Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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29 de fev de 2008

Porcina e Clara Claridade

Porcina é yang. Clara, yin. Uma, a roda, a outra, a caçamba. Uma trabalha de dia, a outra, à noite. São irmãs de pista e dividem fraternalmente o ponto. Fazem também encaminhamento de clientes, dependendo da especialidade. Uma faz isso, outra faz aquilo e assim se complementam. Estávamos tão acostumadas a vê-las juntas, unha e cutícula. Só que agora, Clara morreu e Porcina sumiu. Está foragida, para usar os termos da lei. Porcina, como é de conhecimento público, aplicava silicone como ninguém. Agulha esterilizada, digo, nova, luvas, uma tolha limpa e esparadrapos para isolar a área do implante. Litros e litros aplicados nas meninas todas. Uma ficha impecável. Na Clara mesmo, aquela seria a quinta vez que ela implantava. Uma fatalidade. Entretanto, a polícia não compreende. A Clara queria fazer o show da vida, mais estonteante do que aquele carnaval da Mocidade, o Ziriguidum 2001. Resolveu aumentar os peitos. Demos conselho, dissemos que ela se transmutaria num chester, mas Clara insistia. Parecia que a gente tava tendo uma premonição. Ela ensaiava, punha a roupa da outra Clara e soltava a voz: “morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela”... Era uma beleza de ver. Clara marcou a aplicação com a Porcina e lá foram as duas pro consultório. Silicone comprado, pesado. Seringa cheia, mãos enluvadas, área marcada com hidrocor rosa e a Clara irradiando felicidade. Porcina certeira, como sempre, mas a autópsia disse que a Clara tinha uma artéria torta e foi por ali que o silicone entrou, no cano errado, e o sangue não chegou mais ao coração. Ela estrebuchou e morreu, nas mãos da Porcina. A Porcina fugiu só com a bolsa e a roupa do corpo. Muito triste isso. Perder duas amigas de uma vez só. (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!" Ilustração: Lia Maria)

28 de fev de 2008

Salve Beth Beli!

Ainda ontem era menina tocando repinique, cabelo a Grace Jones e riso ainda mais menino. Por onde andará Grace, a caçadora de andróides, ou era ela mesma uma andróide? Hein, Beth? Beth Beli anda por aqui, pelo Rio, por ali, dreads em franco crescimento. Arco e flecha empunhados, apurando a mira, enfeitiçando as folhas, fazendo folia e rindo pra vida. Vou vê-la em Madureira, entrada nobre do Rio preto, a comemorar 40 velinhas sobre pernas de pau. Eu, no cortejo, só no Ijexá, que nunca tive vocação para andróide ou para caçá-los. Saúde, Beth Beli! Ashé, maninha! (Clic na imagem para ampliá-la)

Mazza Edições no Parque Municipal, em Belo Horizonte!

27 de fev de 2008

Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia

O conteúdo do livro de Nelson Motta faz jus ao título, o Tim Maia apresentado é mais do que um homem complexo, é quase uma força da natureza. Incontrolável como um vulcão, um tornado, um tufão. Imprevisível como uma tormenta. Um homem de emoções fortes, coração mole e cabeça dura, embora pensante e perspicaz. Sua porção maior de racionalidade chamava-se Maria Imaculada, a mãe, a quem ele dedicou todos os discos. Motta não lança mão de psicologismos para decodificar o Tim, mas poderia ter aprofundado a pesquisa com os familiares para oferecer à curiosidade de quem lê, elementos mais sólidos para aventurar-se na tentativa de compreender Tim Maia. Sua relação com o som, com a música, com a arte de cantar é exaustiva e competentemente explorada por Motta. A humanidade de Tim fica bem evidenciada nas relações de amor com crianças (os dois filhos e outras, de orfanato) e animais, de cães ferozes a bois e vacas de laboratório, instalados no quintal Maia. Em contrapartida, o machismo, a misoginia e homofobia do músico são naturalizados, não há qualquer comentário crítico do biógrafo mesmo diante do espancamento de uma companheira de Tim perpetrado pelo próprio. Imaginem o estrago. Alguém pode argumentar que não é tarefa do biógrafo julgar ou criticar o biografado. Muito bem, ocorre que em situações de outra natureza, às quais Motta julga excessivas, há críticas. Por exemplo, o período “caretão” da vida de Tim, vivido na seita Cultura Racional, como fiel leitor e seguidor do livro Universo em Desencanto. Motta são se furta da crítica ao "irracionalismo" da opção de Tim. Fica evidente que a ausência do olhar de gênero é reflexo da falta de uma noção mais sólida de respeito aos direitos da mulher, ou uma visão da mulher como gente, menos como peça de “cama, mesa, banho e outras necessidades”. A despeito desses escorregões e tombos, feios e seqüelantes, a escrita de Motta é muito bem feita, envolvente e fluida. Mesmo diante do degradê racial que palmilha o texto de cabo a rabo. A gente se impacienta com o apego desmesurado do biógrafo a um jeito antiquado de descrever as relações raciais no Brasil, quer seja, a ênfase num degradê de cores inútil para mostrar como as pessoas são. É um desfile de “mulatos e mulatas, claros, escuros, foscos, moreninhas e moreninhos, negões”, etc, e confusões também. Para minha surpresa, dois negrões aptos a desfilar no Ilê Ayê, Wilson Simonal e Jorge Benjor tornam-se mulatos na descrição do Motta. Há uma tendência também a “morenizar” os pobres da trama, Roberto Carlos, por exemplo, além dos olhos tristes, tem os cabelos crespos e a pele morena destacados no início de carreira, em contraposição aos “branquinhos” da Bossa Nova, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão e companhia, moradores da Zona Sul carioca. Isso cansa, a insistência nesse Brasil de relações raciais folclorizadas e sem coragem de explicitar os ardis do racismo e da discriminação racial. Há falhas de pesquisa ou escolha de dados que deixam lacunas substanciais para o bom entendimento do relacionamento de Tim com os filhos. Leo, o primeiro filho de Tim, aparece na gestação, quando nasce e depois aos 8 anos, quando Tim vai ensiná-lo a tocar violão pelo “método Maia”, expressão cunhada por Motta para batizar todas as atividades ou atitudes particularíssimas de Tim. Depois o garoto desaparece. Telmo, o segundo filho, cujo nome de registro é Carmelo, aparece na notícia da gestação, no nascimento, no conflito de identidade na escola quando é chamado de Carmelo e não responde à professora, em um passeio no parque com um amigo e o pai, Tim, – talvez Leo estivesse presente também -. O garoto então desaparece da vida do pai, só se faz presente nas reclamações de Tim para vê-lo na casa da tia (irmã de Tim que o educava) em horários Maia, 4 da manhã, por exemplo. Telmo reaparece aos 18 anos para negociar a realização de shows de Tim Maia no Canecão, Rio de Janeiro. Ora, a presença de Léo e Telmo na biografia é insignificante frente ao amor gigantesco que Tim nutria pelos filhos – segundo comentários do próprio Motta. O sumiço de Leo é o mais intrigante. Este não é filho biológico de Tim, mas o texto não indica que ele o diferenciava de Telmo por esse motivo. A relação com a mãe dos dois filhos foi muito tumultuada, embora não tivesse sido diferente das outras, no aspecto tumulto, “cama, mesa, banho e outras utilidades”, mas parece que o amor foi maior. Mas será que por algum motivo não revelado, o Tim deixou de amar o Leo e por isso o Motta lhe deu um chá de sumiço? Ou ele teria sumido por falha do biógrafo? Mistérios! Selecionei três trechos do livro que ilustram bem o caráter e opiniões de Tim sobre certos temas. Antes disso, vale dizer que Motta desperdiça gramas e gramas de celulose descrevendo tipos, embalagens e formas de preparo e uso de maconha e cocaína ao longo das últimas décadas do século XX, no Rio de Janeiro. Sobre as mulheres: “Não precisa nem falar que eu já sei de tudo. Eu te avisei, mermão, essa mulher ia foder com a sua vida... Era o que ele sempre dizia de todas as mulheres de todos os amigos, embora o casamento de Fábio tivesse durado quase dez anos.” Sobre o próprio sucesso: "O segredo do meu sucesso é o equilíbrio: metade das minhas músicas é esquenta-sovaco e metade é mela-cueca.” Fato emblemático e não-raro da relação de Tim Maia com o público, como ídolo popular: "Ao subir a escada da delegacia, empurrado por dois canas, Tim viu que tinha muita gente na calçada em frente e que já o tinham visto. Parou e soltou a voz: - Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir / tenho muito pra contar / dizer que aprendi / que na vida a gente tem que entender / que um nasce pra sofrer / enquanto o outro ri... O povo começou a cantar junto, a bater palmas e gritar seu nome. Os tiras tentavam empurrar 128 quilos escada acima, mas ele não se movia nem parava de cantar. Mais gente chegava, as putas e os travestis gritavam, todos cantavam, a voz querida e poderosa de Tim Maia enchia a noite de Copacabana. Diante da avassaladora solidariedade popular, da barulheira infernal e do adiantado da hora, o delegado reagiu com bom senso e bom humor – 'libera o elemento'.”

26 de fev de 2008

Editores, bah!

Editores são seres complexos. Política editorial também não é coisa simples. Eu mesma, como editora de blogue, não escapo à regra. Mas, além de editora, escritora, e o ego grita quando rejeitam um texto nosso. Principalmente sem motivo aparente, sem justificativa, logo imaginamos os porquês, sob pena de nenhum deles ser verdadeiro, embora sejam todos plausíveis. Outro dia mandei um texto a editor de sítio politizadíssimo, para o qual costumava escrever com relativa constância. O editor indagou se o texto era inédito. Não era, dei a fonte, meu blogue, mas o texto não foi publicado no tal sítio, nem recebi qualquer satisfação. Talvez, nem devesse, pois, como eu, todo editor é livre para publicar o que quiser. Em outro espaço, o editor rejeitou um texto caríssimo a mim: “tire seu sorriso do caminho”, postado aqui, dias atrás. Acho que não deve ter encontrado tensão racial suficiente nele, ou talvez o tenha achado por demais poético (meloso), inadequado para figurar entre textos de guerra. Paciência. Mas a rejeição manifestada por um sítio literário, confesso, me pegou de jeito. De novo, com o querido “tire seu sorriso do caminho”. Não bastasse não publicá-lo, o editor publicou outro de mesmo nome, de outro autor, versando sobre o medo de morrer alimentado pelo genial Nelson Cavaquinho e sobre uma das canções mais belas do cancioneiro brasileiro de todos os tempos, “a flor e o espinho”, composta por este grande sambista, dublê de policial militar, durante uma noite em que o medo de morrer quase o matou. Será possível que o editor me achou capaz de plagiar o Nelson? Não entendo do ato de plagiar, já fui plagiada, coisa miúda, mas aconteceu. Imagino que quem plagia, dissimula, maquia o original. Eu dialogo, brinco com o Nelson, uso versos dele - “tire seu sorriso do caminho que eu quero passar”..., só não uso aspas no texto e não posso crer que devesse utilizá-las. Quando escrevi, estava de muito bom astral, ao contrário do que o texto possa denotar e, ouvindo o samba do Nelson, que é um dos meus dez sambas de cabeceira, eu também quis falar sobre uma dor de amor, do jeito mais denso e belo que conseguisse. Fiquei muito satisfeita com o resultado, é um dos textos mais queridos e trabalhados do Tambor, o livro novo. Na real mesmo, não entendi a marra dos editores, principalmente do Lima e me chateei. Mas aceito, o editor sabe porque faz.

25 de fev de 2008

Alugam-se moços

Elas querem dançar e alugam moços. São senhoras bem-sucedidas e solitárias. Amantes infelizes. Não refizeram a vida amorosa e desejam fazê-lo. No fundo, acham que sexo é bom, sexo com afeto é ótimo e sexo com amor é divino. Inventam o amor para sobreviver. As amigas casadas, cansadas de emprestar os maridos e de ouvir as reclamações deles, encontraram uma solução: alugam moços dançantes para as festas do grupo. Uns tipos garbosos, bem apanhados, estilo anos dourados. Elas vivem momentos de delícia com aqueles corpos jovens, cheirosos, bons pés para valsar. Sempre rola um dinheirinho no bolso, um bilhete discreto com o endereço e horário para o encontro. Dali, ninguém sai acompanhada por um deles, é festa de família. Enquanto isso, na sala de justiça, o rei da soja, de protuberância abdominal mastodôntica, pescoço de sapo, olhos, boca e pele de jacaré albino, expõe mulher jovem, de beleza gelada e estática, mas, bela. Durante a entrevista, afirma que elas gostam de conforto, bons restaurantes, viagens à Europa em cadeiras de primeira classe ou jatinhos particulares, compras na Champs Elysées. Eles, homens maduro-ricos, segundo particular definição de si e de seu grupo, gostam de boa e bela companhia. Da juventude, do viço. É uma troca. Para as mulheres maduras, a fantasia continua. O moço dançante sugere o apagar das luzes, até do abajur. Tudo para facilitar o ato. Ao resenhar o pós-encontro ao telefone, elas fabulam as peripécias do amante, transformam a escuridão num clima, numa vela mágica e perfumada, que ele, príncipe encantado, sacara de seu embornal de segredos. Depois, uma variação de caminhos para enfrentar a solidão. Bebidas, choro, farinha, cannabis, sessões extras no psicanalista, aumento da dose de Tranquinal, Nervium, Ansienon, Deprax, Pondera, Zoloft. Qualquer coisa que anestesie, alivie. Ampare e não impeça o próximo encontro. (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! Ilustração: Lia Maria)

23 de fev de 2008

De mulheres seduzidas (e aturdidas) por um toque de tambor

(Por Maria Nazareth Soares Fonseca*) "Mulheres solitárias, malcasadas, mal-amadas, carentes e homens – alguns prepotentes, outros nem tanto – desfilam pelo novo livro de Cidinha da Silva, Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!, junto a lésbicas e gays. Todos jogam cartas em lances quase sempre não muito felizes para fugir à solidão. A metáfora do “chinelo velho” que aceita “o pé doente”, explorada com ironia no conto Isabel e Rocco, é bastante feliz para descrever as figuras que transitam por espaços configurados pela solidão, pelo medo do abandono, pelas relações sustentadas por dependências emocionais e outras. Num certo sentido, o leitor é levado a circular mais freqüentemente pelos espaços do “patinho feio engrunhido pela chuva fria”, que pelos do “cisne dourado”. Embora esses dois espaços estejam concretamente nomeados no conto O pato e o cisne, eles se espraiam por outros, quase sempre invertendo a magia da metamorfose que, no conto O Patinho Feio, de Hans Christian Andersen, faz o cisne negro emergir das penas rotas de um patinho desengonçado. O diálogo explícito com outros textos – um poema de Drummond, letra de canção de Clara Nunes e Paulinho da Viola, artistas e personagens da TV e outros – trança os caminhos pelos quais transitam relações infelizes, fantasias de encontros, alguma perversão e muita desilusão. Não há cisne negro soberbo que consiga nadar solenemente pelas águas revoltas da sexualidade mal resolvida e por voluptuo­sidades de encontros alicerçados em técnicas e artes de fazer amor. Isto dizem os contos. São vários os rostos que se mostram nas histórias cria­das por Cidinha da Silva, que já nos presenteara com o livro Cada Tridente em seu lugar e outras crônicas (2006), já em segunda edição. Um painel de pessoas e vidinhas comuns, ritmado pela busca de afeto, de companhia, de casual sex, de sexo, sexo, sexo, ou mesmo de soluções incomuns expõe o corpo atormentado pelo desejo, em busca de soluções que possam aliviá-lo. São histórias de humores e impulsos em corrida louca para desbancar a solidão ou o vazio de uma convivência que sabe a cebola e cerveja mas que se incomoda como o contato de sola de pés tipo lixa. Como no conto Isabel e Rocco. O horror de ficar só é, pois, o mote presente na maioria das histórias. Algumas são pequenos flashes, cenas rápidas tiradas da vida de gente comum, expostas, por vezes, no limiar entre a comiseração e o distanciamento que regula o envolvimento da autora com as figuras que cria. Em outras, a intromissão da voz da autora fica escancarada, dirigindo o leitor à defesa do amor explícito entre homens, como em O outro amor, ou refletindo sobre os significados ocultos e transparentes de humores alterados pela TPM na mulher, no conto de mesmo nome. Aliás, em várias histórias, essa intromissão se mostra sem preconceito e o controle da significação interpõe-se à delícia de se deixar passear por cenas bem costuradas, arrematadas por finais muito bem construídos. Quando a invenção corre solta, a mirada irônica sobre os casos triviais é uma estratégia feliz na composição de histórias de mulheres e homens em busca de alívio para a solidão e de apaziguamento da força implacável do desejo. A ironia mostra-se por isso como uma competente estratégia de construção narrativa e, em algumas histórias, é o grande impulso da narração. Ainda quando é posta para fora do palco textual para dar lugar a uma voz que se levanta em defesa de causas concretas, como a da homossexualidade por exemplo, ela, a ironia, mostra-se coerente com a proposta da maioria das histórias pois ratifica a motivação dada pelo título do livro: Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!. Bater tambor, neste livro, tem múltiplos significados, sempre ligados à vivência da sexualidade pilhada em desassossego que é, aliás, o mote reiterado no livro. A busca constante de afeto, amor, sexo faz-se sintoma de um corpo atormentado, em desassossego, mas é também expressão de vitalidade. E algumas das ilustrações de Lia Maria, ao serem postas em diálogo com os textos, reforçam essa tendência dos contos, embora alcance outras manifestações de corpos femininos expostos nos traços fortes que o detalham. A ênfase em corpos esculturais e em cabeleiras soberbas parece atenuar o desassossego e a ironia e propor uma outra leitura para os textos. As ilustrações destacam novos contornos dos corpos aflitos e das histórias de vidas comuns atormentadas pelo medo da solidão e pela carência de toques de ternura, sensações intensas e segurança. A presença dos desenhos no livro talvez queira suscitar, mais do que o simples diálogo com os textos escritos, uma outra escuta que o título Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! procura também alcançar". (Prefácio de "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!" * Professora do Programa de Pós-graduação em Letras da PUC Minas. Pesquisadora 1 do CNPq).

22 de fev de 2008

Lições

Quando adolescente, me apaixonava e dava sexo para receber amor. O amor não vinha. Sofria. Sofria. Sofria. Depois descobri que não precisava me apaixonar para ter sexo, nem me apaixonar depois do sexo. Isso tudo aprendi com os homens. Dia desses, depois de me cansar de um, ele reclamou que se sentia usado. Vá entender. (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!" Ilustração: Lia Maria)

21 de fev de 2008

Quer comprar a mulher do escritor?

Compre, ele está vendendo. E eu li os textos do cabra. E gostei. Bem disse alguém que às vezes é melhor conhecer a obra e deixar no obscurantismo o autor. É o caso desse infeliz. Infeliz, mesmo. Parece que felicidade ele só conheceu com essa mulher que está à venda. “Olhem, estou louco para esta palestra terminar porque estou amando. Amando, entenderam bem? Viu fulano, viu peixano? Eu estou a-man-do, a-pai-xo-na-do”. Faz um bico murcho e endereça um beijinho a um canto da audiência. Alguém pergunta sobre o processo de criação do maledeto e a resposta é que não tem processo, é anárquico, mas quando está amando, como agora, torna-se preguiçoso, só tem ânimo para amar. Manda mais um beijinho chocho pro mesmo canto. Dessa vez, várias cabeças, inclusive a minha, olham para o dito canto, para ver se enxergam a moça. Se é que é uma moça. Deve ser, se não fosse ele não vendia assim em praça pública. A tal fica quieta, não se entrega. Fazem outra pergunta, ele não responde e aproveita para esculhambar as editoras que não souberam reconhecer a genialidade dele. Todas as inovações de linguagem e tal e tal. Um novo Guimarães Rosa, disse um crítico. Disso ele se lembra. Sabe sobrenome e endereço institucional do jornalista. Termina a palestra e ele praticamente pula do palco para a platéia e os lábios murchos vão direto ao encontro dos lábios (humm, carnudos) da amada. Todo mundo acompanha, sem disfarce. Ela não rejeita o beijo, mas parece passar-lhe um pito. Nos sentimos vingados, é uma mulher interessante, só lamentamos que esteja com aquele bobão. Além de interessante, é bonita, distribui elegância em gestos econômicos. Os outros palestrantes, civilizadamente, descem do palco e o escritor age como se o pito não tivesse sido com ele. Como um desequilibrado ele se posta atrás dela, cutuca dois dos palestrantes e põe o dedo indicador sobre a cabeça da mulher, “É ela, o meu amor”. Ela percebe e se dirige aos convivas: “Bem gente, boa noite. Já que ele me colocou à venda, deixem que eu me apresente. Meu nome é fulana de tal e blablablá”. Puta mulher classuda! O que ninguém consegue entender, mas ninguém mesmo, é o que ela viu naquele idiota. (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!)

20 de fev de 2008

Isabel e Rocco

Solta o corpo no lado esquerdo da cama. Ela tremelica do lado direito e dá um muxoxo de soneca interrompida. Ele, sem camisa, suando, sem desodorante. Um cuscuz. Short abaixo da barriga, cofrinho à mostra. Ela, cansada do sono perdido na noite anterior. Dia inteiro de aulas, duas turmas de quarenta crianças. Varizes gritando, cabeça doendo. Ele passa o pé na perna dela, aperta uma varize. Ela geme. Ele acha que ela aceitou e investe. Vai até o ouvido dela, bafo curtido de cebola e cerveja e faz a proposta: “Vamos aproveitar que o Júnior está dormindo”... Ela o empurra. Diz que aproveita a soneca do Júnior para também tirar a sua, que está cansada, que aquelas oitenta crianças a estão matando... “Tá bom, tá bom, mas também não aporrinha. Depois não reclama quando eu for procurar na rua.” Ela ironiza: “Faz-me rir. Mas até pode ser, mulher só não vai com cobra porque não sabe onde fica a cabeça”. Ele liga a televisão. Termina de vez o sossego dela. Novela das sete. Ele comenta: “Isabel Filardis, isso é que é mulher. Dois filhos e aquele corpão, aquela carinha de menina. Magra, linda. Dá pra sentir o frescor pela tela”. “Que poético.” Ela destila ao olhá-lo de banda. Examina-o: baixinho, barrigudo, fedorento, cabeçudo, orelhudo. Uma lixa na sola dos pés. Conclui: “cada uma tem o Rocco Pitanga que merece”. (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor"!)

18 de fev de 2008

A orelha do Tambor

(Por Jeferson De, cineasta) "Minha convivência intensa com o cinema não me deixa um olhar neutro para ler o livro de Cidinha da Silva. O seu texto me faz pensar em imagens que se sobrepõem sem regras nem preconceitos. Nada escapa ao seu olhar, às vezes doce, às vezes irônico e cruel, mas sempre profundo . Ela traz à tona o que está sob os fatos e os gestos, com uma profundidade que nos comove por estar além da superfície. Escreve no texto “Umas e outras”: “A observação do mundo é um negócio que aumenta o balaio do conhecimento”. Seu texto nasce de um compromisso com o mundo, seus lugares e momentos mais diversos. A autora está inserida e atenta ao universo que a rodeia, coloca seu olhar sobre tudo e todos, confunde-se e confunde-nos entre a prosa e a poesia, entre o documental e a ficção. Sua escritura dialoga com Tony Morrison e, também, com Lima Barreto, passa por James Baldwin, mas é assentada em Carolina de Jesus. Então,tá, deixa a menina tocar o seu tambor"!

17 de fev de 2008

Inimigos? Pra quê?

Era uma vez uma casa de cômodos, reais e virtuais, administrados por senhoria de carne e osso. Não havia aluguel. Loteavam-se os compartimentos entre os favorecidos da senhoria, companheiros na administração do condomínio. Era projeto coletivo de abrigo para sem-teto. A senhoria demorou a tomar pé das coisas na gestão da casa, achou por bem plantar espiões entre os condôminos, pois em poucos podia confiar. Em um ninho de cobras vivia, viviam todos a se picar, mas não morriam, imunizados pelo próprio veneno e pelos anticorpos protetores ao veneno dos vizinhos, componente integrado à corrente sanguínea do ofendido da vez. Na segunda gestão do condomínio resolve trocar as peças da casa, manda embora os que, na surdina, se tanto, pleiteavam seu lugar. Uns poucos pularam fora, antes que a casa caísse, outros ficaram, julgando-se acima da carne seca. Um dia a casa cai, caiu. Jorrou água pelo teto, resultado de goteiras às quais nunca se dera importância. O criador jogava xadrez e decidiu a hora de virar o jogo. Chamou escudeiros fiéis e prestigiados para ensinar à senhoria como se administrava um condomínio. Humilhação total. Os moradores da casa ficaram mudos, aterrorizados, no íntimo inconfessável arquitetando formas de defender o próprio puxadinho. Os condôminos virtuais é que surpreenderam, foram para cima da ex-senhoria, como urubus sobre a carniça. Destroçaram-na, jogaram cal, sem uma gota de misericórdia com seu inferno astral. Dizem que Saturno passa de 28 em 28 anos, não acredito, não. Em alguns casos se adianta, principalmente na segunda passagem, eclipsa tudo, não deixa pedra sobre pedra. Por falar em pedra, o senhor das pedreiras não perdoa. É implacável com os filhos que jogam por terra seus princípios de justiça e lealdade, é uma questão de tempo, é só esperar que ele vem e vem com tudo. Ira de Orixá é coisa séria, derruba pra não mais levantar. Quem brinca com fogo se queima, quem brinca com água se afoga, quem brinca com espada se corta. Contam que uma velha, filha de Oxum, hábil na ciência de matar, um dia acertou contas com a mãe. Morreu afogada em um rio seco, onde a água não lhe ultrapassava as canelas. Não é lei do bem contra o mal, é lei de reciprocidade. Acredita mesmo quem é do santo, quem não é, acha que tudo é lenda. Aquilo foi um espetáculo de deslealdade oferecido pelos condôminos virtuais. Detrataram as antigas práticas distributivas da senhoria, aquelas mesmas que os havia beneficiado. Convidaram o povo para malhar o Judas e depois acenderam fogueira ao redor, para queimá-lo ainda vivo. E o Judas gritava, urrava como a Senhora D de Hilst, desamparado, desesperado, em carne viva, pós-linchamento moral. E os ex-amigos sem dó, nem pena. Ele, na fogueira, busca os olhos de um, daquele que mais o atingira. Encontra-os em meio à fumaça e no suspiro último desfere: “Eu te amaldiçôo, oh rei dos sanguinários e dos ingênuos. Eu te salvei da morte, paguei tuas contas vencidas, te estendi a mão quando estavas sozinho e derrotado. Enviei mensageiros para te acalmar. E agora, o que fazes comigo, o que fazes de mim? Que tu subas ao cume das alturas, Id Amin maldito, e que a soberba, tua esposa mais constante, retire de ti a escada e o chão quando estiveres lá.” O algoz-mor não sorri, mantém o olhar gelado e limpa cinzas da lapela. Volta-se para o povo e grita: “Vamos malhar o Judas, pessoal!” (Ilustração: Iléa Ferraz)

16 de fev de 2008

Tire seu sorriso do caminho

Tire seu sorriso do caminho, que hoje não tem samba pro meu enredo. Degredo. Não tem alegoria pra minha tristeza. Eu sou só dor. Latejante. Tire seu sorriso do caminho, que hoje meu funk tá sem movimento de bacia. Não tem rima pro meu rap. Não tem Robinho nem Ronaldinho no meu jogo. Meu reggae tá sem sabor. Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar. Adeus, amor. (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!" / Ilustração: Lia Maria)

15 de fev de 2008

Esta é a capa do Tambor

A ilustração é da Lia Maria, a arte final da Iléa Ferraz e do Cristiano Rafael. Agradeço aos três. O livro está na gráfica, logo, logo, sai da prensa. Enquanto aguardo, começarei a postar um texto aqui, outro ali, com ilustração acoplada, quando for o caso. O título é uma corruptela de "olhe, você me deixe, viu?", expressão bastante usual em terras soteropolitanas, de pura independência. Acrescentei a batida do tambor para reafirmar que faço o que quero, "escrevo o que quero", como fazia Biko, e que ninguém me policie. Foi também para trazer mais um som, posto que o ritmo na escrita me é tão caro. A capa é uma viagem nas águas, dos rios, dos mares... perceberam os belos tons de azul? Pode ser também o mergulho no céu, dado por um peixe solitário e voador, de olho espelhado, oxunico, dupla vidência. Pode ser tudo mais que você quiser, este é meu jeito de interpretar. Quando Lia mandou o desenho do peixe, a princípio para ilustrar um dos textos, eu disse, "esta é capa". Nos desentendemos um pouco, ela sugeria outro desenho e eu disse que o peixe completava o conceito do livro. É fertilidade mas é busca solitária, ambas envolvidas pelo mar, imensidão e profundidade, colorido de alegria, olhos bem abertos, atentos. Um peixe que nada rumo à superficíe, de olho nas estrelas. "O mar de Minas é o céu". O livro é obra singela, composta por 25 histórias curtas, ilustradas, crônicas e mini-contos que têm como pano de fundo, discussões de gênero e sexualidade, centradas em dois aspectos, o amor e a solidão. São várias as personagens femininas a divagar sobre os temas, com acidez, a maior parte do tempo, em gotas de lirismo, em um ou outro texto e com humor, e talvez um pouco mais de acidez, em outros. Escrever e publicar o segundo livro é um alívio, quer dizer que você não estagnará no primeiro, não será escritora de um livro só. Há um tipo de autor que depois de 30 anos de exercício literário, 5 ou 6 livros publicados, conclui: "eu publiquei demais". Talvez ele esteja dizendo que deveria ter se dedicado ainda mais ao aperfeiçoamento da escrita, que deveria ter burilado de maneira mais precisa o diamante bruto da sua genialidade. Há outro tipo de autor que tem mais fome de publicação, de diálogo com o público, é menos genial, tem pegada de João-de-barro, canta enquanto constrói a casa, tem consciência de que é nas publicações, resultado de muita labuta na escrita, que se vai aperfeiçoando e construindo o escritor. Nem todo mundo dá pra Guimarães Rosa que publicou pouco e disse tanto. Há pessoas que precisam peneirar bastante o cascalho pra encontrar um diamantezinho, se Adélia me permite deformar seu belo verso. Eu tô curtindo muito tudo isso, espero que vocês curtam também.

14 de fev de 2008

"Michelle Obama tem graça, elegância, tato e postura...

não é difícil imaginá-la na Casa Branca". Ele é um candidato viável para o stablisment, vai longe. Michelle dá o tom que nos interessa. É minha candidata.

Para um amor no Recife

A razão porque mando um sorriso/ E não corro/ É que andei levando a vida / Quase morto / Quero fechar a ferida / Quero estancar o sangue / E sepultar bem longe / O que restou da camisa / Colorida que cobria minha dor / Meu amor eu não esqueço / Não se esqueça por favor / Que eu voltarei depressa / Tão logo a noite acabe / Tão logo esse tempo passe / Para beijar você (Paulinho da Viola).

13 de fev de 2008

*Inimigo íntimo - por Sérgio Vaz

(Do blogue do Vaz) www.colecionadordepedras.blogspot.com "HOMENAGEM AOS MALANDROS. Povo lindo, povo inteligente, fiz um conto em homenagem aos malandros dessa nova literatura e música de quem eu sou muito grato em ser contemporâneo. Tentei usar nomes de livros, autores, músicas e personagens que contemplam esse momento único em que vive a periferia, culturalmente falando. Nada demais, apenas uma brincadeira. A História também tem bem a ver com o que os manos e as minas andam escrevendo, só que não com a mesma força e lirismo que eles escrevem. Vai também como uma boa dica cultural. Tamo junto"! *(baseado em fatos que não aconteceram, mas que poderiam ter acontecido facilmente. De verdade ninguém morreu, ninguém matou, por isso não vale como estatística para Segurança Pública) "A Guerreira em questão morava no topo da favela, lá, onde subindo a ladeira mora a noite, e chegava do trabalho lá pelas dez. Um ônibus lotado, mais o que doía mesmo era o trem. Chegou em casa e o suposto marido, graduado em marginalidade já estava louco de cachimbo, na cidade de Deus onde todos foram esquecidos, o nóia era conhecido como colecionador de pedras. Um dia já foi trabalhador, mas... Pensamentos vadios é foda. Elizandra já não suportava mais essa vida, mas não se sabia porque vivia pelo vão da felicidade, enquanto o desgraçado do Ademiro vivia na fortaleza da desilusão. E assim, viviam a vida que ninguém vê. No sábado, hoje é quinta, ela vai matar o desgraçado, só que ela ainda não sabe, nem ele, por isso seguia sobrevivendo no inferno no seu castelo de madeira noite adentro planejando o assassinato. Pronto, já é sábado -resolvi cortar a sexta-feira e partir direto para os acontecimentos. Quando Elizandra chegou, moída do trabalho, encontrou novamente o traste bem louco na cadeira no canto da cozinha. A casa estava imunda, um quarto de despejo. Foi a gota D´agua. Ela o matou com o tiro bem no meio da cabeça. Foi assim: Há alguns dias ela tinha conseguido um revólver emprestado de um admirador, que não via a hora do nóia se mudar do Capão pecado para ele logo se entocar na goma do malandro. A Guerreira já chegou decidida, o zóio estava pegando fogo, vixe, ela era o próprio manual prático do ódio. Chegou no barraco às cegas, mas qualquer um podia sentir o rastilho da pólvora que ela trazia no olhar. Estava ali, de passagem, mas não a passeio, e pensando que cada tridente em seu lugar, ou seja, ela feliz, ele a caminho do inferno. Já podia vê-lo no cemitério no buraco do terrão, tipo desenho de chão. Ela o chamou pelo nome: -Ademiro, vou te dar uma letra. Ele olhou para ela e para o cano do cano do brinquedo assassino que ela trazia nas mãos. -Eita porra, que porra é essa? -Acabou! Disse mais um monte de coisa e gastou toda sua gramática da ira contra o aspirante a defunto. Dizem alguns vizinhos que ela deu várias letras, mais ou menos, 85 letras e um disparo.O barraco virou um angu de sangue, deu até no notícias jugulares: “Morre nóia que batia na mulher”. A vizinha que lia a manchete olhou para o dono da banca e disse: -A morte desse verme foi um presente para o gueto". Periferia é periferia em qualquer lugar! Sérgio Vaz. dados bibliográficos: Guerreira, O Trem: Alessandro Buzo. Subindo a ladeira mora a noite, Pensamentos vadios, Colecionador de pedras: Sérgio Vaz.Graduado em marginalidade, 85 letras e um disparo, Ademiro: Ademiro Alves, Sacolinha. Cidade de Deus: Paulo Lins. Às cegas: Luiz Alberto Mendes. Vão: Allan da Rosa. Fortaleza da desilusão, Capão pecado, Manual prático do ódio: Ferréz. A vida que ninguém vê: Eliane Brum. Sobrevivendo no inferno: Racionais Mc´s. Castelo de madeira, Brinquedo Assassino: Grupo A Família. Noite adentro : Robson Canto. Elizandra Mjiba Quarto de despejo: Carolina de jesus. De passagem, mas não a passeio: Dinha. Rastilho da pólvora: Antologia do sarau da Cooperifa. Cada tridente em seu lugar: Cidinha da Silva. Desenho de chão: Silvio Diogo. Gramatica da ira: Nelson Maka. Angu de sangue: Marcelino Freire. Notícias jugulares: Duguetto Shabbaz. Um presente para o gueto: Fuzzil. Periferia é periferia em qualquer lugar: GOG.

12 de fev de 2008

Nova sede do Grupo Nzinga de Capoeira Angola, em São Paulo

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Dicionário Literário Afro-brasileiro será lançado em São Paulo

Nei Lopes é uma figura! Digo isto com respeito de fã, pois nunca fomos apresentados, não sou amiga dele, não tenho qualquer intimidade. Apenas presto muita atenção no que ele diz. Outro dia fui ouví-lo cantar, junto com a querida Fabiana Cozza. Era espetáculo de uma série chamada "Religare - macumba da boa". Semanas antes tinha visto Mart'nália, na mesma programação, um arraso. Pois bem, lá pelas tantas, na hora de apresentar os músicos, o "velhote" desfere sequência irônica de comentários. Primeiro fala de um tal up grade no samba, representado pelos novos nomes e perfis dos músicos e rememora: "antes o percussionista era o "Fumaça", o tocador de cavaquinho era o "Gasolina" e por aí foi. Contrapôs esses músicos antigos aos de hoje, seus nomes pomposos e sobrenomes europeus. Essa eu entendi, ele nem precisou explicar. Depois desferiu outra que me deixou interrogativa. Disse que Alcione grava sambas dele há uns 36 anos, desde que "ela era uma garotinha, ele era um rapaz imberbe e Beth Carvalho já era madrinha". Não entendi Nei, meu repertório não deu. Há mais coisas entre o céu e o samba do que possa imaginar meu desconhecimento de histórias e mumunhas desse universo. Copiei um texto do blogue dele, chama-se Mandela e a farra no motel de realengo - um episódio exemplar". O cara é ou não é uma figura? "Nos anos 90, o Velhote aqui do Lote foi servir ao Estado, no segundo governo Leonel Brizola. E de repente viu-se ocupado com os preparativos para a recepção a Nelson Mandela, que, recém liberto dos cárceres do apartheid, viria ao Brasil. Reúne daqui, reúne dali; disputa daqui disputa dali, pra ver quem era o "dono" da ilustre visita, após meses de stress e politicagem, chega a semana da festa. Nos detalhes finais, na hora H não se tinha o nome do fornecedor do bufê, constante de pingues salgadinhos e uns refrescos meio mornos. Mas era preciso empenho, licitação, aquelas coisas. Mais correria. Até que um burocrata experiente descobre na Lei uma justificativa para não se licitar o fornecimento do bufê: urgência, pois Mandela chegava no dia seguinte. Achada a receita legal, vem o remédio: o Doutor Fulano conhecia um bufê que já era fornecedor do Governo. Aí assinamos os papéis. Só que o bufê era do mesmo dono de um motel da avenida Brasil, em Realengo. E a nota consignou: "Motel Coisa e Tal; CGC tal; fornecimento de N lanches". Pra quê!? No dia seguinte, o maior jornal do Brasil lascava a manchete, mais ou menos assim: "FUNCIONÁRIOS DE BRIZOLA E COMITIVA DE MANDELA FAZEM FARRA EM MOTEL". E a assinatura do Velhote estava lá, na foto do documento que autorizara a despesa e agora ilustrava a matéria. Para decepção e vergonha de um Irajá inteiro. Mais tarde, o imbroglio foi desfeito. Mas os visitantes do Lote podem imaginar o quanto isso custou de mágoa, acabrunhamento, sensação de impotência, pressão alta, dor de cabeça. Esta remexida na parte fedorenta do baú vem a propósito da demissão de Matilde Ribeiro da SEPPIR, num triste caso que há dias vem ocupando as páginas dos jornais. Há sempre uma casca de banana, uma armadilha à nossa espera. Os que são "macacos velhos" saem dessas numa boa, sem estresse ou depressão. Mas os nossos, quando são bem intencionados, escorregam sem nem saber que escorregaram. E aí a dor é grande, mas muito grande mesmo, repercutindo em ondas. Esclareço que, embora inscrito na OAB e com anuidade em dia, não tenho procuração da ex-ministra para qualquer tipo de defesa. Mas quem conhece sabe que, até aqui, todos os órgãos públicos voltados para a cidadania dos afrodescendentes nunca têm carro, verba, móveis, respeito, status, nada! São criados apenas para que não se diga que o Estado brasileiro não se preocupa com os seus excluídos. E a parte melhor de seus funcionários, quase sempre trabalhando em nome da causa, estão o tempo todo sujeitos àquela "casca de banana" sobre a qual tanto o saudoso Brizola nos alertava. Seria bom, então, que antes de qualquer juízo sobre o caso SEPPIR - principalmente se as investigações forem, mesmo, estendidas ao governo Fernando Henrique - se refletisse melhor, buscando historinhas exemplares, como a de "Mandela no motel". Mesmo porque, logo depois, no governo seguinte, a Secretaria Extraordinária de Defesa das Populações Afro-brasileiras, genialmente idealizada e liderada pelo venerando Abdias Nascimento, foi extinta. Ou será que não sabemos que, no caso específico de Matilde Ribeiro, o que está em jogo, neste momento, é a apreciação, pelo Congresso, do Estatuto da Igualdade Racial, pièce-de-resistence da SEPPIR"?

11 de fev de 2008

Tim, Bruna e Edimilson

Comecei a ler a biografia do Tim Maia, escrita por Nelson Motta. Um texto delicioso, recomendo. Logo no início o Motta conta um episódio passado em Nova York, após um encontro dele com o Tim, o cantor lhe presenteia com um disco, no qual escreve “Com o respeito do Tim Maia”. O Motta se desmancha todo, pois o Tim respeitava pouca gente, era sincero e desconcertante. Terminara de ler o trecho citado e toca o interfone notificando a chegada de um sedex. Era do Edimilson, aquele que, ao contrário do que se dizia do Tim, respeita todo mundo. Mandou-me de Juiz de Fora um envelope com três livros de sua lavra, três dedicatórias lindas e ainda escreveu no espaço da destinatária: “para a escritora Cidinha da Silva”. É ou não é coisa pra me derreter como manteiga ao sol? Um ídolo que reconhece a gente no ofício novo é coisa digna de nota. Obrigada, querido amigo. De quebra ganhei um sorrizão do porteiro que, finalmente, deve ter descoberto o que faço na vida. Meus presentes são: Malungos na escola – questões sobre culturas afrodescendentes e educação, brevemente comentado no blogue em finais de 2007; Signo cimarrón, um volume de poesia, em castelhano, e Rua Luanda, “canções de gente pequena e de gente grande também.” Meu problema com os livros do Edimilson para os pequenos é que desaparecem, os pequenos da minha casa já vasculham minhas estantes e raptam os livros interessantes para as próprias coleções. De volta ao Motta e ao Tim, que merecerão um comentário mais detido ao fim da leitura de “Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia”, a coisa chata até o momento, é perceber um apego desmesurado do Motta a um jeito antiquado de descrever as relações raciais no Brasil, quer seja, a ênfase num degradê de cores inútil para mostrar como as pessoas são. É um desfile de “mulatos e mulatas, claros, escuros, foscos, moreninhas e moreninhos, negões”, etc, e confusões também. Para minha surpresa, dois negrões aptos a desfilar no Ilê Ayê, Wilson Simonal e Jorge Benjor tornam-se mulatos na descrição do Motta. Há uma tendência também a “morenizar” os pobres da trama, Roberto Carlos, por exemplo, além dos olhos tristes, tem os cabelos crespos e a pele morena destacados no início de carreira, em contraposição aos “branquinhos” da Bossa Nova, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão e companhia, moradores da Zona Sul carioca. Isso cansa, a insistência nesse Brasil de relações raciais folclorizadas e sem coragem de explicitar os ardis do racismo e da discriminação racial. Ainda bem que ventos novos sopram no mundo. Bruna Lombardi, por exemplo, dá lição de modernidade no tratamento da temática racial, dentre outras relações socialmente assimétricas, abordadas no excelente “O signo da cidade”, filme roteirizado por ela e bem dirigido por Carlos Alberto Ricelle. Está tudo ali, o cotidiano de negros brasileiros, aqueles mesmos que a folclorização advoga retratar com seus chavões cromático-classificadores: o assaltante negro que é pai zeloso, rouba pra comer e parece não ter arma pra assaltar. Quando consegue emprego vira segurança de bacana e mata outro negro, trabalhador, por acidente, ao atirar num trombadinha, no exercício de sua autoridade de segurança privado e armado; o enfermeiro negro, super humano e honesto, que atende a todo mundo, faz tudo o que os médicos não fazem, mas não aceita pagamento extra. É um cara solitário e triste, o álcool é sua muleta, só assim suporta a vida. A travesti negra e jovem que sonha em comprar uma bolsa de grife e é espancada quase à morte por dois playboys brancos que se aproximam como falsos clientes, enquanto ela namora o sonho de consumo na vitrine. Acho que em momento algum as palavras negro, afro-brasileiro ou afro-descendente são pronunciadas, nem uma vez sequer, não é preciso. Tampouco se recorre a essa babaquice descritiva de mulato-isso, mulato-aquilo, moreno-não-sei-das-quantas, como recurso de valorização da mestiçagem e afirmação de uma certa percepção de tensões raciais. A trama bem construída, as personagens densas e os bons atores falam por si mesmos. Em termos de linguagem, o único deslise da roteirista, por excesso de zelo, ocorre em um diálogo no qual uma personagem inusitada se declara lésbica. Ela usa a palavra “preconceito” para descrever as limitações vividas no exercício da orientação sexual numa determinada época. O discurso militante era desnecessário, o poético já dizia tudo. Um dos maiores méritos do roteiro, a meu ver, é a verossimilhança das histórias, os acontecimentos e intercruzamentos são factíveis, ao contrário de “Crash, no limite”, filme premiado, onde o real ficcionalizado beira o risível, em certas cenas. “O signo da cidade” é humano e possível, não é piegas. Vale a pena assistir ao filme, fica a indicação. Por ora me despeço, volto ao Tim, o furioso.

10 de fev de 2008

Estamos por nossa própria conta

Passados a perplexidade e tristeza, disparados pelo processo de fritura política de Matilde Ribeiro, fica a certeza de que pertencemos à mesma comunidade de destino. Estas linhas compõem a indignação de toda a vida, a sensação de estarmos por nossa própria conta desde a concepção num ventre negro. A coletiva de Matilde Ribeiro, no momento de saída da Seppir, é, até hoje, motivo de pesadelo para mim, não consigo imaginar o sentimento dela. Aquilo foi um espetáculo covarde, um lavar as mãos em águas sujas, um jeito de dizer “fartem-se leões, entrego-lhes a presa fácil”. Nenhum par, nenhum amigo, nenhum confrade, nenhum defensor, ao qual o mais reles dos bandidos tem direito, quanto mais a integrante de um projeto político, dito de transformação, nada, só o abandono à companhia solidária, mas inofensiva, dos assessores e subordinados. Matéria prima para os infindáveis papos de botequim, para a política pequena, aquela que aponta culpados no Movimento Negro e cita nomes e nomes de arroz de festa nas paróquias de origem, mas inoperantes na política grande. Enquanto isso, na sala da justiça, à revelia dos párocos, a grande imprensa, deliberadamente, atrela os erros de uma de nós a todos nós. Produz confusão entre a inocuidade de uma pasta e a justeza de uma causa. É, estamos por nossa própria conta, sejamos Matilde Ribeiro, Benedita da Silva, Lecy Brandão, Celso Pitta ou Orlando Silva, chamado por alguns de Nelson Gonçalves, nada nos diferencia, somos pessoas negras, estamos todas no mesmo barco e o racismo nos bombardeia ou bombardeará o casco. Pouco importa o que tenhamos feito ou construído, sob a mira dos holofotes racistas somos meras sombras, pertencemos à mesma comunidade de destino. Não nos iludamos, qualquer de nós pode ser o próximo alvo. (Foto de Steve Biko)

9 de fev de 2008

Transexual preside Escola de Samba campeã na Paraíba

(Do Mix Brasil) "A Escola de Samba Império do Samba, presidida pela transexual e militante do Movimento GLBT, Fernanda Benvenutt, foi a campeã dos desfiles de domingo em João Pessoa, Paraíba. Tendo como enredo os quatro elementos da Terra - fogo, terra, água e ar -, a Império do Samba apresentou ao público da capital paraibana seus 650 componentes distribuídos por 12 alas, 4 carros alegóricos, 2 casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, comissão de frente, destaques e ala das baianas. A Escola foi eleita campeã com 7 notas 10, de um total de 8 notas possíveis. A presidente da Império do Samba dedicou a vitória a todos os integrantes da Escola à comunidade do Roger, bairro onde se encontra a quadra da Escola. Fernnanda também dedicou o título ao companheiro João Balula, que mesmo sendo de outra agremiação, segundo Fernanda, é figura indispensável no carnaval paraibano".

8 de fev de 2008

Pesos e medidas

(Por *Sueli Carneiro, de Geledés e do Correio Braziliense) "Não, não há racismo na demissão de uma gestora pública em nível de ministra sobre a qual pairem suspeitas de uso indevido de dinheiro público ou erro administrativo — tratando-se ou não de pessoa negra. Há, no entanto, racismo e discriminação no tratamento que foi dispensado à ex-ministra Matilde Ribeiro dentro e fora do governo. A ministra não é chamada pelo presidente da República, de quem seria pessoa de confiança, para se explicar. É sabatinada com direito a muitos “pitos” e aconselhamento para se demitir por outros três ministros supostamente equivalentes a ela. Evidencia-se aí o que parece ser o caráter simbólico do título de ministra. Demitida, é exposta numa patética coletiva de imprensa, jogada aos leões, sem a presença de nenhuma das figuras de expressão do governo ou de seu partido para emprestar-lhe “solidariedade” como houve em outros casos similares. Na mídia, proliferam charges que extrapolaram, em muito, o objeto central das irregularidades de que era acusada. De forma grotesca, deram plena vazão aos estereótipos. As ilustrações de sua figura nos órgãos de imprensa serviram-se de todos os clichês correntes em relação às pessoas negras. Em uma delas, ela é representada sambando com batas africanas e tranças rastafári, como se esses traços de identidade falassem por si e, portanto, explicassem os erros que lhe custaram o cargo. Foucault já explicou como se dá esse processo que ele nomeou de “dobrar o delito” acoplando-lhe “uma série de outras coisas que não são o delito mesmo, mas uma série de comportamentos, de maneiras de ser que (...) são apresentadas como a causa, a origem, a motivação, o ponto de partida do delito”. O resultado dessa operação é que a falha cometida se torna a marca, o sinal de uma suposta imperfeição congênita de uma pessoa ou, mais ainda, de seu grupo social. É como se estivesse inscrito em sua natureza, devendo, por isso, ser objeto de humilhação pública para servir de alerta aos que se esquecem dessa ausência “natural” de qualidade e os elevam a posições para as quais não estariam talhados. Presta-se também como ameaça aos outros, do mesmo grupo inferiorizado, que porventura ousem desejar atingir os mesmos postos. São formas de punição preventivas e educativas em que a estigmatização e a humilhação funcionam para reafirmar a incapacidade e despreparo para assumir função diretiva. Em outras palavras, a necessidade de controle social e tutela desses segmentos sociais. Adicional e imediatamente promoveu-se a confusão entre a pessoa da ministra e sua pasta. Passaram a pedir não apenas a sua cabeça mas também a extinção do órgão que dirigia. Alguém imagina pedir-se a extinção de qualquer outro ministério ou secretaria especial porque seu titular cometeu um desvio de conduta? Veiculou-se na imprensa que o presidente Lula estaria “particularmente aborrecido porque lutou muito pela criação da Secretaria da Igualdade Racial, antiga reivindicação do movimento negro, e foi criticado pela decisão de criar mais uma pasta. Para o presidente a atitude de Matilde Ribeiro dá agora argumentos aos adversários para quem a secretaria não tem função”. Ora presidente, a disfunção da então ministra não pode confundir-se com a função da secretaria como desejam os adversários. A contaminação dos atos da ministra sobre a pasta que estava sob seu comando pode ser justificativa para ceder às pressões daqueles que, dentro e fora do governo, operam para a desestabilização daquele órgão; aqueles que propagam que não somos racistas no Brasil e, portanto, negam as mazelas sociais que o racismo produz e conseqüentemente esvaziam de sentido essa secretaria. Enquanto Matilde Ribeiro é convidada a se demitir, outros se tornam ministros ou assumem mandatos parlamentares com suspeitas muito graves. Portanto, há discriminação quando as regras não se aplicam igualmente a todos, ou melhor, no fato de que alguns devem ser exemplarmente punidos e outros não. Há racismo na associação entre a negritude da ministra e seus atos. Há racismo no aproveitamento político de falha pessoal de uma gestora pública para a desqualificação da pasta que ela dirigia. Há racismo na utilização das irregularidades cometidas para negar a existência do problema racial e da necessidade de que o seu combate seja objeto de políticas públicas. A agenda de combate ao racismo e promoção da igualdade racial permanece como compromisso do governo no plano nacional e internacional, gostem ou não gostem os detratores. O presidente Lula da Silva precisa estar atento para que o caso de Matilde Ribeiro não seja usado, indevidamente, como o álibi perfeito para o abandono e negação desses compromissos. A crise na Seppir é também oportunidade de dotá-la das condições políticas e materiais necessárias para estar à altura desses compromissos — sobretudo o de transversalizar o tema da promoção da igualdade racial nas diversas áreas da administração pública". *Doutora em filosofia da educação e diretora de Geledés — Instituto da Mulher Negra.

7 de fev de 2008

Faraós negros

A revista National Geograhic Brasil, do mês de fevereiro, traz uma matéria excelente sobre os Faraós negros, não só do Egito, mas também da Núbia, atual Sudão. São muitos os pontos altos do texto, o primeiro deles, o caráter dialógico da organização e apresentação dos resultados de pesquisas de arqueólogos e historiadores sobre a existência e modo de governar dos Faraós negros, oriundos da Núbia. Trata-se de tema complexo, desde as postulações dos egiptólogos afrocêntricos que reivindicam a negrura de todos os antigos egípcios, de Tutankhamon a Cleópatra, aos historiadores negligentes em relação à civilização construída pelos núbios e expoentes de uma “ignorância absoluta do passado da África”, ou mesmo aos racistas que mesmo diante de indícios irrefutáveis, encontrados por eles mesmos, não admitiam que negros pudessem ter construído uma civilização. Destaca-se também a atualização da matéria por meio de uma perspectiva da História que aproxima o passado do presente, ao mesmo tempo que informa de maneira embasada e crítica. Leia-se o trecho abaixo: “Atualmente as pirâmides do Sudão – mais numerosas que as do Egito – são espetáculos assombrosos no deserto da Núbia. É possível perambular por elas sem nenhum temor, mesmo se estivermos desacompanhados, como se a região nada tivesse a ver com o genocídio no país, a crise dos refugiados em Darfur ou as conseqüências da guerra civil no sul. Enquanto cerca de mil quilômetros ao norte, no Cairo ou em Lúxor, multidões de turistas curiosos desembarcam de um ônibus após outro, espremendo-se para ver e apreciar as maravilhas egípcias, as pouco visitadas pirâmides sudanesas de El Kurru, Nuri e Meroé se erguem serenamente em meio a uma paisagem árida e vazia que mal sugere que ali teve lugar próspera cultura da antiga Núbia. Agora, contudo, nosso vago entendimento dessa civilização está mais uma vez ameaçado de mergulhar na obscuridade. O governo sudanês constrói uma usina hidrelétrica no rio Nilo, cerca de mil quilômetros acima da barragem de Assua, erguida pelo Egito nos anos 1960 e que transformou grande parte da Baixa Núbia no leito do lago Nasser (chamado de lago Núbia, no Sudão). Até 2009, ficará pronta a enorme barragem de Merowe e um lago com 170 quilômetros de comprimento irá inundar as terras no em torno da Quarta Catarata – assim como milhares de sítios arqueológicos ainda inexplorados. Nos últimos nove anos, os arqueólogos acorreram desesperados à região, realizando escavações a toque de caixa antes que outro repositório de história Núbia tenha o mesmo destino de Atlântida” (p.35). Visite o sítio da National Geographic Brasil: ngbrasil.com.Br

5 de fev de 2008

Ogundana: o Alabê de Jerusalém

“Ogundana: o Alabê de Jerusalém” é, por enquanto, meu livro do ano. Comecei a fila de leituras com uma nova visita a Mário Quintana, outra a Paulo Mendes Campos e na seqüência fui arrebatada pela prosa poética de Altay Veloso. A capa fisgou minha atenção ao primeiro olhar – um belo jovem negro de tranças, rosto de estátua de bronze e olhos iluminados, um machado de Xangô e um pássaro de três cabeças, dentre outros adereços laterais. Também me inquietou o título do livro, pensei tratar-se da história de um filho de Ogum, mas a leitura me trouxe um filho de Xangô e Oxum, maternado por Nanã, conhecedor dos segredos de Ossain e Obaluaê, apadrinhado por Exu e Ogum, ancorado na generosidade e carinho de todo o panteão dos deuses iorubanos. O livro estava disposto entre os contos e crônicas da livraria e se não fuçasse a prateleira não o teria visto. Catalogação esquisita, Ogundana é um quase-romance, uma novela, prosa poética, pura poesia desenhada por hábil contador de histórias. Faz parte de um projeto maior de Altay, a ópera “O Alabê de Jerusalém”, encenada com sucesso de público e crítica no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em maio de 2007. Ogundana é um andarilho africano que viveu há dois mil anos, contemporâneo de Jesus Cristo. Ele sai da própria aldeia, em Ifé, Nigéria, aos doze anos e atravessa todo o Norte da África, a pé, poucas vezes em caravanas, até romper as fronteiras do continente e chegar a Roma. Busca conhecer o mundo e encontrar a si mesmo. A passagem pela África ocupa o primeiro quarto do livro e foi o que mais me emocionou e interessou. O tônus poético das cenas e cenários é de difícil tradução, resta destacá-los para que os sentidos de quem lê este texto possam se aproximar da magia de Ogundana, ao demonstrar, por exemplo, a necessidade de desenvolver fina sintonia com o Orixá de cada dia, como requisito para se tornar um Alabê, aquele que cuida da música nos cultos Iorubás. “Foi então, que na manhã seguinte, com realeza e requinte, na casa dos instrumentos, recebi dos sacerdotes a empunhadura do archote que ilumina os fundamentos, a orientação secreta pra ficar em sintonia com o Orixá de cada dia, pra receber a energia que cura, que alivia e neutraliza a magia fria dos maus momentos. Assim, ao som dos tambores, Xangô desceu de Aruanda trazendo seus dois machados e os cruzou no meu peito, realizou os preceitos; e, então, já quase eleito um Alabê iniciado fui levado em cortejo até a beira do rio. E ao som dos cânticos sagrados, recebi a grande honraria: ser portador de um colar, uma guia, que foi por Oxum batizada, pertencer à hierarquia dos que vivem em sintonia com o raio que Xangô envia rumo ao palácio das águas” (p.18). Madiba, primo e melhor amigo de Ogundana vai ao encontro dele, pois não o deixaria viajar sozinho rumo ao desconhecido que ele, Madiba, também queria alcançar. Ogundana o define como aquele que “trazia consigo, além da força dos destemidos, a luz do sexto sentido que brilha nos olhos dos iniciados.” Embora fosse um menino, assim como ele, inocente, Madiba “era um sábio, tinha a intuição dos magos, a lucidez dos videntes”.Mas Madiba adoece, parte, e o momento de sua passagem é requintada reflexão de fé na existência do mundo espiritual e nas razões que a razão desconhece. A dor de Ogundana é dilacerante e a poesia gerada dessa dor nos ajuda a compreender e superar nossas dores causadas por perdas: “Conduzido pela dor, fui levado ao traiçoeiro reino da apatia. Lá, sujeito às bruxarias silenciosas e à música furiosa daquele mundo sombrio, caí no mais denso e frio estado de melancolia. Não mais levantei os olhos para contemplar o firmamento; e, sem o sábio aconselhamento das estrelas, distante da luminosidade solar e do carinhoso olhar da lua cheia, cheguei a perder de vista o elo resplandecente da poderosa corrente que une os deuses da minha aldeia. Era como um açoite, a escuridão da noite, toda vez que ela chegava. E eu sofria pesadelos, acordava assustado. Ainda na inocência, confundia a luz da vidência com as trevas dos maus presságios”(p.35). Antes disso, a lucidez de Madiba diante da morte iminente, impressiona. “Ogundana, sinto muito, mas acho que chegou a hora. Minha razão, já está em silêncio, não encontrou nenhuma resposta, e já não faz nenhuma pergunta. Mas a tua, vai estar mais forte que nunca, depois da minha partida, pode deixá-lo de costas pra luz do seu espírito, e, te mergulhar em suas próprias sombras, arruinar sua vida. A razão quase sempre zomba da percepção da alma. Não aceite a hostilidade, segue em busca da verdade, confia nas divindades, que com o tempo, ela se acalma” (p. 32 e 33). Ainda em estado aflitivo, Ogundana prossegue a caminhada. Sonha com um rei altivo e carinhoso, senhor de belo reinado que lhe dá conselhos plenos de sabedoria: (...) “Todos nós estamos sujeitos a cair nas armadilhas da tristeza. Não percas a delicadeza, só ela traz a clareza quando a estrada é sombria, mantém-te em vigília. Às vezes parece que tarda a chegar o tempo das flores. Mas é que a natureza o guarda porque sabe que os pintores, os que fabricam as cores, moram em outras estações. E por isso ela espera até que outros artistas procurem-na e felizes lhe digam: 'Querida mãe natureza, já temos todos os matizes pra pintar sua primavera'” (p.37). Uma das mais belas partes do livro vem logo a seguir, um diálogo entre o rio Nilo e o deserto, feito por meio dos viajantes que trazem a um, notícias do outro. Há também reflexões profundas sobre a vida e a paixão, “uma nos joga na estrada e a outra em algum lugar nos espera”, e, finalmente, sobre a difícil decisão de persistir no caminho, de atender ao chamado da vida: “Hesitei, não por me faltar coragem, mas o ritual de passagem de um mundo conhecido pra outro tão longe de nossas raízes é um ato violento. Correu por dentro de mim como um raio, quase me levou ao desmaio, uma assustadora sensação de saudade (...) Chorei. Não como uma criança, mas como um homem que tem esperança, um homem que acredita que a estrada ama os caminheiros, que crê ser do mundo um passageiro e que não deve descansar enquanto o corpo a alma puder levar ao encontro de novos companheiros" (p.53). A partir daí, a poesia reinante se torna episódica. Há mudanças no tom do texto, adota-se um coloquialismo excessivo que destoa da elaborada linguagem anterior. O maior mérito dos restantes três quartos do livro, a meu ver, é destacar a simultaneidade da presença de Ogundana, um africano, ao período de vida de Jesus Cristo na Galiléia. Ou seja, o autor mostra o intercruzamento de mundos que não eram estanques, cujas fronteiras eram transpostas e ocorria o diálogo, mesmo que entre estrangeiros, entenda-se, pessoas e culturas em permanente estranhamento. Ao final, uma grande surpresa, Ogundana não seria uma personagem de ficção? Teria existido? Seria hoje uma entidade espiritual, o “Alabê de Jerusalém”, que se comunica com os humanos ancorado em uma plêiade de pretos velhos resplandescentes? Se assim for, pode ser “desculpada” uma ou outra incongruência temporal da obra, por exemplo, uma personagem que viveu há dois mil anos afirmar que não poderia deixar de adotar um determinado comportamento “por conta de ideologia”. A palavra ideologia sequer existia naquela época, é construção política do século XVIII. Mas é também um bom impasse literário, ou foi problema de revisão, de falta de leitura crítica, ou solução de espírito atemporal que vive em múltiplas eras e incorpora distintas linguagens.

3 de fev de 2008

Canal exclusivo de Gilberto Gil no YouTube

(Fonte: Google)"Parceria entre Gil e o Google cria canal exclusivo do artista no YouTube – com vídeos, histórico e até uma música inédita para os fãs do site. Até pouco tempo atrás, uma boa discografia era o suficiente para imortalizar os sucessos de um músico. Hoje, com a internet e a multimídia, as canções representam uma boa parte da obra dos grandes artistas, mas não é tudo. Gilberto Gil, um dos músicos mais aclamados do planeta, foi um dos primeiros a perceber isso. No dia 21 de janeiro, lançou um canal exclusivo no YouTube, o site de vídeos mais popular do mundo. O canal de Gil no YouTube terá asseguintes características: Videoteca completa de Gilberto Gil– O canal terá todos os videoclipes, vídeos oficiais e muitos feitos durante turnês e momentos pessoais do artista em diversos locais e situações; Interatividade em mão dupla – Ao mesmo tempo em que os usuários poderão ver todos os vídeos de Gil, haverá também um espaço para os fãs mandarem vídeos para o canal. Gil irá moderar esses vídeos, que só poderão se tornar públicos após a aprovação do artista; Músicas inéditas – O canal será usado pelo cantor para divulgar músicas inéditas. Já na estréia do canal será divulgada uma faixa do álbum "Banda Larga", ainda inédito. Essa canção será lançada exclusivamente no YouTube. Visite o canal do Gil no YouTube em: www.youtube.com.br/gilbertogil"

Um bilhete da cantora

Domingão nublado de carnaval e recebo e um bilhete da cantora. Juçara Marçal se deu ao trabalho de ler e comentar o que escrevi sobre seu Padê. Fiquei feliz da vida. Transcrevo abaixo uns trechinhos que explicam mais coisas sobre o CD. Acredito que quem já conhece o trabalho ou o está conhecendo gostará de saber. Obrigada, Juçara: "Quero acrescentar apenas que o cd, fiz pensando em simplicidade. Num primeiro momento até por questões financeiras. Mas à medida que ia tomando corpo, tinha certeza, e o Kiko foi concordando, que era pra ser assim mesmo, simples, direto, sem muito retoque, em favor do vivo, dos vivos! Houve vários momentos em que eu sabia que ia ter que conviver com uma notinha meio desafinada, mas o todo aparecia tão pulsante, que achei que valia a pena conviver com a imprecisão. Outra coisa que acho legal dizer é que o cd foi feito a partir do show que iniciamos em 2005, um trio: eu, Kiko e Douglas Alonso. Era um show de samba, com coisas do Paulinho da Viola, Ney Lopes, Geraldo Filme, Itamar etc. Fui me encantando com as músicas do Kiko e resolvi que valia a pena camelar pra registrar esse encontro. Na hora de gravar, pensamos que não poderia faltar um baixo. E eu chamei o Bola (...) E chamamos também Samba Sam, que no cd está como Samba Ossalê, seu nome de ogâ do terreiro Redandá, porque foi pela sua maestria no hum que o chamamos. E foi como ogã precioso que é que trouxe para o disco o axé que faltava pro cd. Ele chegou, tocou e no estúdio sentimos aquele clic que dá quando tudo se encaixa".