Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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31 de jan de 2008

Uno cosecha lo que sembra

(Por Edson Cardoso, do Irohin) "A julgar pelo noticiário, estimulado pela própria Secretaria de Comunicação do governo, Matilde Ribeiro foi descartada pelo Planalto. É sintomática a informação veiculada por Vera Rosa e Tânia Monteiro, no Estadão, de que o presidente Lula estaria ‘particularmente aborrecido porque lutou muito pela criação da Secretaria da Igualdade Racial, uma antiga reivindicação do movimento negro, e foi criticado pela decisão de se criar mais uma pasta. Para o presidente, a atitude de Matilde dá agora argumentos aos seus adversários, para quem a secretaria não tem função”. Que os atos de Matilde Ribeiro serão utilizados por aqueles que pressionaram e pressionam pela extinção da Seppir ninguém duvida. O problema é saber até onde vai a compreensão do Palácio do Planalto de todo o processo que tem agora esse desfecho constrangedor. Em fevereiro de 2007, para citar um exemplo impossível de ser ignorado no governo, o Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada afirmava que a ‘baixa execução’ do programa Brasil Quilombola se devia ‘não apenas ao contingenciamento dos recursos destinados à Seppir, mas, principalmente, à fragilidade da Secretaria em promover a coordenação e o fomento/indução de políticas direcionadas à promoção da igualdade racial junto a outros ministérios’ (Políticas Sociais – acompanhamento e análise, nº 14, fev. 2007, pp. 212-213). O Ipea também disse que o contingenciamento era indicativo da prioridade do tema no governo federal. Entenda-se, de que o tema não era prioritário para o governo. O presidente Lula, por suas palavras ao Estadão, bancou a Secretaria. Mas e depois? A “fragilidade” a que se refere a avaliação do Ipea era pública e notória. As instâncias superiores não podem agora eximir-se de responsabilidades, tanto nos limites e constrangimentos orçamentários, quanto na permissividade que fechava os olhos à má gestão. (1) A secretaria era importante, por isso foi criada. (2) A secretaria não tem importância, por isso dane-se a secretária. Ficamos com qual das duas alternativas? A mesma ambigüidade existiu no setor de Movimento Negro (predominantemente partidário/sindical) responsável em última instância pelo atual malogro institucional. Em que momento, ao longo dos últimos cinco anos, esse setor considerou seriamente a importância de seus desmandos e omissões para a continuidade da Secretaria? Existem causas internas, para além da resistência histórica e estrutural do racismo, na base do desgoverno e ineficiência da Seppir. Ninguém poderá agora fugir de responder por suas próprias ações. Outra coisa, o conjunto da obra sugere recuo e desmanche: política de saúde, decreto dos quilombolas, estatuto, lei 10.639, nada se mexe e há casos de graves retrocessos. A paralisia da Seppir e a desmoralização pública de sua titular parecem coroar uma avalanche conservadora, que se potencializa com nossos erros e indecisões. A hora é de assumir responsabilidades, dentro e fora do governo".

30 de jan de 2008

"Quem poupar a Seppir, é contra a Seppir"

(Por Hélio Santos*, do Irohin) "O A Lei 10.639/03 já completou quatro anos. Hoje pela manhã discutiram-se as leis que pegam e as leis que não pegam. Até que alguém lembrou de que a Lei 10.639/03 altera a Lei de Diretrizes e Bases, portanto essa é uma lei que não há como se discutir se pega ou não. A Lei 10.639/03, se implementada adequadamente, vai auxiliar na reversão da cultura de desenvolvimento que o Brasil tem. É nesse aspecto singular que ela é importante, ela quebra uma coisa que eu chamo de consenso da invisibilidade da temática racial. O desenvolvimento brasileiro não acontece de uma maneira consolidada, porque nós temos esse consenso. A Lei 10.639/03 auxilia na reversão dessa invisibilidade. O movimento social negro vive um momento de grande dificuldade. Não quero dizer que há um bloqueio histórico, porque, se é um bloqueio histórico, vou remeter isso para o meu neto, para o meu bisneto, e dizer: não dá, o que tem de acúmulo congela e vamos ver depois. Após Durban, o que se imaginava era um avanço, o governo Fernando Henrique não fez o que tinha que fazer, mas nós tínhamos arrancado um decreto de políticas de ação afirmativa, dois ou três ministérios sinalizavam com algumas iniciativas de políticas, o tema da reparação foi inscrito na agenda. Em seguida, você tem a criação da Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), que é uma conquista. E no momento seguinte, você tem um emperramento, no momento que você deveria levar o conceito de política pública específica de uma forma radical, não só no campo da educação, mas no campo da cultura, no campo do empreendedorismo, no campo da religião, no momento em que um avanço significativo deveria acontecer, nós temos um emperramento e um silêncio. Entendo que, como a educação vem antes de qualquer outra política, a Lei 10.639/03, repito, uma conquista do movimento social negro, deveria ser, dentro das políticas da Seppir, talvez aquela que pudesse ser a número um ou a número zero, como a gente diz em administração. Por quê? Porque até a sua implementação, do ponto de vista operacional, é mais fácil que outras. Não estou dizendo do ponto de vista político. O movimento negro, apesar de ter sido objeto de veto quando da sanção da Lei 10.639/03, tem feito sua parte. Você vai à cidade mais obscura do interior de São Paulo e é um ativista do movimento que está lá por trás da Prefeitura instigando, provocando, porque senão nada aconteceria. Então eu não abro mão do movimento, mas cabe sim à Seppir uma grande responsabilidade na implementação dessa lei. Caberia também à Seppir, do mesmo modo, articular a implementação de várias outras políticas, poderíamos pensar no campo do trabalho, no campo da segurança pública, mas a Lei 10.639/03 tem características de operacionalidade que outras políticas de ação afirmativa não têm. Portanto, é incompreensível que esse tema não esteja avançando numa velocidade maior. Não quero falar de governo ou de governos, sempre falo do Estado brasileiro. Hoje quem é responsável pelo Estado brasileiro é o presidente Luís Inácio Lula da Silva. Não estou aqui convencido do seguinte: não sei se já foi entregue ao presidente Lula um programa de ação afirmativa com início, meio e fim. Não sei se alguém explicou ao presidente Lula que, como todo bom presidente, ele é um batedor de pênalti. Uma figuração que o presidente gosta muito. Um programa que explicasse ao presidente que ele não vai gastar um centavo a mais, ele vai realocar valores que já estão no orçamento em diversas rubricas. Ele vai ter que tirar de outro setor. Mas será que alguém explicou ao presidente Lula que ele não vai gastar um centavo a mais daquilo que está previsto no orçamento? Fala-se que nós tínhamos que sentar numa mesa, o movimento negro deveria sentar com o governo, com o Estado brasileiro. Mas essa mesa nunca foi estabelecida. Eu falava do bloqueio histórico, que não existe. Se há um bloqueio histórico, ou seja, se nós assumirmos que nesse exato instante o movimento social negro, com o acúmulo que tem de 500 anos - o movimento social negro é o movimento social mais antigo do Brasil. Se instala aqui nos tumbeiros. A gente sabe que desde o início, Abdias Nascimento é quem reafirma isso, a história da escravidão poderia chamar-se a história da luta contra a escravidão - então se o movimento social negro entender que nós já conquistamos algo significativo, porque alguns negros conseguiram emprego de terceiro e quarto escalão, se é essa a nossa expectativa, nós temos que dizer que há um bloqueio histórico. Nós somos oitenta milhões, esses oitenta milhões de afro-descendentes que nós somos são duas Argentinas. O Estado brasileiro não tem expertise, como nós falamos em administração, não tem acúmulo para trabalhar com a questão racial. Mas sem sair daqui deste lugar, posso listar trinta, quarenta pessoas de entidades diferentes, extremamente capazes - lógico que com o tempo esse número duplica ou triplica - mas, sem sair daqui, posso agora relacionar trinta a quarenta nomes nas mais diferentes áreas. Na verdade são pessoas ligadas a organizações, que deveriam estar assessorando as grandes políticas. A Seppir poderia assim ser um grande balcão de idéias, com assessoria de pessoas do movimento social negro. Não há dentro do aparelho de Estado especialistas na temática racial, essas pessoas estão no movimento social. Eu imaginava que a Seppir se transformasse nisso, fosse um ministério enxuto, não teria que ter um grande número de pessoas para fazer o controle dessas políticas, estabelecendo metas. Achei que no primeiro mandato do presidente Lula haveria dificuldades, era uma experiência nova. Mas percebi que, no segundo mandato, há um esgotamento, uma inércia que me assusta. O momento é para se reivindicar e exigir que o Estado brasileiro nos respeite. A Seppir é um ministério de uma profunda inércia. Quando eu digo profunda inércia, não personalizo - estou falando da Seppir enquanto instituição. O movimento social negro avançado, moderno, tem que cobrar da Seppir. Quem ficar inerte é contra a Seppir, quer na verdade que ela possa ser extinta com uma penada, ou fique simplesmente como está agora, um ministério de ficção. Historicamente o movimento social negro sempre teve um discurso correto, que o óbice do desenvolvimento sustentável integral no Brasil passava pela questão racial, que era uma pedra monolítica difícil de ser quebrada. No momento que as políticas de ação afirmativa começaram a chegar timidamente, nós achávamos que não haveria reação. Mas era previsível essa reação. E essa reação veio e veja que houve não digo acomodamento, as pessoas se assustaram e houve um acovardamento. O movimento social negro está dominado em larga medida. Quando digo movimento social negro, faço também uma autocrítica, porque faço parte dele. Só que, a partir daqui, quero dizer que mudo meu discurso em relação à Seppir. Porque sou a favor da Seppir, acredito nela como ministério. Daqui pra frente nós temos que dizer ao presidente Lula que nós não somos brinquedo. O presidente Lula teve a esmagadora maioria do voto negro nas últimas eleições e tem que dar uma resposta. O movimento social negro terá que cobrar isso do presidente. Quando criou a Seppir, o presidente Lula disse que a ministra Matilde Ribeiro não teria que se colocar inferiorizada em relação a nenhum dos ministros. Ela teria que discutir com o colega dela da Fazenda, com o Ministério do Desenvolvimento, teria que discutir com o ministro da Educação, com todos eles. O presidente Lula, ao criar um ministério para tratar da questão racial, se distinguiu dos governos anteriores e poderia dar um cala boca definitivo se realmente ele investisse nisso. “Olha, esse país tem 500 anos de história e a população negra desse país, no meu governo, começa a reconstrução de sua cidadania”. Mas, ao contrário disso, nós estamos convalidando esta inercialidade. Agora, é muito grave que, com um Ministério criado com o fim de gerar políticas públicas específicas, essas políticas continuem não existindo. Tudo o que acontece, acontece no setor fora da esfera direta do governo, como as cotas nas universidades. Daqui a 30 ou 40 anos, a decisão que nós não tomarmos agora em relação à Seppir vai se refletir nos meus filhos e nos meus netos. Portanto, a inércia não é possível. Em três momentos distintos, defendi a Seppir com veemência. Primeiro, no programa Roda Viva; depois, na entrevista que dei à revista Caros Amigos. E, finalmente, na revista Isto É, que insistia, para que eu criticasse a Seppir. É importante que as pessoas entendam este momento quando digo que quem poupar a Seppir é contra a Seppir. O volume de recursos destinado à SEPIR é menor do que o destinado a vários segmentos de terceiro, quarto escalão de alguns ministérios. Conseqüentemente, é com isso também que nós não podemos ter ilusão. O mesmo governo que cria a Seppir, não aposta na Seppir. De qualquer forma, continuo achando que o governo Lula não vem fazendo o que deveria fazer. Mas há instituições e pessoas em condições de fazê-lo. Como eu disse, sem sair desse lugar eu listo trinta a quarenta nomes no Brasil inteiro que poderiam estar como consultores, gerenciando essas políticas. O movimento social negro está esquecendo de que a cidadania, que é a nossa meta, é algo que você não ganha por brinde. Ou você conquista, ou você não ganha. Penso que o movimento social negro, nesse momento, tem que se articular no sentido de cobrar da Seppir. Aqueles que prezarem a Seppir, que entenderem que o ministério é importante e que deve ser mantido, têm que exigir que ele cumpra seu papel. É importante nesse momento o processo de radicalização. As pessoas confundem radicalização com sectarismo. O movimento negro nunca foi sectário. O movimento negro sempre esteve aberto para debater, para discutir com pessoas que pensam diferente. Ser sectário é não se abrir para o diálogo. Agora, é necessário radicalizar. Radicalizar é ir à raiz, é aprofundar o debate. Portanto, acho que o movimento social negro não pode abrir mão nesse momento de cumprir o seu papel. Nós somos os derradeiros subversivos do Brasil. Subverter é quebrar e mudar o que está estabelecido. O estado de espírito brasileiro é o que escandaliza a todos. Eu estou aqui no Rio de Janeiro, cheguei hoje, cheguei aqui num prédio da Praia do Flamengo, um prédio moderno, onde havia uma simulação de incêndio. É um prédio onde estão grandes organizações. Posso dizer que, se tivesse ali um grande incêndio, terrível, não morreria um negro. Porque nas empresas não há negros. Não havia negros. Isso me impactou de novo. Numa realidade como essa, pós-Durban e duas marchas em pouco mais de dez anos, esse é o momento de radicalizar. Esse é o recado que eu queria dar: radicalizar"! *Hélio Santos, uma das principais lideranças do movimento negro brasileiro, atualmente leciona na Fundação Visconde de Cairu, em Salvador, e na Universidade São Marcos, em São Paulo. Preside o Instituto Brasileiro da Diversidade – IBD, cujo foco é o mercado de trabalho. Foi o primeiro presidente do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra (1984-1986), no governo Franco Montoro, em São Paulo. Mestre em Finanças Públicas e doutor em Administração, publicou, entre outros trabalhos, “A Busca de um Caminho para o Brasil – A Trilha do Círculo Vicioso”. Hélio Santos concedeu este depoimento ao Ìrohìn, na PUC-RJ, durante seminário sobre a Lei 10.639/03, em setembro de 2007.

Chamada de carnaval do Bloco Arco-Íris, Rio de Janeiro!

"Você que faz parte da massa de 1,2 milhão de pessoas na Parada do Orgulho GLBT-Rio em 2007 e que quer um mundo que respeite e promova a diversidade humana sem discriminação, venha pular o carnaval conosco no Bloco Arco-Iris, onde o bom é beijar!! Bateria, marchinhas, camisinhas, diversas atrações e muita alegria. Venha fantasiado. Use a sua criatividade e irreverência! Venha e faça o seu protesto com alegria! Brinque o carnaval com respeito e segurança". Saída do Bloco: 03 de fevereiro (domingo). Concentração ás 15 horas na Quadra do G. R. C . C Bohemio do Senado (Rua do senado, nº 206 - centro). Informações: 021 2222-7286 e 2215-0844 (Grupo Arco-Íris)

29 de jan de 2008

Ilú Obá na avenida!

Djembês, alfaias, agogôs, xequerês! Xangô é o patrono, mas Ogum e Oxossi vão à frente. Salve, Adriana Aragão! Saúde, Beth Belli! Não bastasse ser mestra de bateria, Beth também é mestre-sala, brinca e evolui na tempestade. É faca, é adaga, é flecha. É espelho quebrado na cabeça delas, mas Oxum se agiganta nas águas e avisa que o que se quebrou era resina, espelho de verdade é o que reflete luz, e o entrega nas mãos das meninas. Oxossi é sempre Oxossi, em boa ou má gente, mas o Oxossi mais certeiro é o Oxossi da regente, preciso no caráter e na mira. É faca, é adaga, é flecha, é machado de duas lâminas. Dessa vez, mandados por elas. É meu padê pra você, Beth Belli. Laroiê! Saída do Bloco Afro Ilú Obá De Min - Carnaval 2008. Dia 01/02/2008 - concentração a partir das 19:00h. Local: Viaduto Major Quedinho, S/N - Bela Vista - São Paulo - SP www.iluobademin.com.br

27 de jan de 2008

Xingou funcionária de cinema de "neguinha da rocinha" e se deu mal!

(Da Folha de São Paulo, 25/01/08) "A produtora de cinema Ana Cristina Azevedo de Paiva, 40, foi presa na noite de anteontem após ter sido acusada do crime de injúria racial por uma funcionária de uma lanchonete em um cinema na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Ela foi liberada da 16ª DP ontem, após conseguir um habeas corpus. Segundo depoimento de Agatha Damasceno Fernandes, Ana Cristina discutiu com ela na hora de pagar uma pipoca antes de uma sessão de cinema no shopping Downtown e, irritada, a chamou de "neguinha da Rocinha". Testemunhas confirmaram a versão à polícia. A discussão começou quando Ana Cristina tentou pagar a conta com um cartão de débito. Agatha teria tentado, sem sucesso, aprovar o débito, e Ana Cristina teria reclamado que ela estava de má vontade e era incompetente, segundo versão de testemunhas e de Agatha. A suposta vítima teria respondido que, se a cliente a achava incompetente, deveria, ela mesmo, tentar passar o cartão e aprovar a compra. Ana Cristina teria dito que "essa neguinha da Rocinha é uma péssima funcionária". A Folha tentou falar com Ana Cristina e com sua advogada, mas não teve sucesso. O delegado Rafael Willis, da 16ª DP, afirma que a acusada alegou que estava de cabeça quente e tentou pedir desculpas, que não foram aceitas. O crime de injúria com cunho racial prevê multa e reclusão de um a três anos". (Arte: Iléa Ferraz)

25 de jan de 2008

O Padê de Juçara Marçal!

Juçara Marçal é dos raros luminares negros da cultura popular urbano-paulistana, em meio a um mundo de artistas e pesquisadores que bebe nas fontes africanas do interior paulista – lundu, congada, jongo, batuque -, nos terreiros das velhas guardas e nos saberes de negras e negros velhos. Salve Juçara Marçal! Salve Fabiana Cozza! Salve Beth Belli! Saudades, Ney Mesquita! É cantora de fôlego e afinação imensos. Compõe, dá aulas de canto e língua portuguesa. É mestre em literatura brasileira pela USP e integra os grupos “A Barca” e “Vésper Coral”. “Padê” é seu primeiro disco solo, feito em parceria com Kiko Dinucci. Por falar no parceiro, quem não o conhece e vê a gravura da capa, Kiko por ele mesmo, vê um rapaz... mestiço, digamos. Ao ouvir a música você compreende o auto-retrato, trata-se de um "branco-afro-macarrônico". Já que não existe negro de alma branca, também não existe branco de alma negra. É um desses moços urbano-paulistas que bebe nas fontes africanas com seriedade, respeito e competência. O disco é delicioso. A música de abertura é "Padê", composição de Kiko Dinucci. É brado de chamada, de iniciação ao canto de Juçara Marçal. O baixo de Marcelo Maniere dá um toque especial a este arranjo para Exu. É mantra de dormir e acordar. Laroiê! Em "São Jorge", também de Kiko, novamente o baixo se destaca, do mesmo Marcelo. O poeta Kiko vem montado em cavalo baio e vestido de gala: "a guimba e a fumaça do meu cigarro/cega o olho do soldado que pensou em me ferir/com um sorriso derrubo uma tropa inteira/mesmo que na dianteira a sombra venha a me seguir". "Machado de Xangô" é a próxima e tem um quê de música cubana ou de outros lugares do Caribe, assim anos 40,50, impossível não ouvir com os quadris. O violão de Kiko faz magia e cadencia tudo, somam-se os atabaques e a voz de Juçara e somos transportados para um barracão de encantados ou para a mata... "se eu perder a fé no meu senhor (Xangô)/ ele rola a pedreira por cima de mim / ele rola a pedreira po cima de mim". É papo para iniciados, gente senhoriada por Xangô sabe que a coisa é mesmo assim. "Atotô" é simples e portentosa, como Obaluaê. Kiko é preciso e Juçara é incisiva. "Jatobá" apresenta a cantora-compositora e o canto lembra tanto Ná Ozzetti, e a poesia é Lira Paulistana renascida com tônus de sabedoria africana enraizada em São Paulo. O arranjo e o piano de Lincoln Antônio são magistrais. A Lira Paulistana prossegue em sua visita pelo disco. Opa! Mas é Candeia, em "Cabocla". Nada é impossível, deve ser efeito do arranjo vocal e do baixo, outra vez. "Mar de lágrimas" é a letra mais fraca do disco, é pretensiosa, mas não diz nada. É salva pela voz encantadora de Juçara e pela combinação piano-tamborim, lindas. Assim mesmo, dói no ouvido a tal "culpabilidade" no meio de uma poesia. São inevitáveis as lembranças de letras bobas cantadas por Leny Andrade, dentre outras musas, protegidas por arranjos belíssimos, músicos primorosos e voz sem adjetivos. Santa proteção à Juçara. Em "Engasga gato", a cantora brinca um pouco mais com a voz, emoldurada por tambores e baixo, maraca e reco, quando os tambores descansam. Um quê rumbeiro nos arrebata. Mais brincadeira com a voz em "Samba estranho", talvez a música mais pop do disco. Enredo de samba de breque, colorido de Itamar Assumpção, ritmo de cartoon e a cantora imprime marca cinematográfica à música. "Velha morena" parece nos levar de volta aos 80, tempos da Lira Paulistana e leva mesmo, é Luis Tatit em ação. No arranjo vocal Juçara brinca como brincam o Rumo, Itamar Assumpção, Luis Tatit, Ná Ozzetti. "Imitação" é só voz e volão, Juçara, Kiko e boa poesia: "dona solução/reveja o meu caso com atenção/a esperança que é forte/mora no meu coração". "Batuque para Ney" saúda e evoca Ney Mesquita, um luminar que já se foi, aquele que lançou Kiko Dinucci: "Cadê Ney Mesquita?/cantou violão, tambor gritou"... E dá-lhe matraca de Renato Ihu: "eu sou do tempo da coruja batuqueira/conheço batuqueiro/é pelo jeito que ele bate". "Roda de Sampa", um samba bom e bem paulistano de Kiko, encerra o disco. E a voz melodiosa de Juçara reverbera nos tímpanos da gente.

24 de jan de 2008

Avante, Tsonga, o Muhammad Ali do Tênis!

(Do UOL Esporte) "A campanha perfeita de Rafael Nadal foi devidamente massacrada por Jo-Wilfried Tsonga. A "zebra" francesa atropelou o número 2 do mundo e se classificou para a final inédita do Aberto da Austrália, primeiro Grand Slam do ano. O rival na briga pelo título sai do encontro entre o suíço Roger Federer e o sérvio Novak Djokovic, que se encontram na manhã desta sexta, às 6h30 (horário de Brasília), com acompanhamento ao vivo do Placar UOL Esporte. Com muita força física e potência nos golpes, Tsonga, número 38 do ranking mundial, dominou a partida desde o início e minou qualquer tipo de reação de Nadal, que perdeu por 3 sets a 0, com parciais de 6-2, 6-3 e 6-2, em uma hora e 57 minutos de jogo. O espanhol havia alcançado a semi sem perder nenhum set na competição, mas bastou alguns minutos para que Tsonga, de 22 anos, acabasse com o desempenho. Já no segundo game do primeiro set, o francês quebrou o saque do oponente e abriu 2 a 0, se encaminhando para abrir vantagem no placar. O domínio de Tsonga ficou evidente no fim do segundo set, quando ele vencia por 5 a 3 e tinha o saque a seu favor. Para fechar a parcial, o francês tocou apenas cinco vezes na bola: três aces (15, 30 e 40 a 0), novo serviço, devolução de Nadal, "winner" (bola indefensável) e 6 a 3 no placar. O panorama do jogo não se alterou no terceiro set. Nadal, de 21 anos, não mostrou confiança para reagir, enquanto Tsonga seguiu com o mesmo ritmo avassalador. Com um ace, o francês marcou 6-2, conquistou a vitória e agora espera por Federer, líder do ranking, ou Djokovic, número 3 do mundo. Esta foi a segunda partida entre os dois tenistas. No primeiro encontro, o espanhol levou a melhor e eliminou o adversário do Aberto dos Estados Unidos do ano passado por 3 sets a 0. Tsonga chega à final depois de despachar quatro cabeças-de-chave. Ele bateu o britânico Andy Murray (9º) na estréia, o compatriota Richard Gasquet (8º) nas oitavas-de-final, o russo Mikhail Youzhny (14º) nas quartas e Nadal (2º) na semi. O francês ainda bateu o norte-americano Sam Warburg (segunda rodada) e o espanhol Guillermo Garcia-Lopez (terceira fase). A "zebra" é o tenista com ranking mais baixo (38) desde o norte-americano John Sadri a passar para a final do Aberto da Austrália, em 1979. Na ocasião, o norte-americano era o 45º do mundo. Ele agora vai tentar quebrar um tabu de mais de 30 anos, já que o último campeão em Melbourne que não era cabeça-de-chave foi o australiano Mark Edmondson, em 1976".

23 de jan de 2008

Uma Pilha de Cadáveres Negros... Bom dia, Direitos Humanos! Bom dia, Nova Bahia!

(Por Vilma Reis*, do Irohin) "Djair Santana de Jesus, negro, 16 anos, estudante do ensino fundamental, com mãe negra chefa de família, foi assassinado pela Polícia Militar da Bahia, na comunidade do Alto da Esperança, na região das Sete Portas, sob a acusação de ter trocado tiros com os policiais da ROTAMO. As mulheres que protestaram a sua morte foram covardemente espancadas e sua tia, dona Jaciara Santana, foi baleada nas nádegas. Toda a comunidade presenciou, com medo e tristeza, o sorriso sinistro e jocoso do policial atirador. Mais uma ocorrência rotineira em Salvador, segunda maior cidade negra do planeta, onde ser negro ainda é sinônimo de perigoso, indesejável, fora do lugar e, fundamentalmente, descartável. Acompanho as ações das polícias na Bahia, desde a Operação Beirú, em 1996, quando o chamado “modelo de tolerância zero ao crime” foi a política de segurança pública dos senhores dos Aflitos, da Piedade e do CAB. Doze anos depois, com o comando da Polícia Militar nas mãos dos mesmos agentes do governo anterior, registramos a ocorrência de 1.307 assassinatos de cidadãos, sendo 96% das vítimas negros, 78% com o envolvimento direto da “polícia do Estado” no ano de 2007, a maioria em Salvador e na sua região metropolitana. A pergunta que os cidadãos e as cidadãs negras da Bahia fazem a Jaques Wagner, governador de um Estado com 77% de habitantes negros é a seguinte: o que Vossa Excelência fará com a pilha de cadáveres negros? Com esse questionamento, a nossa intenção é a de não morrer em silêncio, de bruços e com as mãos na cabeça, exterminados pelos tiros de misericórdia do Estado. Lutamos por mudanças na Bahia, onde, historicamente, uma minoria vem desenvolvendo uma cultura violenta de controle racial em todas as instituições, buscando dominar a tudo e a todos, sob o império do racismo institucional, que estrutura todas as relações nos Poderes públicos. Desse modo, os brancos poderosos definem o lugar do negro e o do branco e recorrem ao braço armado do Estado, para manter a maioria negra em “seu” lugar, o território da subserviência que nunca aceitamos. Aprendemos com as nossas avós a não aceitar migalhas, a não entrar pelas portas de serviço e a não falar baixo diante dos racistas. Disso depende a nossa continuidade. Por isso, pensar e agir “fora da zona de controle da Casa Grande”.é nossa missão, é o nosso destino! Essa memória ancestral e a nossa resistência nos protegem do massacre físico, cultural e mental. Damos bom-dia aos Direitos Humanos, pois os queremos com eqüidade de raça, gênero e diversidade afetivo-sexual, com liberdade religiosa e justiça agrária, com a garantia dos direitos das populações quilombolas, das mulheres negras e da juventude negra do campo e da cidade. Mas para que isso se concretize, é preciso que o Governador Jaques Wagner, exerça um real controle sobre a zona de terror e a política de intolerância racial que as Secretarias de Segurança Pública e de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos continuam a implementar em nosso Estado. A negritude de Djair está em cada um de nós, portanto a linha que separa cada pessoa negra da possibilidade de ser assassinada pelas polícias é muito tênue. Não queremos mais seminários para diagnosticar o óbvio, nem apenas cursos inócuos de formação em Direitos Humanos para policiais, Governador! Sua Casa Civil deve convocar as Secretarias responsáveis e instituir um diálogo verdadeiro com a sociedade civil negra, para buscar políticas públicas que se contraponham, radicalmente, à atual política de extermínio. É da responsabilidade de Vossa Excelência vir a público e declarar de forma inequívoca que o seu governo não vai mais tolerar o assassinato da população negra; não vai mais aceitar o disparo de balas em ato de misericórdia; não vai mais admitir as lágrimas das mulheres e das famílias negras pelo aniquilamento de seus filhos, maridos e irmãos apenas por serem negros. Só assim acreditaremos em Direitos Humanos. Só assim acreditaremos nesse governo como o que transformará a Bahia em uma “terra de todos nós” e não somente a de todos os brancos. Como Vossa Excelência já se pronunciou em falas públicas “o diabo mora nos detalhes”. Queremos lembrar que o racismo também". Salvador, 22 de janeiro de 2008. *Socióloga, Mestra em Ciências Sociais FFCH-UFBA, Coordenadora Executiva do Programa CEAFRO – Educação e Profissionalização para a Igualdade Racial e de Gênero do CEAO/UFBA e Presidente do Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado da Bahia.

22 de jan de 2008

NANDYALA, livraria negra na área

"Em seu primeiro ano de funcionamento, a NANDYALA Livros figurou no mercado livreiro sob o nome fantasia MAZZA Livraria, a fim de contribuir para a maior difusão dos títulos da Mazza Edições em níveis nacional e internacional. Alcançada essa meta, a partir de 2008 a NANDYALA Livros segue com sua própria designação. Do Nyaneka-Nkumbi, grande grupo étnico localizado no planalto do Sudoeste de Angola, Nandyala significa "nascido em tempo de fome", termo que expressa as condições de nascimento da empresa, bem como o projeto ideológico de suas gestoras. Especializada em obras africanas e afro-brasileiras (edição, venda, importação, exportação e distribuição), em seus eixos temáticos AFRICANIDADES & EDUCAÇÃO, a NANDYALA Livraria e Editora disponibiliza a você uma ampla variedade de títulos escolhidos criteriosamente para a formação de kits afro-literários para as escolas de Ensino Fundamental e Médio, com material específico para alunos e para a formação de professores, itens necessários à implantação da Lei 10.639/2003. Sob essa perspectiva, a NANDYALA Livros oferece cursos, oficinas e seminários temáticos, voltados para a atualização de conhecimentos e a prática pedagógica quanto à abordagem da História e Cultura Africana e Afro-brasileira na sala de aula. Mensalmente, a NANDYALA Livros também possibilita a reflexão crítica sobre as relações étnico-raciais no âmbito da educação e da cultura, conduzida por profissionais altamente conceituados, através do seu aconchegante Bate-papo Afro, evento consagrado em Belo Horizonte , que reúne autores, agentes sociais e culturais, pesquisadores e público em geral. Conheça os pacotes especiais da NANDYALA Livros (kits, publicações, cursos e seminários). Localizada no coração da Savassi (esq. da Contorno com Cristóvão Colombo) e privilegiada pela facilidade de acesso, a NADYALA Livros aguarda sua visita. Entre em contato conosco (31 3281-5894), pois será um prazer recebê-lo(a) para um saboroso chá de caxinde". (Imagem: Iléa Ferraz) CURSO: “PRESSUPOSTOS PARA O ENSINO DE HISTÓRIA DA ÁFRICA.” CONTEÚDOS PRIORITÁRIOS, ORIENTAÇÕES METODOLÓGICAS E BIBLIOGRÁFICAS. COORDENAÇÃO: ROSA MARGARIDA DE CARVALHO ROCHA. Módulo I: 25/01/08, Sexta feira (18h às 22h) Referenciais para a organização da prática pedagógica; construção de um projeto de intervenção quanto ao ensino da História da África e dos afro-brasileiros no cotidiano escolar Módulo II: 26/01/08, Sábado (9h às 17h) Currículo, relações escolares, escola, professor, recursos e materiais didáticos;disciplinas escolares e seus conteúdos em diálogo com a história da África. Inscrições e informações: 07 a 24 de janeiro/2008 NANDYALA Livraria e Editora - (31) 3281-5894 Av. do Contorno, 6000 - Loja 01 - Savassi 30110-060 - Belo Horizonte - MG

20 de jan de 2008

Thiago de Mello, o amigo de José Lins do Rêgo

Tudo transcorre como previsto no documentário de Vladimir Carvalho, “O engenho de Zé Lins”, enquanto o filme narra a infância de um menino morador da casa grande, num engenho interiorano da Paraíba. Um garoto peralta, a despeito da asma e da melancolia pela falta da mãe desde os seis meses e pela orfandade de irmãos. Até que aparece o padre e declara que a tia prendia o menino Zé Lins dentro de casa, não só pela asma, prática exigida pelos tratamentos da época, mas também para evitar que ele se misturasse demais aos moleques do engenho e às “safadezas das neguinhas que viviam soltas pelo terreiro”. A gente ainda se sente agredida, irritada, indignada, mas a declaração também está dentro do previsto. São oferecidos mais detalhes sobre a vida do protagonista, imagens do engenho em atividade, a feitura do melado e da rapadura, uma trilha sonora bonita e convincente e o caso nebuloso e pouco comentado do acidente com arma de fogo, no qual o menino Zé Lins matara um menino do engenho, companheiro de brincadeiras. No depoimento dos amigos literatos, como Ariano Suassuna, fica-se sabendo que Zé Lins não comentava o fato e nem o próprio Ariano o sabia. Do testemunho familiar depreende-se que nem mesmo os avós, presentes à casa no momento do tiro, souberam do acontecimento, e boa parte da família também não, tamanha a necessidade de proteger o menino Zé Lins, que provavelmente já se martirizava demais com a lembrança. Mas só deve ter sido possível tanto segredo e ausência de comentário em torno daquela morte por tratar-se do desaparecimento de um menino do engenho, mais um, como um passarinho. Fosse um filho de coronel e por mais zelo e humanidade que a ocultação do fato representasse, não se faria possível. Quem tem sobrenome deixa o nome na lápide e tem lugar na história. O ponto alto do documentário, ou pelo menos o que mais me interessou, são as falas de alguns contemporâneos ou admiradores de Zé Lins, principalmente Carlos Heitor Cony, Ariano Suassuna e Thiago de Mello. Cony é o mais cerebral dos três e é bastante ácido na análise das pretensões de Gilberto Freyre a um suposto forjamento do escritor José Lins do Rêgo. Parece que, soberbamente, Freyre se valia da admiração profunda que Zé Lins nutria por ele, para julgar-se seu criador. Suassuna, ética e cuidadosamente nordestino, não critica Freyre abertamente, mas declara que este não era um romancista, ou se o foi, não passou de um escritor de menor monta, principalmente se comparado a Zé Lins. Vai mais longe, critica o cientista Freyre, faz um comentário duro e preciso sobre a obra Casa Grande e Senzala: “o negro de Freyre é o negro da casa grande, doméstico e domesticado. Ele não chega ao negro da fazenda, do eito e ainda menos do quilombo”. Foi Ariano quem disse. Thiago de Mello é o mais sanguíneo, visceral, dentre os amigos a depor. Fora também o mais próximo, aquele que acompanhou Zé Lins até as últimas horas de vida. Cuidara das feridas, coceiras e excrementos de doente vitimado por falência hepática, em decorrência de esquitossomoses sobrepostas, contraídas na infância, nos caracóis do rio Parnaíba. É poeta, cria mais beleza que personagens. Além de compor música para alegrar os últimos dias de Zé Lins. O depoimento de Thiago de Mello é das coisas mais humanas e comoventes que já tive a graça de ouvir, tem aqueles silêncios longos de quem, sem sair do corpo se conecta com outros mundos. E é preciso ouvir e ver, não é possível reproduzir, pois, por mais fidelidade ao texto que conseguisse, faltariam a voz, a emoção, os gestos, o olhar de “De Mello”, como o chamava Zé Lins. Sua entonação é maior que o drama, que a performance, é um ato supremo de representação da dor de perder um amigo amado, da solidariedade de uma amizade sincera e desinteressada, da resignação frente aos limites e à indesejada falência do corpo físico. Se a mim fosse dado rebatizar o filme, eu o chamaria de “Thiago de Mello, o amigo de José Lins do Rêgo”. (Fotos recentes de Thiago de Mello, aos 80 e aos 78 anos)

18 de jan de 2008

Morgan Freeman dá algumas lições de vida

(Por Ian Spelling, do Hollywod Watch) O que é necessário para interessar Morgan Freeman a fazer um filme atualmente? "Uma boa história", diz o vencedor do Oscar de 70 anos. "Primeiro uma boa história, mas também com quem trabalharei, assim como o diretor. O diretor não tem tanto peso quanto a história e os atores, mas estes são os três ingredientes. E não acho que seja diferente agora do que sempre foi. Eu posso estar em uma melhor posição para dizer: 'Bem, quem são os atores?' Você sempre está em tal posição como ator, mas a diferença é que agora eu não preciso trabalhar." Ele pode não precisar trabalhar, mas claramente quer: Freeman está onipresente ultimamente. No último ano e meio, ele produziu e estrelou "Um Astro em Minha Vida" (2006) e atuou em "O Contrato" (2006), "A Volta do Todo Poderoso" (2007), "Medo da Verdade" (2007) e "Feast of Love" (2007), assim como seu mais recente filme, "Antes de Partir" (The Bucket List) de Rob Reiner, e os futuros "Wanted" e "Batman: The Dark Knight". Lançado no dia de Natal nos Estados Unidos, "Antes de Partir" apresenta Freeman como Carter Chambers, um mecânico dedicado à família que descobre que está com uma doença terminal. No hospital ele conhece Edward Cole (Jack Nicholson), um empresário rico e divorciado que também descobriu que seu tempo restante na Terra é limitado. Após inicialmente brigarem, os dois se tornam amigos e resolvem rodar o mundo em um esforço para realizar todos os itens listados em uma folha de papel de experiências que esperam ter antes de partir. Falando por telefone de um hotel em Los Angeles, Freeman explica - em sua familiar voz reconfortante - que gostou da idéia básica de "Antes de Partir", um drama/comédia sobre viver antes de morrer. Mas ele não sabia se resultaria em um bom filme. "Eu li o roteiro alguns anos antes e esse material precisava ser tratado com cuidado. Era possível se tornar sentimental e afastar as pessoas. Eu descobri que esse tipo de história funciona melhor se você a tratar de forma franca. Tentar arrancar lágrimas das pessoas não é a forma de abordá-la. As lágrimas são legítimas. Não são apelativas. Quando você recebe um roteiro desse tipo, a pergunta é: 'Quem você quer interpretar?' É claro que me chamou a atenção que eu era o personagem Carter, mas quem é o outro? Quem é Edward? Eu acho que Jack foi perfeito para ele. Se eu tivesse interpretado Edward, seria um trabalho diferente para mim. Como ator você pode interpretar qualquer coisa, ou essa é a idéia, mas eu acho que foi a forma acertada, eu como Carter e Jack como Edward." E o que Freeman achou de Nicholson? "Ah, meu caro, é uma daquelas situações em que você acorda de manhã animado e sai para trabalhar. Eu adorei todo o processo. Eu sou fã de Jack desde 'Cada Um Vive Como Quer' (1970). Rob Reiner é outra pessoa cujo trabalho eu admiro. Ele trabalha como eu, de forma rápida e eficiente. Eu adoro isso. Você sai para trabalhar de manhã, todo mundo dá carona para todo mundo e dá um grande abraço, e todos começamos a trabalhar." E não, insiste Freeman, filmar "Antes de Partir" não o fez contemplar sua mortalidade. Longe disso. "Eu suponho que seja a pergunta neste filme. Mas não me fez pensar sobre mortalidade, no meu caso, porque vou viver para sempre." O ator, que vive com sua mulher e família no Mississippi, está ocupado demais para morrer tão cedo. "Wanted", um filme de ação baseado em uma minissérie em quadrinhos, estreará em junho. Freeman interpreta o líder de uma sociedade secreta cujos justiceiros incluem uma veterana calejada (Angelina Jolie) e um novato inexperiente (James McAvoy). Em 18 de julho, Freeman reprisará seu papel de "Batman Begins" (2005), o de um aliado de Bruce Wayne, Lucius Fox, em "Batman: The Dark Knight". E recentemente concluiu "The Code", no qual interpreta um ladrão veterano que recruta um mais jovem (Antonio Banderas) para ajudá-lo a executar um último roubo. E não é tudo. "Eu estive em Boston filmando 'The Lonely Maiden'. Eu trabalho no filme com Christopher Walken e William H. Macy. Somos guardas de museu e cada um de nós está apaixonado por certas peças do museu, pelas quais somos completamente loucos. Então descobrimos que toda a exposição será enviada para o exterior e substituída por outra coisa. Então criamos um plano para roubar nossas peças. É uma comédia de roubo, porque esses sujeitos não têm nenhuma prática nisso." Freeman está co-produzindo "The Code" e "The Lonely Maiden" por meio de sua produtora, a Revelations Entertainment, criada por ele e sua sócia, Lori McCreary, em 1997 visando lançar filmes tanto em cinema quanto pela internet. Também estão a caminho "The Human Factor" - um drama biográfico sobre Nelson Mandela, que será dirigido por Clint Eastwood, que dirigiu Freeman em "Os Imperdoáveis" (1992) e "Menina de Ouro" (2004) - e "Rendezvous with Rama", um drama de ficção científica baseado no romance "Encontro com Rama" de Arthur C. Clarke. "Eu dirigi um filme", diz Freeman, referindo-se a "Bopha! À Flor da Pele" (1993), um drama sobre o apartheid estrelado por Danny Glover, Alfre Woodard e Malcolm McDowell. "Eu gostei da experiência de dirigi-lo. Mas, sabe como é, dirigir um filme toma pelo menos um ano, entre a preparação, a realização e sua finalização, e sou preguiçoso demais para dedicar tanto tempo a um projeto sem poder fazer mais nada. Então prefiro produzir os filmes e também atuar." Mas há algo a ser dito sobre desenvolver seus próprios projetos, acrescentou o ator. "Até alguns anos atrás, eu ainda pulava de emprego a emprego sem saber de onde viria o próximo e quando. Agora, poder organizar sua agenda com um ano de antecedência é algo bastante animador." Algumas pessoas podem creditar o fluxo constante de trabalho e maior poder de Freeman ao seu novo amigo, Oscar, que ele ganhou por sua interpretação de um treinador de boxe mal humorado em "Menina de Ouro", após ser indicado por papéis igualmente memoráveis em "Armação Perigosa" (1987), "Conduzindo Miss Daisy" (1989) e "Um Sonho de Liberdade" (1994). Outros acham que tem a ver com o fato dele misturar habilmente ocasionais filmes de sucesso de estúdio - "Impacto Profundo" (1998), "Todo Poderoso" (2003) ou "Batman Begins" - com trabalhos mais artísticos. Mas o ator tem uma explicação diferente. "Eu credito à longevidade", ele diz rindo. "Eu também credito isso à possibilidade de uma lâmpada se tornar mais brilhante antes de queimar."

16 de jan de 2008

As latinhas

Minha editora pauta uma crônica-síntese sobre o Natal, Ano Novo e carnaval, mas só as latinhas povoam minha cabeça sem idéias. Gente procurando latinhas em todos os cantos e praças, cestos de lixo, caçambas e bares, de tocaia nas mãos de quem bebe refrigerante e cerveja. Latinhas por todos os poros, samba triste no meu cocuruto. A senhora branca entra na lanchonete de olho comprido na minha latinha de suco, na latinha mesmo, não lhe interessava o conteúdo. Constrangida, remexe a lata de lixo próxima a mim. Lá se vai o sabor da empada. Pára no balcão e cumprimenta a atendente, pergunta pela colega de trabalho da moça, recebe a informação de que goza férias no Espírito Santo, praia dos mineiros. Sorri e vai embora, não sem antes olhar para minha latinha, ainda bebível. Termino o lanche, entrego o pratinho para a atendente que sorri, agradecida, e algo me diz para deixar a latinha sobre o balcão. Deixo. Saio à rua e a senhora espera minha saída à porta. Penso em dizer qualquer coisa, mas não há tempo, ela abaixa os olhos e a cabeça, entra depressa, recolhe a latinha, retira o lacre semi-aberto e reserva na bolsa. Esvazia a latinha das gotas remanescentes, coloca-a no chão, amassa com o pé e guarda na sacola. Foi mais rápida que a concorrência, mais uns gramas até o fim da noite. Quando chego ao bairro da infância, a vista engana e parece que avisto uma amiga de adolescência catando latinhas. Comento com um irmão e ele confirma o que os olhos temiam ter visto, era a Marilúcia no novo ofício de catar latinhas. Mas o que aconteceu? Ela tinha família, trabalhava, embora fosse para ela mais difícil arrumar trabalho. Era a “sapatão” do bairro, se vestia como menino. Quando passava pelo ponto final do ônibus, cobradores e motoristas cantavam o hit do Chacrinha, sucesso da época: “Maria sapatão, sapatão, sapatão, de dia é Maria, de noite é João”. Ela não dizia nada. Às vezes quando encontrava a gente pelo caminho xingava os caras, mandava uns palavrões e gestos obscenos. Aproveitava para combinar o futebol de salão do final de semana e ia embora. Futsal é coisa de agora. A sexualidade da Marilúcia sempre foi uma incógnita, embora parecesse tão escancarada. Ninguém, nem as amigas, conheceram uma única namorada dela. Ela nem falava de amores-mulheres, que eu me lembre. Era só aquele jeito de se vestir para se comunicar com o mundo, como esse pessoal que tatua vastas extensões do corpo, também como forma de comunicação. Cravejo o mano de perguntas, quero entender as fissuras da trajetória de vida dela. Ele não sabe de nada, só o que todo mundo sabe. Marilúcia ficou muito tempo doente, com um problema no pé ou na perna, não podia andar. Agora, curada, anda pelo bairro e cercanias, uma sacola de supermercado pendurada na mão direita, um cigarro aceso na mão esquerda, que parece nunca acabar, tênis, meia soquete, bermuda e camiseta sem mangas, faça chuva ou faça sol. Sempre muito limpa, limpíssima, descansa o cigarro no canto da boca, fecha um olho pra evitar a fumaça e enfia a mão livre nos cestos de lixo, à procura de latinhas. O que teria acontecido com a Marilúcia, meu Deus? Invento uma história de liberdade para distingui-la da massa de catadores, anônima e depauperada. É isso. Ela teve uma doença que a privou de movimentos, recuperou-se e agora, senhora de si, explora a liberdade de não ter patrões, de vasculhar a intimidade das casas nos cestos de lixo. O Chacrinha já era e ela canta uma música da gaúcha Luka, sucesso garantido na lembrança do programa de auditório do Velho Guerreiro: “tô nem aí, tô nem aí”...

15 de jan de 2008

Nova edição do Irohin nas ruas

História: prepare-se para o embate ou engula o sapo ( Por Edson Lopes Cardoso, do Irohin - www.irohin.org.br ) "O historiador Flávio Gomes comenta que Palmares como sociedade multiétnica é uma invenção e uma extrapolação sem apoio em pesquisas documentais (ver Palmares Editora Contexto, 2005, pp.59-60). Sem negar a possibilidade de contatos de palmaristas/palmarinos com outros grupos, o historiador afirma que “Até hoje as evidências apontam que prevaleciam em Palmares os africanos fugidos e seus descendentes”. É verdade que não sabemos até quando. Há convicções e motivações ideológicas dispostas a mandar às favas as evidências documentais e transformar Palmares numa protoversão do paraíso racial. Parodiando os versos de Jorge Ben, Zumbi é senhor das guerras/Senhor das demandas/ Mas quando Zumbi chega/D. Maria é quem manda. D. Maria, dita “esposa” de Zumbi, rainha de Palmares, é criação de Ruy Jobim Neto, autor do texto e das ilustrações de “Zumbi”, da Bentivegna Editora Ltda., de São Paulo [www.bentivegna.com.br e tel.: (11)33411477]. É material destinado ao público infantil, de venda casada com cartilha da Coleção Atividade Brincar. Adquirimos, por R$9,90, um exemplar no Supermercado Extra localizado próximo à sede do Ìrohìn, no final da Av. W3 Norte, Brasília-DF, em 26.11.2007. Ruy Jobim Neto escreveu que “Zumbi está hoje no coração e nas mentes de todo o povo brasileiro. Se hoje nossas crianças brincam juntas e livres, tiveram mesmo sem saber neste grande herói uma fonte inspiradora, um exemplo a ser seguido, repleto de lutas e sonhos a serem atingidos, tal como nos gloriosos dias do Quilombo dos Palmares”. Ruy criou a figura de D. Maria de olho no presente das crianças que brincam alegres e felizes sem que nada as distinga, exceto o detalhe irrelevante da cor da pele (2ª ilustração). Vestem o uniforme com as cores que importam e que simbolizam a unidade nacional, a igualdade de todos na convivência harmoniosa que anulou todas as diferenças. Convivência fraterna, democrática, assentada nos valores republicanos. Valeu, Zumbi. Valeu, D. Maria. Assim, tudo teria começado em Palmares. Tanto as sementes do paraíso racial, quanto as primeiras germinações de enredos e personagens de novelas de televisão. Lázaro Ramos e Débora Fallabela, na novela “Duas Caras”, repetiriam apenas dramas vividos intensamente, no século XVII, por um rebelde líder negro e a filha loura de um senhor de engenho. Que tal? Palmares tem se mostrado uma experiência histórica vigorosa e muito valiosa para o desenvolvimento de referências simbólicas que estimularam, nas últimas décadas, a mobilização e a iniciativa política de grupos negros em todo o país. Sucessivas gerações de militantes transformaram Palmares em ponta-de-lança no desafio político-ideológico com que vimos confrontando a opressiva história oficial brasileira. Como disse Edward Said, “a redação da história e as acumulações da memória têm sido consideradas de muitas maneiras como um dos fundamentos essenciais do poder, orientando suas estratégias, traçando o seu progresso” (Humanismo e crítica democrática. Companhia das Letras, 2007). A criação de D. Maria, a rainha quilombola loura, é parte da estratégia dos que não abrem mão de decidir o que é história. De certo modo, a luta prossegue em Palmares, mesmo após tantos séculos. Uma disputa acirrada em que os adversários dos palmaristas buscam agora ofuscar distinções opressivas, negar identidades e impor homogeneidades. Tudo em nome de superiores “interesses nacionais”. Na verdade, tudo em nome dos interesses contrários às políticas públicas de superação das desigualdades raciais. Mas não é somente Palmares que está em disputa. Antes mesmo que se inicie 2008, o “Jornal Nacional” e o “Fantástico”, programas de grande audiência da Rede Globo, já estão engajados na promoção do bicentenário da vinda de D. João VI ao Brasil. O governo federal já embarcou nessa, há grande agito nos bastidores. E os 120 anos da chamada Lei Áurea? Quem se atreve a bancar “uma verificação objetiva dos resultados práticos da lei de 13 de maio de 1888”? Assim questionava Abdias Nascimento em 1968, referindo-se aos 80 anos da Abolição (Cadernos Brasileiros, 80 anos de Abolição, nº 47, maio/junho de 1968). O ano de 2008 favorece o confronto de discursos sobre a história - um embate nada acadêmico e decisivo para a defesa das legítimas reivindicações dos afro-brasileiros. Participe".

14 de jan de 2008

Haroldo Costa lança mais uma obra sobre o carnaval carioca

(Por Roberta Pennafort, O Estado de São Paulo) "Corria o ano de 1881 quando uma das sociedades carnavalescas que agitavam o Rio, chamada Os Fenianos, saiu às ruas com uma figura de dom Pedro II suja com a 'mancha' do escravagismo. Era uma época em que os foliões brincavam embalados por temas como a defesa da Proclamação da República e a luta pela emancipação feminina. Passado mais de um século, os pleitos são outros, mas a sátira política continua dando o tom do carnaval, conforme mostra, em seu novo livro, o jornalista e pesquisador Haroldo Costa - referência no assunto. Política e Religiões no Carnaval (Irmãos Vitale) será lançado na segunda-feira, no restaurante La Fiorentina, no Rio. Autor de outras seis publicações sobre o carnaval, Costa começa seu relato com as primeiras manifestações do gênero em solo brasileiro, na segunda metade do século 18 - antes, portanto, da chegada da família real ao País, ao contrário do que se apregoa. Passa pela tradição do entrudo, pelo advento dos chamados 'carros de idéia' (antecessores dos carros alegóricos de hoje), e chega às marchinhas, aos sambas-enredo e às escolas. O aparecimento das sociedades carnavalescas, já no fim do século 19, ele mostra, fez com que o carnaval carioca assumisse 'uma forma pessoal', tivesse 'uma cara'. Os sócios desses grupos, fundados por jovens escritores, desfilavam pelas ruas e distribuíam flores e confetes. Logo começaram a se mobilizar por demandas que lhes eram caras: o fim da escravidão, a extinção da monarquia. Suas idéias eram expressas nas músicas que animavam a folia. Em 1889, por exemplo, ano seguinte à assinatura da Lei Áurea, cantou-se: 'Venceu-se, finalmente, a tremenda campanha/ maio, o divino mês, deu-nos a abolição!' Não eram poucas as letras que ironizavam autoridades (neste caso, o Marechal Deodoro da Fonseca): 'Fui ao campo de Santana/ beber água na cascata/ encontrei o Deodoro/ dando beijo na mulata.' Foi no início do século 20, dita o livro, que o gênero 'música de carnaval', de fato, se consolidou. Considerado o primeiro samba já gravado, Pelo Telefone, de Donga, foi o maior sucesso de 1917. Sua primeira versão diz: 'O chefe da folia (chefe da polícia, na adaptação posterior)/ pelo telefone/ manda me avisar/ que com alegria/ não se questione/ para se brincar.' Era uma forma de debochar da determinação da polícia em combater o jogo para agradar à imprensa, que fazia campanha contra a prática, explica Costa. De lá para cá, presidentes (Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, especialmente), governadores, acontecimentos históricos, tudo foi objeto de chacota. 'A originalidade do nosso carnaval reside exatamente aí. É um campo de provas para as nossas constatações espirituais e necessidades lúdicas', analisa o pesquisador, que também trata da relação entre as religiões (católica e correntes africanas) e o carnaval. 'O carnaval carioca, especialmente através das escolas de samba, é hoje a síntese da nossa nacionalidade. Dá o espelho que reflete o que somos, com as angústias, expectativas, frustrações, anseios, vitórias, enganos e desenganos que compõem o nosso retrato falado', conclui o escritor". Veja o que diz Haroldo Costa sobre a história do carnaval, visite o blogue www.haroldocosta.com.br "Uma coisa eu afirmo: só poderia ou poderá escrever a história do carnaval carioca quem for carnavalesco, quem gostar dos folguedos de Momo, quem envelhecer trepidando com sambas, correndo para ver passar na rua ou mesmo numa distante esquina, ou ainda para acompanhar, um bloco, um rancho, uma escola de samba. Uma pergunta continuamente feita pelos saudosistas, pelos pessimistas – esses terríveis inimigos do carnaval carioca – deve merecer resposta aqui. "Está morrendo o carnaval carioca?", perguntam eles, quando não dão à frase o sentido afirmativo. Não, respondo eu. O carnaval carioca não está morrendo, não morrerá. Claro que ele se modifica; a vida também se tem modificado. Transforma-se, porque o mundo vive em constante transformação. Mas o carnaval carioca não morreu, não morrerá. Este é o mais belo carnaval do mundo".

12 de jan de 2008

Nélida Piñon explica suas origens e obra na TV

( Por Eduardo Simões, da Folha on line) "Desde 1990 membro da Academia Brasileira de Letras, da qual foi a primeira mulher presidente, a escritora brasileira Nélida Piñon fala sobre sua trajetória, obra e processo de criação em "Nélida Piñon - Sherazade na Galícia", breve documentário que o Canal Brasil exibe amanhã (13/01) às 18h. Feito pela televisão espanhola, o programa intercala depoimentos da própria escritora com trechos do belo discurso que proferiu ao receber o Prêmio Príncipe das Astúrias de Letras, em 2005, na Espanha. Discurso e depoimentos ressaltam sobretudo a importância de suas origens galegas e do Brasil em sua obra. Duas culturas marcadas pela oralidade. Piñon conta como a solidão, a concentração e a música caminham sempre juntas nos momentos em que está criando. Embora não importe tanto o lugar onde esteja: barcos, hotéis etc., todo lugar é como um escritório para ela. O desejo de escrever surgiu já na infância, quando Piñon associava o ofício à aventura. Escrever seria poder viajar como o marujo Sinbad, conta a escritora, lembrando ainda da primeira máquina de escrever, da primeira visita à Galícia, "território mítico" de onde veio o pai. A "viagem iniciática" celebra sua dupla cultura, elemento que enriqueceu sua obra".

11 de jan de 2008

"Acordados-fragmentos", livro novo da Ana Rüsche

Acordados – fragmentos é romance publicado pelo Selo Demônio Negro. Retrata a vida "daqueles que estão de acordo, que varam madrugadas trabalhando ou em festas enlouquecidas, sempre em conformidade com regras e desejos, cujo cumprimento parece ser inexorável, inescapável". O enredo gira em torno de uma reunião de negócios sobre o entulho que restará da implosão de um presídio. Nas palavras de Alberto Guzik, "pode-se pensar em um assunto mais sombrio e banal? Que sinistra sociedade tem de fazer reuniões de alto nível para destinar o entulho do que um dia foi uma sombria prisão?". Distribuição por contrabando. E até agora 600 exemplares tiveram um destino incomum: serem contrabandeados afetivamente. Com a edição contemplada pela pelo Programa de Ação Cultural (PAC), Governo do Estado de São Paulo, foi possível realizar o projeto "Distribuição por Contrabando": A autora convidou 60 colaboradores. Cada um distribui gratuitamente 10 exemplares a pessoas que normalmente não têm acesso a esse tipo de literatura. Os 'contrabandistas' assumem um papel ativo no projeto, pois fazem parte da própria história da publicação. Veja mais aqui: http://acordados.wordpress.com/distribuicao-por-contrabando/ Arte da capa. A capa da artista plástica Alessandra Cestac, fotos de João Wainer, também acentua a idéia de intervenção: são fotos que a artista já utilizou como lambe-lambes colados pela cidade, projeto Nua Na Rua. Lançamento: O lançamento com leitura dramática pelo grupo de teatro Os Satyros (Projeto Teatro Livro) será uma ocasião de confraternização entre contrabandistas e leitores, com apresentação do Juliano Pessanha. No dia 18.01.08,20h, o livro será vendido pelo preço de custo, R$ 5,00. Onde: Espaço d'Os Satyros, Praça Roosevelt, São Paulo.

10 de jan de 2008

E o mar chegou!

Chegou fincando as bandeiras do novo nas válvulas do coração cansado. Chegou trazendo uma correnteza de peixes para piracemar o lago, ontem vazio. Chegou o mar de água doce, deleite de mel, poética sua. (Imagem belíssima de Iléa Ferraz)

9 de jan de 2008

TJ-RS reconhece união estável entre duas mulheres

"A Justiça do Rio Grande do Sul julgou nesta segunda-feira (7/1) procedente uma ação para reconhecer a família constituída pela autora do processo, 63 anos, e sua companheira, que já morreu. As duas que conviveram em união estável por 25 anos. O juiz Roberto Arriada Lorea, da 2ª Vara de Família e Sucessões de Porto Alegre, afirmou na sentença que o casamento civil está disponível para todos, independentemente de orientação sexual. "O casamento civil é um direito humano - não um privilégio heterossexual". Acrescentou, ainda, que o ordenamento jurídico brasileiro veda qualquer forma de discriminação. A ação foi ajuizada visando o reconhecimento da união estável desde 1980 até a morte da companheira, ocorrida em 31 de julho de 2005. Elas se conheceram no prédio em que moravam e os vizinhos sabiam do relacionamento, bem como os parentes e colegas de trabalho das duas. O magistrado salientou que a segregação de homossexuais, restringindo-lhes direitos em razão de sua orientação sexual, é incompatível com o princípio da dignidade humana, expresso no artigo 1º da Constituição Federal. 'Conviver com essa desigualdade é aceitar o apartheid sexual', disse. Ele ressaltou que negar o acesso ao casamento civil a pessoas do mesmo sexo é uma forma de segregação, como se faz em relação à cor da pele dos cidadãos. O magistrado destacou na sentença que a nova definição legal da família brasileira (Lei nº 11.340/06) contempla os casais formados por pessoas do mesmo sexo, conforme antecipado pelo Poder Judiciário do Rio Grande do Sul, por meio do Provimento nº 06/04, da Corregedoria-Geral da Justiça. Ele lembrou, ainda, a edição, por ordem judicial, da Instrução Normativa nº 25/2000, do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social), assegurando os benefícios previdenciários ao companheiro, independentemente da orientação sexual do casal. Segundo o juiz, ficou comprovada a existência da relação pública entre ambas, de forma duradoura e contínua. Além das testemunhas, há farta prova documental sobre o relacionamento estável. A união foi formalizada através de documento, em 1981, assinado por testemunhas. Para ele, embora a referida 'certidão de casamento' não tenha sido registrada, 'nem por isso deixa de traduzir inequívoca manifestação de vontade das partes'. O próprio Ministério Público o qualificou como 'prova irrefutável de que houve o efetivo consórcio entre a autora e a falecida.' O juiz acrescentou que existem diversas correspondências enviadas ao casal, nas décadas de 80 e 90, endereçadas ao apartamento em que as duas residiam. No álbum de fotografias, destaca-se o registro do brinde nupcial, 'numa imagem que se conforma perfeitamente à narrativa inicial e à certificação de casamento já examinada.' " (Fonte: Última Instância - revista jurídica http://ultimainstancia.uol.com.br/noticia/46171.shtml) Ilustração: Iléa Ferraz

8 de jan de 2008

Os Sementais de Yennenga - mostra de cinema africano em Brasília

(Por:Ricardo Daehn, do Correio Braziliense) "Parece um contra-senso, mas é justamente na árida região de Burkina Fasso, no oeste africano, que se dá visibilidade estrangeira ao potencial da cinematografia africana, por meio do maior evento competitivo audiovisual daquele continente: o Festival Pan-africano de Cinema e Televisão de Uagadugu. Mais conhecido como Fespaco, o evento bienal traz como premiação máxima o troféu Semental de Yennenga, representativo até no nome – que tanto remete à fecundidade das sementes quanto abarca a propagação de instintos de antepassados. Agrário por excelência, Burkina Fasso empreende a missão hercúlea de – sendo um dos líderes entre os mais baixos índices de desenvolvimento humano – disseminar esperança para uma realidade de mercado contaminada pelo domínio de fitas norte-americanas, pelo avanço da pirataria, pela decadência do parque de exibição e por ingressos inacessíveis aos padrões de consumo africanos. A valorização desse espírito de resistência do Fespaco figura na base da mostra Os Sementais de Yennenga, a partir de hoje, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Quase dois anos depois dos 18 títulos que compuseram Novo Olhar do Cinema Africano, o CCBB conta novamente com a parceria do Ministério de Relações Exteriores da França para dar acesso aos raros 15 longas-metragens africanos que compõem a programação, toda em DVD. Entre nomes pouco conhecidos no Brasil, o diretor Abderrahmane Sissako (criado em Mali) é uma das exceções, tendo participado, fora do circuito competitivo, do Festival de Cannes de 2006, com Bamako, espécie de ajuste de contas entre africanos e instituições comprometidas com o endividamento social do continente. Na mostra, porém, ele está representado por En attendant le bonheur, ambientado na Mauritânia e que apresenta o menino Abdallah, prestes a seguir para a Europa, num derradeiro contato com costumes africanos igualmente desconhecidos. A questão da adequação social também se derrama por outros filmes, como Histórias de um encontro e Identidade. O primeiro centra o foco em uma dupla de surdos-mudos que derruba as esperadas barreiras de comunicação, diante das distintas origens (norte-americana e argentina) pelas quais são influenciados. Também na mostra do CCBB, Identidade revela o reencontro de um rei do Congo com a filha, ausente desde o momento em que foi enviada à Bélgica para aperfeiçoamento nos estudos. Dilema que perpassa várias tramas integradas em Os Sementais de Yennenga, o casamento, atrelado ao status e à estratificação social, comanda boa parte das histórias. Despontam daí os enredos do órfão que recorre a um inescrupuloso tio para o pagamento de um dote (em Muna moto); do rapaz que deixa temporariamente a aldeia africana para amargar o enlace da própria noiva com o pai (em Tilaï) e o peso da tradição que surge como impeditivo para a união de dois estudantes da Costa do Marfim (em Djeli). Logo na abertura, a mostra do CCBB, agrupa na programação As mil e uma mãos (hoje, às 18h) – em torno da lucrativa cadeia de tapeçaria incrementada em Marrakech – e Sarraounia (às 20h), voltado para o espírito pacificador da homônima rainha africana. O mote, por sinal, em muito se aproxima da lenda em torno da princesa Yennenga, reverenciada no troféu do Festival Pan-africano de Cinema e Televisão de Uagadugu. Tido como fundador do império do povo mossis (dominante em Burkina Fasso), Ouédraogo teria sido gerado com a paixão alimentada entre um caçador solitário e Yennenga, a filha do rei de Gambaga, impedida de casar e destacada para liderar um exército. Circunstancialmente, ela acaba por providenciar o único herdeiro do reino do pai. Do continente fortemente influenciado por crenças extra-sensoriais ressoam temáticas como as exploradas em Budd Yam – no qual um rapaz marginalizado pretende provar seu valor, ao recorrer a um curandeiro – ou no longa Em nome de Cristo, que evidencia a capacidade de convencimento de um marfinense autoproclamado primo de Jesus. Com apenas duas lacunas no total dos 18 títulos premiados pelo Fespaco – faltam na mostra o vitorioso da primeira edição oficial (1972) e o da mais recente (2007) –, Os Sementais de Yennenga alinha, finalmente, filmes como Baara, Drum e Finyé. Pela ordem, um trata da projeção alcançada por um carregador de bagagens, auxiliado por um nada conformista engenheiro que se indispõe com a diretoria da fábrica onde trabalha; Drum se concentra na denúncia da perseguição governamental sul-africana à casta intelectual que espalhava ideais libertários; e Finyé, outro retrato de insurgência contra a classe dominante, construído a partir da amizade entre dois adolescentes saídos da opressora sociedade maliana". (Ilustração: Iléa Ferraz) Os Sementais de Yennenga Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, Tr. 2, Conj. 22; 3310-7081). De hoje ao dia 27, exibição de 15 filmes premiados no Festival Pan-africano de Cinema e Televisão de Uagadugu. Sessões de terça a sexta, às 18h e 20h. Entrada franca. NR* 16 anos.

5 de jan de 2008

"Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! é meu novo livro, a sair pela Mazza Edições, em fevereiro de 2008

Estou aqui, contente e emocionada, revisando a primeira versão em pdf do meu livro novo – “Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!”. Sai em fevereiro, pela Mazza Edições. É um livreto singelo que aborda o amor e a solidão, vistos e sentidos por personagens femininas, principalmente. São olhares críticos, ácidos, vez ou outra líricos, outras tantas humorados e com mais uma dose de acidez. Jeferson De afirmou na orelha que a autora é cruel. Nazareth Fonseca asseverou no prefácio que “é montado um painel de pessoas e vidinhas comuns, ritmado pela busca de afeto, de companhia, de casual sex, de sexo, sexo, sexo, ou mesmo de soluções incomuns que ajudem a aliviar o corpo torturado pelo desejo. São por isso histórias de humores e impulsos para desbancar a solidão ou o vazio de uma convivência que sabe a cebola e cerveja ou que incomoda como o contato de sola de pés tipo lixa” (...) Não sei, não sei! Você precisa ler para formar sua própria opinião. O Tambor é ilustrado pela amiga e artista plástica Lia Maria, que já havia produzido a capa do Tridente (2ª edição) e a coleção de postais Tridentiana. São lindos os desenhos. Para contar um pouco sobre como o livro foi feito, digo-lhes que depois do Tridente, várias pessoas, escritores em especial, sugeriram que eu me dedicasse a textos mais longos, pois demonstrara fôlego para fazê-lo. É óbvio que gostei da sugestão, mas resolvi me desafiar de outra forma, quis escrever textos curtos, alguns curtíssimos e dar meu recado em poucas linhas. O resultado é o Tambor, vamos ver. Tenho um conhecido que manda e-mails incessantes divulgando o próprio livro e sempre conclama os futuros-prováveis-leitores: “você precisa ler; não pode perder; não leu ainda? Não sabe o que está perdendo”. Prometo que não farei isso na sua caixa postal, mas vou fazê-lo aqui no blogue. Vou divulgar uns textos e imagens para ver se o som do Tambor seduz os leitores. E desde já convido você a adquirir seu exemplar pelo sítio da Mazza Edições www.mazzaedicoes.com.br, a partir de fevereiro 2008, pois só pego a estrada para divulgá-lo em março. Até lá, dedico meu verão à escritura de umas cositas novas. E lembre-se, a cada livro adquirido, galvanizo argumentos para convencer a editora do bom investimento feito. Portanto, sua participação é fundamental. E tem mais, se as vendas não acontecerem, pode ser que eu tenha que fustigar sua caixa postal. Pense bem, previna-se, é melhor comprar pelo amor, do que pela dor. (Ilustração Iléa Ferraz)

4 de jan de 2008

Mutum: que filme!

Consegui assistir no cinema, antes que a passagem relâmpago pela telona, destino inevitável dos bons filmes de parca bilheteria, me obrigasse a ver Mutum, de Sandra Kogut, em vídeo ou DVD. Este filme é daquelas obras que tocam com uma pluma, a humanidade do mais rude dentre os rudes. Para entendê-lo não é preciso conhecer a obra de Guimarãs Rosa, nem ter cultura cinematográfica, tampouco ser experiente desbravadora da cultura do sertão de Minas Gerais. É só desbloquear as senhas e esquecer os códigos de barra que dão acesso à humanidade perseverante no interior das gentes. Que trabalho magnífico de preparação de atores, gente comum do interior de Minas, talvez aspirante a artista realizando sonho, falando de modo cantado, ora lento, ora atropelado, aquele engolir da última sílaba de uma palavra emendado com a primeira da outra, criando falares e sonoridades novos, única coisa do filme a exigir uma certa especialidade de entendimento, talvez. Gostoso e desafiador desentender, para cortejar o poeta Manoel de Barros, amigo e contemporâneo vivíssimo de Guimarães Rosa. As imagens do sertão mineiro, a fotografia, a beleza de cara lavada de Rosa, a agregada, tão comum na paisagem das famílias do interior, da mãe de Thiago, o menino-protagonista, - além da beleza, o amor transbordante no cuidado com a sensibilidade do filho diferente dos outros -, tudo emoldurado por diálogos simples, densos, nos quais até o pai brutamontes ensina ao filho a única coisa que talvez saiba fazer na vida, cabrocar a terra. Um roteiro belissimamente edificado em poesia fina, em invenção de histórias, nos encantos e dores cotidianos. Eu tive saudade de Cinema Paradiso, do Menino Maluquinho, das Filhas do Vento, de Daughters of the Dusty, da Cor Púrpura, de Sankofa... desses passeios particulares pelo universal, aconchego de uma canção de aboio.