Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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8 de jul de 2014

Lágrimas de homem abalam o machismo no futebol. E o racismo? Voa impávido em céu de brigadeiro!


Por Cidinha da Silva

As lágrimas dos jogadores brasileiros pressionados pelo terror de serem eliminados da Copa das Copas ainda nas oitavas de final incomodaram muita gente. A fragilidade dos homens, quando exposta de formas convencionadas como algo característico das mulheres, neste caso, o choro copioso em situação de tensão e desespero, mexe com as estruturas enrijecidas de muita gente. Para o bem e para o mal.

Há os que se sentem incomodados porque, em síntese, acreditam que homens são machos e não devem chorar, dentre outros motivos, porque o choro denota fraqueza e os jogadores (de futebol) estão em campo como soldados para guerrear. Outros (bem poucos) defendem o choro como expressão válida de sentimentos, como válvula de escape legítima ao alcance dos canais lacrimais de todo ser humano, inclusive dos homens, humanos também. Afinal, ninguém quer passar à História com as marcas da derrota e do fracasso.

A mídia esportiva, os atletas e o espírito de novo-rico da maioria, amadurecerão muito se mergulharem profundamente na potencialidade curativa do choro. Lágrima é palavra abafada que escapa quando a maré dos olhos vaza e derrama pela face proteínas, sais minerais e gordura que lubrificam e limpam os olhos, retiram véus, diminuem a acidez e, na situação desses homens-atletas, resgata a humanidade do filme da vida vivida antes de chegar à riqueza e à fama, que pesa sobre os ombros.

O choro da Seleção Canarinho balança os pilares do machismo mais evidente, tal qual o canto do pássaro pode tocar os corações mais duros. Entretanto, a dor, a humilhação e a angústia deflagrados nas pessoas-alvo do racismo estão longe de comover os corações daqueles brasileiros que se consideram macacos, transbordantes de orgulho e “amor” nos versos cantados na arquibancada dos estádios.

O capitão da Colômbia foi vaiado ostensivamente depois de ler discurso da FIFA instando todos os fãs de futebol a combaterem a discriminação racial nos campos e fora deles. Em meio aos emissores da vaia não há número significativo de negros e quando a elite branca predominante no estádio é adjetivada, a elite branca de fora (da mídia hegemônica, da indústria das celebridades e do entretenimento, das rodas intelectuais, dos blogues descolados) sente-se incomodada e vai a campo em defesa própria. Não, não somos racistas! Racismo é coisa dos Estados Unidos que os colonizados negros brasileiros querem importar. Quanto às crianças brancas que entram de mãos dadas aos jogadores em todos os jogos da Copa das Copas, é lógico que não temos culpa de serem todas brancas. Aliás, não vemos problema nisso, como não existe problema também de serem brancos os torcedores que enchem os estádios desde a Copa das Confederações.

Por outro lado, a crescente presença de jogadores negros nas seleções da França, Bélgica e Holanda, fortalece a velha máxima de que “o negro é bom de bola” e por isso está quase superando os brancos em seleções tradicionais europeias. Do lado de cá, atentamos para os nomes e sobrenomes desses jogadores, nascidos nas colônias em África e Caribe ou filhos de migrantes africanos e caribenhos e, por contingência, gerados nos países brancos. Pobres, majoritariamente, que, como os outros negros diaspóricos e africanos têm no futebol, ao qual dedicam a vida desde crianças, rara possibilidade de ascensão social. Assim se manifesta e se perpetua a versão mais palatável do racismo.

A versão mais dura, tão cotidiana quanto a primeira, manifestou-se após a agressão de Juan Camilo Zúñiga, lateral-direito da Colômbia, ao brasileiro Neymar, levando-o a fraturar uma vértebra. Atitude condenável e passível de grave punição por prática antidesportiva, num jogo em que o Brasil também bateu muito e o árbitro foi conivente com as agressões que correram a solto pelos dois lados. Em sua defesa, Zúñiga argumentou que o lance infeliz não passou de uma jogada normal e sem intencionalidade de machucar. Sim, “normal” no escopo da violência reinante no jogo, mas
não na prática do futebol.

A crítica, a ira e a revolta dos torcedores tupiniquins foram deslocadas da violência praticada por Zúñiga para sua condição de homem negro. Insultos racistas e ameaças de morte foram dirigidos a ele e à mãe nas redes sociais. Xingamentos de ordem sexual foram impingidos à mãe e à filha de dois ou três anos, ameaçada também de estupro. Um show de horror racista, feminicida e pedófilo.

De todo o episódio salvam-se as atitudes exemplares de David Luíz. Alguém disse que ele é bom atleta e bom samaritano. É verdade. Ele está na contramão do evangelho do marketing pessoal. Pratica valores como a humildade, a integridade, o respeito, a compaixão, do modo ensinado pela tradição africana, a pedagogia do exemplo. Em um contexto de negação de aproximações com África, David Luíz reafirma a origem da cabeleira crespa de um homem socialmente branco.

Em entrevista à TV colombiana, junto com James Rodriguez, adversário derrotado e amparado por ele, o menino dos cachinhos crespos de ouro, em bom portunhol, explicou que a garotada tem como modelo o cabelo dos jogadores famosos, mas isso não deve bastar aos musos que, por sua vez, devem também procurar se mostrar como homens grandiosos para inspirar os garotos pelos bons exemplos e firmeza de caráter.
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