Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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26 de mar de 2016

O projeto de negros como Holiday, do MBL, é salvar a própria pele!

Holiday na Câmara, a convite dos amigos do DEM
Holiday na Câmara, a convite dos amigos do DEM

Convidado pelo Democratas para representar o Movimento Brasil Livre na sessão plenária que tratou do dia 21 de março, Dia Internacional de Luta Pelo Fim da Discriminação Racial, Fernando Holiday, o verborrágico, ressurgiu das cinzas.
Numa performance cênica com direito a rasgar o roteiro da sessão destinando-o à lata de lixo, Holiday, o conhecido jovem negro de direita, esgarçou os ouvidos da audiência por dois ou três longos minutos.
A essência de suas declarações foi opor a natureza do convite à sessão, ou seja, uma reunião de desagravo às práticas de discriminação racial, ao que ele, Holiday, considerou “declarações do mais puro racismo”, proferidas, a maior parte delas, por negros oriundos de movimentos sociais que demarcavam a luta por ampliação de direitos para a população negra.
Disse Holiday em tom acusatório: “Dane-se se somos todos seres humanos. Dane-se se somos todos da mesma nação. Vocês (da esquerda) só enxergam a cor da pele, a opção sexual e a partir disso criam o perfil de uma pessoa”.
O coordenador do MBL criticou também as cotas raciais, professando a crença de que “os negros, podem sim, alcançar a vitória, mas não por meio das migalhas do Estado”.
O papel desempenhado por Holiday não é novo, ao contrário, é velho conhecido nos países de colonização portuguesa. Não chega a ser o papel dos “assimilados”, figuras locais de Moçambique, Angola, que muitas vezes, em nome de um projeto de libertação familiar, principalmente via educação, aceitavam o sobrenome português e outras normas de assimilação da cultura lusitana para que seus filhos tivessem melhores oportunidades.
Não chega a ser isso porque Holiday não tem projeto coletivo. Ele desempenha o papel de negro da casa grande, aquele que goza de algumas benesses, tais como comer as sobras dos donos da casa ou dormir fora da senzala. E procura a todo o custo, inclusive o de delação dos planos de fuga dos negros aquilombados, salvar a própria pele.
Holiday padece do anacronismo de ser um negro de direita. Esse é seu principal problema. Sueli Carneiro já nos alertou em entrevista de mais de uma década, que se não sabíamos qual era o projeto da esquerda para os negros no Brasil, tínhamos consciência plena do projeto da direita. E é inacreditável que este garoto e outros, nos dias de hoje, creiam que salvarão a própria pele ao se juntar aos algozes.
Outro problema é, numa sessão do Congresso Nacional que lembrou o assassinato de 69 negros e 186 feridos numa manifestação de 20 mil pessoas em Sharpeville, África do Sul, no dia 21 de março de 1960, contra a Lei do Passe, pelo simples direito de ir e vir em liberdade, que um jovem negro, escolarizado, coloque sua boa oratória a serviço da direita mais retrógrada do país, o DEM.
O deputado Vicentinho, talvez imbuído de sua condição de pai e de católico praticante, tem compaixão por Holiday e o considera um pobre jovem negro manipulado pela direita.
Penso diferente. Penso que esse menino e outros que gravitam pelas esferas da direita deveriam estudar a fundo o exemplo de Celso Pitta, abandonado, defenestrado e simbolicamente morto pela direita que o conduziu ao topo da montanha.
Deveriam também dar alguma atenção ao chefe e padrinho de Pitta, Paulo Maluf, vivíssimo, perseguido pela Interpol, mas ungido pela Câmara dos Deputados que lhe permitiu a condição de votante na Comissão de Impeachment à Presidenta Dilma.
Pitta e Maluf são emblemáticos dos destinos de corruptos negros e brancos no Brasil. Corruptos de direita. O branco com uma folha corrida bem mais extensa e longeva que a do negro, mas absolvido, na prática.
Harriet Tubman, certamente desconhecida de Holiday, foi uma escravizada nascida em 1820, no estado da Filadélfia, EUA. Cresceu, fugiu, organizou dezenas de expedições de fuga, libertou cerca de 300 escravizados e os encaminhou a outros estados onde pudessem viver longe do alcance dos escravizadores. Lutou na Guerra de Secessão, liderou uma frente armada contra os escravistas do Sul e libertou mais 700 escravizados.
A grande abolicionista morreu aos 93 anos vividos em nome da resistência pela liberdade. Imortalizou a seguinte reflexão que apresento a Holiday: “Libertei muitos escravos e teria libertado muitos mais, se pelo menos eles soubessem que eram escravos”.

23 de mar de 2016

Os negros nos protestos antidemocráticos


Por Cidinha da Silva


Nas manifestações seletivas contra a corrupção no país, pessoas negras são notadas pela ausência coletiva e pela presença pontual, como pingos de café no leite. Pingos amargos de lembrança dos lugares subalternizados que ainda ocupamos nessa sociedade.
O caso da negra babá e do casal branco com dois filhos (cuidados por ela) e um cachorro (cuidado por eles), celebrizado na manifestação carioca, é bastante elucidativo.
Existem outros tantos trabalhadores negros presentes, além das babás, a saber: vendedores de cachorro-quente, pipoca, água, cerveja, guloseimas regionais como acarajé, tucupi, tapioca, amendoim e côco queimado, a depender da cidade.
Mas veremos principalmente mulheres, crianças e homens negros arrebentando a coluna no abaixa-levanta do recolhimento das latinhas de bebida para aferir um dinheiro parco com a reciclagem de rejeitos.
Haverá também policiais negros risonhos para o selfie com os manifestantes brancos e “ordeiros” que, pela frente, os tratarão como seres humanos ou heróis.
Pelas costas, porquanto as “pessoas de bem” revisitem os registros fotográficos, dirão coisas como: “olha o imbecil achando que é gente” ou “olha o macaco mostrando as canjicas”! Pois só os imbecis acham possíveis as alianças com os racistas.
Não nos esqueçamos do laborioso serviço de limpeza urbana composto por mulheres e homens negros responsáveis pela coleta de lixo, varrição e lavagem das ruas pós-manifestações. Ali, os negros serão abundantes.
Além das trabalhadoras e trabalhadores negros que prestam serviços diversos nas micaretas da oposição verde e amarela, veremos figuras negras esparsas, rabiscos de imperfeição e deslocamento nas telas de saudação nazista, nos grupos que espancam certos brancos porque têm cara de petistas ou vestem roupas que os identificam como “revolucionários de esquerda”, na visão da extrema direita.
Não são inocentes, outra vez, são imbecis úteis. Serão os primeiros a ouvir o “coloque-se no seu lugar”; “volte para sua insignificância” ou, “sabe com quem você está falando”?, tão logo se achem “iguais” em demasia. Assim o racismo opera.
Negros zelosos da própria segurança física evitarão passar perto das manifestações de direita, pois sabem que só os negros da casa grande são bem vindos. Os demais, quaisquer outros, podem ser espancados até a morte. Nesse sentido, o uniforme branco das babás negras as protege ao demarcar que são serviçais naquele ambiente, não mulheres negras fora de lugar.

21 de mar de 2016

Os negros nos protestos democráticos


Por Cidinha da Silva
Um grupo bastante significativo de negros esteve alheio às manifestações pró-estado democrático de direito. São pessoas politizadas e coerentes que se fizeram notar pela ausência.
Para elas, o mote “não vai ter golpe” não ecoa, não faz sentido. Afinal, na periferia, na quebrada, na favela, “tem golpe todo dia”.
Tem até premiação indireta para policiais pelo número de jovens negros abatidos em nome do combate à violência, da prevenção ao crime organizado, do tráfico de drogas e em “legítima defesa” da PM.
Essas pessoas negras, por sua vez, em legítima defesa, de fato, denunciam que o caveirão não posa para selfie onde o grosso da população negra mora, como faz com o pessoal da Paulista em dia de micareta. Na favela o caveirão arrepia!
O lema da Rondesp, a polícia que executou 13 rapazes negros na chacina do Cabula, Bahia, em 2015, é jocoso e objetivo: “faca na caveira, Rondesp desce a madeira”.
Além de Cláudia Ferreira, arrastada pela PM do Rio há dois anos, a violência letal contra as mulheres negras aumenta a cada ano, como atesta o Mapa da Violência.
A impunidade tem eliminado qualquer esperança de transformação.
Em legítima defesa esse grupo de negros não vai às manifestações em favor da democracia e grita contra o silêncio generalizado sobre as chacinas diárias que reduzem o exército de jovens negros periféricos. Escancara também o holocausto do sistema prisional brasileiro.
Atira flecha certeira na política imperialista do Brasil sobre Angola e Moçambique e na exploração multinacional das empresas às riquezas do continente africano.
Questiona o suporte à ocupação militar no Haiti e a cumplicidade do governo federal com a Marinha do Brasil na ocupação de terras quilombolas, especialmente do Quilombo Rio dos Macacos, na Bahia.
Entretanto, em contraposição aos negros que de maneira crítica não participam dos protestos democráticos, existe um grupo maior de pessoas negras que atua fortemente na convocação e na realização das manifestações em favor da garantia e ampliação do estado democrático de direito.
Não são melhores, nem piores do que o grupo anterior. Apenas fazem uma leitura diferente deles quanto às estratégias possíveis de enfrentamento ao racismo e ao genocídio da população negra.
Um grupo que, como Gonzaguinha, acredita na rapaziada, na moçada, “que segue em frente e segura o rojão”. Que põe fé na fé da moçada que não foge da raia e enfrenta o leão. Que vai à luta com essa juventude (a meninada da ocupação das escolas públicas de São Paulo e de Goiânia) que não foge da raia a troco de nada. Que luta como uma menina. Que luta nesse tempo para transformá-lo.
Em São Paulo, esse grupo de negros deu o tom da diversidade cantada por Chico César. Em cidades negras como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife, Rio Branco, João Pessoa da Paraíba, estado onde proporcionalmente se mata mais jovens negros no Brasil, além de Sampa, a cidade de maior número absoluto de negros no país, esse grupo enegreceu os protestos democráticos.
Em Brasília, Fortaleza, Maceió, Curitiba, Vitória, Porto Alegre, Belém, os negros também saíram de casa para gritar a favor da democracia, do respeito aos direitos humanos, às liberdades conquistadas no combate à ditadura. Contra o racismo, o sexismo, a violência de gênero, o classismo.
Essas pessoas negras acreditam ter à frente o desafio de construir uma ideia de desenvolvimento capaz de contemplar as diversas identidades raciais e étnicas como parte das soluções que o país necessita. Buscam a institucionalização de uma política de promoção da igualdade racial alicerçada em arranjos que envolvam os três poderes da República e diversos agentes sociais.
O grupo de negros que esteve nas manifestações pela garantia da democracia acredita nessas possibilidades de diálogo com o Estado. Acredita na política que se faz pela negociação.
Em Salvador, por exemplo, a manifestação do Campo Grande, centro da cidade, mobilizou milhares de pessoas negras como só se vê na “pipoca” dos blocos carnavalescos de apelo popular.
A favela desceu. O povo de terreiro, capoeiristas, estudantes negros cotistas. As encrespadas e turbantadas. As organizações negras clássicas, os militantes da velha guarda e os coletivos de arte e cultura.
Os braços negros dos partidos políticos de esquerda levantaram suas bandeiras e trouxeram seus raros parlamentares. As mulheres e a comunidade LGBT negra marcaram presença.
O recôncavo da Bahia veio e até o Ilê Ayê, sem tradição conhecida de esquerda, tocou seus tambores.
A avenida Sete de Setembro e a Praça Castro Alves lembravam a “pipoca” de Igor Kanário. Compacta. Aguerrida. Sobrevivente. Negra e suburbana.
O morro desceu e não era carnaval. Foi um ensaio geral pela democracia.
Vestindo o branco de Oxalá, dono do dia, a esperança mostrou sua cara preta.

18 de mar de 2016

Às ruas! Nós por nós!

Dizia o poeta: "se nos prenderem / se nos matarem / ainda assim / voltaremos e seremos milhões". Que reajamos frente à prisão que já nos é imposta e antes que nos exterminem por completo. Principalmente a nós, povo negro brasileiro.
Vamos às ruas pelo Brasil democrático, livre, que enfrenta o racismo, o sexismo, o classismo, a tortura, os depoimentos coercitivos, os desaparecimentos políticos, a violência e assassinatos perpetrados pela PM, a iniquidade da ditadura.
A hora é agora! Nós por nós! Encrespadas e encaracoladas, crespas, turbantadas, moçada da estética, povo do Funk, do Hip Hop, do morro, da quebrada, dos trens, das vans, do baile charme, dos saraus, dos coletivos de arte e cultura, vamos às ruas! Em paz, mas prontas (os) para a guerra!


17 de mar de 2016

A vizinha, a Presidenta e o Clark Kant da Boca Maldita


Por: Cidinha da Silva
Ontem, quando saía de casa por volta das 19:00 fui interceptada por uma vizinha no elevador. Estranhei porque ela mal abre a boca para responder quando a cumprimento, mas ela estava num estado de excitação incrível e dizia coisas esquisitas: “agora cai a sapatona e vão prender o barbudo”. Eu pensei, é quarta-feira, dia de Xangô, não é justo. Eu não mereço uma coisa dessas. Mas é também dia de Iansã, consolei a mim mesma, e ela não foge de uma guerra justa.
A vizinha se referia ao juiz Moro, o Clark Kant da Boca Maldita, que grampeara o telefone da Presidenta da República e do Presidente Lula. Depois que me refiz do susto, perguntei sobre o que ela falava e ouvi isso: “deu na televisão agora, passou no jornal, agora eles caem”.
“Mas um juiz pode grampear a presidenta? Quem autorizou? Isso não é ilegal?” Foi só fazer perguntas e as certezas dela tremeram.
A vizinha era para mim uma sentença matemática e eu queria descobrir o valor de X. Quem era o X da equação dela? Eu não entendo lhufas de teorias psicanalíticas, mas eu lia ali uma pulsão sexual gritante, desesperada.
Vejamos: trata-se de uma mulher branca baiana. Branca até o aeroporto de Curitiba. Tem dois filhos com um homem negro, que de vez em quando vejo apanhando as crianças ou deixando-as na portaria.
Até aquele dia eu achava que a grosseria dela comigo devia-se à possível identificação racial com o ex-marido negro (parece que se odeiam, mas também, quem é que sabe o que ela passou no casamento com cabra?), não posso ter certeza, mas achava e acho. É uma identificação com o resto, já que mulheres como ela se casam com esses caras negros porque é o que sobra. Elas prefeririam um branco mais branco que elas, ou pelo menos tão branco quanto, mas sobram os negros na bacia das almas. Negros que buscam uma branca que atue como passaporte para um mundo menos negro; salvo-conduto no mundo branco possível e para-choques no almoço de domingo nos restaurantes de classe média baixa. Aí juntam a fome com a vontade de comer e depois têm indigestão juntos.
Mas, naquele dia fatídico, ela agiu como em final de Copa do Mundo e achou que poderíamos ser íntimas. O “combate à corrupção” proposto por bandidos, chefes de quadrilha do Congresso, da Polícia Federal e do Judiciário e por coxinhas das mais variadas patentes, muitos deles beneficiários da propalada corrupção, nos uniria. Só que não, Jão!
Eu sou do time que vibra e dá suporte às 18 universidades públicas federais construídas pelo “analfabeto” Lula, a maior parte delas no interior do Brasil, gerando centenas de empregos para os pós-graduados e milhares de vagas para estudantes dos rincões do país. Ao ENEM e sua política de valorização do ensino médio e de acesso crescente do povo às universidades públicas. Às trabalhadoras domésticas, em especial, como as caras novas nessas universidades. Aos milhares de negros que entram a cada ano no ensino superior pelas cotas raciais. Aos milhões de pessoas que saíram da miséria pelo Bolsa Família e por outras políticas públicas de combate à pobreza.
Devo confessar que também me identifico com a jararaca e a vizinha tentou acertar minha cabeça, mas mirou errado e bateu no rabo.
Na tentativa derradeira de resolver a equação, insisto que dormita ali (no êxtase político da vizinha) uma questão de fundo sexual. Uma falta de tempo e de possibilidades que afoga as mulheres que cuidam dos filhos sozinhas somada ao poder deslumbrante, deslumbrado e totalitário do Clark Kant da Boca Maldita. Quem sabe até o sex appeal da jararaca barbuda, que ela parece odiar tanto, ou do lenhador pantaneiro, o denunciado alçado ao posto de denunciante pela delação premiada, é que lhe fustigue a libido reprimida.
Quem sabe mesmo a inconfessável sedução da discreta blusa vermelha da Presidenta na quarta-feira de Xangô e Iansã em que respondeu ao Moro por grampeá-la e anunciou que tomaria as medidas legais e administrativas cabíveis.

Tão elegante estava a Presidenta naquele vermelho-sangue coladinho ao corpo, bem desenhado em gola V. Acho que a vizinha não resistiu. Esse negócio de mulher pretensamente hetero que chama outras de "sapatonas" para agredi-las é sintoma do que se esconde. O estilista pessoal da Presidenta acertou a mão e sensualizou sem dó. Foi cruel. Flechou em cheio o coração da vizinha.

A africanidade e o espírito libertário de Alzira, vivos em nós!


Por *Cidinha da Silva
A narrativa do romance de estreia de Goli Guerreiro, Alzira está morta, premiado no concurso João Ubaldo Ribeiro, tem três aspectos centrais: é informativa, transatlântica (conceito de Beatriz Nascimento) e bela.
A informação fundamentada na pesquisa e na escrevivência (conceito de Conceição Evaristo) da autora, e o trânsito pela África Ocidental e pela Diáspora Negra cobrem 80 anos da história cultural de Salvador, povoam o livro desde a primeira página. A beleza, entretanto, cresce à medida que a antropóloga cede lugar à escritora.
A autora está na contramão da vasta pesquisa de Regina Dalcastagné sobre o romance brasileiro (1990-2004). Os resultados destacam a autoria de homens brancos e heterossexuais, entre 30 e 40 anos e residentes no Sudeste do país. Personagens centrais homens, escritores ou jornalistas, imersos em dilemas existenciais da classe média.
Goli Guerreiro é mulher, lésbica, entrou há pouco na casa dos 50. É soteropolitana e vive em Salvador. Em comum com os autores recenseados por Dalcastagné, apenas o pertencimento racial.
A leitura do livro, entretanto, nos mostrará que a autora branca não esbarra em estereótipos e questões éticas. Ao contrário, percebe-se a tensão racial na postura de Alzira na relação com as personagens brancas e a presença crítica (e irônica) da autora. À página 191, por exemplo, Alzira, desconfiada, recebe uma pesquisadora e temos o seguinte: (Alzira) Preferia que você fosse negra. (Lucila) Eu também – disse a moça, encarando-a com discreto sorriso.
Alzira é arquétipo de múltiplas mulheres libertárias que inspiraram a autora: Lélia Gonzales, Zora Hurston, Dete do Ilê Ayê, Arany Santana, entre outras. Transnegressora (conceito de Arnaldo Xavier), como todas as Iabás, como filha de Ewá. Faz a primeira viagem a Lagos, Nigéria, na década de 1930, para cumprir um desejo da mãe e quem sabe lhe dar netos legitimamente nagôs.
A autora prefere chamar as partes do livro de frames, ao invés de capítulos. Acrescentaria que Alzira mesma é um frame, uma borda firme e bem delineada que nos permite vislumbrar as águas do Atlântico e por elas navegar com o apoio do arco-íris como caleidoscópio de vozes, texturas, sabores, imagens, tranças econômicas e conhecimento tecnológico transatlântico.
As imagens de Alzira em diversas faixas etárias, de seus pais, das paisagens urbanas visitadas, dos artefatos e fotografias, bem como os textos de contextualização histórico-cultural no início de cada frame, são marcas significativas de uma narrativa ágil e convidativa. Porém, algumas passagens mereceriam mais literatura e menos antropologia.
Alzira está morta é amálgama de africanidades, espírito libertário e protagonista de mulheres pouco ouvidas e compreendidas em sua complexidade na História, mas que existiram. Existem. São nossas preciosas ancestrais reveladas pela singular Alzira.
*Cidinha da Silva é escritora, autora Racismo no Brasil e afetos correlatos (2013), entre outros.

3 de mar de 2016

Xirê, a brincadeira lírica de Dú Oliveira!


Por Cidinha da Silva



Foi Vanda Machado quem tocou o segredo. Eu os bem-digo, à leitora do oráculo e ao segredo que verbalizo sem constrangimento: Xirê, a brincadeira lírica é um livro de ronkó.

Que o digam as mulheres-pássaro, às quais o homem de Ifá, frágil e contrito, roga que não o olhem, não o alcancem, não o abracem, não o seduzam para a cópula. Que não estejam férteis ao encontra-lo. Que não o encontrem. Este, o melhor dos mundos.

O que há para ser dito (a partir e além do poema) é revelado por aquilo que os de dentro compartilham. Antes da análise insuficiente da forma.

É o dentro do segredo. O que vive no interior da pérola fina que se esconde na ostra que nasceu do lodo, como na canção popular.

A revelação é feita a mulheres e homens iniciados. Gente lavada pelo vermelho vivo de veias e artérias, não só pelo encantamento formal do dendê.

No alforje da prosa poética que intercala os versos, a fonte das especiarias do feiticeiro Guiã. O estojo de costura do bordador da linhagem polifônica das Áfricas de HampâTé Bâ – quem não se lembra de Tidijane – de Lampião, rei do cangaço, e de João Cândido, o almirante negro.

Descompassado. De travessa. Na nesga. À deriva. Dú Oliveira exuzilha sem trégua. Como quem come na festa de Tempo. Em movimento.

O menino de Orunmila nos oferece versos traiçoeiros. Gingadores. Certeiros na cabeçada que derruba a militância, artistas e intelectuais que folclorizam o segredo, que não vão além do urucum do dendê.
Xirê, a brincadeira lírica dá rasteira nos teóricos que analisarão a palavra, mas não entenderão o sopro do verbo.

Daqui do Mundubantu te saúdo, pai-grande! Saravá sua banda!

1 de mar de 2016

Só o escárnio explica o Rio ter um candidato a prefeito que bate em mulher

Por Cidinha da Silva
O caso de violência doméstica do Deputado Federal Pedro Paulo Teixeira contra sua ex-esposa, Alexandra Marcondes, teve mais um capítulo. Desta feita, veiculado em vídeo.
Alexandra, antes agredida, declarou-se agressora de Pedro Paulo.
Até chegar a este capítulo de fevereiro de 2016, a imprensa havia tornado público boletim de ocorrência feito por Alexandra, em 2010, dando conta de que fora agredida a socos e pontapés pelo ex-marido, após descobrir situação de infidelidade com outra mulher dentro da casa do casal.
A exposição levou Pedro Paulo à manjada estratégia de admitir o erro, a traição, confiante no beneplácito da opinião pública que perdoa as escapadas de homens jovens, tidos como bonitos e fogosos, como ele. Afinal, o povo é mais condescendente com os potrões do que com os cavalos velhos.
Pedro Paulo, entretanto, escorregou ao dizer que agrediu Alexandra uma vez só. E que atirasse a primeira pedra quem nunca se excedeu numa relação conjugal. Recurso usual para galvanizar o apoio dos homens.
A imprensa investigativa foi a campo novamente e descobriu outro boletim de ocorrência, com agressões datadas de 2008.
A agredida, Alexandra Marcondes, irritou-se com a publicidade do caso. Reclamou em entrevista que a filha estava sendo ridicularizada na escola (costuma ser comovente envolver as crianças no dramalhão, fazê-las sofrer com a atitude dos outros, não a dos pais) e ela mesma estava sendo prejudicada por uma questão “doméstica”. O caso estava superado. Que os deixassem seguir em paz.
Ocorre que, uma vez instaurado o processo, a Lei Maria da Penha garante que ele continue, mesmo que haja retirada da queixa.
Bem orientada por advogados e pelo ex-marido, interessado direto no encerramento da questão, Alexandra chegou a procurar o Ministério Público e mudou o que havia afirmado nos boletins de ocorrência. Alegou que nunca fora agredida e que a denúncia fora invencionice própria pautada pelo desespero da separação.
Jogou a cartada de que tudo é possível tendo em vista o imaginário machista que considera as mulheres como seres instáveis e insanos.
Nesse ínterim, houve parecer de legista independente demonstrando que Pedro Paulo teria agido em legítima defesa. E agora, pensam que nos enganam com as patéticas alegações de PP ao Ministério Público Federal pretendendo ter apenas reagido às agressões da ex-esposa. Para o casal só o adágio popular tipicamente carioca se aplica, “me engana que eu gosto”.
Está patente o desespero de Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, e de Pedro Paulo Teixeira, primeiro na linha sucessória que Paes pretendia ratificar na eleição municipal.
O pupilo precisa ser salvo a todo custo para cumprir o projeto do PMDB de Paes na cidade. Para tanto, lançam mão de expedientes corriqueiros entre políticos, militantes de partidos e da sociedade civil, empresários, professores universitários, sindicalistas, figuras masculinas agressoras e públicas, que é o de pressionar (às vezes negociar com) a mulher agredida pela redução de danos à imagem do agressor.
É possível que haja compensação financeira no caso dos endinheirados. Noutros casos, a culpabilização da mulher pela “destruição” de um quadro político promissor (também os consolidados) é a tática escolhida. Afinal, num momento de desespero, esses homens foram tragados pela pressão cotidiana do capitalismo, da polícia, do racismo, do classismo ou de qualquer outra ordem e desceram o braço na esposa. Essa culpa as fragiliza ainda mais.
A esposa é instada à compreensão, ao perdão, a não denúncia, à manutenção da integridade familiar, à renúncia de si mesma. A guarda dos filhos, os ilusórios cuidados com a psiquê deles, tornam-se moeda de troca e instrumento opressor das mulheres.
A atitude de Alexandra, por sua vez, avilta a memória das mulheres que perderam a vida nas teias da violência doméstica.
Vilipendia as mulheres que hoje denunciam seus algozes e por esse motivo correm risco de morte. Desrespeita todas as mulheres que entregam suas vidas à batalha pela garantia dos direitos da mulher.
Que exemplo Alexandra dá às meninas que a cercam? Que tipo de mensagem emite a filhas, sobrinhas, primas, amigas dessas garotas que frequentam sua casa? “Sejam submissas, gurias! Apanhem caladas como nos tempos da pedra lascada. Não deixem que o destempero dos maridos vaze para a polícia e ainda menos para a imprensa”.
E para os meninos? Filhos, sobrinhos, primos, amigos desses garotos que também frequentem sua casa? “Podem descer a ripa nas meninas e mulheres, meninos! Mulher gosta mesmo de apanhar. Vejam o meu caso. Me utilizem como exemplo para exigir das mulheres uma atitude pro-ativa de proteção à família e à reputação do patriarca”.
O que Alexandra Marcondes não sabe é que, diferente de Dona Ruth Cardoso que talvez tivesse acordos matrimoniais e de distensão conjugal com Fernando Henrique, aos quais nunca teremos acesso, os dela e de Pedro Paulo são escandalosamente decodificáveis e inaceitáveis.
Trata-se do velho modelo patriarcal de que, em nome da preservação da carreira política do marido e da situação patrimonial da família, a mulher se sujeita ao que for necessário e definido pelo macho. Tristes trópicos.