Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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30 de jun de 2010

Cidinha da Silva em entrevista ao blogue Película Negra

Há umas três semanas recebi uma solicitação de entrevista do blogueiro Filipe Harpo peliculanegra.blogspot.com. Respondi afirmativamente e logo depois chegaram as perguntas. Demorei um pouco para respondê-las, como já sabem, pela habitual falta de tempo, mas também porque foram perguntas inteligentes que me instigaram a pensar. Publico agora o resultado, postado ontem no blogue película negra. A literatura tornou-se um caminho para expor suas idéias a partir de que ponto na sua vida? E o porquê escolheu a prosa como o seu caminho na escrita? Eu comecei a publicar literatura em 2006, 1a edição do Tridente, aos 39 anos. Minha paixão pela leitura e pela escrita, entretanto, teve início quando comecei a ler, aos 5 anos. Os quadrinhos foram a primeira descoberta e mesclaram-se (continuam a se mesclar) com diferentes livros e autores ao longo da vida. Eu me sinto fluida, feliz e confortável ao escrever prosa. Os poemas doem muito, prefiro lê-los. Aliados à dor que me afasta (tenho pouca resistência para sofrer ao escrever), faltam-me talento poético e técnica para criar poemas. Ao contrário do que muita gente professa por aí, escrever um poema é algo dificílimo. Lapidar a palavra até alcançar a precisão da expressão não é para muitos. Tenho me contentado em pescar a poesia da vida vivida para a minha prosa. Existe muita informação vinculada no Brasil que o próprio Brasil não lê, não se mostra interessado pela literatura, por um arsenal de motivos, mas o principal que geralmente citam são os altos preços das publicações. Como autora de livros infantis, crônicas, além de volumes ligados a área da Educação, como você enxerga a relação da literatura com o brasileiro? Antes de qualquer coisa é preciso investir na formação de público-leitor. Diversos são os fatores que dificultam a promoção da leitura, o gosto pela literatura, e são anteriores ao preço elevado dos livros. Vejamos: inexiste, no Brasil, uma cultura de valorização do livro, do(a) leitor(a), do conhecimento e do prazer de ler. Falta incentivo ao contato das pessoas não intelectualizadas com o objeto-livro, principalmente por parte das elites intelectuais e dirigentes, que seguem, ao longo de séculos, tratando o livro como um bem destinado a um grupo de pessoas eleitas. O número de bibliotecas públicas nas cidades, com programas massivos e atraentes para convidar as pessoas a freqüenta-las é insuficiente. Não existe também um número satisfatório de bibliotecas nas escolas públicas, quando existem, possuem acervos ultrapassados e pouco dinâmicos no sentido de fomentar a circulação de livros. Graça o desestímulo à leitura na maior parte do ensino de Português e Literatura nas escolas públicas brasileiras, no qual se privilegia aquilo que supostamente “o autor quer dizer” e que o professor (onisciente) sabe o que é, restando ao pobre estudante encontrar “as respostas certas” no processo de interpretação de texto, que, por si só, deveria ser algo subjetivo e pessoal. Por fim, o preço dos livros de literatura no Brasil não é competitivo comparado a outras opções de entretenimento. O alto preço das obras é definido por fatores agregados, tais como: baixa tiragem de cada edição, circulação lenta dos livros na venda a varejo (em livrarias e similares) e ausência de uma política de popularização e valorização da leitura. Nos últimos anos a literatura infantil no Brasil teve uma grande mudança com a chegada de vários exemplares com histórias envolvendo a temática da cultura afro brasileira e africana sem estereótipos. O curioso é observar dois movimentos que se vê na compra desses exemplares; o adulto que compra o livro para a criança (público alvo) e adultos que compram os livros para si mesmos. Para você, escritora também de uma novela juvenil, qual o impacto que esta nova literatura negra tem sobre adultos e crianças negras? Houve mudanças pontuais e simbólicas, discordo que tenha sido algo grande. A inflexão de impacto na literatura infantil e juvenil no Brasil, de maneira global, ainda está circunscrita aos anos 70 e 80, com a geração dos grandes escritores e escritoras do gênero que vieram após Lobato, a saber, Ruth Rocha, Marina Colassanti, Ana Maria Machado, Lygia Bojunga e Bartolomeu Campos Queiroz, para citar alguns. No que concerne aos escritores negros, no gênero, temos o precursor e largamente premiado Joel Rufino dos Santos, Geny Guimarães com os belos e premiados “A cor da ternura” e “Leite de peito” e contemporaneamente, Heloísa Pires Lima, que vem fazendo um trabalho muito consistente, principalmente movido pelo diálogo com culturas africanas, além de Edimilson de Almeida Pereira, autor de “Os reizinhos de Congo”, “Histórias trazidas por um cavalo-marinho” e “Rua Luanda”, dentre inúmeras outras publicações. Um autor que admiro muitíssimo, cuja produção literária me ensina muito. Dentre a vasta obra da octogenária e ativa Ruth Guimarães, dedicada à cultura popular do interior de São Paulo, há vários títulos que também podem ser lidos e desfrutados pelo público infanto-juvenil, embora ela não se defina como uma escritora do gênero. Em que pese não ser especialista no tema, arrisco dizer que ainda somos poucos escritores e escritoras negros com trabalho consistente no campo da chamada literatura infanto-juvenil. Pululam livros de afirmação da identidade negra e também os de auto-ajuda para crianças negras (sem esquecer que existem os de auto-ajuda para crianças brancas, nos quais o “inimigo” pode ser o “pivete”, o “trombadinha”, o morador de favela ou de rua, o bom de bola delinqüente e perigoso, invariavelmente representados por personagens negras). Livros em que, o mais das vezes, a tal “mensagem para a criança” sobrepuja qualquer lampejo de criação literária. Mas, não sejamos mais realistas do que o rei, existe espaço no mercado editorial e em nossos combalidos corações para essa produção. Eu mesma sou uma compradora contumaz de livros em que personagens negras tenham destaque na trama, em que apareçam na capa ou quarta capa em posições dignas... compro, leio, faço a triagem, vejo o que serve para presentear os pequenos da minha vida, os que servirão como referências boas ou ruins para minhas aulas e textos, e aqueles que lerei duas, três vezes, por prazer ou para estudá-los. Penso que essa produção de prosa afirmativa da identidade negra, por parte de autores e autoras negros é que abunda, mais do que uma produção literária, propriamente. Por outro lado, há autores não-negros com trabalhos respeitáveis de literatura dialógica com matrizes afro-brasileiras e/ou africanas, neste campo destaco Rogério Andrade Barbosa (com altos e baixos) Lia Zatz e Carolina Cunha. Esta última, devo confessar, não consigo saber se é negra ou não, pois não há referências quanto ao seu pertencimento racial no catálogo ou no sítio da editora (SM Edições). Não há fotografias nos livros e nunca encontrei imagens confiáveis na Internet, é uma incógnita. Encontrei apenas uma definição de que é “baiana de Salvador e desde menina é atraída pelos mistérios dos encantos africanos, por isso se tornou pesquisadora de línguas e artes africanas no Brasil”. O trabalho literário, o que mais importa, é de excelente qualidade e as ilustrações também são belíssimas, feitas por ela. A grande novidade, ainda tímida, me parece ser a entrada de escritores negro-africanos no mercado editorial brasileiro: desde o poderoso angolano Ondjaki, que conta com o lastro marketeiro de uma das maiores editoras do país para sua literatura de incontestável qualidade a autores bem menos conhecidos, mas com um trabalho muito bom, tais como: Adwoa Badoe e Meshack Asare, de Gana, Mamadou Diallo, do Senegal e Sunny, da Nigéria, dentre outros. Você tem cinco livros publicados. Como se deu processo de construção deles? É algo que vai acontecendo de forma livre ou obedece um caminho seguro, regras/padrões/prazos, como prefere fazer alguns autores? Tenho quatro livros publicado, três de literatura e um de ensaios. O quinto livro está pronto, mas ainda inédito. Segue o processo de garimpar editoras e participar de concursos, é também um infanto-juvenil. Normalmente sou uma pessoa organizada para trabalhar, o desenho e organização dos processos é importante para mim, mesmo que vá mudando muita coisa pelo caminho. Gosto de escrever pelas manhãs, meu horário mais produtivo para a vida. Quanto a prazos, depende da demanda, tanto da minha demanda particular, interno-afetiva com o texto em tela, quanto da demanda externa. Um bom exemplo é quando tenho prazo para entregar o trabalho a uma editora ou para inscrever o livro em um concurso. Os prazos e a organização não me atrapalham, ao contrário, me ajudam. O que muda em Cidinha da Silva a cada livro escrito e publicado? Creio que são as mudanças trazidas pelas coisas boas que acontecem na vida: às vezes são surpreendentes, outras são presentes esperados e merecidos, às vezes são avatares de alegria, de melhores tempos... um livro escrito e publicado é invariavelmente uma coisa boa e as coisas boas nos tornam seres humanos melhores. Você além de muitos afazeres também é blogueira, pelo que vi ao contrário de muitos blogs por ai, você posta com certa freqüência nele sobre cultura negra, literatura, quadrinhos e sua vida profissional também. Vi pelas postagens que sente às vezes vontade de desistir e tem vezes que parece estar animada escrevendo-as. O que a motivou usar esta ferramenta virtual? Iniciei o blogue pouco depois de começar a publicar literatura e tinha o objetivo primeiro de dialogar com meu público, de atingir a um público maior e de ocupar uma fatia de espaço virtual pouco ocupado por escritores e escritoras negros brasileiros. Nunca pensei no blogue como um espaço para produzir literatura, vejo-o muito mais como um espaço de expressão política por meio da arte que acredito e gosto. Às vezes oscilo quanto à continuidade dele porque tenho menos tempo para escrever do que gostaria, isso às vezes me frustra muito. Gostaria de postar mais textos autorais do que notícias, de ter tempo para comentar as notícias e desenvolver minhas reflexões. Foi através do seu blog também que acabei sabendo que obras suas estarão em breve em versões cinematográficas. Instantaneamente lembrei filmes como A Cor Púrpura, que foi odiado inicialmente pela autora Alice Walker até ela, anos depois, compreender que seu livro tinha virado outro produto e também de Paulo Lins cujo seu Cidade de Deus foi reinventado nos cinemas. Quais são as expectativas e medos em relação à sétima arte inspirada na sua literatura? Primeiro é importante dizer que algumas obras minhas estão em processo de adaptação como curtas de ficção, nada de telona, por enquanto. Segundo, fico muito animada, sempre, porque acho o cinema um grande barato. O Joel Zito Araújo, amigo querido e cineasta que respeito muito, disse certa vez que tenho textos muito “fílmicos”. Pelo que entendi do comentário dele, são textos que se prestam bem ao cinema. Outro amigo querido, o poeta Ricardo Aleixo menciona a agilidade da minha escrita, o que também está relacionado à imagem, não é? Então, esse “coqueteio” com o cinema é algo que me alegra muito. Por fim, pelo menos de forma racional, separo a obra literária das outras expressões artísticas que ela inspira. Mas gostaria muito que meu texto fosse para o teatro, por exemplo, assim como o texto de Marcelino Freire tem ido, ou seja, de maneira integral, sem cacos, sem xistes de ator, sem acréscimos ou cortes na palavra minha. Que a arte do ator apareça pela interpretação do meu texto que se manteria integral, intacto, isso é um sonho de consumo. Neste momento, a Iléa Ferraz, ilustradora do Pentes e também atriz de sucesso, está montando um espetáculo a partir dos textos do livro “Os nove pentes d’África”, com estréia prevista para agosto, no espaço Tom Jobim, aqui do Rio de Janeiro. Vi uma prévia no lançamento do Pentes, realizado em março deste ano, no Centro Afro-carioca de Cinema, também no Rio. Trata-se de uma criação de dramaturgia, música e de expressão corporal a partir do texto, escrito por mim e das imagens dos pentes desenhados por ela, mas ali não estará o texto “Os nove pentes d’África” em sua integralidade. É uma possibilidade interessante, exige um desapego afro-zen. Estou empenhada em abrir o coração para as novas obras que nasçam a partir da minha. Entretanto, há uma coisa que me irrita, é quando atores ou performers dão ao meu texto uma corporeidade espalhafatosa que meu texto não proporciona. Por mais que a pessoa viaje, não cabem efeitos exagerados em um texto econômico como o Pentes, por exemplo. Já aconteceu algo assim e fiquei bastante frustrada. Senti como se a atriz pusesse meu texto no chão e descarregasse um pente de tiros de metralhadora sobre ele. Pareceu-me uma performance pronta (e talvez eficaz em outros contextos) encaixada no meu pobre texto. Você é graduada em historia pela UFMG. Só que virou escritora de renome no cenário da literatura negra nacional. Existe lugar para a historiadora Cidinha quando a escritora entra em ação? A historia que estudou na universidade influencia de alguma forma as historias que conta como escritora? Sua pergunta tem várias partes. Para início de conversa não me vejo como uma escritora de renome em qualquer cenário, agradeço sua manifestação de carinho e apreço por mim e por meu trabalho. Sou uma escritora séria, dedicada, uma pessoa que lê muito, inclusive para enfrentar suas inúmeras lacunas de conhecimento, que estuda para conhecer novas técnicas de escritura e apurar as que tem, além de escrever e reescrever todo o tempo que minha vida de operária do intelecto (de onde vem meu sustento) permite. Eu tenho verve de pesquisadora e isso me acompanha em todas as atividades, não a pesquisa acadêmica, mas a pesquisa movida pela curiosidade de conhecer, pela necessidade de desenhar a planta baixa de uma obra literária, pela necessidade de melhor construir um projeto artístico. Relendo meus primeiros textos, os publicados e principalmente os que não publiquei, seja pelo meu próprio discernimento, seja por sugestão de outrem, percebo que, mais do que a historiadora, a ativista me tolhia. Hoje estou um pouco mais solta, mas às vezes ainda sou lembrada (por mim mesma ou por leitores críticos) de que a ativista deve se recolher quando estou escrevendo literatura. Como disse Nadine Gordimer ao comentar sua produção literária e a luta inescapável contra o racismo na África do Sul dos tempos terríveis do Apartheid, “estamos discutindo assuntos importantes. Agora vamos deixar de falar sobre eles para que eu possa voltar à questão de escrever sobre eles”. Vi criticas, sempre muito positivas, sobre seus livros, principalmente “Você me deixe, viu?Eu vou bater meu tambor!”. Na maioria delas, evocam um lado profundo, de uma literatura engajada, feminista, quase uma pretensa responsabilidade sua em escrever literatura negra feminina, pois é autora negra. Eu achei sua linguagem muito simples, temas como sexualidade, amor, relações entre homens e mulheres soltam para o leitor de forma despretensiosa. Você se sente cobrada em escrever literatura negra sobre mulheres, pois é uma autora negra? Como lida com as criticas positivas e já recebeu alguma negativa, já que não encontrei nenhuma? Primeiro vou comentar o preâmbulo para depois responder às perguntas. Você é um afortunado, eu tenho menos acesso às críticas do que você. Nós, no Brasil, inclusive na Universidade, somos pouco críticos, não é? A crítica é tomada como algo pessoal (às vezes o é, de fato) e as pessoas têm medo de ganhar inimigos ao criticar um trabalho. Confesso que vez ou outra, eu mesma tenho medo de criticar, principalmente trabalhos de amigos. Creio que tendo a lidar bem com a crítica séria e fundamentada, mas se forem coisas destruidoras, maldosas ou burras, convoco a dupla dinâmica das estradas e vamos buscar caminhos. Sim, minha linguagem pretende ser simples. Quero alcançar as pessoas, quero ser lida. Além da simplicidade, busco a economia textual, pois sou prolixa e não quero que meu texto o seja. Sim, me sinto cobrada, apenas por homens que pensam saber o que uma prosadora negra deveria produzir em terras tupiniquins. Em geral, eu ouço as sugestões deles, atenta e muda, mas elas entram por uma orelha e saem pela outra, não esquentam lugar no meu cocoruto. Vi que o livro Cada Tridente em Seu Lugar foi lançado também em formato e-book. Mas muitos autores atualmente publicam somente na web seus escritos, às vezes por conta que não possuem editores ou até por gosto mesmo dessa nova ferramenta. Está em seus planos publicar algo somente no mundo virtual? O Tridente será lançado como livro eletrônico, em breve. Estou muito contente porque a editora escolheu três autores para abrir esse caminho e eu estou entre eles. Tenho planos de publicar uma obra virtual, sim. Será um trabalho embasado pelo Pentes e em conversas sobre literatura, especificamente sobre a minha produção literária, desenvolvidas com pessoas diversas em comunidades de favela e periféricas da cidade do Rio de Janeiro. Para Cidinha da Silva ser escritora negra no Brasil, um país com racismo velado, é... Uai, racismo velado onde, cara pálida? O racismo aqui é virulento - em que pese não haver racismo brando em lugar algum, é só para contrapor o suposto disfarce - e escancarado. Mata, obstrui e aniquila. Eu sou uma mulher negra aqui e em qualquer lugar do mundo. Mais do que uma escritora negra sou uma negra escritora, tal como seria uma negra médica, gari, cozinheira, professora universitária. Ser negra é nome. É substantivo, principalmente em sociedades racistas e racializadas como a brasileira.

29 de jun de 2010

Ateliê Mata a Dentro expõe em São Paulo

(Texto de divulgação). "A exposição coletiva Ecológica abre nesta quinta-feira, 01 de julho de 2010, às 20hs. O Ateliê Mata Adentro apresenta a instalação ENTRELAÇO. Multicolorida em suas madeiras extintas, a obra ENTRELAÇO se alimenta da força verde que brota pelas frestas do concreto. Os resíduos de madeira renascem em estruturas interconectadas que redefinem o ambiente sob a profusão de fragmentos plenos de memória natural. O resultado reflete um desdobrar de questões essenciais como a coexistência e a origem. É a vitalidade do solo que come de volta a cidade que o engoliu". MUSEU DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO Parque Ibirapuera Portão 3 de 01 de julho a 29 de agosto de 2010

28 de jun de 2010

Obras reveem o advogado e combatente Luiz Gama

(Deu na Folha de S. Paulo - Por Fabio Victor). "Escravo liberto que conquistou respeito por sua força intelectual e pela habilidade, como advogado, em libertar negros cativos muito antes da Lei Áurea, Luiz Gama (1830-1882) foi o primeiro vulto abolicionista do país. Mulato autodeclarado negro em plena escravidão, poeta satírico, líder republicano, é intrigante que sua figura continue subestimada na galeria das personalidades históricas do país, com reconhecimento quase restrito ao movimento negro, ao mundo jurídico e à maçonaria, outro setor em que atuou. No aniversário de 180 anos do nascimento de Gama, comemorados na última segunda (21), dois lançamentos engordam a relativamente parca bibliografia a seu respeito. Do advogado Nelson Câmara, Luiz Gama: o advogado dos escravos (Lettera, 316 pp., R$ 39,90), com prefácio de Miguel Reale Júnior, agrega à biografia transcrições das defesas de Gama, garimpadas no arquivo do Tribunal de Justiça de SP. Militante do movimento negro, o sociólogo e professor Luiz Carlos Santos escreveu para a Coleção Retratos do Negro no Brasil o perfil biográfico Luiz Gama (Selo Negro/Summus, 120 pp., R$ 21), em que sintetiza sua trajetória única ressaltando-lhe o caráter combativo na luta contra a discriminação da raça. Traz as íntegras da carta autobiográfica que Gama escreveu a pedido do amigo Lúcio de Mendonça e do comovente artigo em que Raul Pompéia descreve o enterro do abolicionista, que reuniu 3.000 pessoas numa São Paulo de 40 mil habitantes".

23 de jun de 2010

Avante Gana!

Mostra Cultural Enraizados, 25 de junho, no Rio de Janeiro

(Texto de divulgação). "Na próxima sexta-feira, dia 25, vai acontecer a Mostra Cultural Enraizados. O evento é um agregador de atividades do Movimento Enraizados e parceiros. Nesta edição vai rolar premiação do filme Realidade dos Jovens, lançamento do filme Baixada Perifestival - sobre o VIII Encontrão - e o Café no Ponto, da ComCausa. Vamos presentear os participantes do Festival de Hip Hop com uma cópia do filme, por isso não deixe de comparecer. Sua participação é importante, esperamos você no dia 25 de junho a partir das 17h".

21 de jun de 2010

Livro de Mandela terá prefácio de Obama

(Deu no PublishNews). "O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assinará o prefácio do livro do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, que será lançado no Brasil pela Rocco. Compilação de diários, cartas, discursos, jornais e outros documentos que perfazem a trajetória sem precedentes do líder, Conversas que tive comigo foi um dos livros mais disputados na última Feira de Frankfurt, a mais importante do mercado editorial, em outubro passado. O livro abordará desde os primeiros passos de Nelson Mandela na luta contra apartheid, passando por seus anos na prisão, até a consolidação de sua carreira internacional, como um dos maiores líderes políticos da atualidade. Conversas que tive comigo terá lançamento mundial em outubro".

Guarani é oficializado como segunda língua em município do MS

(Deu no PublishNews). "O guarani é a segunda língua oficial do município de Tacuru, no sul do Mato Grosso do Sul, próximo ao Paraguai, onde a maioria dos 3.245 indígenas não é bilíngue, falando somente o Guarani, o que dificulta o acesso aos serviços públicos mais essenciais. Tacuru é o segundo município do país a adotar um idioma indígena como língua oficial – o primeiro foi São Gabriel da Cachoeira, no extremo norte do Amazonas. Com a nova lei, os serviços públicos básicos na área de saúde e as campanhas de prevenção de doenças neste município devem, a partir de agora, prestar informações em guarani e em português, e estabelece, também, que nenhuma pessoa poderá ser discriminada em razão da língua oficial falada, devendo ser respeitadas e valorizadas as variedades da língua guarani, como o kaiowá, o ñandeva e o mbya".

20 de jun de 2010

Tem gente em festa com a morte de Saramago

(Por: Leonardo Sakamoto). "Os comentários que saíram no jornal oficial do Vaticano “L’Osservatore Romano” sobre Saramago mostram que a igreja católica realmente não mudou muito nos últimos séculos. A diferença foi o verniz de modernidade para se adaptar aos novos termpos: os ritos de inqusição não são mais em latim e, agora, são divulgados por meios de comunicação para todo o planeta, instantaneamente. Imaginei mesmo que algum cardeal ou bispo iria aproveitar o passamento do escritor para dizer que ele, um comunista comedor de criancinhas, levava a cabo uma cruzada contra o cristandade. Creio que o próprio, se pudesse ver tudo isso, iria pedir que mais bravatas fossem ditas e se divertir muito – da mesma forma que nos fez rir – dos dogmas e de seus defensores. Em uma das tiras do personagem “Deus”, do cartunista Laerte, um desregrado e ateu chega ao céu e é bem recebido pelo todo-poderoso. Uma outra, que seguiu todos os mandamentos, vê a cena e reclama que teve uma vida de abnegação enquanto o novato viveu na esbórnia mundana e acha injusto que ambos dividam o mesmo céu. No que Deus retrucou algo do tipo: “o mesmo não, eu criei um céu para pessoas legais como ele que está logo ali ó”. Se existisse algo sobrenatural como o céu, Saramago iria para o cantinho do pessoal legal enquanto parte considerável da estrutura da igreja ficaria na sala de espera (me vem à mente a imagem criada por Ariano Suassuna no Auto da Compadecida para ser bem exato). Será que o “L’Osservatore Romano” quando define Saramago como um intelectual aprisionado em sua confiança profunda no materialismo histórico, não percebe que não está criticando, mas fazendo o maior elogio possível ao homem? Se mais pessoas fossem assim, o mundo seria um lugar melhor para se viver. O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi um dos melhores livros que já li do autor, pela provocação. Por isso, seria difícil imaginar que a igreja não iria sapatear sobre as cinzas do homem que transformou em literatura de qualidade o fato de Jesus ser humano (e ter feito amor com Maria Madalena) e deixado a entender que o problema não era o diabo mas alguém mais acima? Bem, não quero usar este espaço para gritar com aqueles que não escutam. E a humanidade merece seus dias de luto por ter perdido Saramago – mesmo que alguns não percebam isso. Mas se a igreja usasse a mesma virulência instantânea com a qual atacou o escritor para criticar os padres comedores de criancinha, o papa Ratzinger não teria que, agora, pedir tantas desculpas ao mundo".

18 de jun de 2010

O Estatuto, o racismo e a luta das mulheres

(Por: *Guacira Cesar de Oliveira). "O Estatuto da Igualdade Racial, depois de muito lavado e enxaguado, ficou esgarçado, desbotado, desfigurado e só agora foi aprovado pelo Congresso Nacional, apesar da manifestação contrária de boa parte do movimento negro e de organizações anti-racistas. Existe racismo no Brasil. Só nesse contexto, é possível entender como um Estatuto com esse nome, após ter tramitado por mais de uma década na Câmara e no Senado (apresentado pela primeira vez em 1995), pôde ser completamente esvaziado, destituído de todo o seu potencial transformador e, ainda assim, ser aprovado. Nessa longa caminhada, foram inúmeras as perdas. Nos primeiros anos, o grande problema parecia ser a criação de um fundo público destinado à promoção da igualdade e enfrentamento do racismo, que sustentaria as medidas previstas no Estatuto. Naquela época, a oposição à igualdade racial era velada, em geral se escondia atrás desse argumento, ponderando que o financiamento das ações não precisava de um fundo específico, de recursos carimbados exclusivamente para esse fim, que o orçamento público, com diretrizes bem definidas, já seria suficiente. Depois que o debate sobre o financiamento das políticas de promoção da igualdade e enfrentamento do racismo foi vencido, outra onda começou a se armar na tentativa de fazer naufragar o debate público sobre a existência do racismo no Brasil e evitar quaisquer medidas que atentassem contra os privilégios conferidos aos brancos. A proposta de quotas raciais nas universidades, que àquela altura dos acontecimentos já havia promovido um grau inédito de inclusão social e racial no ensino superior foi satanizada. A mídia de massa entrou com tudo nessa discussão. Toda sorte de argumentos absurdos, contradizendo as evidências, os dados e as experiências recentes, foram veiculados: “o estatuto vai racializar a sociedade brasileira”, como se a idéia de raça, da superioridade branca e inferioridade negra não tivesse fundado o Brasil desde a colônia; “não existe racismo no Brasil”, como se quem vive o racismo na pele, na verdade estivesse sofrendo delírios; “as quotas vão racializar a sociedade brasileira e gerar confrontos que hoje não existem”, como se o assassinato de jovens negros pela polícia nesse país fosse uma peça de ficção. Anualmente, o número de crianças negras que morrem no Brasil é praticamente o dobro das brancas. A morte materna, evitável em 92% dos casos, atinge aproximadamente 6 vezes mais as mulheres negras do que as brancas. Contudo, o Estatuto, encaminhado à sanção do Presidente Lula, exclui diversos outros dispositivos: o que estabelecia a política nacional de saúde da população negra, que fazia referência à redução da mortalidade infantil e materna, e das mortes violentas; foram eliminadas referências à escravidão, reparação e compensação, bem como extirpadas do texto as palavras raça, racial e raciais; e, conseqüentemente, todas as ações afirmativas foram eliminadas. Descartada por absurda a hipótese do azar, só nos resta uma para explicar tanta desigualdade entre negr@s e branc@s: existe racismo no Brasil, entranhado na sociedade e consolidado no poder. E o racismo se manifestou através do relator do Estatuto, Demóstenes Torres (DEM/GO), que por sinal é responsável por outros desserviços jurídicos e manifestações direitistas. É dele a responsabilidade pelo enfraquecimento punitivo e político do “Ficha Limpa” (LCP 135/2010), por isso aprovado por unanimidade no Senado Federal. Ele também é autor do machismo jurídico criado pela reforma dos crimes sexuais (Lei 12.042/2009), que atenuou a pena para estuprador. A reforma do Código de Processo Penal, por ele relatada, está pondo em risco a Lei Maria da Penha a ponto de, se aprovada, tornar quase inócua uma das leis mais importantes para as mulheres. Porém, ele sozinho não é o “remédio heróico” para manter os privilégios raciais dos brancos. Os créditos dos desmandos reacionários devem ser divididos (ou negociados) com o governo Lula e parlamentares da dita esquerda que, quando fizeram muito, ficaram calad@s nas discussões. Às vésperas do Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha (25 de julho), como feministas que somos, queremos cumprimentar as mulheres negras brasileiras pela coragem e ousadia, pela disposição para os embates e diálogos democráticos, sem os quais, seria impossível enegrecer o feminismo (como disse Sueli Carneiro), fazer germinar, ver crescer e frutificar um movimento de mulheres anti-racista. Movimento este que tem o potencial de ampliar o debate público contra o racismo, inclusive para enfrentar a irrelevância das instituições do sistema político frente ao grande desafio democrático que é a igualdade racial e para as mulheres". (*) Guacira é socióloga, diretora colegiada do CFEMEA e integrante da coordenação executiva nacional da AMB.

16 de jun de 2010

Um poema para começar bem o dia (e recomeçar a vida)

(Por: Ricardo Aleixo, Mesmo esta agora, é). "Nunca pude escrever nem uma / única linha sobre as casas onde morei./Nunca, para você ter uma idéia,/alguma delas amanheceu com com/estrondos, fendas inexplicáveis ou um/gato degolado junto às rosas/e à pequena horta./Eram casas, apenas. Estruturas,/antienigmas,pedras encimando/pedras. Mesmo esta, agora, é/uma mera máquina de signos-/demasiado gastos para que se extraia/dela, na melhor das hipóteses, mais/que uma outra (mera)máquina de/ signos gastos." (Do livro Trívio, 2001).

14 de jun de 2010

A ilha da chuva e do vento

A ilha da chuva e do vento, da escritora de Guadalupe Simone Schwarz-Bart (editora Marco Zero), me esperava há meses na fila de leituras. O romance é de uma poesia cortante, começa assim: “A terra depende quase sempre do coração do homem: é minúscula se o coração for pequeno, é imensa se o coração for grande. A pequenez da minha terra nunca me afligiu, e nem por isso tenho a pretensão de possuir um grande coração. Se pudesse escolher, seria aqui mesmo na Guadalupe que eu gostaria de nascer, sofrer e morrer. E, no entanto, não há muito, meus avós ainda eram escravos nesta ilha de vulcões, de ciclones e mosquitos, de mentalidades estreitas. Mas não vim ao mundo para sopesar toda a tristeza da terra. Em vez disso, preciso sonhar, mais e mais, de pé no meio do meu quintal, como costumam fazer todas as velhas da minha idade, até que a morte me apanhe em meu sonho, na plenitude da minha alegria”... É cortante porque não é condescendente, complacente, não tem ilusões. A narrativa é densa, surpreendente, mas tem personagens heróicos e isso me incomoda um pouco. Principalmente quando se elege uma personagem para encarnar todo o mal indecifrável da humanidade e esta personagem é um homem negro e mais uma vez os homens negros são demonizados, agora por uma autora negra. É assim com Élie, um lenhador bonito, trabalhador, rapaz sensível a sonhar com a independência do mundo branco, mas que se transforma num monstro depois de perder o trabalho e passa a espancar a mulher (ex-amada) por puro sadismo, todas as madrugadas. Há insinuações de que houve feitiço na história, feito pela invejosa rival de Télumée, a bela transformada em vítima incapaz de reação. E há as personagens míticas e quase perfeitas, a avó, Rainha-sem-nome e Amboise, o redentor, aquele que dá a vida na luta para libertar seu povo (liberto) da exploração do corte de cana, não sem antes redimir Téluméee da solidão. Não tenho simpatia por grandes heróis e heroínas, tampouco por vilões. Gosto mais quando diferentes personagens têm o seu momento de destaque, o seu dó de peito. Mas, são escolhas autorais e cabem num texto que parece pensar o negro antilhano do início do século, do ponto de vista do pertencimento a uma comunidade de destino. Ou seja, não há muito espaço para individualidades na trama, as personagens centrais são ícones representativos do coletivo negro. O certo é que o livro vale a pena ser lido e a autora, Simone Schwarz-Bart, tal qual Zora Neale Hourston (1891-1960), escritora africano-americana, merece ser descoberta e estudada.

13 de jun de 2010

"Essa vitória é de todos os africanos"

“Toda a África está conosco. Eu saúdo todos vocês. Nós vencemos esse jogo para vocês”, bradou Gyan, o autor do gol de Gana contra a Sérvia, hoje.

Mais do mesmo na Copa!

Ah... vi uma mulher tão linda em meio à torcida de Gana. E todos os canais de TV mostraram aquela imagem, mas ninguém destacou a beleza dela. Dos africanos é mencionada à exaustão do estereótipo infantilizante, a alegria. "Oh... eles são tão alegres (leia-se ingênuos)"... "Ah, veja a alegria (leia-se o descompromisso, o alheamento dos problemas do mundo) deles" ou " A alegria da Copa da África contrasta com a frieza da Copa da Alemanha". Um jogador inglês, negro, machucou a boca e o narrador da TV brasileira (Sport TV) disse que "ele punha um gelinho tentando fazer parar de sangrar o beiço". Fosse um jogador branco a se machucar e aquela parte do corpo humano se chamaria lábio? Outro comentarista, Maurício Noriega, ao enfatizar as qualidades de futebolista de Gionani do Santos, atleta negro da Seleção do México, atribuiu-as ao "sangue brasileiro que ele carrega nas veias". Giovani é filho de brasileiro! A bilologização é sempre perigosa e neste caso, burra, incompatível com um homem "formado e reformado" pela universidade. Existiria um gene brasileiro determinante do bom futebol ou do futebol arte. E o comentarista tentaria me convencer que o mesmo "gene" faria de Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Júnior, Djalminha, Dener, Reinaldo e... (Amancooo... dá-me um craque branco, dá-me um craque branco) Tostão, Sócrates ou Falcão, jogadores geniais. Conseguiria se eu fosse idiota, se não soubesse diferenciar biologia e cultura, talento que se desenvolve com lastro e talento que se desenvolve na marra, como única forma de sobrevivência, se não conseguisse detectar as armadilhas da decantada mestiçagem brasileira. Ainda que todos os jogadores citados, negros e brancos, tivessem a mesmíssima origem socio-ecônomica, o mundo teria cores diferentes para uns e para outros, porque o racismo intercepta os negros numa esquina e acolhe os brancos na outra, simplesmente por serem brancos, sequer precisam escolher entre ser racistas ou não. As vantagens geradas pelo racismo (contra os negros) valem para todos os brancos, sem exceção. Esses homens desse mundo branco não podem mesmo reparar na beleza intensa, de bochechas gordas, lábios carnudos emoldurando uma coleção de marfins, e tranças que por sua vez emolduram o rosto daquela mulher africana. Seu sorriso tão genuíno deve ter inibido os comentários deles sobre a tal alegria africana. Mas eu vi, irmã, eu vi seu sorriso e sua beleza, que naquele momento eram o meu sorriso e a minha beleza. O sorriso e beleza do meu povo de Gana, do meu povo da Nigéria, do meu povo da Costa do Marfim, do meu povo da África do Sul! Do meu povo negro-africano! Do meu povo afro-diaspórico!

11 de jun de 2010

Mandela não irá a jogo inaugural da Copa do Mundo

(Deu no LANCEPRESS!) "O ex-presidente sul-africano e prêmio Nobel da Paz, Nelson Mandela, não irá assistir ao jogo inaugural da Copa do Mundo, entre África do Sul e México, nesta sexta-feira, às 11h, em Johannesburgo, devido à morte sua bisneta Zenani, de 13 anos de idade. - Nelson Mandela soube esta manhã da morte trágica de sua bisneta Zenani Mandela em acidente - afirmou a Fundação Nelson Mandela em comunicado, afirmando que "seria inapropriado participar da abertura da festa Copa do Mundo". A Fundação, que atua como um porta-voz de Mandela, disse ainda na carta: - Estamos confiantes que os sul-africanos e pessoas de todo o mundo serão solidários com Mandela e sua família após esta tragédia. Nós ainda acreditamos que a Copa do Mundo é um momento histórico para a África do Sul e do continente e temos a certeza será um grande sucesso. Madiba vai estar lá em espírito hoje - conclui a carta. Em um comunicado anterior, que registrou a morte da menina, a Fundação observou que a família pediu para que respeitem a sua privacidade, enquanto lamenta a tragédia. Zenani, uma das nove bisnetas de Mandela, morreu esta manhã num acidente de trânsito após a saída do show de abertura da Copa do Mundo".

10 de jun de 2010

Chris Brown é impedido de entrar no Reino Unido por ter sido condenado em ação de violência contra a mulher

O rapper Chris Brown teve o visto de entrada no Reino Unido negado. A justificativa foi o comprovado espancamento à sua ex-companheira, Rihana, que faz a abertura da Copa hoje. O rapazote foi obrigado a cancelar a turnê. Há certas lições que precisávamos aprender.

9 de jun de 2010

O poeta e letrista Salgado Maranhão lança 'A cor da palavra'

(Deu no Jornal do Brasil, por Alvaro Costa e Silva). RIO DE JANEIRO - A cor da palavra – cujo lançamento será nesta quarta-feira, a partir das 19h, no Espaço Finep, na Praia do Flamengo, com direito a canjas musicais – reúne a obra inteira reunida (sete livros) e a fortuna crítica de Salgado Maranhão. Nesta entrevista, o também letrista – parceiro de Paulinho da Viola, Élton Medeiros, Ivan Lins, entre outros – fala sobre influências, afinidades, tendências. “A boa poesia surge da diversidade e não de um jeito único de apresentar o novo”, define. Como fazer a distinção entre poema e letra de música? O poema é, normalmente, mais econômico no uso das palavras, porque a poesia diz muito com pouco. Embora haja poemas tão discursivos que chegam quase a virar prosa. Mas nestes o elemento poético se expressa muito mais pelo encantamento do que pela economia verbal. A letra precisa da música para se realizar. Muitas vezes, um texto simples funciona muito bem numa canção, mas não resiste à página em branco. E como fazer a aproximação entre os dois? Sempre que tentam aproximar essas duas vertentes do discurso poético surgem conflitos. Tentam hierarquizar o poema em relação à letra, esquecem que cada forma de expressão tem suas próprias regras. Nem sempre um bom poema funciona numa canção. Do mesmo modo, uma letra frágil perde o seu sentido fora da música. O importante é deixar cada coisa em seu lugar. Como é o seu processo de criação? Completamente aleatório e necessita de privacidade. Quando cheguei ao Rio, e ainda não tinha onde morar, tomava um ônibus circular, na Glória, onde estava hospedado, e ia até o Leblon e voltava, sentado do lado da janela, para olhar o cinema das ruas. No meu caso, a poesia pede um certo corpo a corpo com a realidade, uma atitude de capturador das sensações secretas do cotidiano. Você gosta de sonetos... Não é uma preferência, mas sua forma sucinta é um bom exercício para um poeta que aprecie a concisão. No entanto, tenho um número muito pequeno de sonetos. A razão disso é o fato de não querer banalizá-lo, não querer transformar a forma em fórmula. Versos de Valéry, Murilo Mendes, Herberto Helder, Stevens, Mario Sá-Carneiro são usados como epígrafes de suas obras. Em que medida você se sente próximo deles? Você elencou um maravilhoso panteón de ídolos para mim: são todos eles e mais Homero, Dante, Baudelaire, Drummond, Pessoa, Paul Celan e Ferreira Gullar. Todo poeta que se preze caminha sobre o legado de uma legião de monstros. Quem são os seus interlocutores (dentro e fora da sua geração)? Na minha geração dialogo com Geraldo Carneiro, Antônio Cícero, Claudia Ahimsa, Luís Augusto Cassas e Carlos Dimuro. Fora da minha geração, é com meu conterrâneo Ferreira Gullar, que, de tão lúcido na sua percepção da vida e da arte, transcende a barreira das gerações. Por que os poetas têm a necessidade de formar grupos que, invariavelmente, não se dão com outros grupos? A poesia se nutre de tradições e rupturas. Diante disso existem duas formas de agrupamento: os que se juntam para buscar o novo, e os que se unem para preservar a zona de conforto conquistada. É natural que desse imbróglio surjam rixas. Há o ditado popular: “Em casa que não tem pão, todos brigam e ninguém tem razão”. Pelo fato de a comida ser pouca e o espaço reduzido, cada um quer conquistar um pedaço do pão e da luz. Costumo dizer que, se poesia desse dinheiro, haveria um serial killer em toda esquina. Como anda a poesia africana, a qual você conhece tão bem? A meu ver, a poesia da periferia do mundo é o que há de novo, atualmente. Trata-se de uma poética que, sem ter nada de panfletário, carrega uma tensão sintática rascante, de escolhas verbais inusitadas. Destaco, principalmente, os poetas de Angola e Cabo Verde. Fazem uma poesia culta, sem tutelagens conceituais. E a poesia que se faz hoje no Brasil? Caminha para uma multiplicidade de estilos, fruto de diversos conceitos que se partiram nas últimas décadas, e cada pedaço seguiu seu próprio rumo. Mas isto não é ruim. A boa poesia surge da diversidade e não de um jeito único de apresentar o novo. Aliás, o novo que antes de nascer já tem slogan não é novo. Com o advento da internet, o ato de escrever tornou-se um turbilhão incontrolável que explode em todas as direções e, em que pese haver muita coisa sem qualidade, quem tiver, de fato, o que dizer e souber dizer, vai sobressair. Até que ponto a poesia se ajusta ao contexto do mundo atual? O mundo nunca precisou tanto de poesia como agora. E, de certo modo, ela está sendo feita, apesar todas as limitações e imposturas. O que ainda não se encontrou foi um jeito de fazê-la alcançar as pessoas em todos os níveis, no mais profundo do seu entendimento.

6 de jun de 2010

Lendas da África Moderna

(Texto de divulgação). "A lenda nasce do que se ouve por aí. Então, todo dia é possível um episódio heróico, um ser fora do comum ir virando lenda sem a gente se dar conta. Portanto, nem só de passado vivem esses relatos de encantamento. E também é assim na África moderna que, viva, continua produzindo suas histórias. Alguns feitos extraordinários que de lá chegam como notícias logo viram murmurinhos. Então nasce mais uma lenda a respeito da África no Brasil. Nelson Mandela, Wangari Maathai, a Arte e os Griôs do noroeste africano, inspiraram quatro lendas. As autoras do livro que você está prestes a conhecer apenas abrigaram um pouco desse lendário que recolheram no ar. Também porque descobriram que a palavra lenda é filha de outra: legenda, isto é, para ser lida".

5 de jun de 2010

Encontrei Reinaldo Arenas!

Terminei a leitura de “Antes que anoiteça”, biografia do escritor cubano Reinaldo Arenas. Um livro que persigo desde 2006 e finalmente consegui encontrar em um saldão na Internet. Comprei logo dois exemplares, o segundo para presentear. Experimentei diversos sentimentos ao ler Arenas. O primeiro, menos emocional, foi constatar a máxima de que a memória recria os acontecimentos e a narrativa literária o faz ainda mais. Não porque exista uma “verdade dos fatos” e menos ainda porque existam donos dela, mas a gente vai aprendendo a detectar a invenção na narrativa. Em todo o primeiro terço do livro, no jeito de conotar poeticamente a fome, a miséria, o abandono vividos por uma criança e depois adolescente em um vilarejo do interior de Cuba, Arenas faz esse percurso sonhador. À medida que o mundo adulto se aproxima, mesmo que a adolescência ainda estivesse longe de terminar, a recriação da memória vai ganhando outros tons, de frustração, medo, insegurança, angústia, impossibilidade de caminhos, sofrimentos de múltiplas faces. Então minha leitura foi ficando mais emocional e à medida em que o livro avançava, aumentava minha decepção com Cuba, minha angústia com toda a dor sofrida por Arenas e demais dissidentes. Passei duas noites lendo até não mais poder e depois dormindo transtornada, apavorada com a leitura. Creio que nunca mais conseguirei olhar uma escola ou ginásio cubano com admiração, depois de conhecer a descrição das condições de trabalho escravizado em que os prédios foram construídos. Em determinado momento parei de perguntar ao livro: “poxa, Arenas, mas não teve nada de bom?” Não! Aos olhos de Arenas e a partir da experiência de total espoliação de liberdade vivida por ele, não é possível reconhecer sucessos, conquistas, elogiar resultados porque ele esteve dentro dos processos e teve motivos para julgá-los os mais terríveis que se possa imaginar. O livro caminhava para o fim e eu não resisti, pulei várias páginas, precisava chegar ao momento do exílio, à fuga de Cuba, não agüentava mais tanto sofrimento. Sem surpresas, a saga continua no paraíso possível, a Babylônia, a Meca do capitalismo e culmina na interrupção da vida do narrador. Arenas, como é sabido por todos, suicidou-se em 1990. Conseguiu na última tentativa. Deixou uma carta aos amigos e à imprensa, na qual explicava seus motivos. A falta de liberdade vivida em Cuba o havia maltratado demais e a Aids o estava dilacerando, ele já não tinha condições de trabalhar e isso era insuportável. A serenidade da carta contrasta com o desespero da narrativa sobre os últimos anos em Cuba, na qual o livro perde a qualidade literária e transforma-se num relato quase insano, em que acontecimentos se sobrepõem e não se entende o início deles. Talvez fosse a pressão da morte para que ele terminasse logo o livro-vida-tormento. Finalmente encontrei Arenas. Agora vou reler “A velha Rosa” (editora Record) e procurar outros livros dele. Também buscarei autores(as) que Arenas cita e recomenda: Lydia Cabrera, Henrique Labrador Ruiz, Carlos Montenegro, Lezama Lima e Virgilio Piñera. Me deparei, na leitura de Arenas, com elementos para entender o que Ax, um rapper cubano, filho de Xangô, me disse sobre Nicolás Guilhén – El cabron??? Ainda, depois de ler a biografia de Arenas, compreendo (por contraste), um pouco mais da literatura de Pedro Juan Gutiérrez, o autor cubano que mais li até hoje. Vou recolhendo mais elementos para compreender a alma de migrantes antilhanos nos EUA. Vou adentrando este desconhecido e fascinante mundo caribenho.