele tenha sido racista. Lobato não era quem fizeram que era, e sua declaração de usar a literatura para fazer eugenia nunca deve ser esquecida. Ele disse que esses processos indiretos, ou seja, de difundir ideias em colocações aqui e ali, para que não dê muito na cara, funciona muito melhor. Ele fez isso com a questão do petróleo, por exemplo, o que o trona um grande nacionalista, aquele que queria defender os interesses do povo brasileiro frente a um governo que queria ceder nossos campos petrolíferos para empresas norte-americanas. Cartas encontradas recentemente provam que, na verdade, ele queria era beneficiar sua própria empresa, fechando ele contratos com uma empresa alemã. Seu correspondente era um engenheiro de petróleo suíço chamado Charles Frankie, e trechos dessas cartas depois foram usados em sua literatura infantil tratando do assunto. Ou seja: Lobato faz o que diz que vai fazer, usar a literatura para propagar seus ideias e defender seus pontos de vista. Essas cartas deram origem à tese “Ao amigo Franckie, do seu Lobato : estudo da correspondência entre Monteiro Lobato e Charles Franckie (1934-37) e sua presença em O Escândalo do Petróleo (1936) e O Poço do Visconde (1937)”, que pode ser baixada daqui, onde você também vai encontrá-las na íntegra, junto com um quadro do que entrou em cada livro. É triste ver a literatura se prestando a esse papel, mas, mais triste ainda ver tanta gente que não consegue percebê-lo.
Uma luta de todos nós – O sr. Antônio Gomes da Costa Neto é branco, assim como muitos outros brasileiros brancos que já compreenderam que são extremamente bem-vindos e necessários aos Movimentos Negros. Que as conquistas dos Movimentos Negros nos fará um país melhor como um todo, pois não atingem apenas parte da população que, diga-se de passagem, hoje já é maioria. O sr. Antônio não faz parte daqueles brasileiros brancos que se referem aos Movimentos Negros com um “eles” – contradizendo a ladainha de que não veem cor alguma – bem distinto e contrários aos próprios interesses, que apresentam como se fossem os interesses da nação e do povo brasileiro (as cotas para negros, por exemplo, são aprovadas por 63% dos brasileiros), defendendo, às vezes até quem notar, a manutenção normatizada e inquestionável de privilégios adquiridos ao longo de séculos de exclusão, marginalização e invisibilidade da população negra. E é para todos nós, que queremos um país livre de racismo, a começar pelos bancos escolares, que deixo um trecho do poema “Tecendo a manhã”, de João Cabral de Melo Neto:
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.