Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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29 de abr de 2014

Santo deus das bananas olhai por eles!

Por Cidinha da Silva





Olhai pelos tolos seguidores dos idiotas, senhor deus das bananas. Porque eles são ingênuos, não sabem o que fazem. Mas, aos imbecis, portadores de mau caráter, aproveitadores de todos os matizes, racistas quatrocentões e também os de primeira geração, aplicai a dureza da lei.

Racismo é crime. Sem açúcar e sem afeto, ao contrário do que pensam os adoradores da banana. É preciso investigar e punir para coibir manifestações futuras. Assim fez o Villarreal, time responsável pela torcida que atirou a campo uma banana, devorada pelo jogador Daniel Alves. O clube identificou o torcedor responsável pela atitude racista durante partida entre a equipe e o Barcelona, pelo Campeonato Espanhol, punindo-o com a suspensão do carnê de sócio e o banimento do estádio El Madrigal pelo resto da vida.

O clube não agiu sozinho, partilhou o sucesso da ação com os responsáveis pela segurança no estádio, bem como a torcida, todos imbuídos em identificar o autor da discriminação racial, para impedir, inclusive, uma possível punição desportiva à agremiação. Ou seja, ao investigar, encontrar o racista e puní-lo, o Villarreal apresenta à sociedade espanhola e ao mundo, o compromisso inequívoco de respeito aos direitos humanos, ao direito de trabalhar em condições dignas.

À presença de espírito de Daniel Alves ao comer a banana, ao transgredir e ter uma atitude inusitada diante da clássica discriminação racial que associa pessoas negras a macacos, com o objetivo de desumanizá-las, seguiu-se uma campanha marqueteira de quinta categoria nas redes sociais, evocando o macaco que as teorias evolucionistas guardaram dentro dos seres humanos.

O senhor está perplexo, senhor deus das bananas? Nós estamos, pois, ao cabo, se somos todos macacos, não existem mais racistas.

Merece algumas linhas adicionais, senhor deus das bananas, a atitude de Daniel Alves, sertanejo brioso que não teme a ingestão de veneno. Porque o senhor sabe, aquela banana era tóxica, continha uma quantidade secular de energia radioativa. E Daniel, no ímpeto de reagir (talvez de marquetear) comeu-a inteira. Mesmo um primata não faria isso. Os animais sabem reconhecer as plantas venenosas e o perigo de morte. Só nós, humanos, subvertemos a lógica da natureza e achamos que comendo a banana produziremos anticorpos que destruirão os racistas.

Ensina o manual de faxina étnica, senhor deus das bananas, que, sua eficácia está diretamente relacionada à desumanização do grupo que se quer exterminar e/ou explorar. Os nazistas comparavam os judeus a ratos e baratas. À colonização europeia, por sua vez, a associação de africanos a macacos é intrínseca.  

A opressão racial é tão vil e eficiente no Brasil que consegue fazer com que um jovem destacado de sua comunidade de origem, o jogador Neymar, visivelmente, notadamente, escancaradamente afrodescendente (sem a opção do escapismo moreno), nomine-se como macaco, mas não se reconheça preto.

E, se é verdade que "todos somos macacos" (nós - os negros, os "brancos" como Neymar, e os brancos como Luciano Huck), Dani Alves e o companheiro midiático estão absolvidos do estigma do racismo que lhes é tão oneroso (a nós também) porque não é algo humano, porque não é mesmo suportável.

Mas, a diferença entre uns humanos e outros, senhor deus das bananas, é que os primeiros não têm alternativa de sobrevivência, senão, enfrentar o racismo, por isso se afirmam negros, ao tempo em que mandam os macacos-humanos plantar bananeira no asfalto quente para divertir os brancos. Quanto aos racistas, o grupo de primitivos humanóides negros manda-os para a cadeia.

O segundo grupo de humanos negros, aquele composto por pessoas descoladas que se auto-elogiam como macacas, mas não suportam o aniquilamento provocado pelo racismo, a despeito dos cartões de entrada vip para o jogo da vida (fama, dinheiro, prestígio social), optam por enfatizar, como o fez Dani Alves, que brasileiros têm samba no pé e alegria de viver. Por conseguinte, conclui-se, driblam o racismo com irreverência e criatividade.

Seguindo esse raciocínio, são capazes de entortar os adversários (e os pares) ao propor uma campanha contra o racismo tão racista quanto o ato deflagrador. Assim, eles demonstram orgulho por serem macacos, mas negam que sejam pretos. Santa lobotomia, senhor deus das bananas! Triste fim da humanidade! 

28 de abr de 2014

Eles se dizem macacos


O Kong se virou contra o feiticeiro
Por Cidinha da Silva

Foi em jogo do campeonato paulista
Que a jóia santista
Foi chamada de macaco
Porém, com  estima fortalecida
A jóia enquadrou o Fonseca
Técnico do Ituano
Autor do ato insano
O que foi que você disse?
Me chamou de macaco ou foi chiste?
Qualequeé tá me tirando?
Tá maluco moleque?
Retrucou o Fonseca
Você só quer aparecer
Cai-cai como folha seca
E agora faz adivinhação?
A jóia, até então convicta
De Paulo Estevão chamou a atenção
Estava  ligado na fita
Ali rolava discriminação
O 4º árbitro se fez de tonto
Surdo, camuflava a questão
Era briga de cachorro grande
Não queria  amolação
A jóia de cabeça fria
Também revê o que ouvira
À luz de velha instrução
Racismo é papo polêmico
Deixe quieto
Não pague mico
Isso é mídia negativa
Corrosiva
Explosiva
Traz vantagem nenhuma, não
Aplicada, inteligente
A jóia achou pertinente
Minimizar o problemão
Lembrou-se do jogo Brasil e Escócia
Da casca de banana
Atirada em sua direção
Do coração apertado
Da dor do craque humilhado
Tal qual macaco vira-lata
Em jogo contra o Bolívar
Na terra de Evo Morales
Bananas e objetos
Outra vez desferidos
O racismo abjeto
Mirava a ousadia do menino
Chamando-o  de macaco
Quebrava as pernas de Neymar
Que nos outros dias do ano
O racismo não quer enxergar
Mas o mundo é mesmo redondo
Aqui mora outro porém
Tudo vai e tudo vem
O Kong se virou contra o feiticeiro
O que dirá seu parceiro?
Alexandre Pires, tirado a bom mineiro?
Autores de brincadeira inócua
Que a nós feriu de morte
Golpe traiçoeiro, sem rebote
O caso é que a Cabocla sempre volta
Surge sem bater na porta
Um dia Kong no clipe
No outro
Macaco é a versão torta
Surpreendendo a toda gente
Que com a roda não se importa
A Cabocla é inclemente
O feitiço
Cedo ou tarde
Volta!

27 de abr de 2014

Livro novo

Por Cidinha da Silva




Depois que um livro novo entra em fase de impressão, só aguardo, sem ansiedade. Puro êxtase e alegria.

Este que ora sai do forno, Baú de miudezas, sol e chuva, é meu livro mais maduro, querido e desejado. Trabalhei nele por dois anos e o título, venho redefinindo há três. Trata-se de prosa poética fina, afirmo sem titubear.

Não gosto da comparação de livros a filhos. Filho é indefinível, livro de literatura é obra de arte. Filho quando se perde é para sempre, livro, não, você faz outros e outros, e pode também reescrever um livro perdido. Mas, admito que haja semelhanças inegáveis, por exemplo, reparo como certas mães e pais têm a tendência de parir em determinados meses do ano, o que denota certo padrão de fertilidade. Noto algo semelhante comigo, meus livros gostam de vir ao mundo em maio, talvez como reafirmação de meu nascimento.

Meu oitavo livro é editado pela Mazza Edições. A capa é do artista plástico Josias Marinho, com quem já havia trabalhado no Kuami (capa e desenhos). A orelha e o prefácio são luxuosos, Ellen Oléria e Grace Passô, respectivamente. As duas, lindas e generosas ao dedicar parte de seu tempo precioso para ler meu trabalho e apresentá-lo ao público leitor.

Para degustação, uma lasquinha do prefácio de Grace Passô: “São narrativas que fluem como as de contadores de histórias, parecem conversar com você como uma conversa inspirada entre amigos e como boa poeta, a autora camufla a filosofia mais complexa em situações de simplicidade única. Baú de Miudezas é um épico-íntimo. Cidinha da Silva tece aqui um ritual de gratidão ao amor e às suas (nossas) referências de vida. Narrativas plenas de metáforas, leves não como pluma, mas como um pássaro livre que controla seu voo. São palavras de pedra, de carne. E de água, letras para se banhar. E como velhos irmãos, nós leitores, corremos essas páginas como quem corre atrás de um trem que porta seu minério silencioso. Puro jazz”.

Baú de miudezas, sol e chuva é um livro para ser lido com todos os sentidos, a qualquer hora do dia ou da noite.

25 de abr de 2014

Reposta ligeira (rápida e insuficiente) à pergunta de Hermano Vianna: o que estamos fazendo (frente à morte de DG e outros jovens)?


Por Cidinha da Silva

Hermano, meu caro,

É impossível responder à sua pergunta de perplexidade face ao assassinato do jovem negro Douglas Rafael, o DG, um dos 200 negros assassinados a cada 100 mil há pelo menos duas décadas (menção feita por você quase num suspiro), como se todos nós fizéssemos parte de um coletivo harmônico e festeiro que quer o bem do Brasil. E já aviso que não se trata do papo simplista de cidade partida entre morro e asfalto, falamos de negros e brancos, mano Hermano. De racismo de Estado e da polícia em especial. Falamos de genocídio da juventude negra no Brasil! Você já ouviu falar disso?

Outro aviso importante, ninguém aqui é tolo de responsabilizar a “Família Esquenta” por esse estado de coisas, não se trata disso, seria leviano. Mas penso que haja respostas distintas para o que vocês, a “Família”, podem fazer dentro da rede Globo, pela juventude negra e favelada e o que nós, que não vivemos no mundo de faz-de-conta do PROJAC podemos fazer (e fazemos). O que está sendo feito por quem legitima o direito de assassinar negros não é segredo. Deixemos de ser brancos ou color blind e sejamos francos.

O que a sociedade civil organizada tem feito quanto ao genocídio da juventude negra? Tem denunciado o genocídio, há décadas. Tem instado pesquisadores a produzir dados sobre esse tema, também há décadas. É por isso, por essa denúncia, pela escuta às organizações do Movimento Negro (a “Família Esquenta” sabe que existem organizações políticas negras no Brasil?) é que pesquisadoras seríssimas como Silvia Ramos, dão a necessária atenção à variável racial na análise da violência que prende, mata, e obsta a vida plena do setor sobrevivente desta juventude.

Aliás, tenho a triste certeza de que certas informações são ouvidas e creditadas porque são ditas pelos aliados brancos. Se forem produzidas pelos negros serão sempre minimizadas. A escuta ao Átila Roque é apenas uma exceção que confirma a regra.

Tem uma moçada na Bahia que vocês precisavam conhecer, ouvir, um movimento que se chama “Reaja ou será morto! Reaja ou será morta.” São assim, eles! Diretos. Contundentes. Sem pulinhos de alegria dentro do PROJAC, por estar no PROJAC. Sem pílula de faz-de-conta. São reflexo da chapa quente do mundo real que ferve do lado de cá.

Para esse mundo não existe a novidade da guerra, como não existiu para o “famoso” DG, nem para o anônimo Edilson Silva dos Santos, morto no mesmo dia, no mesmo Pavão-Pavãozinho. Em essência, trata-se de dois jovens negros expostos ao genocídio da juventude preta, mais nada.

Nós contamos nossos mortos há tempos quase imemoriais, Hermano. São inúmeros os DGs do nosso convívio. Sabe, Hermano, em São Paulo, para a gente ter uma ideia aproximada do número de mortos na onda de assassinatos de jovens negros em 2012/2013, a gente conversava com o pessoal dos cemitérios de bairro. Sabe por quê? Porque a imprensa noticiava que haviam morrido cinco ou seis jovens numa determinada noite, mas quem era da quebrada contava muitos mais caixões. O número de velórios, de famílias desesperadas era muito maior. Então descobrimos que é seguro multiplicar por cinco, o número de mortos noticiado, assim nos aproximamos da cifra total de cada noite. Foi o que os coveiros nos ensinaram.

Não creio que esteja contando qualquer novidade à “Família Esquenta”, mas, o que vocês fazem é camuflar esses números, essa realidade, por meio de uma frágil fruição humana de pessoas negras moradoras de favela, felizes por aparecerem na tevê, de maneira supostamente valorizada, por fazerem parte do mundo do entretenimento. Sim!!! As pessoas negras querem leveza, diversão, alegria, remuneração por sua arte, como a que recebia o dançarino DG, roubado em 800 reais depois de assassinado e sabe-se lá em quanto foi extorquido quando vivo. Porque as coisas são assim na racializada sociedade brasileira, não é? O negrinho que ascende e continua no morro, se não é executado pelo tráfico, por recusar-se ao aliciamento, paga pedágio à polícia. O problema é a crença de que essa solução individual ou endereçada a pequenos grupos de negros artistas (por mais que a “Família Esquenta” empregue e remunere dignamente) responde ao problema racial no Brasil. E se vocês acham que nós estamos enganados e que a “Família Esquenta” nem vê esse problema, não trata disso, estamos certos.

Na real, a proposta de programa feita por vocês é um sossega-leão para o problema racial que o Brasil vive e nega, cuja explicitação acontece quando algum negro fantástico, talentosíssimo, excelente profissional, com o qual convivemos, é assassinado por ser negro (ser preto “da Globo" não livra a cara de ninguém), como o são os outros 199 jovens negros mortos a cada 100 mil.

A “Família Esquenta” por meio de seu sociologuês da diversidade, forma pseudo-intelectualizada de coroar a “mistura” defendida com princípio do programa “Esquenta” e apresentada de forma simbólica como solução social harmoniosa para o Brasil, contribui para perpetuar a ideia de miscigenação subordinada. Ocorre que a tal “mistura” (batismo contemporâneo da miscigenação) até hoje não conseguiu provar sua efetividade para os pretos, tampouco diminuiu os privilégios dos brancos. E essa é a centralidade do tema. É disso que falamos.

Acredito, Hermano, nas intenções boas e sinceras da “Família Esquenta”, mas o que vocês fazem (e talvez só consigam fazer mesmo isso) dentro dos limites de uma rede de tevê extremamente reacionária e comprometida com o stablisment, com a manutenção de privilégios para os que sempre mandaram e sempre detiveram poderio econômico e político, não altera a questão de fundo, não mexe com ela. E que questão é essa? O racismo estrutural que justifica a perda da vida de jovens negros como se eles fossem pulgas, ratos ou baratas. O racismo institucional que executa esse pressuposto por meio da polícia, o braço armado do Estado.

Imagino que a “Família Esquenta” esteja sob forte emoção, comoção, mas os termos da mensagem da Regina Casé, os seus termos, Hermano, são muito brandos para tratar uma situação que é de absoluta barbárie. Não existe nada mais perigoso no Brasil do que ser um jovem negro! Em torno de 70% dos homens mortos por homicídio no país são negros, mais da metade, jovens (dados de 2011).

Existem também algumas ações e políticas governamentais em curso, no sentido de resguardar a vida da juventude negra, mas não é minha proposta neste texto discuti-las.  Prefiro me ater ao poderoso instrumento de intervenção que pode representar a “Família Esquenta” e à escuta qualificada que ela precisa fazer das organizações políticas negras, das pesquisadoras e pesquisadores negros, para além da proposição inócua de um grande pacto social pela vida, que não discuta profunda e amplamente o sentido e o significado das vidas que o racismo descarta como nada.

Fotos de DG, jovem assassinado pela polícia no morro Pavão Pavãozinho. Rio de Janeiro, 24 de abril de 2014.

Prosa literária com Ana Maria Gonçalves

 
Por  Ana   Paula  Santos
“Quando você segue as pegadas dos mais velhos, aprende a caminhar como eles”

    Ana Maria Gonçalves 
Ela  escreveu  Ao lado e à margem do que sentes por mim (2002) e  Um defeito de cor (2006) livro  que  lhe  rendeu o prêmio Casa de las Américas na categoria literatura brasileira. A nossa  entrevistada falou sobre como se descobriu  escritora, uma vez que é  formada  em  publicidade,do seu trabalho como  roteirista, paixão  pela  história de  Luiz  Gama  e  novos  projetos literários.Leiam a entrevista concedida  por Ana  Maria Gonçalves ao  Blog Literatura  Subversiva:

Quando a senhora se descobriu escritora ?
Depois do primeiro livro publicado, quando descobri que realmente gostava de e poderia escrever. Minha formação é em Publicidade, nunca tinha pensado em escrever nada até ter um blog, em 2001.
Recentemente o jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre Luiz Gama intitulada “7 anos de Escravidão no Brasil,”no caderno Ilustrada, assinada pela jornalista Sylvia Colombo citando seu trabalho no roteiro de uma série e de um filme sobre este abolicionista de suma importância para a história do Brasil e da literatura negra. A senhora pode falar um pouco sobre este projeto ?
Luiz Gama é uma das figuras mais interessantes e mais importantes no cenário da luta antiescravidão, pelo qual muito pouca gente já se interessou a estudar ou divulgar. Interessei-me por ele em 2002, quando comecei a fazer as pesquisas para escrever Um defeito de cor, cuja personagem principal, Luiza Mahin, é inspirada em carta e poesia que ele escreve sobre ela, apresentada como sua mãe. O cineasta Joel Zito vem, há dez anos, tentando fazer um filme sobre ele, sem conseguir patrocínio. E agora nos unimos, esperando, inclusive que o sucesso de “12 anos de escravidão” prove que há mercado para e interesse na temática, e que nós também, aqui no Brasil, tivemos diversos Solomon Northup e similares.

O que despertou seu interesse pela história do advogado, poeta e abolicionista Luiz Gama?

Com certeza, a singularidade de experiências vividas por ele, tendo nascido livre, escravizado pelo pai, conseguido de volta a liberdade, tornando-se uma das figuras mais respeitadas entre seus pares, em diversas áreas como o jornalismo, a literatura, a maçonaria, a política e a advocacia. É algo muito raro de ser  conseguido, na época em que viveu, inclusive por brancos, quem dirá por ex-escravos negros.
Como a senhora avalia a presença das mulheres negras na literatura, hoje ?
Somos sub-representadas, com certeza, e temos pouco espaço na cena literária brasileira. Acredito que haverá um crescimento nos próximos anos, porque pode estar aí um campo ainda não conhecido e explorado, o de algumas histórias que só podem ser escritas por mulheres negras. Se literatura se faz através da experiência, a nossa foi pouquíssimo contata e considerada; há muito por dizer.
A senhora acredita que o trabalho literário precisa está vinculado a uma ação política ou literatura é apenas distração ?
Não acredito em fórmulas ou modelos, ou obrigações e vinculações, mesmo porque um escritor não tem controle algum sobre o que escreve, sobre como a obra dele será recepcionada pelo público. O escritor deve lidar com as histórias ou temáticas que lhe forem caras; o resto é com o leitor.
Este ano comemoramos o centenário de Carolina Maria de Jesus. A senhora pode falar da contribuição desta escritora para a literatura Brasileira, Afrobrasileira, negra?
Recebi alguns pedidos para escrever sobre ela durante esse ano, mas, vergonhosamente, tive que recusar todos. Como disse lá acima, não tenho formação literária, e não ter lido, ainda, Carolina Maria de Jesus, é também uma falha na minha formação, que espero preencher brevemente. Não saberia te responder essa pergunta sem cair nos clichês de sempre.
A poesia tem espaço na vida da ficcionista Ana Maria Gonçalves ?
Como leitora, sim, embora menos do que eu gostaria. Como escritora de poesia, não, porque nunca conseguiria a concisão necessária.
Quem são os seus autores ou (as) prediletos (as) ?
Tenho vários, que vão mudando com o tempo. Atualmente, é a escritora haitiana Edwidge Danticat, de quem tenho lido tudo que me cai nas mãos.
Quando o público será agraciado com o seu próximo livro ?
Acredito que agora no próximo semestre teremos livro novo.

24 de abr de 2014

A capa do mundo é nossa!

Por Cidinha da Silva



A capa do mundo é nossa
Com a Lupita
Não há quem possa
Foi Oxum quem a esculpiu em ouro
Arrasa nas telas
Na passarela
É um estouro

Lupita será sempre estrangeira
No mundo euroglobalizado
Será alvo de descrédito, demérito
Demônios e racismo

Enfrentará a estupidez do mundo
Com o espelho que refletirá sua beleza
E a podridão de seus detratores
Mal disfarçados de críticos

Lupita sambará miudinho
Na cara da sociedade racista
Mais do que uma bela passista
Terá a elegância e a altivez de uma porta-bandeira
Pioneira navegante
No rio lamacento dos eurodescendentes

Mas será feita de água tão límpida essa guria
Que transcendente e generosa
Oferecerá mel
Aos que quiserem adoçar o mundo

A capa do mundo é nossa
Com a Lupita
Não há quem possa
Foi Oxum quem a esculpiu em ouro
Arrasa nas telas
Na passarela
É um estouro

23 de abr de 2014

Uma carta de amor

Por Cidinha da Silva



O amigo Cláudio, pérola recifense do Morro da Conceição, tem o hábito saudável de discordar dos poetas consagrados. É valente, o cabra. Só quem tem muita coragem e flor no coração discorda amorosamente de Solano. Porque sim, poeta da liberdade, negros opressores, em qualquer parte do mundo são (também) irmãos do Cláudio (e meus), pois, ainda que não os admiremos, tampouco os sigamos, pertencemos à mesma comunidade de destino.

O poeta da vez é Pessoa e as cartas de amor ridículas, todas. Cláudio não pensa assim e escreve uma carta de amor amorosa para Joana, dessas tão intensas que uma vez escritas pelo amante e lidas pela pessoa amada, jamais conseguiram ser guardadas ou esquecidas. Uma carta de amor tão intensa que depois de recebida precisasse ser vivida; trazida consigo, aberta mil vezes e mil vezes relida.

Não sendo ridícula, a carta de amor que Cláudio teria escrito para Joana, não buscaria clichê; não seria apelativa, tão pouco, démodé. Seria uma carta curta. Um corte de punhal, que fere como quem furta. De leve, tão breve que não passaria do preâmbulo, mas que diria tudo de modo tão claro. Uma carta tão plena de significado e tão satisfatória, que não precisaria ser concluída.  Se ele escrevesse essa carta de amor para Joana como desejava, ela, a carta, já no prelúdio, seria um ato de fala feliz para sempre.

A carta de amor que Cláudio escreveu  para Joana, se desprendeu do passado, passou pelo casal e ficou aguardando tranquila a chegada dos dois ao futuro. Era uma carta de amor, sem medos, com destinatário certo, que se lançava no escuro.

A carta de amor escrita para Joana era uma carta de amor mais verdadeira que o amor de onze mil amantes, uma carta que nenhum deles jamais escreveu antes.

A carta de amor, por ser dessas cartas que amante nenhum jamais escreveu, era um tanto repetitiva e seu teor era certamente alcoólico. Não para que ela fosse lida, gota a gota, mas para que ela fosse, letra por letra, absorvida. 

Uma carta sem fim que está para sempre no começo, talvez entre um não e um sim, e lembra a ele, todo dia (como um calendário) que neste amor lendário Cláudio é o destinatário e Joana é destinatária de Cláudio.

E a cronista quando leu a carta lançada ao vento, não teve outra saída senão beber o poema e mimetizá-lo no texto, antes que cedesse ao ímpeto de pedir a mão de Cláudio em casamento. 

22 de abr de 2014

PRORROGADAS INSCRIÇÕES DO "Prêmio Curta Histórias - Personalidades Negras": até o próximo dia 29/04 (terça-feira).



Curta Histórias é uma premiação voltada aos alunos matriculados na Educação Básica da rede pública de ensino de todo o país. Em sua segunda edição, o prêmio tem como tema Personalidades Negras. Esta iniciativa visa incentivar novos talentos e estimular o desenvolvimento das atividades pedagógicas e audiovisuais de cunho cultural e educativo em escolas públicas brasileiras. Saiba mais emhttp://curtahistorias.mec.gov.br/premio


EUA têm mais negros na prisões hoje do que escravizados no século XIX!

Deu no Operamundi

Sem tempo para sonhar: EUA têm mais negros na prisão hoje do que escravos no século XIX

No dia histórico do discurso “eu tenho um sonho”, de Martin Luther King, panorama social é dramático aos afrodescendentes norte-americanos
 
     
 
O presidente norte-americano, Barack Obama, participa nesta quarta-feira (28/08) em Washington de evento comemorativo pelo aniversário de 50 anos do emblemático discurso “Eu tenho um Sonho”, de Martin Luther King Jr. - considerado um marco da igualdade de direitos civis aos afro-americanos. Enquanto isso, entre becos e vielas dos EUA, os negros não vão ter muitos motivos para celebrar ou "sonhar com a esperança", como bradou Luther King em 1963.

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De acordo com sociólogos e especialistas em estudos das camadas populares na América do Norte, os índices sociais - que incluem emprego, saúde e educação - entre os afrodescendentes norte-americanos são os piores em 25 anos. Por exemplo, um homem negro que não concluiu os estudos tem mais chances de ir para prisão do que conseguir uma vaga no mercado de trabalho. Uma criança negra tem hoje menos chances de ser criada pelos seus pais que um filho de escravos no século XIX. E o dado mais assombroso: há mais negros na prisão atualmente do que escravos nos EUA em 1850, de acordo com estudo da socióloga da Universidade de Ohio, Michelle Alexander.

Mother Jones Twitter @bet

Há mais negros do que nunca nas penitenciárias dos EUA

“Negar a cidadania aos negros norte-americanos foi a marca da construção dos EUA. Centenas de anos mais tarde, ainda não temos uma democracia igualitária. Os argumentos e racionalizações que foram pregadas em apoio da exclusão racial e da discriminação em suas várias formas mudaram e evoluíram, mas o resultado se manteve praticamente o mesmo da época da escravidão”, argumenta Alexander em seu livro The New Jim Crow.

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No dia em que médicos brasileiros chamaram médicos cubanos de “escravos”, a situação real, comprovada por estudos de institutos como o centro de pesquisas sociais da Universidade de Oxford e o African American Reference Sources, mostra que os EUA têm mais características que lembram uma senzala aos afrodescendentes que qualquer outro país do mundo.

Veja (em inglês) o estudo que fala sobre afrodescendentes nos EUA

Em entrevista a Opera Mundi, a professora da Universidade de Washington e autora do livro “Invisible Men: Mass Incarceration and the Myth of Black Progress”, Becky Pettit,argumenta que os progressos sociais alcançados pelos negros nas últimas décadas são muito pequenos quando comparados à sociedade norte-americana como um todo. É a “estagnação social” que acaba trazendo as comparações com a época da escravidão.

“Quando Obama assumiu a Presidência, alguns jornalistas falaram em “sociedade pós-racial” com a ascensão do primeiro presidente negro. Veja bem, eles falaram na ocasião do sucesso profissional do presidente como exemplo que existem hoje mais afrodescendentes nas universidades e em melhores condições sociais. No entanto, esqueceram de dizer que a maioria esmagadora da população carcerária dos EUA é negra. Quando se realizam pesquisas sobre o aumento do número de jovens negros em melhores condições de vida se esquece que mais que dobrou o número de presos e mortos diariamente. Esses não entram na conta dos centros de pesquisas governamentais, promovendo o “mito do progresso entre nos negros”, argumenta.
Segundo Becky Pettit, não há desde o começo da década de 1990 aumento no índice de negros que conseguem concluir o ensino médio. Além disso, o padrão de vida também despencou. Além do aumento da pobreza, serviços básicos como alimentação, saúde, gasolina (utilidade considerada fundamental para os norte-americanos) e transportes público estão em preços inacessíveis para muitos negros de baixa renda. Mais de 70% dos moradores de rua são afrodescendentes.

Agência Efe

Negros na administração Obama têm indíces sociais mais baixos que na época de George W. Bush

Michelle Alexander, por sua vez, critica o sistema judiciário do país e a truculência que envia em massa às prisões os negros. “Em 2013, vimos o fechamento de centenas de escolas de ensino fundamental em bairros majoritariamente negros. Onde essas crianças vão estudar? É um círculo vicioso que promove a pobreza, distribui leis que criminalizam a pobreza e levam as comunidades de cor para prisão”, critica em entrevista ao jornal LA Progresive.

Leia a coluna Dublê de Ogum, de Cidinha da Silva, no Nota de Rodapé



Na crônica de hoje, Cidinha da Silva lê a recente onda de linchamentos de adolescentes e jovens negros, em sua versão publicizada. Leia você também "O recado dos linchamentos", na coluna Dublê de Ogum  http://www.notaderodape.com.br/

21 de abr de 2014

O recado dos linchamentos

Por Cidinha da Silva



Assustava o mundo sensível a onda de linchamentos de pessoas negras executada por justiceiros que escolhiam pretos anônimos, desamparados pela lei, como exemplos para coibir as conquistas políticas e sociais dos negros “protegidos” pela lei de forma mínima. Ou seja, havia um recado para os pretos ascendentes: “recolham-se ao lugar estipulado ou serão vocês o próximo alvo.”

O propósito era acuar os pretos no micro-espaço, aterrorizar as comunidades negras da região onde ocorria o linchamento. A favor dos humanos negros só a vulgarização tecnológica. Pessoas indignadas registravam e divulgavam os atos bárbaros com celulares no afã de não esquecê-los, de impedir que fossem ocultados, de forçar investigação, julgamento dos linchadores e punição. Por fim, que o resultado final do registro fosse acordar a população da letargia ignorante de tais atos e cercear já no campo da intenção, o próximo linchamento.

Mas, como não existia justiça, o pânico se instaurava. O pavor de ser o próximo alvo intimidava tanto, que, não raro, as pessoas negras fugiam do tema. Enquanto em uma cidade o filho do mega-milionário atropelava, matava, era julgado rapidamente e pagava a sentença com trabalhos de re-socialização, em outra, um playboy bêbado atropelava ciclista trabalhador, arrancava-lhe o braço e atravessava bairros com o membro agarrado ao retrovisor. Em dado momento o meliante percebe a marca do crime, pára o carro, abrupto, e joga o braço do ciclista no esgoto, impune. Numa terceira cidade, uma patricinha, estudante de Medicina, atropelou e matou um gari, arrancou o carro sem prestar socorro, enquanto lamentava a sujeira de sangue na lataria. Não por coincidência, eram todos brancos, criminosos de fato e protegidos pela lei do mundo do faz-de-conta.

No mundo real, entretanto, eram sempre negros os alvos dos linchamentos. Qualquer motivo, qualquer suspeita, qualquer vacilo diante das regras do establishment justificava a eliminação física do suspeito. Mas aqueles não eram os alvos reais. O objetivo final era intimidar os negros insurgentes que tinham pelo menos uma noção vaga de direitos, os cotistas de universidades públicas, artistas, estudantes matriculados e uniformizados, negros intelectualizados, aspirantes a profissionais bem sucedidos, todas as pessoas portadoras de identidade negra em expansão.

Restava saber se os pretos se recolheriam aos lugares pré-definidos, iludidos pela mentira de não serem o próximo alvo. No Brasil, os negros estavam por sua própria conta desde o momento da gestação e os linchadores sabiam disso. 

19 de abr de 2014

Memória de Juruna, o índio deputado

Por Cynara Menezes

Parece incrível, mas em 125 anos de República o Brasil só teve um parlamentar indígena: Mario Juruna (1942-2002). E nunca mais foi Dia do Índio no parlamento desde que ele saiu de lá –em vez disso, multiplicaram-se no Congresso os inimigos da causa indígena. No final da década de 1970, Juruna se tornara conhecido por empunhar um gravador onde registrava as falsas promessas feitas por altos funcionários do governo de devolver as terras dos Xavante. Dizia: “homem branco mente muito”. Acabou eleito deputado federal pelo PDT de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, com mais de 30 mil votos, na eleição de 1982.
Sua passagem pelo Congresso foi marcada pela tentativa de ridicularizá-lo e de transformá-lo num bufão. Jô Soares, em seu programa humorístico na Globo, logo criou um índio que mal sabia falar o português para que os telespectadores rissem dele. O general João Baptista de Figueiredo, último presidente militar, foi o primeiro a rosnar contra Juruna, dizendo que o Rio de Janeiro só tinha eleito “índios e cantores de rádio”. Seu ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Matos, verbalizou a definição inconfessável que estava em todas as cabeças da direita: “aculturado exótico”.
O líder xavante fora convencido a entrar na política por Darcy, que denunciou a campanha contra o índio deputado feita sobretudo pela imprensa. “Este índio novo, tão melhor armado para a sua própria defesa, provoca grandes antipatias. O seu símbolo maior, Mário Juruna, chega a desencadear ódios como se fosse um ser detestável. É profundamente lamentável que até a imprensa mais respeitável do país, a exemplo do Jornal do Brasil, tenha mantido, durante anos, uma campanha sistemática de desinformação contra o deputado Mário Juruna, através dos procedimentos mais antiéticos, indignos da sua tradição jornalística.” Segundo Darcy, foi “graças à mobilização que ele fez de todos os Xavantes e à declaração de guerra que impôs à sociedade brasileira, que recuperou para o seu povo mais da metade do território tribal, roubado com a conivência de funcionários da FUNAI”.
(Darcy Ribeiro e Juruna. Foto: Orlando Brito)
No dia da sua posse como deputado, em março de 1983, Juruna foi aplaudidíssimo, mais até que Ulysses Guimarães. Decidido a só fazer seu primeiro discurso no Dia do Índio, resolveu falar uns dias antes apenas para reclamar das alfinetadas de Figueiredo. “Estou muito revoltado. Este presidente da República tem que fazer serviço para garantir emprego ao povo brasileiro e não para fazer campanha de calúnia contra as pessoas. Eu sou contra a repressão, contra a violência e também contra a mentira e a sujeira. O presidente não pode falar besteira, que é contra a eleição, que é contra mim. Graças a Deus fui eleito pelo Rio de Janeiro. Os cariocas me deram oportunidade para vir a Brasília, onde existe pecado, existe treteiro, existe corrupto, para protestar contra o que está errado. O governo federal quer ganhar eleições em todos os Estados do Brasil, mas ele não vai ganhar a consciência do povo, do homem carecido. O presidente não pode meter o pau em nenhum companheiro, em nenhum deputado. Ele que salve o Brasil.”
No dia 19 de abril, como prometido, subiu à tribuna e voltou à carga, valente, criticando os ministros do governo militar e pedindo sua demissão. Em setembro de 1983, iria além e chamaria os ministros de ladrões. “Todo ministro é a mesma panelinha, é a mesma cabeça. Não tem ministro nenhum que presta. Pra mim todo ministro é corrupto, ladrão, sem vergonha e mau caráter. Não vou dizer que todo ministro é bom, legal e justo. Vou dizer que todo ministro é do mesmo saco que aproveita o suor do povo trabalhador”.
Figueiredo, furioso, chegou a pedir a cassação de Juruna, mas o deputado acabou recebendo apenas uma censura por parte da Mesa. Em 1985, Mário Juruna denunciaria a tentativa de Paulo Maluf de comprar seu voto no colégio eleitoral. Devolveu o dinheiro e votou em Tancredo Neves. Desgostoso com a política após não conseguir se reeleger em 1986, Juruna morreu em 2002, vítima de diabetes. O único índio deputado morreu pobre e esquecido.
Neste Dia do Índio tão pouco lembrado, reproduzo trechos daquele primeiro discurso histórico de Juruna como deputado federal. Triste constatar como muitas das críticas que ele fazia continuam atuais. Quando vai surgir um novo Juruna no Congresso?
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Por Mário Juruna, 19/04/1983, Congresso Nacional
Eu quero apresentar exemplo com minha candidatura, porque hoje já podia ter deputado índio. Podia ter deputado aqui no Brasil mas nós não somos culpados. Quem é culpado, é responsável, é essas pessoas que não dão oportunidade pra índio. É por isso que nós só aprende, só estuda o primário.
Então primeiro eu quero falar em nome do companheiro trabalhador, porque vocês é a mesma coisa como índio, como posseiro, é a mesma coisa como lavrador e é a mesma coisa como a tribo. Esse pessoal que está lá em cima, que a gente sofre repressão da autoridade, esse pessoal é o filho do empresário, o filho do deputado, o filho do senador. Esse resto que é o pessoal filho de pobre, eu quero considerar mais ainda esse pessoal que leva sacrifício, pessoal que sofre muito mais que a gente que está vivendo muito bem aqui na Câmara Federal.
E muita gente que achava, quando eu entrei na política, muita gente falava contra Juruna, falava: “Imagina como que Juruna vai entrar no plenário, imagina, o índio, o que é que vai resolver no plenário, como é que índio vai representar índio?” E eu quero saber: imagina, o que é que o branco pode? Talvez índio pode representar melhor do que qualquer deputado, qualquer senador e qualquer da República.
Juruna é o primeiro índio que está representando brasileiro, porque o governo brasileiro não dá oporunidade pra índio, porque ele quer continuar tutelar toda vida índio. E nós não somos tutelados, somos responsáveis, nós somos gente, nós somos ser humano.
Quem não tem consciência, me trata como objeto, me trata como boneca. E quando eu passo aqui dentro de plenário e alguns companheiros à frente de mim e diz cara emburrada é ridículo. Eu não vim aqui fuxicar com ninguém, eu vim aqui pra trabalhar, pra defender povo, eu vim aqui pra lutar. Eu quero que gente começa a respeitar nome de Juruna. Eu quero que gente trata índio brasileiro o mais possível dentro do melhor.
Cada um de nós tem consciência e cada um de nós tem capacidade. Ninguém tem menos capacidade. Todos nós tem capacidade e todos nós tem inteligência e todos nós tem a vontade para assumir onde que existe poder. Eu acho esse já é fruto está nascendo aqui dentro do Brasil, esse já é sinal está nascendo aqui dentro do plenário. Único índio que tá falando hoje, único deputado que tá falando hoje: não é terceiro, não é quinto deputado, não é cinquenta deputado. Se tiver ao menos mais cinquenta Juruna, o Juruna já tinha mudado o Brasil.
Governo da República não pode ser indicado por uma pessoa. Presidente da República tem que ser mais votado com povo brasileiro. Até eu me lembro muito bem que antes de 64 Brasil tinha muito ouro, era muito sagrado e hoje Brasil não tem mais muito ouro não. Está estragado. O Brasil não tem mais ouro. Quem está estragando o Brasil é o próprio governo federal, é este presidente da República que está estragando nosso Brasil, junto com Delfim, esse responsável pelo Brasil.
Quero falar problema do Brizola. O Brizola é homem, foi cassado, como acontece com o índio, por isso eu apoio Brizola e por isso quero dar liberdade para Brizola, porque, como acontece com o posseiro, como acontece com o índio, o Brizola foi expulso do Brasil sem necessidade. E por que o governo não expulsa outro agora? Expulsa todo o ministério, tira todo o ministério! Bota na rua todo mundo!
Se o governo federal, ele tem capacidade, ao lado do povo, se o governo federal assume, como homem, tira meia dúzia de ministro que atrapalha o nosso Brasil. Tirava meia dúzia, o presidente da República, qualquer um de nós apoiava ele. Nós apoiamos o presidente da República e nós levava para crescer mais ainda o nome dele. Desse jeito, ninguém vai apoiar o presidente. Ninguém pode apoiar sujeira. Eu mesmo não pode apoiar sujeira porque eu quero que o presidente muda o nosso Brasil. Porque o presidente é responsável da Nação, o presidente é juízo do povo, o presidente é o pai do povo, o pai do Brasil. Agora, como está hoje, o presidente é o pai do povo? Não existe pai do povo, não. Aqui não tem pai do povo, não.
O presidente foi eleito com empresário, presidente foi compromisso com multinacional, com fazendeiro, com empresário e grande empresário. Se presidente pai do Brasil, presidente segurava toda barra que está acontecendo no Brasil. E aqui gente tá morrendo. E por quê? Porque não tem presidente, não tem autoridade. E toda autoridade é comprada, toda autoridade está se vendendo, quer o dinheiro, quer ganhar dinheiro.
Às vezes, presidente é bom e assessor diretor quem engana o presidente, assessor que não leva verdade para presidente. Por isso que presidente passa mal assessorado. Se tiver assessor bom, se tiver diretor bom que levava recomendação do povo, eu acredito que presidente atendia pedido do povo.
Sou homem do povo, sou homem de campo, quando me criei não encontrei nem um branco, não encontrei nem um avião, nem automóvel, nem estrada; onde me criei era sertão, eu só escutava canto do passarinho, e hoje eu encontro muito pressão contra índio, e invasor, e estrada. A gente está recebendo muita pressão.
Quando eu tive na Holanda, é país pequeno, todo holandês vive igual. Aqui Brasil é muito grande e muita gente tá precisando da terra. Aqui eu quero pedir a V.Excia., presidente, vamos pensar juntos, vamos reformar o nosso Brasil, viu? Vamos dividir, terra é para posseiro, é terra para fazendeiro, é terra para índio, vamos dividir a nossa terra.