Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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27 de jun de 2016

Cidinha da Silva em Paraty, 2016

Cidinha da Silva estará na Casa Libre/Nuvem de livros no dia 30 de junho às 18h! Seus livros estarão disponíveis para venda na Livraria de Paraty e na Livraria das Marés! Não perca este papo na FLIP 2016!


Carta aberta à Feira Literária Internacional de Parati – Cadê as Nossas Escritoras Negras na FLIP 2016?

Por Giovana Xavier

No dia 23 de junho de 2016, participei de um momento mágico, daqueles que precisaremos de muito tempo para conseguir elaborar seu significado, sua importância. Refiro-me a uma fantástica roda de conversa com diversas Autoras Negras (maiúsculo proposital). Realizada no Terreiro Contemporâneo, no Centro do Rio de Janeiro, a atividade contou com Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Débora Almeida, Elaine Marcelina, Esmeralda Ribeiro, Lia Vieira, Mel Adún, Mirian Alves e muitas outras mulheres negras que com sua vasta produção afirmam, em termos próprios, que o texto escrito pode ser o que quisermos que ele seja.

Roda Terreiro Contemporâneo
Roda de conversa com Escritoras Negras, Terreiro Contemporâneo (RJ), 23/06/16. Sentadas da esq. p/dir. Conceição Evaristo, Mel Adún, Esmeralda Ribeiro, Débora Almeida, Cristiane Sobral, Mirian Alves, Lia Vieira. Em pé (esq. p\dir.) Irís Amâncio, Dawn Duke e Elaine Marcelino.
Em círculo, aprendi com Esmeralda Ribeiro que para Mulheres Negras, a palavra representa nossa “navalha”. E é de posse desta “palavra-navalha” que registro minha indignação frente à ausência de Autoras Negras na programação oficial da Feira Literária Internacional de Parati 2016.
Em um país de maioria negra e de mulheres, portanto de maioria de Mulheres Negras, é um absurdo que o principal evento literário do país ignore solenemente a produção literária de mulheres negras como Carmen Faustino, Cidinha da Silva, Elizandra Souza, Jarid Arraes, Jennifer Nascimento, Livia Natalia e muitas outras. Que naturalizando o racismo, a curadoria considere que fez sua parte convidando autoras da raça Negra que infelizmente não puderam aceitar o convite. A não procura de planos a, b, c diante destas supostas recusas relaciona-se à falta de compromisso político da FLIP com múltiplas vozes literárias nacionais e internacionais, conforme destacou a literata negra Cidinha da Silva, autora de Sobre-viventeslançado este ano pela Editora Pallas.
Este silenciamento do nosso existir em uma feira que se reivindica cosmopolita, mas está mais para Arraiá da Branquidade, insere-se no passado-presente de escravidão, no qual a Mulher Negra é representada, vista e tratada como um corpo a ser dissecado. Um pedaço de carne que está no mundo para servir. Um objeto a ser estudado e narrado pelo outro branco. Foi assim com Maria Firmina dos Reis, Mulher Negra do Maranhão, autora de Úrsula, o primeiro romance abolicionista da história do Brasil, datado de 1859 e que, embora reeditado pela Editora Mulheres em 2004, mantém-se desconhecido da maioria das pessoas.
Capa Ursula
Capa da reedição de Úrsula. Florianópolis: Editora Mulheres, 2004.
Ursula
Imagem de Maria Firmina dos Reis, s/d.
Repetiu-se com Carolina Maria de Jesus, uma Mulher Negra. Mineira de Sacramento, a autora de Quarto de despejo: diário de uma favelada, de 1960, migrou para São Paulo onde trabalhou como empregada doméstica e catadora de papel. Carolina, que considerava “a favela o quarto de despejo da cidade”, priorizou em sua pena a humanidade e o cotidiano das pessoas negras. Uma leitura indispensável para se compreender a história das desigualdades de gênero, raça e classe no Brasil. O sucesso de Carolina e a visibilidade de sua obra, traduzida para dezenas de línguas como o japonês, não possibilitou que a intelectual tivesse sua condição de escritora respeitada, haja vista ter morrido pobre e esquecida pela opinião pública. A narrativa do biógrafo de  Clarice Lispector acerca de Carolina como uma “empregada doméstica” “tensa e fora do lugar” representa de forma violenta e emblemática o confinamento das Mulheres Negras às representações racistas.
Numa foto, ela [Clarice] aparece em pé, ao lado de Carolina Maria de Jesus, negra que escreveu um angustiante livro de memórias da pobreza brasileira, Quarto de despejo, uma das revelações literárias de 1960. Ao lado da proverbialmente linda Clarice, com a roupa sob medida e os grandes óculos escuros que a faziam parecer uma estrela de cinema, Carolina parece tensa e fora do lugar, como se alguém tivesse arrastado a empregada doméstica de Clarice para dentro do quadro. Ninguém imaginaria que as origens de Clarice fossem ainda mais miseráveis que as de Carolina. (Benjamin Moser. Clarice. Rio de Janeiro: Cosac Naify, 2011.)
Carolina e Clarice
Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus em sessão de autógrafos em livraria. Rio de Janeiro, anos 1960.
Em nome deste passado-presente, que também é acionado nas lamúrias da casa-grande frente à tortuosa regulamentação do trabalho doméstico, somos rechaçadas toda vez que assumimos papeis que para nós não foram pensados. No mercado editorial, que segue definindo a autoria como um lugar masculino e branco. Na academia, onde nossas pesquisas são desqualificadas como militantes (como se isso fosse um problema!). Nos editoriais de moda, que insistem em nos violentar com modelos brancas blackfaces. No confinamento à favela, à escravidão e ao trabalho doméstico nas telenovelas, salvo exceções que mais confirmam regras do que apontam para transformações. No desrespeito à nossa arte, como temos acompanhado na tentativa racista de boicote ao trabalho de Elza Soares.
O fato da organização da FLIP não assumir como prioridade indispensável a participação de escritoras negras nos cinco dias de evento faz parte do pacote de falas, movimentos e ações conservadoras que têm marcado a macro política nacional. O fato das 17 mulheres convidadas para o palco principal da feira serem brancas é parte de uma mesma obra. Um livro da supremacia branca, que se divide em muitos capítulos estruturados a partir das articulações entre racismo, machismo e transfobia. A composição ministerial do governo de Michel Temer, onde paira a exclusividade de homens brancos, cisgêneros, heterossexuais. As perdas irreparáveis como os cortes no Programa Bolsa Família. A criminalização do aborto. A extinção da Secretaria de Políticas para as Mulheres, da Secretaria de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial assim como da dos Direitos Humanos. Se antes tínhamos pastas autônomas, hoje nossas pautas ficam sob a chancela do Ministério da Justiça e Cidadania, que historicamente tem tratado as Mulheres Negras como objeto da lei através de categorias desumanizadoras como, por exemplo, “mãe de menor”. Em meio a todo este cenário de retrocessos que atingem de forma drástica as Mulheres Negras do Brasil, a FLIP, ao nos invisibilizar como autoras e produtoras de conhecimentos significativos constitui-se como o epílogo deste livro que bem poderia se chamar Lições do Brasil Antidemocrático.
Em uma Feira Literária Internacional que em 2016 traz como tema a “mulher”, sem no entanto considerar a pauta prioritária dos movimentos transfeministas e feministas negros acerca das diversas experiências que definem o que é ser mulher, vemos-nos obrigadas a retomar a pergunta de 1851 da abolicionista afro-americana Soujourner Truth: “e não sou eu uma mulher?” Em um país em que 93,9% dos autores são brancos e 72,7% homens, a feira que podia representar um contraponto, posiciona-se na linha “mais do mesmo”, comunicando para seu público que o ato de ler e escrever não é para o nosso bico. Como uma Mulher Negra, pesquisadora da escrita e da história das Mulheres Negras, eu encerro com Esmeralda Ribeiro: “ser invisível quando não se quer ser” (…) mas “a brincadeira agora é outra”. Somos humanas. Somos diversas. Somos visíveis.  E como autoras e donas de nossas próprias histórias faremos valer a luta ancestral para que nossa palavra seja impressa, ouvida e respeitada.
Esmeralda Ribeiro
Esmeralda Ribeiro no lançamento do Cadernos Negros 27 do Quilombhoje, dez. 2004.
Giovana Xavier – feminista negra, professora da Faculdade de Educação, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras/UFRJ e co-idealizadora da Campanha #vistanossapalavraflip2016 com Janete Santos Ribeiro.

24 de jun de 2016

Deu no UOL


Direitos humanos, racismo, homofobia: as batalhas de Cidinha da Silva

Rodrigo Casarin
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Foto: Elaine Campos
Foto: Elaine Campos
“Sobre-viventes”, é este o título do nono livro da carreira – o sexto de crônicas – de Cidinha da Silva, autora de 49 anos que estreou em 2006 com “Cada Tridente em Seu Lugar” e publicou obras como “Os Nove Pentes D'África” e “O Mar de Manu”, que, no total, já venderam mais de 30 mil exemplares, um número expressivo para quem costuma sair por editoras pequenas e médias. Como o nome da obra entrega, os textos do novo trabalho majoritariamente como protagonistas pessoas de nosso tempo, como William Bonner – em “O Dia em Que William Bonner Chorou” -, e Marco Feliciano, tema de “O Pastor-deputado Feliciano e a Lei 10.639”.
sobreviventesAssuntos contemporâneos, como questões relacionadas aos direitos humanos, os aplicativos de internet e discussões relacionadas a gênero, sexualidade, racismo e preconceito dominam as 41 crônicas do livro, lançado pela Pallas, nas quais muitas vezes Cidinha usa o humor e a ironia para tratar de questões bastante delicadas. Indiscutivelmente o engajamento social está no cerne de seu trabalho. “Não utilizo a literatura para levantar bandeiras. Abordo em minha produção literária, que manufatura retratos do cotidiano, temas e personagens que estão nesse cenário, cujos gritos não costumam ser ouvidos, pelo menos não com a acuidade necessária”, diz.
Para Cidinha, a arte, e em especial a literatura, deve ser embasada por três pilares: a ética, a estética e a política. “Nesse sentido, a arte que se ocupa do cotidiano de sociedades racializadas como a brasileira, e das coisas do mundo desigual, desumano, autoritário e violento, que experimentamos na cena contemporânea, contribuirá para a construção da equidade racial se desmontar os mecanismos ardilosos do racismo, seja como prática, seja como construção discursiva”, acredita. Além disso, lembra do “óbvio”, que cabe aos artistas enfrentar os que “oprimem e apequenam os seres humanos” por meio de suas criações, pela liberdade de expressão e pela insistência na beleza todas as situações, reinventando, de alguma forma, o próprio mundo.
Ministério da Cultura e o fim do Ministério dos Direitos Humanos
Tendo essa visão sobre a arte e sendo a responsável por organizar os livros “Ações Afirmativas em Educação: Experiências Brasileiras” e “Africanidade e Relações Raciais: Insumos Para Políticas Públicas na Área do Livro, Leitura e Literatura no Brasil” – título que dialoga com o tema do seu doutorado no Programa Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão de Conhecimento da Universidade Federal da Bahia – que a autora se posiciona sobre a tentativa do governo interino de Michel Temer acabar com o Ministério da Cultura (MinC). “O primeiro ato foi irresponsável, burro e totalmente desconectado da compreensão das grandes economias do mundo que, além de reconhecerem o significado da cultura e da arte para a humanidade, compreendem que a cultura carrega em si significado econômico que não pode ser desprezado.
Cidinha também olha com desconfiança para a recriação do Ministério. “Não me aparece que tenha havido qualquer reavaliação do erro brutal da extinção do MinC, e da fanfarronice de transformá-lo em secretaria do Ministério da Educação. Foi resultado apressado da pressão interna sofrida por meio da ocupação de representações do MinC e da Funarte em mais de 10 estados brasileiros e também do escárnio internacional ao qual o país tem sido submetido em decorrência das ações reacionárias desse governo golpista e ilegítimo”.
Outro Ministério extinto – e esse de fato enterrado – por Temer que está diretamente relacionado aos temas abordados por Cidinha em seus textos é o das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, cujo ponto final a autora define como “uma atitude esperável e cabível na falta de perspectiva humanista e de respeito a direitos expressos na Constituição por parte desse governo transitório. Como é de domínio público, mulheres, negros, grupos étnicos não-hegemônicos, adolescentes marginalizados e pessoas em situação de vulnerabilidade nunca tiveram lugar garantido no panteão dos ministérios que importam. Contudo, o antigo Ministério era símbolo pleno de lutas políticas travadas pela visibilidade e empoderamento dos sujeitos e suas histórias”.
Escritores negros e a Flip
Se “Sobre-viventes” fala muito sobre o lugar que o negro ocupa em nossa sociedade atual, talvez um reflexo de como ainda lhe falta espaço na própria literatura esteja na ausência de autores negros na Flip, o principal evento literário do país. Ao comentar o assunto, Cidinha questiona argumentos apresentados por Paulo Werneck, curador da Festa, que alegou que alguns escritores recusaram o convite para participar das conversas e que na própria plateia do palco montado em Paraty a presença de negros é escassa.
“É preciso haver um compromisso político em ter representadas as tais vozes que refletem as questões sociais. Se houver esse compromisso, serão encontradas formas de realizar um plano B, caso o plano A não dê certo. E um plano C, um plano D, caso necessário”, responde a autora ao primeiro ponto apresentado por Paulo. “Quanto ao segundo argumento, que extrapola o compromisso político e resvala na superficialidade explicativa que impede o desmascaramento dos mecanismos de perpetuação e reprodução do racismo institucional, contra-argumento com uma xarada infantil: 'quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha'? É certo que se tivermos mais autores negros e negras no palco, seus pares se animarão a estar na audiência. Autoras e autores negros devem estar na Flip (e em todos os demais espaços literários) porque constituem vozes importantes a serem ouvidas por todos os ouvintes. É simples e cristalino!”.

15 de jun de 2016

Sete notas sobre a Deputada Eronildes Carvalho


Por Cidinha da Silva

1 - Sim! É uma mulher negra como eu, como muitas de nós. Pertencemos à mesma comunidade de destino, ou seja, partilhamos origem racial comum, herança sócio-cultural semelhante e seremos alvo de racismo enquanto o racismo existir. Aqui terminam nossas semelhanças.
2 - No jogo da política partidária real, aquele mesmo que os amigos anarco-punks, anti-PT e anti-esquerda deram-se ao luxo de alijar-se ou de apenas gritar sandices contra quem optou por defender a democracia e por jogar o jogo possível da política, ela prestou um serviço ao país ao votar pela cassação de Cunha.
3 - Isso não significa que ela tenha mudado de campo. Eronildes Carvalho contínua não respeitando a pluralidade religiosa e propaga discurso LGBTfóbico que nos quer mortas, mortos, bem como quer ver as casas de asé no chão.
4 - Parece que além do espaço midiático que a pressão popular lhe facultou para dar visibilidade ao projeto político de futuro (candidatura a cargo do Executivo em Salvador) houve também orientação dos manda-chuvas da igreja a que pertence, para torcer o pescoço de Cunha e escanteá-lo em disputa "teológica" interna.
5 - Para mim, trata-se de uma deputada de direita e a compreendo e situo no mesmo campo que seus pares. Torço para que ela não tenha o mesmo final trágico de Celso Pitta, ex-prefeito de São Paulo, afilhado de Paulo Maluf, o corrupto-mor que continua lépido e fagueiro, e ele, Pitta, morto, desonrado e esquecido.
6 - Não componho com gente de direita e nem a defendo.
7 - Obviamente, não defenestro Eronildes Carvalho por ser negra. Obviamente, não! E sei bem como o racismo opera para destruí-la agora e como agirá eficazmente, quando ela deixar de ser útil ao projeto de poder deles.

14 de jun de 2016

Lista: 12 das mulheres mais influentes na internet

Por Nathalí Macedo

Nós já sabemos que representatividade importa.
A escritora e historiadora Michelle Perrot o sabia desde o século XX, quando escreveu, com razão, que as mulheres foram, durante muito tempo, deixadas à sombra da história.
Perrot, que estudou o processo da crescente visibilidade das mulheres em todas as esferas, reconheceu que o domínio dos meios intelectuais sempre fora predominantemente masculino, enquanto às mulheres era reservada uma educação tradicional que consistia basicamente em serviços domésticos, costura e boas maneiras.
O resultado não poderia ser outro: homens escrevendo e protagonizando a história.
Não podemos olvidar a carga de parcialidade que pesa sobre o autor e sobre o intelectual, e faz com que nenhum dos seus produtos artísticos esteja isento daquilo que ele próprio escolheu ser, porque, naturalmente, colocamos muito de nós em qualquer coisa que façamos. A arte é uma expressão de nós mesmos, por mais clichê que possa parecer.
Agora, que o século XXI nos presenteia com escritoras, blogueiras, vloggers, atrizes, roteiristas, poetizas, etc., nós podemos e devemos consumir o que emana de nossas companheiras, porque nossas vozes estão também nas vozes de outras mulheres.
Nestes tempos sombrios, com mulheres e negras excluídas dos Ministérios, nesta oligarquia de homens brancos, a única saída para que não percamos o que já conquistamos é que nos escutemos.
Pensando nisso, preparamos uma lista com doze das mulheres mais influentes da rede. A ordem é aleatória.
1. Júlia Tolezano (Jout Jout Prazer)
A jornalista carioca Júlia Tolezano, de 24 anos, ficou conhecida como youtuber com o vídeo “Não Tira o Batom Vermelho”, de fevereiro de 2015, onde fala de um jeito leve, assertivo e bem-humorado sobre relacionamentos abusivos.
Desde então, Júlia, hoje com mais de 800 mil inscritos em seu canal (https://www.youtube.com/JoutJout), posta vídeos sobre os mais diversos assuntos.
Ela conta que não tinha pretensões de se tornar uma vlogger famosa, porque inclusive não é dada a planejamentos – a coisa toda aconteceu de maneira absolutamente natural, e, arrisco dizer, por uma razão óbvia: grandes talentos, cedo ou tarde, precisam ser reconhecidos.
Jout Jout reúne todas as características necessárias para ser uma das grandes vozes das mulheres nesta geração: fala simples e direta e temas pontuais – feminismo, racismo, assédio sexual – abordados com leveza.
Para ela, o curso de jornalismo não a ajudou com os vídeos. “Eu sou uma péssima jornalista”, conta, com uma humildade franca. Ela já foi convidada para um programa de televisão e recusou, porque sente que o seu trabalho faz mais sentido na internet.
Nós agradecemos.
2. Djamila Ribeiro
Djamila Ribeiro é uma das grandes representantes do feminismo negro da atualidade. Ela é feminista, pesquisadora na área de Filosofia Política, colunista da Revista CartaCapital e recentemente foi nomeada secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo.
Em paralelo a todas essas funções, Djamila é, sobretudo, militante da causa da mulher negra, ministrando palestras e rodas de conversa em todo o país.
Em sua coluna (http://www.cartacapital.com.br/colunistas/djamila-ribeiro), ela aborda temas como racismo, fascismo, homoafetividade, cotas raciais e aborto.
A cereja no bolo dos textos de Djamila é a capacidade de relacionar questões modernas urgentes, nos trazendo a ideia necessária de que absolutamente tudo está interligado, como em sua última coluna (publicada no dia oito de junto) em que relaciona colonização e cultura do estupro.
Assim como Jout Jout, Djamila dialoga com o público de maneira simples e direta, mas com clara intenção de didatizar e teorizar as questões que aborda.
3. Clara Averbuck
Mais do que uma escritora, Clara é uma personalidade. Ler os seus textos me faz sentir confortável e, sobretudo, compreendida – do que uma mulher feminista precisa mais do que ser compreendida por outra mulher feminista?
Clara Averbuck personifica a coragem quando toca em assuntos delicadíssimos em um tom de confissão que nos faz concluir, com alívio: sim, nós podemos. Nós também podemos nos sentir cansadas de vez em quando, nós também podemos postar fotos de biquíni na internet, nós também podemos perder a paciência e a didática.
Ela escreve, enfim, textos que abraçam e são a própria compreensão do que é ser mulher no Século XXI. No http://claraaverbuck.com.br/ e http://lugardemulher.com.br/author/clara/.
4. Cidinha da Silva
A escritora e historiadora mineira Cidinha da Silva é autora dos livros “Racismo no Brasil e afetos correlatos” e “Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil”, “Cada Tridente em seu lugar”, “Os Nove Pentes D’África”, entre outros, além de blogueira e colunista dos portais Diário do Centro do Mundo, Fórum, Geledés, e no seu blog pessoal (http://cidinhadasilva.blogspot.com.br/)
Cidinha se auto-define, com razão, como uma escritora politicamente posicionada. Com uma escrita ácida e original, é considerada um dos maiores nomes da literatura afrodescendente.
Cidinha, prestes a completar dez anos de carreira, lança este ano o seu novo livro, “Sobre – Viventes!“, uma compilação de 41 crônicas.
5. Cynara Menezes
Cynara Menezes é a idealizadora do blog Socialista Morena, que, segundo ela mesma, é um espaço virtual de ideias e notícias com viés esquerdista. Mas também de literatura, música, cinema, HQ, humor, viagens.
Ela tem toda a razão: o blog – que acompanho há um tempo considerável – aborda com um senso crítico afiado os mais variados temas, e, principalmente, analisa com coerência e bom-humor o medonho cenário político atual.
A jornalista formada pela Universidade Federal da Bahia já transitou por diversos veículos midiáticos, como Jornal da Bahia: Folha de S.Paulo, Estadão, revistas IstoÉ/Senhor, Veja, Vip e Carta Capital, e é atualmente colunista da revista Caros Amigos e do próprio blog, é claro: www.socialistamorena.com.br
6. Bia Bagagli
Transativista e estudante de letras da Unicamp, Beatriz Pagliarini Bagagli escreve no Blog Transfeminismo (http://transfeminismo.com/) sobre feminismo interseccional relacionado às questões trans.
Bia foi a primeira mulher trans a solicitar o nome social na Unicamp, e desde então milita pela causa, abordando temas como feminismo trans inclusivo, não-binaridades, transfobia, política, democracia e preconceitos.
Com uma escrita direta e honesta, é um dos grandes nomes do transfeminismo atual e ratifica a importância da visibilização da mulher trans.
7. Tati Bernardi
Escritora, publicitária, redatora e roteirista paulistana, Tati Bernardi lançou este ano o seu último livro, “Depois a louca sou eu”, em que fala, predominantemente, sobre a sua experiência com o Transtorno de Ansiedade.
Tati é uma das minhas escritoras vivas prediletas porque consegue pegar o leitor pelo coularinho e não deixá-lo ir embora até que tenha terminado a última linha.
Eu, por exemplo, comprei um de seus livros e sentei-me no café da livraria para ler algumas páginas antes de levá-lo para casa, e, quando me dei conta, o livro havia acabado.
A escritora tem ainda mais uma coisa arrebatadora: ela não se leva muito a sério. Ler os seus livros é como sentar-se com ela para uma conversa de comadres. E mesmo tão leve e despretensiosa, Tati consegue alcançar o mais fundo de nossas almas.
Sinto falta de um pouco mais de ativismo em suas colunas, mas a falta de posicionamento – ela ainda fala timidamente de temas como política e feminismo – não é capaz de anular o seu talento.
Atualmente, escreve para a Folha às sextas (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatibernardi/).
8. Eliane Brum
Eliane Brum escreve com uma sofisticação que poucas conseguem alcançar.
Sofisticação, aliás, é o seu nome do meio, e eu não estou me referindo a uma sofisticação fútil: Eliane é sofisticada nas palavras e na visão de mundo (e ainda assim consegue ser absolutamente acessível).
Ela escreve com lucidez sobre política, aborto, religião e muitos outros assuntos tão complexos quanto estes.
Eliane é jornalista, escritora, documentarista e – com redundância e tudo – uma cronista de talento excepcional. Atualmente, escreve para o El Pais (http://brasil.elpais.com/autor/eliane_brum/a) e The Guardian (http://www.theguardian.com/profile/eliane-brum).
9. Lola Aronovich
Lola Aronovich é uma das mais antigas blogueiras feministas de que se tem notícias. Ela é professora da UFC, doutora em Literatura em Língua Inglesa pela UFSC e escreve desde 2008 em seu Blog “Escreva, Lola, Escreva” (http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/) sobre cinema, literatura, política, mídia, e, segundo ela própria, sobre o que mais lhe der na telha, mas também e principalmente sobre feminismo.
Por ser ativista feminista, Lola foi ameaçada de morte no final do ano passado, por um grupo de “defensores dos direitos dos homens” (pasmem) que divulgaram o seu endereço residencial e ofereceram recompensas para quem calasse Lola para sempre.
Felizmente, ninguém conseguiu calá-la, e ela continua nos agraciando com seus textos.
O blog “escreva, Lola, escreva” é uma espécie de depósito de impressões variadas acerca dos assuntos que interessam às mulheres. É como um olhar feminino sobre o mundo, do jeito mais simples e próximo de nós, mulheres, possível.
“Sou feminista desde a mais tenra infância. Tudo que escrevo, tudo que falo, reflete meus pontos de vista”, declara.
10. Marcia Tiburi
Márcia Tiburi ocupa o último lugar desta lista apenas porque alguém precisava fazê-lo (e eu absolutamente não racionalizei esta ordem), mas é dona da minha incondicional admiração.
Graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia (UFRGS, 1999), Marcia publicou diversos livros de filosofia, dentre eles “Como conversar com um fascista”, sucesso de público e crítica.
Em um evento literário conduzido por ela e que tive o prazer de assistir, Marcia conta que a ideia do livro surgiu diante dos discursos autoritários por ela percebidos durante um jantar de natal.
Declaradamente feminista e de esquerda, ela tem participado ativamente dos acontecimentos políticos no país e fala sobre mídia, ideologia, política, poder, feminismo e qualquer outro assunto que lhe aprouver, e escreve atualmente na Revista Cult (http://revistacult.uol.com.br/home/category/blog-marcia-tiburi/).
Ainda no evento literário em questão – a saber, “Mulher com a palavra”, em Salvador – ela proferiu a frase que certamente será capaz de despertar a curiosidade do leitor em conhecê-la (se é que isto não já se deu):
“Toda mulher deveria ser feminista, mesmo que só por gratidão.”
11. Jandira Ferghali
A popularidade da deputada federal Jandira Ferghali (PSOL) na internet deve-se, certamente, ao modo como seus artigos dizem aquilo que precisa ser dito, sem a menor cerimônia e sem meias palavras.
Ela dá nome aos bois e fala em golpe, fascismo e ódio de classes com todas as letras, sem jamais perder as estribeiras – sim, as mulheres são boas nisso.
Ferghali escreveu nada menos que o texto em vigor da Lei Maria da Penha (Por essas e outras, ela me representa).
É possível acompanhar os artigos de Jandira aqui: http://sigajandira.com.br/site2/category/opiniao/
12. Renata Paskus
Renata é blgueira, modelo Plus Size e idealizadora do Blog Mulherão.
Suas dicas de moda são voltadas às mulheres acima do peso e, exatamente por isso, transcendem a própria moda:
O que Renata Paskus faz é empoderar mulheres, colocá-las de bem com seus corpos e com o seu peso e poucas coisas são mais importantes do que isto considerando os tantos padrões de beleza que nos são impostos (também e principalmente pelas próprias blogueiras de moda).
Ela escreve sobre moda plus size, beleza e cuidados no http://blogmulherao.com.br/.
(Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).
Nathali Macedo
Sobre o Autor
Colunista, autora do livro "As Mulheres que Possuo", feminista, poetisa, aspirante a advogada e editora do portal Ingênua. Canta blues nas horas vagas.

Do jornal impresso à Web: um percurso da crônica brasileira - mini-curso de Cidinha da Silva na Iná-livros, em São Paulo


7 de jun de 2016

Representatividade negra nas artes

“O lugar de fala é o lugar da resistência”

Marcos Alexandre e Cidinha da Silva refletem sobre o protagonismo na construção das narrativas sobre o negro

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O pesquisador Marcos Alexandre conversa sobre literatura e representatividade negra nas artes

Logo após o lançamento do livro “Sobre-viventes!”, de Cidinha da Silva, amanhã, às 19h, no Tambor Mineiro, o público da Mostra Benjamin de Oliveira é chamado a participar de uma conversa com a autora e o convidado Marcos Antônio Alexandre, professor da Faculdade de Letras da UFMG. “Fico feliz que estamos em junho discutindo essas questões relativas ao negro. Precisamos ocupar todos os meses e não apenas maio e novembro”, comenta o professor.

Além das especificidades da escrita de Cidinha, a representatividade será um dos assuntos da discussão. “O lugar de fala é o lugar da resistência. É mostrar trabalhos que possibilitem falar do lugar dessas identidades, desses sujeitos negros, de forma que eles estejam no centro, como a força motriz. Eu acabo me repetindo quando falo disso, mas esse discurso ainda é necessário”, observa o pesquisador.

A busca de Marcos é também compartilhada e reforçada pelos trabalhos inscritos para a Mostra Benjamin de Oliveira. “A mostra traz trabalhos de dança, circo, teatro, literatura, o que revela que há muita produção e um leque amplo de trabalhos e pessoas negras se dedicando à arte. Como negar que há trabalho de qualidade sendo desenvolvido?”, afirma. “Ao observar os textos que recebemos, encontrei muita coisa potente que perguntava onde está o negro, as vozes do negro, os discursos, os corpos. Essas questões demonstram que esses sujeitos buscam o lugar de fala, e precisam ser representadas”, completa.

É a partir do lugar que ocupa que Cidinha explica certa confusão que existe sobre a participação e o apoio em lutas que não dizem respeito, diretamente, a um determinado sujeito. Quem pode falar?
“Gosto de pensar as coisas a partir da literatura e encontro duas questões distintas. Uma é a legitimidade que eu tenho, como mulher negra, pra falar de uma série de temas, mas há uma distância entre essa legitimidade e sua realização na forma literária. Eu preciso ter vivência na literatura para transformar isso em bom texto literário”, explica.

Já do ponto de vista da cidadania, ela compartilha o compromisso com toda a sociedade. “É bom que a questão da superação do racismo não seja uma responsabilidade exclusiva das pessoas negras. O que o racismo engendra enquanto privilégio precisa ser desconstruído e enfrentado por quem pertence ao grupo hegemônico”. Mas ela ressalta: “O que não é possível e aceitável é que as pessoas falem pelos discriminados”. 

Para exemplificar o pensamento, ela cita Amílcar Cabral, um dos líderes do processo de independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, que afirmava: “quem quiser vir, venha conosco ao nosso lado, porque à nossa frente estaremos nós mesmos”. “Essa dimensão da luta racial se estende à emancipação das mulheres, dos sujeitos LGBTIs. As lideranças emergem desses grupos e há de haver por parte das outras pessoas o entendimento de que elas precisam servir a essas lideranças”, explica.

Mitos. Além de curador da mostra, Marcos Alexandre também participa do evento com o projeto Contos de Mitologia: Histórias para Encantar. Com o objetivo de dar visibilidade às culturas tradicionais, o projeto ressignifica histórias que são levadas para escolas públicas e busca valorizar, por meio da mitologia, narrativas que irão abordar o universo africano, afro-brasileiro e indígena.

“Esse é um projeto de formação que realizamos dentro das escolas. Levamos as histórias, abordamos questões como a religiosidade, a cultura e tentamos conversar com alunos e professores a partir dos mitos que são apresentados”, explica.

Durante a mostra, a logística se inverte e os estudantes da rede pública vão ao Tambor Mineiro para ouvir as narrativas que dizem do lugar de vivência de sujeitos discriminados.