Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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30 de out de 2009

O Pentes na real!

Agora é para valer! Chegou nos últimos minutos da prorrogação, mas chegou. Tá, chegou no início do segundo tempo de um 2 a 2 disputadíssimo por dois times à beira do rebaixamento. Falo da chegada do pacote de Pentes em Porto Alegre. Explico: a gráfica atrasou a liberação dos livros. Como mineiros não perdem o trem, ponderei com a Mazza Edições que seria mais prudente que um dos meus anjos-da-guarda, o Wanderley Moreira, fizesse a gentileza de ir até a gráfica em São Paulo (os livros foram impressos por lá - coisa do mercado global) e enviasse para Porto Alegre, por sedex, um pacote de livros. Decisão acertadíssima. Não é que a transportadora não coletou os livros que supostamente deveria coletar na quarta-feira, dia 28/10/09? Teve um imprevisto e não conseguiu chegar. Mas meu anjo-da-guarda já estava a postos, com tudo combinado para enviar os livros para cá, ontem e, como bom anjo-da-guarda, o Wander fez o que precisava ser feito. Muitíssimas gracias. Mas, se não tiver emoção, não tem graça. O lançamento será às 19:00 e o motoqueiro dos correios deixou o pacote de livros aqui, onde o aguardava, sem unhas, às 16:02. Tudo bem que havia todo o segundo tempo para jogar, mas a sensação térmica era a dos últimos minutos da prorrogação. Agora é seguir para a Palavraria, mantendo o ritmo de Twitter do blogue. Em dezembro, quando as águas dos lançamentos serenarem, devo virar twiteira também. Em princípio, aparecerei por aqui no domingo para comentar os eventos penteanos de hoje e sábado. Até lá!

O Pentes na 55a Feira do Livro de Porto Alegre

É necessária uma nova Abolição?

(Por Muniz Sodré). "Há uma questão atravessada na garganta de grupos empenhados na defesa das políticas afirmativas da cidadania negra. Trata-se de saber por que os jornalões (nome talvez mais palatável do que "grande mídia impressa") brasileiros não dão voz alguma a quem se manifesta favorável a medidas como a instituição das cotas ou ao Estatuto da Igualdade Racial. Como bem se sabe, esses jornais vêm dando largo espaço a jornalistas e intelectuais decididos a demonstrar que as ações afirmativas constituem uma nova forma de racismo, já que raça não existe e, ademais, como a população brasileira é predominantemente miscigenada, todos os nossos concidadãos teriam a sua cota de negritude. Logo, não faria qualquer sentido ficar procurando saber quem é negro ou branco para proteger o primeiro. Foi essa a questão debatida nos dias 14 e 15 de outubro, durante o seminário "Comunicação e Ação Afirmativa: o papel da mídia no debate sobre igualdade racial", realizado na Associação Brasileira de Imprensa por entidades como Comdedine, Cojira e Seppir. É bem sabido que há vozes discordantes das opiniões oficiais dos jornalões, por parte de jornalistas de peso, alguns dos quais pertencentes aos quadros desses mesmos jornais. É o caso de Elio Gaspari, Miriam Leitão e Ancelmo Gois. Estes dois últimos, aliás, foram palestrantes no seminário. Uma instituição retrógrada Na mesa sobre "a responsabilidade social da mídia e o debate sobre raça" – que dividi com a jornalista Márcia Neder, da revista Claudia –, comecei afirmando que há certas visibilidades que nos cegam. O sol, por exemplo, se tornado excessivamente visível (olhado de frente), nos impede de enxergar. Mas há também objetos sociais que, se tornados visíveis demais, podem bloquear a visão de quem antes acreditava ver. Parece-me ser este o dilema da cor, do fenótipo escuro, na atualidade brasileira, onde vislumbro um caso de cegueira cognitiva. De fato, a questão vem sendo tratada como ser pró ou contra o racialismo. A maioria dos favoráveis a propostas como o Estatuto da Igualdade Racial, cotas para universitários etc., lastreia os seus argumentos com as razões do anti-racismo; os desfavoráveis, embora reconhecendo a existência episódica e anacrônica de incidentes racistas, tentam fazer crer que vivemos no melhor dos mundos em termos de conciliação das diferenças étnicas e que seria, portanto, um retrocesso civilizatório racializar a população. Curioso é que esses mesmos argumentos desfavoráveis, sem que seus autores se dêem conta, são racialistas em última análise, ao apelarem para as noções de miscigenação biológica. Por outro lado, de modo geral, todos se habituaram a pensar na escravidão ora como uma mácula humanitária, ora como um anacronismo, uma instituição retrógrada na história do progresso. Vale, entretanto, apresentar uma opinião de outro matiz, a de Alberto Torres, autor de O Problema Nacional Brasileiro. Foi um dos grandes explicadores do Brasil entre o final do século 19 e início do 20. A saudade do escravo Conservador em termos sociais (refratário à urbanização e à industrialização), propugnador de uma República autoritária, Torres revela-se, entretanto, interessante em termos metodológicos e teóricos. Diz em seu livro que "a escravidão foi uma das poucas coisas com visos de organização que este país jamais possuiu. (...) Social e economicamente, a escravidão deu-nos, por longos anos, todo o esforço e toda a ordem que então possuíamos e fundou toda a produção material que ainda temos". Torres era, insisto, autoritário e conservador. Gerou epígonos como Oliveira Vianna, esse mesmo que chegou a justificar em sua obra o extermínio do "íncola inútil", isto é, do habitante das regiões empobrecidas do país. Era, entretanto, um conservador diferente: discordava das teses sobre a inferioridade racial do brasileiro, não era racista. Sua frase sobre a escravidão é algo a ser ponderado, principalmente quando cotejada com o dito de Joaquim Nabuco: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. (...) Ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância" (Minha Formação). É célebre essa passagem sobre a memória afetiva da escravidão – a saudade do escravo. Ela é a superfície psicológica do fato histórico-econômico de que as bases da organização nacional foram dadas pelo escravismo. Por isso, vale perguntar que apreensão os brasileiros fazem desse fato, pouco mais de um século depois da Abolição. Perpétuos cães de guarda Alguns pontos devem ser considerados: 1. A palavra "apreensão" não diz respeito a concepções intelectuais, e sim, à incorporação emocional ou afetiva do fenômeno em questão. No interior de uma forma social determinada, nós apreendemos por consciência e por hábito o seu ethos, isto é, a sua atmosfera sensível que nos diz, desde a nossa mais tenra infância, o que aceitar e o que rejeitar. 2. A reinterpretação afetiva da "saudade do escravo", que envolve (a) as relações com empregadas domésticas e babás (sucedâneas das amas-de-leite); (b) o afrodescendente como objeto de ciência (para sociólogos e antropólogos); (c) imagens pasteurizadas da cidadania negra na mídia. Diferentemente da discriminação do Outro ou do racismo puro e simples, a saudade do escravo é algo que se inscreve na forma social predominante como um padrão subconsciente, sem justificativas racionais ou doutrinárias, mas como o sentimento – decorrente de uma forma social ainda não isenta do escravagismo – de que os lugares do socius já foram ancestralmente distribuídos. Cada macaco em seu galho: eu aqui, o outro ali. A cor clara é, desde o nascimento, uma vantagem patrimonial que não deve ser deslocada. Por que mexer com o que se eterniza como natureza? Nada, portanto, da velha grosseria racista, da velha sentença de "pão, pano e pau" proferida pelo padre Antonil a propósito dos negros. Não há mais lugar histórico para o "pau" desde a Abolição, ou melhor, desde a Lei Caó. O argumento explicitamente racista não leva ninguém a lugar algum no império das tecnologias do self incrementadas pelo mercado e pela mídia. Mas é imperativo para o senso comum da direita social que as posições adrede fixadas não se subvertam. O escravismo é mais uma lógica do lugar do que do sentido. É dele que, de fato, têm saudade os que acham um escândalo racial proteger as vítimas históricas da dominação racial. E os jornalões, intelectuais coletivos das classes dirigentes, não fazem mais do que assim se confirmarem ao lhes darem voz exclusiva em seus editoriais e em suas páginas privilegiadas, ao se perpetuarem como cães de guarda da retaguarda escravista. É oportuno prestar atenção à letra da canção de Cartola ("Autonomia") em que ele afirma a necessidade de 'uma nova Abolição'". Fonte:http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=561CID001

29 de out de 2009

A orelha do Pentes!

"Cidinha da Silva é uma amiga minha que escreve como quem trança ou destrança cabelos e nos presenteia com pentes presentes cheios de passado que nos ajudam a destrinçar o futuro. Seus pentes são pontes de compreensão entre o que somos nós negros brasileiros agora, nossos avós recentes e os tais ancestrais africanos. E pontes entre nós e nossos filhos e sobrinhos, os que vêm depois de nós. Compreensão aqui que eu digo é aquele entendimento afetuoso, apaixonado até e cheio de compaixão no sentido de gratidão pelo que se é. Pelo que nós somos: família, solidariedade e contradição na difícil tarefa de encontrarmos, cada um, nosso papel de levar adiante a história coletiva e ao mesmo tempo afirmar o traço intransferivelmente pessoal do indivíduo. Estar com a mãe e nascer, ser da famíla e ir embora, constituir a sua própria (que ainda é a mesma). É aí que mora o penteado: saber qual é o pente que te penteia. Para os mais jovens, a quem se destina a princípio este livro, mas também para os nem tão jovens assim são generosas as pistas sopradas ao nosso ouvido por essa contadora de história. Escutadora atenta, agora vem a griot nos atentar doce e profundamente. Vem aqui nos alentar deschavando nós e nos ajudando a achar laços nesse desconchavado mundo. Vem reforçar nossas ligações básicas, comunitárias, domésticas. É tão certeiro e tão bem-vindo esse livro que lê-lo me encheu de orgulho e admiração. Pelo tema e pela forma. Sei que os próximos leitores de "Pentes" sentir-se-ão gratos a Cidinha da Silva, como eu". (Chico César, compositor).

26 de out de 2009

Léonora Miano, escritora de Camarões, divulga seu trabalho no Rio de Janeiro

"A escritora camaronesa Léonora Miano (http://www.leonoramiano.com) estará no Brasil entre os dias 25 e 29 de outubro, promovendo seu livro Contornos do dia que vem vindo (Pallas Editora, 208 pp., R$ 38), como parte das programações do Ano da França no Brasil. Uma das atividades da escritora será na Livraria da Travessa Leblon (Shopping Leblon - Av. Afrânio de Melo Franco, 290 - Loja 205 A. Rio de Janeiro. Tel.: 21 3138-9600), no dia 28, às 19h, onde ela participa de um debate. A obra da autora conta a história da menina Musango. Depois da guerra que devastou Mboasu, um país africano imaginário, os pais não conseguem mais cuidar de seus filhos. Eles são expulsos de casa, acusados de serem a causa de todos os seus males. Musango é uma destas crianças, determinada a reencontrar sua mãe a fim de compreender sua história. Neste relato em forma de monólogo, testemunhamos a angústia e o crescimento de uma criança perdida no meio de um país atormentado pela violência, pela prostituição e pela superstição religiosa. O olhar com que a jovem Musango observa a África, o seu povo e a vida que ama e odeia ao mesmo tempo, é o de uma criança que foi obrigada a crescer rapidamente, mas cheia de esperança no futuro. Agenda: Dia 26/10 – Segunda-feira. Encontro no Colégio São Vicente de Paulo; Dia 27/10 – Terça-feira. Das 8h - 10h encontro no Liceu Molière e às 15h encontro na Biblioteca de Sta. Teresa; Dia 28/10 – Quarta-feira. Das 10h30 às 11h45 encontro no Colégio Franco-brasileiro e às 13h30 encontro no Pedro II; Às 19h, Prosa nas Livrarias: Travessa Leblon Shopping Leblon (Av. Afrânio de Melo Franco, 290 - loja 205 A. Rio de Janeiro/RJ. Tel.:21 3138-9600); Dia 29/10 – Quinta-feira. Das 9h às 11h, na PUC-Rio (Departamento de História/Departamento de Letras/NIREMA). A autora - Léonora Miano nasceu em 1973 em Douala, na costa de Camarões. Nesta cidade ela viveu a sua infância e a sua adolescência, antes de partir para a França, em 1991, onde reside desde então. Ela tem quatro romances publicados: L’intérieur de la nuit (Knopf, 2005, Pocket, 2006), Contours du jour qui vient (Knopf, 2006, 2008 e Pocket Pocket Jeunesse 2008) e Tels des astres éteints (Knopf 2008) e Les aubes écarlates (2009). Seu primeiro romance foi aclamado pela crítica, tendo recebido muitos prêmios, como Les lauriers verts de la forêt des livres, Apocalipse 2005, O Prémio Louis 2006, Guilloux - Le Prix montalembert 2006, O prêmio René Fallet 2006, Le Prix Bernard Palissy 2006, O Prêmio camerounaise 2007 e o Prémio Grinzane Cavour 2008. Contours du jour qui vient aparece na primeira seleção do prêmio Goncourt em 2006 e tem uma excelente recepção por parte da crítica após a sua publicação. O prêmio Goncourt des Lycéens lhe é atribuído em 14 de novembro de 2006, coroando o início de sua carreira literária".

25 de out de 2009

O Pentes nos pampas!

Tempos de correria, estes. Lançamentos do Pentes e os trabalhos que se avolumam no final do ano. Por esta razão é provável que, durante este restante de outubro e todo o mês de novembro, apareça pouco no blogue com textos autorais. São muitos detalhes para produzir os lançamentos e divulgá-los, e também muitas viagens para fazê-los acontecer, somadas às viagens do meu trabalho regular. Há dias em que me pego confusa e por momentos esqueço onde estou. Mas vale a pena, sempre. Os lançamentos são momentos privilegiados para (re)encontrar amigos e leitores. São, além disso, um termômetro de como e por onde a obra da gente caminha. Por falar nisso, no final de outubro lanço o Pentes nacionalmente, em Porto Alegre, cidade querida, que me recebe tão bem. Dia 30/10, às 19:00, bato um papo com o pessoal que der o ar da graça na Palavraria (rua Vasco da Gama, 165, Bonfim, Fone: 51 32684260) e dia 31/10, às 17:00, estarei no Ateliê da Imagem, localizado no Armazem A do Cais do Porto, na programação Diálogos sobre literatura, da 55a edição da Feira do Livro de Porto Alegre. Espero por vocês.

19 de out de 2009

Cidinha da Silva estréia na literatura infanto-juvenil e apresenta sua obra na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre

"A escritora mineira, feminista e ativista do movimento negro Cidinha da Silva prepara o lançamento de mais um livro: Os nove pentes d’África. Desta vez, a autora direciona sua criação, a quarta, ao público infantil e juvenil. A publicação será apresentada, pela primeira vez no país, em noite de autógrafos na tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, em sua 55ª edição. O evento está marcado para as 19 horas do dia 31 de outubro, sábado, no Ateliê da Imagem, localizado no Armazém A do Cais do Porto. A promoção é de MARIA MULHER - Organização de Mulheres Negras com apoio da Liga Brasileira de Lésbicas e Grupo Mulheres Rebeldes. Antes da sessão de autógrafos, às 17 horas, no mesmo local, a autora estará participando dos Diálogos sobre Literatura a convite de organizações dos movimentos feminista e de mulheres. Com um texto pautado pela emoção, em que a prosa a cada linha é pura poesia, a mais recente obra literária de Cidinha da Silva terá, com certeza, leitura disputada pelos adultos. A história construída em 56 páginas, com ilustração da atriz Iléa Ferraz, é lançamento da Mazza Edições, editora de Belo Horizonte, Minas Gerais. Os nove pentes d'África" tecem um bordado de poesia e surpresa na tela de uma família negra brasileira. Os pentes herdados pelos nove netos de Francisco Ayrá, personagem condutor, são a pedra de toque para abordar a pulsão de vida presente nas experiências das personagens e rituais cotidianos da narrativa. O livro de Cidinha da Silva cativa pelo universo das relações familiares, no respeito à sabedoria dos mais velhos e à ancestralidade africana. A autora faz sua estréia num campo de poucos autores dedicados a escrever histórias para crianças e adolescentes. A motivação, segundo Cidinha da Silva, veio de casa, da família “e em especial dos pequenos, uma sobrinha, com seis anos, em processo de alfabetização, soletrava as letras do Tridente - referência ao seu segundo livro Cada Tridente em seu lugar” -. Aquilo me comovia e angustiava. Expliquei que se tratava de um livro para adultos, por isso as letras eram pequenas e daí sua dificuldade para ler. Ela então me perguntou: “- Tia quando você vai escrever livros para crianças?”. Era a senha que faltava para a escritora mergulhar nesse novo processo criativo. Ela está fascinada pela experiência. “Creio que farei este caminho por algum tempo. Estou determinada a ser lida pelos pequenos da minha casa, enquanto são pequenos, e fico felicíssima quando meus sobrinhos levam meus livros para a biblioteca da escola em que estudam, ou quando encontram meus livros por lá e vêm me contar. É delicioso sentir que eles têm orgulho de mim e agora poderão ler minha literatura sem esforço, apenas por prazer”. Outras publicações da autora – “Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras”, de 2003, um livro de ensaios organizado por Cidinha da Silva com a parceria de sete outros autores e autoras. “Cada tridente em seu lugar”, já em segunda edição (2006/2007), é o primeiro livro de ficção. Em 2008, Cidinha da Silva publica “Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor”, um conjunto de 26 textos, entre crônicas e mini-contos, que gira em torno das afetividades, da sexualidade, do amor e do corpo". Serviço O que é: Lançamento do livro de Cidinha da Silva: Os nove pentes d´África. Quando: sábado, 31 de outubro. Horário: 19 horas. Onde: Ateliê da Imagem, localizado no Armazém A do Cais do Porto - Porto Alegre/RS. Vera Daisy Barcellos - Jorn.Prof. 3.804 - Assessoria de Imprensa de MARIA MULHER - veradaisyb@yahoo.com.br

17 de out de 2009

A ferro e fogo

(Por: Ricardo Aleixo). "Se tomarmos ao pé da letra a oposição dicotômica inspiração/trabalho de arte, tornada clássica pelo modernismo, não teremos grandes possibilidades de fruir de forma mais intensa a obra de Jorge dos Anjos. Sempre atento à exploração microestrutural dos elementos com os quais trabalha – a despeito de sua recorrente opção pelas grandes escalas –, o artista dá a ver sua índole construtiva no modo como reconfigura antigas formas escriturais hauridas no repertório plástico-visual das culturas africanas e do Atlântico Negro – as mesmas que, em mãos/cabeças menos empenhadas na constituição de uma verdadeira poética, têm sido reduzidas à condição de meros resíduos de valor etnográfico ou folclórico. É que Jorge planeja, de fato, o passo a passo de seu trabalho. Não por pretender fundar uma via de criação inalterável, mas, pelo contrário, por pensar cada projeto como uma instância em que se deve levar em conta a hipótese do erro, do desvio e até mesmo do fracasso. O que faz, por seu turno, com que se torne impertinente falar em fracasso (absoluto) de um projeto, para lembrar o músico-poeta John Cage. Afirma-se aí, nesse ponto de intersecção entre o planejador, o planejamento e a coisa planejada, a maior das qualidades de Jorge dos Anjos como artista, a meu ver: sua capacidade de posicionar-se, creio que todo o tempo, em estado de disponibilidade criativa – atributo a que outros talvez prefiram dar o nome de inspiração. Tal característica é ressaltada nesta nova série de obras, A ferro e fogo, em que Jorge amplia a dimensão performativa de seu projeto estético por meio da utilização dos dois elementos citados no título, ou melhor, da ação desses elementos sobre um terceiro, o feltro. Mencionar a performance, aqui, significa destacar o quanto há de investimento do corpo na confecção de trabalhos que, apenas contemplados, de forma passiva, numa exposição, pouco diriam da dinâmica de que resultaram. Em outras palavras, o esforço de enfatizar os sinais da participação do corpo do artista na elaboração de sua obra tem como função principal trazer à luz a impactante “inversão performativa da injúria” operada por Jorge dos Anjos (essa expressão foi criada por Judith Butler para falar das estratégias de ressignificação lingüística desenvolvidas pelo feminismo radical dos anos 1970 que aproximaram o movimento das políticas queer – termo que surge, por sua vez, como resposta “de um setor da população gay, lésbica, transexual e transgênero dos Estados Unidos ao caminho que havia tomado o movimento homossexual mais influente”, de acordo com Carmem Hernández Ojeda). Em gesto análogo ao de “veados” e “sapatões”, que rascunharam novas hipóteses de identidade sexual a partir da ressemantização de expressões de cunho injurioso, em sua origem, Jorge dos Anjos dá outra destinação a um aparato tecnológico apropriado das práticas de terror utilizadas contra os milhões de homens e mulheres negros submetidos, no Brasil, ao trabalho escravo: a impressão a ferro e fogo, sobre seus corpos transformados em mercadorias, de monogramas e marcas de propriedade – e também de punição daqueles que eram apanhados em meio a tentativas de fuga, conforme previa um alvará real de 1741 (“Se lhes ponha com fogo uma marca em uma espádua com a letra ‘F’ …, e se quando se for executar essa pena for achado já com a mesma marca, se lhe cortará uma orelha”). Tendo confeccionado aproximadamente 100 ferretes que trazem na ponta variações das formas recortadas características do seu trabalho, cada um com cerca de 80 cm, Jorge coloca alguns deles na fornalha e, tão logo estes se encontram suficientemente aquecidos, pousa-os com um misto de suavidade e firmeza sobre a superfície da tela de feltro disposta no chão. Como não perceber, nos deslocamentos corporais do artista – ora assemelhados à dança, ora francamente desajeitados – em busca da melhor posição em relação à tela, a sutil lembrança de que o corpo negro já foi, noutros tempos, o suporte para a gravação de uma variada iconografia que expressava nada menos que uma visão de mundo ainda hoje detectável no imaginário da sociedade brasileira? Nenhuma injúria será apagada por esses raros gestos de “inversão performativa” – propósito que, de resto, jamais passaria pela cabeça desse artista para quem ética e estética, se não são necessariamente “uma coisa só”, de acordo com o conhecido aforismo do filósofo Wittgenstein, bem podem tornar-se, em certos momentos decisivos da história, faces complementares de uma mesma moeda –, mas somos para sempre afetados por tamanha beleza. Uma beleza inquietante, difícil, áspera, diga-se, porque advinda de um projeto pessoal de atualização e compartilhamento de perguntas tão incômodas quanto fundamentais sobre a recordação como matéria constitutiva da arte e, por extensão, da vida da comunidade [texto publicado no catálogo da exposição]".

14 de out de 2009

O Pentes em Salvador!

Contagem regressiva: ontem revimos o miolo do Pentes enviado pela gráfica, últimos acertos. Hoje, o Pablo devolveu o arquivo para a gráfica. Agora é só imprimir. A outra boa novidade é que recebi dois convites vindos de Salvador. O primeiro é para palestrar em evento da Red Pect, da Faculdade de Educação da UFBA, área de concentração: Africanidades, Corpo, História, Educação e (In)Formação, coordenada pelos queridos Duda e Janja. Estarei, então, em terras soteropolitanas, dias 11, 12 e 13/11. O segundo convite é para lançar o Pentes, provavelmente no dia 12/11, à noite, dentro da programação da Red Pect. Espero o pessoal da Bahia que acompanha o blogue por lá. A festa promete. Alô alô Landê! Rola uma Quartinha de Aruá na quarta-feira, 11/11?

Antes de nascer o mundo no aquém-literatura

(Por Ronald Augusto)"Durante a leitura de Antes de nascer o mundo, por diversas vezes recordava com surpresa a entusiasmada recepção contemporânea em relação ao ambientalista e escritor branco de Moçambique, Mia Couto. De volta à leitura do romance, apartado do rumor circunstante, era a desconfiança que secundava a surpresa. Com efeito, não consegui verificar em sua escrita motivos para toda essa admiração que alguns dos meus conhecidos faziam questão de manifestar ou, de lápis em punho, anotar em cadernetas guardando para depois. Por outro lado, uma constatação que encontrara, quase à mesma época, no artigo do escritor Nelson de Oliveira, intitulado “Entre o perigo e o conforto” (edição 112 do jornal Rascunho, agosto de 2009), embora não desse conta inteiramente de explicar a onda pró Mia Couto ‒ pois não era este o escopo do texto ‒, ao menos contribuiu para tornar razoável minha crescente incredulidade. Segundo o escritor-crítico paulista, nos dias atuais: “Praticamente não há mais maus escritores, tampouco escritores geniais”. Nelson de Oliveira afirma que esta “situação é global” e que surge da “combinação de diversos fatores virtuosos”, dentre os quais destaca “o aquecimento da economia”; a democratização ou o barateamento dos meios de produção; o interesse que o mercado brasileiro despertou nas multinacionais do livro; os prêmios em dinheiro; os cursos e oficinas; a pulverização de eventos e festas literárias. E neste rol, o crítico, tentando ilustrar o quadro de modo sintético e/ou otimista, ainda inclui o conhecido adágio do pensador Marx, que diz: “Da quantidade sempre brota a qualidade”. Pois bem, se me for permitido aproveitar uma parte do que afirma Nelson de Oliveira, toda essa conversa acaba por situar o escritor moçambicano, me parece, dentro deste elenco de autores da atualidade que a rigor não fedem nem cheiram, pois os mesmos têm a seu favor (?) o pano de fundo da inflação sob controle, o crescimento econômico, o maior poder aquisitivo da população e a oferta crescente de bens culturais a um consumidor cada mais informado que, sei lá por que motivo, se preserva (expressão das mais infelizes) de maneira a não distinguir os maus artistas daqueles que de fato interessam, porque sua, agora, virtuosa capacidade de endividamento, permite-lhe passar um cheque em branco em nome do princípio especulativo. Ora, mas se não há os representantes nem de um lado nem de outro, não há, em fim de contas, mais escritores. Pois, queiramos ou não, sempre iremos topar maus, bons ou excelentes escritores. O que acontece é que estamos abdicando de avançar alguns julgamentos públicos a respeito dessa classe de produtores, embora no espaço indecoroso da privacidade não nos furtemos de, já nem digo julgar, mas sob a vestimenta cínica da maledicência, sentar o sarrafo, pelas costas, nas realizações dos nossos iguais. A capacidade de juízo, no entanto, se alguns ainda a possuem, se esgarça cada vez mais a medida que subsome ante essa generosa acolhida temperada com a acídia traiçoeira. E o leitor-escritor, no trato e no traquejo com tanto texto imperito (inclusive com alguns que talvez sejam de sua própria lavra), percebe que tal capacidade já se perde por entre os seus dedos. O ambiente já não faz questão deste tipo de intervenção. Na verdade, o fato de não possuí-la lhe infunde até um grande alívio, pois se sentirá incompetente, impedido de emitir qualquer consideração sobre o valor destas obras suportadas pelo publicitário de plantão, e que talvez jamais digam a que vieram. E, a esta altura, como Mia Couto intervém no debate? Julgue o leitor por si. “Terminara o universo sem espetáculo, sem rasgão nem clarão. Por definhamento, exaurido em desespero. E assim, vagamente, meu pai derivava sobre a extinção do cosmos. Primeiro, começaram a morrer os lugares-fêmeas: as nascentes, as praias, as lagoas. Depois, morreram os lugares-machos: os povoados, os portos”; “Não chegamos realmente a viver durante a maior parte da nossa vida. Desperdiçamo-nos numa espraiada letargia a que, para o nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. No resto, vamos vagalumeando, acesos apenas por breves intermitências”; “Não posso ter certeza, mas pareceu-me ver os olhos do meu pai serem invadidos por uma inesperada água. Dentro dele se rasgava um dique, borbotoavam velhos prantos que durante anos soubera conter? Nunca poderei estar certo”. Dentro de tais condições de trabalho, o que resta a dizer sobre Antes de nascer o mundo poderia ser o seguinte. O romance tem parentesco com essa mesma espécie de qualidade que, segundo o parecer de Nelson de Oliveira, exsurge da quantidade e é encontrável a todo momento e em todos escritos do nosso tempo de homogeneidades líquidas e de relativa prosperidade não-excludente. Mia Couto se aplica com capricho numa ficção irritantemente mediana, à altura de um leitor cujo perfil retrata um sujeito apto a, graças à tolerância da mobilidade social, “acessar” essas obras belamente sumariadas pelos suplementos culturais. Ao mesmo tempo, apesar da advertência do editor, reputando Mia Couto como “um dos maiores nomes da literatura africana de língua portuguesa”, algo do estilo do moçambicano entra na conta inflacionária do literário em tom pastel ou bege, que tem como maior virtude a de combinar com o que quer que se encontre na sala do cidadão cultivado e humanista de classe média alta. Por sua vez, mesmo a poesia ― um pouco cansada, talvez, de se mostrar sempre intratável ―, e que até há pouco era “preservada” de tais circunstâncias, já agora começa a se sentir enfronhada e prestigiada nos debates onde as coisas são decididas, naturalmente, jamais levando em consideração os seus interesses. Mas isso é irrelevante, o que importa é cair dentro. Se na década de oitenta, vale rememorar, a poeta Cora Coralina se tornou a representante a um só tempo pop e naïf do gênero, hoje quem preenche a lacuna deixada pela velhinha, é Manoel de Barros. Em poucas palavras: um lance bizarro bem editado. Sua poesia é inofensivamente estranha; faz uns barulhinhos que, de imediato, são memorizados e citados em colóquios pelos mais juvenis e pelos canastrões infantis. Mas, o bom senhor não passa de um nanico bracejando nos riachinhos bifurcados do consonantal Guimarães Rosa. Porém, o que interessa para o assunto deste artigo é que ressonâncias dos cacoetes que vincam profundamente a poesia de Manoel de Barros rebatem de raspão na voz do premiado prosador africano. Não afirmo que Mia Couto sofra influência do poeta pantaneiro, nem ao contrário, que o simpático autor brasileiro tenha sido afetado pela escrita do romancista de Moçambique. O fato é que essas simplezas imaginativas de linguagem que ambos têm em comum, vão ao encontro do gosto do leitor meio culto da atualidade global-virtual. Todo o faz-de-conta da escrita sentenciosa, a metaforização em cima de paroxismos, a nomeação lisérgica do mundo e dos objetos, mais do que consagrar o terreno ambíguo e derrisório de uma auto-ajuda que afivela a sua máscara cult, têm inflado e autorizado a existência de sub-mia-coutos ou de sub-manés-de-barro militantes de uma literatura de inclinação xamânica ou canalha que permite ao leitor das redes sociais confinar menos com o texto do que com o autor que o escreve mirando a savana ou o pantanal. Alguns trechos em que o outro lembra um. “Nessas longínquas paragens, até as almas penadas já se haviam extinto”; “Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje”; “Vitalício inspirava como se a resposta pedisse muito peito...”; “Ora, viver é cumprir sonhos, esperar notícias”; “Diminuído na ilusão, acabei apurando outras defesas contra a nostalgia”; “...foi ali, mais do que em outro lugar qualquer que apurei a arte de afinar silêncios”; “E eu passei a suceder por marés, sazonalmente me inundando de mulher”; “É assim que envelheço: evaporada de mim, véu esquecido num banco de igreja”. Romancista de quatro costados, Mia Couto desenha em planta baixa na mente do leitor, um hospício-vilarejo alegórico chamado Jesusalém, dentro do círculo da palavra-trocadilho, carregada de sacralização e dessacralização ― equação verbal cujo gosto parafrástico se esgota nela mesma ―, o autor mantém confinados remanescentes tipos de um pequeno teatro do absurdo. A tensão dramática entre eles se dá na afetação de semelhantes lances de linguagem. Antes de nascer o mundo tenta colocar em cena esparsos símiles ideolinguísticos como homenagem à imaterialidade da enciclopédia oral de matriz africana. Em curso, o fetichismo da fala mestiça. Exemplares de um vocabulário crioulo: muchém, cubata, tando, carripana, etc., a música sedutora do “outro”, ouvida, lida aqui, em meio à algazarra da metrópole, antípoda das terras do sem-fim. Fetiche da fala mais do caapora (entidade mítica) do que do caipira, do homem da terra, do ribeirinho pensamentoso; macunaíma sombrio preso em labirinto circular. Mia Couto dá continuação ao traço modernista de fundação das literaturas africanas de expressão portuguesa, um dos primeiros passos, em âmbito estético, em direção à utopia da libertação nacional dado por muitos escritores de Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau no alvorecer da década de 1970. O romancista encarece em seu estilo alusões ao crioulo (compósito lingüístico formado a partir do contato do português com línguas autóctones, e que se tornam línguas maternas ou dominantes de certas comunidades socioculturais), e, por este meio, afirma uma fraturada identidade pós-colonial cuja intenção do gesto faz eco ou, de certa maneira, atende às demandas da dinâmica social em curso, votada a reparar injustiças e exclusões, nem tanto de um ponto de vista politicamente correto, mas a partir de sua versão diluída, a saber, reificando uma espécie de etiqueta da boa convivência multicultural. Antes de nascer o mundo é sinédoque romanesca de alguns aspectos da justiça restaurativa. Não obstante essas perspectivas sobre o texto literário representarem o reconhecimento da legitimidade de uma série de questões suscitadas pelo espírito de nossa época, cujo recorte de inclusão das diversidades se associa a um relativismo hipoteticamente progressista, não resta dúvida de que, sob tal rubrica, as linguagens analógicas tendem a ser reduzidas, por assim dizer, a dois modos de ser: a) num caso, restam como um sistema autista que mais se presta à omissão alienada ou à reprodução dos discursos hegemônicos; e b) emprestam eventualmente seu caráter melífluo às causas ideológicas otimizando o desempenho destas na efetivação dos seus resultados. Isto é, de um lado ou de outro, a palavra é considerada como sobra e/ou sombra da ação. Despojo dos conflitos político-sociais. No entanto, mesmo concordando com a eventual pertinência dessas pulsões ideológicas envolvidas na abordagem do texto criativo, não se pode perder de vista que isto ainda é uma parcela do problema ou um dos muitos meios de acesso ao indeterminado do discurso literário. A remissão à oralidade se entranha no texto de Mia Couto à maneira de um imperativo telúrico, neologismos não muito inspirados, marioandradinos, inclusive, tais como: “sacerdotar”, “abutrear”, “ladainhar”, são abonados, por um lado, pela pedra-de-toque da verossimilhança. O artesanato do romance, ser de linguagem que infla fantasmagorias através de um corso operístico de falas e subtextos, requer tais efeitos para fisgar a confiança, bem como a curiosidade do leitor, de modo a conduzi-lo com o mínimo de esforço até o desfecho da trama. Infelizmente, poucos prosadores têm colhão para sacudir o leitor da hipnose romanesca, arrastando-o para fora do tépido entretenimento no qual investe longos momentos de evasão, deleitando-se enquanto se ilustra. Somos leitores intolerantes aos piparotes machadianos. Mas, Antes de nascer o mundo não frustra o leitor-seguidor. Os personagens encarnam e se tornam um pouco mais plausíveis quando desembestam a desfiar sua discursividade um tanto marrenta e maçante, afetada por provérbios que, de resto, se constituem num piscar de olhos previsível à tradição oral das culturas africanas. A semiótica do romance é inspirada pelo inóspito dessas terras e savanas do sem-fim. Em seu “Livro Um: a humanidade”, Antes de nascer o mundo localiza o leitor diante de personagens que se encontram aquém de qualquer compreensão do desígnio a que estão sujeitos. Ocupam uma espécie de waste land, metáfora de um derradeiro campo de refugiados inventado pelo fanático Silvestre Vitalício e “desbatizado” por ele como Jesusalém. As estradas que conduzem até o lugarejo foram apagadas. A cena é atravessada por um permanente estado de retardo em que nada acontece exceto as falas messiânicas do pai, que interpõem sucessivas e reativas cláusulas de sabedoria falaciosa e reacionária às dúvidas e aos enseios de partir dos filhos, Mwanito e Ntunzi. E esta prática de Vitalício é reiterada a tal ponto que acaba por conferir ao personagem uma condição de títere ou de clichê ambulante. Depois de umas 30 páginas lidas, as reações do pai Silvestre Vitalício deixam de ser toleráveis e condizentes com o entrecho da narração e passam a ser dispensáveis. Aliás, o andamento de Antes de nascer o mundo é marcado por uma circularidade obsedante, o preço do confinamento. Invariantes de teor tanto discursivo quanto de ritmo dos episódios da história fazem a leitura se arrastar. Mia Couto transplanta aos grotões africanos a clicheria do fantástico. Pisa esse terreno seguro onde boa parte das experiências ficcionais desde meados do século passado até aqui também costumam ficar algumas das suas raízes. Em Antes de nascer o mundo as coisas começam e findam pela boca de Silvestre Vitalício, o pai, menos fundador mítico do que mitômano desta morada do sem-fim, à beira de um desenlace teleológico supersticioso, continuamente retardado. Vejamos uma cena. Depois de aplicar uma surra furiosa em Ntunzi como paga à sua tentativa de fuga de Jesusalém, Vitalício, debruçado sobre do filho que por pouco não matara, volta atrás e opera um gesto divino de misericórdia. Mwanito, o narrador, descreve assim a cena: “Quando Ntunzi já estava vazio, meu pai se inclinava até lhe roçar o rosto, e sussurrava, solene: ― Este é o sopro da vida. Aspirava uma generosa golfada de ar e soprava forte sobre a boca de Ntunzi. E quando o filho já estrebuchava, ele concluía triunfante: ― Eu é que vos pari.” O suporte poético do lugar-comum bíblico. Tropo que serve de alicerce à construção de Jesusalém, lugar-exílio onde o fracasso do adulto macho Silvestre Vitalício, mescla teatral de déspota e deus, normatiza a misoginia e os maltratos contra a infância como práticas pedagógicas. Mia Couto tenta descobrir algum lirismo de sabor onírico, mas que se revela retrô, por exemplo, na bizarra situação de sexo zoológico que Silvestre Vitalício protagoniza veladamente com a jumenta Jezibela, único rastro de feminilidade que o fundador de Jesusalém admite no lugar. O narrador Mwanito revela nas primeiras linhas do livro que jamais vira uma mulher naquele estirão de soledades masculinas. Só no “Livro Dois: a visita”, em que pese sua participação in absentia seja marcante em todo o livro anterior, Mia Couto introduz a figura da mulher. Marta, a portuguesa que partiu de Lisboa movida por um amor (bah!) entra em cena para revolucionar a vida dos homens, grupo de apenados a meio caminho de nada. Sem esperança e sem temor; sem passado e sem futuro. Manietados por este Silvestre Vitalício que bem poderia ser um dos seguidores do Conselheiro, o profeta da Jerusalém de taipa, tal como Euclides da Cunha metaforizava o arraial de Canudos. Antes de nascer o mundo alegoriza aspectos da guerra de libertação da colônia, transe decisivo na existência de qualquer moçambicano. Além do sexo cego e beligerante dos homens, e seu crepúsculo. Corte: o menino de engenho fode com um pé de bananeira (imagem fílmica que atribuo à prosa de Zé Lins do Rego). Mia Couto senta-se à mesa com fantasmas e fragmentos da guerra e escreve um poema sentimental sobre as suas verdadeiras vítimas, isto é, as crianças e as mulheres. Mas, a contrapelo, acho mesmo que o prosador não é um bom-moço, não obstante a fala edulcorada que Mia Couto concede ao narrador Mwanito no momento em que a narrativa chega ao seu fecho: “A ternura daquela mulher me confirmava que meu pai estava errado: o mundo não morreu. Afinal, o mundo nunca chegou a nascer. Quem sabe eu aprenda, no afinado silêncio dos braços de Noci, a encontrar minha mãe caminhando por um infinito descampado antes de chegar à última árvore” Mesmo que esta cena final comporte uma temperatura fake, típica do cinema provincianamente tolerável e comprometedor, me parece que a indignação contida, demonstrada pelo escritor moçambicano ao longo do livro com relação aos reflexos da barbárie em sua história e cultura, não participa da simulação. Sua fraqueza (para muitos talvez seja o seu “grande diferencial”) é a confiança num procedimento de linguagem excessivamente poético, e correto, mas tão-só, pelo lado da convencionalidade que o espírito da época sublinha".

13 de out de 2009

Ressonâncias do Tambor em Minas das Datas

"Oi Cidinha, Eu guardei um sorriso para lhe escrever, hoje, domingo, onze de outubro, cento e um anos do nascimento de Cartola. Hoje me peguei com seu livro, o Tambor, pouco mais de um ano e meio depois da data da dedicatória, 05/03/2008, na Cooperifa. E agora que o li pela primeira vez desde então, e de uma só levada, percebi que o peguei (ou fui pego) por necessidade da leitura dele; não por mera curiosidade ou “vamos ver o que tem nas estantes”. Fui pego num dia em que a tristeza e a alegria do amor se confundem em mim, um dia de separação e de prenúncio de primavera, de espinho e de flor, de rosas e moinho. Acho que não é o caso de entrar em detalhes do acontecido com meu coração, com as linhas das mãos e das vidas que se desenham aqui, mas quero dividir com você esse encontro de aconchego num momento difícil, de tentativa de compreensão de detalhes, de nuances da vida amorosa que só a expressão na franqueza e na sinceridade conseguem ousar e que se comunica pela arte, pelo diálogo, pela amizade, pelo tambor. Agradeço a você por ter escrito o livro, por tocar, com agulha de acupunturista, como o vento ou a chama da vela, a dor. Com a literatura acredito na presença desses pontos concentrados de poesia que nos ligam aos próximos itinerários. Pouco depois do Tambor, com o Desorientais, da Alice Ruiz, experimentei outra dose de pungência, tão necessária para mim hoje, tão vital. Cidinha, muito obrigado. Parabéns mesmo por seu livro. De um leitor comum... Alguns dos haikais do Desorientais: "árvore da felicidade / folha a mais folha a menos / vai vivendo / travesseiro novo / primeiras confissões / a história do antigo / outra vida chamando / enquanto essa se vai / desassombrando"

Homenagem a Fela Kut, em Salvador

12 de out de 2009

O Pentes ainda não saiu da gráfica mas já está no mundo!

Como vocês sabem, tenho muito alegria em participar de todas as etapas de feitura de um livro meu e, depois de pronto, dar os primeiros passos junto com ele. E quando ele passa a caminhar com as próprias pernas, gosto de saber por onde anda, em companhia de quem e perceber algumas das emoções que provoca. Livro para mim não é filho. Livro é livro, é obra de arte. Há pessoas, muitas até, que fazem analogias entre filhos e livros, dirão até que o que escrevi sobre o Pentes poderia ter escrito sobre um filho, mas não me convenço, livro é livro, e tem um lugar que filho não ocupa, e o contrário também é verdadeiro. Um livro eu faço como quero, defino a cara, a capa, a voz, o número de páginas, o ritmo da trama. Eu formato, eu defino, eu construo, e, se não gostar, ao final, tenho a opção de destruir, deixar guardado ou posso também refazer. O livro é algo que, como autora, eu manipulo. Filho eu amo como é. Um filho, se por desventura, perco, eu não reconstituo, não refaço, não recrio. Um livro, sim. Por isso acho que livro e filho são essencialmente diferentes e não faço analogias para achar que são a mesma coisa. O Pentes sai da gráfica daqui a uns quinze dias e, junto com amigos e amigas queridos, parceiros de sempre, estou organizando os lançamentos. Adianto os eventos já definidos: 30/10 em Porto Alegre, na Palavraria, espaço sempre acolhedor, desta feita em evento organizado pelo poeta e amigo Ronald Augusto. Dia 31/10 também em Porto Alegre, na Feira do Livro. Lançamento organizado por duas organizações de Mulheres: Maria Mulher e Mulheres Rebeldes. Dia 14/11 em Belo Horizonte, na sede da Companhia de Teatro "A Farsa", em bate-papo organizado pelo Espaço Griô, Companhia "A Farsa" e pelo amigo Anderson Feliciano. Teremos mais três eventos em BH, um para crianças, adolescentes e professores/as, organizado pela Mazza Edições, no próprio dia 14/11; algo organizado pelos amigos da Coletivoz no dia 13/11 e um happy our com amigos a amigas do movimento LGBT no domingo, 15/11. Mas ainda estamos em tratativas, assim que as coisas estiverem definidas, informo aqui. Dia 21/11 em São Paulo, dentro da programação de primeiro aniversário da Odun - Formação e Produção. Dia 26/11 no Rio de Janeiro, no Grupo Arco-Íris, promoção do Núcleo de Mulheres da Instituição. É isso. Espero por você que acompanha este blogue em algum desses momentos. Até lá.

Jorge dos Anjos abre exposição "Gravadura a ferro e fogo", em Belo Horizonte

9 de out de 2009

Exposição PICHA chega ao Brasil e destaca universo das Histórias em Quadrinhos africanas

Abertura: dia 14 de outubro, seguida de debate sobre o tema. Local: Museu Afro Brasil, Saõ Paulo. Data: de 15 de outubro a 08 de novembro de 2009. Endereço: Av. Pedro Álvares Cabral, s/no. – Parque Ibirapuera. Horário: das 10 às 17 horas, com permanência até as 18h, de terça a domingo. Informações: (11) 5579-0593 Estacionamento e acesso de visitantes: pelo portão 3 do parque Ibirapuera, (Zona Azul). Entrada: Grátis. (Texto de divulgação): "A inédita Exposição Picha, com obras de roteiristas e desenhistas de 16 países do Continente Africano será apresentada no Museu Afro Brasil, de 15 de outubro a 08 de novembro. Picha reúne originais de desenhos, álbuns, revistas e publicações de jornais e revistas, e ainda um importante banco de dados com informações sobre desenhistas, chargistas e caricaturistas. Além dos artistas africanos, participam da mostra o norte-americano David Brown, que virá ao Brasil especialmente para participar da programação do evento e o cartunista brasileiro e co-curador da exposição, Maurício Pestana, apresentando semelhanças e diferenças dos desenhos afro-descendentes destes dois países, junto com seus pares na África. A curadoria é da professora e pesquisadora de Histórias em Quadrinhos, Dra. Sonia M. Bibe Luyten. No dia 14, às 20h, no auditório do Museu Afro Brasil, haverá abertura com uma Mesa de Debates sobre o tema da exposição, com as presenças de David Brown, Maurício Pestana e do pesquisador Nobuyoshi Chinen, da Universidade de São Paulo (USP), contando com a mediação de Sonia Luyten. Capacidade 150 pessoas. Os principais nomes do universo dos HQs africanos foram selecionados para esta mostra. São obras que refletem em sua maioria cenas do cotidiano e a realidade sócio-política dos países daquele Continente. Estão na mostra produções de Farid Boudjellal (Argélia); Hecto Sonon (Benin); Barly Baruti (Congo); Pat Masioni (Congo); Pahé (Gabão); Ramón Esono Ebalé (Guiné Equatorial); Adjim Danngar (Chade); Didier Kassaí (Rep. Central Africana); Frank Odoi (Quênia); Marghuerite Abouet (Costa do Marfim); Kola Fayemi (Nigéria); Bob Kanza (Congo); Mohammed Nadrani (Marrocos); Dwa (Madagascar); Jean-Claude Ngmuri (Ruanda); Tayo Fatunia (Nigéria); TT Fons (Senegal); Themba Siwela (Africa do Sul); Karlien de Villiers (Africa do Sul). Em 2008, Picha foi exposta no Museu Africano de Holanda e em Lagos, na Nigéria. Este ano, a mostra participou do Festival de Histórias em Quadrinhos Nostrum, em Palma de Mallorca, na Espanha, onde ficou entre os meses de maio e junho. A iniciativa é da NCDO, organização holandesa que promove o desenvolvimento de cooperação internacional, sediada nos Países Baixos e conta com a colaboração da Fundação Príncipe Claus, da Holanda. O Universo das HQs africanas. Picha na língua Swahili, ou suali, quer dizer “desenho” e é uma corruptela da palavra inglesa “picture”, imagem. Os quadrinhos africanos estão indo muito bem. Há desenhistas africanos ativos em todo o continente. Há muitos Festivais de Histórias em Quadrinhos e muitas revistas e álbuns sendo publicados. No Senegal, por exemplo, há um seriado de televisão muito popular baseado em um personagem de quadrinhos: Goorgoorlu. A vida de Mandela foi descrita em quadrinhos na África do Sul e muitas revistas estão usando as Histórias em Quadrinhos para alertar os soldados sobre os perigos da AIDS na Etiópia. É muito surpreendente notar como as Histórias em quadrinhos refletem a realidade (política) africana. Para se falar também de coisas mais leves e alegres é preciso recorrer a subterfúgios. A famosa série de quadrinhos Aya de Ypougon, de Marguerite Abouet, da Costa do Marfim, é uma novela gráfica, tendo como foco o amor, brigas e adultério. Mas este quadrinho tem como cenário os tranquilos anos 1970 do país, quando a guerra civil da Costa do Marfim ainda estava muito longe de acontecer. Na África, as Histórias em Quadrinhos podem ser produzidas por um baixo custo, não é necessário ter diploma universitário e são facilmente acessíveis sob o ponto de vista de comunicação. Estes três fatores são favoráveis para um continente com uma infra-estrutura artística limitada. Existe, no entanto, um problema: os quadrinhos precisam ser distribuídos para poderem ser lidos e, muitas vezes, não existem canais para fazer isso. Além disso, apesar dos quadrinhos serem um produto barato, ainda é oneroso para o poder aquisitivo dos leitores africanos. Os artistas de Picha. Farid Boudjellal - Argélia - Farid Boudjellal nasceu em Toulon, em 1953, de uma família argelina, sul da França. Contraiu poliomielite com oito anos. Isto não o impediu de fazer seus estudos universitários, mas seu coração estava em outro lugar: nas Histórias em Quadrinhos. Sempre escrevia histórias curtas, mas passou a dedicar-se a um trabalho mais amplo: o livro L’Oud, Oud é um instrumento clássico árabe de cordas. Boudjellal mudou-se para Paris e deu início a seu próprio estúdio junto com Jose Jover e Roland Monpiere. A primeira parte de sua obra prima Petit Poilo foi publicada em 1998. É um romance todo desenhado sobre um pequeno menino chamado Mahmoud Slimani que cresce em Marselha e contrai poliomielite. Boudjellal enfrentou seus traumas infantis nesta série em que oferece a seus leitores um relance do cotidiano de um imigrante. Hector Sonon - Benin - Damien Hector Sonon nasceu em Benin em 1969. Lançou-se como cartunista e ilustrador no primeiro jornal diário do país, La Gazette du Golfe (A Gazeta do Golfo). Ele publicou suas primeiras páginas no jornal satírico Le Cafard Enchainé (O delator acorrentado). Seu primeiro álbum de Histórias em Quadrinhos, ‘Zinsou et Sagbo” foi direcionado para jovens e publicado em 1990. Durante anos, Sonon ilustrou muitos livros infantis. Em 1997, seu trabalho e o do desenhista Yvan Alagbe foram exibidos no Festival de Quadrinhos, Stripdagen em Haarlem, Holanda. Sonon também contribuiu para duas coleções de álbuns que ajudaram muito a difusão dos quadrinhos africanos. Barly Baruti - República Democrática do Congo - Barly Baruti nasceu em 1959, na cidade de Kisangani.Criou um livro para a Corporação Técnica Belga sobre a conservação da natureza: Le temps d’agir (Tempo de agir). Mais tarde desenhou outra História em Quadrinhos de tema ecológico com o título Objectif Terre! (Objetivo Terra!) Barly Baruti estudou roteiro em Angoulême e trabalhou nos estúdios Hergé. Baruti desenhou para as revistas Kouakou e Calao, fundou um Ateliê de Iniciação à Arte, um Centro Cultural e também lançou a revista mensal Afro BD, deu aulas, publicou o álbum La voiture c’est l’aventure (O carro é a aventura), em 1987, e fez desenhos para a edição africana de ‘Ppa Wemba: Viva la musica!’. Criou a famosa trilogia “Eva K” com o roteirista Frank Giroud, também já publicado na Holanda. Atualmente está trabalhando com o roteirista francês Alain Brezault em um quadrinho de ficção cientifica e criou o pôster e o logotipo para esta atual exposição: Picha. Pat Masioni - República Democrática do Congo - Pat Masioni nasceu no sul do Congo, em 1961. Estudou Artes na Academia de Kinshasa e tornou-se ilustrador desde 1985 em uma editora. Seus álbuns foram distribuídos para todas as paróquias católicas do país. Masioni foi diretor artístico em três edições do Festival de Histórias em Quadrinhos em Kinshasa. Masioni foi forçado a fugir de seu país por causa de suas ferozes charges anti governamentais e mora em Paris. Em 2005, ganhou fama internacional pela publicação de um álbum de Histórias em Quadrinhos em dois volumes sobre a guerra entre os Hutus e Tutsis em Ruanda, ocorrida em 1994. Este relato explícito da guerra em Ruanda coloca Masioni entre os grandes mestres das Histórias em Quadrinhos e Ilustração. Pahé - Gabão - Patrick Essono, que usa o pseudônimo de Pahé, nasceu há trinta anos no Gabão. No Primário já fazia desenhos nas paredes da escola. Mudou-se com sua família para a França. O jovem Patrick ficou surpreso ao descobrir costumes e hábitos tão diversos, e retratou-os com humor saboroso na primeira parte de seu livro: La vie de Pahé (A vida de Pahé. Ele escreve: “Meu país é rico em petróleo…É por isso que está cheio de favelas.” O estilo humorístico de seus desenhos foi influenciado pela revista francesa Hara-Kiri e por um de seus fundadores, o desenhista Jean-Marc Reiser. Em 2006, Pahé ganhou o primeiro prêmio na categoria charge no Terceiro Salão Africano do Livro, em Genebra. Ramón Esono Ebalé - Guiné Equatorial - Ramón Esono Ebalé (31 anos) é conhecido pelo pseudônimo de Ramon y Queso. Este nome é um jogo de palavras: presunto e queijo em espanhol. Quando Ebalé tinha oito anos, seus pais o colocaram em uma escola espanhola onde aprendeu a desenhar, a pintar e a esculpir, e provavelmente, onde adquiriu também seu apelido. Mais tarde, começou sua carreira nos quadrinhos sempre muito bem sucedida. Ebalé publicou em vários jornais e revistas da Guiné Equatorial mesmo quando submetidos a uma censura severa. Ebalé trabalha para o Centro Cultural Espanhol e Francês, para uma companhia americana e ilustrador da UNICEF. Nos últimos anos, tem trabalhado para lançar Para-Jaka, a primeira revista africana online de quadrinhos. Em 2006 realizou uma exposição no Festival de Angoulême, na França. Adjim Danngar - Chade - Adjim Danngar nasceu em Sarh, em 1982. Sob o pseudônimo de Achou, participou de vários concursos internacionais de Histórias em Quadrinhos e obteve o segundo prêmio na 10º Mostra do Mercato del Fumetto de Torino, Itália em 2004. De 2002 a 2004, trabalhou como ilustrador para o jornal Rafigui e para a revista satírica Le Miroir. Seus quadrinhos e ilustrações foram exibidos na França no Festival Texte et Bulles de Damprai e no Centro Cultural Francês em N’Djamena, no Chade. Danngar mora em Paris e tornou-se membro da organização L’Afrique Dessinée,. Junto com o desenhista italiano Marcello Toninelli, Danngar criou uma história, The plague of kings (A praga dos reis) que aborda o tema da imigração de países em desenvolvimento. Em 2006, Danngar participou do Festival de Angoulême, França. Didier Kassaï - República Central Africana - Didier Kassaiï nasceu em Sibut na República Centro-Africana em 1974. Sua carreira nas Histórias em Quadrinhos começou em 1997 quando foi trabalhar no jornal Le Perroquet. Em 1999, seu trabalho apareceu no festival Gabones Journées Africaines de la Bande Dessinée. Também contribuiu para o álbum de coleção A l’ombre du baobab (À sombra do baobá), publicado no festival de Angoulême, França.Em 2005, Kassaï criou um quadrinho educacional para o projeto Educa 2000 em Bangui. Junto com Olivier Bombasaro criou o personagem Gipépé, le pygmée (Gipepê, o pigmeu). Kassaï ganhou muitos prêmios, entre os quais o de melhor quadrinho africano não publicado em 2006 pela organização italiana Africa e Mediterraneo. Em 2007 ganhou o primeiro prêmio no Festival de Angoulême, França Frank Odoi - Quênia - Stephen Frank Odoi nasceu em Gana há 57 anos. Hoje vive em Nairobi, capital do Quênia Começou a trabalhar como ilustrador de livros de Medicina. Como free-lance, desenhou para as maiores editoras educacionais em Gana e Quênia. Seus trabalhos foram publicados em diversos jornais africanos e europeus. Sua História em Quadrinhos mais famosa é Golgoti que conta a chegada dos brancos na África da perspectiva dos negros. A história inicia-se com a vinda dos missionários e dos mercenários e termina com a independência na África atual. Akokhan, seu trabalho mais recente, foi publicado em 2007. O quadrinho conta uma história mítica e sangrenta de dois arqui-inimigos: Tonkazan e Akokhan. O subtítulo More than a comic story (Mais do que um quadrinho a cômico) parece profético após a publicação. Odoi nunca poderia ter imaginado que, logo depois da publicação de seu álbum, o Quênia seria vítima de uma guerra política entre Kibaki (presidente) e Odinga (filho do primeiro vice-presidente). Marghuerite Abouet - Costa do Marfim - Marguerite Abouet nasceu em 1971, em Abidjan, a antiga capital da Costa de Marfim e mudou-se para a França em 1983. Os primeiros sinais de seu sucesso no mundo dos quadrinhos surgiram a partir dos roteiros para a série Aya de Yopougon. Em 2006, Aya de Yopougon foi declarado o melhor álbum de Histórias em Quadrinhos do ano no Festival de Angoulême. O roteiro de Aya de Yopougon tem como cenário o subúrbio da capital de Abijao, O roteiro de Abouet concentra-se na vida amorosa de vários casais, usando-os para retratar os hábitos e costumes de seu país de uma maneira humorística. Os três volumes da série formam uma novela gráfica africana, repleta de intrigas, brigas e lágrimas. Cada volume termina com um capítulo em separado que descreve com pormenores de vestuário, culinária e tradições da Costa do Marfim. Kola Fayemi – Nigéria - Kola Fayemi nasceu em Ile-Ife *, na Nigéria, em 1957. Formou-se como ilustrador e seus trabalhos apareceram em várias publicações. Cria também os roteiros para uma novela de televisão Super Story (Super história). Fayemi participa de campanhas educacionais e ilustrou o livreto How you can combat HIV/AIDS (Como você pode combater o HIV /AIDS). Em 2006, contribuiu na exposição do Studio Museum em Harlem, Nova Iorque com sua história Monster in Khaki (Monstro em Khaki), onde chama a atenção para a violência policial em seu país. É a história de uma jovem que vai à delegacia para tentar liberar seu irmão e, em vez disso, é estuprada pelo delegado. De acordo com um projeto de pesquisa efetuado pelo Centro de Educação para Execução da Lei, mais de um terço de todos os prisioneiros sofre alguma forma de brutalidade policial. * A cidade de Ilê-Ifé é considerada pelos yorubas como o lugar de origem de suas primeiras tribos. lfé é o berço de toda a religião tradicional yoruba (a religião dos Orixás, o Candomblé do Brasil) Bob Kanza - Congo - Bob Kanza nasceu na República do Congo, em 1977. Imigrou para a Costa do Marfim por causa da guerra civil em 1997 e fez o curso de Informática. Em Abidjan entrou em contato com dois chargistas: Zohore Lassane e Illary Simplice que constataram seu talento para desenho e o colocaram como um dos editores de Gbich. Em seu novo emprego, Kanza aprendeu a desenhar quadrinhos, caricaturas e charges. Em abril de 2000, nasceu seu famoso personagem: Sergent Deutogo (Sargento Deutogo): um policial corrupto que oferece seu serviço em troca de umas moedas. Em conseqüência de outra Guerra Civil em 2002, Kanza mudou-se para a França. Desde 2003 vem trabalhando como ilustrador free lance e web designer. O álbum de sua primeira História em Quadrinhos - Sergent Deutogo (Sargento Deutogo) - foi publicado recentemente. Mohammed Nadrani – Marrocos - Mohammed Nadrani nasceu em 1954, nas montanhas Rif, Quando jovem, foi ativo na associação Marxista Leninista e foi preso durante um protesto estudantil em 1976. Sua aventura artística começou quando encontrou um pedaço de carvão na sua cela e começou a desenhar, o que o levou mais tarde a publicar o álbum de Histórias em Quadrinhos Les Sarcophages du complexe (Os sarcófagos do complexo) sobre os anos da ditadura. .“Antes de encontrar o pequeno pedaço de carvão, eu trabalhava com um pincel que fiz com linhas soltas da minha calça”, escreve em seu álbum. Como tinta, usava café. Detido, Nadrani foi preso sem qualquer julgamento e solto em 1984. “Tenho muito orgulho deste álbum de Histórias em Quadrinhos”, diz ele, “e uso-o para desafiar as pessoas que tentaram quebrar-me por meio da tortura Dwa - Madagascar - Eric Andrieantsialonina, ou Dwa, nasceu em 1982 na cidade de Alatsinainy Bakaro. Em 1993, mudou-se para Tana e ali Dwa entrou em contato com as produções de várias partes do mundo. Mesmo estudando Economia em 1999 na Universidade e assistindo curso de desenho, fez uma HQ de 264 páginas durante um período de três anos. Depois disso, produziu Pions - sobre o menino Benja que não tem consciência de seus dons sobrenaturais, comuns na cultura de Madagascar. Dwa frequentou mais dois cursos de Histórias em Quadrinhos organizados por Olivier Apollo e Serge Huo Chao Si, da ilha Reunião. Participou de festivais de quadrinhos em seu país e no exterior Em 2006, vinculou-se à Kirajy Band, uma associação de ilustradores, criando a revista satírica Saringotra. Histórias em quadrinhos egípcias - Em 2003, o Instituto do Mundo Árabe em Paris, dedicou uma exposição aos quadrinhos árabes: La Bande Dessinée dans le Monde Arabe (As Histórias em Quadrinhos do mundo árabe). A mostra apresentou os trabalhos de Sidi AliMelouah (Argélia) e Habib Bouhaoul (Tunísia). Se de um lado, há poucos artistas de quadrinhos libaneses, há um número considerável de desenhistas no Egito, principalmente no Cairo. Livros para crianças são, particularmente, uma especialidade egípcia. Super-Heróis: “Oferecendo modelos de personagens e, no nosso caso, de super-heróis do Oriente Médio, esperamos poder fechar a brecha cultural e social entre o Oriente e Ocidente!” Esta foi a maneira que o AK Comics do Cairo apresentou-se em seu website, onde dois milhões de pessoas visitaram este site todos os dias. Os quatro super-heróis do AK Comics são: Jalila, Rakan, Zein e Aya. São personagens heróicos com expressões orientais, porém moldados na mesma forma que os personagens de quadrinhos americanos. Jean-Claude Ngumire – Ruanda - Jean-Claude Ngumire nasceu em Kigali em 1970. Tornou-se fã de quadrinhos desde muito jovem e visitava várias vezes a biblioteca no centro de sua cidade. Como só encontrava quadrinhos ocidentais, passava muito tempo copiando Tintin, Blueberry, Asterix e Obelix, Lucky Luke e vários outros heróis. Em 1992 graduou-se na Academia de Arte de Nyundo, e fez seu início artístico como ilustrador gráfico. Desde então, passou a desenhar para vários jornais e revistas. Jean-Claude Ngumire ilustrou livros escolares e escreveu livros infantis. Desenhou o álbum Umwana nk’ undi, contam a história de crianças que precisaram fugir por causa do genocídio de 1994 em seu país. Em conjunto com seus amigos, Ngumire começou uma revista para jovens - Bakame, com duração de apenas três números porque se iniciou a guerra. Jean-Claude mora atualmente na Holanda Tayo Fatunla – Nigéria - Tayo Fatunla nasceu em 1961, na Nigéria onde trabalhou como cartunista, ilustrador e professor. Desenhou charges e cartuns sobre esportistas para o jornal The Punch. Foi para os Estados Unidos e estudou na Escola Joe Kubert de Histórias em Quadrinhos e Artes Gráficas, em Nova Jérsei. Em 1989, mudou-se para a Inglaterra começou a trabalhar para a revista pan-africana West-Africa, produzida em Londres. Fatunla é freqüentemente convidado para dar palestras e falar em várias universidades na França, na Itália, na Irlanda e na Etiópia. Ele organiza regularmente workshops: Como desenhar Histórias em Quadrinhos NaFrança, Fatunla foi premiado com o Crayon de porcelaine (Lápis de porcelana). T.T. Fons – Senegal - Alphonse Mendy, de nome artístico T.T. Fons, nasceu em Dakar. Em 1982, tornou-se chargista depois de participar de um concurso de talentos e ganhar o primeiro lugar. Criou uma História em Quadrinhos que se tornou muito popular para o jornal satírico Le Cafard libéré (O dedo-duro libertado).O nome do herói é Goorgoorlu que quer dizer “cooperar” em wolof, língua nativa do grupo étnico Wolof, falada no Senegal. Os senegaleses identificam-se muito com Goorgoorlu. Pessoas que moram nos bairros mais pobres de Dakar reconhecem muito bem em Goorgoorlu, sua própria família e seus eternos problemas. Seus desenhos acessíveis e sua adaptação para a televisão em episódios curtos, tiveram como resultado um grande número de seguidores entre os senegalenses. Themba Siwela - África do Sul - Siwela nasceu em 1978 na África do Sul.. Foi forçado a deixar a escola por problemas financeiros, porém, decidiu manter a cabeça erguida e enfrentar seu futuro com lápis, pincéis e papel. Trabalhou como artista de publicidade e pintor de retratos por muito tempo, passando a atuar como artista de quadrinhos e cartunista nos últimos sete anos. Siwela desenha mensalmente a História em Quadrinhos Majimbos para a revista Bona e tem produzido muitas histórias sobre segurança, educação e AIDS para revistas publicadas por organizações não governamentais. Contribui regularmente para a revista Mamba Comix e é membro da Associação dos Desenhistas e Ilustradores da África do Sul com outros 47 artistas. Siwela participou da exposição do Africa comics no Studio Museum em Harlem, Nova Iorque e com Zapiro, vencedor do Prêmio Príncipe Claus, foi a trabalho para Inglaterra. Karlien de Villiers - África do Sul - Karlien de Villiers nasceu na Cidade do Cabo em 1975. Ela estudou Design Gráfico na Universidade Stellenbosch e completou seus estudos em 1997. Quando retornou de uma estada no exterior, mudou-se para Pretória, onde trabalhou como ilustradora free-lance. Completou seus estudos de pós-graduação na Universidade de Pretória, e, em janeiro de 2006, obteve o grau de Mestre em Design da Informação. Karlien de Villiers publicou suas primeiras Histórias em Quadrinhos na revista Bitterkomix e I-Jusi,. Em 2006, sua primeira novela gráfica “My mother was a Beautiful Woman’ (Minha mãe foi uma linda mulher) foi publicado na versão alemã. O álbum, que retrata as memórias de sua infância com cenas do apartheid, foi lançado no Festival Internacional de Histórias em Quadrinhos em Lucerna e tornou-se um best-seller.

8 de out de 2009

Outros kuanzas chegando...

Ainda bem que as notícias boas também vêm em cascata. Há uns dias contava-lhes, bem feliz, que o Tambor estará nas bibliotecas escolares da Prefeitura de Belo Horizonte. A editora me informou há pouco que ele estará também nas bibliotecas escolares do Estado de Goiás, em 2010. O Tambor vai junto para o cerrado. Tridente e Tambor seguem de mãos dadas para as bibliotecas da cidade de Nova Era, interior de Minas Gerais. E o Tambor já está na lista de aquisições institucionais do município de Neves, Grande Belo Horizonte. Não é por nada, não, mas eu fico prosa. Ser (re)conhecida na própria terra é um barato e não é tão fácil. É só o começo. São os primeiros frutos da colheita.

6 de out de 2009

Curso: Caminhos Africanos e Giros Afro-Brasileiros – História e Cultura Negra, em Taboão da Serra, São Paulo

Sarau Bem Black leva poesia para às quartas do Pelourinho, em Salvador

(Texto de divulgação): "Idealizado pelo coletivo Blackitude – Vozes Negras da Bahia, o Sarau Bem Black promove sua terceira edição nesta quarta (07/10), a partir das 18h, no Sankofa African Bar (Pelourinho). Com entrada gratuita, o projeto abre espaço para valorização da poética divergente, de artistas que lançam novos olhares para a arte e cultura na cidade. Já realizado nos dias 23/10 e 30/10, o sarau é conduzido pelo poeta e professor de literatura Nelson Maca, e pela cantora Negra Íris, do grupo de rap R.B.F – Rapaziada da Baixa Fria. Eles se alternam com os convidados e no final “abrem” o microfone para a contribuição da platéia. Nesta edição, o evento recebe o poeta Giovane Sobrevivente e o grupo Choque Cultural, da San Martin. A programação tem início com a exibição dos filmes Vaguei nos livros....e me afundei na m .toda e Sarau da Cooperifa. (18h), ambos sobre literatura e poesia urbana e contemporânea. Ao longo do sarau, tem a discotecagem do DJ residente Joe, que desta vez mostra o repertório do músico nigeriano Fela Kuti, antes, durante e depois das intervenções poéticas, que começam às 20h. “Nossa idéia é que o Sarau Bem Black sirva como um espaço aglutinador para quem gosta de ouvir e recitar poesia e também para aqueles que desejam conhecer outras vozes da poética baiana”, afirma Nelson Maca, idealizador do projeto. Ele chama atenção para o caráter democrático do sarau, que reserva um espaço para quem quiser mostrar seus versos. Na próxima semana, encerra suas atividades experimentais recebendo dois importantes nomes da poesia negra baiana e brasileira: Hamilton Borges Walê e Landê Onawale. Depois é buscar as condições necesárias para a sua continuidade". Mais informações no blog www.saraubemblack.blogspot.com. SERVIÇO Evento: Sarau Bem Black. Quando: quarta-feira (07/10 e 14/10), a partir das 18h. Onde: Sankofa African Bar (Rua Frei Vicente, nº 7, Pelourinho). Entrada franca. Assessoria de Imprensa: Ana Cristina Pereira (71 - 9176-5755). Informações: Nelson Maca (71 - 3326-4620).

4 de out de 2009

O Reino de Ifé está em festa! Festeja os seus 50 anos!

Tanto a escrever e fico como o cronista no dia em que a crônica falta. Está tudo ali, mas a palavra não desentoca. E eu não desencanto. Ogum se manifesta! Ogum iê!!! Vou pra festa no cavalo que Ele me deixou.

3 de out de 2009

O Tridente em bibliotecas escolares de Belo Horizonte

Um dos significados da palavra Kuanza é o primeiro fruto da colheita. Meu kuanza vem chegando, manso e cheio de sabor. Meu Tridente – e está tudo em mim, assim, possessivo de proximidade – foi selecionado para uma compra institucional de livros da Prefeitura de Belo Horizonte, minha cidade. Mais do que um sentimento de alegria senti a força da justiça, pois o mesmo Tridente havia sido indicado em 2007/2008 mas a aquisição não foi efetivada porque as responsáveis por consolidar a venda, esqueceram-se do dia do pregão. Seja por irresponsabilidade, desorganização, descaso, excesso de trabalho, ou outro motivo, não importa, o caso é que por incompetência de outrem meu livro não está nas bibliotecas das escolas da minha cidade há mais tempo. Mas como dizem, a justiça tarda, mas não falha, a hora do Tridente chegou, agora publicada no Diário Oficial do Município e negociada diretamente com a editora, sem intermediários. Esta é outra das vantagens de sair da produção independente. Meu orgulho maior é saber que as escolas onde estudam os meus terão os meus livros. É uma sensação de dever cumprido. Ashé no caminho deste Tridente que solta fogo pelas ventas!

2 de out de 2009

Candombe afrouruguaio é patrimônio cultural da humanidade!

(Por Tania Ramirez, querida amiga) "Seguimos festejando logros: el 30 de setiembre la UNESCO declaró al Candombe Patrimonio Imaterial de la Humanidad. Nosotr@s como afrodescendientes y candomber@s nos sentimos felices de este reconocimiento al legado mas grande que nos dejaron nuestros ancestr@s. El CANDOMBE AFROURUGUAYO ahora sí oficialmente compartido con la humanidad!!!! Para que nuestra historia no sea olvidada: no dejemos de bailar, de cantar, de tocar y de sentir el Candombe!!!! Candombe fue,es y seguirá siendo Resistencia Negra y Combate al Racismo! AXÉ!!!" (Por Denise Mota, da Folha UOL). "O candombe é o ritmo popular por excelência do Carnaval afro-uruguaio, paixão que lembra o samba e que ocupa as ruas e os teatros da capital ao lado das murgas --agrupações que satirizam acontecimentos e personalidades, sobretudo políticas, em espetáculos que unem atuação e música. As apresentações duram 40 dias --dos fins de janeiro ao início de março--, o que faz os uruguaios se gabarem, não sem uma boa parcela de auto-zombaria, de ter "o maior Carnaval do mundo". O melhor do candombe vem logo no início dos festejos: nas primeiras semanas de fevereiro, Montevidéu pára para ver e ouvir as "Llamadas", noite em que os mais de 30 grupos de candombe da cidade dançam pelas ruas dos bairros Sur e Palermo, perto do centro, com seus tambores e estandartes. As calçadas e casas que conformam o perímetro do desfile ficam lotadas de admiradores e turistas. Para conseguir um lugar de onde seja realmente visível a passagem dos grupos, é necessário alugar uma das varandas com antecedência. As "Llamadas" reproduzem e recordam um ritual herdado da escravidão negra, quando os cativos, na falta de outras possibilidades mais diretas de comunicação, chamavam e alertavam seus companheiros com o toque dos tambores. No Carnaval uruguaio, as sonoridades de três deles permaneceram como baluartes: o "repique", o "chico" e o "piano", base sonora sobre a qual dançam as "vedetes" --mulheres nem sempre esculturais, mas com a mesma energia e orgulho das passistas brasileiras-, a "mama vieja" (personagem que simboliza as velhas escravas e que porta saia rodada, leque e pano na cabeça), o "gramillero" (companheiro da "mama vieja", figura encurvada que dança de chapéu e com a ajuda de uma bengala) e o "escobero" (bailarino que faz malabarismos com uma haste enquanto executa ágeis passos de dança). Se para sambar bem o segredo está em conseguir coordenar, com graça, naturalidade e ritmo, o gingado dos quadris e o movimento de pernas e pés, no candombe a ordem é manter cintura e pés em segundo plano, enquanto os braços ganham destaque, alternando-se suave e sincopadamente. Aprender não custa, literalmente, nada. Durante todo o ano, grupos saem às ruas para ensaios ou por pura diversão --especialmente nos bairros Sur e Palermo, redutos históricos da população negra de Montevidéu--, e então é possível entender melhor como é que funciona essa história de ouvir um batuque e sair balançando os braços, e não as cadeiras, por aí".

1 de out de 2009

Entrevista a Ellen Johnson-Sirleaf, Presidente da Libéria

Chefe de Estado da Libéria, a única mulher a comandar um país da África imagina como seria um mundo com as mulheres no poder. Deborah Solomon/NYT, postado no blogue de Geledés). Como única mulher a ocupar o posto de chefe de Estado na África, qual é a sua opinião sobre o recente documentário “Manda o Diabo de Volta para o Inferno” (Pray the Devil Back to Hell, 2008) que credita às mulheres da Libéria todo o fim da sangrenta guerra civil daquele país?Ellen Johnson-Sirleaf: Assisti ao documentário e aplaudo as mulheres que enfrentaram chuva e sol para promover a paz, defendendo a reconciliação e o final da guerra. Gosto de dizer que nosso país deve muito a elas. Sua posse, em janeiro de 2006, foi como a realização de um sonho feminista. Ellen Johnson-Sirleaf: As pessoas não pensavam que isso aconteceria na Libéria, pois somos um país pobre, devastado pela guerra e que, na opinião delas, precisava de um machão. Mas as mulheres mostraram que era diferente, e devo dizer que espero que estejamos provando que essas pessoas estavam erradas. Ao viajar pela África no início do mês, inclusive com uma parada em Monrovia, capital da Libéria, Hillary Clinton foi veemente ao reclamar sobre a epidemia de estupros no leste do Congo. Esse é um problema que também assola a Libéria? Ellen Johnson-Sirleaf: Com certeza esse é um grande problema na Libéria. E isso continua acontecendo por uma única razão: existe uma cultura do silêncio em razão da vergonha das famílias. Sim, em um caso recente em Phoenix, estado do Arizona, uma refugiada da Libéria de oito anos de idade foi estuprada por quatro garotos liberianos e os pais da menina a deixaram trancada do lado de fora de casa. Ellen Johnson-Sirleaf: Pedimos para que nosso embaixador intercedesse junto à família da menina para que ela ficasse em um abrigo de proteção por algum tempo. Também achamos que os garotos precisam de acompanhamento psicológico, pois ao longo dos anos de guerra, a moral, a disciplina e a legalidade se desmoronaram – fazendo com que garotos se tornassem homens antes do tempo. O que isso representa em relação ao caráter inerente ao homem? Ellen Johnson-Sirleaf: Eu só acho que, a menos que você tenha uma unidade familiar bem coesa, o caráter masculino tende a se tornar muito dominante, repressivo e insensível. Muito disso ocorre também devido à falta de escolaridade. À medida que mais homens começam a ter um nível escolar mais alto, e mais mulheres têm acesso à educação, o sistema de valores tem de ser aprimorado e o respeito à dignidade humana se torna melhor. Qual é o índice de alfabetização de seu país? Ellen Johnson-Sirleaf: Fico triste que o índice de alfabetização não passe de 30 por cento. Apesar de sua popularidade no exterior, em seu país você foi denunciada por sua associação ao ex-presidente Charles Taylor, que está sendo julgado no Tribunal Internacional de Haia por assassinato, estupro e pelo uso de crianças como soldados. Eu presumo que você tenha rompido com ele. Ellen Johnson-Sirleaf: Já faz muito tempo. Depois de seis meses dentro de seu movimento eu percebi que suas intenções estavam erradas e desde então venho lutando consistentemente contra ele. Você pretende convidar o presidente Obama para visitar a Libéria? Ellen Johnson-Sirleaf: Tenho certeza de que ele sabe que todos os países africanos, inclusive a Libéria, têm um convite para ele. A população simplesmente o adora. Fico muito surpresa – às vezes estou dirigindo e vejo o Mercadinho Obama ou o Armazém Obama. As pessoas abriram lojinhas e puseram o nome dele como homenagem. Qual é o seu salário como presidente? Ellen Johnson-Sirleaf: Recebo US$ 7.500 por mês. Qual é o salário médio de um funcionário público liberiano? Ellen Johnson-Sirleaf: Ele agora foi aumentado para um mínimo de US$ 80 mensais. Se as mulheres liderassem o mundo, as guerras ainda existiriam? Ellen Johnson Sirleaf: Não. O mundo seria melhor, mais seguro e mais produtivo. A mulher daria outra dimensão a essa tarefa e isso tem a ver com a espécie humana – tem a ver com o instinto materno. Mas, se as mulheres tivessem o poder, elas seriam mais propensas a adquirir os traços negativos que o mesmo alimenta – como o orgulho e o territorialismo. Ellen Johnson-Sirleaf: Levaria um período realmente longo de mulheres no poder para chegar-se ao ponto delas se tornarem homens. Em sua opinião, porque nunca tivemos uma mulher na presidência dos Estados Unidos? Ellen Johnson-Sirleaf: Tenho de que perguntar isso a vocês. Vocês é que têm de votar nelas.

III aniversário da Nandyala! Parabéns, vida longa!