Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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31 de mar de 2017

White privilege and corpos que importam: como falar de coisas invisíveis?


*Texto crítico publicado na revista Barril http://www.revistabarril.com/edicao10
   Por Val Souza

Como diria um amigo meu, quero iniciar este texto dizendo que vou cruzar tanta informação aqui que vai precisar de uma auditoria externa pra vocês acharem a porra toda que eu juntei pra dizer o seguinte:

Como falar de coisas invisíveis: as performances de corpos de negros em cena, em ação?

No dia 14 de março de 2017, participei, como ouvinte, da mesa conversa - Performance e Pensamento Contemporâneo, que compunha a “VII Mostra de Performance: arte negra, imagem, empoderamento e dissonâncias”. Um evento que envolveu mais de 30 artistas entre exposição de fotos, vídeos e apresentação de performances na Galeria Cañizares; ao meu ver, uma importante iniciativa, pois não compunha o que chamamos de calendário festivo (maio - abolição da escravatura e novembro - consciência negra), fruto do sublinhamento de corpos de negros na universidade e de suas inúmeras maneiras de fazer e dizer em forma de arte.

Na mesa estavam Ayrson Heráclito (UFRB), com a temática - Imagem Negra e Performance e Lucio Agra (UFRB) – O que é Fazer Performance no Brasil, ambos estavam ali para debater sobre o estudo da performance a partir do tema sugerido: arte negra, imagem, empoderamento e dissonâncias (isso é importante não percam essa informação!).

            O professor Ayrson iniciou salientando o quanto ele estava feliz pelo evento e por ter sido convidado para compor a Bienal de Veneza, mas com um tom bem didático expôs que, na mesma proporção de sua alegria, também estava em alerta, pois todos ali presentes sabiam que não é todo dia que um artista baiano, que um artista brasileiro, que um artista negro e/ou que um artista nordestino era convidado para a Bienal de Veneza. Essa fala inicial é uma aula e por aí poderíamos continuar utilizando os corpos de negros como categorias de análise para obras estéticas e eu terminaria tranquila e feliz esta coluna. Mas, não! Esta aqui é a Treta e nada será como antes.

O evento continuou com a fala do Prof. Lúcio Agra, que iniciou  se autonomeando contra o governo em exercício e bradando um: FORA … (aquele que não deve ser nomeado). Durante sua explanação de especialista que é, ele propôs um recorte regional e de raça (falar de performances e grupos do Sudeste e fora do Brasil prioritariamente e de corpos brancos). Ao final e também por querer entender que raios ele foi fazer ali, perguntei a ele: como as performances dos corpos de negros podem contribuir para o pensamento em artes?

A resposta foi que ele não poderia contribuir com a minha pergunta, pois ele não é negro, mesmo tendo escolhido viver na "Roma Negra". Ora, meu caro, caso não tenham te avisado, a mesa da qual você estava participando compunha a “VII Mostra de Performance: arte negra, imagem, empoderamento e dissonâncias”. Seria no mínimo educado que você estudasse um pouco para responder essa questão que me espanta não ter sido o abre-alas de sua fala. É questão prévia de quando se vai a um evento, estudar como se  pode contribuir, etc. Pelo menos deveria ser, né? Mas não, a branquitude, como lugar social do privilégio, não tem medo de escancarar sua inflexão. E eu volto a perguntar: como falar de coisas invisíveis, performances de corpos de negros, como convocatórias? As performances de corpos de negros como convocatórias podem colaborar com o pensamento em artes? Michelle Mattiuzzi, Rosana Paulino e Rubiane Maia foram algumas das indicadas para o Prêmio Pipa 2017. O que elas têm em comum? Corpos de Negras!

Corpos de Negras !
Corpos de Negras!
Corpos de Negras!

C
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A
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A fala do Prof. Lúcio me lembrou que nos mês anterior, entre os dias 13 e 17 de fevereiro, aconteceu na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, o “I Fórum Negro das Artes Cênicas”, e já na mesa de abertura os alunos chegaram botando ferro quente pra cima da passabilidade branca que impera na academia. Na mesa 01 - culturas negras, ensino, pesquisa e formação em artes cênicas - um convite à reflexão, o professor Luiz Marfuz questionava como criar um currículo que dê conta das questões da negritude? “Era a brecha que o sistema queria…”. Rapidamente um aluno pega o microfone e diz: “que pergunta mais ingênua, heim, professor? (viiiiiiiixe! iiiiiiiiié). Afinal, se estamos aqui nesse evento escancarando a falência da academia em lidar com nossa presença, nossos corpos, nossas estéticas, é porque tudo que vem sendo criado e pensado por vocês sem nossa presença mostra o quanto nossos corpos são invisíveis e, para vocês, não existem.

E a pergunta “como falar de coisas invisíveis: as performances dos corpos de negros e o pensamento em artes?” não quer calar, bem. Se o professor Marfuz tivesse acompanhado os outros dias do fórum teria visto quando na mesa “Negras Poéticas em Processos II: Cultura Negra -  Poéticas e Processos Criativos em Artes Cênicas”, uma pergunta dirigida a escritora mineira Cidinha da Silva, poderia ser um pilar para o pensamento e/ou construção de um currículo ampliado. Uma voz levanta a mão e diz:  “Cidinha, você poderia responder o que é que não pode faltar na sua dramaturgia?”. Achei aquela pergunta incrível, haja vista que dois dias antes nós estávamos num debate de como as experiências estéticas dos corpos negros podem modificar e deslocar os discursos cênicos.

Calmamente, Cidinha explicou que existiam três coisas fundamentais para ela e que não podiam faltar na escrita de sua dramaturgia: dignidade para as personagens negras, complexidade humana e singeleza no olhar!
POOOOOOW!POOOWWW! POWWW!



        È isso!!!

O que a academia e os professores ainda não entenderam ou fazem questão de desentender é que o currículo e a maneira como as escolas de dança, teatro, artes cênicas e belas artes foram e continuam sendo pensados para atender a um público branco com currículo branco que bebe de fontes e referências eurocêntricas. Essa impossibilidade tanto do professor Lucio quanto do Professor Maffuz de enxergar nossos corpos pretos, de negros e que de longe se vêem, denota a impossibilidade - paradoxal - do sujeito negro como humano.

Ao entrarem nas universidades, o que esses nossos corpos de negros estão fazendo é subverter todas essas lógicas, é colocar em xeque toda uma estrutura e questionar um lugar de produção e comunicação da arte, de um modo de fazer que invisibiliza seus corpos. São militantes sim, esses negros, mas da criação, da investigação, dos incômodos cinestésicos[1] criados a partir da experiência de seus corpos de negros negados.





[1] O conceito: incômodos cinestésicos faz parte da pesquisa: Como falar de coisas Invisíveis? Dramaturgias de vida como convocatórias para as cenas de performances de mulheres negras, da autora e pesquisadora Valdimere Pereira de Souza ou apenas Val Souza, mestranda do Programa de Pós-graduação da Universidade Federal da Bahia UFBA, ligada ao grupo de pesquisa Copornectivos sob a orientação de Carmen Patternostro Schaffner .

28 de mar de 2017

Olhos de Azeviche, coletânea de autoras negras será lançado em Salvador na noite de hoje


OLHAR AZEVICHE: Livro que reúne textos de 10 autoras negras é lançado em Salvador nesta terça (28)

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Nesta terça-feira (28), às 19 horas, na livraria LDM do Espaço Itaú de Cinemas Glauber Rocha, ocorre o lançamento do livro “Olhos de azeviche: dez escritoras que estão renovando a literatura brasileira”.
O evento contará com uma roda de conversa com as escritoras Cristiane Sobral e Fátima Trinchão, sobre os contos que compõem a coletânea, seguida de sessão de autógrafos.  O Espaço Itaú de Cinemas Glauber Rocha fica localizado na Praça Casto Alves, s/n. O livro custa R$40.
cidinha da Silva
A escritora Cidinha da Silva faz parte da coletânea
A obra reúne vinte contos e crônicas das escritoras Ana Paula Lisboa, Cidinha da Silva, Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Esmeralda Ribeiro, Fátima Trinchão, Geni Guimarães, Lia Vieira, Miriam Alves e Taís Espírito Santo.
“A coletânea tem a importância de dar visibilidade para a quantidade de escritoras negras brasileiras atuantes e para a diversidade de estilos e projetos literários desenvolvido por cada uma delas.  Ainda encontramos circulando o discurso que no Brasil não existem escritoras negras e que, por este motivo, elas não estão nos grandes eventos literários, por este motivo seus textos não são lidos nas escolas e seus livros não encontram espaço nas grandes editoras e livrarias”, explica o editor da Editora Malê Vagner Amaro.
Cristiane Sobral.Foto.Divulgacao
Quem também marca presença no livro e no lançamento é a escritora Cristiane Sobral. Foto: divulgação
A seleção das autoras levou em conta que a renovação que estas escritoras promovem está nas formas criativas e independentes por meio das quais criam e divulgam suas obras e, especialmente, porque o olhar azeviche destas autoras para o mundo, expresso na literatura que produzem, traz um ponto de vista, uma perspectiva, um sentimento e uma inteligência que merecem ser mais disseminados.
“Apresentamos no livro uma seleção com um marco temporal (final da década de 70) e os movimentos negros de resistência e produção literária daquele período, do qual os Cadernos negros é o grande representante, e acompanhamos até a atualidade com uma autora que ainda não participou de nenhuma publicação impressa, mas divulga seus textos em blogs, como a Taís Espírito Santo”, completa Vagner.
Para a editora Malê, o objetivo é “colaborar para enriquecer o imaginário social brasileiro sobre quem faz literatura no Brasil, combater estereótipos, inspirar os debates e estudos sobre a visibilidade das autoras negras no mercado editorial e, principalmente, oferecer um bom livro literário, que as pessoas se envolvam e gostem de ler, podendo ser afetadas de forma positiva por um tipo de representatividade das mulheres negras, surpreendentemente, ainda pouco divulgado no meio cultural”.

Donminique Azevedo é repórter do Portal Correio Nagô.

27 de mar de 2017

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Obrigada, Luíza Bairros!




Date: 

Tenho aprendido que a morte embora produza um destino comum, nunca é a mesma. Tem sentidos diferentes, de acordo com quem morre e da forma como morre.
Por Cidinha da Silva para o Portal Geledés
No meu inventário afetivo de mortes predominam jovens e crianças (o que deixa uma pessoa calejada) e mortes por doença, coisa que dói muito também. Não tive ainda a graça de acompanhar mortes por velhice, por esgotamento do contrato com a vida pela natural decorrência do tempo. Do tempo que se conta pelo relógio, não o tempo do espírito e seus acertos misteriosos com o infinito.
Luíza Bairros partiu para uma jornada maior, dia 12 de julho de 2016, levada por um câncer de pulmão. Mais um para meu inventário de perdas dolorosas. A singularidade dessa morte é que, mesmo alertada por amigas sobre a gravidade da situação, eu não contava que fosse acontecer e precisei ver o corpo inerte para crer. Para acreditar. Para me confortar imaginando que ela tenha dito ao tempo: “Deu, tempo! Já deu!”
Precisei estar lá porque Luíza Bairros, junto com Sueli Carneiro e Hélio Santos, são minhas referências de formação há 30 anos. Os pilares que me fizeram negra, plena de direitos e responsabilidades. Desde os 20 anos, essas três pessoas me fazem ser quem sou com amor, zelo, incentivo  e puxões de orelha (menos do Hélio, que é mais permissivo).
Em meio a muita emoção, tristeza e incredulidade, duas falas calaram fundo em mim, a primeira de Iêda Leal, que nos disse: “Todos os que estão aqui (e acrescento as amigas de mais de 40 anos de convivência que não conseguiram reunir forças para se despedir do corpo de Luíza Bairros) tiveram a oportunidade de conhecer uma Luíza Bairros”.
Sim! Luíza foi singular para cada uma de nós: Luíza-mãe; Luíza-irmã; Luíza-amiga; Luíza-mentora; Luíza-companheira de militância; Luíza-líder; Luíza-conselheira atenta; Luíza-pesquisadora; Luíza-gestora bem preparada; Luíza-ministra. Mas, uma coisa Luíza Bairros foi para todas nós. Foi espelho e inspiração para fazer bem feitas as mínimas e as grandes coisas.
O nome Luíza Bairros fica em nós como sinônimo de esmero, dedicação, seriedade, compromisso, consequência, solidariedade e amor pelo povo negro do Brasil, da Diáspora e de África. Em nome desse amor ela entregou a vida a uma causa, a luta diuturna contra o racismo e pela promoção da humanidade das pessoas negras.
Houve sempre um traço de afeto em sua permanência na terra. São muitas as lembranças do seu jeito amoroso de cuidar das pessoas negras, conhecidas ou não. Lembro-me que certa feita fui vê-la num debate no Rio e conversávamos numa roda quando chegou uma garota universitária que parecia procurar por alguém. Luíza se aproximou dela e perguntou “você é fulana de tal?” A moça respondeu afirmativamente. Luíza então se apresentou e disse que havia levado o livro para ela e tirou da bolsa um volume xerografado e encadernado. Conversaram um pouco, a estudante agradeceu, guardou o livro e foi embora.
Noutra oportunidade, estávamos nos Estados Unidos. Eu fazia mestrado e Luíza, o doutoramento no mesmo programa. Morávamos em cidades diferentes e eu a havia hospedado numa curta semana de férias. Eu havia estocado de Minas três caixinhas de goiabada cascão para me abastecer por um ano inteiro. Luíza quando viu o doce na geladeira disse que queria uma caixa. Relutei em dar, argumentando que não era de meu conhecimento que gaúchas gostassem de goiabada. Ela disse que também não tinha essa informação. O certo é que ambas sabíamos das fomes que sentimos quando distantes da terrinha.
Como ficamos mais próximas, eu enchia a paciência de Luíza (por telefone) com minhas lamentações, inadaptações, culpas por minha mãe que sofria com um câncer de mama, iniciava a metástase nos pulmões e passava pela quarta pneumonia.  Um dia, já impaciente, Luíza me disse: “Guria, para mim é muito difícil ficar aqui também (ou seja, pare de falar das suas dores que isso também ativa as minhas), mas parece que para você é mais. Se é tão ruim assim, por que você não vai embora?” Era o que faltava para me libertar. Depois da “autorização” de Luíza, em menos de 30 dias estava de volta ao Brasil, para não mais retomar o mestrado nos EUA.
Em 2008, quando os Institutos Nzinga e Pedra de Raio, generosamente organizaram o lançamento do meu segundo livro, “Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!”, na Fundação Pedro Calmon, recebi dois presentes inesquecíveis. O prof. Bira, então presidente da Fundação, fez a gentileza de me receber e leu um conto de sua lavra, dedicando-o a mim. Luíza por sua vez, foi convidada a comentar o livro e, como era de seu feitio, fez  variadas perguntas à autora. Respondi a todas, creio. Num dado momento em que olhei para ela enquanto dizia não sei o quê vi que ela estava chorando e embarguei a voz (não sabia que Luíza chorava).
Finda a mesa, dezenas de autógrafos, Luíza recomposta e lágrima alguma havia acontecido. Intrigada, contei o ocorrido a um velho Taata que lá estava e quis saber a opinião dele, que me disse como coisa óbvia: “Ora, não sabe como é essa gente de Xangô?  É de alegria! Ela está feliz! Você cresceu!” Era assim, Luíza! Ela se emocionava, genuinamente, com o crescimento da gente. Foi assim com as dezenas de mulheres negras que ela orientou e inspirou ao longo de quatro décadas.
Mais à frente, quando escrevi o “Racismo no Brasil e afetos correlatos”, pedi a ela que  escrevesse a orelha, mesmo sabedora de suas múltiplas ocupações como ministra. Depois de algum tempo sem resposta, escrevi de novo, dizendo que precisava liberar o livro e que se ela não pudesse escrever, não havia problema. Ela não disse que sim, nem que não. Apenas ponderou o quanto estava ocupada. Eu compreendi, agradeci e busquei outro orelhista.
A segunda coisa muito marcante, ouvida no momento da despedida de Luíza foi dita por Vilma Reis: “Luíza Bairros e sua geração de militantes negros inventaram um país para a gente existir.”  É isso! Todas e todos nós, de distintos tempos, somos devedoras dessa geração que inventou um país para que a gente pudesse existir!
A despedida de Luíza Bairros foi entre amigos, plena de declarações de afeto, sem discursos politiqueiros. Foi possível porque seus familiares tiveram a generosidade de fazer uma cerimônia longa, de três dias, por mais que isso fosse penoso para eles, para que várias pessoas que também a amaram muito pudessem se deslocar de vários lugares do país até Porto Alegre. E foram muitas as que não conseguiram ir, porque não conseguiriam se despedir de uma pessoa tão íntima e especial.
Houve um momento religioso em que ela foi saudada como o são as autoridades que partem, as Iyás e os Babás. E que orixás, encantados, ancestrais vieram para também saudá-la e limpar o caminho de toda mágoa e dor.
Agora é o tempo do descanso, de aposentar o machado. O tempo da pedra silenciosa que se desfaz em barro. Tempo de volta a Terra. À água. Ao sal! Siga em paz, Luíza, tão querida. Zambi yá kwatesá!

25 de mar de 2017

Sobre a SEPPIR: texto publicado há 4 anos

Dez anos da SEPPIR: das diferenças entre gueto e enclave
Por Cidinha da Silva
A SEPPIR, Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, completou 10 anos em 2013. Aprendi com a querida Ministra Luiza Bairros, nos idos de 86 ou 87, que a discussão sobre desigualdade racial só faz sentido se entendemos e desconstruímos o racismo que a produz.
Por conhecer um pouco do ideário da Ministra, ouso afirmar que ela se sentiria mais confortável gerindo uma Secretaria de Combate ao Racismo e Promoção de Políticas de Igualdade Racial, mas a SEPPIR foi a conquista possível há 10 anos e continua a sê-lo, porque é um enclave no Planalto, está instalada, resiste, mas não deveria estar ali.
A Secretaria de Políticas Para as Mulheres e a Secretaria de Direitos Humanos são pedras no sapato, incomodam, mas não podem ter sua existência negada. Com a SEPPIR é diferente, lidamos sempre com o fantasma de uma possível extinção, fusão, diluição. Porque o tema da promoção da igualdade racial (nem falamos de combate ao racismo) continua sendo objeto da atenção proativa de poucos e do desagrado de muitos, inúmeros, infindáveis. Estes que se esforçam diuturnamente (dentro e fora da Esplanada) para guetificá-lo ou para apagá-lo da agenda nacional.
Para ascender da posição de enclave à condição de pedra no sapato é preciso institucionalizar a questão da promoção da igualdade racial (em oposição frontal ao racismo institucionalizado), promover políticas abrangentes e persistir, porque sua eficácia será comprometida, invariavelmente, pelas raízes profundas e expostas do racismo, manifestas em artérias inflamadas que provocam derrame de sangue a todo instante. É necessário comprometer a Presidenta, instá-la a defender as cotas raciais como estratégia de diminuição da desigualdade, em programas televisivos de massa. Nos fóruns internacionais, a trilha aberta pelas organizações negras brasileiras nos anos 90 e 2000 para tratar o racismo vem sendo seguida pelo governo brasileiro. É mister enramar o debate e potencializar cidadãos e cidadãs comuns, de baixo nível de politização, para perceber, compreender e enfrentar o racismo estrutural. É fundamental articular os demais ministérios, mobilizá-los para a problemática, co-responsabilizá-los, impedir o discurso rasteiro que busca transformar a SEPPIR em gueto negro, localização sabidamente cômoda para a maioria dos opositores (e detratores). A meu ver a gestão que comemora os 10 anos da SEPPIR realiza estes objetivos.
Desta forma, quando certos artistas justificarem a discriminação racial da ordem do dia (cabelos de palha de aço em modelos como opção estética de um desfile de moda) embasados no silêncio quanto ao mesmo artifício utilizado em edições da década anterior, saberemos, candidamente, que a pessoa negra de 2013 é afirmada, tem noção de direitos que não tinha antes, mete o pé na porta para tirá-los do umbral. De maneira simbólica e também objetiva (por meio de políticas que têm esse significado empoderador) é o que a SEPPIR representa.
Existem pessoas que gritam pelos direitos do povo negro, que negociam para garantir-lhe a vida, posto que a vida dos negros está ainda sendo negociada, não é um direito humano consolidado. Essa luta e essas articulações, como sabido, não merecem as luzes da ribalta, e mesmo no BBR só aparecerão porque o departamento de comunicação da SEPPIR cumpre seu papel.
Há outras pessoas, entretanto, que esperneiam tal qual adolescentes irresponsáveis e autoritários, quando o pai os castiga por dirigirem sem carteira. Gente que não tem diligência para dirigir, promover e projetar o próprio galinheiro, mas quer cantar de galo quando maneja um microfone de sonorização amadora.

23 de mar de 2017

Curso #Parem de nos matar! um modo de educar afetos pela leitura - desconto para educador@s


Na Rede (16)


Por Cidinha da Silva

Nesse 17 de abril de 2016 que nunca termina e se alimenta e se mimetiza no esgoto radioativo do golpe, não cabe discutir agora, se daremos ou não um cheque em branco a Lula. Cumpre zelar pela vida da bala de prata.

21 de mar de 2017

Cidinha da Silva no Leia Mulheres de Ribeirão Preto

Por Carolina Motta
O dia era de Oxum e Iemanjá, mas todas as mães d'água se fizeram presentes. Oyá e Nanã tomaram assento no último minuto. Acho que não queriam, assim como nós, perder a oportunidade de ouvir a Cidinha da Silva e todos as outras que estavam presentes. Haviam homens também, mas em minoria e na plateia, no lugar de ouvintes e acompanhantes.
Era, definitivamente, um dia de louvar o poder feminino. Leia, veja e ouça MULHERES. Ouça o que elas tem pra falar. Lideranças políticas, culturais e mestras da educação. As águas definitivamente se fizeram presentes! Esse símbolo feminino maior, que em alguns momentos até abafou nossas vozes.
Muitas questões importantes foram levantadas. A necessidade de lutar contra a morte das nossas irmãs e irmãos negros. Morte matada, morte morrida e morte em vida também. Números, estatísticas, relatos. E silêncio. Silêncio de quem o coração ainda grita exatamente pela morte dos seus.
Em meio à tantas discussões políticas e politizadas, leveza e doçura. O resultado de um trabalho feito por mulheres. Gente impressionada com a eficiência e a sintonia feminina, a vontade de fazer e a urgência em falar. Ou nesse caso, trazer outras pra falarem. Falarem para nós.
Éramos um corpo só de uma perspectiva, mas completamente diferentes umas das outras. Cores, dores, cabelos, roupas, idades, vivências, diásporas, trabalhos, opressoes, silenciamentos, desamores. Muita coisa pra compreender, mas o mais importante é que há uma pré-disposição pra sentir. Amor fora das caixas, livre e forte como correnteza de rio, ressaca de mar ou tempestade inesperada.
Palavras, de alguma forma, são da ordem do masculino. O feminino precisa de PRESENÇA - nas mais diversas formas em que isso pode ocorrer. Através da invocação das nossas ancestrais por meio dos livros. Se isso não é ritual, não é a união (da mulher) selvagem entre o sagrado e o profano, eu não sei o que é. Mesmo quando a natureza está longe, tivemos a prova de que ela se faz presente com extrema facilidade. E que se cuidem as instalações humanas, porque elas lavam e levam o que tiver pela frente.
Aos que não puderam ou não conseguiram ir, deixo as imagens. Essa presença pela metade é a minha forma de demonstrar uma gratidão completa. E a sensação de continuidade, de círculo, de coragem.
Que haja afeto, que haja respeito pelas que estão entre nós e pelas que já foram, que hajam refúgios como esse, porque haverá luta!
Escrito por Carolina Motta

14 de mar de 2017

Cidinha da Silva participa do Leia Mulheres e ministra curso no SESC Ribeirão Preto, dias 18 e 19 de março! Atividades gratuitas.