Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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28 de jun de 2007

Rápidas

1 - O poeta Berimba de Jesus me conta que dois textos meus foram publicados na revista "Não Funciona", editada pelos poetas maloqueiristas. "Sonho", no número nove e "Mais um dia dos pais e um homem negro sem camisa", no número dez. Estou ansiosa para ver as publicações. 2 - Nossa poeta, Elisa Lucinda, e Ferréz foram convidados a participar da 12a edição da Jornada Literária de Passo Fundo, RS, em agosto próximo. Parabéns às organizadoras. Antes disso, na Festa Literária de Paraty, Paulo Lins dará o ar da graça de sua inteligência cortante e deve falar sobre o novo livro, ambientado no tempo de sua infância no Estácio, quando a mãe recomendava, expressamente, que ele não se envolvesse com os "marginais" do bar da esquina. Anos mais tarde ele descobriria que os homens proibidos eram Cartola e Nelson Cavaquinho, dentre outros, futuramente reconhecidos como bambas do samba. 3 - Dia 28/06 acontece em São Paulo o "II Encontro de Literatura Periférica de Franco Morato", promovido pela Edições Toró. Das 18:00 às 22:00. Endereço: rua Progresso,59 ou rua Gerônimo Caetano Garcia, 70, Shopping Casa Grande, centro de Francisco Morato. Próximo à estação de trem. Informações: 11 44888881 ou 76302266. 4 - Dia 29/06 será inaugurado o espaço CPC - Centro Cultural Popular Consolação, uma iniciativa de "artivismo" - ativismo político pela arte. Av. Consolação, 1901, a partir das 20:00.

Artivismo

27 de jun de 2007

Moçambique sem caricaturas

(Por José de Sousa Miguel Lopes - Moçambicano, Professor na UNILESTE-MG) Na página 7 do Caderno Mais da edição da Folha de S. Paulo de 17/06/2007 fui surpreendido com o texto Modernidade e caricatura do historiador Manolo Florentino da UFRJ, no qual o autor procura dar conta de fragmentos da realidade atual de Moçambique, utilizando o recorte tradiçãoxmodernidade. No momento em que a realidade africana começa, a duras penas, a emergir na sociedade brasileira, o mínimo que se pode exigir é que aqueles que sobre ela se debrucem, o façam com um mínimo de conhecimento. A questão é mais séria quando o que se difunde sobre África parte de intelectuais que, por dever de ofício, deveriam estar comprometidos com um mínimo de rigor sobre os fatos que analisam. O que Manolo Florentino escreve em seu texto é uma mistura de verdades e falsidades, o que revela pouca seriedade no trato do assunto abordado. A sensação que me ficou, no final da leitura, é que o texto resultou não de uma visita do autor a Moçambique, mas de uma conversa telefônica ou por Internet que o autor manteve com duas ou três pessoas residentes naquele país. Não que não se possam escrever artigos, a partir de mecanismos informativos desse teor. Mas convenhamos, que agir dessa forma, comporta um elevado risco de se produzir uma caricatura da realidade que se pretende retratar. Foi o que aconteceu de forma lamentável. Mais lamentável, por se tratar de um historiador e, ainda por cima, pertencente a uma prestigiosa e respeitada Universidade brasileira. Manolo Florentino produziu uma caricatura sobre Moçambique. Prestou ao público brasileiro um mau serviço no que toca á difusão da realidade moçambicana atual. Não há rigor de análise. Faltou prudência, um modo de refletir que impede que um indivíduo se atole por completo no pântano da dúvida. O mestre Sherlock Holmes dizia que certos problemas exigem fumar três cachimbos para serem resolvidos. No que toca a determinados problemas, receio que alguns ainda estejam tentando acender o primeiro. Não vou alongar-me. Apenas dizer o seguinte: em sua análise que cobre o período de 2004 a 2007 (“Maputo mudou muito em quatro anos” diz Manolo Florentino). Não sabemos o que teria mudado em 4 anos. Não consegui ver o que nesse período de tempo mudou em Moçambique: Será porque o autor “viu” os “Lamborghinis, Mercedes, BMWs e Toyotas”? Mas essas marcas começaram a circular há pelo menos 20 anos, na posse de uma nascente burguesia com apetite devorador por bens de luxo. A mesma análise se aplica ás mansões. O autor lança mão de dados estatísticos sobre o país, dados que são reconhecidos por todos os organismos das Nações Unidas, mas os desqualifica de forma contundente, alertando os leitores para o fato de que “Toda (sic) estatística é aqui precária, e mesmo a população é estimada (sic)”. Informa os leitores que a “Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique, movimento que assumiu o poder em 1962, quando o país se tornou independente]”. Ora, o país tornou-se independente em 25 de Junho de 1975. Manolo Florentino antecipou a independência de Moçambique em 13 anos, fato histórico que, a ser verdadeiro, teria poupado uma guerra contra o colonialismo português que durou uma década, com o terrível cortejo de mortes e destruição de todo o tecido social moçambicano. O autor nos brinda a seguir com a maior surpresa, quando afirma que “Há no país entre 2 milhões e 3 milhões de descendentes de escravos, discretamente estigmatizados no dia-a-dia”. Quem são esses descentes de escravos de que nunca ouvi falar? Onde o autor buscou esta informação? Mais adiante nova surpresa. Manolo Florentino presenteia-nos sobre o lugar ocupado pela mulher moçambicana. Que ela tem um lugar subalterno em relação ao homem é indesmentível, apesar dos imensos avanços registrados no pós-independência. Mas daí a afirmar-se, como faz o autor de que “o cativeiro doméstico ainda hoje viceja”, é manifestamente um excesso e uma impropriedade. Outra informação surpreendente é a que refere as práticas de mutilação clitoriana em Moçambique. O autor informa que “Sem contar a miséria humana expressa por meio de milhares (sic) de meninas mutiladas pela excisão clitoriana”. Estamos perante uma inverdade. Em que o autor se baseou para nos dar esta informação? A África tem 54 paises e desses, segundo a Anistia Internacional, 29 têm essas práticas terríveis (Benin, Burkina Faso, Camarões, República Centro-Africana, Chade, Costa do Marfim, Egito, República Democrática do Congo, Djibuti, Eritréia, Etiópia, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Quênia, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa, Somália, Sudão Tanzânia, Togo e Uganda). O autor partiu do fato de alguns países africanos terem essa prática, para generalizar e incluir também Moçambique. Mesmo em outros lugares, que não o continente africano, ocorrem essas práticas condenáveis como em vários países asiáticos (Índia, Indonésia, Siri-Lanka, Malásia), no Oriente Médio (Oman, Iémene e Emiratos Árabes Unidos). Ela é também praticada na América Central e do Sul, como por exemplo no Perú. Devido à imigração, países onde anteriormente não se praticavam essas mutilações, têm agora setores da população a praticá-la, incluindo: Austrália, Canadá, Dinamarca, França, Itália, Holanda, Suécia, Reino Unido e EUA. Por último Manolo Florentino diz-nos que “O capitalismo moçambicano se reproduz por meio da tradição”. A afirmação embora carregada de ambigüidades daria pano para mangas. Apenas duas perguntas: em que lugar do mundo não opera a tradição? O próprio capitalismo, em todo o lugar onde opera (praticamente todo o planeta), não tem vínculos com a tradição? O mundo tem necessidade de uma África sujeito e não mais objeto. Isto exige estudo e seriedade no tratamento das temáticas africanas. É neste sentido que um verdadeiro reencontro, fecundo poderia ter lugar em benefício de todos. Ilustração de Iléa Ferraz

26 de jun de 2007

Não pude dar bicicleta, mas limite eu dei.

O último “jovem” que tentou assassinar Sirlei Dias Carvalho Pinto se apresentou à polícia, ontem. De cabeça baixa, bem instruído pelos advogados. Foi assim, pra você que não está acompanhando o caso: numa madrugada da semana passada, às 4:30 da manhã, Sirlei esperava um ônibus nas imediações da casa dos patrões, ela é trabalhadora doméstica. Ia a uma consulta médica. Passou um Gol preto, ocupado por cinco “estudantes”, moradores de “condomínios de Classe alta na Barra da Tijuca”, todos entre 19 e 21 anos. Pararam, desceram do carro, roubaram a bolsa de Sirlei e a espancaram covardemente. Um motorista de táxi assistiu a tudo, anotou a placa do automóvel e a polícia rastreou e prendeu três “jovens”. Os outros dois, delatados pelos primeiros, se entregaram. Os cinco monstros são jovens e estudantes, ou seja, tiveram um descontrole juvenil e tentaram assassinar Sirlei, mas sua boa índole os levará à reflexão, ao arrependimento e à correção, são jovens. São estudantes, ou seja, têm um projeto de futuro, serão pais de família responsáveis, advogados zelosos do patrimônio privado. Moram em condomínios de classe alta na Barra da Tijuca, ou seja, é bom enfatizar que são ricos, assim aplacamos a ira dos pobres, damos a eles um gostinho de vingança. Rico também comete crime. Curioso. Ninguém falou em pena de morte para os cinco monstros. Fossem cinco rapazes negros (ainda que estudantes e jovens), tentando assassinar uma indefesa moça branca, à espera de um ônibus, de madrugada, e a lebre da pena de morte já teria sido levantada. Tá na cara que ela só serviria para oficializar o extermínio de alguns tipos e grupos, aqueles que já vêm sendo exterminados por várias modalidades de pena de morte. Os pais dos monstros, na delegacia, não deram qualquer tipo de declaração, não esboçaram qualquer pedido de desculpas, a ninguém. O pai de Sirlei disse que não pôde comprar bicicleta para os filhos, mas soube educá-los.

25 de jun de 2007

Grupo de Rap do Burkina Faso em São Paulo

Dias dia 27 e 28 de junho, o Faso Kombat, grupo de hip hop de Burkina Faso, falará sobre a cena do hip hop no continente africano, em São Paulo. Formado por Quedraogo Salif e Malgoubri David em 2000, o grupo africano mescla o hip hop à cultura burquinense. Seu primeiro álbum, lançado em maio de 2004, recebeu três prêmios: de melhor álbum no Hip Hop Awards burquinense daquele ano, melhor cantor de rap e o prêmio do público. Em contrapartida à vinda do grupo africano, promovida pela Aliança Francesa, o grupo Z’AfricaBrasil será enviado à Burkina Faso para participar do Festival “Ouaga Hip Hop”, no mês de outubro. Será o primeiro grupo brasileiro a se apresentar no Festival, que reúne grupos africanos e europeus em uma programação que inclui música, dança, grafitagem, exibição de filmes e documentários. Dia 27 de junho, na Ação Educativa, às 19:30. Rua General Jardim, 666, Vila Buarque. Dia 28 de junho, no Espaço Cachuera, às 20:00. Rua Monte Alegre, 1094, Perdizes.

Primeiro mini-conto do Tridente segundinha - "Só derreal!"

O menino negro aborda o casal de gringos brancos na sorveteria. Pega no braço do mais viril e faz gestos de abrir e fechar a boca, para frente e para trás. Antes de dizer qualquer coisa, o mais feminino intervém: “ele quer sorvete, darling.” O outro olha com ar de dúvida. Faminto, o garoto tem os olhos muito dilatados, parece estar sob efeito de alguma droga. O homem pega em seu ombro, de leve e pergunta-lhe o sabor. O garoto, nervoso, se ajoelha e repete os gestos com a boca. Acrescenta mais um gesto, as mãos abertas, dez dedos. O preço. “Baby, vamos embora. Você oferece sorvete e ele parece que só aceita se você der mais dez reais. Não, não. Muito dinheiro”. Na saída da sorveteria, enquanto os dois caminham de mãos dadas, o menino esbraveja: “Gringo pão-duro! Faço por cinco.” ilustração: Livia Lima

22 de jun de 2007

Últimas

Buenas! Vamos às últimas notícias. 1 - O lançamento do Tridente e da coleção de postais "Tridentiana" no Rio de Janeiro foi um sucessaço. Gente que quase não coube. Méritos do pessoal da Kitabu, dos artistas convidados e dos amigos que deram aquela força na divulgação. Agradecida. As apresentações de Carmen Luz, Hilton Cobra e Iléa Ferraz foram luxuosas, como anunciado. A Iléa, enquanto encenava "Domingas e a cunhada" pintou um quadro, belíssimo, em exposição na Kitabu, até que eu possa ir ao Rio buscá-lo. Portanto, quem o viu em processo tem chance de vê-lo finalizado. E quem não esteve por lá dia 15 de junho, pode dar uma passadinha para admirar o trabalho (rua Joaquim Silva, 17, Lapa). Quando chegarem as fotos, coloco aqui para quem não puder ir lá. 2 - A Mazza Edições lança hoje, no 8o Salão do Livro de Belo Horizonte, "Histórias do Tio Jimbo", coletânea de histórias juvenis do sambista Nei Lopes. A convite da Mazza elaborei um suplemento com sugestões de atividades para educadores e estudantes, encartado na obra. 3 - Cheguei de viagem e recebi uma cartinha singela do Marco Lucchesi dando conta da leitura do Tridente, durante três horas de espera em um aeroporto. Em seguida recebi um livro de sua autoria, "Sphera", poesias, com orelha do Antonio Cícero. Lerei em breve. Depois mando uma carta ao Marco com os comentários, pois ele é avesso a e-mails. Adianto publicamente que estou na torcida por ele e seu "Meridiano Celeste", finalista do Jabuti na categoria poesia. Não posso deixar de torcer também pelo Manoel de Barros e seu "Memórias inventadas - a segunda infância", na mesma categoria. Por falar nisso, vamos às outras preferências minhas: na categoria biografia torço pelo Pery Ribeiro (e Ana Duarte) com o livro "Minhas duas estrelas: uma vida com meus pais Dalva de Oliveira e Herivelto Martins". Na categoria juvenil torço por um escritor que está aí há muito tempo, mas só conheci recentemente, o Bartolomeu Campos de Queiróz, com o livro "Antes do Depois". E, finalmente, na categoria romance, minha torcida escancarada é para o amigo Luiz Ruffato, com o belo "Vista parcial da noite". Do Luiz terminei de reler há pouco, "Eles eram muitos cavalos". Recomendo a leitura. Vocês devem ter reparado que minha torcida é mais pelos autores do que pelas obras. É que não li tudo ainda, assim não posso opinar, mas conheço os autores e alguma coisa de suas obras e gosto muito de todos como escritores. 4 - Por convite e recomendação da amiga Fátima Oliveira estou postando uns textos no sítio do poeta maranhense Carlos Alberto Lima Coelho. É divertido e acolhedor, os/as internautas interagem muito com as publicações. Vá ao sítio www.limacoelho.jor.br para ver. 5 - Pra concluir este pôste, amanhã tem espetáculo dos amigos Marcelino Freire e Fabiana Cozza. Eles lançam o CD "Contos negreiros", do Marcelino, pela editora Livro Falante. Na ocasião, aliás, com entrada franca, acontecerá a apresentação mais uma vez do show "Cantos Negreiros". Tudo AMANHÃ, sábado, às 18 horas, na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, à Av. Henrique Schaumann, 777, São Paulo. Para saber mais sobre o audiolivro, e até para ouvir alguns trechos, acesse: www.livrofalante.com.br. Estarei lá. Apareça também. Bom final de semana.

21 de jun de 2007

Zezé Motta será homenageada em Gramado

(Por Mary Persia Folha Online) No mesmo ano em que completa 40 anos de carreira, Zezé Motta, 62, será homenageada no Festival de Cinema de Gramado. A 35ª edição do evento acontece de 12 a 18 de agosto na cidade gaúcha. Zezé, que soube da homenagem há duas semanas, receberá o troféu Oscarito, honraria concedida há 17 anos a atores e atrizes brasileiros --no ano passado, o homenageado foi Antônio Fagundes. Zezé Motta será homenageada no Festival de Gramado, que acontece em agosto Desde sua estréia em 1967 na peça "Roda Viva", Zezé coleciona dezenas de trabalhos em teatro, TV, música e, claro, cinema. São 32 filmes, dos quais ela destaca "Vai Trabalhar, Vagabundo" (1973), de Hugo Carvana, e "Xica da Silva" (1976), de Cacá Diegues. "'Vai Trabalhar' foi meu primeiro longa, tenho uma lembrança muito especial porque me lançou no cinema. E 'Xica' me lançou no mundo, foi um divisor de águas na minha carreira", diz Zezé. "Tudo Bem" (1978) e "Quilombo" (1984), ambos de Arnaldo Jabor, são outros trabalhos dos quais ela guarda uma recordação especial. Em ritmo acelerado, atualmente Zezé está na TV com a novela "Luz do Sol" (Record). No cinema, filmou recentemente os ainda inéditos "Deserto Feliz", de Paulo Caldas ("O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas", "Baile Perfumado") e "Bom Dia Eternidade", primeiro longa de Rogério de Moura. No teatro, participará das comemorações dos cem anos do Teatro Municipal do Rio declamando Vinicius de Moraes e cantando, no fim do mês --quando aproveita para comemora seu aniversário, no dia 27. Em julho, começa a ensaiar o musical "Sete". Para o próximo ano, prepara o disco "O Samba Mandou Me Chamar" --seu oitavo--, que já tem repertório definido. Enquanto isso, continua sua homenagem a Elizeth Cardoso. Da "Divina", Zezé cantará algumas músicas na Parada Gay de Fortaleza, neste fim de semana. O repertório terá também canções dos discos da atriz --que ainda consegue tempo para tocar sua ONG, o Cidan (Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro) --www.cidan.org.br.

20 de jun de 2007

Uma Historinha de São João

*Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo, olha praquele balão multicor, como no céu vai sumindo (...) Saí para comprar tempero e voltar logo ao preparo das postas de peixe que me aguardavam pegando gosto no limão. Passou por mim uma garotinha de uns nove anos e me abriu um sorriso de quem troca dentes de cima de sua bicicleta. A senhorita simpatia me pegou tão de surpresa que não retribuí ao riso de pronto. Ela pedalou uns metros na direção contrária à minha e depois voltou, sorrindo de novo. Tirou um papelzinho do bolso, estendeu para me dar e disse baixinho "Feliz São João!” Tocada pela espontaneidade do gesto peguei o papel singelo. Sorri. Agradeci. Disse que o desenho do pequeno balão era lindo (em verde e rosa, ainda por cima) e guardei-o no bolso. Meu coração sudestino entendeu, naquele momento, que a gente urbana do lado de baixo do país não tem idéia do que seja o São João para o povo do lado de cima. É uma festa da alma. São rezas, profanidades, comilança e espírito de solidariedade. Na vendinha, procurei uma caneta bonita para dar de presente à garota, mas não havia nem Bic. Comprei então umas balas pra'quele anjo/erê. Olhei a rua e a encontrei encostada em sua bicicletinha, observando os jogadores de vôlei. A seu lado, um guardião, pretendente a namorado, primo ou irmão, não sei. O caso é que me dirigi a ela e disse: “Posso lhe dar uma coisa também?” Ela sorriu um sorriso enorme de quem tinha os dois dentões da frente emparelhados com caninos ainda de leite,e pegou as balas. É lógico que eu tinha um segundo punhado de balas na outra mão e tratei de oferecê-las ao guardião, que, desconfiado, aceitou. Um rapagão do vôlei ficou olhando para ver do que se tratava. Um distinto senhor assentado na varanda da casa, em frente da qual tudo se passava, também. Vi que eles cuidavam da cena e estavam certíssimos, mas não liguei para as atenções deles. Afinal, nada de mal acontecia. Era só nossa cumplicidade à luz do dia, para quem quisesse ver. * Luiz Gonzaga e José Fernandes

14 de jun de 2007

Carmen Luz

(Por Fernanda Felisberto) A trajetória de Carmen Luz, 45 anos, é mais uma importante peça que compõe o mosaico da história de vida, de mulheres, negras, militantes e brasileiras. Oriunda de uma família de negros, pobres, de Oswaldo Cruz, subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, que foram conquistando melhores espaços através da educação formal e da disciplina, o apelido de Luz, recebeu ainda pequena, dado por seu pai e, mais tarde, ao ingressar na Faculdade de Letras da UFRJ, ganhou uma composição do poeta e músico Mario Makaiba, ficando batizada definitivamente. Formada em Teatro e Literatura (Graduação e Pós-Graduação pela UFRJ), a dança aconteceu praticamente de forma autodidata. Somente depois de adulta freqüentou aulas da coreógrafa Angel Viana, com quem aprendeu a valorizar toda a sua expressividade. Coreógrafa carioca, Carmen Luz, diretora da Cia Étnica de dança, é uma artista de várias linguagens associadas à militância e educação. A Cia. Étnica de Dança e Teatro nasceu há dez anos, fruto da herança deixada pelo Teatro Experimental do Negro(TEN), idealizado por Abdias do Nascimento. Para Carmen e sua então sócia, Zenaide Djadillê, uma companhia de dança e teatro com um corpo de profissionais e uma ideologia baseada nas questões raciais, deveria ser pensada para que novos sonhos pudessem ser estruturados e novas(os) atrizes e atores começassem a surgir além de convencer os céticos. "É preciso que façamos nossas coisas com prazer, com amor e com muitas ciências. Só assim daremos a volta no mundo, como nossos antepassados fizeram". O trabalho é praticamente arqueológico, pois incansavelmente traz à tona vários talentos invisíveis que há na comunidade do Andaraí. O projeto pedagógico da Cia. Étnica de Dança e Teatro chama-se Projeto Encantar - Capacitação em Artes Cênicas. O objetivo é promover o desenvolvimento pessoal e social através da arte e, principalmente, a profissionalização em artes cênicas e a geração de renda. Do projeto participam crianças, adultos e jovens moradores de favelas do Complexo do Andaraí e de outras zonas de pobreza. Sobre a temática da companhia. Como uma artista de seu tempo, Carmen conclui “...ganho meu dinheiro, pago as minhas contas, dou força pro meu filho, pra minha mãe e invisto em meus próprios projetos. Sou filha das águas e do ferro. Rezo e pratico exercícios físicos todos os dias. Moro em Botafogo, gosto demais da Mangueira. Minha tarefa é imaginar e erguer minhas imagens. Sou romântica e niilista. Durmo sofrendo e acordo acreditando...”. Depois de anos de lutas, comemorou a vitória da inclusão no currículo escolar, de História da África e Cultura Afro-brasileira, mas reconhece que se não tiver uma capacitação de professores envolvidos com o processo da escola, a lei não fará parte das práticas cotidianas. E sobre o tratamento dado atualmente à população negra brasileira e, em especial, às mulheres, não acredita que dar visibilidade a sucessos individuais ou globais ou expor por estereótipos o “caso” dos negros seja um índice real de melhoria do Brasil em suas relações perversas. O racismo e o sexismo continuam mandando no Brasil, mas percebe que negros e negras de todas as cores, mais sensibilizados(as) consigo próprios(as) e com seus pares, não estão se deixando abater. “Isso é um ponto pra nós que queremos viver de cabeça erguida e sobre nossos pés. Acho que em muitos casos começamos a andar de mãos dadas e isso é muito bom! Morreremos menos e condenaremos os assassinos”. Íntegra em Revista Eparrei n. 06, clic aqui

13 de jun de 2007

Agenda de Junho

15/06 - Rio de Janeiro. Lançamento segunda edição do Tridente e coleção de postais "Tridentiana", na livraria Kitabu, rua Joaquim Silva, 17, Lapa. Participação dos atores Hilton Cobra, Carmen Luz e Iléa Ferraz. Às 18:30. 18 e 19/06 - Cidade do Panamá. Encontro Inter-geracional de Mulheres Líderes Afro-descendentes da América Latina e Caribe. 29/06 - Belo Horizonte. Mini-curso "Literatura afro-brasileira e práticas pedagógicas" seguido de happy hour de lançamento segunda edição do Tridente e coleção de postais "Tridentiana". Mazza Livraria, av. do Contorno, 6.000, loja 01, Savassi, das 14:00 às 18:00. Debate-papo sobre o processo de criação literária com o escritor Eduardo Assis, autor de Machado de Assis Afro-descendente, na Sobá Livraria & Café, às 19:00. Rua Rio de Janeiro, 1278, Lourdes. 30/06 - Curso "O papel e a trajetória das mulheres negras na sociedade brasileira". Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte (restrito a professores/as previamente inscritos/as).

Periferia nas Letras - Editora Global lança coleção "Literatura Periférica"

(Por Georgia Nicolau, Jornal da Tarde 13/06/07). Antes era sujeição, carência e inferioridade. Hoje, ser periférico está se tornando uma maneira de resistência e afirmação. A exemplo disso, o número de escritores das periferias do Brasil cresce em quantidade e qualidade. Ser da periferia significa pertencimento e identidade. - Sinto-me melhor quando anunciam a minha origem, de onde eu venho e sou, explicou Sergio Vaz,morador do Taboão da Serra, autor de cinco livros. Vaz e mais quatro autores da periferia paulistana terão livros de sua autoria, todos já escritos em edições independentes, lançados pela Editora Global. O primeiro livro a sair ,no dia 5 de julho no Teatro Municipal de Taboão da Serra, será Colecionador de Pérolas, de Vaz, 42 anos, com prefácio do escritor Reginaldo Ferreira da Silva, conhecido como Ferréz. Vaz tem uma longa história de ativista cultural e militante literário. Com sua primeira obra publicada em 1992, ele é um dos criadores do principal evento incentivador da literatura periférica, a Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), sarau semanal que acontece no bar do Zé Batidão no Capão Redondo, há mais de seis anos. Literatura feita da "periferia para o mundo", como explicou Ademiro Alves, o Sacolinha, 23 anos morador de Suzano. 85 letras e um disparo, segundo livro do autor , faz parte da coleção, reúne contos escritos por ele e traz a apresentação do gaúcho Moacyr Scliar e prefacio feito pelo escritor e colunista do Estado, Ignácio de Loyola Brandão. Allan da Rosa, morador de Taboão da Serra, assim como Vaz, vai participar com Da Cabula - Istória pa tiatru, dramaturgia que já havia sido editada pelo seu próprio selo, o Edições Toró, através do qual lança outros autores também, com livros feitos artesanalmente e vendidos nas ruas, teatros, cinemas e saraus. Da Cabula conta a história de Dona Filomena da Cabula, camelô, moradora de quarto-cozinha em algum dos intermináveis bairros da periferia da Cidade, que sonha em aprender a ler e escrever. O livro terá prefácio de Zé Celso Martinez. Também lançado pelo Edições Toró, Maria Nilda Mota de Almeida, a Dinha, 27, lança pela Global seu primeiro livro de poesias De passagem mas não a passeio, com prefácio da escritora carioca Elisa Lucinda. Formada em letras pela USP, Dinha começou a escrever em fanzines literários, os quais produz até hoje. Moradora até o ano passado da favela de Vila Cristina, no bairro Parque Bristol, assim ela se apresenta em seu livro: Dinha é educadora, mediadora de leitura, fanzineira, mãe da Katrine e representante da literatura produzida nas periferias do Brasil afora. Suburbano convicto, Alessandro Buzo também começou escrevendo em fanzines e jornais de bairro. Sua estréia foi um livro sobre a situação precária dos trens que levam ao seu bairro, Itaim Paulista. Depois disso, já escreveu quatro livros, sendo que o último, Guerreira, conta a história de Rose, jovem em busca do amor.

9 de jun de 2007

Tridente 2 no Rio de Janeiro - 15/06/07

Dia 15 de junho tem lançamento do Tridente 2a edição na Cidade Maravilhosa. Às 18:00 na Kitabu (pronuncia-se Kitábu) Livraria Negra, rua Joaquim Silva, 17, Lapa. Presenças elegantes e luxuosas de Hilton Cobra, Cia dos Comuns, que fará leitura dramática de Dublê de Ogum. Carmen Luz, Cia Étnica de Dança e Teatro, que lerá A coleção de dicionários de capadura na estante e Iléa Ferraz que executará performance sobre Domingas e a cunhada. Imperdível. Lançaremos também a coleção de postais Tridentiana, parceria desta vossa escriba com Lia Maria, Lia Matamba, artista plástica de Brasília. Duplamente imperdível. Se jogue.

6 de jun de 2007

Para quem fica em Sampa tem bate-papo no feriado: visibilidade das lésbicas na literatura e na mídia

Inicialmente fui convidada para falar sobre o tema diversidade na literatura, mas a Livraria da Vila, proponente da programação resolveu mudar o título da conversa para "visibilidade das lésbicas na literatura e na mídia". Ficou melhor. Diversidade é uma expressão panorâmica e panacéica. Cabe tudo, principalmente quando usada no contexto de responsabilidade social. Quer falar de morango e açaí? Tasca diversidade. Não quer falar sobre racismo? Diversidade idem. Estarei lá, na Livraria da Vila, Alameda Lorena 1471, Jardins, às 20:00. Entrada franca. Dia 08 de junho, sexta-feira. Leitura do Tridente e de uns textos inéditos. Depois tem balada da DJ Evelyn, "somos todas pecadoras". Passo o endereço para quem aparecer no debate-papo, assim evitamos confusões de endereços. A noite promete. Não percam.

5 de jun de 2007

Assim me disse Carlos Moore

O Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira é uma obra monumental. Escrito por Noelly Novaes Coelho, inúmeras vezes é confundido com trabalho realizado por equipe de pesquisadores. A autora conserta, mas pede que não perguntem como ela conseguiu fazer tudo aquilo sozinha. Só sabe que trabalhou dia e noite, sem interromper suas atividades acadêmicas na USP, durante três anos, ao fim dos quais o dicionário estava pronto. A mim parece que essa capacidade imensa de trabalho está ligada à obstinação de construir uma obra. À certeza da importância que ela terá para a humanidade – no sentido pleno de significado para os seres humanos que somos. Para nos tornar melhores. Para alargar nossa compreensão das coisas. Para aprofundar o pensamento. A palavra Literatura está escrita com destaque no título do dicionário e isto parece ser mais do que um recurso de composição estética da capa. É que a obra trata de literatura infantil e juvenil. Não mapeia e analisa a simples escrita endereçada a crianças e jovens. Noelly está confortavelmente instalada entre os 82 e 84 anos e aconselha todas as pessoas a completarem 80 anos. Com saúde. Folhear o dicionário, rememorar a palestra de Noelly no 9o Seminário de Literatura Infantil e Juvenil da FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, trouxe à tona uma conversa que mantive com Carlos Moore, em 2006, enquanto nos deslocávamos do aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, para um seminário sobre literatura africana, em Contagem. Comíamos pães de queijo e falávamos sobre as agruras da constituição do intelectual negro. Carlos, das raízes mais profundas de sua generosidade me dizia em portunhol caribenho: “para escrever o livro tal, eu pesquisei 20 anos. Para escrever tal e tal, 17 anos. Eu não saio, não sou de badalação, como vocês dizem por aqui. Porque se eu ficar em eventos, eu não pesquiso, não escrevo”. Era uma dimensão do tempo da produção intelectual completamente nova para mim. Noelly escreveu o dicionário em três anos, mas pesquisou a vida inteira. Recolhe informações, organiza-as, analisa-as, ao longo da vida. Como o faz Carlos. Continuando a conversa com o pesquisador cubano, eu ponderava o quanto a superficialidade do debate racial no Brasil obliterava a produção de conhecimento mais estendida e aprofundada do intelectual negro brasileiro, cujo tema de pesquisa são as relações raciais e sua interface com variados campos do conhecimento. Basta ver nos dias de hoje, o tempo empregado por consistentes intelectuais negros, obrigados a comentar matérias medíocres, mas não inócuas, publicadas diuturnamente na imprensa brasileira, na tentativa incansável de provar a inexistência de racismo por aqui. E ainda assim, esses intelectuais produzem. Muito. Mas as labaredas da mediocridade chamuscam, desanimam. Apagá-las cansa e rouba energia preciosa de transformação. Que venha o bom combate. O debate sério. A argumentação que não idiotize o adversário como fez o semanário “Veja” (edição 2001, ano 40, número 22), ao abordar a suposta inexistência de racismo (que ela chama de raça) no Brasil. Continua na próxima edição.

4 de jun de 2007

Movimento Literatura Urgente

O Movimento Literatura Urgente está organizando uma reunião dos/as escritores/as com o Secretário Executivo do PNLL - Plano Nacional do Livro e Leitura, José Castilho, no próximo dia 7 de junho, em São Paulo, para discutir propostas de implantação de Políticas Públicas para a Literatura junto ao Ministério da Cultura. A reunião acontecerá durante o evento literário "Encontros de Interrogação", promovido pelo Itaú Cultural de 6 a 8 de junho, que aglutinará escritores/as de diversas regiões do Brasil. Pede-se a presença de todos os escritores e escritoras participantes (ou não) das mesas de debate do evento. É recomendável que todos/as leiam (ou releiam) o manifesto "Temos Fome de Literatura", encaminhado ao Ministro Gilberto Gil, com reivindicações e propostas do Movimento. O documento pode ser acessado aqui. REUNIÃO DOS/AS ESCRITORES/AS COM JOSÉ CASTILHO Dia 7/6 (quinta-feira), das 14h às 16h Local: Itaú Cultural / Sala Vermelha Av. Paulista, 149

Maratona de filmes do cineasta documentarista Jean Rouch, sobre cultura e outras temáticas africanas

Nesta Segunda-feira: 04/06/2007 Maratona de filmes do cineasta e documentarista Jean Rouch, sobre cultura e outras temáticas africanas. Local: Teatro da Maison de France Av. Presidente Antonio Carlos, nº 38 - Centro - Rio de janeiro Horário - Filmes: 10h - Os Mestres Loucos (30 min) 10:30h - Eu, um negro (73 min) 12h - Crônica de um verão (90 min) 13:30h - A pirâmide humana (90 min) 15h - A caça ao leão com arco (80 min) 16:30h - Pouco a pouco (90 min) 18h - Mosso Mosso (73 min) 19:15h - Mesa Redonda 20:30h - Tourou e Bitti (08 min) 20:45h - Jaguar (98 min) Maiores informações: Catherine Faudry Cinemateca da Embaixada da França Fone: 21-3974 6650 Fax: 21-3974 6865 catherine.faudry@maisondefrance.org.br

3 de jun de 2007

Travessia – a vida de Milton Nascimento

Faltavam seis páginas para terminar as 390 de leitura intensa da biografia do Milton, feita em todos os momentos possíveis e a abandonei. Não queria que o livro terminasse. Há muito um texto não me arrebatava assim. A autora, Maria Dolores, uma jovem jornalista de Três Pontas faz jus à orelha do livro e constrói a biografia como quem escreve um romance. Eu me envolvi tanto que no capítulo sobre a descoberta do diabetes tipo II do Milton, me penitenciei por tê-lo abandonado, por não ter estado junto dele. As biografias bem escritas nos apresentam nossos ídolos em humanidade plena e a gente passa a compreendê-los melhor. Por exemplo, no caso do Milton - embora ele goste de ser chamado de Bituca, mantenho a distância de quem é apenas fã - pude entender um pouco como ele se constituiu como homem negro, os conflitos raciais, a segregação racial vivida na Três Pontas de sua infância e adolescência. Mesmo sendo aquele que escreveu o discurso de formatura da turma de 8a série não pode participar do baile no clube racista da cidade. Lá não entravam negros. Não podia também assistir ali as apresentações de orquestras e bandas que passavam por "Trespa" (apelido dado à cidade). Ficava sentado no banco da praça, ouvindo pelas frestas de janelas e os amigos brancos entravam e corriam para lhe contar como eram os instrumentos, os músicos, o clima da apresentação. Criado por uma família branca de classe média, depois da morte prematura da mãe, sentia-se discriminado pelas famílias negras pobres que não o aceitavam por ter uma família branca. Não esqueçamos que todas essas famílias moravam numa cidade, na qual havia lugares estabelecidos para os negros. Milton saía da norma e os negros locais provavelmente não sabiam como lidar com isso. A vida de Milton Nascimento é fascinante, principalmente sua relação espiritual com a música. Há um capítulo para cada um dos discos confeccionados ao longo de mais de 40 anos de carreira. Em todos eles a presença dos amigos, fundamentais para ele. Aliás, o livro é uma louvação às relações de amizade. Só lamentei não ter conseguido saber ao fim da leitura, se Milton reconstruiu a relação afetiva com Pablo, filho único, ao qual a ditadura exigiu abandono total (Pablo morava em São Paulo e Milton no Rio) sob pena de “dar um sumiço” no garoto, caso não cumprisse as ordens à risca ou fizesse comentários sobre elas. O livro é pura poesia, em vários momentos dolorosa. É preciso ler pra ver e sentir.

1 de jun de 2007

Éramos todos negros, agora, somos todos brancos

"A notícia de que Neguinho da Beija-Flor tem 67% de sangue europeu deixou Michael Jackson roxo de inveja do DNA do colega brasileiro". Li isso no blogue de um amigo e não guardei a autoria, mas faz sentido. O Brasil é um país prodigioso na invenção de mecanismos discriminatórios complexos e eficazes, todos, com direito à premiação por efeitos especiais. Gostaria que os especialistas me respondessem se na hora de levar baculejo da polícia e de outras "toridades" que desconhecem o Neguinho-figura pública, os 67% de sangue europeu do Neguinho da Beija-Flor o protegerão. Se o atestado de sangue europeu o resguardará dos xingamentos racistas no trânsito. Se adianta fazer exame de DNA para quantificar o sangue africano ou europeu nos corpos negros, depositados nas gavetas do IML, a espera de enterro como indigentes. Tudo furado, de bala, faca, canivete, gilete, vidro. Será que o exame de DNA protegerá nossos meninos do extermínio? Se forem pretos com pelo menos 40% de sangue europeu não serão mortos?