Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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30 de dez de 2012

Entrevista de Cidinha da Silva a Marcos Fabrício - Parte II


  • 8. Aponte um conjunto de artistas e obras com o qual você dialoga em seu processo de escrita. Exemplifique, a partir da sua obra, como se deu esse diálogo.
    É bem difícil, mas vou tentar. Nas crônicas de Paulo Mendes Campos, aquelas selecionadas para crianças e adolescentes, na antiga coleção Para Gostar de Ler, da Ática, me encantava  a poesia e isso sempre persegui nas minhas crônicas. Estou preparando um livro novo, cuja pegada é a prosa poética. Quero que o livro doa de tanta poesia. 
    De Drummond me fascinam a leveza e a liberdade temática (busco as duas coisas e deixo para você e para os demais leitores e críticos avaliarem se estou conseguindo ou não). Do poeta de Itabira gosto muitíssimo de Fala amendoeira e Cadeira de balanço! De Fernando Sabino gosto do fôlego para criar crônicas longas. O Encontro marcado foi um daqueles livros que tornam nossas experiências que não tivemos.
    Quando conheci Adélia Prado foi um alumbramento. Eu tinha uns 17 anos e ouvi aquela mulher declamando "quando nasci / um anjo anunciou / vai carregar bandeira... vai ser coxo na vida é maldição pra homem / mulher é desdobrável / eu sou." Eu me lembro que isso  aconteceu num domingo à noite e na segunda-feira seguinte juntei todas as minhas parcas economias e depois da aula do 3o ano do ensino médio, fui para o centro da cidade e peregrinei pelos sebos à procura do Bagagem, primeiro livro dela, que eu li no ônibus de volta para casa e permaneci lendo e relendo por vários anos. Até hoje é meu livro de Adélia mais querido. Gosto muito também de Solte os cachorros e Cacos para um vitral. Adélia foi a primeira voz de escritora que ouvi dizendo coisas que dialogavam com minhas inquietações sobre amor, sexualidade, feminismo (sem "acusá-la" de ser feminista, por favor, me entendam).
     Antes de Adélia, quando tinha uns 15, 16 anos, O romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles também me marcou. Eu sempre tive paixão pela História e aqueles poemas longos, rimados, contando a história da Inconfidência Mineira me encantavam. Antes disso, quando tinha 12, 13 anos tive contato com a poesia ( e a música) de Vinícius de Morais num trabalho de Feira de Ciências (que naquela época começava a englobar o Português e outras disciplinas diferentes das Ciências Naturais) que envolvia os melhores trabalhos das escolas da Rede Municipal de Contagem e lá tinha uns rapazes, estudantes do noturno de uma dada escola, portanto mais maduros que a minha turminha, que apresentaram a obra do Vinícius. Não me lembro se ganharam, mas foi o trabalho que mais gostei e me marcou. A partir dali fui buscar Vinícius na biblioteca. Meus mantras da época eram Soneto de fidelidade e Valsinha, a música. Depois passei boa parte da vida emburrada com Vinícius, julgando-o machista e também detestava aquele negócio dele se dizer "o branco mais preto do Brasil", direito dele, mas me irritava. Só voltei a lê-lo depois dos 40 e concordo com João Cabral, ninguém falou  de amor tão bem quanto Vinícius. Como isso dialoga com minha produção? Meu texto é um texto amoroso, eu sei, mas, falar de amor sexualizado é algo que venho conquistando devagarzinho e, ler Vinícius me liberta. É um amor tão rasgado, descarado e belo, em que pese, realmente ser machista, muitas vezes. 
    Com 12, 13 anos também, conheci Machado de Assis e Lima Barreto e me interessei muito pelos dois, interesse que permanece. Do Machado à essa época, li Dom Casmurro e depois outros romances. Poesias e contos dele, só li bem mais velha. A linguagem rebuscada do Machado sempre enriqueceu meu vocabulário. Eu via as palavras que ele usava, entendia direitinho o sentido, robustecia-o com consultas ao dicionário e depois saía usando nas minhas redações, que eram rebuscadíssimas.  Do Lima li Os Bruzundangas, que escolhi na biblioteca pela sonoridade do título. Décadas mais tarde li toda a crônica do Lima. Como autor, ele sempre me intrigou. Eu queria conhecer a personalidade por trás da escrita. E quanto mais conheço o Lima, mais ele me dói. Acho que, no mundo, a gente se organiza em confrarias e eu sou taurina, como ele era. 
    Aos 14, 15, conheci Mário Quintana e adorei aquela poesia simples, tão acessível, sem ser simplista. São dessa época os versos: "todos esses que passam / e atravancam meu caminho / eles passarão / eu passarinho". 
    Edimilson de Almeida Pereira eu encontrei quando tinha exatos 20 anos. Foi um divisor de águas. Aquele menino, pouco menos menino do que eu, mas aquele espírito velho, tão maduro, tão íntegro, tão determinado. Aos 17, 18 anos, eu havia lido um livro chamado "Raça e cor na literatura brasileira" que me situou em relação á produção de autores negros no Brasil. Entretanto, Edimilson foi o primeiro poeta negro que me balançou. Eu conhecia Adão Ventura, conhecia os Cadernos Negros (não distinguia autores, só Mirian Alves, porque nos cruzávamos em umas baladas paulistanas), mas, se você me perguntar qual foi o primeiro poeta negro que me atordoou, que li a obra e me enterneci, descobri alguma coisa fundamental para minha vida, foi o Edimilson. Aquele cara tímido quando lia os próprios poemas tornava-se um gigante. Confesso que sempre persegui a segurança e a expressividade do Edimilson para ler. Era o modelo que me servia, porque performadora, desde sempre, sei que nunca seria, mas eu poderia ser uma boa leitora. E pelo que dizem por aí, sou, e eu também acho. Edimilson foi minha inspiração primeira, embora ele seja verdadeiramente  modesto. 
    Ô Lapassi & Outros Ritmos de Ouvido é um livro que se tornou mantra só pela sonoridade do título. O livro de falas também era (é) um trem bonito demais, daqueles títulos muito felizes. Eu me lembro que passei muitos anos sem ver e sem falar com Edimilson, mas acompanhando os livros dele. Então, Em 2003, quando lancei meu primeiro livro, um livro de ensaios sobre ações afirmativas para estudantes negros no Brasil (Ações afirmativas em educação; experiências brasileiras) nós nos vimos no FAN - Festival de Arte Negra, em BH. E fui apresentar meu livro para o Edimilson. Ele olhava para o volume com tanta alegria que me surpreendeu. E me felicitou muito, desejou que eu continuasse sempre a escrever. Ganhei aquele dia. 
    Da obra antropológica do Edimilson eu gosto demais de "Assim se benze em Minas Gerais", "Mundo encaixado" e "Os tambores estão frios." Ah... "Ouro Preto da palavra" também é uma coisa do outro mundo, já li umas 5 vezes. Sobre o "Malungos na escola" tenho anotações para uma resenha que ainda não encontrei tempo para escrever, Ali, gosto especialmente do item "A senzala, o quilombo e a casa". O Edimilson é genial para fazer ligações entre as coisas, entre mundos, se não é um homem de Exu, é afilhado dele. O conceito de cantopoemas e cantopoetas me fascina também. Logo, logo, quero ler "Ranhuras no objeto: ou hipótese para um diálogo entre Arthur Bispo do Rosário e Jean-Michel Basquiat", ensaio recente do Edimilson. Dos infantis eu amo "Rua Luanda", "Os reizinhos do Congo" e o belíssimo "Histórias trazidas por um cavalo marinho". Edimilson para mim é mestre, espelho, embora, obviamente, minha produção esteja muito aquém da qualidade dele. O Edimilson é prolífico e profícuo, é fértil, semeador. É o meu cantopoeta!
    Um fato curioso é que eu e Edimilson divergimos certa feita. Numa dada situação, que não me lembro exatamente qual foi, creio que em alguma discussão decorrente do meu primeiro livro, eu afirmava que algumas coisas, só aos iniciados era dado saber e só eles poderiam falar sobre elas, saberiam como falar sobre elas. Edimilson discordou e discorreu bastante sobre a natureza da pesquisa antropológica e sobre o papel da criação na literatura e tal. Eu ouvi, mas firmei meu ponto, se é que vocês me entendem. Eu disse ao Edimilson que ele não era iniciado, mas o pessoal da Congada o tratava como se fosse e os mais-velhos só lhe franqueavam acesso a certos segredos porque tinham certeza de que ele não iria revelá-los. Que eu me lembre, o assunto morreu ali. 
    Não posso também me furtar de mencionar a generosidade do Edimilson. Para um escritor consagrado como ele, às vezes, apresentar uma autora nova, que não nasce pronta, como foi o meu caso, com um texto errático, promissor, mas com muitos problemas e desníveis, pode causar ranhuras na imagem (penso eu). Tem muita gente que só aceita convites de amigos do clã, aos quais louva, a despeito de terem ou não qualidade literária (é um direito deles, lógico, não questiono, mas lamento, principalmente quando a solidariedade racial não tem peso). Edimilson aceitou escrever o prefácio da segunda edição do Tridente e fez um texto duro, teve até uma parte que me levou a reclamar, "poxa, isso aqui você deveria ter me dito antes, para me ajudar a escrever melhor, não agora, na apresentação do livro". À época, o texto não me felicitou tanto, porque o Edimilson apontava meus defeitos, vícios, fragilidades, não fazia a tal louvação do clã, que talvez eu esperasse. Mas ele me ajudou demais e sou muito grata por sua honestidade intelectual e respeito para comigo, bem como por sua coragem, compromisso e generosidade, em emprestar o próprio nome para abrir meus caminhos. Obrigada, mano velho, afilhado de Exu!
    No período em que conheci Edimilson também conheci Leda Martins e Nazareth Fonseca, esta última, importantíssima na minha vida e de toda uma geração de mulheres negras que estudava na UFMG e/ou gravitava por lá, naquele período. Por sua generosidade, carinho, disponibilidade para nos orientar, nos aconselhar e nos proteger, porque não. Leda me assombrou pela densidade intelectual. Depois de Sueli Carneiro, ela era a mulher que mais havia me impressionado até aquele momento. A terceira, por ordem de entrada na minha vida foi Luiza Bairros. Eu li alguns textos da Leda, mas apanhava muito, era complexidade demais para minha compreensão. Também, eu era metida e pegava textos da pós-graduação, não era para entender mesmo. Anos mais tarde li "Afro-grafias da memória" e o esmero de Leda com a construção de cada frase foi uma das descobertas mais marcantes da minha vida. Eu dizia a mim mesma: quando crescer quero escrever como ela. Não consegui, lógico, somos pessoas diferentes, com histórias diferentes, formação, talento, capacidade de escrita, etc, mas Leda Martins é também modelo para mim. Um dos maiores orgulhos que tenho é de ter sido a primeira pessoa a falar dela para Sueli Carneiro. Dela e de Edimilson, joias da coroa banto mineira que a rainha da coroa banto paulista ainda não conhecia. 
    Elisa Lucinda foi uma descoberta paulistana, eu devia ter entre 25 e 27 anos. Acho que ela ainda não tinha livro publicado, mas fazia performances com aqueles poemas arrebatadores, lembro-me de "Aviso da lua que menstrua", cito de memória e não sei se o título é exatamente este. Ao longo dos anos li vários livros dela e vi alguns espetáculos. Gosto muito de "O semelhante" e "Contos de vista." Elisa também me liberta para falar de amor e sexualidade, com dengo, que é a especialidade dela. 
    Por essa época também descobri Toni Morrison  e até hoje leio mais suas entrevistas do que sua obra. O olho mais azul foi de difícil leitura e Amada foi impossível de ler, tentei por 4 vezes e não consegui. Um amigo me aconselhou que visse o filme, tentei, mas quando os fantasmas do infanticídio começaram a assombrar a casa de Celi (é Celli o nome dela, não é?) desisti. Assim, não li o livro, nem vi o filme. O levantado do chão, de Saramago, é outro livro que doeu demais e não consegui terminar de ler.  De Alice Walker li A cor púrpura e Vivendo pela palavra, alguns artigos e muitas entrevistas. Das duas autoras admiro a força, a firmeza de propósitos intelectuais, criadores e políticos. Chego a achar engraçado quando vejo uma autora brasileira ter a obra comparada com a dicção de Alice e ela, presunçosa, diz que também a comparam com Toni. Acho que é uma diminuição burra de Alice e pretensão inominável aproximar-se da densidade intelectual de Toni. Esta, como Paulina Chiziane é uma força da natureza e como tal, inigualável.
    Paulina foi um grande e feliz encontro. É minha escritora predileta. É um modelo que estudo, uma fruição que aspiro. A ambiência do Pentes tem muito a ver com um desejo de me aproximar da fruição de Paulina, em que pese todos os meus limites.
    Dentre os autores chamados de contemporâneos no Brasil gosto muito de Milton Hatoum,Marcelino Freire, Paulo Lins e Ana Maria Gonçalves. Minha aproximação geográfica com a obra de Hatoum, ambientada no Amazonas, vem de Belém. Depois que li Dois irmãos pela primeira vez, tive necessidade de lê-lo pela segunda em Belém, descobrindo a cara do tajá e do tajá branco, sentindo o pitiú de cobra e correndo de medo, além daquela vegetação amazônica toda, aquelas árvores frutíferas que a gente encontra nos bairros arborizados de Belém. Foi a leitura de Hatoum que me deu coragem para passar horas sozinha em um barco, de Belém à Ilha de Marajó. 
    O Edimilson é um cara generoso, como disse, o Marcelino é generosíssimo, mal me conhecia e aceitou ler meus textos, comentá-los comigo e depois que disse ter gostado, convidei-o para apresentar o livro e ele aceitou. Eu só me senti segura para publicar o Tridente depois da leitura do Marcelino que me disse "você tem um livro aqui!" Li todos os livros dele, exceto o Rasif (li de maneira esparsa, não sistemática) e o mais recente, Amar é crime. Meu livro predileto  é Angu de sangue. Outro dia escrevi um texto, Quilombolas for ever! que tem uma pegada do Marcelino, parece até cópia, mas não foi, juro! É que muito da originalidade dele impregnou meu imaginário e é inevitável que uma coisa outra saia parecida e até pareça imitação, mas não é. Cidade de Deus, do Paulo Lins e Um defeito de cor, da Ana Maria Gonçalves, são dois dos melhores livros que li na vida. Ambos os autores estão no meu panteão dos maiores e eles são modelos para os romances que quero escrever no médio prazo. São textos de fôlego que não têm altos e baixos, isso me encanta. Me cansam os textos que vão aos píncaros e depois esborracham no chão porque falta fôlego a quem escreve. 
    Gosto também de  Pedro Juan Gutiérrez, autor cubano. Deste, minha obra favorita é Trilogia suja de Havana. Escrevi uma crônica que se passa em Havana e um amigo cubano, Julio Morasen, não acredita que eu nunca tenha ido a Cuba. É que li quase toda a obra de Pedro Juan, publicada por aqui, explico a ele. 
    A música é algo que dialoga muito com a minha obra, especialmente a música brasileira. Persigo cantoras de obra autoral na composição, tais como Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran, dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Fátima Guedes, Joyce, Sueli Costa, Adriana Calcanhoto e a novíssima Ellen Oléria. Me interessa o trabalho autoral, a marca da compositora sendo impressa ao longo da obra. Composições para inflamar a massa não me tocam, no estilo "simbora gente", me servem para a diversão, mas não despertam meu interesse de análise. 
    Meus musos maiores, como já declarei reiteradas vezes, são Gilberto Gil e Paulinho da Viola e me interessa muito a relação de ambos com o tempo. O tempo na obra deles e também na minha obra, bem como a reflexão que fazem sobre o trabalho autoral.  Djavan também é um compositor interessantíssimo, mas é uma obra que estou por descobrir.

    9. Qual é o papel da crítica no seu fazer literário? Comente mais sobre como deve ser a relação entre o escritor e a crítica.
    André Carneiro,escritor nonagenário, um dos precursores da literatura de ficção científica no Brasil, afirma que "um bom crítico ajuda o autor a desvendar seus processos de criação", acredito nisso e anseio muito por esse tipo de crítica. Eu a encontro, em alguma medida, no olhar dos meus leitores e leitoras críticos, aqueles aos quais submeto meus textos antes da última leitura minha, que precede a entrega à editora. Esse diálogo é fundamental. 
    No que concerne à relação ente escritor e crítica, penso que deva ser uma relação de independência e autonomia em todos os sentidos. Será salutar se houver fundamentação ética e estética na crítica, para além do opinativo "gosto ou não gosto e por isso é bom ou ruim", e o autor ou autora, por sua vez, não deve escrever pensando em agradar a crítica. 
    Gostaria de acrescentar um terceiro aspecto que é a relação da crítica com os autores e autoras da literatura negra. Por um lado há a crítica canônica que despreza este fazer como genuinamente literário, são escritos enquadrados na categoria de relato de vida, depoimento pessoal, auto-biografia lacrimosa, textos menores. Certa feita, em 2010, salvo engano, saiu uma matéria sobre Conceição Evaristo na Folha de São Paulo e a maioria dos críticos convidados conseguiu não falar sobre a obra dela e um ou outro falou de maneira muito superficial. De um modo geral, concentraram-se mais na sua biografia e na legitimidade que pessoas com o perfil social de Conceição também tinham para escrever. Por outro lado, desenvolveram-se alguns cacoetes entre os críticos negros e outros orientados por uma visão crítica à crítica canônica, a saber: uma ênfase (positiva) à biografia do autor ou autora negro, principalmente daqueles aspectos que o/a vinculam ao ativismo político de combate ao racismo; uma postura condescendente em relação aos problemas de descontinuidade de texto, inconsistência literária e personagens frouxos que muitas de nossas obras apresentam; uma preocupação mais detida com a temática que, preferencialmente, deve circunscrever-se ao combate ao racismo e a uma afirmação de africanidade muito vinculada à compreensão do Movimento Negro, mais do que uma atenção à ética/estética do texto, dentre outras questões. Ou seja, tem sido uma crítica que confunde o apoio e respeito ao autor e autora negros e o enfrentamento dos preconceitos canônicos com a condescendência em relação à obra. A mim, em particular, esse tipo de crítica não "ajuda a desvendar meus processos de criação."

    10. Quais são as virtudes e as limitações da mídia virtual para a promoção da (sua) literatura?
    Eu sou da segunda ou terceira geração de blogueiros/as. Quando comecei pensava apenas em ocupar um pedaço do espaço virtual com discussões raciais e de gênero. Tinha resistência em publicar literatura, era (e sou) amante do papel. Queria um canal ágil de comunicação com meu público e de divulgação de eventos literários nos quais eu estivesse, só isso. A instalação de um contador de visitas no blogue, entretanto,  mudou minha visão sobre ele. Eu não tinha dimensão de quantas pessoas me liam por dia. Àquela época, 2008, eram cerca de 100 visitas diárias. Essa constatação me fez redimensionar a importância do blogue e fiquei mais seletiva, revisei a estratégia de publicação. Meu blogue recebeu elogios como uma revista cultural diariamente atualizada (inclusive do Edimilson) e fiquei muito animada por isso. Passei de 100 para 250 visitas diárias e hoje oscilo entre 300 e 330. 
    Era um desejo antigo publicar crônicas. Ensaiei fazê-lo semanalmente em 2011, mas não consegui. Só em setembro de 2012 alcancei esse intento, com crônicas diárias, o que é melhor. À essa altura já experimentava também o Facebook que foi outro divisor de águas. É impressionante a reverberação proporcionada por esse veículo. Passei a ter seguidores, fãs, se posso chamá-los assim e, vez ou outra, quando me encontro com eles/as em eventos literários disfarço o susto, porque as pessoas leem de verdade, acompanham a mudança temática, fazem perguntas consistentes e, principalmente, expressam uma admiração que me encabula. Não sou uma pessoa tímida na acepção convencional da palavra, mas estranho o "assédio" e ainda estou assimilando a novidade. Tive duas experiências em 2012 que me marcaram nesse sentido, a primeira na UNICAMP, dentro da programação do "Quem tem cor, age" e recentemente em BH, com o grupo Negras Ativas. É gratificante, mas meio assustador, ainda.  
    Minhas crônicas são republicadas em vários blogues e portais e a recepção a eles é diferente em cada um. Às vezes um texto muito lido ou debatido em determinado veículo passa completamente despercebido em outro. O grande desafio é que esses leitores e leitoras dos meios eletrônicos também devorem meus livros. Esse é um caminho de pavimentação lenta. Existem textos com os quais tenho muito carinho e guardo-os para a publicação em livro, para que mereçam um olhar mais detido de quem lê.
    11. Quais conselhos você daria para quem está buscando publicar uma obra literária?
    Bem, sou de uma cultura que valoriza o conselho, justamente porque é dado, não é vendido. Sendo assim, aconselho primeiro que se as pessoas julgarem que é o momento de publicar, que selecionem o que publicarão e depois de selecionado o material, leiam, releiam, reescrevam, submetam a leituras críticas, escrevam novamente, releiam e só então publiquem. A coisa mais temerária para autores/as novos/as em minha opinião, é ficar juntando, catando material para publicar. É preciso selecionar. 
    12. Tem algum texto que você escreveu e publicou e gostaria de reescrever, se tivesse a oportunidade? Em caso afirmativo, do que se trata?
    Não, de reescrever, não. Mas há muita coisa no Tridente que eu não escreveria mais e se tivesse escrito, não publicaria. Não chegam a ser textos ruins, mas são muito militantes, me constrangem. Mas, o livro está na terceira edição, é meu livro mais vendido, muita gente gosta e concordo com Ariano Suassuna, a gente deve preservar o que escreveu, até para que as pessoas vejam que a gente melhorou, que cresceu. E tem gente que continua gostando daquilo que a gente escreveu. Eu adoro o Angu de sangue do Marcelino. Ele, como autor, deve achar que seus livros mais recentes são mais maduros e melhores e devem sê-lo. Entretanto, eu insisto no Angu, como muita gente insiste no Tridente, embora o Marcelino não tenha sido militante de nada no Angu, não é esta a aproximação. 
    Obrigada Fabrício! 12 foi um bom número, imagino que não saibas disso, mas é número do Xangô que te guia.
    * Marcos Fabrício Lopes da Silva. Jornalista, poeta e doutorando em Estudos Literários/Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG. 
    -- 

    27 de dez de 2012

    Entrevista de Cidinha da Silva a *Marcos Fabrício - Parte I



    1. Em que sentido a literatura pode contribuir para uma expressão mais plena da alteridade?
    Creio que no sentido da representação  profunda de quem compreende a si mesmo como indivíduo livre. No meu caso, em especial, a literatura é deveras libertadora e vou sentindo isso a cada livro, a cada crônica diária. Meu primeiro livro, o Tridente, ainda é de um tempo em que eu me considerava artivista. O Tambor também tem resquícios, mas melhorei bastante em relação ao primeiro livro. Hoje me sinto cada dia mais livre dos tons militantes e quando os adoto é de maneira muito consciente. Entretanto, não é uma batalha fácil, preciso estar atenta todo o tempo. Bom será o tempo em que as coisas apenas fluírem, em que eu não precise prestar atenção às armadilhas de uma manifestação identitária que aprisione. 
    2. Quais são os principais vetores de criação que estimulam o seu fazer literário?
    A observação é o principal deles e a partir dela eu crio. A espiritualidade e a memória são também vetores importantes. Mais recentemente, o sentimento amoroso para a construção de poemas bissextos, alguns bobos, um tanto ingênuos, outros levemente eróticos e um ou outro, um bom poema. 
    3. Como se desdobram os seus ritos de escrita?
    Sou uma pessoa solar, gosto do dia, então, meu melhor horário para criar é pela manhã. São minhas melhores horas do dia que procuro aproveitar para escrever. 
    Não uso drogas ou qualquer outro tipo de estimulante/relaxante como o objetivo de potencializar a escrita, a criação produz endorfinas suficientes. Desculpem se parece uma afirmação desnecessária, mas outro dia me perguntaram, de maneira muito incisiva, que droga eu havia usado para escrever o Kuami. Fiquei muito surpresa porque a pergunta partiu de um escritor. 
    O silêncio é algo essencial, mas às vezes ouço música, seja por ter vontade de ouvi-la, seja para anular barulhos externos. Quando estou escrevendo uma história longa, defino horários e/ou número de páginas para escrever por dia. A primeira coisa funciona melhor do que a segunda. Quando organizo um livro de crônicas, também defino horários e nestes escrevo pelo menos um texto por dia e reviso os que foram escritos nos dias anteriores, até que ache que é tempo de descansarem, até enviá-los a meus leitores e leitoras críticos. 
    Não costumo escrever a esmo, de um modo geral estou sempre pensando em algum projeto de escrita, em uma coleção de textos orientada por um determinado mote.  Por exemplo, trabalho agora, simultaneamente, em dois livros de crônicas, o que ficará pronto primeiro é de trivialidades, aquilo que tenho vontade de abordar/criticar/problematizar/esmiuçar/re-significar e o segundo é um livro mais amoroso, com uma pegada  intimista e poética. Para cada um desses livros tenho uma lista de motes de criação dividida em 3 estágios: 1 - ideias, propriamente, temas pouco desenvolvidos; 2 - desenvolvimento da ideia / primeiras versões do texto; 3- ourivesaria que é quando texto vai sendo burilado, quando o grosso está pronto, é a fase de refinar, encontrar as palavras e verbos adequados, aparar arestas e cortar gorduras que ainda subsistem, de transformar expressões previsíveis e corriqueiras em expressões poéticas. 
    4. Considerando a complexidade de construção literária, você destacaria quais personagens em sua obra? Por quê?
    Os homens do Pentes, todos, João Cândido, de modo especial, menino de 12, 13 anos, cuja masculinidade vai sendo construída no espelho dos outros homens da família. Onirê também é um personagem forte e bem acabado. Ele é cheio de contradições humanas, espelho de seu pai, Ogum, que talvez seja o mais humano dos deuses iorubá. 
    Kuami é um carinha amoroso que subverteu a história da sereia Janaína, que era o que eu pretendia contar, a princípio. Cassiano, em O super e Máximo, em O prisioneiro, crônicas do Margem, também são complexos e bem construídos. Há diversas personagens femininas também, mas, sobre elas já discorri detidamente em outra entrevista também postada por aqui. Acho que os personagens são mais densos, quanto mais arquetípicos consigo torná-los. Os que mencionei acima são arquétipos, mais do que indivídualidades. 

    5. Comente o processo de transposição literária das culturas brasileiras e africanas como referenciais tão caros à constituição de sua literatura.
    6. Quais são os procedimentos estéticos adotados por você na composição de seus textos?
    Responderei as questões 5 e 6 juntas. É um processo que tem dimensões intuitivas, espirituais e vivenciais e outras tantas do campo da racionalidade também, quando existe da minha parte, intenção de trazer determinados temas ou criar certos personagens. As africanidades, a África reinventada na Diáspora e a África mítica são mananciais inesgotáveis, nos quais me alimento diuturnamente e os processo em minha vida, numa proporção ainda maior do que em minha literatura. Outro dia conversava com um grande poeta que se define como poeta... e negro. Eu dizia a ele que sou negra... e escritora. Esse é meu lugar de emissão de voz. Minha subjetividade é negra, minha humanidade é negra e minha alma não pode ser outra coisa que não seja negra. E isso é o que tenho de melhor e de mais universal para oferecer às pessoas que me leem. É importante dizer que minha literatura NÃO É DE COMBATE AO RACISMO! É uma literatura de promoção do humano do ponto de vista afro-centrado da mulher negra que sou.
    7. Destaque e comente um momento da sua produção literária que tenha emocionado você especialmente.
    A criação de Os nove pentes d'África foi especialíssima. Como tenho dito, dentre os meus livros, foi aquele que me deu a certeza de ser escritora, de verdade. Ele é especial também pela temática, a família de Francisco Ayrá e Bernardina. As famílias negras e suas dinâmicas, múltiplas, pois não existe um modelo monolítico de família negra, precisam ganhar a cena. Há muito a ser contado, desvendado, apreciado. Eu contei uma história, uma entre tantas. Lembro-me que ouvi muito o CD Tecnomacumba da Rita Benneditto enquanto escrevia. E no último dos 5 dias corridos em que escrevi o livro, não foi diferente. No parágrafo final do texto, enquanto as cinzas de Francisco eram depositadas na pedra mais alta da cachoeira das andorinhas e João Cândido gritava ao vento e às águas o nome de Kitembo, mais novo membro da família, nascido da prima Luciana, Rita cantava para Oxalá. Isso me emocionou muito. 
    * Marcos Fabrício Lopes da Silva. Jornalista, poeta e doutorando em Estudos Literários/Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG. 

    25 de dez de 2012

    Eva Oléria e Poli Preta, sogra e nora do ano!


    Por Cidinha da Silva

    Fizesse caso de listas dos grandes feitos do ano, incluiria dona Eva Oléria e Poli Preta, respectivas mãe e namorada da Ellen, na cabeceira de uma delas.

    Dona Eva ganhou milhares de filhas e fãs ao chamar de nora, com microfone aberto, a companheira da filha amada. Era como se limpasse com amor os corações turvos que nos apedrejam e apertam gatilhos, nos impedem de viver, nos matam. Dona Eva Oléria em sua expressão quilombola de temperança e generosidade nos fez (faz) renascer e seguir. Firmes, destemidas!

    Poli Preta tornou-se a namoradinha do Brasil lésbico. Perdoa o signo careta, Poli, mas é re-significação para desencaretar, para brindar à diversidade que buscamos, não a da superfície empresarial, mas aquela de dentro, profunda, que garanta o exercício pleno de nossa humana subjetividade negra e homoafetiva.

    A mais budista dentre os Orixás, transpõe a morte e nos devolve a alegria. Ao sacudir as saias nos lembra da transitoriedade do corpo, da impermanência as coisas.

    E Pedro, tu que és pedra e sono, contempla o bambuzal em lúdica esgrima com a Senhora dos ventos.

    23 de dez de 2012

    Minha Senhora das Águas


    “Escutaram? É o som do mundo de vocês desmoronando. E do nosso ressurgindo”.





    Por Antonio Lisboa





    "No dia 21/12/2012, enquanto o mundo brincava de apocalipse, os verdadeiros descendentes dos maias, vivos e reais, nos mandaram das montanhas de Chiapas uma importante mensagem, que surpreendeu o México hoje de manhã. Em diferentes municípios da região Sudeste, milhares de indígenas integrantes do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) iniciaram o dia em grandes marchas por diferentesestradas e cidades. A manifestação, organizada até a véspera em sigilo, foi pacífica e surpreendentemente silenciosa. Em todas as marchas, o silêncio foi absoluto. Nenhuma palavra de ordem, nenhum cântico, nenhum grito de protesto. Ao final do dia finalmente foi divulgado um comunicado oficial do líder máximo do EZLN, Subcomandante Marcus, dizendo apenas: “Escutaram? É o som do mundo de vocês desmoronando. E do nosso ressurgindo”. Como sabemos, os maias nunca falaram em “fim do mundo” (tampouco jamais conceberam essa ideia). Ao contrário, em um gigantesco silêncio, nos disseram hoje que um mundo novo, uma nova era, está começando. E que os ideais zapatistas estão de volta." (Antonio Lisboa, in: http://www.facebook.com/ocupa.a.rede.globo)

    LINK p/ o álbum completo: http://www.facebook.com/media/set/?set=a.425999010799688.95820.272904466109144&type=1
     — com Leandro Nascimento.

    19 de dez de 2012

    Entrevista de Cidinha da Silva ao Correio Braziliense


    Gabi Almeida - Quando começou a escrever?

    Cidinha da Silva - Escrevo desde a adolescência, mas comecei a publicar literatura aos 39 anos, em 2006. Antes disso publiquei muitos ensaios sobre relações raciais, gênero, ações afirmativas, dentre outros temas.


    Gabi - Seus textos chamam a atenção por diversos fatores, mas um deles é a profunda análise que você faz de questões negras inseridas no universo do entretenimento. A figura do negro na tevê e nas artes é algo que sempre te chamou a atenção?

    Cidinha - Sim, embora eu não seja rato de TV como pareço ser. Na verdade, assisto aos programas que me interessam e comento-os porque são matéria para minhas crônicas diárias no blogue. Não consigo assistir, por exemplo, o programa de sábado à noite que tem uma personagem que avilta 
    a dignidade das mulheres negras. Assistiria só se tivesse encomenda de um texto a produzir sobre isso, mas por interesse, não vejo não. Eu olho a TV e o mundo com olhar de cronista, olhar perscrutador. Quanto à nossa presença nas artes é o meu campo de trabalho, não é? Preciso participar dele de maneira crítica.

    Gabi - Quando foi seu primeiro contato com a música de Ellen Oléria?

    Cidinha - Eu ouvia falar da Ellen desde 2007/2008. Temos amigas comuns no DF, mas nunca rolou de nos encontrarmos.  Em 2009, uma amiga foi a um show dela, comprou o CD e me apresentou. Ouvi só uma vez e fiquei tomada pela doçura da voz, essa foi minha primeira sensação. Depois passei a vê-la na Web e fui selecionando o que mais gostava no repertório. Minhas canções prediletas são Haiti e Janaína. Esta última é uma epifania iorubá. Havia uma sensação que só Concha Buika me provocava e Ellen também me traz ao interpretar Janaína, a de que ela abriga a dor do mundo febril e tragicamente apegado a seu canto como sopro derradeiro de vida.

    Gabi - O que nela te chamou mais a atenção? Você sempre acompanha realities shows?

    Cidinha - A primeira coisa que me chamou a atenção em Ellen é sua presença oceânica. A existência de Ellen Oléria inunda os ambientes. A segunda é a ancestralidade de seu canto. A ancestralidade é aquilo que nos precede e também o que nos apresenta ao mundo. O canto de Ellen é ancestral, ele existe antes de nós e nos abre as portas do mundo com a candura dos pássaros e das flores. A terceira coisa é como ela é capaz de espalhar amor ao cantar. É uma energia de bem-querer, de beleza, de fartura. A força do canto de Ellen, a meu sentir, é comparável à força da prosa de Paulina Chiziane e da poesia de Elisa Lucinda. Quanto a realities shows, não assisto. O último que me lembro foi um Big Brother, logo nos primórdios, numa fase depressiva em que eu era umvegetal murchando em frente a TV. Esse agora, assisto porque a Ellen está lá. A coisa boa é que, além de vê-la ao vivo, semanalmente, descobri outros cantores e cantoras interessantes. Acho que está sendo um bom programa. 

    Gabi - Como é a sua torcida? Você sempre vota muito?

    Cidinha - Voto, voto muitíssimo e faço campanha para expandir a base aliada durante a semana. 

    Gabi -  Você pretende torcer para ela neste domingo em algum lugar especial? Está se preparando para isso?

    Cidinha - Vou assistir em casa, como sempre faço. Nessa final, com amigas, como em jogo de Copa de Mundo. A preparação é me certificar de que cada convidada trará uma ferramenta habilitada para votar no mínimo 21 vezes, esse é o valor do ingresso. 

    Gabi - Qual é o papel de Ellen como mulher, negra e lésbica na final de um programa dominical de uma emissora como a TV Globo? Você acha que a grandeza de Ellen vai além disso?

    Cidinha - Ellen é atlântica, é desmedida. O papel dela é auto-determinado. Só a ela cabe dizer a que veio, a mais ninguém. Quem sou eu, quem somos nós para dizer onde deve ir um oceano?! Entretanto, é patente o fato de vivermos em um país racista, sexista, lesbofóbico, do qual a Globo é um dos principais tentáculos. A História faz alguns desafios a Ellen, que parece encará-los tranquilamente. Faz muito bem à alma d@os inconformad@os com esse estado de coisas, a existência artística e política de Ellen Oléria. No programa, especificamente, Ellen abriu um leque de amor e arte ao apresentar a namorada ao público, junto com a mãe, que já conhecíamos, enquanto cantava: "deixa... que falem, que digam! Deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem?" Ellen faz arte e política pelo direito humano de expressar seu amor pleno. Ellen é também magma e na leitura poética que faço da palavra, invento que ela compõe o radical da expressão magnânima. Ellen chega aos nossos corações assim, como magma incandescente que dissolve tudo o que deve ser dissolvido: dor, mágoa, tristeza, desamor e quando passa, deixa a terra fertilizada para florescer e frutificar. Enquanto isso, na Câmara dos Deputados, o ogúnico (porque se veste de Ogum e é único, singular) Jean Willys luta também pelo direito à expressão da plenitude amorosa, no campo da política, estrito senso. Seja ao enfrentar os profetas que pregam a extinção da diversidade humana, ou ao formular e aprovar leis que protejam o amor entre iguais. Afora isso, Ellen é compositora, herdeira de gente como Dolores Duran, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Joyce, Fátima Guedes e repaginada pelo vento da juventude. Do lado de cá, já ratificamos Ellen Oléria como primeira ministra da CPP - Confraria das Pretas Poderosas. 

    Gabi - Fique à vontade para mais considerações 

    Cidinha - Eu gostaria de registrar que Brasília, além de gerar artistas divinos como Ellen Oléria, Hamilton de Holanda, Cris Pereira e Dhi Ribeiro, tem o melhor pão de queijo que a gente encontra fora de Minas Gerais.

    17 de dez de 2012

    Uma bisnaga de lança-perfume por uma britadeira? Vai aê?



    Por Cidinha da Silva

    Acocorada entre três pedreiras estava a moça. Entra no ônibus um vendedor de doces que faz ruir todas as certezas dela sobre a leveza soteropolitana dos ambulantes em coletivos, e certa dureza dos paulistanos.

    Senhoras e senhores, ele dizia, não estou aqui para vender nada. Papai do céu me enviou do fundão da zona leste para adoçar a vida de vocês. Eu vou dar uma balinha para cada um (começa a distribuir os presentes), podem pegar sem medo, não é de Cosme e Damião, não. A moça das pedreiras o olha com olhar repreensivo, qual é o problema com Cosme e Damião? Ele parece compreender e conserta: também não é de Jesus, porque eu não sou religioso. Minha clientela é vip, como a do Complexo do Alemão, todo mundo leva bala, de graça. Lá, de calibre 12, na minha mão, de calibre doce. O senhor ali da esquerda, pode pegar a bala sem medo, não dói, nem tá envenenada. Você aí, senhora, pode me olhar com essa cara de vaso, não faz mal. Meu pai é jardineiro, adoro flores.

    Assim que termina a distribuição gratuita, o vendedor de balas desenvolve a segunda parte da cena. Agora pessoal, eu vou colocar na mão de vocês, sem nenhum compromisso, um chocolate delicioso. Para as mulheres na TPM é um bálsamo, para a criançada, lambuzação garantida, para os homens uma compensação para o futebol que não vai bem das pernas, mas também uma comemoração para quem, como eu, é do Bando de Loucos. Pode pegar, sem compromisso. A data de validade está na frente, do lado esquerdo. Tudo isso, senhoras e senhores, por apenas um real. Quem comprar um chocolate desses me ajudará muito com as minhas coisas. Que lindo! A moça pensa. Ele deve juntar esse dinheiro para pagar a faculdade. Mas ele completa: vocês me ajudarão a pagar a prestação do meu Escort, escort de água, escort de luz, também do meu Astra, que miséria pouca é bobagem. O Astra das minhas contas astrasadas.

    Todo mundo compra, sorrindo. Alguém comenta de lado que no trem é dois por um, o baleiro ta tirando dinheiro dos tontos. Ele finaliza: vamos, vamos pessoal, só um real! No outro ônibus a galera gostou tanto que comprou de quilo e comeu chocolate até com papel. Vocês não vão querer ficar para trás, não é?

    16 de dez de 2012

    Salve a Soberana da Angola Janga das Águas!



    Por Cidinha da Silva

    Eu me lembro com saudade o tempo que passou. O tempo passa tão depressa, mas, em mim deixou jovens tardes de domingo, tantas alegrias. Velhos tempos! Belos dias! Eu que era toda Paulinho, que julgava não sentir saudade do passado, porque o vivido sou eu, está em mim, pedi à Thalita que me acalentasse com Roberto, depois que Ellen abandonou meus domingos.

    Quando ela aparecia na TV e em meio às canções desferia aquele sorriso largo, eu perguntava a Pessoa: ó mar salgado, quanto de teu sal são lágrimas de africanos? Ellen se adiantava e me respondia: todo o sal sangrado na kalunga grande, mas não se esqueça, Clementina cantou tão bonito as desventuras de nosso povo aflito! E de lá, da kalunga e de Clementina, vem essa força, essa energia, que incendeiam meu corpo de alegria.

    E eu me apaziguava nessa nossa capacidade infinda, atlântica, de reinventar a dor, a falta, a agonia, e edificar a vida, o mundo novo. E Iemanjá, sentada à cabeceira da mesa, entregava a Posseidon o comando do mundo das águas, enquanto ia à terra cuidar das chagas do menino Obaluaê.

    E foi com a generosidade de Iemanjá que Ellen curou nossas chagas a cada nota, a cada gesto, a cada palavra, casca da ferida de existir, naquelas tardes de domingo, fizesse sol ou chuva.

    Agora, depois de tanta graça espraiada em encontros televisivos, dádiva que reunia nosso povo, tal qual jogo de Copa do Mundo, volto à condição de fã mediada por outras mídias. Aguardo os shows para degustar a cantora em voz, a compositora em sangue e águas. Delírio! Delírio!

    Espalmo as mãos, agradecida, e faço uma reverência por tudo de bom e belo que Ellen fertilizou em nós, desbordou em águas, afrouxou nós. Salve Xangô, meu Rei, Senhor! Salve Oxum, Iemanjá e as águas! Salve Obaluaê, deus do cuidado que cura. Salve Kitembo, senhor do segredo. Salve Ellen Oléria, mulher atlântica que transbordou Áfricas de nossos corações!

    Ogum's Toques Cidinha da Silva 1


    15 de dez de 2012

    Escritoras de ontem e de hoje: antologia lançada em Belo Horizonte




    Por Mª. do Socorro V. Coelho (orelha do livro)

    Os trinta e três artigos que compõem esta antologia trazem à luz fatos da vida, da sabedoria e, principalmente, da produção literária, bem como excertos de autoria feminina de marcantes e notáveis mulheres mineiras e das que se tornaram mineiras; mas todas com o mesmo propósito: trabalhar com vigor as letras com sentimentos e tradições de mineiridade. Mulheres que, pacientemente, vêm durante o largo processo da evolução antropológica, por séculos sucessivos, tentando fazer valer o simples e tão repetido jargão “são todos iguais o homem e a mulher e têm os mesmo direitos e deveres”. Imbuídas de experiências herdadas de algumas mulheres impossibilitadas de fruir o triunfo desejado, elas e muitas outras abriram o espaço para o respeito de que são credoras todas as mulheres, encontrando maior repercussão em face do desenvolvimento cultural do século passado, no movimento denominado feminismo. Esparta, conforme Ângelis, já houvera evidenciado no passado, a coragem e o patriotismo da mulher esparciata durante as guerras. Nos tempos modernos, o esforço de guerra lhe solicitou a contribuição e ela revelou-se excelente trabalhadora em todos os níveis profissionais, mudando, lentamente, para as posições de comando, como administradora e executiva notável, portadora de nobre capacidade de liderança e de orientação.

    As letras poéticas dessas trinta e três mulheres 'maduras’ e ‘libertas’ anunciam e denunciam o direito à liberdade de ação, de deliberação e escolha no lar e na sociedade; são conquistas adquiridas e que não podem ser confundidas com a arrogância nem procedimentos de confrontos. São voos literários que representam o memorialismo, a poesia, o drama e a ficção de almas de ontem: Anna Amélia, Branca AdjuctoCarminha Gouthier, Francisca Senhorinha, Maria Amorim, Maria Sabina etc., e de hoje: Cidinha da Silva, Helena Jobim, Lacyr Schettino, Leda Martins, Lúcia C. Branco, Maria Lysia, Marta Gonçalves, Vera Brant, Vera Casa Nova etc., em caminhos do fazer literário de militâncias, sentimentos, inquietações e invenções. Mulheres que lutam pela sua emancipação intelectual, meio ao trançar e ao fundir poéticos; entre o sagrado e o profano, a militância e a poesia; o testemunho, o lirismo e a sensibilidade vazando numa escrita inquietante ao sabor dos sons dos tambores, pentes e tridentes.

    São escritos tecidos também por mulheres. Por dezenove mulheres do Grupo de Pesquisa Letras de Minas que vêm se dedicando à pesquisa de autoria feminina produzida em Minas Gerais, desde 2006. Trata-se da Antologia II, intitulada “Escritoras de ontem e de hoje”, organizada por Constância Lima Duarte, Elisângela Aparecida Lopes, Maria do Socorro Vieira Coelho, Maria Imaculada A. Nascimento, Maria Inês de Moraes Marreco. Mais uma produção resultante do trabalho contínuo dessas mulheres que muito tem aprendido e apreendido com os registros deixados pelas escritoras que fazem parte desta Antologia; com mulheres que vivem junto a nós e oferecem vivências e estimulam nosso trabalho e também pelas próprias experiências vividas e convividas no seio familiar, nos arredores das afinidades e nos acontecimentos do mundo em nosso entorno. São continuadoras de muitas lutas que abriram veredas, atalhos, caminhos, estradas para que pudéssemos ocupar e mostrar o lugar que muitas ocuparam, mesmo sem serem convidadas na sociedade de sexo e gênero masculinos.

    Caro leitor, fica aqui, então, o convite carinhoso a todos de sexo e de gênero masculino ou feminino a deixar-se transportar pelos caminhos e descaminhos da sabedoria inscritos nos artigos enfeixados nesta obra. Sou uma das integrantes das “Letras de Minas”, e anuncio que nosso trabalho prossegue tanto na produção de textos literários, como nos que integram esta Antologia, como na discussão sobre textos acadêmicos e, também, na organização e participação de eventos nos quais conversamos sobre literatura e mulher mulher na literatura.


    14 de dez de 2012

    Entrevista de Cidinha da Silva a Anderson Feliciano, parte II



    *Anderson Feliciano - não poderia deixar de falar da figura feminina na sua obra. personagens femininas negras na literatura clássica, quase sempre escrita por homens brancos, eram construídas a partir de um olhar machista e eurocêntrico. Comente um pouco sobre a construção de algumas de suas personagens.

    Cidinha da Silva - Ai, que pergunta boa! Dá vontade de falar por horas, porque são mesmo muitas e cada uma tem uma história, nada é aleatório nas minhas personagens. No Tridente, em Domingueira, tem a Nena, personagem real, amiga-irmã, minha amiga mais antiga. Dançávamos Soul juntas na adolescência. Dançávamos é plural majestático, porque ela dançava e a gente assistia. E foi um tempo tão bom aquele, o mundo negro dos bailes Black, aquele povo empoderado com as jubas de leão armadas. A consciência racial para a maioria era só estética. Eu era atleticana, então desde os 9, 10 anos conhecia Reinaldo e, mesmo não tendo internet naquela época, por algum caminho consegui conhecer os Panteras Negras, que Reinaldo simbolizava em suas comemorações de gols. Eu nunca tive um momento em que tenha me descoberto negra, sou negra desde sempre, a vida não me deu opção diferente desta. E foi o que de melhor a vida me deu, a consciência de ser negra e do que é ser negra num país racista como o Brasil, desde que me entendo por gente. Voltando à Domingueira, foi também uma homenagem (eu que não sou muito dada a elas) a uma amiga queridíssima.

    Nesse mesmo livro tem Domingas e a cunhada, vivido pelas personagens Domingas e Arminda, um casal de mulheres que vive junto há 50 anos, mas que não se define como casal. Vivem a relação de forma pública, como se não houvesse sexo, e todo mundo faz de conta que acredita, é um acordo de convivência numa cidade do interior mineiro. O texto é um dos mais populares do livro, faz sucesso com a crítica também e tenho muito carinho por ele. Lembro-me que, certa feita, numa oficina sobre minha produção literária, eu percebia uma senhora negra, provavelmente professora, que me olhava com olhar repressor. Seus olhos se fixavam muito nos meus dreads, devia ter uns 60 anos ou mais. De repente, escolhi ler Domingas e como a senhora estava bem à minha frente, eu olhava para ela. Vi então que o olhar repressor foi se transformando numa expressão de extrema tristeza e consternação e ela depois começou a chorar, a princípio tímida, mas quando cheguei na carta de Domingas que chamava Arminda para deixar a seca de Serra Talhada, pegar um barco no São Francisco e ir viver com ela, a senhora chorava muito, apertava a boca e tinha os olhos fechados. Acho que apressei o fim da leitura e assim que acabei ela se levantou. Alguém a abordou, mas disse que estava bem, agradeceu e saiu da sala, para não mais voltar.

    Outra história com personagens lésbicas é Mais uma história de amor, do Margem (2011). Ali são personagens urbanas, trabalhadoras de repartição pública, casadas há 15 anos. Uma acomodada à vida sem atropelos de funcionária pública, a outra com sonhos de independência financeira. A unir as duas, a alimentação do amor com uma canção cantada por Alcione no play list de um karaokê, Entre a sola e o salto.

    Em Aconteceu no Rio de Janeiro, a personagem central é dona Mariana, uma senhora de 80 anos, com corpinho de 65, como a narradora define no texto. Trata-se de avozinha de bem com a vida que vive a sexualidade e se diverte olhando rapazes sarados e de sunga, freqüentadores de uma padaria carioca no final de tarde.

    Redentoras, presente no Tambor (2008) por sua vez, é só brisa. O texto debocha de um certo tipo de mulher heterossexual que se julga “habilitada” para resgatar rapazes gays da homossexualidade. Uma versão light de Silas Malafaia, talvez. É algo absurdo e praticamente todos os gays passam por essas mulheres ao longo da vida. Então, resolvi tirar uma onda com a intenção delas, pois quando não são violentas, embora sempre invasivas, são tão ridículas que se tornam divertidas. Este é um dos únicos textos jocosos, em um livro que é muito ácido. A acidez vai diminuindo, do primeiro para o último texto, foi a forma que encontrei de tornar o livro mais palatável, até para mim mesma.

    Alugam-se moços é um texto duro sobre mulheres que contratam homens para dançar. Baseia-se em fatos reais, como as pessoas gostam de saber. É prática bastante comum na classe média paulistana, por exemplo. Se fossem homens alugando mulheres, o aspecto sexual seria mais declarado, no caso delas, é mais discreto, sabemos. E isso é explicitado no texto, bem como outros caminhos que as personagens adotam para driblar a solidão típica das mulheres bem sucedidas na faixa dos 40 anos e dali para cima. Imagino que a história doa em muita gente e por isso também, o texto incomode e seja pouco comentado.
    Em La mama há uma mãe de filho gay que não quer que ele se case e tenha vida própria (tenta vê-lo como heterossexual) para assegurar que ele lhe faça companhia durante a velhice.

    Lições tem uma personagem que aprende a separar sexo de amor na relação com os homens e quando se cansa de um deles, o mancebo declara-se usado. Gosto de explorar nuances dos afetos neste mundo-bolha, pós-moderno, em que vivemos.

    Descompasso é outro texto doído. As personagens são lésbicas, namoradas. As duas estão em uma loja e passam por um manequim feminino. Uma delas olha estupefata para a exibição de top no manequim feminino e a bunda nua. A namorada, ao ver a cena, exclama; “parece homem! Disfarça, pelo menos.” Há certos níveis de desencontro, de não-percepção ou percepção distorcida da outra pessoa, que são impossíveis de superar, porque a pessoa é vista como ela não é. É o caso das moças do texto.

    No Margem (2011), abundam as personagens femininas interessantes, escolhi algumas para abordar aqui, vamos a elas: a primeira é uma professora universitária de universidade pública, na qual foi adotado o sistema de cotas para estudantes negros. Ela, provavelmente é afro-descendente e passa por morena, de acordo com a conveniência dos interesses dos brancos. Ela é do tipo bom coração que acredita que todas as pessoas merecem uma chance para se mostrarem seres humanos melhores e, baseada nessa crença, ela vai à festa de confraternização dos professores, na qual são feitos comentários inacreditavelmente racistas sobre os cotistas negros.

    Em A dúvida, Paula, uma prostituta negra, procura atendimento psicológico para saber se as negras deveriam agüentar mais programas por noite do que as brancas. O cafetão diz que sim, só que ela não agüenta.

    Em As Latinhas, também uma história baseada em fatos reais, Marilúcia, moradora de um bairro de periferia e vizinha da narradora, anda pelas ruas vasculhando o lixo das pessoas em busca de latinhas. A grande questão é saber como a vida de Marilúcia se desorganizou a tal ponto, o que ela busca no lixo. Como sua família reage à sua ação, já que ela continua morando com os irmãos na casa dos pais falecidos. Eu conheci uma Marilúcia, fomos adolescentes juntas. Quando a marilúcia que conheci ela me cumprimentou, em frente à casa do meu pai, enquanto vasculhava o lixo do vizinho, eu precisei inventar uma Marilúcia, para me situar outra vez no mundo.

    Eliana sonha em ser Alice é um texto que provoca respostas esquisitas, a meu ver. A reação das pessoas, inclusive de muitas negras, é de comiseração com a criança branca (Eliana) que está num lugar tradicionalmente ocupado por crianças negras, o de vender balas em semáforos. É curioso o quão pouco as pessoas percebem e discutem o racismo presente na história. A identificação humana com Eliana sobrepuja tudo. Acho curioso e, para resolver minhas dúvidas (será que não consegui escrever direito o que pretendia?), penso sempre que a literatura acontece na interpretação, no encontro entre a minha verdade como autora, e o repertório pessoal, sócio-político, humano, de quem me lê.

    A benzedeira do texto A benzedeira é uma personagem que gosto muito. Ela personifica as guardiãs da tradição que têm, dentre outras funções, a de reconhecer as pessoas que levarão a tradição adiante e de investi-las do poder de conduzir o bastão no momento certo. A ciência do tempo, também presente nesse texto, é algo que me fascina muito.

    Eu sou fã de Marina, personagem de O super. Trata-se de uma mulher que viveu uma relação de desrespeito e violência doméstica e quando vai a uma delegacia pedir informações sobre a perseguição policial ao ex-marido agressor, ela conhece Cassiano, um investigador de polícia, que se revela um homem à altura dela. Marina se redescobre, se reinventa, se firma no amor e no desejo. Acho isso lindo. Ela é da turma do lança-perfume. O Cassiano também é uma figuraça, mas você me pediu para falar das meninas...

    Luli Arranca-telha é outra personagem que me inspira, é protagonista do texto Luli Arranca-telha: modelo, manequim e funkeira, sucesso maior nas oficinas literárias com as meninas da Fundação Casa (ex FEBEM). Luli é alterego de outra funkeira que gosto, digo, gostei. Hoje não tenho opinião formada, parei de acompanhar sua carreira. Eu queria mesmo escrever sobre a tal funkeira, usando seu nome real, mas de ingênuo, basta o Paulo Lins, que pretendeu homenagear o pessoal da Cidade de Deus usando seus nomes reais no romance e foi processado por muitos deles, depois do sucesso do filme, com objetivo de ganhos pecuniários por parte dos supostamente lesados.

    Pensei: eu não contaria com o dinheiro de um filme de sucesso e se alguém me processa por utilizar seu nome em uma crônica, vou pagar com o que? Então, como seguro morreu de velho, criei Luli Arranca-telha. Foi delicioso escrever o texto, consegui levar para a trama a Maria Tereza, escritora e amiga, que se tornou a prima poeta da Luli.

    Minha maior alegria na relação com Maria Tereza foi ter podido mostrar o texto a ela, antes de publicado, logo, antes que ela entrasse para a alentada lista das pessoas queridas que morrem cedo demais.

    Luli é uma bafônica consciente de seu papel social, nesse sentido, é uma Preta Gil da favela, aliás, também personagem do texto, com nome real. Não gosto do bafo pelo bafo, PAA!!!! Este tipo de bafo não convulsiona o stablisment, apenas o homologa. Gosto do bafo que revoluciona e que tem consciência do que faz para construir território ao desterritorializar o opressor. Preta Gil faz isso em larga medida, noutra, mais estreita, é uma artista divertida, fruto de uma grande família miscigenada (da qual se orgulha), que tem um público branco (com quem dialoga muito bem) que lota suas noites pretas. Sou muito fã da Preta Gil, embora não diga o mesmo de seu trabalho como cantora, que, sinceramente, não acompanho de forma que me permita emitir opinião. Luli Arranca-telha dá corpo a essas discussões todas, muito caras a mim.

    Norma, personagem de Acabou, Norma, acabou! é aquela mulher que tudo faz para agradar ao namorado (marido, noivo, amante, amigo íntimo), não importando a hora, o local, ou as prioridades dela. Um dia, o namorado resolve ir embora e seu mundo cai, como tantos outros mundos vivem caindo por aí.

    Em Fiz minhas velas ao mar, uma mulher que não tem nome, desenvolve uma saga afetiva e musical para conquistar a mulher amada. Lança mão das Iabás, de Itamar Assumpção (é muita luz pra pouco túnel, é muita areia para meu caminhãzinho) e de Bossa Nova. Conclama raios, trovões, flores virtuais, cria aforismos, mas nada resulta o desejado. É Milton Nascimento quem a salva, ao compor a descrição do azul dada pelo ceguinho trovador, outro personagem. O azul é a cor da voz de Milton Nascimento cantando Dolores Duran no ouvido, sob a lua cheia, perfumada por uma dama da noite. Não vou mentir, não, Anderson. É uma das coisas mais bonitas que já criei na vida.

    Os nove pentes d’áfrica é meu xodó, é o livro que me deu certeza de que eu era escritora. E ali, as personagens femininas refletem uma plêiade de mulheres que me inspiram e admiro. Duas delas têm inspiração em figuras do panteão dos orixás, a primeira, de maneira consciente, a segunda, não, faz pouco que me dei conta. Barbinha, na definição mais precisa que já li sobre ela, “não é a que tem mais idade, mas é a mais-velha”, dentre os netos de Francisco. É a narradora do livro, é iansânica e é tão forte que pode se tornar mãe do pai, Onirê, o filho de Ogum. Aqui, preciso fazer um parêntese para falar deste personagem.

    Certa feita, um filho de Ogum, “descompreendido”, embora se arvore autoridade, enciumado, reclamou que os filhos de Xangô, no livro, eram virtuosos e o único filho de Ogum era perdido, desqualificado. Coitado (do meu interlocutor), mesmo sendo filho de Ogum, ainda não entendeu que talvez, ele seja o orixá mais humano do panteão iorubá. Aquele mais suscetível à cólera, à ira, á inconstância, mas também o que é capaz de amar intensa e lealmente, de forma quase indescritível. O diálogo entre Barbinha e Onirê, a filha de Iansã, e o filho de Ogum é dos mais belos do livro, em que pese a acusação de um leitor crítico de que meus diálogos são fracos. Recomendo ao mimado filho de Ogum que assista Ogum Deus e Homem, de Fernanda Júlia, volta e meia em cartaz, em Salvador.

    Voltando à Barbinha, a menina é pura essência de Iansã, movimento, transformação.

    Vó Berna, descobri há pouco, é filha de Oxum. Vô Francisco é o protagonista xangônico da cena, mas quem reina naquela família é ela, como reinam as filhas de Oxum no coração de seus amantes. Ai dos filhos e filhas de Xangô que amarem uma mulher de Oxum! Serão seus servos voluntários para todo o sempre.  
    As figuras femininas de O mar de Manu, Kadja e Baya, respectivas mãe a e avó de Manu, são representações da sabedoria ancestral que dá vida ao cotidiano, assim as defino.

    A tríade feminina de Kuami me alegra muito, Janaína, minha gatinha, Naomi dos Palmares, sua mãe, e Helena Tucunaré, companheira da mãe. Respectivamente, sereia-mirim, mulher e peixa. Janaína é fofa demais, como dizem os mais-novos da minha vida. É amorosa, solidária, impetuosa, madura. Naomi é fantástica, soberana discreta, coerente e justa. Helena, desconfio, é a peixa mais humana do meu mundo aquático. Ela é ciumenta, no amor que sente por Naomi. O ciúme justifica o autoritarismo, a falta de tato para lidar com o amor de Pixinga, também, por Naomi, aquela que já havia derretido o coração de Hércules Baiacu, pai de Janaína e da própria Helena. É outra mulher de Oxum, percebi agora, enquanto escrevo.
    É isso e ainda falta muita gente. Ôh coisa boa!

    Anderson - em uma entrevista a poeta e filosofa viviane mosé disse que usa a “escrita como ferramenta para experimentar a existência e falar da realidade”. e para você? de que maneira se vale da escrita?

    Cidinha - São muitas: às vezes a vida vem de britadeira e eu vou de lança-perfume, não tanto por conquista afro-zen, mas por praticar o exercício da dor que se quer gota no mar, por questão de sobrevivência, mesmo. A resposta da filósofa é muito requintada para a minha existência literária miúda.
    Quem acompanha futebol, viu o surgimento de um jogador no Flamengo em 2010, chamado Negueba – não gosto do apelido, mas fazer o quê? Acho que era um período de muitos pernas-de-pau e um comentarista da cidade de São Paulo criou uma expressão para descrevê-lo que se tornou bordão, dizia ele: “esse menino tem alegria nas pernas.” Eu diria que tenho alegria nos dedos. Escrever me dá uma alegria indescritível e me dá malemolência para não confrontar as britadeiras, pelo menos, não o confronto da areia contra o mar.

    Escrever me lembra quem eu sou e que sou mais do que pareço ser, quando as britadeiras me ensurdecem/embrutecem. Sim, faço um exercício de ego profundo na escrita. É muito pessoal mesmo, o ato de escrever.

    O mais são os temas, a diversidade temática, principalmente das crônicas, que cria uma ilusão de amplitude. A profundidade é mais verdadeira em meus textos, a amplitude, reputo ilusória. Às vezes são voltas em torno do próprio rabo, disfarçadas pela criação literária.

    Como você bem sabe, não entendo trufas de teoria literária, mas gosto de pensar sobre o que escrevo (tenho umas veleidades inspiradas por dois grandes entendedores da própria obra, Gil e Paulinho) e de dar pitacos sobre a escrita dos outros.  Assim, para mim, a escrita e a reflexão sobre ela são plenas de significados, cores, sabores e sons.

    Anderson - Gosto muito na sua obra à maneira que trabalha as questões de gênero. Saindo do lugar comum, você expande nossa visão de mundo em relação a pessoas que se relacionam com pessoas do mesmo sexo. Como tem sido o retorno em relação a isso de seus leitores?

    Cidinha - Insignificante, do ponto de vista do volume de comentários. Quando os textos são lidos com o olhar da crítica, reparo que são os homens que se arriscam a comentar os traços homoafetivos dos meus textos. As mulheres se retraem. Houve uma analista, certa vez, que destacou vários aspectos interessantes e tal (falava sobre o Tridente e o Tambor) e conseguiu não emitir uma palavra sobre o tema. Eu relia o texto para ver se não havia me enganado e tinha lido direito, mesmo. Mas, vai saber como as coisas batem nos limites das pessoas, não é?

    Eu sempre penso nos tempos em que Marta Suplicy, heroicamente, defendia os direitos das populações LGBT no Congresso Nacional. A maneira apaixonada como ela tentava convencer os colegas sobre a legitimidade e a ética de garantir a todas as pessoas, inclusive aos LGBT, obviamente, o direito a legalizar uniões estáveis, a adotar filhos, etc. E fico tomada pela coragem de Jean Wylls, um menino leve como as folhas, mas que precisa virar o Ogum mais portentoso já visto, para enfrentar e vencer Silas Malafaia, o profeta desgraçado (aquele que não é ungido pela graça, o que não tem iluminação), que quer extinguir a diversidade do mundo.

    Em certa medida, era “mais fácil” para Marta e ela tem consciência disso. Ela é heterossexual, à época, casada com um dos homens mais respeitados e admirados do Brasil, de quatro costados, três filhos bem criados, branca, rica, etc. Não sei, talvez os homens heterossexuais que me lêem e também os gays assumidos sintam tranqüilidade maior para se expressar.   

    Quanto aos leitores e leitoras que me lêem por deleite, não costumo receber comentários específicos, não, à exceção de comentários espontâneos, rarefeitos, de alguns amigos e amigas ou quando peço opinião, por meio de leituras críticas.

    Lembro-me que certa vez, no processo de lançamento do Tambor, meu segundo livro, eu quis testar a leitura pública de alguns textos inéditos, que depois vieram a ser publicados no Margem, livro mais recente. Eram três textos de temática homoafetiva. Fiquei surpreendida com o incômodo causado ao baluarte que eu havia convidado para comentar os textos e que disse assim: “já está bom, não é? Vamos agora para a parte séria” (os comentários dele sobre o livro em tela, por suposto). Ou seja, rola um incômodo, a maioria das pessoas não consegue falar de vivências homoeróticas com naturalidade. 

    *Anderson Feliciano é dramaturgo e escritor.