Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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31 de dez de 2007

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis...ora!/Não é motivo para não querê-las.../Que tristes os caminhos, se não fora/A mágica presença das estrelas! (Mário Quintana)

24 de dez de 2007

Novo espaço de leitura prescinde de documentos para empréstimo de livros, em São Paulo

(texto de divulgação) "Um novo espaço de leitura está à disposição dos cidadãos da cidade de São Paulo desde as 11h deste dia 23. O "Acessa Livro", como foi batizado, é novo também no jeito de administrar o empréstimo e o uso dos livros que fazem parte do seu acervo. No "Acessa Livro", não é preciso se cadastrar, nem mesmo apresentar documentos, para poder ler e pegar livros emprestados. Quem quiser, pode levar livros para casa, e o compromisso com a devolução fica por sua conta. E o usuário que quiser também pode doar obras para que outros possam aproveitar. Para quem gostou da idéia e quer visitar o local, o posto Parque da Juventude fica na Av. Cruzeiro do Sul, 2.500, ao lado da estação Carandiru do Metrô. O horário de funcionamento é de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h30".

Projeto de lei para distribuir livros gratuitos aos professores

(Por Galeno Amorim) "O senador Cristóvam Buarque (PDT-DF) apresentou ao Senado projeto de lei que autoriza o Ministério da Educação a criar a Biblioteca do Professor. A idéia é distribuir dois livros por ano a cada educador das escolas públicas do país. Eles próprios escolheriam os títulos, entre obras de literatura, científica, didáticas ou técnicas. Os recursos sairiam do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). A proposta está na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, onde ninguém apresentou emendas. A relatora, deputada Maria do Rosário (PT-RS), deve anunciar seu parecer nos próximos dias".

Livros devem ter versões para deficientes visuais

(Por Galeno Amorim) "Os membros do Grupo de Trabalho criado pela Câmara Setorial do Livro e Leitura para tentar encontrar um meio para tornar os livros mais acessíveis aos deficientes visuais estão convencidos de que estão bem próximos de uma solução. A idéia é que os livros publicados no país também sejam oferecidos, no mercado, no formato braille, digital ou algum outro que venha a surgir. Pela proposta - em torno da qual já há um certo entendimento entre representantes das editoras e dos deficientes visuais -, isso passaria a vigorar a partir da data da regulamentação da Lei do Livro, prevista para acontecer no primeiro semestre de 2008. Nos casos em que não for possível colocar esses formatos diretamente nos pontos de venda, as editoras ou terceiros indicados por elas se obrigariam a atender os pedidos por encomenda. Só não há consenso, ainda, sobre os preços a serem cobrados por esses produtos, especialmente o braille, que tem um custo de produção bastante superior ao livro no formato convencional em papel. A próxima reunião da CSLL está marcada para os dias 6 e 7/3, quando as partes esperam chegar a um acordo".

23 de dez de 2007

CineCUFA - o cinema na tela da favela

Ao final do ano todo mundo faz balanços, não é? Para não fugir à regra e por não ter conseguido fazê-lo antes, posto aqui uma notinha sobre o CineCUFA, 1a edição, uma das melhores coisas que assisti em 2007. De 04 a 16 de setembro no CCBB, RJ, dezenas de filmes produzidos por periferias de todo o mundo foram apresentados para gente de todas as idades, mas principalmente crianças, adolescentes e jovens. Moçada oriunda das periferias da cidade do Rio de Janeiro. Mais de três mil pessoas visitaram a mostra e muitos educadores solicitaram à CUFA - Central Única das Favelas que produza uma coletânea dos filmes apresentados para atingir outros públicos, notadamente nas escolas. Para saber mais, inclusive sobre o processo seletivo para a 2a edição mostra, consulte www.cinecufa.com.br (release da mostra) "O CineCUFA é um festival dedicado às obras audiovisuais produzidas por periferias de todo o mundo e traz como proposta o incentivo à uma nova ordem cultural e artística, que tem como objetivo maior mostrar um novo ponto de vista: a capacidade de contribuir não somente com personagens que possam atuar à frente das câmeras, mas também como protagonistas atrás delas. Portanto na tela do Cinecufa, ou seja na tela da favela, os cineastas das periferias encontram a oportunidade de exibir o seu ponto de vista sobre os mais variados assuntos. Temos como objetivo fomentar a construção de uma identidade que passe a atuar mais fortemente no mercado cinematográfico, fazendo com que os realizadores dessa crescente vertente audiovisual reconheçam-se como representantes de um novo e legítimo movimento estético, social e político. A partir da seleção dos filmes, a proposta é traçar um paralelo entre a diversidade e a peculiaridade deste segmento de produção, abordando temáticas diversas, distribuindo curtas, médias e longa-metragens numa programação de 12 dias. De 04 a 16 de setembro o Centro Cultural do Banco do Brasil serviu de palco para para a nossa tela, para a festa revolução cultural. Devido ao barateamento dos equipamentos audiovisuais deu-se nas última décadas uma intensa produção oriunda da periferia que, por outro lado, ainda não conta com locais para exibição que atendam a esta demanda. E o CineCUFA vem contribuir para a diminuição da lacuna entre a produção audiovisual da periferia e o público, na maioria das vezes, não-conhecedor destas obras. Ao viabilizar essas exibições, o festival também inicia um processo de incentivo para que mais projetos sejam realizados".

22 de dez de 2007

Seppir Reeditará História Geral da África

(Deu no informativo da Seppir) "O ministro interino da Seppir, Martvs das Chagas, reuniu-se na terça-feira (18/12), com o secretário-executivo do MEC (Ministério da Educação), José Henrique Paim Fernandes, representantes da Fundação Cultural Palmares e da Unesco Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em Brasília, para tratar de parceria para reedição dos 8 volumes que compõem a enciclopédia História Geral da África, clássico elaborado pela Unesco. A reedição da enciclopédia se destina a bibliotecas de escolas e universidades públicas". Sobre a publicação: "A Unesco coordenou a elaboração de uma História Geral da África, em 1971, 'enfocada sob o ponto de vista da própria África'. O comitê a quem se delegou a tarefa era composto por 39 membros, dos quais dois terços eram africanos. No Brasil, a Unesco associou-se à editora Ática na edição dos oito volumes da coleção. No prefácio ao primeiro volume,M. Amadou Mahtar M’bow, diretor geral da Unesco na época, afirmou que 'a Unesco fará tudo o que for necessário para que esta História Geral da África seja amplamente divulgada, em várias línguas, e sirva de base para a elaboração de livros infantis, manuais escolares e programas de rádio e televisão. Desta maneira, jovens, escolares, universitários e adultos, da África e de outras partes do mundo, poderão dispor de uma visão mais correta do passado do continente africano e dos fatores que o explicam, assim como de uma compreensão mais justa de seu patrimônio cultural e de sua contribuição para o progresso geral da humanidade'". Aguardamos com ansiedade.

Blackitude convida: o ano cultural ainda não acabou em Salvador

21 de dez de 2007

Grupo Nós do Morro recebe recursos para refletir sobre 20 anos de atividade artística

Um colunista social noticiou que o grupo Nós do Morro, da Favela do Vidigal, Rio de Janeiro, recebeu uma dotação de R$ 250 mil reais do BNDES para a confecção de um livro sobre os 20 anos de trajetória do grupo. Louva a iniciativa, mas pergunta se “não seria melhor usar o dinheiro diretamente na favela”? Eu pergunto por que investir em arte na favela não significa investimento direto na favela? Pobre só tem fome de comida? Só tem necessidade de saneamento básico, luz, segurança e água? A fome de circo só tem sentido se cantada pelo Titãs, para o público de classe média do Titãs? Gente empobrecida materialmente também quer dinheiro e felicidade, justiça, liberdade e arte; quer inteiro e não pela metade. Algumas informações, de fato relevantes, não tiveram destaque. Os R$ 255 mil reais, este é o valor correto, foram concedidos ao grupo via Lei Rouanet, um instrumento público aberto à concorrência para qualquer projeto artístico-cultural legalmente constituído no país. “A realização do projeto compreende as fases de pesquisa e organização do acervo de material documental e artístico dos 21 anos de atuação do grupo; a publicação do livro comemorativo, com imagens do acervo, entremeado de depoimentos, artigos e ensaios, especificamente elaborados para a publicação; a promoção do evento de lançamento do livro; e a realização de uma exposição com as fotos e objetos do acervo do grupo. A estimativa é que a execução do projeto resulte na geração de 33 empregos diretos”, conforme disposto no sítio do BNDES. Trata-se de um livro de arte sobre as duas décadas do grupo Nós do Morro, “incluindo nesta narrativa a história do Morro do Vidigal e o cenário social e artístico no período. A edição do livro terá tiragem mínima de 3 mil exemplares, sendo 50% destinada à distribuição gratuita a instituições públicas de todo o país, tais como bibliotecas, escolas, universidades, centros culturais e museus. Os demais serão vendidos com preço abaixo dos praticados pelo mercado. A publicação será acompanhada de CD-ROM com imagens de peças e filmes do Nós do Morro”. É bom que se apresente o projeto integralmente, caso contrário, fica parecendo que é muito dinheiro para pouca coisa. Há uma mentalidade colonial e colonizada que nos domina e propugna que dinheiro aplicado à arte produzida por grupos como o Nós do Morro seria melhor utilizado no suprimento de necessidades básicas de moradores de favela. Arte, para morador de favela, não seria necessidade básica, seja a produção de arte, seja o consumo de bens artísticos. Há também elementos de burrice e desconhecimento nesse tipo de raciocínio. Para resolver os problemas estruturais das favelas são necessários milhões em investimento. R$ 255 mil nada significam para este tipo de finalidade, como também nada significam para a produção de espetáculos e artistas de “alto nível”. Aqueles mesmos que espernearam quando o Ministério da Cultura, na gestão Gilberto Gil, inverteu prioridades e passou a considerar mais os coletivos e seus projetos de intervenção cultural e, menos, as estrelas singulares e individualistas. Entretanto, R$ 255 mil reais significam muito para a proposta de intervenção artístico-cultural de grupos como o Nós do Morro. Que a Lei Rouanet e outras leis de incentivo à cultura alcancem, cada vez mais, grupos dessa natureza. Nós do Morro por ele mesmo: “O Grupo Nós do Morro surgiu na favela do Vidigal, no Rio de Janeiro e, desde então, vem alcançando amplo reconhecimento da sociedade pelo trabalho realizado junto à comunidade carente, tendo recebido diversos prêmios teatrais. Em 2003, com o sucesso do grupo foi criada a Companhia de Teatro Nós do Morro, com o objetivo de aperfeiçoar e dar continuidade ao processo de criação e produção de sua linguagem artística. A Companhia mantém o vínculo sócio-cultural com a comunidade original, tendo em seu elenco atores e técnicos fundadores e integrantes do grupo, que atende anualmente cerca de 300 crianças, jovens e adultos da comunidade, nas áreas de teatro e audiovisual. Os espetáculos do grupo foram encenados no Rio e em São Paulo, integrando a agenda cultural dessas cidades, e foram contemplados com diversos prêmios, incluindo uma Menção Honrosa da UNESCO em 2002. Além da criação do Grupo de Teatro, o Nós do Morro criou um Núcleo Audiovisual, em que são produzidos roteiros, filmes de longa e curta-metragem de ficção e documentários, como no fortalecimento de importantes parcerias com produtoras como Diller Trindade, Rio Vermelho, Raccord, e Copacabana Filmes, possibilitando a inserção no mercado de trabalho de vários dos seus técnicos e artistas. Com 20 anos de existência, hoje o Nós do Morro, que se tornou referência cultural e social, é um centro de formação artística que atende a 320 alunos no Vidigal, cumprindo sua missão de formar artistas-cidadãos e de dar sua contribuição às Artes através do desenvolvimento do processo de construção da linguagem cênica fundada na cultura nacional e popular”. (Do sítio do BNDES) “O surgimento do Nós do Morro, nos anos 80, ocorreu justamente em um momento em que as organizações comunitárias ganhavam força nas favelas do Rio de Janeiro. O movimento de formação do grupo promoveu uma fusão entre diferentes associações de favela. À época, a parte baixa do morro – mais próxima à avenida Niemeyer – era morada de artistas, intelectuais e jornalistas. Já na subida da encosta – nas partes média e alta – crescia o número de moradias da população mais pobre. Foi a partir da relação criada entre artistas e intelectuais e os jovens de baixa renda da comunidade do Vidigal que foi originado o Nós do Morro. Hoje, o chamado Casarão, sede das atividades do grupo, encontra-se na parte média do morro. Desde o início de suas atividades, já passaram por suas oficinas mais de 3 mil pessoas. Atualmente o Nós do Morro oferece cursos de formação de atores e técnicos em artes cênicas para cerca de 300 jovens e adultos da comunidade, ainda que com poucos recursos, vindos principalmente de um apoio anual da Petrobrás”. Visite a página do grupo: www.nosdomorro.com.br

20 de dez de 2007

Tributo da Matéria ao Espírito MC BLUL

(texto elaborado pela coordenação da campanha 'Reaja ou será morto, reaja ou será morta', Salvador, BA) "Mc Blul foi mais uma vítima da ação letal dos grupos de extermínio que atuam na periferia de Salvador e de outras partes do Brasil, exterminando a juventude negra com a chancela do Estado. Os corpos que eles deixam no chão, não encontram lugar na mídia semelhante ao "pit-boy" lutador de vale tudo da familia Greise que morreu no ultimo fim de semana, tão pouco resposta do poder judiciário que agi em câmera lenta para investigar as nossas mortes e até mesmo para julgar os processos da população carcerária. Não estamos esperando o Globo o Repórter fazer uma reportagem especial ou quem sabe até o Repórter Record, nós somos @s nossos portas vozes, estamos denunciando que no fim de semana os coveiros abrem covas com antecedência para atender a demanda gerada nesse período, que as agencias funerárias, cada vez mais numerosas em nossos bairros, lucram como nunca; que os fabricantes de armas festejam a nossa morte; que as grandes construtoras/imobiliarias (Odebrecht, etc.) lucram com a construção e reforma de presídios... Ou seja, nosso sangue é moeda corrente. Reaja ou será morto, reaja ou será morta!"

17 de dez de 2007

Lançado em Salvador o Centro Internacional de Estudos Avançados Sobre Brasil, África e Diásporas - CIEABAD

Mazza – Quais são os objetivos do CIEABAD? Carlos Moore – São vários. Primeiro, promover o estabelecimento, no Brasil, de genuínas instituições voltadas para os Altos Estudos sobre África, as Relações Raciais e as Diásporas Africanas. Segundo, acompanhar as relações do Estado brasileiro e das multinacionais brasileiras com os países do continente africano. Terceiro, monitorar a maneira em que a África é apresentada pela mídia deste país, bem como os assuntos referentes a esse continente; e prover a sociedade civil brasileira com canais de informações alternativos sobre a África e suas realidades. Quarto, incentivar as pesquisas internacionais e nacionais em torno a três grandes projetos: a) a definição das bases estruturais que poderiam facilitar, na África, o projeto de federalização do continente; b) a definição das bases estruturais que poderiam facilitar, no Brasil, a transição democrática para uma sociedade verdadeiramente multirracial; c) a definição das condições estratégicas que poderiam facilitar o surgimento, no século XXI, de uma aliança de países do Atlântico Sul, em torno a uma parceria Brasil-África. Com efeito, vemos essa possibilidade como um evento capaz de influir na democratização das relações internacionais e consolidar a tendência para a multiplicação dos centros de poder. Uma primeira conferencia internacional de especialistas incumbidos de chefiar os grupos de pesquisa que irão trabalhar nesse sentido está prevista para ocorrer em Salvador, Bahia, em abril 2008. Mazza – Como surgiu exatamente a idéia desse projeto? Carlos Moore – Na realidade, a idéia inicial partiu de Ivete Sacramento, em 2000, momento em que ela iniciava seu mandato de reitora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), e Hélio Santos. Ivete Sacramento até tentou transformar um órgão que já existia na UNEB – o Centro de Estudos das Populações Afro-Indígenas-Americanas (CEPAIA) – num Centro de referência para o estudo da África, das diásporas africanas e das relações raciais. Eu acabava de chegar no Brasil, mas aceitei o desafio. Lembro-me de que Hélio Santos me propôs a criação de um Instituto de Altos Estudos sobre África, as Diásporas Africanas e as Relações Raciais e, inclusive, quis estabelecer uma Fundação para o Desenvolvimento Afro-Americano para esses fins. Assim, em 2006, após muitas e longas conversas entre vários pesquisadores e intelectuais, brancos e negros, chefiados por Kabengele Munanga, Hélio Santos, Ivete Alves Sacramento e eu, decidiu-se, finalmente, a criar o CIEABAD. Mazza – Quais eram as suas preocupações ao tomar essa iniciativa? Carlos Moore – Eram várias. Primeiro, ajudar a consolidar a Lei 10.639/03, que eu, pessoalmente, considero como uma das iniciativas mais democráticas empreendidas por um governo neste hemisfério desde a lei que generalizou os Direitos Civis dos negros nos Estados Unidos, ao início dos anos 1970. Havia que apóia-la e evitar que ela fosse destruída por descumprimento, ou porque alguns grupos de interesses se aproveitassem dela para fazer o que sempre fazem: lucrar. Segundo, havia que impedir que as disposições positivas que o Estado brasileiro vinha tomando desde 2000 – introdução da noção das ações afirmativas, das cotas raciais nas universidades, do cadastramento e titularização das terras quilombolas, etc. – fossem freadas pela parte conservadora da sociedade que se opõe a elas. E, terceiro, estávamos preocupados em impedir que a relação do Estado brasileiro com a África fosse seqüestrada, também, pelos mesmos interesses que, aparentemente, estão tentando seqüestrar as diferentes conquistas democráticas da sociedade civil brasileira. Sabíamos que só a organização e a determinação poderiam ajudar a estender a ação democrática do Estado e proteger as conquistas sociais do Movimento Social Negro, por exemplo. "Mazza – É esse o sentido de sua proposta de criação de um Centro Internacional de Estudos Avançados sobre Brasil, África e as Diásporas (CIEABAD), a partir de Salvador? Carlos Moore – Sim. Ele corresponde a uma demanda que não cessa de crescer, não somente no Brasil, mas no resto do mundo, em se considerando a situação que vive o continente africano. Há muita preocupação em torno à África, especialmente entre os afrodescendentes e as correntes democráticas deste país e do mundo inteiro. Mazza – Um grande problema que confrontam os movimentos sociais, para realizar seus objetivos, é a falta de recursos. De onde provirão os recursos para sustentar um projeto tão ambicioso como o é o CIEABAD? Carlos Moore – Os recursos econômicos desempenham um papel importante na sobrevivência ou não de uma instituição. Entretanto, os recursos humanos, também, são vitais. Por isso, queremos juntar a ele somente as pessoas idôneas, cuja coerência política e probidade moral são inquestionáveis. Trata-se de um projeto que corresponde aos melhores interesses das sociedades civis africana e brasileira. Mazza – Tem-se notado que, freqüentemente, muitas das velhas reivindicações do movimento negro, que agora se concretizam como conquistas, são imediatamente aproveitadas para satisfazer interesses pessoais de indivíduos que até são hostis aos afrodescendentes. Carlos Moore – Os interesses mercenários existem desde que Roma os erigiu em princípio de governo. Roma espalhou essa prática pelo mundo antigo e hoje ela forma parte de nossas vidas cotidianas. Mas, o império romano caiu, como caem todos os impérios, diante da determinação dos povos agredidos e colonizados. Mazza – Como o senhor avalia a produção dos intelectuais negros para a superação da discriminação racial e do racismo? Carlos Moore – De modo geral, os movimentos negros deste continente, e seus intelectuais, apresentam as mesmas forças e fraquezas. São formidáveis na prática da denúncia, na ação radical direta, mas apresentam grandes problemas na teorização de suas próprias ações. Por outra parte, a maioria dos intelectuais negros que eu conheço, parece vacilar ainda entre a ruptura franca com os velhos esquemas reificados pelo Ocidente como superiores, e a exploração pioneira, a única que abre caminhos e cujo horizonte é sem fim. É como se hesitassem ainda a contrariar as estruturas dominantes e a querer galopar sobre dois cavalos indo em sentidos inversos! Cheikh Anta Diop foi uma das grandes exceções. Ele provocou uma profunda ruptura epistemológica nas Humanidades quando introduziu a África, os processos evolutivos e a questão racial como dados fundamentais na produção do conhecimento contemporâneo. Provocou um irreparável racha na fachada do pensamento único promovido pelo mundo acadêmico-intelectual ocidental e iniciou uma verdadeira revolução no pensamento de todos, brancos e negros. Mazza – O senhor pensa que algo similar poderia acontecer aqui, no Brasil? Carlos Moore – Felizmente, já está acontecendo sob nossos olhos. Nós já presenciamos a existência de uma nova geração de jovens, brancos e negros, que estão se interrogando sobre o racismo e o rumo que deverá tomar a Nação. Não acho que alguém possa os forçar a “calar a boca”. Em que pesem as manobras de intimidação de que serão objetos, no âmbito acadêmico ou intelectual, esses jovens deverão se lançar pelo único caminho digno de um verdadeiro intelectual – o caminho do pensamento crítico, sem se importar com a opinião daqueles que se comportam como verdadeiros carcereiros do pensamento". Fonte: Entrevista publicada pela Mazza Edições. www.mazzaediçoes.com.br

12 de dez de 2007

Minas e o sertão

"O mineiro é muito espectador. O mineiro é velhíssimo, é um ser reflexivo, com segundos propósitos e enrolada natureza. É uma gente imaginosa, pois que muito resistente à monotonia. É boa - porque considera este mundo como uma faisqueira, onde todos têm lugar para garimpar. Mas nunca é inocente". "O mineiro traz mais individualidade que personalidade. Acha que o importante é ser, e não parecer, não aceitando cavaleiro por argueiro, nem cobrindo os fatos com aparatos. Sabe que 'agitar-se não é agir.' Sente que a vida é feita de encoberto e imprevisto, por isso aceita o paradoxo; é um idealista prático, otimista através do pessimismo." "( O mineiro) não entra caninamente em disputas. Melhor, mesmo - não disputa. Atencioso, sua filosofia é a da cordialidade universal, sincera; mas em termos. Gregário, mas necessitando de seu tanto de solidão, e de uma área de surdina, nos contatos verdadeiramente importantes. Desconhece castas. Não tolera tiranias, sabe deslizar para fora delas. Se precisar, briga." "(O mineiro) tem memória longa. Não tem audácias visíveis. Ele escorrega para cima. Só quer o essencial, não as cascas. Sempre frequentado pelo enigma, pica o enigma em pedacinhos, como quando pica seu fumo de rolo, e faz contabilidade da metafísica; gente muito apta ao reino do céu." "(O mineiro) não acredita que coisa alguma se resolva por um gesto ou um ato, mas aprendeu que as coisas voltam, que a vida dá muitas voltas, que tudo pode tornar a voltar. Até sem saber o que faz, o mineiro está sempre pegando com Deus." (Texto de Guimarães Rosa; "Aí está Minas, a mineiridade." Revista Manchete de 25/08/57; imagens: flor de pequizeiro; caricatura de Guimarães Rosa, sertão mineiro em movimento)

11 de dez de 2007

"Cadernos Negros volume 30 - contos: Você precisa ler"

(Texto de divulgação) "Confirmado: é dia 14! E é com muito orgulho pelo caminho já trilhado e desejosos de prosseguirmos sempre adiante nessa longa estrada de lutas que convidamos você, seus familiares e amigos para celebrar conosco a concretização de mais um projeto, herdeiros que somos do legado de nossos ancestrais, que resistiram em nome de um sonho: a liberdade. Hoje nosso confronto se dá em vários campos: discriminação, invisibilidade, ausência de cidadania. Por isso estamos aqui, há 30 anos mostrando nossa cara e dando nossa cara a uma tradição que durante tanto tempo nos foi negada: a literária. Os Cadernos surgiram em meio à efervescência do movimento negro, em 1978. Desde então vêm perpassando gerações, acionando em seus leitores a consciência de que, sim, podemos e devemos ocupar nosso espaço nesta sociedade e país que foram construídos à base de muito suor de nossos antepassados. Embora com três décadas de vida, os Cadernos ainda enfrentam as dificuldades financeiras e culturais de sempre. O livro sai porque é feito na raça. A leitura ainda é pouco habitual entre a população, que, quando lê, opta pelo que o grande mercado oferece. Algumas luzes se acendem para se apagar em seguida. Mas a série Cadernos Negros já conquistou um público que a acompanha, além de merecer atenção em alguns centros acadêmicos. O lançamento do volume 30 de Cadernos Negros é mais do que uma festa, é um rito de passagem, a superação de mais uma fase e a preparação para outras que virão. Portanto, precisamos estar todos juntos, lá, nos encontrando, lendo, conversando e comentando sobre nossos contos. Enfim, sendo o que somos: povo brasileiro. E temos sede de literatura afro"! Autores (as): Ademiro Alves (Sacolinha). Luiz Carlos de Oliveira. Allan da Rosa. Márcio Barbosa. Conceição Evaristo. Mel Adún. Cristiane Sobral. Michel da Silva. Cuti. Miriam Alves. Décio Vieira. Oubi Inaê Kibuko. Edson Robson. Raquel de Almeida. Elizandra. Rosário Ngunza. Esmeralda Ribeiro. Ruimar Batista da Costa. Helton Fesan. Sergio Silva. Henrique Cunha. Sidney de Paula. Lande Onawale. Zula Gibi. Apoio: SESC – Paulista · Conselho Estadual de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo · Cone - Coordenadoria dos Assuntos da População Negra (PMSP) · Secretaria Especial de Políticas da Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) · Fundação Cultural Palmares · Revista Raça Brasil. Sobre os Cadernos Negros: "Os Cadernos foram criados em plena fase de redemocratização do país. Em 1978 surgiu o primeiro volume da série CADERNOS NEGROS, contendo oito poetas que dividiam os custos do livro, publicado em formato de bolso com 52 páginas. A publicação, vendida principalmente em um grande lançamento, circulou posteriormente de mão em mão, sendo distribuída para poucas livrarias, mas obteve um expressivo retorno dos que tiveram acesso a ela. Desde então, e ininterruptamente, foram lançados outros volumes - um por ano - alternando poemas e contos de estilos diversos. A distribuição aperfeiçoou-se, procurando chegar a um público mais amplo e diversificado do que aquele atingido pelos primeiros volumes. Escritores de vários Estados do Brasil vêm publicando nos Cadernos. É preciso assinalar que não existem outras antologias publicadas regularmente com textos de autores afro-brasileiros, em grande parte devido às dificuldades financeiras inerentes às publicações deste tipo. Sendo assim, os Cadernos têm sido um importante veículo para dar visibilidade à literatura negra. O material publicado nos Cadernos tem sido fonte para ensaios, teses e estudos diversos por parte de estudantes de Letras, pesquisadores e professores universitários. No campo estético ou enquanto forma de resistência cultural, os Cadernos têm tido importância inegável e, proporcionando oportunidade para o exercício de criação literária diferenciada, possibilita que os descendentes de africanos passem de objeto a sujeito da escrita, enriquecendo ainda a discussão a respeito da questão racial. A venda principal dos Cadernos ocorre no lançamento de cada volume. Estes eventos chegaram a reunir 2.000 pessoas, têm performances poético-dramáticas e espetáculos de dança. O público leitor de Cadernos é heterogêneo, sendo constituído, majoritariamente, por pessoas da comunidade afro-brasileira, especialmente universitários, professores e profissionais liberais. Mas também há leitores comuns e intelectuais pertencentes a outros segmentos étnicos da população. Os Cadernos atendem a uma demanda por um tipo de literatura não oferecida pelo mercado editorial. O seu nome tornou-se uma marca cujo alcance vai além dos limites de distribuição e venda dos livros. Os Cadernos Negros têm sua organização e editoração a cargo do Quilombhoje (que também se encarrega do lançamento e distribuição), o grupo arca com parte dos recursos e outra parte é dividida pelos autores participantes, num processo cooperativo que tem permitindo superar as barreiras impostas pelo mercado. Recentes volumes foram feitos em co-edição com uma editora" (informações retiradas do sítio www.quilombhoje.com.br)

10 de dez de 2007

Ministro do STF, Joaquim Barbosa, é escolhido Brasileiro do Ano

( Deu no Estadão) "O ministro Joaquim Barbosa foi escolhido, pela revista IstoÉ, o ‘Brasileiro do Ano’. Ele será homenageado em festa promovida pela revista no dia 10 de dezembro, em São Paulo. Joaquim Barbosa ganhou notoriedade no país com a sua atuação à frente do inquérito do mensalão, grande escândalo político transformado em Ação Penal pelo Supremo Tribunal Federal. Barbosa é o relator do processo, com 40 denunciados. Entre eles, José Dirceu, ex-chefe da Casa Civil. Depois de cinco sessões e 30 horas de debates, os ministros do STF decidiram receber a denúncia e Joaquim Barbosa foi aclamado pela mídia como herói nacional. Foi capa de duas revistas semanais e recebeu menções honrosas de uma terceira".

8 de dez de 2007

Benjamim, o filho da felicidade

(Por Heloisa Pires Lima) "Se, abristes este livro, e o estás lendo agora, saibas que, de repente, estás entrando em um outro tempo. Visitarás o século XIX, já no seu finalzinho. Depois, deves seguir pelo início do século XX. Seria extraordinário encontrar transeuntes com seus trajes de época, seus carros e prédios. Mas, tua entrada naquele mundo será mais fascinante ainda; ela se dará através dos circos daquele tempo. Assim, de repente. Heloisa Prieto percebeu que o instante de uma grande virada na vida, pode ser uma fonte caudalosa de boas histórias e criou esta coleção. Pois na virada daqueles séculos, havia uma que ela pediu para que eu recontasse. É a história de Benjamin, o maior palhaço negro do Brasil; alguns dizem, do mundo. Esta novela juvenil apresenta Benjamin de Oliveira( Pará de Minas,11de junho de 1870- Rio de Janeiro, 3 de maio de 1954), aclamado como o rei dos palhaços e o nome mais importante para a história do circo-teatro no Brasil. O ponto de virada foi ele deixar a fazenda onde vivia para fugir com o circo que passava pela cidade. Mas a forma como Benjamin construiu sua trajetória deixa algumas dicas valiosas sobre a arte de viver. Uma delas, as respostas rápidas frente às dificuldades. Mas também às oportunidades. Ágil, equilibrista, hábil no efeito, possuía todas as qualidades de um acrobata, antes mesmo de se tornar um. Talvez fosse acrobata porque já fosse perito na tomada de decisões precisas. Terás a chance de conhecer as múltiplas faces do gurí que sabia amansar cavalo chucro, vender doce, fugir com o circo, se tornar palhaço-cartaz, acrobata, palhaço de picadeiro, clown, ator, diretor de circo-teatro, escritor, empresário, ator negro dos primórdios do cinema brasileiro, gravar disco, inspirar uma Lei e, ainda, virar nome de ruas e praças. E como Benjamin não para de acrescentar uma ação inédita, a novidade apoteótica é o salto para dentro da literatura. Se conseguires estabelecer contato...pronto, terás uma bela história pra conhecer. Talvez, aches estranho um ou outro termo de época, um modo de pensar. Sem estranhamento, não se completa a experiência de decifrar um mundo pouco conhecido. Só assim, perceberás como Benjamin lidou com aquele tempo e como construiu sua própria e valiosa biografia. E quiçá, não voltarás inspirado? Quem sabe não perceberás um ou outro detalhe que sirva de pista para contares, de teu jeito, como era o século passado, seus circos e a história do valioso Benjamin? E assim, poderás trazer de volta aquele que sempre será reconhecido pelo significado de seu nome: o filho da felicidade". Editora FTD, 2007.

CrespoSim completa 4 anos e homenageia Angola

São Paulo tem museus com entrada franca até o dia 09/12

(Deu no UOl Diversão e Arte) "De 4 a 9 de dezembro o Museu de Arte Moderna (MAM), a Pinacoteca do Estado e a Estação Pinacoteca terão entrada gratuita para suas exposições como parte da programação da 1ª Semana Ticket é Cultura. Durante o evento, o MAM oferece a exposição "Panorama da Arte Brasileira 2007 - Contraditório", mostra que reúne artistas de 11 estados brasileiros com diferentes formas de expressão. Pinacoteca do Estado de São Paulo, um dos museus com entrada franca até 9/12 A Pinacoteca do Estado expõe seu acervo com obras de artistas como Cândido Portinari, Victor Brecheret, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e várias outras exposições temporárias, como "Elogio ao Silêncio", do artista plástico Rubens Mano, e "Trabalhando Duro o Dia Inteiro, Nu à Noite", do israelense Tal R, entre outras. A Estação Pinacoteca mantém cinco exposições que têm acesso gratuito: "Odetto Guersoni" no Gabinete de Gravura Guita e José Mindlin, "Uma Visão Geral", de Iran do Espírito Santo, "Em Trânsito, de Alberto Martins, xilogravuras de Alfonso Ballestero e mostra do acervo da Fundação Nemirovsky, "O Olhar do Colecionador".

6 de dez de 2007

Festa de Lançamento do CD "Djubafedeá", de Fanta Konatê e Petit Mamady Keita

"Este CD representa a vitalidade musical de Fanta Konatê e Família, em seu encontro com o Brasil. Um trabalho artístico e informativo de extrema sabedoria , confirmando a importância de sua cultura guineana como uma extensão para o reconhecimento da nossa própria cultura." (Simone Soul) "Confesso que fiquei completamente curiosa e encantada por aquela mulher tao cheia de energia, forca e carisma. seu positivismo e alegria de viver sao simplesmente contagiantes. seu talento como bailarina e sua voz rascantemente africana nos transporta para alem-mar, onde nossas origens sao mais verdadeiras." (Badi Assad) Data e local: 9 de Dezembro, Domingo ás 16h na Casa das Caldeiras Avenida Francisco Matarazzo, 2000 Água Branca- São Paulo - SP. Entrada- R$10 e R$5. Estacionamento- R$6. Outras informações: www.fantakonate.com www.myspace.com/fantakonate

5 de dez de 2007

Professor sulafricano comenta eficácia das ações afirmativas, no Brasil e na África do Sul

(Deu na Folha on line de 01/12/2007, por Paulo de Araújo) Sul-africano defende expansão de ações afirmativas no Brasil "Após o fim do apartheid na África do Sul, há 13 anos, as ações afirmativas implementadas no país foram o principal instrumento no processo de inclusão social dos negros, segundo Shadrack Gutto, professor para estudos africanos da Universidade da África do Sul, entrevistado com exclusividade pela Folha Online em São Paulo. Até então, os brancos --10% da população do país-- detinham 87% das terras, enquanto os negros, que representavam 90% da população, tinham 13% delas. A exclusão repetia-se na política, na educação e na economia. "A situação mudou graças às ações afirmativas colocadas a partir de 1994", afirmou Gutto à Folha Online. Ele esteve no Brasil para participar do "Seminário Internacional de Gestão Pública Compartilhada: Experiências de Ações Afirmativas", organizado pela Prefeitura de São Paulo Ele defende ainda a ampliação do espaço dos negros nas universidades sul-africanas. "Em algumas universidades, os professores brancos ainda são 80% ou 90%. E isso é um problema. Você não pode só ter brancos ensinando negros. É preciso também ter negros ensinando negros". Na entrevista, ele reivindica a ampliação das ações afirmativas no Brasil, tanto na educação quanto em outras áreas. "Ou os negros são excluídos das universidades ou se tornam parte do capital intelectual do país. E o Brasil será pobre se não tiver uma diversidade de cultura no sistema educacional, com brancos, negros e indígenas. Um país precisa disso", afirma ele. Leia abaixo a íntegra da entrevista concedida por Gutto à Folha Online": Folha Online- Como o senhor avalia a eficácia das ações afirmativas na inclusão social dos negros na África do Sul? Shadrack Gutto- A segregação na África do Sul já existia desde a era colonial. Depois, como todos sabem, o país tornou-se o centro de um racismo sistêmico e muito organizado durante o apartheid. Quando esse regime foi derrotado, graças aos esforços da comunidade internacional e do próprio povo sul-africano, foi preciso corrigir os erros históricos. Para isso, as ações afirmativas tiveram um papel imperativo, e já havia uma visão sobre sua eficiência. Em 1993, o partido Congresso Nacional Africano, que hoje governa o país, formulou o Programa de Reconstrução e Desenvolvimento. Quando chegou ao poder, em 1994, por meio das primeiras eleições democráticas, implementou diversas reformas para dar poder aos negros, que estavam excluídos da economia, da política, da educação. Houve então uma série de ações, incluindo reforma agrária, reforma nos serviços públicos e sociais e reforma na área educacional. Folha Online- Como era exatamente a situação dos negros até então? Gutto- Antes de 1994, os brancos, que eram 10% da população, detinham 87% das terras no país. Os negros, que representavam 90% da população, tinham apenas 13% das terras. Ou seja, a reforma agrária era fundamental. Primeiro, era preciso dar aos negros os títulos das terras que já ocupavam. Porque, até então, embora eles estivessem lá, o governo só concedia os títulos aos brancos. O governo também teve que comprar terras para assentar os negros que queriam trabalhar na agricultura. Havia um problema habitacional, porque eles não podiam morar em muitos lugares. Então, a questão habitacional também virou prioridade. Era necessário colocar recursos para que as pessoas pudessem fazer parte da economia e recobrar sua dignidade. Nesse sentido, a reforma agrária foi um dos principais passos. Folha Online- O senhor chama de ações afirmativas esse tipo de reformas? Gutto- Não se pode falar em um sentido estreito. As ações afirmativas são instrumentos para se corrigir os erros históricos, para incluir aqueles que estavam excluídos. As pessoas costumam usar o termo "ações afirmativas". Eu, pessoalmente, prefiro falar em "ações corretivas", porque você está corrigindo esses erros. O que você faz é dar às pessoas o direito de usufruir os direitos que elas já deveriam usufruir normalmente. As ações afirmativas visam construir uma sociedade normal a partir de uma sociedade anormal. São medidas para que as pessoas possam desenvolver todo o seu potencial como seres humanos. Porque no regime do apartheid, as pessoas não desenvolviam seu potencial. Folha Online- O que aconteceu na África do Sul nos últimos anos em termos de inclusão da população negra pode mesmo ser considerado exemplo de sucesso?" Gutto- Houve mudanças muito significativas. Um outro avanço importante, por exemplo, foi na questão dos serviços sociais, como benefícios e pensões para crianças, idosos e desempregados. Os negros não tinham acesso a isso. Era um privilégio dos brancos. Então, o governo teve que assegurar que todos, brancos ou negros, pudessem receber esses benefícios, já que são tão importantes, especialmente para os pobres. Folha Online- E a maioria das pessoas têm de fato acesso a esses benefícios? Gutto- Sim, a maior parte tem. Pode-se dizer que a África do Sul teve um grande sucesso nessa área. A questão da reforma agrária, porém, já é mais difícil, e as medidas ainda não foram suficientes. Ocorre que o governo tem que comprar essas terras, não se trata de expropriação. E fica difícil ter recursos suficientes, porque os preços seguem uma escalada de alta. Quando as pessoas sabem que o governo está interessado nas terras, inflacionam o preço. Por isso, o governo está agora começando a dizer "nós não podemos ficar apenas com as forças do mercado. Vamos tentar negociar preços razoáveis. E se não for possível, vamos expropriar e depois compensar". O governo não pode continuar jogando dinheiro em um buraco sem fundo. Mas é um processo longo. Somos um país democrático há apenas 13 anos. Folha Online- O senhor diria que a África do Sul é muito menos racista hoje do que era há tempos atrás? As ações afirmativas influem também no combate ao racismo? Gutto- O racismo permanece, não mais oficialmente, é claro. Mas para acabar com o racismo você tem que fazer uso sim das ações afirmativas. Porque, uma vez que há desigualdade na educação, nos serviços sociais, na política de emprego etc, o racismo permanecerá. As pessoas podem não te discriminar diretamente. Mas elas discriminam ao te excluir. Então, as ações afirmativas podem ser entendidas como mecanismos para destruir o racismo. Folha Online- Como são trabalhadas as ações afirmativas na área da educação? Gutto- Na África do Sul, havia universidades para brancos e para negros. As brancas ficavam com praticamente todos os recursos. Assim, as pessoas tinham uma educação e potencial desiguais em termos de conhecimento e aplicação desse conhecimento. As universidades para os negros eram apenas para ensino. Não para pesquisa. Hoje, os negros estão se tornando maioria dos estudantes da graduação. Mas os brancos são mais numerosos na área de pesquisa acadêmica. Por isso, em algumas universidades, os professores brancos ainda são 80% ou 90%. E isso é um problema. Você não pode só ter brancos ensinando negros. É preciso também ter negros ensinando negros. Folha Online- Há ações pontuais para incluir os negros no mercado de trabalho? Gutto- Sim. Os negros antes eram excluídos de posições mais altas, ou em área técnicas ou científicas. Uma das ações tem o sentido de fazer com que as empresas tenham um plano de inclusão em todos os níveis, de gerência para cima. Isso vale para negros, mulheres e portadores de deficiência. Mas é preciso mudar a mentalidade dessas empresas. Algumas não implementam os planos. Dizem que precisam de mais três anos, de mais cinco anos, e você não as vê implementando grande coisa. Há também uma lei que exige que as companhias sejam em parte geridas pelos negros. Para eles se tornarem donos também. Porque, se você não for dono do capital, seu papel é apenas o de consumidor. É preciso mudar isso para que os negros não sejam apenas consumidores mas também gestores da economia. Folha Online - A resistência contra essas mudanças é grande? Gutto-Sim. Sempre há grupos que se opõem. Mas não se vence sem luta. Em termos de legislação, há um grande trabalho feito na África do Sul. Mas em termos de implementação -o que depende da cooperação das pessoas-a luta continua. O papel do governo é não só regular, mas também fazer com que as pessoas respeitem as regras. Especialmente se as políticas são boas. Não se trata de afugentar investimentos, por exemplo, e sim de ser mais inclusivo. Sem isso na agenda, o racismo e o sexismo continuam. A luta para mudar, para destruir a mentalidade do apartheid, ainda está em curso. Folha Online- O Brasil adotou o sistema de cotas para propiciar o ingresso dos negros nas universidades. O que o senhor acha disso? Gutto-O Brasil começou a implementar suas ações afirmativas, mas ainda está muito centrado na educação, não foi para outras áreas. Quando estive em Salvador, em 2005, esse assunto veio à tona. E foi mostrado que os estudantes cotistas iam melhor do que aqueles que entraram pelo mérito. Isso deixa claro o quanto a exclusão era artificial, porque essas pessoas podem ir bem. Mas não bastam as cotas em universidade. É preciso tomar medidas para melhorar o grau de educação dos negros desde a escola primária. Para que no final, você não precise mais de cotas. Folha Online- Na época da implementação, havia muita gente contra. Um dos argumentos era o de que as cotas legitimavam o preconceito Gutto- O Brasil tem que tomar uma decisão. Ou os negros são excluídos das universidades ou se tornam parte do capital intelectual do país. E o Brasil será pobre se não tiver uma diversidade de cultura no sistema educacional, com brancos, negros e indígenas. Um país precisa disso. Folha Online-O senhor encara as cotas como uma solução temporária? Gutto- É uma solução temporária, até que os negros tenham as mesmas oportunidades de ir para a universidade e ter sucesso. Estamos falando sobre dar às pessoas algo que elas já teriam conseguido naturalmente, se não tivessem sido vítimas do racismo.

4 de dez de 2007

Carlos Moore lança novo livro, em Salvador

Lançamento de"Igualdade das relações étnico-raciais", em São Paulo

"A Publicação aborda os resultados da Consulta Étnico-racial, pesquisa realizada em São Paulo, Salvador e Belo Horizonte junto a quinze escolas de educação infantil e ensino fundamental das redes municipais de ensino sobre a implementação da lei nº 10.639/2003. A Lei estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira em toda a educação básica. Participaram da pesquisa professores, coordenadores pedagógicos, diretores, funcionários e os pais, mães ou responsáveis pelos alunos". Quando: Dia 7 de dezembro, no Auditório da Ação Educativa, à R. General Jardim, 660 - Vila Buarque - Tel. 3151-2333 - São Paulo - SP Programação: -14h30 Apresentação e debate sobre os resultados da Consulta Igualdade Étnico-Racial na Escola, realizada nos municípios de São Paulo, Belo Horizonte e Salvador. -17h30 Coquetel de lançamento do livro e com apresentação cultural