Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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31 de mai de 2008

Tambor em Salvador 2

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Solano Trindade para crianças

(Deu no PublishNews) "Em comemoração aos 100 anos do nascimento do poeta Solano Trindade, a Editora Nova Alexandria lança Tem gente com fome (Nova Alexandria, 24 pp., R$ 22), seu poema mais célebre, transformado em livro infantil com ilustrações de Cíntia Viana e Murilo Silva. A história descreve o percurso do trem da Leopoldina, no Rio de Janeiro, com trabalhadores voltando para suas casas com fome de comida, de afeto e de justiça. Os poemas do pernambucano ganharam admiração de artistas populares como o Grupo Secos e Molhados, que o musicou. Seus versos também falam do amor, da beleza, da solidão e da vida cotidiana, além de trazer de volta a valentia e as tradições populares afro-brasileiras".

30 de mai de 2008

Ondjaki e Bom dia camaradas

Dou a mão à palmatória, o escritor é bom de bola, embora continue achando-o muito bossa nova. Falo de Ondjaki, autor angolano, cantado em verso e prosa no Brasil. A primeira impressão que tive dele foi ruim, na Flip de 2006, em Paraty. A convite dos organizadores fez breve apresentação de sua obra e submeteu-se a perguntas do público, junto com Uzodinma Iweala, escritor de origem africana, radicado nos Estados Unidos. Pareceu-me que Ondjaki misturava o ficcionista com os personagens. O livro, “Bom dia camaradas” aborda a infância dele, vivida nos anos 80, em Luanda. Ondjaki fez algumas piadinhas sem graça e sem vida e, aos meus olhos, foi infeliz, superficial e até diletante na resposta a algumas perguntas. Por exemplo, perguntei (por escrito) sobre a tal felicidade das crianças angolanas, tão propalada por ele durante a exposição, não falo do texto do livro, isto é matéria de outra ordem, mas de uma felicidade generalizada vivida na vida real. Por tudo o que eu havia lido sobre crianças mutiladas pela guerra, parecia-me que as angolanas, vitimadas pelas minas, nas quais perderam pernas e braços (as sobreviventes) eram as mais tristes do mundo, sem falar naquelas multiplamente estupradas. Perguntei também sobre as crianças pobres, miseráveis, de Luanda. Seriam elas, tão felizes, quanto o grupo de classe média dirigente ao qual ele pertencia? A pergunta foi editada, digamos, pela mediadora (Rita Chaves), que abrandou os termos e o tom da pergunta, foi bom, acho mesmo que eu não tinha sido delicada com o rapaz. Ainda assim, a resposta dele foi péssima, disse que eles (crianças de classe média), invejavam as crianças pobres e miseráveis que podiam brincar nos montes de lixo, espalhados pela cidade, eles não podiam. Até aí vamos bem, cada criança com o seu gosto, mas Ondjaki afirmou ainda que, “se duvidassem, as crianças pobres e miseráveis eram mais felizes que eles, porque gozavam de uma liberdade de brincar nas ruas, escalando os montes de lixo, que eles não tinham”. Isso eu queria ouvir de uma daquelas crianças que, provavelmente, procurava comida por ali, ou queria ouvir o que um rapper angolano tem a dizer a respeito do tema. Sobre a tristeza das crianças mutiladas pela guerra, ele não respondeu. Consegui perceber que havia em Ondjaki, a necessidade de mostrar uma humanidade negada pelo Ocidente às crianças angolanas – e no livro, ele o faz muitíssimo bem -, o problema é quando ele sai da literatura e vai para a argumentação política, para a defesa das próprias idéias, mistura o ficcionista com o argumentador e nessa estrada se perde. O segundo momento em que a impressão ruim se ratificou foi durante a entrevista concedida pelo jovem autor angolano ao programa Roda Viva, da TV Cultura. De novo, pareceu-me confuso e sem consistência. Bem, havia também um problema meu, ou seja, desde o primeiro momento, confesso, queria ouvir um revolucionário, um quase guerrilheiro, queria aprisionar o cara nesse cânone. E ele não é nada do que espero, e tem todo o direito de não sê-lo, e eu também, de não gostar do que ele é, lógico. Mas a obra do cara é porreta. Vá escrever bem assim lá em Angola e que seus livros venham sempre pra cá. “Bom dia camaradas” é delicioso. Lírico, intenso, surpreendente, humorado, audacioso. Ondjaki consegue, de fato, libertar a voz de personagens crianças e fantasiar com ela, sem parecer piegas, sem exageros. Ele nos conduz com mãos de fado para aquele mundo infantil e nos faz refletir pelo que apresenta no discurso literário, pelo que propõe, diferentemente de seu discurso argumentativo que nos leva à reflexão pela falta (de densidade, de consistência, de maturidade). Mas, coitado do escritor bom de papo e ruim de escrita. Ondjaki é bom no que precisa ser.

29 de mai de 2008

Mais um inquérito policial injusto contra o escritor Ferréz

Li a notícia triste e indigna ontem, mas estava procurando tempo para retomar a história e situar o leitor. Hoje percebi que o amigo Alessandro, de lá da terra do sol nascente, já o havia feito, então apenas copiei o texto do "Paladar de Palavra". Obrigada, Alê. "Fiquei sabendo hoje no blog do Ferréz. O escritor acaba de ser comunicado de um inquérito policial aberto na 77 delegacia de Santa Cecília por apologia ao crime. Seu texto na Folha de S.Paulo "Pensamentos de um correria" é o cerne da questão. Ele o escreveu como resposta a carta publicada no mesmo jornal de autoria de Luciano Hulk após o roubo de seu rolex. Vocês devem se lembrar disso. Quero deixar bem claro que não conheço o Ferréz, não é meu amigo, mas respeito e adimiro seu trabalho tanto de escritor como educador. Apenas tento ser solidário num momento que o fosso cresce entre quem têm e quem não têm nada a perder. Não concordo com tudo que Ferréz diz, mas estou do seu lado e isso independente de tempo, lugar ou opinião literária. Não é nada pessoal, apenas também não posso estar indiferente ou do lado de um cara como Luciano Hulk que escreveu a carta absurda que gerou essa polêmica toda. Enquanto o playboy exige mais grupos de extermínio e a classe média não se importando em nada com isso, vamos vendo aquele que tenta engrossar o caldo dos que lutam de verdade sendo uma vez mais condenado. Como disse Ferréz, '...na verdade eu já estava achando que isso não ia ficar assim mesmo, pois agente falar de 'propriedade' nesse pais é o mais grave dos crimes, e apesar do texto ser desde o início de ficção, e ai abre pra gente começar a decretar a prisão de todo escritor que já abordou algum tema semelhante ao meu (quase todos que já li), o inquérito foi aberto. A realidade é que as pessoas para quem escrevo, e o lugar onde moro, são motivos mais fortes pra um inquérito do que o tanto de crime que agente tem nesse pais. Desculpe expor o assunto desse jeito, mas acho que o lugar é o mais apropriado, e o único onde eu posso estar falando a minha versão das coisas. O que tiver que ser será, e pra ser sincero, eu já vivo em regime semi aberto desde que nasci aqui.' "

Lançamento do Tambor, em Salvador, dia 12 de junho de 2008

"Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! Entre crônicas e mini-contos, o novo livro de Cidinha da Silva nos leva para o conflituoso mundo humano que gira em torno da sexualidade, do amor e do corpo. O lançamento do livro Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! acontece no dia 12 de junho, quinta-feira, às 18hs na Fundação Pedro Calmon. Composto por 25 histórias curtas centradas em dois temas: o amor e a solidão, o livro é uma boa pedida de leitura ou presente para o Dia dos Namorados. Pequenas histórias contadas por personagens femininas, que divagam sobre os relacionamentos amorosos, com uma acidez peculiar, mas também com gotas de lirismo e, em um ou outro texto, com humor. Relações aplacadas, inacabadas, conflituosas, são esquadrinhadas por Cidinha, que mais uma vez nos oferece a possibilidade de nos (re)visitar a partir da arquitetura que construímos nas moradias efêmeras do outro. O lançamento em Salvador contará também com a realização da oficina “Literatura negra, caminhos de escritura e editoriais”. O objetivo desse trabalho é discutir a produção contemporânea de escritoras negras brasileiras, principais temas abordados nas obras, processo criativo e possibilidades editoriais adotadas por elas. Prefaciado pela professora doutora Maria Nazareth Soares Fonseca, professora de Literatura da PUC Minas, apresentado, na orelha, pelo cineasta Jeferson De, e ilustrado sob a pena da artista Lia Maria, Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! (Mazza Edições, Belo Horizonte, 2008) é timbrado pela ironia requintada, leveza e sonoridade, fazendo-nos nos lembrar, vez por outra, a sonoridade de alguns poetas africanos. Com lançamento nacional iniciado em março, a escritora, Cidinha da Silva, já percorreu as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre.. O que: Coquetel de Lançamento do livro Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! Quando: 12 de junho – quinta-feira, às 18 horas. Onde: Fundação Pedro Calmon - Praça Thomé de Souza, Palácio Rio Branco, Salvador-Ba. Contatos: ligiavillas@gmail.com ; janja.araujo@uol.com.br (71)3241-4291 / (71) 9124-6771 / (71) 9609-0106 __________________________________________________________________________ O que: Oficina “Literatura negra, caminhos de escritura e editoriais.” Quando: 13 de junho – sexta-feira, às 10 horas. Onde: Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra (CDCN) - Rua Ribeiro dos Santos, nº42, Carmo, Pelourinho. Contatos: ligiavillas@gmail.com ; cidinha.tridente@ gmail.com (71)3241-4291 / (71) 9124-6771 / (71) 9609-0106

28 de mai de 2008

Hip hop e Internet ressuscitam o interesse pela 'palavra falada'

(Por: Tom Chatfield)* ”A poesia é a ocupação de uma minoria na Grã-Bretanha do século 21. Um olhar de relance para a magra, ou simplesmente inexistente, prateleira de poesia das principais livrarias confirma o fato. A "poesia séria" é normalmente terreno de acadêmicos, estudantes e bolsistas - todos eles, como observou ironicamente o falecido poeta Philip Larkin, ou são pagos para escrever ou pagam para ler. Há menos de um milhão de livros de poesia escritos por poetas vivos, dentre os quais apenas poucos conseguem vender mais do que 500 cópias. Ainda assim, as prateleiras e as vendas estão distantes da verdadeira história. Na arena do ao vivo e online, um tipo bem diferente de poesia está atingindo uma audiência que há dez anos atrás mal sabia que existia poesia fora do currículo escolar: os indivíduos com menos de 30 anos. Há bons motivos para isso: a popularidade do hip hop gerou um novo interesse em relação às letras das músicas; o crescimento da Internet deu às artes menos comerciais o acesso livre à uma comunidade mais ampla; e sempre há uma demanda por algo novo, ou pelo menos por algo velho reinventado. Mas será que devemos nos animar com essa nova tendência? Recentemente passei uma noite com um dos grupos de "spoken word" (palavra falada) mais novos de Londres tentando descobrir. (...) O PiP - "A Poem in Between People" (Um Poema Entre as Pessoas) começou sua carreira no final de 2005, com o nome "Two Black Guys and a Poem Between Us" ("Dois Caras Negros e um Poema Entre Nós"). Os negros em questão eram o poeta Joshua Idehen - nascido na Inglaterra em 1980 mas criado na Nigéria de 1984 até seu retorno em 1999 - e o saxofonista e clarinetista Shabaka Hutchings, mais conhecido por seu trabalho com luminares do jazz como Soweto Kinch e Courtney Pine. O nome veio, observa Joshua meio brincando, por querer "dizer o óbvio antes que os outros dissessem": eis um jovem negro interpretando poemas sobre a vida em Londres, acompanhado de um saxofone. Os dois caras negros logo se tornaram três com a chegada de Musa Okwonga, um advogado formado em Eton e Oxford que se tornou poeta e escritor performático (seu livro em homenagem ao futebol chamado "A Cultured Left Foot" foi publicado no mês passado). No final de 2006, as coisas se tornaram semanticamente complexas com a chegada de uma miscelânea de outros participantes - alguns dos quais não eram nem negros nem caras - fazendo com que o grupo chegasse a ter até oito integrantes em determinado momento. Era um redemoinho comparado ao ponto de partida do PiP. Em 2007, o grupo ficou um pouco mais disciplinado, com um núcleo fixo de quatro integrantes: Joshua, Musa e os novos Inua Ellams - um poeta e escritor de 23 anos nascido na Nigéria - e Catherine Martindale, também conhecida como PoetiCat, estudante e poeta que conheceu o grupo nas noites de microfone aberto no Poetry Cafe no centro de Londres. O que o PiP está fazendo, explica Inua, é o que o hip hop fez em suas raízes nos Estados Unidos nos anos 70, quando emergiu como uma forma de os moradores mais pobres das cidades expressarem suas vidas através da música. As performances de spoken word ainda têm uma relação difícil com a "verdadeira" literatura. Não há barreiras para entrar no meio; os truques retóricos podem dominar o cenário, e as noites de microfone aberto degeneram em competições de gritos ou em números de segunda linha. Ainda assim esses eventos estão ganhando importância quase que à revelia - porque muitas pessoas da geração do PiP se sentem deixadas para trás pelo verso escrito moderno e pela ausência de algo belo e transformador nas letras da maioria dos principais atores musicais. Será que a poesia performática é realmente capaz de escalar as alturas da qualidade ou do reconhecimento público? O PiP é menos catequizador do que se espera. Inua tem suas suspeitas sobre o futuro da spoken word - "se ela pode ser de fato boa? Com certeza há problemas de qualidade" -, enquanto Joshua está começando a usar mais ritmo, música e elementos do rap em seu trabalho, "para torná-lo mais fácil de ouvir. Você precisa fazer com que as pessoas voltem." Mas a experiência ao vivo, eles concordam, é o coração de algo com que muitos artistas perderam o contato - um lugar em que, de acordo com o nível de satisfação da audiência, "não há como pensar que você está indo bem quando não está." As melhores noites de spoken word são bem mais parecidas com um show de variedades do que com qualquer outra coisa, com piadas, músicas, leituras, performances e uma química fácil entre os participantes. Depois de anos comparecendo esporadicamente a esses eventos (e vez ou outra contribuindo com eles), ainda tenho minhas dúvidas, talvez porque esta seja uma forma de arte inerentemente mais efêmera do que a palavra escrita: um método apropriado para os nossos tempos, mas que tem uma relação bem mais tênue com a posteridade - qualquer que seja a posteridade possível na era digital. Você também tem de estar preparado para aceitar o mais grosseiro ao lado do mais refinado, para digerir o sentimental, o equivocado e o totalmente bizarro. Mas quando funciona, há algo eletrizante no trabalho que se desenvolve ao vivo na nossa frente. O poema "Midnight Music Marauders" de Inua, por exemplo, tece seu encanto com uma mistura sinestésica de sons e palavras: "We played like a dead French kiss reincarnated/as a saxophone with tendencies to hiss/galaxophonic secrets through the tombs of trombone/reborn as the lower bones of Bojangles, dancing/on bass drums prancing like songs of the railroad/set free." (em uma tradução livre: "Tocamos como um beijo à francesa morto e reencarnado/como um saxofone com tendência a sibilar desafinado/segredos galaxofônicos pelas tumbas do trombone/renascidos como ossos da perna de Bojangles, dançando/ao som do surdo sacudindo como canções de ferrovia/libertos.") Escrito, à primeira vista, o poema poderia quase ser uma paródia - um desastre de trem de idéias e imagens. Mas à velocidade do ouvido, torna-se melódico, refrescante e livre. A audiência pára, aplaude e dança quando o próximo artista entra no palco: Musa, com um trecho de sua rimada versão de Otelo. O futuro, aos tropeços, está a caminho”. *Tom Chatfield é editor-assistente da revista Prospect. Tradução: Eloise De Vylder .

26 de mai de 2008

Saravá Discos lança cantores esquecidos pela chamada MPB

(Por: Alan de Faria) “ Entre os vários significados da palavra “saravá”, um deles se encaixa perfeitamente no objetivo da Saravá Discos: ser uma forma de cumprimento. É esta idéia de respeito e saudação que inspiram o selo criado pelo cantor maranhense Zeca Baleiro e a empresária Rossana Decelso, cujo objetivo é lançar ou recolocar no mercado os trabalhos de artistas brasileiros que têm pouco espaço na mídia. A Saravá, segundo o maranhense Baleiro, está longe de ser um projeto comercial. Isto fica claro pelo fato dos CDs terem uma tiragem pequena e serem vendidos em pontos estratégicos e no site do próprio cantor. “O interesse em redescobrir artistas que fizeram parte da minha história de vida e que, de alguma forma, me influenciaram e me influenciam me moveu a criar o selo”, diz. No mês de maio, a Saravá prometia mais dois lançamentos de artistas “desconhecidos”. Um deles é o cearense Tiago Araripe, com o disco “Cabelos de Sanção”. Baleiro conheceu o trabalho do cantor em 1986, quando resolveu comprar um de seus discos por simplesmente ter achado a capa curiosa. “Desde então, o disco não sai da minha cabeça”, conta. Aos 56 anos, Araripe trabalha com publicidade e propaganda em Fortaleza. No entanto, não abandonou totalmente a música. “Faço participações esporádicas em shows de artistas como o Tom Zé e o Zeca Baleiro, quando eles vêm aqui na capital”, diz o cantor, que vê o relançamento resmaterizado de seu álbum como uma oportunidade para retornar à cena musical de maneira mais ativa. Segundo Baleiro, as músicas de “Cabelos de Sanção” têm influências de artistas regionais como Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga e da modernidade do movimento tropicalista. O outro lançamento é o álbum “Sinceramente”, o segundo trabalho do capixaba Sérgio Sampaio pela Saravá Discos -o primeiro foi “Cruel”, que contém uma série de gravações do artista, morto em 1994. “Conheço a família do Sérgio. Há um carinho pela pessoa que ele foi”, conta Baleiro. Ao lado de Raul Seixas, Sampaio, rotulado de “maldito” da MPB, lançou em 1971 o LP “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez” pela CBS (hoje Sony BMG). O disco, no qual os dois dividem a composição em uma série de letras e interpretam as canções ao lado da sambista paulistana Miriam Batucada e do baiano Edy Star, contém rock, samba e ritmos nordestinos com letras repletas de sarcasmo. Baleiro também considera a Saravá Discos uma espécie de acerto de contas com diversos artistas. Dois dos primeiros trabalhos lançados pelo selo -“Balançou no Congá”, de Lopes Bogéa (1926-2004), e “O Samba É Bom”, de Antonio Vieira, de 87 anos- são verdadeiros documentos históricos, segundo Baleiro. “O mestre Vieira, por exemplo, é um dos últimos representantes de uma geração de artistas do Maranhão que ainda está vivo”, conta. O álbum “Balançou no Congá”, produzido por Baleiro, contém 17 músicas de forró e, principalmente, de samba, escolhidas entre as mais de 300 escritas por Bogéa. Beth Carvalho, Rita Ribeiro e Genival Lacerda, entre outros, participam do disco. Já em “O Samba É Bom”, gravado em 2001 no teatro Artur Azevedo, em São Luís do Maranhão, Vieira recebe Célia Maria, Elza Soares, Rita Ribeiro, João Pedro Borges, Sivuca e o próprio Baleiro em 18 faixas. “A Saravá é também uma contrapartida aos interesses das grandes gravadoras”, afirma Baleiro. Para ele, as “majors” só investem em trabalhos de retorno praticamente garantido, sobretudo em tempos de crise da indústria fonográfica -segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos, as receitas com vendas de CDs e DVDs caíram 31,2% no ano passado. Por essa razão, o cantor maranhense também aproveita a Saravá Discos para pôr à disposição de fãs e curiosos trabalhos mais autorais e, por que não dizer, mais experimentais. Em maio, também pelo selo, Baleiro lança duas trilhas sonoras criadas por ele para os espetáculos de dança “Cubo”, da Cia. Lúdica Dança, e “Geraldas e Avencas”, do grupo 1º Ato. A união entre música e outras manifestações artísticas na Saravá já é antiga. Um dos primeiros lançamentos do selo foi “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé - de Ariana para Dionísio”, que contém poemas da escritora Hilda Hilst musicados por Zeca Baleiro. As cantoras Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Zélia Duncan, entre outras, participam do CD. Ao mesmo tempo, o maranhense está produzindo o novo álbum do cantor angolano Filipe Mukenga. “Soube que ele estava sem gravar há alguns anos, que não tinha recursos para lançar um disco. Então eu propus a ele que lançasse um novo trabalho pela Saravá”, conta o cantor, que confessa gostar bastante de música africana. Mukenga já teve duas composições gravadas por Djavan, “Nvula Ieza Kia” e “Humbiumbi”, no álbum “Seduzir” (1980). De acordo com o maranhense, a música do cantor africano é bastante peculiar, “quase uma MPB folclórica”. O resultado deve chegar às lojas ainda neste ano”.

23 de mai de 2008

Estréia de "O canto da hora amarga", em BH

Nesta sexta-feira, dia 23 de maio, às 20:00h, estréia o Espetáculo: O CANTO DA HORA AMARGA da Cia. Neutra de Teatro, com texto de Rogério Coelho, no Galpão do Grupo Trama. Classificação: 16 anos. Entrada Franca. Endereço: Rua Salinas, 634 - Floresta, Belo HOrizonte - MG. Informações pelo Telefone: 31-2515-1580. Referência: Mesmo quarteirão do McDonalds da Av do contorno, floresta. www.cianeutra.blogspot.com 31-8834-9109 / 8862-3989 / 8739-0752

Sobre os lançamentos do Tambor

O primeiro aprendizado foi que o tempo das chuvas mudou, coisa de gelo derretido e ozônio perfurado. Outrora as águas de março fechavam o verão, Luís Gonzaga cantava a esperança do sertanejo de que ainda em março a chuva viesse e desse cabo da seca. Agora chegamos em abril e ainda chove, chuvas torrenciais que deixam as cidades sem luz, como aconteceu em Porto Alegre, no dia do lançamento do Tambor. Turnê de lançamento daqui por diante, só a partir de maio, meados me maio, por segurança. As gaúchas disseram que foi Xangô trovoando o tambor dele, pra mim, pro meu Tambor, eu gostei bem, só não queria que a chuva tivesse espantado as pessoas. A Vera Lopes leu uns textos e a Irene Santos me ofertou uma foto, pra um tempo próximo. Fui Também à Alvorada, Grande Porto Alegre, a convite das candaceiras, bater papo com meninas ligadas ao Candaces – Coletivo de Lésbicas Negras. Em Brasília conheci mais uma livraria, Café com Letras, muito simpática. Reencontrei amigos do Aquilombando, do EnegreSer, do Nzinga e as amigas-irmãs Lia e Denise. Gravei uma pequena entrevista pro Aquilombando, em breve se tornará vídeo. A primeira passagem por Belô foi uma conversa com educadoras e estudantes de EJA, num centro cultural do bairro São Bernardo, instigante, sempre. A segunda foi na Nandyala - livraria e editora, das amigas Íris e Rosa Margarida, numa conversa debaixo do imbondeiro virtual da varanda da livraria, mediada por uma de minhas orientadoras da juventude, Nazareth Fonseca, que me honrou com o prefácio do Tambor e com presença maciça da minha família. O terceiro momento em BH foi outro encontro com educadores, dentre eles, Fátima, querida, amiga desde a pré-história. Ainda espero as fotos para postar aqui. Goiânia foi show, sucesso de público, crítica, vendas e repercussão. Obra e graça do pessoal do CANBENAS, NEAAD e LILASES, em especial, do Alex, Rejane, Vanilda e toda moçada do CANBENAS. Em São Paulo, depois da Cooperifa, o debate esperado com Oswaldo de Camargo e também com as presenças ilustres de Rosane Borges, Mirian Alves e Claudinei Vieira, além de amigos caríssimos, muitos, não dá pra nomear sem esquecer alguém, assim, não arriscarei. Os próximos lançamentos serão no Rio de Janeiro, provavelmente dia 03 de junho; em Salvador, dias 12 e 13 de junho; Recife, entre 19 e 22 de junho, Belém e Macapá, no final de junho. Assim que as datas e locais estiverem confirmados, posto-os aqui.

22 de mai de 2008

Pesquisa aponta Obama na frente de McCain em disputa nos EUA

(Deu no Estadão, por John Whitesides) "O democrata Barack Obama abriu uma vantagem de oito pontos percentuais sobre o republicano John McCain no momento em que os rivais voltam suas atenções para a eleição presidencial dos EUA, afirmou uma pesquisa da Reuters/Zogby divulgada na quarta-feira. Obama, que no mês passado estava empatado com McCain em uma hipotética disputa entre os dois, passou a ter em maio 48 por cento das intenções de voto, contra 40 por cento para o senador pelo Arizona. Neste mês, Obama assumiu de forma consistente a liderança da corrida com a também pré-candidata Hillary Clinton pela vaga do Partido Democrata no pleito nacional de novembro. O pré-candidato, no entanto, ainda não garantiu oficialmente sua participação na disputa contra McCain. A pesquisa também mostrou que Obama ampliou sua vantagem sobre Hillary na corrida democrata, vantagem essa que agora é de 26 pontos percentuais, ou o dobro do registrado na metade de abril. O fenômeno indica que os democratas começam a unir forças ao redor de Obama e a se prepararem para as eleições gerais. "Obama tem sido muito resistente, enfrentando bem os períodos difíceis e saindo-se muito bem com os eleitores independentes", afirmou o especialista em pesquisas John Zogby. "A corrida com McCain promete ser muito acirrada." A pesquisa foi realizada entre quinta-feira e sábado, período em que Obama viu-se criticado pelo presidente norte-americano, George W. Bush, e por McCain devido à promessa dele de negociar com líderes estrangeiros considerados hostis sem impor qualquer precondição. O salto dado pelo pré-candidato nas disputas com McCain e Hillary ocorre depois de um mês no qual se viu atingido por uma série de percalços e sofreu duas grandes derrotas para a adversária de partido, na Pensilvânia e na Virgínia Ocidental. As pesquisas ocorreram após Obama ter rompido relações com o reverendo Jeremiah Wright, ex-pastor dele que deu uma série de declarações responsáveis por reacender a polêmica em torno de comentários controvertidos dele sobre racismo e religião. O pré-candidato também sobreviveu a uma onda de indignação surgida após ter dito que os moradores das cidadezinhas norte-americanas eram pessoas "amargas" que se apegavam às armas e à religião devido a suas frustrações com as dificuldades econômicas que enfrentavam. Na terça-feira, Obama chegou mais perto de sacramentar a vaga democrata. Ele venceu Hillary nas prévias do Oregon, mas perdeu a disputa em Kentucky. De toda forma, com os votos recebidos nos dois Estados, o pré-candidato conquistou a maioria dos delegados eleitos. Os resultados colocam-no perto da cifra de 2.026 delegados necessários para garantir sua vitória na disputa interna do Partido Democrata. Faltam serem realizadas apenas mais três prévias antes de o processo chegar ao fim, no dia 3 de junho. A pesquisa nacional com 516 prováveis eleitores das prévias democratas possui uma margem de erro de 4,4 pontos percentuais. A enquete sobre a disputa nacional entre McCain e os dois pré-candidatos democratas entrevistou 1.076 prováveis eleitores e possui uma margem de erro de 3,3 pontos percentuais".

20 de mai de 2008

Um livro pra se ouvir

(Por: *Rogério Coelho) "Tum-dum, e assim, ouvimos: Tum-dum. Vulnerável é mesmo nosso controle de pensamentos em torno da força de propagação de um simples bater de tambor. Podemos falar sobre ondas sonoras, e as interferências físicas de barreiras; de outros sons, outros ritmos, outras tribos, outras crenças. Divagamos sobre um estampido seco, ora um latido roto, ou um pulsar frenético, que soa a sexo e paixão, tal qual a agitação desanda num ferver endemoniado, o que faz do ritmo um latejar constante. “É fogo”. Exatamente sobre esta última concepção, é que nos debruçamos para “ouvir” o mais novo livro de Cidinha da Silva, Você me deixe, viu?Eu vou bater meu tambor (Mazza Ed. 2008, 78 págs). Devemos, ainda, acrescentar aí um rufar enérgico, em prol dos temas como as relações raciais assimétricas, entoados no ritmo de vida da autora que, além de ativista do movimento negro durante anos, sente a literatura como mais um artifício de fruição das questões raciais. Assim, armada com o poder da palavra, de uma literatura muito fértil e versátil, Cidinha nos apresenta esse “tambor”, que parece metamorfosear-se em um próprio peito: tão garrido de mágoas, porém solfejado de um lirismo desigual; tão apertado da descontinuidade do amor, sem deixar que se perca a leveza fundamental do conjunto. São vinte e cinco contos/crônicas/prosas poéticas que, sobre o prefácio da Profª Dra Mª Nazareth Fonseca e orelha do cineasta Jeferson De, formam o que a autora chama carinhosamente de orquestra. Tantos são os múltiplos que podemos encontrar que a denominação de “orquestra” veste o livro como luva em forma de metáfora: a multiplicidade da estrutura, dos elementos, que conflui para uma fina harmonia. Contos, crônicas e prosas poéticas, fundidas às gravuras de Lia Maria, sem rostos, porém carregadas de expressões; o azul fluido da capa, deixando em relevo o peixe multi-elemetos e multicor, enfim, a dança das várias leituras que nos saltam aos olhos é, nada mais, que o evento do hibridismo a que a autora nos submete e nos envolve, a fim de promover a tentativa primordial do ser humano: Preencher as lacunas da vida. O peito do narrador é instrumento principal dessa orquestra no enunciado. Caixa amarrada em pele ressequida e maltratada de marteladas da mão, que bate marcando o compasso da afirmação de ser mulher arguta; de questionar a submissão do casamento por ele mesmo; de guerrear com as dores incondicionais do amor que grita um desafino, como Tire seu sorriso do caminho, e depois se entrega a um tipo de Amor na pós-modernidade. Estrutura rústica de um Tambor de harmonia suave, síntese singela da dialética do amor da mulher condicionada às mazelas da vida conjugal, ou melhor, da vida desigual. O corpo em evidência no livro, em desassossego, produz o som que faz arrebatar os clamores do peito do leitor. Esta resenha, ao contrário de fazer um convite à leitura do livro, é apenas um diapasão, que orienta a audição do leitor, começando logo na primeira página do Tambor de Cidinha. Aquele que se vale de co-autorias, de lirismo não gratuito, de Tereza Cristina à Paulinho da viola, numa dicção de vozes e melodias tão felizes ao intertexto. E porque não dizer à “intermúsica”? Uma vez que somos nós, leitores, os maestros de coração e olhos de batuta. Boa música para os olhos"! *Rogério Coelho é paulistano, mas vive em Minas Gerais, Belo horizonte há 20 anos. Mestrando em Literaturas de língua portuguesa pela PUC-MINAS e graduado em letras, é autor da peça teatral O canto da Hora amarga (2007), e outras publicações científicas sob a linha de pesquisa Identidade e alteridade na literatura.

19 de mai de 2008

Conto ou crônica?

Uma professora me escreve de Minas e conta que recebeu uma doação de 25 Tridentes para trabalhar com seus estudantes de EJA, no Centro Pedagógico da UFMG, e que a moçada lê meus textos semanalmente. Fico feliz e louca para saber os comentários, a percepção que têm dos escritos. A professora não satisfaz minha curiosidade, mas me embaraça ao perguntar se o que escrevo são contos ou crônicas. Sagaz e prática, solicita que eu defina quais são as crônicas e quais são os contos do Tridente para lastrear a resenha que ela escreve sobre o livro. Renata, minha cara, repetirei o que já disse em outras ocasiões. Quando escrevi o Tridente, achava que tudo era crônica, à medida que as pessoas foram lendo e comentando, me disseram e mostraram que há vários contos no livro. Mas se eles existem mesmo, eu os escrevi sem saber que escrevia contos, entende? Disseram-me que “Licença aos meus que já foram”; “Seu Marabô”, “A velha na soleira da porta”; “Dublê de Ogum” e “Domingas e a Cunhada” são contos, inequivocamente. Há outros bordejantes, no limite da crônica, e crônicas bordejantes, no limite do conto. Acho a definição virá mesmo dos leitores e leitoras. Fiquem à vontade. No Tambor, meu livro novo, também editado pela Mazza Edições, consigo definir o que é conto, mas como vocês estão estudando o Tridente, essas definições ficam para quando nos encontrarmos aí em BH.

15 de mai de 2008

As camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura

(Por: Eduardo Silva. Fonte: www.limacoelho.jor.br) "Um quilombo no que é hoje a Zona Sul do Rio, uma princesa (Isabel) que acolhia escravos fugidos no seu palácio e uma flor que servia de símbolo de um movimento subversivo: historiador junta as peças do quebra cabeça e reconstitui episódio esquecido do Império. A crise final da escravidão, no Brasil, deu lugar ao aparecimento de um modelo novo de resistência, o que podemos chamar quilombo abolicionista. No modelo tradicional de resistência à escravidão, o quilombo rompimento, a tendência dominante era a política do esconderijo e do segredo de guerra. Por isso, esforçam-se os quilombolas exatamente em proteger seu dia-a-dia, sua organização interna e suas lideranças de todo tipo de inimigo ou forasteiro, inclusive, depois, os historiadores. Já no modelo novo, o quilombo abolicionista, as lideranças são muito bem conhecidas, cidadãos prestantes, com documentação civil em dia e, principalmente, muito bem articulados politicamente. Não mais os poderosos guerreiros do modelo anterior, mas um tipo novo de liderança, uma espécie de instância de intermediação entre a comunidade de fugitivos e a sociedade envolvente. Sabemos hoje que a existência de um quilombo inteiramente isolado foi coisa rara. Mas, no caso dos quilombos abolicionistas, os contatos com a sociedade são tantos e tão essenciais, parte do jogo político da sociedade envolvente. O Quilombo do Jabaquara, em São Paulo – uma das maiores colônias de fugitivos da história – é um bom exemplo do novo paradigma da resistência. O quilombo organiza-se em torno da “casa de campo de abolicionista” e os quilombolas erguem seus barracos com dinheiro recolhido entre pessoas de bem e comerciantes de Santos. A população local, inclusive as senhoras de bom nome, protege o quilombo das investidas policiais e parece fazer disso um verdadeiro padrão de glória. Quintino de Lacerda, o chefe do quilombo, levou uma vida bastante confortável e morreu rico, deixando extensa lista de bens, móveis e imóveis, para seus herdeiros, incluindo um pequeno tesouro amealhado em jóias de ouro e moedas de prata. Quintino não era um guerreiro no mesmo sentido que o foi Zumbi dos Palmares, o indomável general. Era já uma espécie de administrador, articulador, líder populista, intermediário, enfim, entre o quilombo e a sociedade em torno. Sobre o quilombo do Leblon, no Rio de Janeiro, as notícias são ainda mais surpreendentes. A começar por seu idealizador, ou chefe, que era o português José de Seixas Magalhães. Os quilombolas não demonstravam qualquer indício de preconceito racial. Também o Seixas, positivamente, era um homem de idéias avançadas, dedicado à fabricação e comércio de malas e sacos de viagem na Rua Gonçalves Dias, no Centro, onde já utilizava os mais modernos recursos tecnológicos. Suas malas feitas com máquina a vapor, eram reconhecidas pelo mundo afora, e mereceram prêmios tanto na Exposição do Rio de Janeiro, quanto na Exposição de Viena d`Áustria. Além de sua fábrica a vapor, o Seixas possuía uma chácara no Leblon, onde cultivava flores com o auxílio de escravos fugidos. Seixas ajudava os fugitivos e os escondia na chácara do Leblon com a cumplicidade dos principais abolicionistas da capital do Império, muitos deles membros proeminentes da Confederação Abolicionista. A chácara de flores, a floricultura do Seixas, era conhecida mais ou menos abertamente como o “quilombo Leblond”, ou “quilombo Le Bloon”, então um remoto e ortograficamente ainda incerto subúrbio à beira-mar. Era, digamos, um quilombo simbólico, feito para produzir objetos simbólicos. Era lá, exatamente, que o Seixas cultivava as suas famosas camélias, o símbolo por excelência do movimento abolicionista. Naquela época, como infelizmente ainda hoje, a camellia japonica era uma planta relativamente rara no Brasil, introduzida no Rio de Janeiro há uns 60 anos, se tanto. Exatamente como a Liberdade que se pretendia conquistar, a camélia não era uma flor dessas comuns, naturais da terra e encontradiças soltas na natureza. Era, pelo contrário, uma flor especial, estrangeira, cheia de melindres com o sol, que requeria know-how, ambiente, mão-de-obra, relações de produção, técnicas de cultivo e cuidados muitíssimo especiais. Ainda em 1897, quase dez anos depois da Abolição, Olavo Bilac ainda contrapunha as “flores da mata”, a nossa natureza comum daqui mesmo, com as sofisticadas camélias, símbolo de refinamento e civilização. “Aí tens tu, leitor amigo, as flores da mata...Se não as queres, aqui tens as camélias formosíssimas, filhas da civilização, primores nascidos e criados à custa de cuidados sem conta”. Como Quintino do quilombo do Jabaquara, o imigrante Seixas era um homem muito bem relacionado. Além da cumplicidade que tinha com os grupos abolicionistas do Rio, contava com a proteção da própria Princesa Isabel. Pelo menos o homem fornecia suas camélias, em bases regulares, ao Palácio das Laranjeiras, então residência da princesa e hoje sede do governo do Estado. As camélias do Leblon enfeitavam não apenas a mesa de trabalho da Princesa, como ainda sua capela particular, onde se apegava a Deus e fazia suas orações. Para esse serviço simbólico, o Seixas reservava, é claro, as mais belas camélias do seu quilombo. Tudo isso pode parecer muito interessante, mas, se pensarmos bem, a simples existência de um quilombo como o do Leblon, assim tão atuante e tão simbólico, não podia deixar de ser um escândalo público permanente, perpetrado nas barbas da polícia. O quilombo do Leblon era um ícone do movimento abolicionista, uma de suas melhores bases simbólicas e um dos seus trunfos para a negociação política. Por isso, na verdade, ninguém parecia muito interessado em dissimular ou esconder a existência do quilombo do Leblon, nem mesmo o Seixas ou qualquer de seus amigos abolicionistas. Estes, pelo contrário, lá promoviam ótimas festas de confraternização, batucadas animadíssimas, como aquela que aconteceu, por exemplo, no dia 13 de março de 1886, aniversário do Seixas. A turma abolicionista passou a noite toda na farra do Leblon e só lembrou de voltar altas horas da madrugadas. E vinham eles em animada cantoria pelo caminho, os quilombolas na maior folga do mundo tocando suas violas, e os abolicionistas aos gritos sediciosos de “vivam os escravos fugidos!” Isso durante todo o percurso a pé, do quilombo até chegar no Largo das Três Vendas, na Gávea, onde ficava o ponto final do bondinho puxado a burro que os traria de volta à civilização. Além das festas e da batucada, outra boa evidência de que o Seixas não estava preocupado em esconder a existência do quilombo pode ser encontrada na subscrição popular que ofereceu uma pena de ouro à Princesa Regente, para com ela assinar a lei da Abolição. A lista é encabeçada pelo diretor da Revista Ilustrada, o abolicionista Angelo Agostini, e traz entre seus assinantes, todos pessoas físicas, uma entidade coletiva, o “Quilombo Leblond” como aparece escrito, e que todo mundo sabia tratar-se do Seixas das malas. Quando o chefe de polícia, desembargador Coelho Bastos, o famoso “rapa-coco”, quis agir e pôr fim à cantoria abolicionista que se fazia na Gávea, no ponto final dos bondes, o Seixas foi protegido pela própria Princesa Isabel e, por trás dela, pelo Imperador do Brasil, que, segundo consta, pediu ao Barão de Cotegipe que encerrasse o caso sem maiores formalidades ou investigações. A Princesa Isabel também protegia fugitivos em Petrópolis. Temos sobre isso o testemunho insuspeito do grande abolicionista André Rebouças, que tudo registrava em sua caderneta implacável. Só assim podemos saber hoje, com dados precisos, que no dia 4 de maio de 1888, “almoçaram no Palácio Imperial 14 africanos fugidos das Fazendas circunvizinhas de Petrópolis”. E mais: todo o esquema de promoção de fugas e alojamento de escravos foi montado pela própria Princesa Isabel. André Rebouças sabia de tudo porque estava comprometido com o esquema. O proprietário do Hotel Bragança, onde André Rebouças se hospedava, também estava comprometido até o pescoço, chegando a esconder 30 fugitivos em sua fazenda, nos arredores da cidade. O advogado Marcos Fioravanti era outro envolvido, sendo uma espécie de coordenador geral das fugas. Não faltava ao esquema nem mesmo o apoio de importantes damas da corte, como Madame Avelar e Cecília, condessa da Estrela, companheiras fiéis de Isabel e também abolicionistas da gema. Às vésperas da Abolição final, conforme anotou Rebouças, já subiam a mais de mil os fugitivos “acolhidos” e “hospedados” sob os auspícios de Dona Isabel. André Rebouças, o intelectual negro de maior prestígio da época, fazia uma ponte entre o esquema de fugas montado pela Princesa, em Petrópolis, e o alto comando do movimento abolicionista, no Rio de Janeiro: o pessoal da Confederação Abolicionista, Joaquim Nabuco, Joaquim Serra, João Clapp, José Carlos do Patrocínio. O quilombo de Petrópolis, o quilombo do Leblon ou o quilombo do Jabaquara são quilombos abolicionistas, isto é, fazem parte já do jogo político da transição. Para o modelo anterior, o quilombo rompimento, o melhor exemplo será sempre o de mocambos guerreiros como o mocambo heróico de Acotirene; o mocambo de Dambrabanga; o mocambo de Zumbi; o mocambo do Aqultume, sua mãe; o mocambo de Andalaquituche, seu irmão; a Cerca de Subupira; a Cerca Real do Macaco e toda a confederação a que chamamos Palmares. Com a proteção do Imperador, felizmente, o quilombo do Leblon nunca chegou a ser investigado, continuando a Princesa a receber calmamente os seus ramalhetes de camélias subversivas. E com isso, como se pode imaginar, crescia barbaramente o poder simbólico das camelliaceas dentro do movimento político, sobretudo das que pudessem ser identificadas como “camélias do Leblon” ou “camélias da Abolição”. Na guerra simbólica que se instaura, uma ou outra vez, a Princesa ousou aparecer em público – o que era sempre notado pelos jornais – com uma dessas flores do Leblon a lhe adornar o vestido. O simbolismo estará presente até na hora da assinatura da lei, quando aproximou-se da princesa o presidente da Confederação Abolicionista, João Clapp, e lhe fez entrega, solenemente, de um “mimoso bouquet de camélias artificiais”. E, logo em seguida, quando aproximou-se também o imigrante Seixas, honrado fabricante de malas, que passou às mãos da Princesa um outro belíssimo buquê de camélias. Desta feita, contudo, camélias naturais, vindas diretamente do quilombo do Leblon. Na verdade, a hoje aparentemente insuspeita camélia, fosse natural ou artificial, era um dos símbolos mais poderosos do movimento abolicionista. A flor servia, inclusive, como uma espécie de código através do qual os abolicionistas podiam ser identificados, principalmente quando empenhados em ações mais perigosas, ou ilegais, como o apoiamento de fugas e a obtenção de esconderijo para os fugitivos. Um escravo de São Paulo, por exemplo, que desse às de vila-diogo e viesse parar no Rio de Janeiro, podia identificar imediatamente os seus possíveis aliados, já na plataforma de desembarque da Estação D. Pedro II, simplesmente pelo uso de uma dessas flores ao peito, do lado do coração. Caso o fugitivo ignorasse totalmente os princípios básicos dessa semiótica, dificilmente poderia contar com a proteção da poderosa Confederação Abolicionista, fundada em 1883, cujo programa era, simplesmente, combater o regime. A camélia era bem o símbolo da Confederação Abolicionista e de seus métodos de ação direta. Naquele tempo, usar uma camélia na lapela, ou cultivá-la acintosamente no jardim de casa, era uma quase confissão de fé abolicionista. Alguns pés remanescentes desse tempo simbólico ainda podem ser encontrados em velhos jardins da cidade do Rio de Janeiro. São documentos vivos da história do Brasil". O autor é pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa. Na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, (Rui também atuou firmemente no movimento abolicionista) - existem, ainda hoje, três pés de camélias: dois no jardim frontal e um embaixo da janela do seu quarto de dormir.

Brasil só alcança igualdade racial em 32 anos

(Fonte: www.ipea.gov.br) "Negros ganham menos, trabalham mais sem carteira assinada e são a maioria em serviços domésticos, agricultura e construção civil. Segundo a pesquisa "Desigualdades raciais, racismo e políticas públicas: 120 anos após a abolição", divulgada ontem pelo Ipea, o Brasil levaria no mínimo 32 anos para igualar salários de negros e brancos. Ao explicar o estudo, o diretor de cooperação de desenvolvimento do Ipea, Mário Lisboa Theodoro, enfatizou que "as políticas universais não são suficientes para resolver a questão racial". "A diferença entre brancos e negros com acesso à universidade triplicou, saindo de 4,3% em 1976 para 13% em 2006", disse. Theodoro informou que os pesquisadores do Ipea vêm se dedicando a estudar como nasce e se constitui o racismo. "Ao contrário dos EUA, por exemplo, que construíram escolas após o fim da escravidão, no Brasil historicamente não houve investimento de dinheiro público na população negra", afirma Segundo o estudo, neste ano comemorativo de 120 anos de Abolição da Escravatura, a população negra deve alcançar a maioria. Mas permanece a desigualdade no acesso a bens, a serviços e a direitos fundamentais, como educação. Os pesquisadores analisaram variáveis agregadas para todo o país sobre população, escolaridade e renda e compararam por faixas etárias entre negros e brancos a partir de dados primários do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O trabalho foi coordenado pelo diretor Jorge Abrahão e realizado por técnicos da Diretoria de Estudos Sociais do Ipea, entre eles Sergei Soares, Luciana Jaccoud e André Campos. O estudo completo vai virar livro a ser lançado pelo Instituto ainda neste ano". Veja os itens abaixo e o texto integral da pesquisa no sítio do IPEA: "2010 será o ano da maioria absoluta de negros". "Renda é principal abismo entre negros e brancos". "Negros são maioria nos serviços domésticos e há mais brancos empregadores". "Diferença racial aumentou no acesso à universidade".

13 de mai de 2008

Feras de lugar nenhum

Ao procurar imagens do livro que dá título a este texto, deparo-me com artigo de uma auto-intitulada jornalista sobre a obra, resolvo lê-lo. Ela anuncia que falará sobre o autor, Uzodinma Iweala e, para minha surpresa, tudo o que ela diz se refere a Ismahel Beah. Os dois têm algumas coisas em comum: são escritores, negros, africanos, belos, jovens, estiveram na FLIP – Festa Literária de Paraty - Uzodinma, em 2006, e Ismahel, em 2007. Lançaram por lá os respectivos livros que tratam de crianças obrigadas ao alistamento de guerra em países africanos. Mas nenhuma das possíveis semelhanças levaria alguém que tivesse feito leitura, ainda que breve, da obra de um ou de outro, a confundi-los. Entretanto, a moça conseguiu fazê-lo, assarapantou os pretos e as obras, e o pior, mesmo sendo jornalista, não checou a consistência das informações. São dois os erros imperdoáveis, baralhar os autores e mesclar o conteúdo das obras. A escriba assevera o horror da situação de guerra vivenciada por Uzodinma, tão terrível que ela nem deixaria o filho ler o livro. Santa leitura torta, Uzodinma não viveu guerra alguma, ele criou uma ficção, muito provavelmente, baseada em fatos. É um jovem negro, de classe média, nascido e criado nos EUA, estudante de Harvard, mas com identidade africana, define-se como nigeriano, porque essa é sua a ascendência familiar e ele se sente intimamente vinculado a ela. Aliás, o livro, “Feras de lugar nenhum”, foi escrito como trabalho de conclusão da graduação de Uzodinma no curso de literatura, na Universidade de Harvard. Incentivado por uma professora, ele o inscreveu no Yongue Lions para ficção, destinado a autores com menos de 35 anos e venceu. O jovem escritor divide a vida entre Washington D.C., USA e Lagos, Nigéria, mas nunca foi um “menino da guerra”. Ismahel, por sua vez, autor do maravilhoso “Muito longe de casa”, foi obrigado pelas forças rebeldes a compor um regimento de guerra em Serra Leoa, por cerca de dois anos teve a vida interrompida por batalhas que não era dele e depois de algum tempo, recuperado pelas Nações Unidas e adotado por uma família estadunidense, iniciou a carreira literária com um livro auto-biográfico. É promessa de um grande escritor. Um preto é um preto, o outro preto é outro preto, mas compreende-se, um preto escritor incomoda muita gente, dois pretos escritores incomodam muito mais, faça-se a fusão. Ademais, a cultura literária de orelha de livro ou baseada em lista dos mais vendidos é confusa mesmo. Feito o preâmbulo elucidativo passemos ao “Feras de lugar nenhum”, obra de Uzodinma Iweala. Ainda sobre o autor, gostaria de dizer que o conheci na FLIP de 2006 – conhecer é força de expressão – assisti à apresentação dele e fiquei muito impressionada pela propriedade com que respondia às questões de analistas e da platéia e principalmente pela recusa peremptória a se pronunciar sobre questões capciosas acerca de raça e relações raciais, porque, conforme declarou, “estava no Brasil há menos de uma semana e passava quase todo o tempo no hotel. Havia reparado apenas, a presença de muitos negros nas ruas, prestando pequenos serviços ou vendendo coisas, e poucos negros como palestrantes ou público da FLIP.” O livro é bom mas se impõe mais pela força do tema do que pela qualidade literária. Talvez a tradução não tenha encontrado alguns dos sentidos mais adequados para construções em inglês, com pulsação africana e, como resultado, o texto adquire uma tônica meio infantil, até imbecilizada, em alguns momentos. A enunciação das construções poéticas também não se efetiva. Mas, não li o original (nem sei se teria inglês suficiente para avaliar) e fico em dúvida quanto à autoria dos problemas, se do autor ou da tradução. O livro aborda a vida de um menino, Agu, que depois de fugir de um ataque que matou todos os homens e crianças do sexo masculino da aldeia onde vive, é capturado por outro menino, um soldado, provável integrante do grupo que dizimou seu povo e é obrigado a tornar-se um menino-soldado também. Aqui aparece o primeiro problema estrutural do livro, conta-se que um caminhão da ONU passou na aldeia antes do ataque e levou as mulheres, meninas e bebês do sexo masculino e meninos muito pequenos, para um campo de refugiados. Os homens e meninos maiores ficaram para “defender” a aldeia. Mas, com que armas, que armadilhas, que estratégia de defesa? Quem decidiu que eles ficariam? A ONU? Um chefe da aldeia? A mãe de Agu queria levá-lo, mas alguém impediu, ele já era grande, deveria ficar com os outros homens. É uma passagem de desenho turvo, pouco consistente. E a força do tema se impõe, porque uma leitura crítica com algum conhecimento da situação descrita apontaria o problema facilmente. Mas o tema da guerra, principalmente do aliciamento de crianças, nos comove, a todos, e leva-nos rapidamente às próximas cenas com o desejo de que o terror acabe e temor de que se exacerbe. É imperioso passar à próxima cena, aconteça o que acontecer. No primeiro dia de Agu no acampamento, ele é espancado pelo garoto que o capturou, é apresentado ao comandante e rapidamente aprende as regras de obedecer para sobreviver. Depois aprende a matar para não morrer, a não ter piedade ou qualquer outro tipo de sentimento humano para ser um soldado. Ozodinma é muito feliz e corajoso na abordagem do tema do abuso sexual e dos estupros reiterados, sofridos pelos meninos-soldados, praticados neste livro pela figura do comandante, o emblema do poder que, em situações reais, deve se estender a todos os que estão em situação de mando e podem subjugar os garotos. Outro problema estrutural do livro é o momento da saída de Agu da guerra. É exigido de quem lê, conhecimento prévio sobre as possibilidades de saída, por exemplo, o resgate que as Nações Unidas fazem das crianças-soldados. Caso esse conhecimento inexista, é difícil perceber o que aconteceu com Agu e onde ele está. Ao final do livro, Agu diz para a terapeuta: “se eu contar todas as coisas que fiz, você vai pensar que eu sou uma espécie de fera ou diabo. Amy nunca diz nada quando falo isso, mas a água em seus olhos brilha. E digo a ela, tudo bem. Sou todas essas coisas. Sou todas essas coisas, mas uma vez já tive uma mãe, e ela me amava” (p.187). Senti falta dessa humanidade de Agu durante a leitura, dessas memórias que devem ter sido a única coisa a mantê-lo vivo, enquanto ele pensava em todas as coisas que fez: “Se mandavam MATAR, eu matava, ATIRAR, eu atirava, ENTRAR NA MULHER, eu entrava na mulher, sem dizer nada mesmo que não estivesse gostando. Matei todo mundo, mães, pais, avós, soldados. É tudo a mesma coisa. Não importa quem seja, só que morram. Fico pensando pensando. Acho que não consigo mais fazer isso” (p.180).

12 de mai de 2008

9 de mai de 2008

13 de maio!

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8 de mai de 2008

Herança africana nos fragmentos do Diário Íntimo de Lima Barreto

“O diário íntimo”, informalmente, é dividido em duas partes. A primeira, à qual corresponde a descrição feita no primeiro texto desta tríade, é confessional e se atém a relatos dos dissabores cotidianos de Lima Barreto. A segunda, desconfio, é pura criação literária, a partir de fatos também corriqueiros da vida do autor. Os assuntos são abordados em tópicos, a saber: herança africana; apontamentos de história ( apontamentos de Lima Barreto sobre o Reinado de D. João VI, tendo em vista a participação em um concurso de memórias promovido pelo Instituto Histórico); Rio de Janeiro; Vida intelectual; Aforismos; Da hipocrisia; Profecia; Amor e Futebol. São textos curtos, com níveis elevados de fina ironia e crítica social, têm muito humor também, neles, Lima Barreto consegue rir de si mesmo. Parece que o escritor se revela e transcende o relato em favor da literatura. Escolhi um trecho de “Herança africana” para postar aqui: “Hoje, dia quente, cheguei um tanto mais tarde na secretaria. À minha banca, veio-me falar o Major Vital. Esse major é um pretinho, fula, magrinho, de crânio deprimido, olhos quase à superfície da fisionomia, pele de sapato velho que nunca foi engraxado. Esse pretinho usava farda de major honorário, e, tendo estado no Paraguai, obtivera umas honras militares. Depois, com sucessivos acontecimentos, as honras foram aumentando e, um belo dia, surge um, em Pernambuco, de igual nome, branco, que também tinha estado na campanha. Papéis pra lá, papéis pra cá, o branco foi considerado como sendo o que de direito. O major foi despedido de servente do Arsenal de Guerra, excluído do asilo, ficou na miséria. Vou-lhe dar algumas roupas velhas e uns cobres. Não tenho absolutamente convicção de que seja ele o verdadeiro major, nem tampouco que não é o outro ou um terceiro; entretanto, julgo que a ele competiam as honras; pobre e obscuro, ele precisava qualquer coisa para disfarçar isso, e ainda mais negro... Por falar nisso, o Belo, primeiro oficial, que foi do gabinete do Benjamim, contou-me que a nomeação do Hemetério (é um negro), para Professor do Colégio Militar, foi sustada na gaveta por ordem do Lauro Sodré, que sempre lhe recomendava, ao ele ir lhe pedir para expedir, que esperasse, que esperasse. É singular que, fazendo eles a República, ela não a fosse de tal forma liberal, que pudesse dar um lugar de professor a um negro. É singular essa República” (p.28 e 29; 10/01/1905). A título de curiosidade e regozijo egóico, informo ao ilustre visitante deste blogue que sou amiga de uma Hemetério, bisneta daquele senhor citado pelo Lima Barreto. Sim, ele existiu e, segundo Heliana (é com H mesmo), a parenta, o bisavô, que tempos mais tarde conseguiria a nomeação, seria amado e reverenciado pelos estudantes e secretaria de educação, a ponto de se tornar nome de escola no Rio de Janeiro, era danado. Filho de ex-escravizados, tinha o sobrenome daqueles que se arvoravam em donos dos pais dele. Ao iniciar a própria prole decidiu que não impingiria aos filhos o sobrenome de quem havia escravizado seus avós. Decidiu então transformar o nome próprio em sobrenome e assim nasceu a família Hemetério. Ta vendo aí? Blogue também é História, poesia e cultura útil.

7 de mai de 2008

Outros fragmentos do Diário Íntimo de Lima Barreto

“Hoje, pus-me a ler velhos números do’Mercure de France’. Lembro-me bem que os lia antes de escrever o meu primeiro livro. Publiquei-o em 1909. Até hoje nada adiantei. Não tenho editor, não tenho jornais, não tenho nada. O maior desalento me invade. Tenho sinistros pensamentos. Ponho-me a beber; paro. Voltam eles e também um tédio da minha vida doméstica, do meu viver quotidiano e bebo. Uma bebedeira puxa a outra e lá vem a melancolia. Que círculo vicioso! Despeço-me de um por um dos meus sonhos. Já prescindo da glória, mas não queria morrer sem uma viagem à Europa, bem sentimental e intelectual, bem vagabunda e saborosa, como a última refeição de um condenado à morte” (p.20; 20/04/1914). “Noto que estou mudando de gênio. Hoje tive um pavor burro. Estarei indo para a loucura?” (13/07/1914) “Estive no hospício de 18/08/1914 a 13/10/1914”(1914). “De há muito sabia que não podia beber cachaça. Ela me abala, combale, abate todo o organismo, desde os intestinos até a enervação. Já tenho sofrido muito com a teimosia de bebê-la. Preciso deixar inteiramente. No dia 30 de agosto de 1917 eu ia para a cidade quando me senti mal. Tinha levado todo o mês a beber, sobretudo parati. Bebedeira sobre bebedeira, declarada ou não. Comendo pouco e dormindo sabe Deus como. Andei porco, imundo” (p.24; 05/09/1917). “A segunda vez que estive no hospício (foi) de 25 de dezembro de 1919 a 02 de fevereiro de 1920. Trataram-me bem, mas os malucos, meus companheiros, eram perigosos. Demais, eu me imiscuía muito com eles, o que não aconteceu daquela vez que fiquei de parte” (p.25; 1920). Lima Barreto morreria miserável dois anos depois, de um colapso cardíaco (nota do editor).

6 de mai de 2008

Diário íntimo – fragmentos – Lima Barreto

Dia 13 de maio de 2008, completam-se 127 anos de nascimento do taurino Lima Barreto. Eu, em pleno inferno astral, busco o socorro dos ruminantes admirados para ver se a graça do entendimento me alcança e desvenda. É por esse motivo e não outro, que ora releio o “Diário Íntimo – fragmentos”, do companheiro de espécie, Lima Barreto. Trata-se de um pequenino volume, publicado pela editora Mercado Aberto, em 2001, adquirido em um “saldão” da Feira do Livro de Porto Alegre. A foto ao lado data de 1914 e consta dos arquivos de entrada de Lima Barreto no hospício, aos 33 anos. O livro é triste, muito triste. Mostra um homem inquieto, infeliz, solitário, angustiado, melancólico e escravizado pela bebida alcoólica, sequer sua genialidade se sobressai no quadro deplorável que ele pinta de si mesmo. Aos vinte e dois, vinte e três anos, quando começou a escrever o Diário, Lima Barreto acreditava no futuro, dizia escrever notas do Afonso de vinte e três, para o Afonso de trinta, de quarenta, de cinquenta anos. Mas em um período de quatro, cinco anos, o criador de Policarpo Quaresma perde esperanças e expectativa de vida, passa a crer na morte como solução para seu processo de falência humana. Como não tenho conhecimentos profundos sobre Lima Barreto e/ou sua obra, faltam-me recursos analíticos mais seguros, opto então por compartilhar fragmentos do texto.”Eu sou Afonso Henriques de Lima Barreto. Tenho vinte e dois anos. Sou filho legítimo de João Henriques de Lima Barreto. Fui aluno da Escola Politécnica. No futuro, escrevei a ‘História da Escravidão Negra no Brasil’ e sua influência na nossa nacionalidade (p.09; 1903)” “A minha melancolia, a mobilidade do meu espírito, o ceticismo que me corrói – ceticismo que, atingindo as coisas e pessoas estranhas a mim, alcança também a minha própria entidade -, nasceu da minha adolescência feita nesse sentimento da minha vergonha doméstica, que também deu nascimento à minha única grande falta” (p.12; 03/01/1905). “Desde menino eu tenho a mania de suicídio. Aos sete anos, logo depois da morte de minha mãe, quando fui acusado injustamente de furto, tive vontade de me matar. Foi desde essa época que eu senti a injustiça da vida, a dor que ela envolve, a incompreensão da minha delicadeza, do meu natural doce e terno; e daí também comecei a respeitar supersticiosamente a honestidade, de modo que as mínimas coisas me parecem grandes crimes e eu fico abalado e sacolejante (...) Outra vez que essa vontade me veio foi aos onze anos ou doze, quando fugi do colégio. Armei um laço numa árvore, lá no sítio da ilha, mas não me sobrou coragem para me atirar no vazio com ele ao pescoço. Nesse tempo, eu me acreditava inteligente, e era talvez isso o que me fazia ter medo de dar fim a mim mesmo. Hoje, quando essa triste vontade me vem, já não é o sentimento da minha inteligência que me impede de consumar o ato: é o hábito de viver, é a covardia, é a minha natureza débil e esperançada. Há dias em que essa vontade me acompanha; há dias em que ela me vê dormir e me saúda ao acordar. Estou com vinte e sete anos, tendo feito uma porção de bobagens, sem saber positivamente nada; ignorando se tenho qualidades naturais, escrevendo em explosões; sem dinheiro, sem família, carregado de dificuldades e responsabilidades. Mas de tudo isso o que mais me amola é sentir que não sou inteligente. Mulato, desorganizado, incompreensível e incompreendido, era a única coisa que me encheria de satisfação, ser inteligente, muito e muito! A humanidade vive da inteligência, pela inteligência e para a inteligência, e eu, inteligente, entraria por força da humanidade, isto é, na grande Humanidade de que quero fazer parte”( p.18; 16/07/1908).

5 de mai de 2008

Maré, nossa história de amor

“Maré, nossa história de amor”, filme de Lucia Murat, diretora do excelente “Quase dois irmãos, de 2005, roteirizado por Paulo Lins, é bom, mas falta alguma coisa. Talvez tenha havido intenção de mostrar um mundo juvenil doce, até ingênuo, de jovens negros e moradores de favela que, ao fim das contas, só querem viver, dançar, encontrar a felicidade de alguma maneira, longe da guerra do tráfico, de preferência, e é aqui o lugar da falta. Não há densidade de interpretação para sustentar os momentos mais lúdicos, o que resultou em cenas pueris e pouco convincentes. Deve ser mesmo difícil conjugar a excelência da dança e a excelência da representação em tantos atores e atrizes jovens. O filme e os atores crescem nas cenas da “juventude roubada pela guerra”, que mata e cerceia; pelo uso de armas que pressionam, ordenam, limitam e “libertam.” A dramaticidade aumenta e até o fim da ação são muitas as lágrimas que o público debulha frente à dor e os impasses das personagens, centrais e coadjuvantes. A sensação de “não ter para onde correr”, de inexistência de solução, deixa todo mundo impotente. Eu me senti assim. E não vou crucificar a professora branca, da zona sul do Rio, porque se o plano maluco de salvação da vida do protagonista não tivesse malogrado, a cabeça dela seria rifada assim que o irmão-bandido descobrisse. Então, ela estava no mesmo barco. Enfim, é um belo musical urbano-contemporâneo, que utiliza danças de rua, break, funk e assemelhados para contar uma história de amor, com ritmo e estética da favela. Só por isso o filme já teria valor e como essa parte é muito bem feita, deve ser um marco no cinema nacional. Não me lembro de outro musical com linguagem tão criativa e eficaz. A trilha sonora também é muito boa e casa bem com a dança e a história, tanto as composições de funkeiros, rappers e ídolos do pop nacional, quanto aquelas feitas especialmente para o filme. Há bons diálogos, mas também algumas interpretações truncadas que nem deixam perceber a existência de diálogo entre as personagens. Eu saí do cinema com a sensação ratificada de que estamos em guerra e “na guerra, quando se pode salvar um, é lucro”, lição primeira e mais importante aprendida nos anos que passei em Geledés. E não se trata da salvação messiânica ou praticada por alguém superpoderoso, não, é a “salvação”, como sinônimo da produção de algum lastro para o sonho, ainda que seja apenas o sonho da sobrevivência com dignidade.

3 de mai de 2008

Aimé Césaire: "um minuto de silêncio"

(Homenagem póstuma ao último rito de passagem de Aimé Césaire, um grande poeta surrealista do século XX; por Maria de Lourdes Teodoro, Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Sorbonne com o trabalho "Negritude antilhana e Modernismo brasileiro", editado pela L´Harmattan, de Paris, em 1999). www.irohin.og.br . "Faleceu dia 17 de abril o político martiniquenho Aimé Césaire, aos 94 anos. Grande poeta da Negritude, cantada em seu célebre poema de 1939, "Caderno de volta ao país natal", onde afirmou: "É-belo-e-bom-e-legítimo ser negro". Césaire foi um dos fundadores da Negritude e um anticolonialista determinado. Parlamentar francês-martiniquenho entre 1945 e 1994. Foi inicialmente membro do Partido Comunista Francês, fundou o Partido Progressista Martiniquenho, aderiu ao Partido Socialista, enfim, combateu toda sua vida pela liberdade e pela dignidade do ser humano, do povo martiniquenho, em particular, do povo negro, especialmente. Seu nome completo era Aimé Fernand David Césaire, nascido aos 26 de junho de 1913 em Basse Pointe, na Martinica, e falecido no dia 17 ultimo em Fort-de-France. "Uma grande voz se apaga, a de um homem de opinião, de criatividade, de testemunho, que, durante toda sua vida, foi um despertador de consciências, uma lucidez sobre o seu tempo, um portador de esperanças para todos os humilhados, um combatente incansável pela dignidade humana", declarou a ex-presidenciável socialista francesa Ségolène Royal, em Poitou. Césaire esteve no Brasil no início da década de 1960. Em 2006 seu nome foi indicado por uma instituição da Bélgica para o Prêmio Nobel da Paz, no momento em que o Congo teve a primeira experiência de eleições livres para presidente da República. Reconhecemos em Aimé Césaire a importância do seu pensamento, de sua obra e de seu trabalho político, de sua profunda sinceridade com suas causas. O poeta surrealista francês André Breton, em prefácio ao "Caderno de volta ao país natal", considerou Césaire "o maior poeta surrealista do século XX". Ao prefaciar a Antologia da poesia negra e malgaxe, organizada por Léopold Senghor, uma outra liderança da Negritude, Jean-Paul Sartre considerou longamente a beleza e o espírito provocador e revoltado dos poemas de Césaire. O que queriam os brancos, se perguntava Sartre. Ele esperava que os brancos recebessem a literatura dos negros com o respeito que é devido aos bons autores, e não como se acolhessem produções de crianças precoces. Césaire preocupava-se com a condição humana do negro em qualquer lugar do planeta, de um modo tal que suas reflexões interessam não apenas aos negros, mas a todos aqueles que desejam uma humanização do mundo em que vivemos. Ele foi membro do Partido Comunista Francês, do qual se afastou em 1956, e fundou o Partido Progressista Martiniquenho, no qual permaneceu toda sua vida, como representante de seu povo no Parlamento Francês. A poesia de Aimé Césaire é uma realização que ilustra o melhor do surrealismo literário no século XX. O texto surrealista valoriza as descobertas da psicanálise: o inconsciente, as livres associações de idéias, etc. Não é por acaso que Aimé Césaire parte para o texto histórico e para o teatro. No texto histórico e nas peças de teatro, as questões cruciais da identidade cultural ganharão sua complexidade e profundidade próprias, de modo acessível. No teatro, a questão racial, a questão étnica e cultural, as questões políticas relativas às ilhas francesas no Caribe ou à independência de países africanos ganham vida e serão polemizadas de um modo tal que se tornam importantes para todo leitor interessado na humanização das relações sociais e culturais, independentemente de raça, religião ou origem geográfica. Para compreender toda a dimensão de Aimé Césaire, é indispensável reler sua obra poética, mas sobretudo sua teatrologia: Uma temporada no Congo (Une saison au Congo), A tragédia do Rei Cristóvão (do Haiti), E os Cães se calavam, Uma tempestade etc, que retratam as experiências chaves na política dos povos negros, na África, no Caribe, nas Américas. Dos escritores do negro-renascimento americano, dos poetas e escritores da Negritude antilhana, os herdeiros espirituais retomarão o conceito, palavras, idéias, sugestões de estilo, fragmentos de emoções compartilhadas, a serem expressos de outra maneira, a serem aprofundados. O substantivo Negritude é cunhado em 1939, em um texto famoso do poeta martiniquenho Aimé Césaire: O Caderno de volta ao país natal. A idéia de volta é a de um retorno à realidade própria do antilhano, situando-o emocionalmente nas Antilhas, historicamente vinculado à África, à Europa, às Américas. Para os africanos, o objetivo de uma retomada da procura da "identidade negra" é o enraizamento nos valores negro-africanos e a abertura aos "valores complementares das demais raças", na linguagem de Senghor, liderança africana da Negritude. Assim, a questão da identidade cultural será muito importante para antilhanos e africanos, em um mesmo momento histórico. O Movimento Modernista, no Brasil (1917-1945) teve preocupações e objetivos semelhantes aos da Negritude antilhana: busca a afirmação de uma identidade cultural brasileira. Aimé Césaire e Mário de Andrade lançaram sobre o mundo um olhar novo que, graças a eles, já não era mais o mesmo. As contradições, tão presentes em suas obras, estão fortemente ligadas a um ideal do eu deslocado para as mais diversas terras que formam estas sociedades: Américas, África, Europa, Ásia: "Europa. África. Ásia. Eu ouço urrar o aço, o tam-tam dentre a mata, o templo dentre os bananais. E eu sei que é o homem quem fala". Césaire está muito consciente do fato de que ao expressar-se com verdade, também expressa um povo, uma cultura. Em uma entrevista na revista Tropiques, ele considera que fazer "arte pela arte" é inadmissível: "Eu consideraria como um monstro de egoísmo um martinicano que fizesse arte pela arte. Significaria que ele nunca olhou diante dele, em frente a ele. Há uma sorte de intolerância da situação coletiva, isto me engaja". O poema “Corpo perdido” (Corps perdu) é significativo da fantasia de poder libertar as ilhas do peso emocional e histórico da escravidão que alimentou toda a obra do poeta. Peso do qual, individualmente, ele de fato libertou-se, pela literatura, como vimos em seu livro Moi, laminaire... , de 1983. Como observou Jean-Paul Sartre em seu ensaio Orfeu Negro, a utilização do termo "negro" não podia ser senão o primeiro aspecto importante de uma linguagem recuperadora da dignidade ultrajada. E tal uso marcará assim a produção literária da negritude dos anos 30 como da jovem Negritude brasileira que renasce nos anos 70".

2 de mai de 2008

MIRE VEJA - teatro baseado em prosa de Luiz Ruffato

"Dentro da Mostra dos 10 anos de Companhia do Feijão voltamos a apresentar o espetáculo MIRE VEJA, baseado no romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, em curta temporada!!!! Sexta e sábado às 21h00 e domingo às 20h00. Endereço: Rua Teodoro Baima, 68 - Praça da República, Centro, São Paulo. Tel. (11) 3259.9086."

Tina Turner anuncia retorno aos palcos

(da Folha Online) "Cantora Tina Turner anunciou sua intenção de iniciar uma série de shows pelos EUA Tina, 68, disse à apresentadora Oprah Winfrey, em seu programa de TV, que a turnê deve ter início em outubro, em Kansas City. A venda dos ingressos está prevista para começar no próximo dia 12. Em 2000, a cantora fez a turnê com a qual pretendia marcar o final de sua carreira em grandes shows ao vivo. Na época, seu porta-voz disse que ela estava se despedia dos palcos para poder 'parar no topo'".

1 de mai de 2008

Sobre o novo romance de Fátima Oliveira

"Gosto de "cismar". Ou seja, de pensar insistentemente nas coisas... Uma das reflexões filosóficas que mais me instiga é sobre o viver, o tocar a vida, o caminhar e o estar indo... Sobretudo fascina-me que cada momento é único e jamais acontecerá outra vez. Tenho a pachorra de vivenciar cada fato, cada momento, de absorver e ficar embevecida com a singularidade de cada um. Podem ser alegrias, mas também tristezas. Questões pertinentes ao usufruto da vida exercem magia sobre mim. Então decidi que era chegada a hora de escrever um romance que enfatizasse a concepção filosófica de que a vida é travessia. Mas que exibisse também minhas raízes e vivências sertanejas. Durante um ano e seis meses pensando, especulando e conjecturando, escrevi "Reencontros na Travessia: a tradição das carpideiras" (no prelo da Mazza Edições). Aprendi muito. Nele conto histórias de amores, ancorada na vida da tia Lali, uma carpideira sertaneja. O vocábulo carpideira é derivado do verbo carpir, do latim carpere (arrancar cabelos e barbas em sinal de dor). As carpideiras portam o dom de carpir, presente na cultura de diferentes povos, em todo o mundo, pois carpir é um ritual antiqüíssimo de encomendar o corpo de quem morreu para que sua alma ascenda aos céus. É um rito de passagem do mundo terreno para a eternidade. Não é encenação e nem choro falso. Ser carpideira é um dom, o de chorar e cantar "incelências" em deferência a quem morreu, pois a morte para as carpideiras também integra a visão filosófica de que sendo a vida uma travessia, ela também é parte da travessia, pois viver é sempre um estar indo... Sou uma eterna apaixonada pelo sertão. A minha paixão pelo sertão permite que o sertão viva em mim. E eu o carrego, sempre. Onde estou, está o sertão. "Reencontros...", de algum modo é uma ode ao sertão, pois é ambientado em Grotões dos Bezerras - cidade imaginária, que pode ser qualquer lugar no sertão - com sua gente simples, seus sistemas de moralidades, baseados na lei da reciprocidade; suas parteiras; suas fés que se agigantam no romance, provocando alumbramento através das benzedeiras, rezadeiras, tiradeiras de benditos e de ladainha em latim, e também cantadeiras de "incelências"; e suas festas memoráveis, onde a comida faz parte dos rituais festivos. Sem falar que a "comida do sertão" encerra um patrimônio cultural de valor incomensurável, com suas receitas seculares, as do cotidiano e as de festas - as chamadas refeições fidalgas, de banquetes. Ao contar a história do amor de Cacá e Pablo, sinto que "tirei" um bendito, cantei uma "incelência", enfim imaginei uma deferência às "mulheres rosianas" do mundo - mulheres sábias que reconhecem os meandros das "neblinas de Siruiz". AQUELE QUE "ORA É PARTICULAR, PEQUENO E PRÓXIMO; ORA UNIVERSAL E INFINITO, POIS O SERTÃO É O MUNDO". OU, MELHOR, "O SERTÃO É DENTRO DA GENTE." Se "alembre", isto é o sertão! Saiba: no sertão é assim. A minha paixão pelo sertão, esse "desertão" que vive em meu peito, que conforta e acaricia o meu viver - que no dizer de rosiólogos "é uma paisagem mental. É o pensamento sobre o Brasil. O sertão, aquela região selvagem onde se formam as nossas idéias", pariu "Reencontros...", que ofereci à minha neta Luana e ao meu neto Lucas, pelo amor que lhes tenho, mas também como um tipo de penitência diante das reclamações deles que "a vovó gosta muito de ficar no computador..." Eu lhes prometo que nunca mais me disputarão com nenhum livro, pois sinto que "Reencontros..." é o livro que sonhei escrever. É o meu legado de fragmentos da memória cultural da gente simples e do cantar dos grilos do sertão, que eu desejo que um dia vocês aprendam a amar". (Publicado originalmente em O TEMPO, BH, MG, em 22.04.2008; retirado so sítio do poeta Lima Coelho: www.limacoelho.jor.br) Sobre “Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras” Organizado por Mariana Rodrigues . “Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras” é um livro muito esperado por quem lê Fátima Oliveira, sobretudo por quem leu o belíssimo "A hora do angelus" (Mazza Edições, 2005) e ficou fã da autora como romancista. Tive o cuidado de pesquisar nos arquivos que tenho das crônicas dela em quantas ocasiões ela se referiu às carpideiras ou sobre o livro que estava escrevendo. Vejam abaixo: I. Você está trabalhando em algo novo? Vem aí um novo livro? Fátima Oliveira - estou sempre trabalhando em algo novo, inédito. Sou uma pessoa intelectualmente muito inquieta, desde sempre. Tenho prazer em pensar. Estou em fase de finalização de um novo romance, cujo nome provisório é Reencontros na Travessia. Será publicado pela Mazza Edições. Sairá ainda em 2007, porém não sei quando. Fase de finalização necessariamente não significa que o livro esteja quase pronto. Pode estar ou não. Estruturalmente, ou seja, o enredo, está pronto. Mas romance é muito difícil de a gente dizer: finalizado. Por exemplo, há uma personagem que estou achando inacabada. Sinto desejo e necessidade de burilá-la um pouco mais, torná-la mais radiante, embora ela seja encantadora. Enfim, no momento estou às turras com uma personagem importante do livro. Estou numa fase de burilá-la. Temos brigado muito. É que às vezes, em muitas passagens, ela rompe com a minha moralidade. Ultrapassa todos os limites do que vejo como aceitável nos relacionamentos afetivos. Deleto. Reescrevo. Mas ela é rebelde. Exibida. Tem uma personalidade forte e nem se preocupa em deixar o mundo se danar. Bem mais que eu. Então, deleto outra vez... Reescrevo. Uma rinha. Vamos ver quanto tempo essa peleja vai durar. Disso depende a finalização do livro. Mas a tendência é eu me render à personagem. Ela é fascinante. Ambas, escritora e personagem, são cheias de razão. Mas a tendência é ela ganhar. Mas a história gira em torno de quê? Fátima Oliveira - De estados de paixão. De amores ensandecidos e seus lances inusitados de doce erotismo, em um contexto de patriarcado, tendo como ponto de partida a recuperação da história das mulheres carpideiras – as cantoras de “incelências”, que choram o defunto alheio, mediante pagamento ou apenas por solidariedade. A carpideira – mulher paga para chorar nas sentinelas (funerais), é uma profissão que remonta ao antigo Egito. O ritual das carpideiras é parte também da cultura dos escravos e dos índios brasileiros. Ainda é muito presente nas comunidades suburbanas e rurais nordestinas. Mas o meu romance, Reencontros na Travessia, tem como eixo amores que acontecem e histórias de vida que cursam num contexto que mescla modernidade com um mundo considerado culturalmente feudal e patriarcal. É uma linda história. Espero conseguir contá-la bem". (Extraída de O feminismo é uma expressão de tomada de consciência Entrevista de Fátima Oliveira: Exlusiva para o Portal Mhário Lincoln do Brasil, em 1º. De janeiro de 2007. Extraído de: www.mhariolincoln.jor.br )