Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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30 de nov de 2015

#MeuAmigoSecreto pede escuta para dizer que está calado


novembro 30, 2015 13:32
#MeuAmigoSecreto pede escuta para dizer que está calado
Falo das manifestações de homens que bateram o pezinho exigindo escuta, palco e plateia para seu quase silêncio diante das vozes queixosas das mulheres na campanha! Os distintos senhores não abrem mão do protagonismo, mesmo calados. Ocorre que as mulheres se cansaram (faz tempo) de carregar nas costas o fardo da responsabilidade de transformação dos homens. Já gritaram lá atrás: meninos, cresçam, tirem o babador! Mas os rapazes continuam chatos e insistentes
Por Cidinha da Silva*
A campanha #MeuAmigoSecreto ainda tem pano para a manga e suscita reavaliações. No primeiro dia, por exemplo, tive acesso a textos irônicos e divertidos. Eu mesma escrevi alguns, contudo, a catarse foi tomando tons sombrios e uma dor imensa escapava de vários relatos, bem como do silêncio de muitas mulheres, atestado de sua impossibilidade de soltar a voz.
Compreendo que homens empenhados em melhorar, até mesmo os meramente esforçados, sintam-se desconfortáveis por causar tantas dores, infortúnio,  desvalorização humana, de maneira não tão consciente. Acolho também que não queiram ser acossados pelos pares de espécie, de machismo mais rudimentar. Só não dá para responsabilizar as mulheres por mais essa fatura.
Falo das manifestações de homens que bateram o pezinho exigindo escuta, palco e plateia para seu quase silêncio diante das vozes queixosas das mulheres na campanha! Os distintos senhores não abrem mão do protagonismo, mesmo calados. Ocorre que as mulheres se cansaram (faz tempo) de carregar nas costas o fardo da responsabilidade de transformação dos homens. Já gritaram lá atrás: meninos, cresçam, tirem o babador! Mas os rapazes continuam chatos e insistentes.
Compreendo também que os homens não queiram se identificar com estupradores como o monstro do Amapá que estuprou ao longo de meses as cinco filhas, de idades entre cinco e doze anos e alegou “não ter feito nada, não” porque “era tudo rapidinho.” Mas daí a querer que as mulheres, além de se preocuparem com  essas meninas e com as outras meninas do mundo na mesma situação, zelem pela imagem dos homens que não são assim é demais!
Isso lembra o cliente na agência de correios, constrangido porque outro de sua espécie urinava na árvore em frente. A saída encontrada foi se diferenciar reclamando a plenos pulmões sobre a estupidez do bruto. Ora, ora, deixe pelo menos os ouvidos das mulheres em paz, já que os olhos são obrigados a ver aquilo. Se quiser mesmo mudar alguma coisa, vá até lá e fale com o sujeito, procure a polícia e exija providências.
Enfim, faça qualquer coisa que não seja alugar as mulheres com queixumes de homem exposto por um companheiro de espécie não-civilizado. Mas para tomar esse tipo de atitude ele pensa e repensa, porque o sujeito pode ser violento, pode ter uma turma. Ele tem filhos em casa, sabe como é.
Autoimagem é tudo, sabemos. Mas talvez fosse saudável os boys pararem de se achar tão exageradamente especiais. Tão únicos. Humildade não é matéria de selfmarketing. É a outra pessoa quem reconhece atitudes despretensiosas na gente. Dizer “eu sou o cara, vejam como sou diferente dos machos da esquina, dos escrotos de todo dia” éselfmarketing barato, de principiante. Sejam mais profissionais, pelo menos. Depois não reclamem quando forem tratados como meros machos letrados e lustrosos.
(*) Cidinha da Silva é escritora. Publicou, entre outros, Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013) e Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014). Despacha diariamente em sua fanpage  

28 de nov de 2015

As mensagens enviadas pela campanha de uma ONG para localizar racistas

 Por Cidinha da Silva


A campanha da ONG
A campanha da ONG

A campanha “Racismo virtual, as consequências são reais”, da ONG de mulheres negras Criola, do Rio de Janeiro, emite algumas mensagens importantes para a sociedade brasileira.
Trata-se de uma ação aparentemente simples que começou pela identificação de comentários racistas postados no Facebook, dirigidos à jornalista Maria Júlia Coutinho, da TV Globo.  Prosseguiu com a localização georreferencial das postagens por meio da ferramenta GeoTag e finalizou com a instalação de outdoors nas regiões de origem dos comentários.
Eis a primeira mensagem: se uma ONG consegue localizar pessoas ou grupos racistas em distintos lugares no Brasil, por que a polícia por meio de seu sistema complexo e inteligente de rastreamento não conseguiria?
Outra mensagem demarca o lugar  da sociedade civil organizada que, a partir dos anos 1990, vem mostrando aos governos como se faz e ocupa vazios deixados pelo Estado, no que tange a políticas públicas diversas de Direitos Humanos.
A terceira é que os métodos de enfrentamento do racismo precisam ser consonantes com o século XXI e suas tecnologias. Ainda mais no Brasil, país no qual a consciência sobre a vigência do racismo, seu modus operandi e danos decorrentes ainda se restringe às pessoas alvejadas por ele. A internet atinge milhões de pessoas, potencializa agressões, mas é vocacionada, igualmente, para espalhar sementes educativas.
Veja-se o exemplo do projeto  PLP 2.0 (Promotoras Legais Populares) das ONGs Geledés – Instituto da Mulher Negra (SP) e Themis – Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero (RS), vencedoras de concurso promovido pelo Google. As duas instituições estão desenvolvendo um aplicativo para apoiar mulheres vítimas de violência doméstica. O programa aciona diretamente as redes de atendimento (delegacias, Defensoria Pública, etc), grava áudio e vídeo pelo celular, constituindo assim, a prova do crime e agilizando a resposta às mulheres agredidas.
Embora saiba-se que o racismo é um comportamento socialmente discriminável, com o qual ninguém, além dos racistas declarados, quer se identificar, a quarta mensagem aponta a necessidade de criar uma opinião pública favorável, com características de massa, para combatê-lo de maneira mais eficaz.
Para deflagrar processos educativos em casa, na família, na escola e em outros meios de interação social, além da superficial e protocolar recriminação a atos racistas. Também para impulsionar o aperfeiçoamento de instrumentos legais de tipificação e punição ao crime.
Por fim, as mulheres negras definitivamente entraram na pauta como sujeitos políticos ativos e plenos de direitos. E sua atuação não tem deixado pedra sobre pedra, nem espaço para que os racistas manipulem suas máquinas digitais debaixo da cama. As coisas estão mudando e serão forçadas a mudar mais.
(Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).
Cidinha Silva
Sobre o Autor
Cidinha da Silva, mineira de Belo Horizonte, é escritora. Autora de "Racismo no Brasil e afetos correlatos" (2013) e "Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil" (2014), entre outros.

27 de nov de 2015

A campanha #meuamigosecreto viralizou e a casa do machismo virtual caiu


novembro 26, 2015 17:32
A campanha #meuamigosecreto viralizou e a casa do machismo virtual caiu
hashtag #meuamigosecreto constituiu-se como movimento internáutico divertido e criativo. Primou pela ironia de denúncia das relações de poder assimétricas implícitas em certas práticas e atitudes. Uma proposta abrangente, pois abriu espaço para vozes opositoras ao racismo, à misoginia, à LGBTfobia e à heteronormatividade
Por Cidinha da Silva*
A campanha eletrônica #primeiroassédio, proposta pelo blogue feminista Think Olga, deflagrou o processo de libertação da voz de milhares de homens e mulheres na internet, relatando a primeira experiência ou lembrança de assédio sexual.
O evento ocorreu em resposta ao assédio sofrido por Valentina, criança de 12 anos, participante do reality televisivo Master Chef Júnior. Na ocasião, a menina foi tratada como presa de pedófilos que, por meio de trocadilhos, memes e piadas, faziam previsão do tempo de maturação de seu corpo para estuprá-la. Os depoimentos foram doloridos, mas libertadores para as pessoas que depuseram e, principalmente, para as leitoras, vítimas de abusos.
Campanha subsequente, #meuamigosecreto, cuja maternidade ainda não foi reivindicada, propôs que as mulheres expusessem situações desagradáveis vivenciadas com um homem ou presenciadas de forma direta ou indireta, trocando o nome do sujeito pela hashtag. Houve tanta participação de artistas, parlamentares, intelectuais, ativistas políticas e, acima de tudo, gente comum sem maiores adjetivações, que a campanha viralizou nas redes sociais.
Um meme bastante representativo criou um amigo secreto para a presidenta Dilma: #meuamigosecreto ainda não aceitou que perdeu a eleição. E quer o poder a todo custo, completaria.
Correntes contrárias à campanha se insurgiram. Ora vindas de mulheres, ora de homens. As primeiras acusaram as protagonistas de #meuamigosecreto de “não terem o que fazer.” Definiram-se também como mulheres diretas e guerreiras demais para participar de brincadeira tão insignificante. Mas os homens, principalmente, culpabilizaram as mulheres e as aconselharam a escolher melhor seus amigos.
Eles não compreenderam ou não quiseram compreender que as duas campanhas em tela superam as inócuas #somostodosmaju/taís, entre outras. Aquelas abriram espaço para a manifestação de um eu coletivo, potencialmente mobilizador de mudanças, mesmo no plano simbólico. Possibilitaram a constituição e exposição de arquétipos opressores. Escancararam as atitudes de homens em situação de poder, professores, sindicalistas, diretores de escolas, de programas midiáticos, de blocos carnavalescos, de políticos, bandas, entre outros que oprimem as mulheres desse lugar.
A meu ver, a hashtag #meuamigosecreto constituiu-se como movimento internáutico divertido e criativo. Primou pela ironia de denúncia das relações de poder assimétricas implícitas em certas práticas e atitudes. Uma proposta abrangente, pois abriu espaço para vozes opositoras ao racismo, à misoginia, à LGBTfobia e à heteronormatividade também.
Gerou ainda uma hashtag complementar, #minhaamigasecreta. Pudemos ler textos interessantes como: “#‎minhaamigasecreta e #‎meuamigosecreto têm a pele branca e nunca abrem mão do protagonismo. Acreditam que, na música ‘Olhos coloridos’, ‘todo brasileiro’ realmente antecede o trecho ‘tem sangue crioulo’. Na Vila Madalena (bairrocult de São Paulo), usam turbante e aumentam o volume do cabelo pra dizer que são negros, ainda que tenham todas as vantagens sociais de ter a pele clara. Descobriram a mitologia africana e acham que Orixá é horóscopo. Acham justo, sem nunca ter sofrido racismo, se inscrever como cotista em concursos públicos. Podem também ser vistos na versão cosplay indígena, isso depende das vibrações do dia”.
Houve também os que acusaram a campanha de transformar a web em mar de indiretas. Ora, ora, o clima catártico é norma nas redes sociais, ou não? Deixou de ser e não percebi? Por que a catarse contra o racismo, a misoginia, a LGBTfobia é tão incômoda? Por óbvio, as mulheres quando exercem o poder da palavra, de maneira autônoma, sem tutela, desconstroem o poder dos machos, machistas e heteronormativos de plantão.
Os homens poderiam se sentir convidados ao autoexame de próstata a partir das tags, ao invés de se defenderem como meninos mimados que deixaram o pirulito cair no chão. Convido-os a ouvir este sujeito lúcido: “Galera (outros homens), cês tão ligado que esses #‎meuamigosecreto que as mina tão falando e vocês tão dizendo ‘arranjem amigos melhores’, são a gente né? É a gente. Nós tudo. Os homens. Nas suas mais variadas formas. A gente é machista, galera. É racista também. E homofóbico. É bom virem lembrar a gente porque dá pra esquecer quando você se coloca como aliado e tal. Mas se você ler cada relato com calma não duvido que vai encontrar um ou outro (ou vários) que remetam a alguma coisa que você já fez mas acha que não faz. A treta não é só pro outro cara não. É pra você e eu também”.
Para finalizar, a campanha #meuamigosecreto anunciou em neon outra, vigorosa há 24 anos, o que elimina a acusação de “modinha” da internet. Falamos dos 16 Dias de Ativismo Pelo Fim da Violência Contra a Mulher, iniciada em 1991, em 130 países. O dia 24 de novembro, marco de lançamento da hashtag #meuamigosecreto, antecedeu o Dia Internacional da Não-Violência Contra as Mulheres (25 de novembro), data de abertura do período de 16 dias a ser finalizado no Dia Internacional de Direitos Humanos (10 de dezembro).
E depois do destaque em neon, convocamos a placidez de um poeta para fechar esta crônica: “O mais lindo desse #‎meuamigosecreto é que, no fundo, ele propõe um diálogo, dá uma oportunidade para quem oprime se olhar no espelho e refletir. O opressor que vive em mim lê e é todo ouvidos. Nada a postar, só a refletir. Obrigado, amigas.”
(*) Cidinha da Silva é escritora. Publicou, entre outros, Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013) e Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014). Despacha diariamente em sua fanpage 

26 de nov de 2015

O homem azul do deserto



novembro 26, 2015 11:30
O homem azul do deserto
Crônica de Cidinha da Silva conta a história de um encontro com o ‘homem azul do deserto’, como são conhecidos os integrantes do povo Tuareg, durante uma viagem pela Bahia
Por Cidinha da Silva*
Bodô, meu irmão, descobri sua origem. Você é Tuareg! Tuareg do Vale do Jequitinhonha.
Como descobri? Por acaso estelar. Pera que te conto. Escrevi o livro do Manu, um menino que pescava estrelas no céu do Máli, do Burkina Faso, do Níger, de algum lugar por ali. Coisa que para nós, de Minas, gente que não tinha mar antes da lama em Mariana, era a invenção mais natural do mundo.
Pois bem, o desejo de Manu pescar estrelas foi inspirado por lenda do povo Tuareg, que diz que os Homens Azuis do Deserto, como são conhecidos, quando se perdem nas areias profundas do Norte da África, espetam uma estrela com a lança e ela os guia no caminho de volta.
Tá! Você não entendeu ainda por que você é um Tuareg e ainda menos por que eles são azuis. Calma, moço! Pescaria exige paciência. Já explico. É o seguinte, os Tuareg são um povo nômade que vive na região onde se passa a história do Manu. Eles usam aquela túnica comprida de mil e uma utilidades que protege do calor escaldante do dia e do frio cortante das madrugadas no deserto. A túnica é azul e quando o usuário transpira, umedece a tinta, uma espécie de anil. A cor impregna a pele, deixando-a com tom azulado. Por isso, há séculos, eles são conhecidos como os Homens Azuis do Deserto.
Agora, você é um Tuareg porque encontrei outro Tuareg que é idêntico a você. A mesma pele acobreada, os mesmos lábios de café, os cílios grandes e espessos que dão um charme especialíssimo ao olhar. Sério, mano! Vocês parecem gêmeos.
Quer saber como conheci um Tuareg se nunca estive pelo Norte da África, não é? Foi numa das Áfricas brasileiras. Viajávamos de Salvador para a Boa Morte, em Cachoeira, e nos cruzamos na rodoviária. Do deserto para o Paraguaçu, brinquei.
Uma amiga comum nos apresentou. A princípio rolou uma tensão. Eu e minha velha mania de tentar identificar de onde as pessoas são pelo sotaque. O dele tinha uma coisa rascante em algumas sílabas que lembrou Bernd, amigo alemão. Vixe! O homem virou bicho. Alemão, eu? Não deixei por menos. E os alemães negros? Não sabia da existência deles? Antes que começássemos a brigar, a Silvane jogou água e disse que ele era Tuareg. Rapaz, foi uma emoção enorme e de imediato me lembrei de você.
Baixamos as armas, conversamos um pouco. Eu falei do Manu e disse que só havia visto homens Tuareg em cima de camelos imensos na televisão e talvez por isso imaginasse que eles fossem muito altos. Mas até na altura se parecem contigo, Bodô. São pequenos, do nosso top, os Banto.
Por fim, perguntei de que país ele era e veio a resposta que só poderia vir de um africano de pensamento descolonizado. Eu sou Tuareg! Meu passaporte é do Máli.
De quebra compreendi o imponderável. Do que falo? De você, meu amigo. De suas escolhas futebolísticas. Homem preto, mineiro, sertanejo, tamborzeiro, de esquerda e não é atleticano. E por mal de todos os pecados é cruzeirense. Só pode ser reminiscência da origem Tuareg. Saudações alvinegras, menino celeste!
(Foto: Flickr/foto_morgana)

24 de nov de 2015

Como parlamentares negros exemplificam a discriminação racial em vídeo




Por Cidinha da Silva

O 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, paulatinamente se transforma em semana e mês da consciência negra. Sem dúvidas, uma vitória do Movimento Negro contemporâneo, que tem instado pessoas afrodescendentes de frágil identidade negra a se posicionar, a referir, pelo menos, o tempo histórico em que vivem.

Particularmente, como figura pública, só narro histórias pessoais de discriminação racial se elas tiverem um potencial muito grande de mobilização coletiva e se eu for capaz de contextualizá-las no espectro amplo de funcionamento do racismo para todas as pessoas negras. Não me interessa mobilizar a compaixão fajuta de quem quer que seja.

Emblemático da superficialidade de abordagem é o vídeo de um portal de notícias http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2015-11-19/a-primeira-frase-racista-quem-voce-pensa-que-e-neguinho.html que entrevista oito parlamentares negros sobre como foram e ainda são alvo de preconceito e discriminação motivados por racismo.

A história contada pelo deputado Vicentinho no vídeo, sobre sua irmã, escolhida para coroar a santa na igreja, é um bom exemplo. Na hora H ela é substituída por uma colega branca no lugar de honra, ao tempo em que ela, a criança negra, excelente cantora, é escondida debaixo da mesa do altar e de lá emite sua bela voz. Isso nos comove e pode até nos fazer chorar. Mas e daí? A pergunta que não quer calar é quando deixaremos de tratar o racismo como evento doméstico que nos magoa?

O culto à individualidade, à pessoalidade da discriminação racial sofrida, reforça as chaves mobilizadoras de afetos correlatos à prática do racismo no Brasil. Os agentes que ridicularizam certas situações de discriminação, bem como as pessoas discriminadas, são os mesmos que se sensibilizam com histórias nas quais o negro não reage. Apenas aquiesce e sofre.

As figuras públicas não podem compactuar com esse modelo, precisam rompê-lo. Não penso que seja possível combater o racismo amolecendo corações que derramam uma lágrima quando ouvem a história triste da infância do deputado e logo a seguir jogam lixo na rua e riem, porque estão contribuindo para que os garis “tenham o que fazer”. O racismo é um bicho feio. Horroroso. Letal! E assim deve ser tratado. Sem açúcar.

Dos oito entrevistados, apenas dois, Orlando Silva, PCdoB SP, e Antônio Brito, PTB BA, conseguem sair do campo do afeto e discutir, mesmo que de maneira mínima, o racismo estrutural. Mesmo sabendo que os políticos tradicionais tentem se aproximar da linguagem utilizada pelo povo, seja para impressionar, para compor, para arregimentar, para ventar junto com o vento, seja lá para o que for, e saibamos também que o nível médio de discussão racial no Brasil é rasteiro, insuficiente para os grandes passos necessários, podemos exigir mudanças.

Temos o direito de fustigar esses homens e mulheres negros na política a trocar o motor e a pisar no acelerador, para sairmos do ritmo ditado pelos afetos correlatos ao racismo na corrida da equidade racial. Nossa desvantagem é imensa. Começamos muito atrasados em relação ao tiro de largada.

Oxalá, saiamos de cima do muro discursivo e toquemos fogo na Babilônia, ou, pelo menos, tinjamos de anilina vermelha a água das fontes das praças públicas do país, a exemplo da campanha baiana Reaja. Desse modo, forçaremos os passantes a se depararem com a alegoria do sangue negro jorrado no chão do cotidiano.