Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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7 de fev de 2010

No Quênia, "escolas móveis" para os filhos de pastores nômades

(Deu no Le Monde, por Brigitte Perucca, enviada especial a Garissa - nordeste do Quênia). "A lâmpada pendurada nas folhagens da acácia prova: a aula começa cedo e termina tarde para as crianças de Saka Junction, um acampamento instalado a cerca de 80 quilômetros de Garissa, cidade situada no nordeste do Quênia. Um dia de escola dividido em dois, sendo que a maior parte do tempo restante é dedicada às cabras, búfalos e camelos, que devem ser vigiados e levados aos pastos. Amanhã, dentro de alguns dias ou alguns meses, a lousa será pendurada em uma outra árvore, a algumas dezenas de quilômetros de lá. Aqui, nessas províncias desfavorecidas do país onde vivem mais de 5 milhões de pessoas, as escolas seguem um ritmo que se adapta ao cotidiano e sobretudo ao vai e vem desses somalis criadores de animais que podem, dentro de um mesmo mês, se mudar até duas ou três vezes, e percorrer centenas de quilômetros em um ano. Essa classe itinerante faz parte das “escolas móveis” que se multiplicaram nos últimos meses nessa região árida. Elas reúnem 110 mil crianças, em 91 escolas. Mas seu número efetivo é ainda maior, se contarmos aquelas que, assim como a de Saka Junction, ainda não são financiadas pelo governo. O Quênia, que deu um salto bastante impressionante em dez anos no campo da educação (de 68,8% em 1999, o índice de escolarização primária passou para 92,5%), tem seus marginalizados. Entre eles, os filhos dos pastores somalis, juntamente com as crianças das favelas de Nairóbi, certamente são os mais abandonados tanto em questões escolares quanto sanitárias. Cúmulo da desigualdade, ainda que o Quênia tenha instaurado a gratuidade na escola primária em 2003, as famílias de Kibera, a maior favela de Nairóbi, com 1 milhão dos 3 milhões de habitantes da capital, devem pagar entre 100 e 200 xelins (entre R$ 3,30 e R$ 6,60) por mês. Pois das 148 escolas registradas em Kibera, somente seis são públicas, e as demais são administradas por ONGs. Resultado: em Mombasa e na costa, 83% das crianças frequentam a escola primária, e em Nairóbi somente 60%, sendo que 64% das que estão em zonas áridas, concentradas no nordeste do país, são excluídas delas. Excluídas entre os excluídos, menos de um quarto das meninas são escolarizadas ali. De Garissa, chega-se aos vilarejos e aos acampamentos pelas “Shell roads”, pistas abertas na época da colonização e assim apelidadas porque os britânicos procuravam petróleo na região. Com pouca ou nenhuma água, exceto por alguns reservatórios. Ignorado na época do Império (exceto por essas riquezas petrolíferas), o nordeste do Quênia, muçulmano em um país majoritariamente cristão, continua assim há mais de 40 anos. Ninguém aqui fala suaíli, a língua dominante. A criação de animais, ainda bastante lucrativa, sustenta esses pastores: um camelo é negociado por cerca de 50 mil xelins (R$ 1.213). Mas a contrapartida desse modo de vida pastoral é muito pesada. A partir de Saka Junction, a primeira escola primária se situa a 21 quilômetros, e a primeira clínica a 24 quilômetros. Cidade do Quênia ganha projeto que dá laptop para crianças Depois que as ONGs iniciaram o movimento em favor das escolas móveis, o governo assumiu. “Cada vez mais nômades abandonam o pastoreio, daí a importância de que eles recebam um mínimo de educação”, explica Mohammed Elmi, o ministro do Desenvolvimento do Norte, cuja pasta foi criada há 18 meses para tentar eliminar o enorme abismo que há entre essas regiões e o resto do país. A seca, terrível como a de outubro e novembro passados, constitui uma das razões desse abandono, mas a necessidade de garantir uma paz social entre as tribos prestes a entrar em conflito representa uma outra motivação governamental para desenvolver a educação e a formação dos nômades. Mas o Estado queniano parece mais seguir o movimento do que precedê-lo, de tão forte que é a demanda das comunidades por escolas nômades. Cada vez mais determinadas, as famílias organizam o emprego do tempo, determinam quais das crianças irão à escola, ao passo que as outras se encarregarão de levar o gado por longas distâncias e, sobretudo, escolhem o professor. Nesse acampamento de uma centena de famílias, nenhum adulto sabe ler, mas todos têm grandes esperanças com a educação. “Nós somos ignorantes como animais. O futuro será pior sem educação”, diz Abdi, um dos homens. Isso poderá fazer com que eles vão para as cidades e abandonem a criação de animais? Essas famílias, em via de sedentarizarão, parecem dispostas a tentar. Sinal dessa crescente sedentarizarão, a mesquita é construída de forma definitiva, ao passo que as casas ainda são cabanas redondas desmontáveis e transportáveis por camelos. Hassan Farah acaba de assumir as classes, desde o início de janeiro. Dois grupos foram formados: um com 22 crianças de 4 a 6 anos, e outro com 32 alunos de 9 a 15 anos. Aos 36 anos, Hassan Farah dispõe de certa experiência por ter sido “assistente” em uma escola durante vinte anos. Ibrahim, outro desses voluntários, frequentou a universidade durante dois anos. O número efetivo de sua classe, com 134 crianças, é bem maior. Para esses dois homens, a ajuda levada às comunidades pastorais constitui a motivação principal. Com segundas intenções para Ibrahim, que “quer ser político mais tarde” e então mostrar “que fez o bem para sua comunidade”. Seguido pelo salário esperado, de cerca de 20 mil xelins (R$ 486). Mas por enquanto, foi a comunidade que se juntou para comprar a lousa e as primeiras mobílias. Ainda que muito minoritárias, as meninas têm representação. Mas a resistência das famílias a escolarizá-las permanece muito forte. Sobretudo quando se trata de enviá-las para uma das “boarding schools”, internatos rurais existentes na região e que eram, antes da criação das escolas nômades, a única opção possível para os nômades. “As meninas podem ser estragadas. Além disso, elas são as melhores no trabalho”, acredita Rukia, uma mãe de oito filhos, dos quais quatro frequentam a escola. A escola mais próxima, a cerca de vinte quilômetros, reúne 750 alunos, dos quais 280 são internos. Entre eles, 60 meninas. Cerca de 100 alunos desse total vêm de famílias nômades. Prova da explosão escolar nesse país, a mesma escola tinha, em 1986, 73 alunos! Aos 15 anos, Fatima frequenta o internato há quatro anos. Está feliz aqui e alimenta grandes expectativas para o futuro. Ela quer ser médica. E já é a primeira mulher de sua família a saber ler e escrever". Foto: Crianças quenianas caminham de volta da escola para casa na favela de Kibera, em Nairóbi.Tradução: Lana Lim.
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