Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

31 de mai de 2013

O que é do homem, o bicho não come!


Por Cidinha da Silva

A  televisão mostrou a bichona embolada dentro da caixa, doida para serpentear  no chão. A destinatária da encomenda, cuja identidade a polícia protegia, estranhou o peso da caixa e a movimentação interna. Largou o pacote no jardim e pediu socorro a uma rádio patrulha na rua, segundo informou no depoimento.

Os policiais levaram o imbróglio para a delegacia e quando abriram foi aquela correria. Uma jararaca preta e branca, adulta e faminta quase come a mão do desavisado que conversava com os amigos enquanto tirava os pregos das laterais da madeira. Sabe como eles resolvem tudo a bala, não é? Um deles quis logo atirar no réptil, outro o impediu, alertou sobre os possíveis problemas com a imprensa e o IBAMA. Trancaram a cobra na salinha onde a tinham libertado e foram buscar o pessoal do Butantã, enquanto as bolsinhas cheias de veneno do animal estufavam-lhe as bochechas .

A bicha deu trabalho para ser imobilizada. No Instituto recebeu água, comida, um cafuné na cabeça e tratamento para um ferimento. 

A polícia conduz as investigações considerando a  possibilidade de tráfico de animais silvestres e contrabando de veneno.  Cá para nós, isso é hipótese de cientista de laboratório. Falta a esses investigadores entendimento da alma humana.

Pensem comigo, como é que você recebe um pacote dos correios e chama a polícia? É porque você já desconfia da remessa, não é não? Suspeita o que pode ter lá dentro ou pelo menos tem indícios de quem seja o remetente e do que seja capaz de remeter.

Enviar jararaca pelos correios? Tenha fé em Deus! Tá na cara que isso é coisa de mulher traída! Traição de amante, de amiga, traição, traição! Traição é assim, dispara dentro do vivente um veneno sem antídoto que provoca necrose imediata no coração, falência renal e hemorragia intracraniana.

A jararaca era vingança de mulher abandonada. O marido deve ter trocado a remetente pela destinatária e deviam ser amigas, na certa, senão não haveria traição nem necessidade do simbolismo da cobra. Porque quem trai é amigo, gente de confiança. Inimigo não trai. Inimigo faz tocaia, dá o bote e está tudo nos conformes. Amigo traidor não, este atira pelas costas, escondido até pelo véu de fumaça de que está agindo para o seu bem, buscando o melhor para você.

Como assim? Toma o marido da outra e quer me enganar que deseja o melhor para ela? Qualequeé? Sou  obrigada a dizer que a destinatária tirou onda com a cara  da remetente e se deu mal.


E a melhor vocês não sabem. A cobra não picou a candidata a vítima, o veneno não entrou pelas veias, mas entrará por via oral. A pressão arterial da moça foi para as alturas com o susto e a médica consultada receitou Captopril, anti-hipertensivo ironicamente desenvolvido a partir do veneno da jararaca. É por isso eu digo: O que é da mulher, o bicho não come! 

30 de mai de 2013

Produtores culturais negros se reúnem em repúdio a decisão que suspendeu ditais para criadores negros

Por Comunicação Palmares

Série de encontros vai contar com a participação de agentes culturais de São Paulo, Bahia, Pernambuco e Maranhão para debater a suspensão dos editais de fomento à arte e cultura afro-brasileira do MinC

Produtores culturais, artistas e militantes do Movimento Negro reunidos pelo fim das práticas racistas no campo das artes e da cultura afro-brasileira. É a proposta da série de reuniões que acontecem no mês de junho, em diversas cidades brasileiras, a começar por São Paulo/SP no dia 03 e Salvador/BA em 07/05.  A Fundação Cultural Palmares (FCP) participa dos debates, em resposta aos anseios dos setores culturais organizados, para discutir a liminar que suspendeu os editais do Ministério da Cultura (MinC) destinados a produtores, criadores e pesquisadores negros.

Hilton Cobra, presidente da Fundação Palmares, avalia positivamente a mobilização das organizações sociais, em especial as do Movimento Negro, para debater sobre o tema. Para ele, essa posição reafirma a busca por uma política cultural justa, inclusiva e verdadeiramente democrática. “A FCP se une à gente negra para refletir sobre o significado de mais uma ameaça às políticas por equidade racial, buscando soluções para o impasse da suspensão dos editais para criadores negros do MinC. Estou certo de que sairemos vencedores dessa batalha”, expôs Cobra.

Até o momento, estão confirmadas as agendas em São Paulo e Salvador. Os encontros nas demais cidades estão em fase de articulação.

Primeiro encontro - Os debates tiveram início no Rio de Janeiro, no último dia 23/05, e contaram com a presença de Hilton Cobra, lideranças do Movimento Negro carioca, artistas e agentes culturais negros. No encontro foi decidido que o Movimento Akoben, em nome de todos os participantes, irá solicitar uma audiência com a ministra Marta Suplicy, no Rio de Janeiro, para discutir os caminhos de revogação da decisão da Justiça Federal que suspendeu os editais.


Agenda das reuniões com agentes culturais negros

São Paulo/SP
Data: 3 de junho de 2013
Horário: 19 horas
Local: Funarte, Alameda Nothmann, nº 1058, Auditório MinC, Campos Elíseos – São Paulo.
Mais informações: (11) 27664300; e-mail: fcp.sp@palmares.gov.br


Salvador/BA
Data: 7 de junho de 2013
Horário: 19 horas.
Local: Biblioteca Pública do Estado da Bahia: Rua General Labatut, 27, Barris, Salvador  - Bahia

Mais informações: (71) 8886.6706; e-mail: performancenegra@gmail.com

Antologia do quartinho de empregada no Brasil


Por Cidinha da Silva
Durante a realização do fórum de Vilas e Favelas e 11ª Semana Nacional de Museus / IBRAM, em maio deste ano, o MUQUIFU – Museu de Favelas e Quilombos Urbanos foi apresentado à população de Belo Horizonte. A  primeira exposição permanente do museu também foi aberta: Doméstica, da Escravidão à Extinção – Uma Antologia do Quartinho de Empregada no Brasil, com curadoria de Mauro Luiz Silva.
A respeito das trabalhadoras domésticas e sua luta por direitos, vale lembrar que a recente aprovação da PEC das Domésticas estremeceu os alicerces ainda intactos da casa grande. Ao lado do julgamento do Mensalão, no campo do judiciário, a Pec das Domésticas, no âmbito legislativo, promove mudanças paradigmáticas no tratamento destinado aos donos do poder (políticos do Mensalão) e às que nada têm (trabalhadoras domésticas) rumo à promoção da igualdade e da justiça social.
A que pilares da casa grande refiro?
1 – Ao hábito da classe mérdia de manter em casa alguém remunerado (mal remunerado) para fazer todo o trabalho chato e indesejado. Resquício dos tempos da escravidão quando os brancos tinham seu valor aferido pelo número de escravizados sob seu comando e posse.
2 – Ao hábito dos ricos e endinheirados de ter em casa trabalhadores aos quais possam mandar, humilhar e agredir.
3 – À estratégia de mal remunerar a esta categoria profissional e não reconhecê-la como aos demais trabalhadores, porque, afinal, domésticas trabalham dentro da casa dos patrões, dormem numa dependência especialmente pensada e construída para elas, o quartinho de empregada. É fundamental tratá-las assim para que as coisas se mantenham em seus devidos lugares. Para que a ideologia da casa grande prossiga inalterada.
4 – Dar à trabalhadora doméstica a sensação de que o empregador faz favor ao contratá-la. Como é sabido, os favores prestados para fidelizar  o favorecido a quem protagoniza o favor gera ônus. Objetiva criar um clima de gratidão por parte da trabalhadora doméstica, que leve-a a sentir-se honrada em trabalhar para aqueles patrões em jornada excessiva, sem uma legislação que a regule.
5 – A trabalhadora doméstica na mentalidade colonial da casa grande tem status inferior ao cachorro da casa que, por sua vez, merece tratamento vip. O cão pode circular por todos os compartimentos da moradia e fazer o que quiser em qualquer um deles, tendo a trabalhadora doméstica para limpar suas necessidades fisiológicas.
A PEC das Domésticas não apresenta novidades significativas para quem já cumpria os direitos trabalhistas da categoria, efetivamente, acrescenta 50 reais aos encargos por salário mínimo pago a uma trabalhadora. Entretanto, o mundo da casa grande veio abaixo. Esgotou-se o estoque de livros de ponto nas papelarias. O mercado dos relógios de ponto foi incrementado com vistas a registrar o tempo trabalhado, demarcar o inexistente horário do almoço e, acima de tudo, evitar o pagamento de horas extras, regulamentadas depois de 77 anos de lutas do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas.
A aprovação da PEC das Domésticas não traz mudanças significativas ao que a classe patronal desembolsa para remunerá-las, mas traz mudanças simbólicas na abolição inacabada da escravidão. É a última etapa do processo, hoje, 125 anos depois da assinatura da Lei Áurea.  É a lei que faltava para dar à trabalhadora negra o status humano que a exploração do trabalho doméstico lhe rouba.
O quarto de empregada arquitetado neste contexto representa na estrutura da casa grande (que pode ser também apartamento), a senzala contemporânea. O lugar-depósito de gente, desprovido de condições dignas de existir e de viver, acompanhado do respectivo banheiro.
Falar sobre o quartinho de empregada, então, diminutivo apenso às dimensões reduzidas e ao lugar de insignificância que ocupa, é discutir a mentalidade colonial da casa grande que, como no período da escravidão, valoriza ou desvaloriza as pessoas de acordo com a função exercida.
O quartinho de empregada, para as trabalhadoras domésticas, era o local onde, em horas mortas, elas podiam ouvir no rádio de pilhas colado ao ouvido, as canções de Carmen Silva, Evaldo Braga e Odair José. Narrativas das tristezas e desventuras de personagens muito parecidas com elas.

Hoje, mudou o aparelho sonoro, o rádio de pilhas virou smartphone e acompanha a trabalhadora ao longo do dia, no fone de ouvido. O repertório talvez tenha mudado, principalmente para as mais novas. Devem ter passado do romantismo da espera do príncipe encantado das músicas de Roberto Carlos para o tigrão pegador do funk, para a tigrona que não anda, desfila e quer ser capa de revista, além de tirar foto no espelho para colocar no Facebook. Mas a essência é a mesma de tempos antigos, mesmo que o repertório e o veículo para ouvi-lo sejam contemporâneos, a música é uma área de respiro no opressivo e abafado quartinho de empregada.

29 de mai de 2013

Deixem Neymar chorar em paz!


Por Cidinha da Silva
Chorar quando você tem vontade é uma conquista. Nem todo mundo depois de grande consegue fazê-lo. Neymar nem é chorão, mas foi só derramar umas lágrimas e os patrulheiros acenderam os faróis.
As lágrimas de crocodilo são fáceis de detectar: As de Feliciano franzindo a testa e apertando os olhos para ajudá-las a cair, enquanto acolhe Marina Silva no ombro são exemplares.
O choro dela, por sua vez, é mais difícil de categorizar porque a conhecemos, pelo menos a conhecíamos, ela nos representava e talvez, em nome disso, pensemos na possibilidade de que suas lágrimas digam  “meu Deus, o que estou fazendo da minha vida?”
As lágrimas do ex-goleiro Bruno, de Bola e Macarrão, comparsas no assassinato de Elisa Samúdio, prévias à decisão do júri, são crocodilagem grosseira que não iludem a ninguém. Se Ivone Maggi destilar lágrimas de sangue também não nos enganaremos. Saberemos identificá-las como chororô pela perda de posições de poder, de privilégios.
As lágrimas de Neymar, considerado o maior jogador do Brasil e das Américas em atividade, ao partir para a Europa, feliz, bem sucedido, menino que realiza sonho de menino, de tantos meninos não tão bons quanto ele, sonho de jogar no Barcelona, me parecem tão humanas e compreensíveis. Neymar carrega a esperança de fazer ressurgir o Barcelona de Messi, de Ronaldinho, o maior entre os melhores. Você não choraria?
Talvez, não. Chorar de alegria, de contentamento, diante do grande dia, da grande água, do imenso horizonte, é dádiva para poucos. O choro legitimado é o da culpa, da dor, do desespero, da revolta, da mágoa, da tristeza e Neymar pode ter chorado ao se despedir do Brasil, dos campos que o consagraram, dos companheiros, da torcida que o idolatra, do colo dos que o amam, porque mesmo sendo um jovem vitorioso, realizador de sonhos, inspiração para tantos sonhos e para tantos jovens e crianças, deve sentir medo do desconhecido, de não encontrar lá fora todo o amor, conforto e reconhecimento desfrutados por aqui.
Mesmo intrigada com a amargura que leva tantos a crucificá-lo, compreendo a frustração de ver as lágrimas de Neymar dominando a mídia, em detrimento de assuntos sérios e candentes. Para mim não seria motivo de descontentamento caso fossem abordadas com a profundidade merecida.
A lágrima é palavra abafada que escapa quando a maré dos olhos vaza e nos derrama pela face proteínas, sais minerais e gordura que lubrificam e limpam os olhos, retiram véus, diminuem nossa acidez.
Diante de tanta gente que na supermodernidade chora desesperada quando o celular não toca convidando para a comunicação vazia e intermitente dos viciados no uso do aparelho, eu me enterneço quando o canto de um passarinho depois da tempestade faz alguém chorar.

E enquanto as lágrimas comuns engrossam o temporal destes tempos, o pássaro das alegrias de Neymar escolhe lugar para o ninho. Voa, menino, voa!

24 de mai de 2013

Quem tem medo dos editais para as iniciativas culturais afro-brasileiras?


Por *Vilma Reis


No contexto das forças políticas os Movimentos Negros e de Mulheres Negras se organizam no país contra a reação conservadora que, se levanta contra as diferentes formas de reparação, seja no mercado de trabalho, no acesso a educação ou no acesso a recursos, para que um grupo majoritário da sociedade brasileira, a população negra, possa apresentar suas narrativas para as gerações atuais e deixe seu legado, na dramaturgia, na dança, na música ou em outra forma de manifestação da cultura, para as gerações vindouras. Essa manifestação do conservadorismo quando não permite a equidade, através de ações afirmativas, impede a partilha dos bens e recursos produzidas por todo povo brasileiro, evidenciando que é o racismo que estrutura o Brasil, onde o medo branco da onda negra permanece como um fenômeno longevo.

O Ministério da Cultura, conhecido como MinC, uma instituição com apenas 28 anos de existência, tão jovem como o recente período que o Brasil vive de intervalo de regimes autoritários, até 2012 o MinC seguia como se não houvesse divergência e vontade, por parte daqueles e daquelas que produz a cena cultural negra em sua diversidade, à demanda por acessar os recursos do Ministério. Fóruns, Conferências, Painéis, locais e nacionais, foram organizados, Cias, Coletivos, Grupos, Posses foram erguidas, sempre cumprindo uma missão secular de ofertar a cultura, não como produto da indústria mas como reflexão, alimento, transmissão, para nossas dores, respostas contundentes diante das tragédias, das alegrias e celebrações da memória.

Tornou-se praxe para os donos do poder quando um grupo negro se manifesta de uma forma mais arrojada, logo eles pensam ah! Vamos apoiar um projeto deles e eles não mais incomodam. Mas não é que os donos do poder ficaram perplexos quando diante de todas as ausências, desde 1944 fomos capazes de dizer o nosso texto, com o TEN – Teatro Experimenta do Negro, e bem antes produzimos um outro texto com Lima Barreto, e depois com Carolina Maria de Jesus, um século antes de Carolina, com Maria Firmina dos Reis, no Maranhão, uma mulher negra, em 1859, fez o primeiro romance de uma escritora, assinado como escritora e não com pseudônimo masculino. E depois, na cara da ditadura, em que pese não estar registrado nos manuais da historiografia dos aliados, nos anos 1970, com os Cadernos Negros, em 1978, criamos a possibilidade de dizer nossas LETRAS, com orgulho, vivos, vivas e de pé.

Mas diante do financiamento público de tantas iniciativas culturais não negras, ao longo dos 28 anos de existência do MinC, não havia caminhos institucionais para que nossas produções pudessem, como manda a etiqueta republicana, serem também apoiadas pelo Ministério da Cultura do Brasil? Essa falta sempre nos incomodou, mas era preciso, como tudo que vira política pública para a população negra, que nós mesmo fossemos pensar, organizar, montar uma proposta. Foi assim na educação básica, no acesso a universidade, na saúde, e nós não fugimos da tarefa. Em 2012, associações negras nacionais, que se organizam no campo da cultura, construíram uma proposta e submeteram ao MinC, que, como nos lembrou a matéria de O Globo, do dia 22.05.2013, respondeu com a criação inédita de cinco editais, lançados em 20 de novembro.

Hoje o Brasil, cenário de mega eventos mundiais, de forma conservadora há segmentos contra qualquer forma de partilha dos recursos que já estão circulando e que obrigatoriamente terão que circular dentro das produções culturais, onde o país irá se mostrar ao mundo, como ocorreu no fechamento das Olimpíadas em Londres, em 2012, quando produtores culturais de diversos grupos da Inglaterra participaram da elaboração das apresentações do legado cultural Inglês. No Brasil corremos sério risco de ver representando o país somente com o que passar por olhos brancos. Por isso a fala de Emanuel Araújo, de afirmação dos editais precisa ser retomada, pois estes eventos não são somente esportivos, eles cumprem agendas, em disputa interna e externa, de visões sobre o Brasil e mesmo discordando da sua pertinência, devemos ter papel protagonista na produção de imagens que vão ocorrer, pois somos 51% do país e esta tarefa passa pela cultura e suas produções.

Mas como nos disse Machado de Assis, em seu magnífico conto “Pai contra Mãe”, a violência racial brasileira está secularmente organizada para impedir a nossa existência, negar a nossa humanidade, esmagar nossa criatividade coletiva, que, para todas as sociedades humanas passa pela vivencia cultural, por se mostrar nos palcos, nas letras, na musica, nas telas de cinema e em outras formas de expressão artísticas. As filhas do vento, em 2005 e Raça, em 2013, de Joel Zito Araújo, é uma dessas possibilidades. Mas a recente e grave manifestação contra os editais para a produção afro-brasileira do MinC, a partir da justiça federal no Maranhão, não representa uma ação isolada, pois se materializa na expressão de ação política organizada Brasil afora, de ataque a qualquer política que altere a propriedade da terra, do poder político e da produção cultural, dado que esta ultima mexe, fundamentalmente, na representação histórica da imagem negra, sob controle, onde tem sido depositadas todas as formas simbólicas de negação da nossa humanidade.

O enfrentamento ao imaginário racista, que estrutura as relações sociais brasileiras, como bem observou Sueli Carneiro, em sua tese de doutorado, passa pelo nosso entendimento do bio-poder, do poder do outro dizer quem somos, nos representar, negando estruturalmente a possibilidade de fazermos uma autorrepresentação, sem tutelas. Por isso os editais para a produção de narrativas para a descolonização é algo inédito, pois que surge da necessidade de superar uma ausência nas políticas culturais do MinC. E o inadmissível para aqueles que historicamente dominaram os recursos do Ministério é exatamente o risco de ver suas teses sobre a nossa impossibilidade de produção com qualidade serem desmascaradas, pois o que sempre falta às produções culturais afro-brasileiras são os recursos para filmar, entrar em cartaz, remunerar atores, atrizes, diretores diretoras, muitos dos quais que depois de horas de ensaios nos centros, voltam para suas casas na periferia é sofrem baculejo da polícia, que ri diante do grito EU SOU ARTISTA!

Militantes de companhias negras de teatro, dança, produtores da musica, de documentários, filmes e os grupos culturais comunitários, organizados a partir de encontros nacionais, como os Fóruns de Performance Negra, quatro vezes reunidos na Bahia, observando a cultura como um direito humano e fundamental, construíram os editais e ofereceram ao MinC, num movimento liderando pela AKOBEN, por uma nova atitude do Estado brasileiro, que, em geral, tem como forma organizar e alimentar os centros culturais centrais, como espaços para poucos e abastados, onde as maiorias não acessam, e, de entrar nas comunidades negras com a presença do aparato policial, o qual quase sempre viola direitos, ficando a oferta de bens e produções culturais a cargo dos grupos do lugar, onde os jovens e outros grupos organizam festas, bailes, rodas, coletivos literários, bibliotecas contando com recursos próprios, sem qualquer tipo de remuneração. É contra esta situação que lutamos e aqui falamos a nossa palavra, por ora infinita, REPARAÇÃO contra todos e todas que não nos querem de cabeça erguida e bicão na diagonal !!!
...Cada pedaço de pau, cada pedra fincada um pedaço de mim, Ilê Aiyê o povo negro ajudou a construir...
Construímos tudo e a obra segue!!!

Salvador, 23 de maio de 2013

*Militante do Movimento de Mulheres Negras, Socióloga, Pesquisadora associada do Ceafro e membro do CDCN- Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra da Bahia

23 de mai de 2013

Não fique calmo. Sobre racismo na infância.

New post on Blogueiras Negras

Por Maria Rita Casagrande para o Blogueiras Negras
Eu moro no mesmo lugar a quase 5 anos, nesses 5 anos uma das minhas vizinhas insiste que eu sou diarista dos demais apartamentos. ao me encontrar nos elevadores me pergunta "Em qual vocês está hoje?Quanto você cobra o dia". Sempre que este encontro ocorre a resposta é a mesma " Eu moro aqui, sou do 14". Ela balança a cabeça incrédula e segue o seu caminho. Hoje por fim ela me orientou a utilizar o elevador de serviço.
Ontem meu filho chegou em casa chateado porque as crianças na sua sala de aula dizem que ele tem a "gengiva preta" e que ele é marrom e horrível. Doeu nele, doeu em mim porque eu passei alguns anos da minha infância ouvindo a mesma coisa, ou sendo excluída de algumas brincadeiras porque "gente preta não brinca", e eu ouvi isso de pessoas que hoje são minhas “amigas” aqui no facebook e que talvez nem se lembrem de terem feito isto. Bom o fato é: nós perdoamos, mas não esquecemos.
Ainda ecoa na minha mente a “brincadeira” onde meninos separavam meninas para formar uma fazenda (sim , crianças de 6 ou 7 anos). Uma brincadeira horrorosa por si só mas que ficava pior quando todos os dias eu entrava na fila da brincadeira e enquanto separavam iam apontando “cavalo branco, cavalo branco” e na minha vez “cavalo preto não brinca”. Isto aconteceu em 1986, já faz um bom tempo, mas em pleno 2013 algumas brincadeiras não são tão diferentes.
Ainda há aqueles que se mantém na ignorância de acreditar que no Brasil não existe racismo, que essas pessoas possam utilizar meia hora de suas vidas para reavaliar seus conceitos, olhar ao  redor e revejar suas atitudes, suas piadas, seu comportamento.
 Se forem pais ou mães que o façam com mais carinho e ensinem seus filhos que somos todos iguais, brancos, negros, indígenas, japoneses, católicos, evangélicos, judeus, hetero, gays, portadores de necessidades especiais, gordos, magros. Nosso sangue é vermelho como o de qualquer outro, nossos sentimentos são os mesmos, e os direitos e deveres são iguais ( mesmo que isto não se cumpra). Que façam aquilo que é tarefa principal e eduquem seus filhos para que eu ou qualquer outra mãe negra não precise usar de argumentos confortadores com o filho explicando para ele que os melhores corredores são negros, os melhores jogadores de basquete são negros, os melhores jogadores de futebol, que o presidente da maior nação e de maior poder é negro, que as musicas mais incríveis são compostas e tocadas por negros, que podemos fazer aquilo que quisermos, sermos quem quisermos nos dedicando e que ser negro não é um defeito, é qualidade e que, no caso do meu filho, por não tratar ou jugar ninguém pela cor da pele, religião ou sexo já é melhor do que muitas pessoas.
Crianças são crueis, é verdade, mas apenas algumas, aquelas que não são instruídas corretamente. Não devemos nos limitar a ensinar as crianças apenas a ler e a escrever, a tocar um instrumento e a desenhar. Precisamos ensinar cidadania, tolerância, respeito. Para quem não conhece essas máximas da convivência humana, ainda está em tempo de abrir a mente e se educar.
Nem eu, nem meu filho, nem mais da metade deste país , “precisa” ser tolerante com a ignorância alheia, infelizmente as pessoas só aprendem com medidas extremas como cadeia. Evite que o próximo “criminoso” como a senhora do elevador , saia de dentro de sua casa. Respeite e ensine o respeito porque isto não é um grande ato, ISTO É O MÍNIMO!
MAIS

Maria Rita Casagrande é fundadora e Diretora executiva do True Love. Gosta de sonhar com os pés no chão, de voar alto. RESPIRA filmes, livros e música . Mãe, balzaquiana, perfeccionista, baixinha, estourada e metódica. Apaixonada por café da manhã e trilhas sonoras. Politicamente correta(NOT). Tem medo de formigas e mortes idiotas. – “Desvanecida de amor, cor de carmim”

22 de mai de 2013

125 Anos de abolição e eles gritam mais uma vez que o poder é branco!



Por Cidinha da Silva

Um juiz do Maranhão conseguiu suspender na Justiça Federal os editais da FUNARTE/MinC destinados a artistas e produtores culturais negros. O fato é tão surreal que as pessoas duvidam da seriedade da notícia. Não seria trote como a nota de suspensão abrupta do Bolsa-família plantada na mídia?

Às vezes tenho medo do país em que vivo. Temo por meus mais-novos. Fico escandalizada com a incúria da branquitude que não dá trégua, não larga o osso, não admite perder milímetros, gotas, milésimos de seus privilégios arraigados.

O Brasil real, branco e racista, quando se manifesta é tão virulento que produz certa apoplexia. Ele se organiza à revelia da legislação, da constitucionalidade das ações afirmativas, das decisões do STF e rasteja circularmente pelo assoalho da casa grande. Ele desconsidera tudo e todos em nome dos próprios interesses egoístas, autoritários, desumanos, dos privilégios quase de casta. Ele se regozija em afirmar que se não for do jeito dele e se não for tudo para usufruto dele, não será de mais ninguém.

Esse Brasil tem milhões de defensores, uns mais empedernidos, outros menos. Gente que se locupleta da arbitrariedade vil, pronta a argumentar que tudo deve ser de todos e para todos, leia-se, dos brancos e para os brancos que sempre tiveram tudo. E essa, no entendimento deles, é a ordem natural das coisas. E que os negros continuem nos seus lugares, domesticados.

Quando esse Brasil percebe que os negros estão se organizando, conquistando umas coisinhas poucas, tratam logo de contra-atacar com os instrumentos bélicos adequados a cada momento. Seja no capítulo de novela das nove no dia 20 de novembro, em que uma personagem branca dá uma bofetada na protagonista negra que lhe pede perdão de joelhos por sentir-se responsável pelo acidente que deixara a filha da mulher branca tetraplégica, seja noutra novela, na qual um homem negro chamado Pescoço cai nas graças do povo pelo jeitão encostado, explorador de mulheres, somado ao racismo internalizado. É Pescoço, mas poderia ser joelho, cotovelo, calosidade, qualquer coisa, qualquer nota. Seja na decisão da Justiça Federal de suspender os editais de ação afirmativa da FUNARTE/MinC destinados a artistas e produtores culturais negros, em atendimento ao reclame de um juiz qualquer que resolve obstar a vida e os sonhos de mais de dois mil proponentes negros.

Esse Brasil se levanta e vocifera que o poder é branco e continuará a sê-lo! E nós o encaramos nos olhos e prosseguimos. Embora por vezes pareça meta inatingível, é só questão de tempo para que o Brasil negro diga ao Brasil branco e racista: Perdeu playboy, perdeu!

20 de mai de 2013

Cris Pereira lança primeiro CD em Brasília









A cantora brasiliense Cris Pereira toma de empréstimo o palco do Teatro Oi Brasília para lançar seu primeiro CD intitulado “Folião de Raça”, no dia 25 de maio, às 21h, pelo Projeto Encantadoras.

Fruto de uma pesquisa musical inspirada pelo samba, o “CD Folião de Raça” traz composições inéditas de sambistas de Brasília como Cacá Pereira, Vinícius de Oliveira, Ana Reis e Sérgio Magalhães, além da participação especial de Dona Ivone Lara.

Acompanham Cris Pereira os músicos Lucas de Campos (violão e direção musical), Vinícius Magalhães (violão 7 cordas), Pedro Molusco (cavaquinho), Júnior Ferreira (acordeom), Breno Alves (pandeiro), Guto Martins (percussão geral) e Leander Mota (bateria).

Show de Lançamento do CD Folião de Raça – Cris Pereira
Teatro Oi Brasília
25 de maio (sábado) às 21h
R$ 30,000 (inteira)/ R$15,00 (meia)

E se Michelle Obama deixasse o cabelo natural?


Por Charô Lastra

Michelle Obama ao natural
Michelle Obama ao natural
Colega de trabalho branco: Ah, mas eu não vejo muitas mulheres por aqui com cabelo igual ao seu.
Eu: Provavelmente porque elas fazem permanente ou usam perucas.
Colega de trabalho branco: Então….Michelle Obama, tem o cabelo natural, certo?
Eu: Não.
Colega de trabalho branco: É sim!
Eu: Não, realmente não é. Ela alisa.
Colega de trabalho branco: O quê?!?!?!? *Com aquela expressão de bunda*
Eu: É.
Colega de trabalho branco: *longa pause* Você tem certeza?

Esse diálogo, cujo original você pode ler no Curly Nikki, parece coisa de… Americano. Imagina que no Brasil as pessoas não sabem como é o cabelo natural de uma pessoa negra. Pois vou te dizer que nasci negra e passei 28 anos da minha vida sem saber como era o meu cabelo natural. Não ficaria espantada de descobrir que o mesmo aconteça com uma parcela considerável de mulheres negras. E porque não, pessoas brancas.
Lembrei de conversa que tive num ônibus da vida com uma senhora negra usavando apliques que já não mais escondiam a alopecia causada… Por apliques, igual a Naomi Campbell. Nas têmporas nuas, alguns fiozinhos cuja queda era uma crônica de uma careca anunciada, tracionados pelo cabelo artificial. Quando me viu, precisou olhar duas vezes. Na terceira, estava perto de mim. Com a mão hesitante em direção aos meus cabelos que, naqueles dias eram um black power de 3 anos, perguntou:
Senhora: Minha filha, como eu faço para ter cabelos como os seus?
Fiquei sem ação. Estava acostumada a chamar a atenção das pessoas (brancas) que me paravam para pegar no meu cabelo, saber se… Era de verdade! Mas agora era diferente. Aquela senhora estava me pedindo socorro e não poderia responder de acordo com meus ímpetos mais sinceros de dizer, sem nenhum rodeio, pra ela deixar o cabelo natural. Quer dizer, tinha de dizer exatamente isso, mas de um modo inspirador, reconfortante.
Fiquei hesitante porque ela tinha mais ou menos a idade de minha mãe. Uma geração alisada, usando peruca de náilon. Elas até são contemporâneas do Black Power, doNegro é lindo, do Tony Tornado, mas não foram ou não puderam tentar fazer as coisas de outra forma simplesmente porque não havia opção, tecnologia, gente próxima falando sobre cabelo natural. Seriam consideradas feias, sujas, malcuidadas. Por si e pelos outros.
Na dúvida e com medo, decidi pela objetividade.
Eu: A senhora tem…Tem… De deixar seu cabelo ao natural.
Decepcionada, baixou a cabeça entristecida. De algum modo sabia que essa seria sua reação. Certamente já havia deixado seu cabelo ao natural e não deve ter gostado nada, nada. Deveria haver outra solução que não essa. Deveria. Porque cabelo precisa de solução. Ainda mais os das mulheres negras que, se tem cachos, devem ser controlados, esses rebeldes sem causa, que não deixam um aparência profisisonal.
Bem, os tempos mudaram. Mas não deixo de me perguntar o que aconteceria se gente como Michelle Obama usasse o cabelo natural. Sem uma só palavra dita, todos saberiam que cabelo natural combina sim com a palavra poder, profisisonalismo, beleza. Mas também me pergunto porque ela alisa ou usa peruca. Porque faz o mesmo com as filhas. Eu sei, não é da minha conta, mas eu pergunto mesmo assim.

18 de mai de 2013

Cidinha da Silva discute a novela Lado a lado no Pílulas de Cultura, dia 26/05, em São Paulo


centroculturalParceria do CCSP com o Instituto Feira Preta promove projeto para o fortalecimento e a difusão das manifestações relacionadas à cultura negra. A partir do mês de maio, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) sedia, em conjunto com o Instituto Feira Preta, o projeto Pílulas de Cultura, eventos periódicos com o intuito de promover manifestações artísticas e contemporâneas voltadas à cultura negra.

O primeiro encontro acontece no dia 26 de maio, com três eventos: uma roda de conversa, uma intervenção poético-musical e uma apresentação dos Meninos do Barro Vermelho.

A roda de conversa "Passados 125 anos de Abolição e agora o que somos?" faz uma reflexão sobre os 125 anos do fim da escravidão no Brasil e contará com a presença da ex-ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e subsecretária adjunta da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, e da escritora e blogueira Cidinha Silva.

Depois, o rapper Israel Neto (também conhecido como Mano Réu) fará um recital formado por sete poemas e textos de autoria de Israel Neto e dos poetas Solano Trindade e Luis Gama. Os poemas são recitados, performados e acompanhados de instrumentais com colagens de vários sons, efeitos e músicas, refletindo sobre racismo, orgulho, arte e afirmação do povo negro. Por fim, o grupo Meninos do Barro Vermelho faz uma apresentação de dança.

O Instituto Feira Preta atua na promoção e no desenvolvimento sociocultural da comunidade negra, possibilita a visibilidade para as contribuições culturais e econômicas da população negra, comercializa produtos e serviços que atendem essas necessidades e estimula o empreendedorismo étnico por meio de capacitações em temas relacionados à gestão de negócio.  A Feira Preta também promove eventos periódicos como o Pílulas de Cultura. Desde 2008 o projeto Pílulas de Cultura já realizou mais de 40 edições ao longo dos últimos anos. O intuito do projeto Pílulas de Cultura é promover manifestações artísticas, voltadas para a cultura negra contemporânea, que normalmente não estão presentes nos grandes circuitos culturais e, ao mesmo tempo, provocar uma reflexão sobre o espaço que a cultura negra tem ocupado na sociedade brasileira.

De maio a novembro a programação acontecerá no Centro Cultural São Paulo com um encontro mensal. A cada mês será apresentado um tema diferente. A partir da questão "Qual o espaço da cultura afro-brasileira hoje?" são criados eventos que propõem reflexões, debates e trocas sobre diferentes assuntos relacionados à cultura negra, para um público diversificado. Em maio haverá uma reflexão sobre a abolição: Após 125 anos de Abolição da escravatura, o que somos?. Em junho, o assunto será latinidades e, a partir de julho, as atividades serão pensadas junto com os curadores do CCSP, pois a intenção é expandir a cultura negra para que diversos ativistas e públicos possam se cruzar.


PROGRAMAÇÃO

DIA 26 MAIO (domingo)
Sala Adoniran Barbosa - entrada livre
16h
Roda de Conversa
Passados 125 anos de Abolição e agora o que somos?
convidadas: Matilde Ribeiro (doutoranda em Serviço Social pela PUC/SP. Foi Ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, de 2003 a 2008. É subsecretária adjunta da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Município de São Paulo) e Cidinha Silva (escritora, editora do blogue cidinhadasilva.blogspot.com e autora de Oh, margem! Reinventa os rios! e Os nove pentes d'África, entre outros)
Nesta roda de conversa haverá uma reflexão sobre os 125 anos de abolição e qual os avanços e retrocessos que tivemos nesse período histórico.
das 17h30 às 18h 

Intervenção: Preto? Eu?
Israel Neto ou Mano Réu (rapper, escritor e produtor cultural. Idealizador do Coletivo Literatura Suburbana que trabalha com as culturas hip hop e negra e o desenvolvimento da lei nº 10.639)
A intervenção traz uma proposta musical e poética referente às tradições culturais afro-brasileiras, abordando questões sobre a infância, arte, periferia, racismo, orgulho, afirmação e luta do povo negro. O recital é formado de sete poemas e textos de autoria de Israel Neto e dos poetas Solano Trindade e Luis Gama. Os poemas são recitados, performados e acompanhados de instrumentais com colagens de vários sons, efeitos e músicas.
das 18h às 19h30

Apresentação Meninos do Barro Vermelho
Os Meninos do Barro Vermelho já se apresentaram em diversos espaços culturais da cidade. No terreiro dentro da casa de axé, à sombra de uma mangueira, tocava-se o samba de roda nos festejos públicos. O povo acompanhava o "Semba" em coro, com palmas e performances de danças, dando corpo as canções dentro da roda. A inspiração do ato de amassar o barro vermelho provém da mescla das manifestações afro, ressaltando, assim, o samba duro do recôncavo baiano, que em suas inúmeras variantes exalta nossas raízes profundamente, resgatando e trazendo vivências cotidianas. Os Meninos do Barro Vermelho ganharam espaço com esse processo de articulação social, calcada numa mistura entre o ritmo dos atabaques do candomblé, o samba duro dos tambores e a potência das vozes, que segue desta maneira, portanto, promovendo e divulgando a cultura afro-brasileira.

DIA 30 JUNHO (domingo)
Sala Adoniran Barbosa - entrada livre
16h
Discotecagem com: Vivian Marques
A inventividade dos sets apresentados por Vivian Marques vem de uma mistura harmoniosa de estilos que levanta qualquer festa. Há espaço para hip hop clássico e underground, R&B, soul, funk's 1970, entre outras vertentes da música negra. Seu gosto apurado e sua boa percepção de pista têm rendido convites para residências e eventos pontuais.
17h

Bate-papo musicado com Ellen Oléria
Ellen Oléria ficou conhecida como "a voz que cura". Após treze anos de carreira, venceu o programa The Voice Brasil. Foi escolhida no jogo pelo técnico Carlinhos Brown, que afirmou: "Ellen Oléria é hors-concour". Oléria condensa em sua performance tudo o que o povo brasileiro reconhece como seu: perseverança, entusiasmo e um sorriso que nunca sai do rosto, iluminando cada canção. Poetisa em essência, compositora, multi-instrumentista, cantora, atriz. Ela é brasileira, latino-americana. Nesse bate-papo musicado pretende aproximar do público sua singular trajetória na música popular brasileira.
18h40

Lançamento da Publicação Virtual V Festival Latinidades - Festival da Mulher Afro Latino-Americana e Caribenha
A publicação de 2012, que teve como tema Juventude negra, é o resultado das experiências e falas das especialistas e integrantes das 11 mesas de debates realizadas durante o V Festival Latinidades. Esta é a terceira publicação do Latinidades que, nos anos anteriores, girou em torno dos temas Censo e políticas públicas para mulheres negras e Mulheres negras no mercado de trabalho.
19h

Espaço Musical Livre
Nesta edição do projeto Pílulas de Cultura teremos o Espaço Livre, momento em que o público poderá mostrar seus trabalhos (bandas, dançarinos, poetas, MC's). Inscrição: pelo e-mail pilulas@feirapreta.com.br , enviar release e foto

Serviço:
Pílulas de Cultura
Dia: 26 de maio (domingo)
Horário: Das 16h às 20h
Local: Sala Adoniran Barbosa
Lotação: 622 lugares
Grátis. Não há necessidade da retirada de ingressos.
Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000 - Paraíso
Informações ao público: 11 3397-4002
www.centrocultural.sp.gov.br

Programa de Bolsa Permanência para estudantes cotistas tem inscrições abertas

  Programa de Bolsa Permanência para estudantes cotistas tem inscrições abertas

Quilombolas, indígenas aldeados – que vivem em comunidades tradicionais reconhecidas – e estudantes das instituições de ensino e universidades federais em situação de vulnerabilidade socioeconômica são o público beneficiado pelo Programa Nacional de Bolsa Permanência. O auxílio será concedido aos estudantes que atendam os critérios para a política de cotas descrita na Lei 12.711/2012, matriculados em cursos com carga horária maior que cinco horas diárias e que tenham renda per capta familiar mensal de até 1,5 salários mínimos. O cadastro das instituições pode ser feito neste link.

O valor da bolsa é de R$ 400 (quatrocentos reais). Para quilombolas e indígenas aldeados o auxílio será de R$ 900 (novecentos reais), sendo que essas duas categorias de estudantes receberão apoio financeiro independentemente do curso. Entre os documentos necessários para pleitear a bolsa estão a declaração do Imposto de Renda, comprovantes de rendimentos e, no caso de quilombolas e indígenas, as declaração da Fundação Nacional do Índio (Funai) ou da Fundação Cultural Palmares.

“É um instrumento de avanço para o desenvolvimento da Política Nacional de Assistência Estudantil que tem, no primeiro ano de implementação da Lei 12.711/2012, um fator de alavanca para a consolidação da inserção de estudantes negros nas universidades públicas federais. Com o incentivo aos estudantes quilombolas, é possível inferir que a vida destas comunidades ganhará um fator gerador de novas perspectivas”, afirma a secretária de Políticas de Ações Afirmativas da SEPPIR, Angela Nascimento.

FNDE
Os recursos para a concessão das bolsas virão do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). A portaria que institui o auxílio foi publicada no Diário Oficial da União pelo MEC e prevê ainda que o bolsista poderá ser denunciado se estiver irregular. O texto diz que qualquer pessoa, física ou jurídica, poderá denunciar irregularidades identificadas no pagamento de bolsas do Programa Bolsa Permanência, por meio de expediente formal contendo necessariamente: exposição sumária do ato ou fato censurável, que possibilite sua perfeita determinação; e identificação do responsável pela prática da irregularidade, bem como a data do ocorrido.

“Sempre foi um grande desafio assegurar o acesso e a permanência dos estudantes quilombolas, pelo grau de vulnerabilidade socioeconômica e pela grande distância entre as universidades e a maioria das comunidades. A bolsa-permanência é fundamental porque vai ajudar a reverter a imensa exclusão dessas comunidades no acesso ao ensino superior. A ampliação da presença quilombola e indígena, por sua vez, é um fator extremamente positivo para enriquecer a diversidade de pesquisas e de olhares dentro do universo acadêmico”, destaca a diretora de programas da Secretaria de Políticas das Comunidades Tradicionais da SEPPIR, Barbara Oliveira.

Onde andará a boa e velha liberdade?


 
Sempre, sempre, sempre que a gente falava nela, tinha alguém pra comentar que “aquela lá é mais velha que a Morte”. Quando eu era pequeno, achava que era mesmo, porque conhecia a Morte daqueles desenhos em que ela aparecia com um pano cobrindo a cabeça e foice na mão. A diferença era que a Morte andava de pé, inteira, enquanto que a Velha, que também usava um pano cobrindo a cabeça, andava curvada, como se fosse a metade de um corpo. A outra metade só andava se apoiada em um pedaço de pau que tinha o dobro de sua altura e parecia o cabo de uma foice que, de tando ser arrastada pelo chão, tinha gastado a lâmina. Sinal da sua velhice. Era por isso que todo mundo, até os mais velhos, como a minha avó de sangue, chamava a Velha de Vó. Não tinha outro nome nenhum; era só Vó mesmo.
*******

Quem é essa garotinha?, ou “A partir de que idade se pode comessar (*) a torturar uma criança?”

É assim que Idelber Avelar analisa a segunda pergunta desse título: “¿A partir de qué edad se puede empesar a torturar a un niño? É a frase assombrosa que escolhe Martín Kohan para começar o seu Dos veces junio. A frase é encontrada por um recruta numa mesa de recados de uma delegacia policial argentina, em 1978.
 
Mas empezar em espanhol se escreve com z. O erro ortográfico introduz um corte, uma distração, um cisco no horror da pergunta. Fornece o mote para a operação notável que realiza esse romance: falar do terror absoluto com uma voz que não percebe, não se dá conta. Ele fala do apocalipse de dentro dele, como se ele não estivesse acontecendo. O protagonista tem um tom neutro, asséptico.”
 
Foi também dessa frase e dessa análise que me lembrei quando, assombrada pela vida real, li a pergunta-título do post publicado no blog do Hospital e Maternidade Santa Joana:
“Minha filha tem o cabelo muito crespo. A partir de que idade posso começar a alisá-lo?” O post é ilustrado com a foto de uma linda garotinha negra e de cabelos crespos que, pelos critérios de quem o escreveu, poderia ser muito mais bonita se os alisasse: “Com a adesão cada vez maior às técnicas de alisamento, algumas mães recorrem a essas alternativas para deixarem as crianças mais bonitas.” Na verdade, grande parte do texto do blog do Hospital Santa Joana foi plagiado de outro texto publicado no site Bolsa de Mulher.
 
Nenhum dos textos, em nenhum momento, questiona os motivos de essas mães e essas garotinhas quererem alisar seus cabelos. De acordo com os dois sites, é para as crianças ficarem mais bonitas.
*** O estereótipo racista introduz um corte, uma distração, um cisco no horror da pergunta e no fato de usarem uma criança negra e de cabelo crespo para ilustrar a matéria. ***
 
Ninguém pensa que o mais sensato, o mais sensível, o mais humano seria dizer para uma criança negra que ela é bonita do jeito que é. Que essa coisa de não ser bonita, ou tão bonita, porque tem o cabelo crespo, o cabelo duro, o cabelo ruim, é “coisa inventada por racistas, que pensavam que tudo que vem do branco é melhor e mais bonito do que o que vem do negro. Veja só, que povo burro! Eles tanto disseram isso que muita gente acreditou, e acredita até hoje. Mas você, que é inteligente e linda, não vai cair nessa, né? E aposto que vai ensinar exatamente isso para quem te disser o contrário…”
Quando crescerem, que essas crianças, assim como toda mulher negra, tenham a liberdade de querer ou não alisar os cabelos, pelos mais diversos motivos. Mas que não sejam nunca acuadas pelo racismo e pela necessidade de se encaixarem em estereótipos racistas que definem o branco como o ideal de beleza a ser seguido, desejado e alcançado. Desde há muito tempo. Desde muito cedo.
*******
A gente tinha a maior curiosidade em saber mais coisas sobre ela; quem era, como tinha ido parar ali. Ninguém sabia de onde ela tinha vindo, pois tinha chegado antes de todo mundo. Falavam que tinha sido escrava, mas ela nunca confirmou. Também, nunca negou. A gente fazia muitas perguntas que ela parecia não ouvir, embaçando olhos de um jeito que se assemelhavam a cegos, embora com o poder de ver a distância, onde os nossos não alcançavam. Não sei se era um transe, como muitos diziam, mas era nesse momento que elas contava as histórias.
 
Primeiro, histórias de bicho que falava, árvore que falava, rio que virava gente… Era tudo misturado, uma bagunça só. Até o dia em que as histórias dela, mesmo sendo ainda mais absurdas do que antes, começaram a fazer sentido. Pelo menos tinham apenas gente falante, começo, meio e fim. Foi quando ela, sentada em um tamborete que alguém tinha trazido para o meio da rua., os dedos tortos como raízes brotando do bastão de madeira que a fazia andar, contou-nos em segredo: “Sou uma princesa”.
 
A gente, a meninada, começou a rir, né? Porque… Sei lá por que…. Mas era engraçado imaginar a Vó vestida de princesa, dessas de televisão, e a gente combinou que, de noite e de brincadeira, ia deixar uma coroa de papelão em frente à casa dela. As mães brigaram com a gente. Teve menino que apanhou pra aprender a respeitar os mais velhos. A gente respeitava, gostava demais dela, e ficou muito feliz de ver que ela tinha gostado da coroa, que colocava na cabeça toda vez que ia contar histórias, que passaram a ser todas sobre o tal reino onde ela era princesa. Ninguém, nem ela, sabia onde ficava esse reino, que às vezes parecia ser só dentro da cabeça dela, ou em qualquer lugar, ou em lugar nenhum. Mas, para nós, de tanto ouvir falar dele, era cada vez mais real.
 
Equilibrar a coroa fazia com ela endireitasse o corpo, erguesse a cabeça, usasse o bastão como instrumento de majestade, e não de velhice. Só andava de coroa. Teve quem fez vaquinha e comprou uma coroa dessas de loja, dourada, com pedras e brilhos. Mas a Vó nem ligou, pois gostava mesmo era da nossa, de papelão.
*******

Onde está o mapa da Porta do Não Retorno?

“(…) É claro que a Porta do Não Retorno não é nenhum lugar, mas a metáfora do lugar. Ironicamente e, talvez, apropriadamente, não é um lugar, mas uma coleção de lugares. Um deslizamento de terra na África, sobre o qual um castelo foi construído, uma casa de escravos, une maison des esclaves. Firme o suficiente para desaparecer ou se desenvolver, vaidoso o suficiente para sobreviver aos séculos. Um lugar no qual ocorreu um certo número de transações, talvez a mais importante delas sendo a transferência de personalidades. A Porta do Não Retorno – real e metafórica como alguns lugares são, mítica para nós, espalhados hoje pelas Américas. Ter o próprio pertencimento alojado em uma metáfora é uma trama voluptuosa; habitar uma tropa; ser um tipo de ficção. Viver na Diáspora Negra é, eu acho, viver como uma ficção – uma criação dos impérios e também uma auto-criação. É como ser um ser vivendo dentro e fora de si mesmo. É como captar o sinal feito por alguém sendo ainda incapaz de escapar dele, exceto em momentos de normalidade transformados em arte. Ser uma ficção em busca de sua metáfora mais ressonante é ainda mais intrigante. Então eu estou escavando mapas de todos os tipos, do jeito que algumas ficções fazem, discursivamente, elipticamente, tentando encontrar suas individualidades transferidas.
 
Então eu tenho colecionado esses fragmentos (…) – descoordenados e muitas vezes relacionados apenas pelo som ou pela intuição, pela visão ou pela estética. Eu não visitei a Porta do Não Retorno,  mas contando com cacos aleatórios da história e com a memória não escrita dos descendentes daqueles que passaram por lá, incluindo a mim, estou construindo um mapa da região, prestando atenção às faces, ao desconhecimento, aos atos não intencionais de retorno, às impressões limiares. Cada ato de recordação é importante, mesmo olhares de pavor e desconforto. Cada partícula de sonho é evidência.”
 
Acima, um mapa para alguns dos meus sentimentos, (mal) traduzido das páginas 18 e 19 do livro “A map to the Door of no Return – Notes on belonging“, de Dionne Brand.
*******
 
Quando, misturadas às histórias do reino, a Vó começou a contar histórias da escravidão, teve muita gente que parou de ouvir. O grupo grande que formávamos em torno do tamborete virou metade.”De tristeza, basta as da vida”, disseram alguns. Era muita história triste mesmo, mas a gente gostava de ver ela contar, e ficou melhor pra nós, que chegávamos mais perto, que fazíamos perguntas. A Vó fingia que não escutava e, tempos depois, enfiava a pergunta no meio de uma história e dava a resposta meio sem dar, deixando a gente a pensar naquilo, querendo saber se tinha entendido mesmo, trocando impressões com os outros. A gente então começou a anotar as perguntas num caderno, com o nome de quem tinha feito, pra apostar a quem ela ia responder. Eu fiz só uma, e achei que ela não ia responder nunca, que tinha ficado brava comigo por eu duvidar dela. Eu perguntei como uma princesa podia ter virado escrava.
*******

Já beijou sua preta hoje?

Li recentemente, aqui no Blogueiras Negras, o belo e necessário texto Relações Interraciais – Isso não é sobre amor, da Larissa Santiago. Também recentemente ganhei o belo e necessário livro de contos “Se7e Diásporas Íntimas“, do poeta e prosador soteropolitano LANDE ONAWALE. Pesquisando sobre o Lande, descobri que são dele os versos “reaja à violência racial: beije sua preta em praça pública”. Já faz algum tempo que li o interessante livro “Carnal Knowledge and Imperial Power – race and the intimate in colonial rule“, de Ann Laura Stoler. E, juntando tudo, não dá para não pensar na atualidade de tema tão antigo: as relações afetivas das mulheres negras, desde seu papel como concubina e prostituta, importantíssimo no estabelecimento e na manutenção da ordem colonial. De todos os tempos. Estigma que perdura até hoje: afinal, negra é pra trepar ou pra casar?
Os versos de Lande, junto com uma foto de um preto beijando sua preta, estamparam a capa do jornal do Movimento Negro Unificado, em junho de 1991. Colo abaixo, pra contribuir com a conversa, parte da entrevista que Lande concedeu a Silvia Regina Lorenso de Castro, na elaboração de sua tese “Corpo e Erotismo em Cadernos Negros: a reconstrução semiótica da liberdade“, págs. 129 e 130:
Para Onawalê, é no campo da afetividade e da sexualidade que o racismo “consegue mais vitórias sobre os negros. A baixa auto-estima e os complexos conseguem o efeito mais simples, e o mais aterrador: nos afasta. Em praça pública ou na TV, brancos se beijando é romantismo, pretos se beijando é discaração. Não fazemos amor, mas sexo – e só; nascemos pra isso. Havia e ainda há um medo, uma dúvida, uma ordem que nos trava gestos públicos de carinho.”
 
A presença do casal negro permite a conclusão de que a frase “beije sua preta em praça pública” é direcionada ao homem negro, numa explícita alusão à defesa da mulher negra, o que fica evidenciado no enunciado e é reforçado pelas palavras do próprio poeta:
 
“O “Beije sua preta em praça pública” poderia até servir de uma campanha lésbica, mas na época eu pensava muito em nós, homens negros…via os homens negros, sob aspectos como este, um aliado importante do racismo. Ele pode mais numa sociedade machista, não é? (…) Por outro lado tinha uma coisa de comunicar a minha felicidade e prazer de fazer cafuné num pixaim, e de beijar uma boca (negra), e de tornar tais gestos uma arma contra o preconceito.”
*******
Um dia ela contou a história de um rei, muito rico e muito bondoso. Ele tinha várias mulheres e vários filhos, mas também tinha preferência pela filha mais velha, que queria ver coroada rainha, quando ele morresse. Os súditos também a amavam e a queriam como rainha, e ficaram todos desesperados quando ela foi raptada por guerreiros de um reino vizinho. O rei decidiu que iria atrás dela e que, na volta, dividiria seu reino com todos os que fossem com ele, ajudá-lo na recaptura. Muitos se prontificaram a ir, mas não quiseram parte alguma do reino: queriam que ele fosse inteirinho da futura rainha.
 
No meio do caminho, todos foram capturados também, levados para um reino costeiro e enviados para homens que moravam no fim do mar. O rei não se desesperou, porque achou que teriam o mesmo destino da princesa e que, no final da viagem, todos se reencontrariam. Foram colocados num navio com mais um monte de gente, e só aí entenderam o que ia acontecer com eles. O rei então chamou todo mundo e falou que eles não podiam deixar aquilo acontecer. Os súditos se assustaram: “Mas e a princesa? A gente tem que trazer ela de volta!”. O rei pensou, pensou, pensou e falou que não, que do outro lado do mar todos reconheceriam nela uma verdadeira princesa, e a amariam do mesmo jeito que eles a amavam, e cuidariam dela, e fariam com ela voltasse pra casa. Ou lhe dariam, por lá mesmo, um reino e uma coroa. E assim fizeram: brigaram, tomaram o navio e voltaram pra casa.
*******

Escola de Pastor à Distância (sic) Online com qualidade e Reconhecimento?

Os pastores participam do Seminário Internacional de Teologia e atuam no comercial da Escola de Pastor. Os textos correm na tela: Curso de Oração e Intercessão – Curso de Conferencista Internacional – Ligue Gratis! – Central de Atendimento 0800 942 3153 – ou Acesse http://escoladepastor.com.br -  Aproveite nossa PROMOÇÃO de aniversário com 50% de DESCONTO nos Cursos  – Curso de Evangelismo – Curso de Pastor com Ordenação e Credencial, enquanto o pastor 1 intercala falas ininteligíveis com outras como: “porque sou teu Deus”, “e se esconde embaixo das minhas asas”, “e eu te digo aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaii de quem tocar em ti”, “as pedras que podem tacar em ti, eu te digo, eu as recolho antes que te acertem” “eu faço em ti um novo acordo” e canta, e parece cada vez mais em transe. Até que deixa no meio do palco o pastor 2, que até então segurava o microfone para ele, abre os braços e sai girando, girando, girando, girando,  girando, girando, girando, girando… O pastor 1 volta ao meio do palco e abraça o pastor 2, antes de se sentar, tonto por causa dos giros. O pastor 2 pega o microfone e grita: “SAI DA FRENTE, SATANÁÁÁÁÁÁÁS!”, para delírio do enorme público, que vibra ainda mais quando o ouve professar mais palavras ininteligíveis e arrematar, aos berros: “EU PROFETIZO A FALÊNCIA DO REINO DAS TREVAS! PROFETIZO O SEPULTAMENTO DOS PAIS DE SANTO! PROFETIZO O FECHAMENTO DE TERREIROS DE MACUMBA! PROFETIZO A GLÓRIA DO SENHOR ETEEEEEEERNO!”
 
O pastor 1 tenho a felicidade de não saber quem é. O pastor 2, na qualidade de deputado, hoje preside a Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.
É ver pra crer.
 
No próprio site da Comissão, à direita, há um link para denúncias de crimes contra Direitos Humanos na internet. Está lá, sob Intolerância Religiosa: “Material escrito, imagens ou qualquer outro tipo de representação de idéias ou teorias que promovam e/ou incitem o ódio, a discriminação ou violência contra qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos, baseado na raça, cor, religião, descendência ou origem étnica ou nacional.”
Será que vale a pena denunciar?
*******
A Vó morreu pouco tempo depois de contar essa história. O povo comentou que era inveja da Morte, que não queria no mundo gente mais esperta que ela. Mexendo nos papéis da Vó, descobrimos que ela tinha nascido em 12 de maio de 1888, e que o nome dela era Liberdade Maria de Jesus. A gente entendeu então que a Vó era uma profecia. Que ainda não se realizou.
A gente guardou a coroa, enrolada num plástico, pra durar mais, e bota ela no meio de uma roda e faz peguntas que não deu tempo fazer pra Vó:
-

A mineira Ana Maria Gonçalves foi para a Ilha de Itaparica escrever seu romance, Ao lado e à margem do que sentes por mim. O livro, escrito durante seis meses, foi publicado de forma independente. Já em parceria com a Editora Record publicou o aclamado Um defeito de cor, inspirado em Luiza Mahin, mãe de Luiz Gama.

17 de mai de 2013

Tributo literário a Achebe



Por Ana Alakija
A Africa World Press, uma das maiores editoras afro-americanas incluindo os países africanos localizados no Oriente Médio, está homenageando um dos mais mais grandiosos escritores africanos, Chinua Achebe, que faleceu em março deste ano aos 82 anos de idade.

Através de uma listagem de títulos disponível em seu website, a AWP está orientando e disponibilizando a aquisição de obras sobre esse gigante africano da literatura.

O Tributo a Chinua Achebe, como é chamada a iniciativa, é uma forma de lamentar e ao mesmo tempo celebrar a vida do grande escritor, cujo pensamento e obra tem ancorado a publicação dos livros pela AWP nos últimos trinta anos, conforme informa seu publisher e compatriota do autor, Kassahun Checole.

"Ele serviu de exemplo para nós como um grande mentor não só da sua reconhecida mundialmente habilidade como um contador de histórias, mas também, como um dos pioneiros da publicação africana", disse Checole.

"Foi Achebe que, em sua associação como primeiro editor da Heinemann African Writers Series [série de livros escritos por aficanos publicados pela editora inglesa Heinemann desde 1962, famosa também por publicar o popular W.Somerset Maugham], puxou uma longa lista de jovens escritores africanos, a maioria integrante da galeria de escritores contemporâneos de gabarito internacional que conquistaram seu próprio espaço", complementa.

Os títulos e autores disponíveis nessa primeira edicão da listagem de títulos publicados pela AWP são: Chinua Achebe: Teacher of Light (Professor da Luz), por Tijan M. Sallah & Ngozi Okonjo-Iweala, biografia de Achebe (2003); Achebe's Women (As mulheres de Achebe), por Helen Chukwuma, uma re-visita do retrato de personagens femininas de Achebe (2012); Achebe & the Politics of Representation (Achebe e as Políticas de Representação), por Ode Ogede, análise crítica do romancista e sua obra, redefinindo o conceito de nacionalismo cultural (2010).

Early Achebe (O começo), por Bernth Lindfors – ensaios, contos e romances inovadores de Achebe publicados durante a primeira fase do escritor de longa e distinta carreira literária (1951-1966) - o livro conclui com uma palestra inédita de Achebe intitulado "O Escritor e a Revolução Africana" (2009); Emerging Perspective on Chinua Achebe Vol. I, por Ernest N. Emenyonue e Vol. II, por Emenyonue e Iniobong I.Uko, primeiro trabalho no século 21 de crítica dos escritos ficcionais de Achebe até o fim do século 20 e da sua proposta de estética; e God, Oracles & Divination, a exegese cultural de quatro romances de Chinua Achebe, por Kalu Ogbaa (1992).
A listagem é prefaciada por um texto intitulado Tribute to Chinua Achebe (1930-2013) (Tributo a Chinua Achebe), de autoria do escritor Dr. Toyin Falola, professor de História do Frances Higginbotham Nalle Centennial e da Universidade do Texas em Austin, membro da Historical Society of Nigeria & the Nigerian Academy of Letters (Academia de Letras da Nigéria) e com mais de 30 livros publicados pela AWP.

Em seu texto sobre Achebe, Falola diz que talvez nenhuma outra figura representa o orgulho da Nigéria melhor do que Chinua Achebe. Como escritor, estudioso e ativista, Achebe trouxe à tona tanto a realidade colonial quanto a pós-colonial da Nigéria, através de seus escritos de renome mundial, expondo o mundo para a África de uma forma que ninguém tem acompanhado antes ou depois.

Ele ainda rebate críticas sobre Achebe por seu uso do idioma Inglês em seus escritos, por causa da sua lingua nativa Igbo (Albert Chinualumogu Achebe nasceu em 16 de novembro de 1930, na cidade de Igbo Ogidi, Nigéria Oriental). Falola diz que é preciso enxergar o inglês de Achebe como o de uso em sua terra natal, e não o inglês britânico de colonizadores da Nigéria.

"Ao escrever no seu inglês, Achebe foi capaz de tornar o seu trabalho disponível para um público muito mais amplo, bem como demonstrar plenamente as complexidades da experiência colonial nigeriana", diz Falola.
Um dos mais famosos romances de Achebe e o romance africano mais lido, dentro e fora do continente africano – Things Fall Apart (Quando as coisas desmoranam, 1958) – publicado em mais de 55 idiomas e com mais de 8 milhões de cópias, está em seu pós-quinquagésimo aniversário da publicação assim como o fazer da moderna literatura africana.

Nele, Achebe une o tão antigo ao tão moderno, o conflito imemorial entre o indivíduo e a sociedade, com a queda da graça de Okonkwo (um homem de poder e influência em sua aldeia Igbo) com o "mundo tribal"; e o choque de culturas, com a destruição do mundo de Okonkwo após a chegada de missionários europeus agressivos. Estes dramas individuais perfeitamente harmonizados são informados por uma consciência capaz de englobar ao mesmo tempo a vida da natureza, a história humana, e as misteriosas compulsividades da alma.

O tributo literário a este "vivo" africano tem a intenção de continuar a tradição que Achebe deixou. "O legado de Achebe é duradouro, e marcará para sempre a história e a prática da literatura africana", como assinala Kassahun Checole .

Por: Ana Alakija