Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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30 de mai de 2010

Primeira revista gay em árabe é lançada clandestinamente

(Deu na Folha de São Paulo, por Izabela Moi). "Mithly" não é uma revista como as outras, mas não porque deve ser lida da direita para a esquerda. Lançada em abril, é a primeira revista gay a circular em árabe num país de maioria muçulmana, o Marrocos. O pioneirismo conseguiu uma divulgação inédita para a causa, mas vem causando polêmica nos jornais locais e o silêncio do governo do rei Mohammed 6º. No país, "atos licenciosos ou contra a natureza cometidos com indivíduos do mesmo sexo" podem ser punidos com prisão de seis meses a três anos, além de eventuais multas. Livros para entender melhor "a jihad do arco-íris" O site da revista (mithly.net), em árabe, já atingiu, desde sua criação, mais de 1 milhão de visitantes únicos, segundo Samir Bergachi, redator-chefe da "Mithly". Mas o fenômeno mesmo é que os 200 exemplares impressos em Madri e distribuídos em Rabat, a capital marroquina, de mão em mão, gratuitamente, na mais rigorosa clandestinidade, viraram notícia na Europa e nos EUA. O impacto do papel e de ser escrito em árabe clássico deu destaque internacional à revista, que deixou de ser uma rede de militância na internet para se tornar um instrumento de ação política inédito no mundo islâmico. Divulgação IGUAL A MIM. Para batizar a revista, foi necessário também sustentar o uso de um termo novo. "Homossexual" não tem equivalente em árabe, a não ser os pejorativos "zamel" (efeminado) ou "chaddh" (perverso). "Mithly" -- em tradução literal, "igual a mim" -- ganhou o que os especialistas chamam de "nova carga semântica", quando um sufixo ("y") amplia o significado de uma palavra já existente ("mithl", igual). A publicação é iniciativa da associação Kif Kif, legalizada em 2005 na Espanha. Mais do que uma rede de contatos entre compatriotas gays de Madri, Paris, Roma e Montréal, os fundadores, todos marroquinos expatriados, pretendiam interferir na vida do país que deixaram para trás. A sede da organização em Rabat tem três mil inscritos, segundo seus líderes. A identidade dos associados permanece escondida; a Kif Kif nem sequer é legalizada no país. "O governo não responde nossas cartas", diz Bergachi, estudante de jornalismo da Universidade Complutense de Madri. "O que temos é o silêncio." Escritórios fora do Marrocos, com 50 a 60 militantes em média, captam pequenas doações que, sozinhas, mantêm o site, a consultoria legal e, mais recentemente, a revista "Mithly". ELTON JOHN. Num projeto gráfico simples e com apenas 20 páginas, a revista não faz provocações nem procura atrair leitores com consumismo, pornografia ou "nus artísticos". Engajado, o primeiro número traz um artigo sobre o Dia Internacioial da Mulher, testemunhos de homossexuais que "saíram do armário", repercute as manifestações públicas contra o show do cantor britânico Elton John no festival Mawazine, em Rabat, e traz um conto do escritor Abdellah Taïa. O marroquino Taïa, 36, vive autoexilado em Paris há dez anos. Por escrever em francês, alcançou boa projeção no circuito literário internacional: publicou três romances por uma das grifes do livro francês, a editora Seuil. Participa de festivais literários internacionais, como o Beiruth 39 (com 39 autores de menos de 39 anos, selecionados pela Unesco), e o mais famoso de todos, o de Hay-on-Wye, no Reino Unido (que começou no dia 27). Os romances de Taïa são todos autobiográficos, ficção misturada às memórias de sua vida na pequena cidade de Salem. Até mesmo no Marrocos, onde a Unesco registra 50% de analfabetismo, os livros de Taïa vendem bem: segundo ele, "Le Rouge du Tarbouche" ["O vermelho do turbante"] vendeu 15 mil exemplares. Como ele diz, é "muito, muitíssimo". Dificilmente os escritores brasileiros com sua idade e projeção atingem esse resultado. O TEMPO DA VERGONHA. Taïa é um ícone gay no Marrocos desde que, em 2007, foi capa da revista semanal de informação "Tel Quel", editada em francês. Com tiragem de 20 mil exemplares -- apenas 100 vezes a da "Mithly" --, é a mais progressista do país e acaba de ganhar uma irmã em árabe. Além de expor-se numa entrevista, Taïa publicou o texto "A homossexualidade explicada à minha mãe". E por quê? "Porque nós, homossexuais, estamos emprestando a voz a uma sociedade que está presa no silêncio de uma ditadura." A situação é parecida nos outros países da África do Norte. Na Argélia, "todos os culpados de atos homossexuais são punidos com dois meses a dois anos de prisão" (artigo 338 do Código Penal), além de multa. Na Tunísia, o artigo 230 do Código Penal prevê prisão de até três anos por "sodomia consentida entre adultos". Como em inúmeros outros exemplos ao redor do mundo, os gays marroquinos são os primeiros a reagir à repressão moral -- que eles também foram os primeiros a sofrer. EFEBOS E CORTESÃS. Embora escorada na tradição, a atual cultura repressiva nos países muçulmanos é um dado cultural relativamente novo, associado à recente islamização política. Abdellah Taïa cita o poeta árabe Abu Nuwas (756-814), que escrevia cânticos de amor aos rapazes. "É um clássico, e ainda é estudado nas escolas públicas", diz ele. "Todos sabem que era homossexual." O mesmo acontece com Al-Jahiz (781-869), que escreveu um livro sobre "efebos e cortesãs", "um diálogo entre homens que amam mulheres e homens que amam homens". Nas "Mil e Uma Noites" (os manuscritos datam dos séculos 9º ao 18), não faltam histórias que narram, metaforicamente, relações de amor sensual entre pessoas do mesmo sexo. Não se trata de querer ver uma linhagem gay na tradição literária árabe. Segundo Mamede Mustafa Jarouche, 47, que assina a mais recente tradução brasileira do "Livro das Mil e Uma Noites" (Editora Globo) e dá aulas de árabe na USP, "nos tratados eróticos clássicos, e em boa parte da narrativa literária, não há exatamente uma visão essencialista sobre a escolha do parceiro". Jarouche, que morou no Cairo, conta que, em 2000, uma editora do governo egípcio teve a gráfica invadida por fundamentalistas que rasgaram livros de Abu Nuwas, que viveu, vale repetir, no século 8. E em 2001, na feira do livro do Cairo, houve uma tentativa de censurar a tradução árabe de "A sexualidade no Islã" (1975), do tunisiano Abdelwahab Bouhdiba, publicado no Brasil pela editora Globo. SE PECOU, NÃO DIVULGUE. Para a comunidade islâmica do Brasil, a tentativa de moralizar a literatura é uma volta aos "critérios claros" da religião. Um de seus líderes, o xeque Jihad Hassan Hammadeh, 44, diz que não há margem para dúvida na interpretação da lei corânica. "Homossexualidade é proibida, é pecado." Nascido na Síria e vivendo em São Paulo desde 1991, o xeque não comenta os casos que ocorrem na comunidade islâmica que dirige. Mas não deixa de ser um tanto brasileira a solução que propõe: para ele, a religião dá ao crente a possibilidade de não divulgar seu pecado, para que haja espaço para voltar atrás. Assim, o acerto de contas acontecerá entre o fiel e Deus. "Se pecou, não divulgue." COLONIALISMO MILITANTE. Os marroquinos da "Mithly" estão divulgando, e além da repressão do Estado, recebem objeções intelectuais: publicar uma revista gay poderia ser um programa elitista e ocidental. Paulo Hilu Pinto, 42, antropólogo da Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista na Síria contemporânea, enxerga o risco de "colonialismo militante" que pode haver na iniciativa. "O movimento gay organizado é libertador para quem?", questiona. "Um morador da periferia, que faz sexo com parceiros do mesmo sexo, pode nunca ter se enxergado assim." Hilu Pinto acredita que, com a moral religiosa, o gay pobre acaba se vendo como pecador. Os editores da "Mithly", de fato, pertencem a uma elite intelectual que mora e estuda na Europa. Os escassos 200 exemplares que circularam na capital marroquina não deixam de ser um sinal de elitismo, embora a íntegra da revista esteja disponível (e de graça) na internet clique aqui para ler. Mas não importa a tiragem: a mera existência da revista já é um respiro no abafado ambiente cultural do Marrocos. INTEGRAR. O sociólogo marroquino Mohammed Mezziane, 47, afirma que a "Mithly" não propõe uma ruptura com o Estado ou com a religião. Pelo contrário, seu objetivo é integrar o discurso homossexual na vida do país. Cautelosos, os editores da revista ainda não reivindicam os temas da pauta ocidental, como o casamento gay ou as pensões e planos de saúde para parceiros do mesmo sexo. O número 2 da "Mithly" sairá nesta terça, 1º/6, apenas na internet, com reportagem sobre o alto índice de suicídio entre os homossexuais. O terceiro número está prometido para o papel: julho é o mês do orgulho gay, e também é o aniversário de cinco anos da associação Kif Kif. Os editores preparam uma reportagem sobre o lesbianismo no mundo árabe, história ainda mais escondida. Samir Bergachi, o redator-chefe, diz que quando os tradicionalistas querem mostrar os riscos da descriminalização da homossexualidade no Marrocos, exibem imagens do Carnaval carioca. A associação Kif Kif, segundo Bergachi, foi convidada para participar do congresso internacional de direitos LGBT, em 2011, no Rio de Janeiro. "Finalmente vou conhecer o Rio", comemora". Intervenção sobre gravura de Fernando Schultz Wettel ("Las Mily y Una Noches1914).

25 de mai de 2010

Homenagem à Maria Tereza Moreira de Jesus

Eleita Primeira Ministra em Trinidad e Tobago

(Deu no UOL). "A coalizão de partidos da oposição liderada por Kamla Persad-Bissessar venceu as eleições parlamentares em Trinidad e Tobago, segundo os primeiros resultados oficiais. O Congresso Nacional Unido (UNC, na sigla em inglês) lidera nos 41 distritos eleitorais, o que garantiria Persad-Bissessar como a primeira mulher a chegar ao cargo de Primeira-Ministra em Trinidad e Tobago. O primeiro-ministro, Patrick Manning, do Movimento Nacional do Povo (PNM, sigla em inglês), foi eleito para o Parlamento, e agora deve liderar seu partido na oposição após provocar a convocação de eleições com dois anos de antecipação para evitar uma moção de censura".

A árvore maravilhosa, de John Kilaka

(Texto de divulgação). "Por muito tempo, pequenos e grandes animais viveram unidos e felizes. Mas faltou a chuva e a terra ­ficou tão seca que eles não tinham mais o que comer. Foi quando encontraram uma árvore enorme, que, mesmo sem chuvas, estava carregada de frutas maravilhosas. Todas elas pareciam estar bem suculentas e exalavam um perfume delicioso, porém não caíam no chão de jeito nenhum. Nem mesmo os animais grandes conseguiam colhê-las. Todos chacoalhavam e sacudiam a grande árvore com muita força, mas não havia meio de cair uma frutinha sequer. Cada dia mais famintos os animais se reuniram para tentar chegar a uma solução. Por sorte, a pequena coelha teve uma boa ideia. Uma história tradicional africana recontada e ilustrada com cores vibrantes - no estilo tingatinga - pelo artista John Kilaka, da Tanzânia".

24 de mai de 2010

Memória da escrita

(Por: Miguel Sanches Neto). "Ai, que vontade de morrer!, ela disse quando descobriu o equívoco. Mas tudo que conseguiu foi chorar, lavando os restos da noite que ainda se grudavam em seus olhos. Sentou-se na mesma cadeira em frente à escrivaninha e ficou olhando para o escritório. Era ali que ela se colocava depois de cada texto que o marido escrevia na Olivetti portátil. Ele a chamava, fosse a hora que fosse, e lia aquela página tirada das escuridões que ninguém nunca devassava. Tão silencioso na vida cotidiana, era um atormentado que vertia suas lavas pela cratera da máquina de escrever. Ele lia lenta e amorosamente, corrigindo com uma caneta de tinta verde os problemas que encontrava no conto. Mas quem usa canetas desta cor? Ela se perguntava, olhando o marido com aqueles olhos azuis fixados na folha, num esforço para não errar a correção. Ele lia, ela ouvia. Não entendia nada de literatura, e sempre terminava com a frase de aprovação: ficou muito bom! Se não dissesse exatamente assim, algo se quebrava entre os dois. Ele com certeza sabia que esta aprovação entusiasmada era para o marido e não para o texto, mas se habituara aos elogios, um artista sempre precisa de alguém que acredite incondicionalmente no que ele faz. Terminada a leitura, muitas vezes o dia estava amanhecendo e ele nem fora dormir, ela seguia para a cozinha, preparava um café e logo ele chegava para o ritual. Bebiam em silêncio, e se olhavam como na época do namoro, e então ela amava mais do que tudo aquele homem que não cabia na vida doméstica, mas que não se revoltava. Havia a casa, os barulhos na cozinha, as vozes na televisão, o telefone que tocava pouco, o rádio ouvido baixinho pela diarista, os carros passando na rua, sons que eram suspensos depois das 22 horas, quando começava o marulho das letras mecânicas. O trabalho martelado da máquina embalava sempre o sono dela. Ele batia rapidamente, num fluxo seguro, até terminar a folha, e ela então ouvia o barulho do papel sendo trocado, adorava o ruído das microengrenagens se movendo, e de novo as teclas, e ela pensava nos dedos másculos do marido fazendo aquele trabalho que exigia tanta delicadeza. Imaginava os dedos dele como bailarinos num palco, movendo-se elegantemente. Dormia com o som da máquina e com as imagens que isso suscitava, sabendo que, na manhã seguinte, ou no meio da madrugada, ele a acordaria com um beijo, o rosto alegre de menino, e aqueles olhos azuis, meu Deus, que iluminavam tudo. E os dois seguiriam para o escritório improvisado no quarto que deveria ser de visitas, e ele começaria a leitura e aquele mundo por onde ele vagara a noite toda também seria povoado pela esposa. Venha comigo, ele dizia. Mas o convite não era apenas para ir ao escritório, e sim àquelas regiões da ficção que só ele conhecia. Depois de terminado um conto, ele ficava semanas revisando, a caneta de tinta verde criando uma mata de correções, de cortes e acréscimos. Quando estava quase ilegível, ele mandava para uma datilógrafa profissional, uma senhora que trabalhara em vários escritórios e passava a limpo a produção de escritores e professores. Retornando a cópia saneada, ele a guardava sem ler. Deixa descansar um pouco, ele dizia. Ou: vamos deixar o texto respirar. Logo no começo do casamento ela perguntou por que mandava para uma datilógrafa se era tão hábil com a máquina de escrever. Para o conto passar por outra pessoa, para ele começar a deixar de ser meu, ele disse. E como ela ficasse em silêncio, ele ainda explicou: um texto tem que ir aos poucos nos abandonando. Foi desta frase que se lembrou quando ele morreu, após tantas idas ao hospital, época em que a máquina ficou parada, em que o escritório acertou o seu fuso-horário com o resto da casa. Agora era o autor do texto que abandonava o mundo, e de uma vez. Poderia suportar tudo, menos o silêncio das noites sobreviventes, que estavam sendo infindáveis. Tentara dormir com o rádio ligado, mas não era a mesma coisa. Colocara uma tevê no quarto. Também não funcionou para embalar seu sono. Passaram-se os anos, tantas coisas mudaram. Ela arranjou alguns namorados, mas não aceitava que eles entrassem no apartamento. Ali, ainda vivia o casal interrompido pela morte prematura de um deles. Nunca se ligou a ninguém, mas continuava buscando homens, ou seriam apenas personagens? Buscar era uma maneira de esperar. E ela continuava esperando o marido. Os seus cabelos branquearam, as máquinas de escrever desapareceram do mercado, ela só via propaganda de computadores, e as lojas de informática tomaram conta da cidade. Como o seu marido escreveria agora? Melhor não pensar nisso. À noite, tomava o seu Valium 10. Mesmo assim acordava antes do nascer do sol e com uma boca amarga de ressaca. Mas esta madrugada, ela reconheceu os sons da velha Olivetti. Não podia ser. E ela queria que fosse. Levantou-se rapidamente e saiu em busca do marido há tanto tempo morto. Assim que ele terminasse o conto, sentaria na mesma poltrona e ouviria a leitura. E aprovaria tudo com aquela frase que nunca mais usara. Ao chegar no quarto ainda escuro, o som era mais intenso. Acendeu a luz e viu tudo tão vazio. Do lado de fora, uma chuva de pequenos granizos dedilhava sonoramente a vidraça do escritório, compondo um texto de água".

23 de mai de 2010

Novos rumos

(composição de Rochinha e Horlando Porto). Vou imprimir novos rumos/ Ao barco agitado que foi minha vida/ Fiz minhas velas ao mar/ Disse adeus sem chorar/ E estou de partida/ Todos os anos vividos/ São portos perdidos que eu deixo pra trás/ Quero viver diferente/ Que a sorte da gente/ É a gente que faz/ Quando a vida nos cansa/ E se perde a esperança/ O melhor é partir/ Ir procurar outros mares/ Onde outros olhares nos façam sorrir/ Levo no meu coração/ Esta triste lição que contigo aprendi/ Tu me ensinaste em verdade/ Que a felicidade está longe de ti

22 de mai de 2010

A natureza do olhar, pela Companhia da Outra, no Rio de Janeiro

(Por: Lionel Fischer). "Certamente um dos maiores poetas de língua portuguesa, Fernando Pessoa (1888-1935) deixou uma obra vasta e diversificada, e também marcada por uma curiosidade: grande parte dela é assinada por heterônimos criados pelo autor. Estes poetas "imaginários" possuíam nome, data de nascimento, data de morte, profissão e, curiosidade maior, um estilo literário e personalidades distintas das de seu criador. No presente caso, tudo gira em torno do encontro entre Álvaro de Campos e Alberto Caeiro. O primeiro, contrariando a natureza de seus versos, surge em cena como um homem angustiado ainda à procura de sua personalidade poética; o segundo, desconcertantemente simples, tenta aplacar as angústias de seu discípulo. Eis, em resumo, o enredo de "A natureza do olhar", em cartaz no Teatro Sesi, após cumprir temporada em São Paulo. Elisa Lucinda e Geovana Pires assinam a adaptação, e encarnam Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, respectivamente, com o espetáculo contando com supervisão de Amir Haddad. Trata-se, sem a menor dúvida, de uma proposta bastante original, posto que foge por completo da estrutura de um recital, já que os vários fragmentos poéticos são incorporados aos diálogos. Além disso, cabe ressaltar que o espetáculo nos faculta o acesso não apenas a algumas poesias do genial autor, mas também - e sobretudo - à sua personalidade, obviamente "repartida" entre esses dois heterônimos. Delicada e poética, contendo passagens bem humoradas e outras mais amargas, a presente montagem certamente poderá ser usufruída, com o mesmo prazer e encantamento, tanto por aqueles já familiarizados com a obra de Pessoa quanto por outros que a desconhecem. E isto também se deve à ótima peformance das duas atrizes, impecáveis na pele dos "personagens" que interpretam - Elisa Lucinda dá vida a Álvaro de Campos e Geovana Pires a Alberto Caeiro. Na equipe técnica, Colmar Diniz e Francisco Leocádio assinam uma cenografia encantadora e funcional, sendo igualmente irretocáveis a sensível iluminação de Djalma Amaral, os irrepreensíveis figurinos de Colmar Diniz e Maria Duarte, a música original de Carlos Malta e os adereços de Elysio Filho". A NATUREZA DO OLHAR – Adaptação e interpretação de Elisa Lucinda e Geovana Pires. Supervisão de Amir Haddad. Teatro Sesi. Sexta a domingo, 19h30.

20 de mai de 2010

Obá e o tapete de rosas

("Passagem da tradição nagô de Alagoas, narrada pelo Ogã Cacau. Segundo ele, esta história se passou antes do episódio em que as artimanhas de Oxum fazem Obá perder a orelha, mostrando assim que 'não foi Oxum quem começou tudo'". Do livro "Oxum", de Luis Filipe de Lima, Pallas Editora). "Oxum e Obá, ambas esposas de Xangô, tinham rixa antiga, com ciúmes uma da outra. Mas conviviam bem, dentro do possível. Até que um dia Obá resolveu convidar Oxum para uma festa, em seu palácio. Oxum, que era a convidada de honra, vestiu um belo vestido, enfeitou-se com jóias, perfumou-se e foi com sua comitiva até o palácio de Obá. Quando lá chegou, viu que havia um lindo e comprido tapete de pétalas de rosas, já no salão principal, extendido em sua honra. Então Oxum pisou no tapete - descalça, como os orixás sempre andam - e teve uma desagradável surpresa: Obá pusera brasas escondidas debaixo das pétalas de rosas. Os pés de Oxum começaram a arder, mas ela, altiva, não quis demonstrar nenhum sinal de dor. Foi andando por todo o tapete sem reclamar, sorrindo majestosa para todos. Oxum nada falou com Obá. Ficou à espera de um dia em que pudesse responder à altura. Os pés de Oxum ficaram queimados - e é por isso que ela até hoje pisa macio".

13 de mai de 2010

Por 11 x 4 Fabiana é escolhida como nova capitã da seleção feminina de volei

(Deu no UOL). "No último ciclo olímpico, Fofão foi a capitã da seleção brasileira feminina de vôlei. Com a aposentadoria da levantadora no combinado nacional, o técnico José Roberto Guimarães escolheu outra jogadora da posição, Dani Lins, para ficar com a braçadeira no ano passado. Mas em 2010, será diferente. A escolha da nova capitã do time não ficou a cargo da comissão técnica, mas sim das próprias jogadoras. Em uma eleição secreta da qual participaram as 15 atletas que estão treinando em Saquarema (Paula Pequeno ainda não se apresentou porque estava disputando as finais do Campeonato Russo), a central Fabiana foi escolhida para ficar com o papel oficial de líder da equipe. Na votação, a meio de rede, que trocou a Unilever pelo Vôlei Futuro, recebeu 11 votos, contra quatro da oposta Sheilla, que deixou São Caetano e foi para a Unilever. Nenhuma outra jogadora foi votada. Vale lembrar que Fabi e Camila Brait não eram ‘candidatas’, já que líberos não podem ser capitãs. “A partir de agora, todo ano será de eleição na seleção brasileira”, explicou Zé Roberto, que foi quem idealizou o novo método. “O voto é secreto, para evitar qualquer tipo de situação. Adotamos este sistema este ano e deu certo. É muito importante ouvir a opinião de todas, o grupo decide”. A seleção brasileira feminina de vôlei está se preparando para a disputa do Grand Prix, que começa no próximo mês de agosto. Nesta temporada, o grande objetivo do time é conquistar o inédito título do Campeonato Mundial, que será disputado entre outubro e novembro no Japão".

8 de mai de 2010

III edição do Bahia Afro Film, em Salvador

Para sempre, Elisete

(Deu no PublishNews). "No dia 7 de maio de 1990, o Brasil perdeu uma de suas maiores intérpretes, aos 69 anos, vítima de câncer. Elisete Cardoso, A Divina, foi uma das cantoras brasileiras mais importantes da história da MPB. Pioneira da bossa nova, foi a primeira cantora popular a interpretar Villa-Lobos no Teatro Municipal e também foi responsável pela consagração de esquecidos sambistas. O livro do jornalista e compositor, Sérgio Cabral, Elisete Cardoso, uma vida (Lazuli, 416 pp., R$ 42), narra a trajetória de vida dessa carioca que se consagrou como uma das grandes intérpretes do gênero samba-canção. Para escrever a obra, Cabral precisou de 15 meses de muita pesquisa. "Apesar da emoção, acho que consegui percorrer a história de um ser humano frágil em alguns aspectos, fortíssimo em outros, mas, sobretudo, real", diz."

Biografia de José do Patrocínio será lançada no Rio de Janeiro

7 de mai de 2010

A alma das ruas do Rio traduzida para o inglês

(Deu em O Globo, por Miguel Conde). "Ao mesmo tempo observador e símbolo da chamada belle époque carioca, João do Rio começa seu livro mais conhecido confessando um “sentimento de natureza toda íntima” que pode também ser tomado como uma concisa declaração de princípios: “Eu amo a rua”. A frase de abertura do clássico A alma encantadora das ruas, reunião de ensaios e crônicas originalmente publicada em 1908, define de imediato a vocação cosmopolita do escritor, que esquadrinhou o Rio de Janeiro de princípios do século XX com doses iguais de talento literário e disposição para bater perna. A principal obra do maior dândi das letras brasileiras é agora vertida pela primeira vez para o inglês, numa edição bilíngue com tradução de Mark Carlyon e ilustrações do artista plástico Waltercio Caldas. A alma encantadora das ruas / The enchanting soul of the streets (Instituto Light/Instituto Cidade Viva) será lançado hoje às 17h30 na ABL (Avenida Presidente Wilson 203 – Castelo. Rio de Janeiro/RJ ABL), marcando os cem anos da eleição de João do Rio para a instituição. O lançamento é o primeiro da série River of January, dedicada a edições bilíngues e ilustradas de clássicos cariocas e que terá sequência com Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, e Casa velha, de Machado de Assis".

Mia Couto defende equiparação entre línguas de Moçambique e português

(Deu no PublishNews). "O escritor moçambicano Mia Couto defendeu hoje a equiparação das línguas moçambicanas com o português, por eventual risco de os idiomas de Moçambique desaparecerem devido à suposta redução de falantes. "Há línguas moçambicanas que correm o risco de desaparecer. Há escolas que continuam a proibir os estudantes de se exprimirem nas suas próprias línguas dentro do recinto escolar", disse Mia Couto, durante um encontro, em Maputo, sobre o Dia da Língua e Cultura da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O escritor moçambicano considera que a "valorização da língua portuguesa não pode ser construída às expensas do rico património linguístico de Moçambique", daí que "o desafio é criar diversidade, sem hegemonia". "Mas não creio que nos aproximemos dessa meta", frisou. Contrariado com a introdução do novo acordo ortográfico do português, Mia Couto considera que a ideia da mudança da grafia resulta de "soluções folclóricas" e exortou a "uma certa vigilância". Moçambique ainda não ratificou o novo acordo ortográfico".

5 de mai de 2010

Alento

(Alento / Paulo César Pinheiro).“A vida da gente é mistério/ A estrada do tempo é segredo/ O sonho perdido é espelho/ O alento de tudo é canção/ O fio do enredo é mentira/ A história do mundo é brinquedo/ O verso do samba é conselho/ E tudo o que eu disse é ilusão”

3 de mai de 2010

Exposição em Buenos Aires revela a "história negra" do tango

(Deu no UOL, por Elena Arsuaga). Buenos Aires - O tango, de raízes suburbanas, tem também uma "história negra" que se relaciona com os ritmos afroargentinos, um "segredo" que foi resgatado pelo antropólogo Norberto Pablo Círio. "Apesar de sempre existir esse rumor sobre a presença negra no tango, esse assunto nunca foi bem estudado e compreendido", explica à Agência Efe Círio, promotor da exposição "Historia Negra Del Tango", que acaba de ser inaugurada em Buenos Aires. O antropólogo decidiu entrar em contato com a comunidade argentina de ascendência africana para saldar essa "dívida histórica e social com um dos grupos fundadores do país". Sob o lema que "tudo tem sua história negra, mas desta vez estamos orgulhosos", o antropólogo organizou uma mostra composta por mais de uma centena de peças que pretendem provar este pioneiro enfoque sobre uma realidade que havia sido vagamente tratada na academia e sempre a partir de uma perspectiva branca, lembra Círio. Partituras, discos e fotografias originais de época e em sua maior parte inéditas cedidas para a ocasião formam o percurso feito nas últimas décadas do século 19 e analisa o candombe, "a música e o baile distintivos e emblemáticos desta comunidade", e a música de carnaval, que para Círio desenham o contexto no qual nasceu o tango. A exposição aprofunda na presença de afroargentinos nos diferentes períodos do tango como gênero, a partir da figura de Rosendo Mendizabal, "um marco indiscutível" nas origens do tango, opina o especialista. A maior "joia" da mostra, instalada no museu Casa Carlos Gardel, é uma partitura original de 1897 de "El Entrerriano", uma das mais importantes composições de Mendizabal, cuja publicação marcou para Círio a origem da "Guardia Vieja" como período estilístico do tango. A exposição destaca também as figuras do compositor e músico Ruperto Leopoldo Thompson, quem introduziu o chamado estilo "canyengue", e do pianista e compositor Horacio Salgán, cujo tango "A fuego brando" foi "o germe de todo o movimento estético de Astor Piazzolla e sua escola", assegura o antropólogo. Outro dos compositores destacados na mostra é Enrique Maciel, cuja valsa "La pulpera de Santa Lúcia", de 1929, é de acordo com Círio "o hino, a obra emblemática das valsas crioulas". "Desde a origem do tango até o presente sempre houve músicos, compositores e dançarinos negros", explica à Efe Horacio Torres, diretor do museu, quem lembra que dois dos seis guitarristas de Gardel eram afroargentinos. Completam a mostra partituras e discos de compositores brancos como Sebastián Piana e músicos como Alberto Castillo, que tratam a partir de diferentes perspectivas a temática da negritude. Círio considera que o inovador desta proposta é que "nunca antes a comunidade afroargentina tinha sido consultada e estudada, não havia sido dada uma oportunidade, espaço para uma palavra, voz e o voto a esta parte da história". Para ele, "no melhor dos casos que escreveram a favor desta teoria sempre o fizeram com base unicamente em documentos escritos por brancos, o que tornava a abordagem parcial. "Esta questão foi mal estudada por falta de provas, mas fundamentalmente pela curta visão europeísta, resultante de como pensam os argentinos como nação", em cuja construção da identidade "se enfatizou um projeto branco europeu e cobriu-se com um manto de esquecimento as outras tradições culturais anteriores, como a negra e a aborígine", conclui. Exposição "Historia Negra Del Tango" traz fotografias originais de época, como a do show de 2009 em Buenos Aires realizado pelo grupo argentino de candombe Bakongo. Foto feita em Buenos Aires (1920) de um compadrito, figura típica dos cabarés portenhos. Desenho de casal de negros dançando tango. Publicado no periódico "La Ilustración Argentina", de Buenos Aires, em 1882. -------------------------------------------------------------------------------- "LA HISTORIA NEGRA DEL TANGO" Onde: Museu Casa Carlos Gardel (Jean Jaurés, 735, Abasto, Buenos Aires, Argentina). Quando: de 23/4 a 21/5. Segundas, quartas, quintas e sextas das 11h às 18h; sábados, domingos e feriados das 10h às 19h. Quanto: $1 peso argentino. Grátis às quartas-feiras. Mais informações: www.museocasacarlosgardel.buenosaires.gob.ar