Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

10 de jul de 2014

Parecia replay, mas era mesmo um gol atrás do outro!

Por Cidinha da Silva



O que dava a sensação de repeteco não era a velocidade dos gols, mas o modus operandi dos tentos: troca de passes dentro da área brasileira e gol! Isso foi humilhante para uma equipe profissional. Parecia partida de Playstation quando elegemos um time amador como adversário ou a seleção sub-15 de Perdeirópolis contra a seleção adulta, aguerrida e taticamente organizada da Alemanha. Deu no que deu, 7 x 1.

Quando James Rodriguez chorou na derrota colombiana para o Brasil teve os ombros de David Luíz para ampará-lo. E agora? Quem teria estatura para secar as lágrimas do armador-mor, ex-zagueiro? Só Marcelo, fiel escudeiro, lateral que me lembraria Júnior, tivesse mais precisão nos passes.

Em um dos 5 gols dos primeiros 30 minutos, Júlio César fez aquela ceninha que os goleiros fazem: poxa, a bola passou por aqui, deixa me jogar no chão rapidinho e gerar a ilusão de quase tê-la interceptado no reflexo. Em outro dos 7 gols, já no segundo tempo, o arqueiro levantou a mãozinha para certificar-se de que a bola passaria por cima da trave, mas, para descrédito de sua autoconfiança, a bola entrou. Talvez Júlio tenha querido imitar o goleiro alemão em partida anterior, na qual fez parecer moleza uma defesa dificílima, ao fazê-la com única mão, naturalmente e sem espalhafato.

Na hora da entrevista individual, depois de lembrar às pessoas que em 2010 errara, mas em 2014 não teve culpa da desclassificação (não teve mesmo, pouca diferença faz perder por 5 ou  7 gols, são apenas dois números ímpares crescentes), Júlio César  no melhor estilo confessional Caras-Ana Maria Braga, avisou que estava ali a pedido do professor Parreira, ou seja, ele continuava sendo o homem de confiança dos big bosses, o sobrevivente que explica as causas do naufrágio pensando em como a posteridade analisará seu discurso. É de domínio público que, para os futebolistas brasileiros só importa o primeiro lugar, o que permitiu a Júlio César esquecer que o Brasil ainda disputaria o terceiro. Assim, o goleiro Mais Você despediu-se da galera via TV e afirmou que, como os outros jogadores, iria para casa abraçar os filhos e refazer-se no conforto da família. E ainda há os que criticam a vaidade de Cristiano Ronaldo. Júlio César é tão vaidoso quanto, só não aciona o espelho do telão como Cristiano. 

Ah... Reinaldo, meu rei, vem jogar de novo! Saudade de um tempo em que o Brasil jogava parecido com os Estados Unidos de 2014. Em que a seleção brasileira era citada pelos adversários com o mesmo respeito que mencionam hoje, Argélia, Irã, Costa Rica, Estados Unidos, gente que dá trabalho em campo, que encara o futebol como conjunto de atletas em performance para vencer, não como show de garotinhos individualistas que se acham gênios porque dão canetas e chapéus, regidos por um maestro obsoleto que, junto com os pupilos permite que o time adversário troque passes em sua área e brinque de fazer gols.

Usaram o subterfúgio da pane para explicar a vitória acachapante da Alemanha. Que apagão que nada, foram minutos de coroamento de um processo troncho que se arrasta há anos. Sorte de Neymar que não participou do jogo e safou-se da crucificação, porque, vamos combinar em segredo, com ele ou sem ele, a Alemanha seria a mesma, letal!

Por fim, Boateng e Fred foram parecidos em campo, não se ouvia o nome deles durante a narração. O primeiro, diferente do irmão ganês Kévin-Prince, é um zagueiro brucutu, pesadão, lento, lembra os gigantes que China e Rússia costumavam colocar nos garrafões dos jogos de basquete dos anos 80 com o objetivo de ganhar a disputa de bolas altas e fazer algumas cestas. Boateng não teve trabalho, por isso não foi mencionado. Os rubro-negros alemães desarmavam as jogadas brasileiras ou mesmo impediam que fossem armadas, por isso a bola não chegava até o zagueiro. Fred, ex-atacante, não recebia bolas porque dava a sensação de não ter comparecido à Copa e não havia mesmo como narrar uma atuação que inexistiu.

Fico me perguntando se Felipão, o supersticioso Felipão, que vestia agasalho numa temperatura de 40 graus, segundo as más línguas porque aquele fôra o agasalho de partidas vitoriosas, recebeu uma conta de Oxóssi ou de Ogum (a depender da nação de quem deu o presente) de Edilson ou Vampeta (quem sabe) e colocou no pescoço acreditando que tudo daria certo. Ledo engano, tola ilusão. Se o indivíduo não tiver responsabilidade e competência na parte que lhe cabe, não tem Orixá que resolva. Faltou combinar com os russos. Os alemães parecem ter combinado com Exu, o arteiro. 

8 de jul de 2014

Lágrimas de homem abalam o machismo no futebol. E o racismo? Voa impávido em céu de brigadeiro!


Por Cidinha da Silva

As lágrimas dos jogadores brasileiros pressionados pelo terror de serem eliminados da Copa das Copas ainda nas oitavas de final incomodaram muita gente. A fragilidade dos homens, quando exposta de formas convencionadas como algo característico das mulheres, neste caso, o choro copioso em situação de tensão e desespero, mexe com as estruturas enrijecidas de muita gente. Para o bem e para o mal.

Há os que se sentem incomodados porque, em síntese, acreditam que homens são machos e não devem chorar, dentre outros motivos, porque o choro denota fraqueza e os jogadores (de futebol) estão em campo como soldados para guerrear. Outros (bem poucos) defendem o choro como expressão válida de sentimentos, como válvula de escape legítima ao alcance dos canais lacrimais de todo ser humano, inclusive dos homens, humanos também. Afinal, ninguém quer passar à História com as marcas da derrota e do fracasso.

A mídia esportiva, os atletas e o espírito de novo-rico da maioria, amadurecerão muito se mergulharem profundamente na potencialidade curativa do choro. Lágrima é palavra abafada que escapa quando a maré dos olhos vaza e derrama pela face proteínas, sais minerais e gordura que lubrificam e limpam os olhos, retiram véus, diminuem a acidez e, na situação desses homens-atletas, resgata a humanidade do filme da vida vivida antes de chegar à riqueza e à fama, que pesa sobre os ombros.

O choro da Seleção Canarinho balança os pilares do machismo mais evidente, tal qual o canto do pássaro pode tocar os corações mais duros. Entretanto, a dor, a humilhação e a angústia deflagrados nas pessoas-alvo do racismo estão longe de comover os corações daqueles brasileiros que se consideram macacos, transbordantes de orgulho e “amor” nos versos cantados na arquibancada dos estádios.

O capitão da Colômbia foi vaiado ostensivamente depois de ler discurso da FIFA instando todos os fãs de futebol a combaterem a discriminação racial nos campos e fora deles. Em meio aos emissores da vaia não há número significativo de negros e quando a elite branca predominante no estádio é adjetivada, a elite branca de fora (da mídia hegemônica, da indústria das celebridades e do entretenimento, das rodas intelectuais, dos blogues descolados) sente-se incomodada e vai a campo em defesa própria. Não, não somos racistas! Racismo é coisa dos Estados Unidos que os colonizados negros brasileiros querem importar. Quanto às crianças brancas que entram de mãos dadas aos jogadores em todos os jogos da Copa das Copas, é lógico que não temos culpa de serem todas brancas. Aliás, não vemos problema nisso, como não existe problema também de serem brancos os torcedores que enchem os estádios desde a Copa das Confederações.

Por outro lado, a crescente presença de jogadores negros nas seleções da França, Bélgica e Holanda, fortalece a velha máxima de que “o negro é bom de bola” e por isso está quase superando os brancos em seleções tradicionais europeias. Do lado de cá, atentamos para os nomes e sobrenomes desses jogadores, nascidos nas colônias em África e Caribe ou filhos de migrantes africanos e caribenhos e, por contingência, gerados nos países brancos. Pobres, majoritariamente, que, como os outros negros diaspóricos e africanos têm no futebol, ao qual dedicam a vida desde crianças, rara possibilidade de ascensão social. Assim se manifesta e se perpetua a versão mais palatável do racismo.

A versão mais dura, tão cotidiana quanto a primeira, manifestou-se após a agressão de Juan Camilo Zúñiga, lateral-direito da Colômbia, ao brasileiro Neymar, levando-o a fraturar uma vértebra. Atitude condenável e passível de grave punição por prática antidesportiva, num jogo em que o Brasil também bateu muito e o árbitro foi conivente com as agressões que correram a solto pelos dois lados. Em sua defesa, Zúñiga argumentou que o lance infeliz não passou de uma jogada normal e sem intencionalidade de machucar. Sim, “normal” no escopo da violência reinante no jogo, mas
não na prática do futebol.

A crítica, a ira e a revolta dos torcedores tupiniquins foram deslocadas da violência praticada por Zúñiga para sua condição de homem negro. Insultos racistas e ameaças de morte foram dirigidos a ele e à mãe nas redes sociais. Xingamentos de ordem sexual foram impingidos à mãe e à filha de dois ou três anos, ameaçada também de estupro. Um show de horror racista, feminicida e pedófilo.

De todo o episódio salvam-se as atitudes exemplares de David Luíz. Alguém disse que ele é bom atleta e bom samaritano. É verdade. Ele está na contramão do evangelho do marketing pessoal. Pratica valores como a humildade, a integridade, o respeito, a compaixão, do modo ensinado pela tradição africana, a pedagogia do exemplo. Em um contexto de negação de aproximações com África, David Luíz reafirma a origem da cabeleira crespa de um homem socialmente branco.

Em entrevista à TV colombiana, junto com James Rodriguez, adversário derrotado e amparado por ele, o menino dos cachinhos crespos de ouro, em bom portunhol, explicou que a garotada tem como modelo o cabelo dos jogadores famosos, mas isso não deve bastar aos musos que, por sua vez, devem também procurar se mostrar como homens grandiosos para inspirar os garotos pelos bons exemplos e firmeza de caráter.

5 de jul de 2014