Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

28 de fev de 2013

O texto afirmativo e inovador de Lado a lado



Por Cidinha da Silva

A matéria do semanário elogiava a fotografia de Lado a lado, a atuação de vários atores, das atrizes, principalmente, detalhava uma série de aspectos técnicos favoráveis e afirmava tratar-se de um bom texto.  Destacava no enredo as informações históricas sobre a formação dos morros cariocas no início do século XX e também mencionava algo sobre o carnaval. Tecia comentários superficiais sobre a Revolta da Chibata, abordada na trama.

Entretanto, não houve uma menção sequer à tomada de posicionamento dos autores (Cláudia Lage e João Ximenes Braga) em relação ao debate racial e a humanidade da pessoa negra. O texto é bom, os diálogos são ótimos, justamente por esse motivo, pelo menos aos olhos do seleto público, seguidor da novela.

Quando afirmamos que o texto é bom, é impossível não destacar a tensão racial presente todo o tempo, bem como a afirmação de valores humanos, éticos e proativos das personagens negras. Zé Maria (Lázaro Ramos), por exemplo, diz a Constância (Patrícia Pillar): “Elias (Afonso Nascimento Neto) tem por Albertinho (Rafael Cardoso) mais desprezo do que eu tenho pela senhora. Seu filho foi a primeira pessoa que tratou Elias como lixo, só porque ele é do morro.”  Constância contemporiza: “ele não sabia quem era o Elias.” Zé: “para quem foi senhor de escravos deve ser difícil entender isso.” Constância, entre cândida e cínica: “nas fazendas do meu pai e do meu marido, os escravos quase não eram castigados, só quando necessário, e eu sempre vertia lágrimas.” Zé Maria, taxativo: “enquanto eles (os escravizados) vertiam sangue.”

O texto é bom, é excelente, mas é mais do que isto. É um texto afinado com um lado da História, um lado vencido pela historiografia conservadora e elitista, o lado negro (dos negros, não, sobre os negros).

Em outro momento, Chico (César Mello) em conversa informal com Albertinho, depois do episódio do pó-de-arroz no corpo para passar-se por branco urante jogo de futebol no time dos janotas, este, para afirmar sua benevolência, lembra àquele que emprestou a própria camisa para que o negro limpasse o rosto e continuasse em campo de cara limpa. Chico responde: “você é racista, é ignorante, não é diferente daquele Fernando, nem daquele Humberto (jogadores do time que haviam sido muito hostis com Chico). O erro maior foi meu, eu nunca deveria ter aceitado passar pó-de-arroz no rosto.” Ora, este é um diálogo que afirma um lugar político digno para os negros. Não é possível dizer que o texto é bom, sem destacar uma discussão como esta, mas a mídia conservadora consegue fazê-lo.

Outro momento emblemático se dá em conversa frugal entre um casal que vive junto por conveniência, como tantos outros, Margarida (Bia Seidl) e Bonifácio (Cássio Gabus Mendes). Ele lê artigo do jornalista fantasma Antonio Ferreira, sobre o jogo de futebol no qual Chico se destacou. O político corrupto ironiza uma afirmação da reportagem “um dia o maior jogador do mundo poderá ser negro.” Nossos olhos contemporâneos sabem que se trata de uma referência premonitória a Pelé e sabem também que ela não foi posta ali pelos autores, gratuitamente. Bonifácio gargalha diante da frase e Margarida comenta indignada: “é divertido desrespeitar negros e mulheres, mulheres negras então” (notem, é uma mulher branca, de elite, quem tem essa percepção; é algo muito inovador). Margarida acrescenta argumento sobre a mãe de Fernando (uma negra), “houve outra mulher a quem você desrespeitou mais do que ela? Só a mim.” Estamos acostumadas à invisibilização do debate racial, mas até as inúmeras questões de gênero propostas e bem postas pela novela, a mídia conservadora consegue ignorar, seja em momentos de tensão, seja nas reflexões da estabanada Celinha (Isabela Garcia), que vai pouco a pouco percebendo a própria falta de coragem para romper padrões que a infelicitam e, principalmente, compreende a falta de amor próprio, determinante em sua solidão.

Por fim, Isabel (Camila Pitanga) pergunta a Edgar (Thiago Fragoso), amigo e advogado: “como é que eu vou explicar pro meu menino que ele foi roubado pela própria avó pelo racismo dela?” Alguém sabe responder?

27 de fev de 2013

Kevin Espada, vítima do descaso e da impunidade






Por Cidinha da Silva

O advogado de defesa do réu confesso empenha-se em provar sua culpa. Parece confuso, mas é só aparência. A intenção é nítida. Em uma “torcida organizada”, tudo é possível!

O acusado é menor de idade, tem 17 anos e se auto-declarou culpado, exclusivamente culpado, no caso da morte do adolescente boliviano, Kevin Espada, vítima do disparo de um sinalizador marítimo, originado na torcida do Corinthians em jogo da Libertadores. Brasil e Bolívia têm acordo de extradição em casos de investigação policial, mas isso não se aplica a menores, é tema sob o guarda-chuva da ONU. A cena parece estar montada para sacrifício de um bode expiatório. No crime organizado é comum que laranjas sejam escolhidas para assumir determinadas culpas, por terem infligido alguma norma da ética criminal, por deverem algum favor para os chefes, e nessa toada conseguem preservar a própria vida.

Na Bolívia, dos 12 torcedores suspeitos e presos, quatro tinham sinais de pólvora nas mãos. Foram apreendidas outras mochilas com artefatos mortíferos, além daquela supostamente abandonada pelo garoto acusado nas arquibancadas. Foram vários os sinalizadores disparados e um deles atingiu Kevin Espada de maneira letal. Os deuses Aimará devem ter impedido uma tragédia de proporções maiores.

O ex-jogador Casagrande foi muito feliz ao lembrar que as pessoas gostam de tratar o que acontece no futebol e em torno dele como algo especial, singular, e não se trata disso. O mundo do futebol, como qualquer outro braço do negócio do entretenimento deve estar submetido às leis que organizam a sociedade como um todo.

A justiça se encarregará de definir a natureza do homicídio (culposo, doloso), mas houve um homicídio, fato cabal, e existem leis para puni-lo. Este é o aspecto criminal do episódio. O homicídio ocorreu entre torcedores de futebol, durante uma competição esportiva, logo, os envolvidos no espetáculo (torcida, time da torcida agressora e responsáveis pela segurança do estádio e controle de multidões) devem ser investigados e punidos. Há que haver responsabilização pela morte de Kevin também no plano desportivo, sob pena de banalizar mortes evitáveis e passíveis de prevenção como “fatalidade.” E a OAB deverá investigar esse advogado de defesa devotado a provar a culpa do cliente.

Ogum's Toques 9 - Cidinha da Silva e Guellwaar Adún


26 de fev de 2013

Wilson Simonal de Castro


Wilson Simonal foi um vitorioso homem negro brasileiro de musicalidade inacreditável. Nasceu dia 23 de fevereiro de 1938 e faleceu, no ostracismo, dia 25 de junho de 2000, jovem, aos 62 anos. Complexo, controverso, incompreendido, arrogante, presunçoso, competente, criativo e talentoso são adjetivos que somados a outros tantos podem tentar defini-lo. Mas, o que tenho mesmo a dizer sobre Simonal está no texto "Wilson Simonal de Castro" publicado em Oh, margem! Reinventa os rios! (Selo Povo, 2010).






Wilson Simonal de Castro
Por Cidinha da Silva

Quando perguntado se o sucesso o tinha deixado mascarado, Simonal respondeu: “Eu sempre fui mascarado!” Um preto que diz ao mundo – eu sou e me basto – é um preto condenado à morte.

O homem que encontrava problemas raciais, apesar de se chamar Wilson Simonal de Castro, e declarava isso antes de cantar um hino a Martin Luther King Junior é um negro que sabe de si. De Castro, porque Simonal era corruptela de Simonar, sobrenome do médico que ajudou a sustentar sua família, supostamente mal entendido pelo tabelião no momento de registrá-lo.

Um negro sabedor de si incomoda muita gente. Se, além disso, for sofisticado, incomodará muito mais. Se fizer dueto com Sara Vaughan, se cantar samba de um jeito diferente e apaixonante, se interpretar Tom Jobim como se a música do maestro houvesse sido composta para a voz dele, se levar 40, 60, 80 mil pessoas no Maracanãzinho ao êxtase, cantando afinadamente “Meu limão, meu limoeiro”, sob a regência dele, um preto mascarado, incomodará ainda mais. À direita porque domina a massa, à esquerda porque diverte a massa.

Disseram no filme que Simonal, o rei do suingue, caiu no ostracismo porque não teve jogo de cintura. Conclusão torpe. A rima é outra; ele sucumbiu por racismo e, é lógico, contribuiu pessoal e enfaticamente para o previsível desfecho da história com sua arrogância de preto bem-sucedido, cercado de brancos, traído pela altura do Kilimanjaro.

Rei iludido, blefou ao dizer-se apadrinhado pelos milicos da ditadura. Achou que a afirmação teria o efeito cândido da amizade nutrida pelo sargento da Polícia Militar da esquina, com quem crescera. Rei refratário a entender como funciona a política, cavou a própria cova, enfeitiçado pelo sucesso. E todos, a direita, a esquerda, a imprensa, a plateia branca magnetizada e os artistas concorrentes já tinham as pás de cal para enterrá-lo.

Ninguém sabe o duro que você deu, meu velho, mas a inveja dos 320 shows por ano te derrubou. Você, como definiu alguém, não se achava o rei da cocada preta, você era o rei! Mas não podia esquecer que preto na plateia de sua apresentação consagradora na Record só mesmo Gilberto Gil, extasiado, seguindo suas ordens de regente.

A vida não foi suave contigo, Simonal. Mas você também errou, meu rei! Sentou-se à mesa de garfo e era dia de sopa! Esqueceu-se de que era um preto reinando entre brancos.


25 de fev de 2013

Torcida da Internazionale recebe Balotelli com banana inflável no clássico contra o Milan



Torcida da Inter com banana inflável para Balotelli (Reprodução / YouTube
Torcida da Inter com banana inflável para Balotelli
Pela primeira vez enfrentado o clube que o revelou, Mario Balotelli não teve vida fácil contra os “tifosi” da Internazionale que, de maneira vergonhosa, mostraram bananas infláveis para o atacante que agora veste a camisa do arquirrival, o Milan. A matéria é do site espanhol Sport desta segunda-feira (25)

Balotelli foi vendido pela Inter por 22 milhões de euros para o Manchester City em 2010 e este ano foi comprado por 23 milhões de euros pelos rossoneri. Nesse último domingo (24) voltou pela primeira vez ao Giuseppe Meazza, já que o mando do estádio era dos neroazzurri, e não deu muita atenção para os interistas, que também trouxeram faixas com xingamentos e pedidos de respeito.
Apesar do combustível, Balotelli não chegou às redes na partida que terminou em 1 a 1, deixando o Milan na terceira posição com 45 pontos, 13 atrás da líder Juventus. A Inter ocupa o quinto posto, com 44.

A Copa de Nações Africanas e a crônica esportiva tupiniquim





por Cidinha da Silva*

Começa o jogo e recomeçam os comentários batidos sobre a força e os músculos proeminentes dos jogadores africanos. Se o narrador acrescentasse o fato de que a maioria deles jogou futebol amador por tempo considerável, que compatibilizou trabalho braçal, em muitos casos desde a infância, com o sonho de serem astros do futebol, talvez o telespectador pudesse contextualizar tanta explosão muscular e baixo percentual de comida, ops, de gordura.

O narrador da final inédita entre Nigéria e Burkina Faso é negro. É provável que sua escalação tenha sido um espasmo politicamente correto da emissora, assim como fazem na cobertura estatal do carnaval baiano, ao desenterrar jornalistas negros ou mais melanizados de todos os lugares possíveis, para dar a impressão de que foram visíveis desde sempre. É um profissional negro, daqueles negros que inoculam diariamente a diluição da negrura na própria corrente sanguínea, na aflição de serem engolidos pelo racismo cordial. Ficam tão viciados na poção mágica que, entorpecidos frente ao poder de comunicação direta com a massa, querem passar como brancos. Brancos não são, mas é como se negros não fossem.

Podia ter caprichado na pesquisa irmão, como vocês fazem quando se trata de um país desconhecido do Leste europeu. É tanta informação que depois da transmissão esportiva a gente sai expert em História, geopolítica, economia e cultura do país focalizado. É justo, muito justo, é justíssimo! Mas os países africanos também merecem carinho.  Ah, mas quem faz a pesquisa é a produção... Em que pese o microfone estar em sua mão, não é mano?

Seria de bom alvitre que os telespectadores tivessem elementos para compreender porque os africanos são tão coloridos, como vocês gostam de dizer. O amarelo, o verde, o preto e o vermelho, presentes em várias bandeiras de países africanos (e nas roupas da torcida) são as cores do pan-africanismo, da crença na unidade política de África frente ao colonizador branco-europeu. Ideário de luta de Du Bois, Marcus Garvey, Abdias Nascimento e Bob Marley na Diáspora Africana, Kwame Nkrumah, em África. One people! One Love! Broda!

O cinema, sim, o cinema tem grande importância cultural e econômica na vida de Nigéria e Burkina Faso, países da África do Oeste, finalistas da Copa de Nações Africanas. Ouagadougou, capital de Burkina, abriga um importante festival de cinema, o FESPACO, no qual cresce a participação de cineastas afro-brasileiros a cada edição. Na Nigéria, a produção cinematográfica anual supera a de Hollywood, cujo nome serviu de inspiração para o pólo africano (Nollywood), a exemplo do Bollywood indiano. A ordem mundial de produtores de cinema é a seguinte, só para firmar: Índia em primeiro (Bollywood), EUA em segundo (Hollywood) e Nigéria em terceiro (Nollywood).

Simples, não, produção? Vocês poderiam ainda esmiuçar o tema e mostrar que a indústria cinematográfica da Nigéria desenvolveu-se como alternativa à falta de salas de cinema. É um mercado predominante de vídeos para serem assistidos em casa, passíveis de aquisição nos mais diversos pontos comerciais das cidades e lugarejos. Pode ser também que isso esteja em alguma medida relacionado com o resultado das guerras que tanto destaque merecem nas transmissões de vocês, cabe a pesquisa.
Participantes do III Encontro de Cineastas da África
e da Diáspora.
 Burkina Faso (Foto: Joel Zito Araújo)

Ah... ainda sobre a Nigéria, é de lá que vem uma cultura enraizada no Brasil chamada I-o-ru-bá? Já ouviram falar, não é? Aquela tradição presente nos rituais de candomblé ridicularizados pela mídia em geral, pelos programas humorísticos etc. Da Nigéria foram retirados milhares de pessoas, escravizadas no Brasil e aqui reinventaram a cultura iorubana possível.

Quando se trata de Portugal e Brasil em competições esportivas, vocês gostam de chamá-los de países co-irmãos. Nos casos de Nigéria, Angola, Moçambique, Benin, podem chamar de mãe e filho que não será exagero. Captou produção?

Produção, agora, uma curiosidade sobre o camelo, animal muito utilizado no transporte de pessoas e coisas, ainda hoje, em Burkina. Embora já existisse no Egito antigo, o camelo passou a ser usado para a circulação de pessoas e mercadorias no deserto, a partir do século IV da nossa era, dinamizando a economia. Este simpático animal, que dizem se alimentar até de pedras, dada sua resistência, foi grande impulsor da vitalidade do comércio de curta, média e longa distância dentro do continente africano. Esse comércio permitia que os grupos humanos tivessem acesso a coisas que não produziam diretamente, bem como a novas idéias e comportamentos.

Existem outros animais em África além das zebras, girafas, crocodilos e hipopótamos fetichizados por vocês. Existe, por exemplo, o utilíssimo camelo, grande protagonista na comunicação entre a floresta e o deserto, as populações costeiras e ribeirinhas e as savanas. Sacou produção?


escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. Imagem: dancarinos se apresentam durante a cerimonia realizada antes da final da Copa das Nações.

24 de fev de 2013

24/02 tem Cidinha da Silva na coluna Dublê de Ogum

Amanhã (24/02) tem texto de Cidinha da Silva, coluna Dublê de Ogum, no Nota de Rodapé. A final da Copa de Nações Africanas e a crônica esportiva tupiniquim.

23 de fev de 2013

Renascimento dos princípios panafricanistas



Por Belarmino Van-Dúnem

Fonte: Jornal de Angola

    panafricanism 1
    A Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana deste ano teve como lema o “Renascimento do Pan-Africanismo”, que encerra um simbolismo histórico muito grande e é fonte de inspiração e de esperança para muitos povos africanos que continuam a ver gorada a expectativa de melhores condições de vida.

    Os líderes africanos do período que se seguiu às primeiras independências herdarem um continente que se encontrava à margem do sistema internacional.

    O cenário das relações internacionais foi projectado para privilegiar as potências vencedoras da II Guerra Mundial, realidade que tem criado dificuldades aos Estados, cujas independências foram proclamadas a partir da primeira metade da década de 1950.
    O espírito panafricanista tem evoluído ao longo do tempo e, como toda evolução acarreta mudança, o conceito actual pouco ou nada tem a ver com a teoria defendida pelos descendentes de escravos africanos no Caribe, Estados Unidos e na Europa. A perspectiva alterou-se. Os descendentes dos africanos nas Américas e na Europa já não defendem o retorno ao continente, nem sonham com uma África idílica, de liberdade e fartura e um dos princípios dos Estados passou a ser a defesa da soberania e integridade territorial, ao contrário das confederações defendidas por muitos líderes nas décadas de 1950 e 1960.

    Mesmo os descendentes de africanos que vivem na Europa e nos Estados Unidos exigem ser cidadãos dos países de acolhimento e muitos dos que nasceram no nosso continente, mas tem raízes norte-americanas ou europeias também preferem não ser africanos.

    O nascimento do panafricanismo - a África no centro de tudo – tem contornos revisionistas. Os líderes estavam divididos entre os que defendiam uma África próxima das metrópoles ou dos ex-colonizadores e os que apregoavam uma ruptura com os antigos opressores.

    A divisão era tão estrutural que se formaram dois grupos, o de Brazzaville, constituído pelos países que defendiam uma aproximação às antigas metrópoles e, o de Casablanca que apregoava a ruptura.

    Mas houve a terceira via, a inspirada pelo Imperador da Etiópia, Haille Salassie, que em 1963 deu origem a OUA e em 2000 se transformou na União Africana. Há uma tendência para se criticar os Estados africanos por má governação e administração das riquezas nacionais. Na base dessas criticas está o facto do paradigma de análise ser importado do Ocidente, ainda que se saiba que o Estados partem de metas diferentes, que os hábitos e costumes não são os mesmos e que os recursos, exploração e gestão não seguem os mesmos critérios.

    A intervenção nos assuntos internos dos Estados é defendido de “forma irrepreensível”, mas há incapacidade material e estrutural para fazer vincar o princípio. A incompetência dos Estados é transmitida às organizações regionais e continentais, o que permite que as potências coloniais e os Estados Unidos encontrem sempre motivos para intervir económica e politicamente nos assuntos de África.

    A União Africana ao realizar a cimeira anual sobre Panafricanismo levantou algumas questões recorrentes nos últimos 20 ou 30 anos. A primeira das quais está relacionada com a necessidade de se reconhecer que a geoestratégia da maioria dos Estados do nosso continente tem uma dimensão transcontinental, sobretudo devido à geoeconomia dos países industrializados.

    A falta de competitividade dos Estados africanos é um dos factores que retarda o desenvolvimento dos ideais panafricanistas ajustados à nova era da economia global. Não é possível falar de um Panafricanismo puro, independente e isolado dos problemas e das dinâmicas do mundo actual. Pelo contrário, deve renascer com uma visão futurista de uma África voltada para o mundo e não para si própria.

    Durante a 20ª cimeira, realizada, em Addis Abeba, de 21 a 28 de Janeiro, os Estados africanos discutiram as condições para uma participação na força da reposição da paz, soberania e ordem no norte do Mali. Alguns Chefes de Estados também centraram as análises nas situações na República Centro Africana, que por um triz não caiu nas mãos dos rebeldes, e na RDC devido ao ambiente vivido no Kivu, bem como na porosidade da fronteira com o Ruanda e o Uganda de onde provêm os maiores problemas.
    Outros optaram por preparar os discursos para a cimeira que, pela primeira vez, decorreu sem a relevância dos países do Norte de África debilitados internamente por motivos de todos conhecidos. Nunca é de mais lembrar que entre os cinco maiores contribuintes da União Africana, três – Argélia, Egipto e Líbia - estão situados geograficamente no Norte África Enquanto a cimeira procurava resolver problemas sem meios, nem soluções estruturais e duradoiras, a França avançou para o Mali, enfrentou os rebeldes e levou os Estados africanos a reboque.

    Claro que os gasodutos e o petróleo da região tiveram um peso importante, mas a pergunta é: devia a França agir de forma diferente? Claro que não. Em causa estão recursos essenciais para a manutenção da indústria e consequentemente do emprego e do bem-estar da população europeia que enfrenta uma crise económica e financeira que faz lembrar os anos 1930.

    O renascimento do pan-africanismo deve ter no seu centro a valorização do Homem e da Mulher africanos, o aumentar a capacidade de criação das dinâmicas políticas e sociais internas, a defesa de uma visão transaccional e continental, a capitalização dos recursos internos e captação de outros de fora das fronteiras, o aprofundamento da segurança nacional no seu sentido lato, a aposta no desenvolvimento da massa critica e a dinamização de uma sociedade para o futuro. Apenas assim é possível teremos um panafricanismo porque de forma diferente a situação corre o risco de se eternizar.

    22 de fev de 2013

    Carnes frescas e afins


    Há alguns anos, antes do episódio da carne de cavalo usada para consumo humano na Europa, escrevi o Carnes frescas e afins, depois do choque de ver carne bovina, pingando o líquido vermelho que a define, transportada a céu aberto em uma caminhonete imunda pelas vias periféricas de São Paulo. O carro-frigorífico e eu fazíamos o mesmo percurso e acompanhei por longo tempo a exposição da carne a tudo o que se possa imaginar: fumaça, poluição, chuva, sol, vento, bichos voadores, cachorros que se aproximavam nos momentos de parada do semáforo, uma festa de reintegração do bicho morto à natureza. Não faltavam pessoas, aparentemente acostumadas com à cena. O produto, provavelmente, era processado em algum abatedouro clandestino e entregue em açougues isentos de fiscalização pública. Também a narrativa de Pedro Juan Gutierrez, sobre o consumo de carne de cavalo no interior de Cuba, em períodos de fome, inclusive cavalos mortos por doença, é bom que se diga, dialogou comigo. 

                                                                                                                      


    Por Cidinha da Silva

     Ninguém me tira da cabeça que aquilo era carne de cavalo. Seu Benzoildo nunca inspirou confiança como dono de açougue. Virava e mexia, o pessoal passava mal ao comer a carne dele, digo, do açougue “Carnes Frescas e Afins”.
          
    Você fritava, a bicha endurecia, parecia filé de pneu na hora de mastigar. Refogava, a bicha espumava e exalava mau cheiro de espantar urubu.
                
    Carne de gato não era segredo que ele vendia. Quem tinha gato no bairro passou a prender em gaiola, amarrar em coleira, pra proteger dos facões amolados e das mãos ligeiras de seu Benzoildo. Gatuno de gatos. “Achado não é roubado”, defendia-se. Pegava os bichanos na rua para alimentar... “deixar gordinhos e passar a faca”, a vizinhança completava. Desenvolveu a tese, assimilada pela população, de que a carne de gato era prima da carne de coelho, portanto, apropriada ao consumo humano. O povo aventava que carne de cachorro também era vendida no estabelecimento. Como ele matava cada espécie de bicho era tema de churrascos, cervejadas, rodas de truco e samba da moçada.
                 
    Certeza mesmo tiveram no dia em que seu Benzoildo diversificou os negócios e abriu, no bairro vizinho, uma revenda de couro de animais para tambores. Ele só não esperava que alguém reclamasse. Dona Ermira visitou a loja, reconheceu o couro do Dirceu, seu gato, comprou, represando as lágrimas. Candidamente solicitou nota fiscal, com especificações detalhadas do produto. Juntou fotos do bichano, fotografou o couro, amealhou testemunhas e perfilou-se no juizado de pequenas causas para dar queixa.
                
    O juiz, para infortúnio de seu Benzoildo, estava enlutado pelo desaparecimento do Hildo, seu gato, preto como uma pantera. Encolerizou-se, proferiu sentença de fechamento do estabelecimento e intimou seu Benzoildo a depor. O depoente esperneou, negou as acusações, alegou inocência, perseguição política e simulação de provas. Não adiantou. Começava a derrocada de seu Benzoildo.
                
    Solerte, o juiz expediu outro mandado, desta feita acionou a Vigilância Sanitária para vistoria criteriosa no açougue “Carnes Frescas e Afins”. Onde já se viu – “afins” –, o proprietário mesmo já se denunciava. Chegaram homens e mulheres vestidos de branco, com máscaras esquisitíssimas, botas, luvas, pranchetas, vidros para coletar amostras, máquinas fotográficas, um arsenal. O povo juntou na porta do açougue, alguém tratou de escrever uns cartazes, bradavam por justiça. Fizeram uma lista enorme com o nome dos gatos desaparecidos e afixaram no poste. Leram para a rede de TV que apareceu por lá. Seu Benzoildo não cria no que via.
                
    Uma técnica da vigilância sanitária examinava as paredes do fundo do açougue com um martelinho e a cada toc-toc, colava o ouvido para examinar o som produzido. Encontrou o esperado, chamou uma colega de trabalho para conferir. Era mesmo barulho de coisa oca. Sem dificuldade, lastreados pela experiência, encontraram o fundo falso, forçaram e chegaram ao início do túnel que levou a equipe de sanitaristas a um quarto fétido e mal iluminado, nos subterrâneos do “Carnes Frescas e Afins”. Lá depararam com dezenas de peles de gato penduradas em varais, algumas cabeças de cavalo com olhos estatelados, fixadas na parede, tíbias e fêmures imensos, provavelmente dos cavalos mortos, amontoados em um canto, infestados de moscas e varejeiras. Abriram uma porta menor e encontraram cachorros à espera do desossamento, apenas sem couro, semi-congelados.
                
    Completava o cenário de horror os instrumentos usados para matar os bichos, tirar o couro, desossá-los. Fotografaram tudo, coletaram amostras e imediatamente ligaram para o juiz: “Olha dr. Anacleto, tem infração suficiente pra ele envelhecer na cadeia”. O mandado de prisão foi imediato. A polícia foi chamada para conter a multidão furiosa que queria depredar o açougue. Alguém mais lúcido conteve a massa, argumentando que se destruíssem o lugar, ajudariam o açougueiro, pois destruiriam as provas. Começaram a chegar advogados, firmas de advocacia, oferecendo-se para mover ações indenizatórias contra seu Benzoildo. Parecia saguão de aeroporto em dia de acidente aéreo, bando de urubus querendo uma lasquinha.
                
    Foi assim que o bairro do antigo “Carnes Frescas e Afins” se tornou um enclave vegetariano na região.

    Do livro "OH, MARGEM! REINVENTA OS RIOS!"

    21 de fev de 2013

    Isabel e Zé Maria



    Por Cidinha da Silva

    Há vários capítulos Isabel (Camila Pitanga) mostra-se comovida e preocupada com os sentimentos de humilhação vividos por Zé Maria (Lázaro Ramos) face à obrigação de conviver com Albertinho (Rafael Cardoso), bem como com a lembrança de que Elias (Afonso Nascimento Neto) é filho deste e não daquele. Elias é o fruto do ato sexual inaugural da mulher amada por Zé Maria com outro homem, antes dele, por suposto.

    A dor de Zé é dor de macho, mas é também dor de homem culpado pelo abandono da noiva no altar para juntar-se a outros homens negros que defendiam o próprio povo do despejo arbitrado pela polícia, cujo delegado o leva desacordado para a delegacia. Já no momento do inquérito, Zé inventa um nome para proteger-se do enquadramento na lei de vadiagem, que limitaria sua vida para sempre, e acaba por impedir, ele mesmo, que a amada o encontrasse.

    O amor tem dessas coisas, prega esse tipo de peça. Quando quebra, quando não dá certo, é aquela busca insana para saber onde quebrou, por que quebrou? Como e quando aconteceu? O martelo do desespero golpeia o cerebelo, implacável, mas, massa de bolo desandada não tem conserto. Tem sido assim para todos nós, reles mortais apaixonados, desde que o mundo romântico é mundo, imagine a confusão mental de Zé Maria, um herói, um semi-deus!?

    Mas, herói que se preza tem pelo menos uma heroína à altura, podendo até ter duas, porque heróis estão em baixa nas prateleiras dos supermercados e é preciso dividir o pão. A heroína de Zé é Isabel que, em seu papel magnânimo compreende todas as nuances do infortúnio do amado, ausculta-lhe o que vai nas franjas do peito combalido e decide terminar o noivado. Não é justo que Zé Maria seja acuado pela presença desagradável de Albertinho em torno de Elias, eco de um envolvimento do passado. Então, como senhora da justiça, dona da verdade, Isabel decide o que é melhor para todos e encerra o relacionamento com Zé. Não sem antes magoá-lo, ao dizer que ele atrapalha a vida dela.

    A fórmula funciona no folhetim e na vida real. Ter o ego ferido é algo que nos enlouquece, dilacera o orgulho, mortifica a vaidade. Quando você ama uma pessoa profundamente, alguém que não te amou tanto assim, você sabe, você sabia, mas digamos que o amor dela te bastasse, afinal você amava demais, amava pelas duas, você quer que o amor se realize a qualquer custo. Você ainda ama e se ilude ao achar que seu amor é grandioso e superior,  a ponto de contaminar a amada. Contaminará nada! Ela quer se ver livre de você, do seu amor que a sufoca e o que ela faz? Diz que tudo não passou de um grande equívoco, você foi um ombro amigo. Letal, ombro amigo é letal para qualquer ego vivo!

    Em outras palavras, Isabel chama o Zé de ombro amigo (aquele que a ajudou no momento mais crítico com Elias), mente para ele ferindo-o de morte. Ao cabo, ela acha que se não o machucar, não o libertará para a felicidade. Ela é uma semi-deusa, dona do amor do amado, da dor e da liberdade do herói para ser feliz. Precisa ferir o grande ego dele, com as armas do seu próprio ego, ainda maior.

    E nós, do outro lado da tela, românticas inveteradas, estacamos nosso coraçãozinho tolo no medo de que nosso casal 21 não fique junto no final. Queríamos, no fundo inconfessável, ter os super poderes de Isabel e dominar o destino da pessoa amada. Queríamos definir  o destino de quem amamos do alto de nossa arrogância e autoritarismo, travestidos de bondade e preocupação.  Politizadas que somos, enganamos nosso medo atávico da solidão, da solidão da mulher negra, neste caso, com a afirmação do compromisso de que o casal negro vingue.

    Zé e Isabel formam par romântico e precisam comer o pão que o diabo amassou em nome do amor para que soframos junto com eles, torçamos por eles. A fórmula só funciona quando estendemos  toda a nossa solidariedade àquela que nos representa. Para nos ajudar em nosso papel de previsíveis telespectadoras, o terceiro elemento trata logo de entrar em cena, o ciúme que Isabel sentirá (e nós também) de outra mulher, supostamente interessada em desfrutar o sexo e o afeto de Zé.

    A pimenta malagueta vem emplumada como médica branca, bonita, profissional independente (como Isabel) que em caso de conquista do homem negro, tonificará todos os nossos fantasmas de rejeição e abandono, ao mesmo tempo em que regozijará aquelas que torcem o nariz para o modelo altivo de mulher negra representado por Isabel. Os autores nos deixam em pânico com esse impasse e não perderemos um capítulo sequer, até que o desfecho desejado se efetive.

    Se Fátima (Juliana Knust) e Zé Maria tiverem algum tipo de affer, sem compromisso sério, o mais provável é que a lama das convenções sócio-raciais macule as penas da leveza e da brancura (o público precisa se identificar com a dor das mocinhas e receber a lição de que o amor deve estar acima de tudo, inclusive das convenções) e Isabel, arrependida, enciumada, ferida, pedirá desculpas ao amado. Ele a acolherá, apaixonado e seguro de que Isabel é a mulher de sua vida. O casal negro será feliz para sempre. Nossa estima coletiva será tonificada e o amor entre negros provará ser possível, a despeito da tentação branca.

    Pode ser também que médica e objeto de estudos não tenham nada para além da aproximação Medicina e Capoeira, mas o envolvimento de Zé e Fátima (tenha a natureza que tiver) servirá para despertar o ciúme de Isabel, algo fundamental para a trama. Isabel precisa demonstrar  suscetibilidade  às fraquezas humanas, como todas as outras mulheres.  

    Tudo indica que é só um pouquinho de pimenta no caldo, mais uma separação do casal 21, prévia ao grande final da família feliz. Zé provará ser um homem que cresceu emocionalmente a ponto de aceitar  o amor filial devotado por Elias e mais do que isso, o amor de pai que ele nutre pelo garoto.

    Mas, se não for assim, que o melhor aconteça para cada um individualmente, como costuma ser na vida real, embora não aceitemos este tipo de final feliz. 

    19 de fev de 2013

    Um caso de amor entre vela e pólvora



    Por Cidinha da Silva

    Que cheiro de vela queimada, diz o motorista, apertando o nariz. Vela, não, parafina, oh animal, corrige o cobrador, meio embriagado. E do que é feita a vela? Pergunta o condutor, altivo. Eu falei que o cheiro é de parafina, só isso! Perguntei do que é feita a vela, insiste o motorista.

    Ficam naquele vai-não-vai até o cobrador sair com essa: a vela só existe por causa do cordão. Como é que é? Estranha o motorista. Vela é vela, rapaz, com cordão ou sem cordão, o que vale é a forma, ela é vela. O cobrador retruca, descrente e sem alteração, vela só é vela se tiver pavio. Rapaz, diz o motorista, você é um defunto morto e eu não vou acender vela pra você. Vou dar outro exemplo: uma arma é uma arma, com bala ou sem bala, compreendeu truta?

    A cronista ria, observava a paisagem humana no trajeto do coletivo enquanto buscava símiles, metáforas e metonímias para os textos diários. Em uma piscada de olhos compreendeu o cerne do debate filosófico entre o cobrador e o motorista, tratava-se ali da operacionalidade das coisas. O motorista era bom de lógica, daqueles que enxergam à frente, enquanto os outros pensam curto, no limite das coisas. Se voltar para a escola (é jovem) irá longe, tão longe quanto sua capacidade de raciocínio.

    O preconceito racial é a parafina da vela, matéria prima que se fará notar pelo cheiro, caso o pavio seja aceso. A discriminação, então, seria o pavio? Não! Parafina e pavio apagado não cheiram à vela queimada. A discriminação é a pólvora que detona e exala o mau cheiro do preconceito. Provoca incêndios, destruição individual e em massa, desalento, cerceamento da liberdade e morte.

    Pronto! Estava compreendida a operacionalidade das coisas. Tivesse a cronista um cachê qualquer e  justo seria dividi-lo com cobrador e motorista.

    18 de fev de 2013

    Dica da Cidinha



    Nelson Cavaquinho, nome artístico de Nelson Antônio da Silva, nasceu dia 29 de outubro de 1911 e faleceu dia 18 de fevereiro de 1986. Cavaquinista na juventude, na maturidade optou pelo violão, desenvolvendo um estilo inimitável de tocá-lo, utilizando apenas dois dedos da mão direita.

    Seu envolvimento com a música inicia-se na família. Seu pai, Brás Antônio da Silva, era músico da banda da Polícia Militar do Rio de Janeiro e seu tio Elvino tocava violino. Depois, morando na Gávea, passou a frequentar as rodas de choro. Foi nessa época que surge o apelido que o acompanharia por toda a vida.

    Graças ao pai conseguiu um trabalho na polícia fazendo rondas noturnas a cavalo que o ajudaram a sustentar os quatro filhos. E foi assim, durante as rondas, que conheceu e passou a frequentar o morro da Mangueira, onde conheceu sambistas como Cartola e Carlos Cachaça.

    Deixou mais de quatrocentas composições, entre elas clássicos como "A Flor e o Espinho" e "Folhas Secas", ambas em parceria com Guilherme de Brito, seu parceiro mais frequente. Por falta de dinheiro, depois de deixar a polícia, Nelson eventualmente "vendia" parcerias de sambas que compunha sozinho, o que fez com que Cartola optasse por abandonar a parceria e manter a amizade.

    Cyro Monteiro fez várias gravações de suas músicas e o tornou conhecido. Começou a se apresentar em público apenas na década de 1960, no Zicartola, bar de Cartola e Dona Zica no centro do Rio. Em 1970 lançou seu primeiro LP, "Depoimento de Poeta", pela gravadora Castelinho.

    Suas canções eram feitas com extrema simplicidade e letras quase sempre remetendo a questões como o violão, mulheres, botequins e, principalmente, a morte, como em "Rugas", "Quando Eu me Chamar Saudade", "Luto", "Eu e as Flores" e "Juízo Final" (com informações da Wikipedia).

    Embora o tema predileto de Nelson Cavaquinho tenha sido a temida e ironizada morte, canções de amor como "A flor e o espinho" estão entre as mais belas do cancioneiro brasileiro. É a que mais gosto em seu repertório. Gosto tanto que, no afã de abordar uma dor de amor da forma mais funda que conseguisse, dialoguei com "A flor e o espinho" em "Tire sou sorriso do caminho", publicada em Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!(Mazza Edições, 2008).
    ---------------------------------------------------
    Tire seu sorriso do caminho

    Por Cidinha da Silva

    Tire seu sorriso do caminho

    Hoje não tem samba pro meu enredo

    Degredo

    Não tem alegoria pra minha tristeza

    Eu sou só dor

    Latejante

    Tire seu sorriso do caminho

    Hoje meu funk tá sem movimento de bacia

    Não tem rima pro meu rap

    Não tem Ronaldinho do Barcelona no meu jogo

    Meu reggae tá sem sabor

    Tire seu sorriso do caminho

    Eu quero passar

    Adeus, amor

    Marina Silva, uma fundamentalista!



    Por Cidinha da Silva

    Tão triste testemunhar a uma mulher admirável como Marina Silva jogando a própria biografia no aterro sanitário, enquanto simula inapetência para o poder. Negra amazônica que se alfabetizou aos 16 anos, foi trabalhadora doméstica, líder comunitária e ambientalista, professora, senadora, ministra, candidata à Presidência da República, detentora de 20 milhões de votos.

    Outro dado importante e definidor da trajetória de Marina foi uma contaminação por mercúrio (doença freqüente dos pobres da Amazônia, residentes em regiões de exploração inescrupulosa de minerais)que levou 8 médicos a desenganá-la. Como ela mesma declara, não tinha mais esperança de vida e foi a fé, a conversão religiosa a salvá-la.  

    Parece ser em nome dessa fé, do compromisso com os dogmas que lhe restituíram a vida, que Marina professa valores inaceitáveis quanto à orientação sexual de outrem, à soberania da mulher sobre o próprio corpo e à garantia da liberdade para o exercício das diversas práticas religiosas. Isso para ficar apenas em três exemplos.

    Agora, na mesma semana em que publica artigo lúcido, embora um tanto superficial, sobre os resultados do Ideb, no qual critica as autoridades dispostas a rever a metodologia do teste no afã de alcançar melhores resultados na educação, em detrimento da correção das deficiências que o teste ajuda a revelar, Marina, quando questionada em seu conservadorismo acerca de temas polêmicos, propõe consultas públicas no formato de referendo como saída evasiva, irresponsável e até mesmo covarde.

    Marina, depositária da confiança de tanta gente, da maioria dos ambientalistas, órfãos depois das mutações políticas de Gabeira, auto-transformado numa espécie de Caetano dos Verdes, bandeia-se para o time dos cobradores de pedágio no caminho de Jesus, dos detratores dos direitos humanos de grupos sem status social. E como disse Wyllys, não há nada de inovador na tentativa de submeter direitos de minorias a plebiscitos ou referendos, isso não é política nova, é o velho conservadorismo.

    É deveras desconcertante e desalentador. Alguém que se pretende estadista não pode ser refém de crenças pessoais reacionárias. O campo político progressista deve falar mais alto.

    Deveria, mas se a racionalidade não tiver voz, que Marina mude de arena, que abandone a política e siga a carreira religiosa. Certamente, ela combaterá a exploração econômica que muitos dos pastores de seu rebanho executam, levará para as igrejas eletrônicas os valores éticos que deram credibilidade à sua prática política. Só temo por sua vida, esses abutres são mais letais do que Mercúrio, não por acaso, o deus do comércio. 

    17 de fev de 2013

    O direito de recorrer à própria consciência: Sobre a renuncia do Papa


    Editorial de Católicas Pelo Direito de Decidir


    papa
    A renúncia do Papa Bento XVI surpreendeu o mundo. Independentemente da natureza das razões que podem ter levado o Papa a essa decisão,  renunciar  significa de algum modo manifestar-se frágil, mas também mostrar-se humano. Essa dimensão humana muitas vezes tem sido ocultada pela Igreja, quando esta se permite julgar a humanidade em suas fraquezas. A renúncia do Papa, no entanto, no mínimo causa perplexidade.
    Uma instituição que se considera toda poderosa a ponto de apresentar o Papa como “o representante de Deus na Terra”, poderia aproveitar a oportunidade da renúncia para rever a concepção e a prática de poder que exerce e projeta em seu trabalho pastoral e político. O poder como serviço, conforme proposto na tradição cristã, foi  esquecido. Ao contrário,  a experiência vivenciada pelas/os fieis católicas/os é a de um poder autoritário, esvaziado de compaixão e misericórdia,  de uma Igreja que se acredita e se apresenta como a portadora de uma verdade única - a “Verdade” -,  apartando-se da condição humana e de suas complexidades. A renúncia do Papa e tudo o que a motivou chama a Igreja a pensar que, além da dimensão institucional, ela está composta por seres humanos, com suas ambiguidades, grandezas e debilidades.
    As palavras do Papa ao anunciar sua decisão desvelam a profunda contradição de uma Igreja que não reconhece o direito que as pessoas têm de recorrer à sua consciência para tomar decisões sobre suas vidas. Afirmou ele: Após ter repetidamente examinado minha consciência perante Deus, eu tive certeza de que minhas forças, devido à avançada idade, não são mais apropriadas para o adequado exercício do ministério de Pedro.    O Papa usou um recurso próprio da mais antiga tradição da Igreja para legitimar  a inesperada renúncia: Decidiu movido por sua consciência.  Católicas pelo Direito de Decidir tem reiterado insistentemente que as mulheres católicas podem, sustentadas por sua fé, decidir diante de Deus e de suas consciências pela interrupção de uma gravidez indesejada.  
    E, como mulheres católicas, nos perguntamos: Por que  não respeitar  e reconhecer o direito de todas as pessoas a fazer uso da sua consciência? Por que  não respeitar  e reconhecer o direito das mulheres quando elas decidem, como último recurso, pela interrupção da gravidez, na busca de uma melhor vida tanto para elas como para a sociedade? Por que não seguir o princípio da própria Igreja que afirma: Onde há dúvida, há liberdade?
    Infelizmente, a Igreja com que temos convivido nos últimos anos tem sido aliada dos setores políticos e religiosos mais conservadores que, em nome de um  Deus todo poderoso, castigador, imprime medo e condena tudo o que leve à autonomia e que seja resultado da liberdade de consciência e do direito de decidir das pessoas. O Papa Bento XVI deixou claro que, no seu pontificado, não permitiria revisão doutrinal nem pastoral sobre a família, a indissolubilidade do casamento, o celibato sacerdotal, o sacerdócio feminino, o divórcio, o direito das mulheres ao aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Reafirmou a primazia da Igreja Católica como única portadora do legado de Cristo. Criticou o Islã, recuperou a liturgia em latim e, sem ter em conta a dura realidade da expansão da infecção da aids entre a população  africana, reafirmou a posição da Igreja contra o  uso dos preservativos. A lista seria longa, se completa.
    O Papa justificou sua renúncia afirmando que lhe falta agora a vitalidade física e espiritual necessária para continuar enfrentando os desafios que sua função requer. No entanto, como apontam vários analistas, não podemos esquecer motivos menos nobres, menos publicáveis: Disputas internas de poder. Correntes conservadoras ativas no Vaticano lutam para continuar mantendo seus privilégios no campo doutrinal, financeiro e pastoral, ainda que isto signifique ocultar, proteger e manter na instituição sacerdotes e bispos pedófilos ou corruptos.  Assim, é de se compreender que a crise por que passa a Igreja católica atualmente exerça enorme pressão sobre o Papa, a ponto de fazê-lo renunciar.
    Infelizmente, não encontramos, neste momento, na Igreja,  sinais de tempos novos, ares mais evangélicos e, por isso, a renúncia do Papa, pode  ter pouco significado para as pessoas que buscam uma verdadeira igreja seguidora de Jesus de Nazaré. Sinceramente nos entristece que a decisão do Papa não tenha sido motivada pelo reconhecimento de que a Igreja precisa de mudanças profundas na direção da realização dos valores evangélicos de busca de justiça e solidariedade humanas.
    À renuncia de Bento XVI se seguirá um novo conclave. Um novo jogo de interesses já está se articulando e os salões do Vaticano serão testemunhas da confluência de interesses alheios ao verdadeiro espírito evangélico. A espera pela fumaça branca manterá os fiéis rezando, os bispos e cardeais também rezarão, mas é muito triste que se continue fazendo as pessoas de boa fé acreditar que a eleição do Papa é fruto da ação do Espírito Santo.
    No entanto, tudo poderia ser diferente! A renúncia de Bento XVI deveria ser uma oportunidade inédita para que a Igreja reconhecesse, denunciasse e atuasse de maneira firme para punir exemplarmente os autores de milhares de abusos sexuais cometidos contra crianças e mulheres, abusos  ocorridos nos  últimos 50 anos nas suas instituições  e nas escolas católicas  do mundo. Seria uma chance de resgatar a imagem de uma instituição hoje  envelhecida, desconectada com os tempos atuais e com o que pensam e desejam seus fiéis.
     Nós, de Católicas pelo Direito de Decidir, esperamos que essa oportunidade não seja perdida.  Ainda há tempo para se trocar a nefasta prática da cúria romana de acumular riqueza, poder e corrupção por uma prática ética e moral de  serviço e opção pelos pobres. Há tempo de a cúria voltar a sentir-se verdadeiramente parte do Povo de Deus, retomando os rumos do Concilio Vaticano II. Assim, desejamos que ares novos soprem com força e abram as portas e as janelas da Igreja Católica, superando a misoginia e reconhecendo o pleno direito das mulheres no interior da igreja, respondendo aos anseios das e dos católic@s do mundo de participar de uma igreja democrática, sustentada pela liberdade de expressão, aberta e disposta a escutar os questionamentos que o mundo traz e, principalmente, disposta a reconhecer que, como o Papa,  as pessoas têm direito a fazer uso de sua consciência para tomar decisões na sua vida.

    Carolina de Jesus lembrada em calourada na USP!



    Divulgação:

    O Coletivo Feminista da Letras, Marias Baderna, apresenta aos calourxs, veteranxs e demais interessados uma atividade para discussão sobre a representação e a invisibilidade da mulher negra na literatura. 

    E a mulher negra, como fica? Quando ela aparece, de que maneira é descrita? Como sujeito ou como objeto? De que maneira os estereótipos consolidados históricamente afetam suas vidas? Em que posição está a maioria das mulheres negras? 

    Encerraremos a atividade com um sarau.

    Atividade mista, com homens e mulheres.

    VENHAM TODXS!

    Dia: 26/02
    Local: Em frente ao prédio da Letras - FFLCH - USP
    Horário: A atividade será realizada em dois horários: 8h da manhã e 17h30

    16 de fev de 2013

    Don Cheadle no Homem de Ferro 3

    Foi divulgado um novo pôster de Homem de Ferro 3, sequência do longa de 2010. Desta vez, temos Don Cheadle vestindo sua armadura de Patriota de Ferro, a “versão governamental” do herói.


    Oliveira Silveira - Obra Reunida

    Os correios me trouxeram um presente, a obra reunida de Oliveira Silveira, organizada com requinte pelo poeta Ronald Augusto. Adoro livros como este, bonitos, bem cuidados, para além do conteúdo, à altura do Oliveira. Gracias, Ronald. Parabéns, o livro é mesmo lindo, merecíamos algo assim.


    15 de fev de 2013

    Íntegra da Entrevista de Leonardo Boff à Folha de São Paulo


    Que Papa esperar que não seja um Bento XVII?

    15/02/2013
    Por Leonardo Boff
    Dei generosamente uma entrevista à Folha de São Paulo que quase não aproveitou nada do que disse e escrevi.Então publico a entrevista inteira aqui no blog para reflexão e discusão entre os interessados pelas coisas da Igreja Católica.As perguntas  foram reordenadas: Lboff
    ************************************
    1.Como o Sr. recebeu a renúncia de Bento XVI?
    R/ Eu desde o principio sentia muita pena dele, pois pelo que o conhecia, especialmente em sua timidez,  imaginava o esforço que devia fazer para saudar o povo, abraçar pessoas, beijar crianças. Eu tinha certeza de  que um dia ele, aproveitaria alguma ocasião sensata, como os limites fisicos de sua saúde e menor vigor mental para renunciar. Embora mostrou-se um Papa autoritário, não era apegado ao cargo de Papa. Eu fiquei aliviado porque a Igreja está sem liderança espiritual que suscite esperança e ânimo. Precisamos de um outro perfil de Papa mais pastor que professor, não um homem da instituição-Igreja mas um representante de Jesus que disse: “se alguém vem a mim eu não mandarei embora” (Evangelho de João 6,37), podia ser um homoafetivo, uma prostituta, um transsexual.

    2. Como é a personalidade de Bento XVI já que o Sr. privou de certa amizade com ele?
    R/ Conheci Bento XVI nos meus anos de estudo na Alemanha entre 1965-1970. Ouvi muitas conferências dele mas não fui aluno dele. Ele leu minha tese doutoral: O lugar da Igreja no mudo secularizado” e gostou muito a ponto de achar uma editora para publicá-la, um calhamaço de mais de 500 pp. Depois trabalhamos juntos na revista internacional Concilium, cujos diretores se reuniam todos os anos na semana de Pentecostes em algum lugar na Europa. Eu a editava em portugues. Isso entre 1975-1980. Enquanto os outros faziam sesta eu e ele passeávamos e conversávamos temas de teologia, sobre a fé na América Latina, especialmente sobre São Boaventura e Santo Agostinho, do quais é especialista e eu até hoje os frequento a miúde. Depois em 1984 nos encontramos num momento conflitivo: ele como meu julgador no processo do ex-Santo Ofício, movido contra meu livro Igreja: carisma e poder” (Vozes 1981). Ai tive que sentar na cadeirinha onde Galileo Galilei e Giordano Bruno entre outros sentaram. Submeteu-me a um tempo de “silêncio obsequioso”; tive que deixar a cátedra e proibido de publicar qualquer coisa. Depois disso nunca mais nos encontramos. Como pessoa é finíssimo, tímido e extremamente inteligente.

    3. Ele como Cardeal foi o seu Inquisidor depois de ter sido seu amigo: como viu esta situação?
    R/Quando foi nomeado Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé(ex-Inquisição) fiquei sumamente feliz. Pensava com meus botões: finalmente teremos um teólogo à frente de uma instituição com a pior fama que se possa imaginar. Quinze dias após me respondeu, agradecendo e disse: vejo que há várias pendências suas aqui na Congregação e temos que resolvê-las logo. É que praticamentea cada livro que publicava vinham de Roma perguntas de esclarecimento que eu demorava em responder. Nada vem de Roma sem antes de ter sido enviado a Roma. Havia aqui bispos conservadores e perseguidores de teólogos da libertação que enviavam as queixas de sua ignorância teológica a Roma a pretexto de que minha teologia poderia fazer mal aos fiéis. Ai eu me dei  conta: ele já foi contaminado pelo bacilo romano que faz com que todos os que aitrabalham no Vaticano rapidamente encontram mil razões para serem moderados e até conservadores. Então sim fiquei mais que surpreso, verdadeiramente decepcionado.

    4. Como o Sr. recebeu a punição do “silêncio obsequioso”?
    R/ Após o interrogatório e a leitura de minha defesa escrita que está como adendo da nova edição de Igreja: charisma e poder (Record 2008) são 13 cardeais que opinam e decidem. Ratzinger é um apenas entre eles. Depois  submetem a decisão ao Papa. Creio que ele foi voto vencido porque conhecia outros livros meus de teologia, traduzidos para alemão e me havia dito que tinha gostado deles, até, uma vez, diante do Papa numa audiência em Roma fez uma referência elogiosa. Eu recebi o “silêncio obsequioso” como um cristão ligado à Igreja o faria: calmamente o acolhi. Lembro que disse: “é melhor caminhar com a Igreja que sozinho com minha teologia”. Para mim foi relativamente fácil aceitar a imposição porque a Presidência da CNBB me havia sempre apoiado e dois Cardeais Dom Aloysio Lorscheider e Dom Paulo Evaristo Arns me acompanharam a Roma e depois participaram, numa segunda parte, do diálogo com o Card. Ratzinger e comigo. Ai éramos três contra um. Colocamos algumas vezes o Card Ratzinger em certo constrangimento pois os cardeais brasileiros lhe asseguravam que as críticas contra a teologia da libertação que ele fizera num document saido recentemente eram eco dos detratores e não uma análise objetiva. E pediram um novo documento positivo; ele acolheu a idéia e realmente o fez dois anos após. E até pediram a mim e ao meu irmão teólogo Clodovis que estava em Roma que escrevêssemos um esquema e o entregássemos na Sagrada Congregação.  E num dia e numa noite o fizemos e o entregamos.

    5. O Sr deixou a Igreja em 1992. Guardou alguma mágoa de todo o affaire no Vaticano?
    R/ Eu nunca deixei a Igreja. Deixei uma função dentro dela que é de padre. Continuei como teólogo e professor de teologia em várias cátedras aqui e fora do pais. Quem entende a lógica de um sistema autoritário e fechado, que pouco se abre ao mundo, não cultiva o diálogo e a troca (os sistemas vivos vivem na medida em que se abrem e trocam) sabe que, se alguém, como eu, não se alinhar totalmente a tal sistema, será vigiado, controlado e eventualmente punido. É semelhante aos regime de segurança nacional que temos conhecido na A.Latina sob os regimes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Dentro desta lógica o então Presidente da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Santo Oficio, ex-Inquisição), o Card. J. Ratzinger condenou, silenciou, depôs de cátedra ou transferiu mais de cem teólogos. Do Brasil fomos dois: a teóloga Ivone Gebara e eu. Em razão de entender a referida lógica, e lamentá-la, sei que eles estão condenados  fazer o que fazem na maior das boas vontades. Mas como dizia Blaise Pascal:”Nunca se faz tão perfeitamente  o mal como quando se faz de boa vontade”. Só que esta boa-vontade não é boa, pois cria vítimas. Não guardo nenhuma mágoa ou  ressentimento  pois exerci compaixão e misericórdia por aqueles que se movem dentro daquela lógica que, a meu ver, está a quilômetros luz da prática de Jesus. Aliás é coisa do século passado, já passado. E evito  voltar  a isso.

    6. Como o Sr. avalia o pontificado de Bento XVI? Soube gerenciar as crises internas e externas da Igreja?
    R/ Bento XVI foi um eminente teólogo mas um Papa frustrado. Não tinha o carisma de direção e de animação da comunidade, como  tinha João Paulo II. Infelizmente ele será estigmatizado, de forma reducionista, como o Papa onde grassaram os pedófilos, onde os homoafetivos não tiveram reconhecimento e as mulheres foram humilhadas como nos USA negando o direito de cidadania a uma teologia feita a partir do gênero. E também entrará na história como o Papa que censurou pesadamente a Teologia da Libertação, interpretada à luz de seus detratores, e não à luz das práticas pastorais e libertadoras de bispos, padres, teólogos, religiosos/as e leigos que fizeram uma séria opção pelos pobres contra   a pobreza e a favor da vida e da liberdade. Por esta causa justa e nobre foram incompreendidos por seus irmãos de fé,  e muitos deles presos, torturados e mortos pelos órgãos de segurança do Estado militar. Entre eles estavam bispos como Dom Angelelli da Argentina e Dom Oscar Romero de El Salvador. Dom Helder foi o mártir que não mataram.  Mas a Igreja é maior que seus papas e ela continuará, entre sombras e luzes, a prestar um serviço à humanidade, no sentido de manter viva a memória de Jesus, de oferecer uma fonte possível de sentido de vida que vai para além desta vida. Hoje sabemos pelo Vatileaks que dentro da Cúria romana se trava uma feroz disputa de poder, especialmente entre o atual Secretário de Estado  Bertone e o ex-secretário Sodano já emérito. Ambos tem seus aliados. Bertone, aproveitando as limitações do Papa, construiu praticamente um governo paralelo. Os escândalos de vazamento de documentos secretos da mesa do Papa  e do Banco do Vaticano, usado pelos milionários italianos,alguns da mafia, para lavar dinheiro  e mandá-lo para fora, abalaram muito o Papa. Ele foi se isolando cada vez mais. Sua renúncia se deve aos limites da idade e das enfermidades mas agravadas por estas crises internas que o enfraqueceram e  que ele não soube ou não pode atalhar a tempo.

    7. O Papa João XXIII disse que a Igreja não pode virar um museu mas uma casa com janelas e portas abertas. O Sr. acha que Bento XVI não tentou transfomar  a Igreja novamente em algo como um museu?
    R/ Bento XVI é um nostálgico da síntese medieval. Ele reintroduziu o latim na missa, escolheu vestimentas de papas renascentistas e de outros tempos passados, manteve os hábitos  e os cerimoniais palacianos; para quem iria comungar, oferecia primeiro o anel papal para ser beijado e depois dava a hóstia, coisa que nunca mais se fazia. Sua visão era restauracionista e saudosista de uma síntese entre cultura e fé que existe muito visível em sua terra natal, a Baviera, coisa que ele explicitamente comentava. Quando na Universidade onde ele estudou e eu tambem, em Munique, viu um cartaz me anunciando como professor visitante para dar aulas sobre as novas fronteiras da teologia da libertação pediu o reitor que protelasse sine dia o convite já acertado. Seus ídolos teológicos são Santo Agostinho e São Boaventura que mantiveram sempre uma desconfiança de tudo o que vinha do mundo, contaminado pelo pecado e necessitado de ser resgatado pela Igreja. É uma das razões que explicam sua oposição à modernidade que a vê sob a ótica do secularism e do relativismo e for a do campo de influência do cristianismo que ajudou a formar a Europa.

    8. A igreja vai mudar, em sua opinião, a doutrina sobre o uso de preservativos e em geral a moral sexual?
    R/ A Igreja deverá manter as suas convicções, algumas que estima irrenunciáveis como a questão do aborto e da não manipulação da vida. Mas deveria renunciar ao status de exclusividade, como se fora a única portadora da verdade. Ele deve se entender dentro do espaço democrático, no qual sua voz se faz ouvir junto com outras vozes. E as respeita e até se dispõe a aprender delas. E quando derrotada em seus pontos de vista, deveria oferecer sua experiência e tradição para melhorar onde puder melhorar e tornar mais leve o peso da existência. No fundo ela precisa ser mais humana, humilde e ter mais fé, no sentido de não ter medo. O que se opõe à fé não é o ateismo, mas o medo. O medo paraliza e isola as pessoas das outras pessoas. A Igreja precisa caminhar junto com a humanidade, porque a humanidade é o verdadeiro Povo de Deus. Ela o mostra mais conscientemente mas não se apropria com exclusividade desta realidade.

    9. O que um futuro Papa deveria fazer para evitar a emigração de tantos fiéis para outras igrejas, e especialmente pentecostais?
    R/ Bento XVI freou a renovação da Igreja incentivada pelo Concílio Vaticano II. Ele não aceita que na Igreja haja rupturas. Assim que preferiu uma visão linear, reforçando a tradição. Ocorre que a tradição a partir do seéculo XVIII e XIX se opôs a todas as conquistas modernas, da democracia, da liberdade religiosa e outros direitos.Ele tentou reduzir a Igreja a uma fortaleza contra estas modernidades. E via no Vaticano II  o cavalo de Tróia por onde elas poderiam entrar. Não negou o Vaticano II mas o interpretou à luz do Vaticano I que é todo centrado na figura do Papa com poder monárquico, absolutista e infalível. Assim se produziu uma grande centralização de tudo em Roma sob a direção do Papa que, coitado, tem que dirigir uma população católica do tamano da China.Tal opção trouxe grande conflito na Igreja até entre inteiros episcopados como o alemão e frances e contaminou a atmosfera interna da Igreja com suspeitas, criação de grupos, emigração de muitos católicos da comunidade e acusações de relativismo e magistério paralelo. Em outras palavras na Igreja não se vivia mais a fraternidade franca e aberta, um lar espiritual comum a todos.  O perfil do próximo Papa, no meu entender, não deveria ser o de um homem do poder e da instituição. Onde há poder inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a sua situação moral, étnica e política. Deveria tomar como lema a frase de Jesus  que já citei anteriormente:”Se alguém vem a mim, eu não o mandarei embora”, pois acolhia a todos, desde uma prostituta como Madalena até um teólogo como Nicodemos. Não deveria ser um homem do Ocidente que já é visto como um acidente na história. Mas um homem do vasto mundo globalizado sentindo a paixão dos sofredores e o grito da Terra devastada pela voracidade consumista. Não deveria ser um homem de certezas mas alguém que estimulasse a todos a buscarem os melhores caminhos. Logicamente se orientaria pelo Evangelho mas sem espírito proselitista, com a consciência de que o Espírito chega sempre antes do missionário e o Verbo ilumina a todos que vem a este mundo, como diz o evangelista São João. Deveria ser um homem profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos para juntos manterem viva a chama sagrada que existe em cada pessoa: a misteriosa presença de Deus. E por fim, um homem de profunda bondade, no estilo do Papa João XXIII, com ternura para com os humildes e com firmeza profética para denunciar quem promove a exploração e faz da violência e da guerra instrumentos de dominação dos outros e do mundo. Que nas negociações que os cardeais fazem no conclave e nas tensões das tendências, prevaleça um nome com semelhante perfil. Como age o Espírito Santo ai é mistério.Ele não tem outra voz  e outra cabeça do que aquela dos cardeais.  Que o Espírito não lhes falte.