Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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6 de fev de 2010

Fábula amarga conduz livro "Preciosa" da lama à tela

(Deu na Folha de S.Paulo, por Fábio Vítor) "Eu levei bomba quando tava com 12 anos por causa que tive um neném do meu pai. (...) Minha filha tem Sindro de Dao. É retardada." "Desde a abertura, a narradora de "Preciosa", livro no qual se baseou o filme homônimo, um dos cotados ao Oscar, revela-se sofrida e iletrada --o texto reproduz sua fala, uma fala repleta de erros. O estilo se adéqua ao peso da história: Claireece Precious Jones, a tal Preciosa, é enorme de gorda, negra, analfabeta, vive com a mãe (que lhe espanca e abusa sexualmente dela) no Harlem nova-iorquino e, aos 16 anos, espera o segundo filho, também de um estupro do pai. De tão atormentada, a trama soa como ficção. Mas é (quase) tudo verdade, conta a autora do livro, a poeta performática Sapphire (Safira), nome artístico de Ramona Lofton. "Eu dava aulas no Bronx, o bairro mais pobre de Nova York, meus alunos eram na maioria negros e latinos. Uma delas contou que tinha uma filha retardada, que nascera quando ela tinha 12 anos e era filha do próprio pai. Outra era espancada pela mãe", disse Sapphire à Folha, por telefone. Entretanto, como se numa fábula underground, surgem os anjos de Preciosa: o enfermeiro que lhe ajuda no parto, a professora da escola especial, a assistente social do abrigo... Uma epígrafe do livro traz um trecho do "Talmude", um dos livros sagrados do judaísmo: "Toda folha de grama tem seu Anjo que se curva sobre ela e sussurra: 'Cresce, cresce'". Então Sapphire, poeta marginal, acredita em anjos? "Sim. Na igreja afro-americana temos um spiritual que diz: 'Deus não tem mãos, só as suas'. Nós somos os anjos. Preciosa começa precisando de anjos, mas, quando se levanta, ela é o anjo." O caminho desde o chão é duro, e, como parábola do papel das letras para a vida, a escrita é o elevador. Talvez aí esteja o pulo do gato do romance, o que o diferencia de um mero conto de fadas urbano: acompanhamos a alfabetização da garota, paralela à sua redenção. É um processo tortuoso, que atravanca a leitura, já que a narradora por vezes abandona a linguagem oral e passa a escrever. "Os ano tod eu sta na sl nuc apeni (os anos todos eu sentava na sala e nunca aprendia) mas tv neem de nov Neem me pai (mas tive neném de novo, o Neném é do meu pai)". Estamos lendo a carta à professora que Preciosa escreve em seu diário escolar. "Ver as pessoas aprendendo a usar a língua é como ver um bebê começando a caminhar, um cego de repente enxergando", compara Sapphire. A escritora afirma que seu livro não existiria sem que houvesse antecessoras como Alice Walker e Toni Morrison. "As situações que descrevo foram descritas em "A Cor Púrpura" [de Walker] e "O Olho Mais Azul" [de Morrison]." O filme estourou no festival de Sundance e acumula aplausos. O livro ("Push", no título original), de 1996, está há 20 semanas na lista de mais vendidos do "New York Times". De família pobre, ex-dançarina noturna, ativista de círculos negros, gays e feministas, Sapphire se viu de súbito num universo "red carpet" que nunca foi seu --o "NYT" escreveu que ela sofreu abusos na infância, o que ela se nega a comentar. "Outro dia uma repórter perguntou quem desenhara o meu vestido, e eu disse que tinha comprado numa loja de departamento", conta. A mesma alegria que demonstra ao falar de Barack Obama. "É o primeiro a se preocupar com saúde e educação. Não fará milagre, mas começa a reparar os erros de Bush. E o fato de estar lá já muda uma cultura." (Foto: Sapphire, autora do livro no qual se baseou o filme "Preciosa"). PRECIOSA Autora: Sapphire Tradução: Alves Calado Editora: Record Quanto: R$ 29,90 (192 págs.)
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