Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

14 de jul de 2011

Cidinha da Silva em entrevista para pesquisadoras de literatura infantil e juvenil

Concedi entrevista para duas pesquisadoras da UERJ, Camila Sabino e Patrícia Condé, integrantes do projeto de pesquisa "Literatura Infantil e Juvenil - Perspectivas Contemporâneas", que consiste em uma atividade de pesquisa e extensão "que pretende investigar a produção literária contemporânea produzida para crianças e jovens e promover a discussão entre docentes acerca de temas relevantes na relação literatura e educação." Que gosto dá responder a perguntas bem formuladas. São um estímulo para a reflexão e nos fazem dizer coisas que não esperávamos. Leia abaixo a nossa conversa. Os Nove Pentes d'África é autobiográfico? Há experiências pessoais inseridas na trama? Não, não é autobiográfico. É uma história criada a partir de determinados símbolos. O livro nasceu do desenho de cinco pentes e do mote criador de um artesão negro que, ao chegar ao fim da vida tinha apenas alguns pentes de madeira ao estilo africano. Antes de morrer ele deixaria seu único bem, os pentes, para os filhos. Quando me apresentaram a idéia, de cara não gostei do destino fracassado desse homem. Transformei-o em um bem sucedido artista da madeira, que, aliás, tornou-se artista por amor, por amar uma mulher a quem entregou o melhor de si, ao longo da vida. Pedi à ilustradora o desenho de mais 4 pentes (a esta altura já havia testado vários números até chegar aos 9, sempre atenta ao que acreditava ser o alcance do meu fôlego para escrever uma narrativa extensa) e já sabia que o livro teria o formato de uma novela, com capítulos mais ou menos autônomos, em torno de um velho artista negro chamado Francisco Ayrá, que deixaria pentes africanos como herança para os 9 netos, trançados à lenda pessoal de cada um deles. Daí surgiram os pentes do amor, da alegria, da perseverança, da liberdade, da abundância, da admiração, da generosidade e solidariedade, da sabedoria e do tempo. Quanto às experiências pessoais, creio que, em alguma medida elas sempre estão presentes na criação artística, mas não há nada específico que eu tenha tido a intenção de destacar no “Pentes”, ou a necessidade de explicitar agora. Você buscou simbologia específica sobre o elemento pente? Qual? Sim, os pentes africanos estão diretamente relacionados a uma textura de cabelo, os vários tipos de cabelo crespo das pessoas negras, em África, na Diáspora, no mundo. O cabelo crespo tem sido usado pelo racismo como um instrumento de opressão aos negros, encrustado em suas cabeças, no vórtice energético que os conecta ao universo e à espiritualidade. O cabelo crespo, ao contrário do que prega o racismo, é belo e libertador, oferece inúmeras possibilidades estéticas e o pente que o penteia é símbolo da desconstrução da história que quer nos subalternizar e construção de uma outra, que nos irradia em nossa plenitude humana. Por que classificar Os Nove Pentes d'África como novela? Como já disse, porque a história é organizada em capítulos mais ou menos independentes. Além disso, embora tenha personagens muito bem estruturados, o enredo não tem a complexidade que um romance mereceria, mesmo um romance curto. Por que você resolveu escrever para crianças? Porque quando publiquei meu primeiro livro, “Cada tridente em seu lugar”, uma sobrinha, à época com 6 anos, em processo de alfabetização, tentava lê-lo. Entre a alegria e o constrangimento, eu pedia desculpas a ela porque o tipo de letra era muito pequeno e explicava que se tratava de um livro para adultos, etc. Ela então me perguntou “quando eu escreveria livros para crianças.” Três anos depois, em 2009, publiquei o “Pentes.” Este ano publiquei o “Kuami”, um romance para crianças de todas as idades e em breve sairá do forno “O mar de Manu”, um conto para crianças. Como se pode notar, gostei da experiência e continuo escrevendo para os pequenos, movida pelo desejo de ser lida pelas minhas crianças. Quais livros atuais você considera obras de arte no campo da literatura infanto-juvenil brasileira? Por quê? Há 3 autores no campo da literatura infantil e juvenil que, a meu ver, construíram uma obra basilar, são eles: Bartolomeu Campos de Queiroz, Marina Colassanti e Edimilson de Almeida Pereira. Desses autores não consigo citar um livro apenas, toda a obra é consistente, complexa, poética, encantadora. Para citar três livros de outros autores, gosto muito de “ O meu amigo pintor”, de Lygia Bojunga, pela delicadeza e acuidade para abordar o tema do suicídio com as crianças; “A cor da ternura”, de Geni Guimarães, pela poesia cortante e “Didó – o curandeiro”, de Sônia Hirsh, um dos livros mais completos e encantadores que já li. Seu trabalho gera discussões em torno do valor da memória e da tradição. Como é possível, nos dias atuais, desenvolver nos jovens uma relação com memória e tradição? No meu caso, na minha linha de trabalho, gosto muito de mesclar elementos da tradição com outros da contemporaneidade, às vezes signos da cultura de massas. Em “Dublê de Ogum”, por exemplo, conto do meu primeiro livro, abordo os mitos de Ogum me valendo de personagens de desenhos animados que usam espada. No “Pentes”, Zazinho usa dreadlocks e estuda Direito. É bem possível que goste de reggae. É filho de N’Zazi, provavelmente um filho dileto e muito fiel ao arquétipo do pai, pois seu apelido sintomático é Zazinho. Levando em conta a formação educacional atual voltada para a individualização do ser e para uma formação tecnicista voltada para o mercado de trabalho, de que forma você vê o ensino das artes, principalmente da literatura, nos dias atuais? Creio que enquanto quem ensina literatura insistir em “respostas certas” para a interpretação de textos e naquilo que, supostamente, “o autor quis dizer”, não investiremos no gosto pela leitura. Por outro lado, existe hoje todo um movimento a favor da leitura que acontece fora da escola e começa a chegar até ela. Falo das políticas públicas de incentivo à produção/circulação do livro e à leitura, bem como do movimento de literatura periférica, predominante em São Paulo, mas que também já é perceptível em outras cidades do país. Este movimento, por meio da produção de livros, saraus e outros eventos literários, tem arejado o debate literário e acendido nas pessoas em formação, matriculadas nas escolas públicas, principalmente, o gosto pela leitura. Qual é o tema do seu novo livro? “Kuami”, lançado em maio, é um romance para crianças de todas as idades. Narra as aventuras de Kuami, um elefante mirim, que, apoiado por Janaína, uma pequena sereia que se torna sua amiga-irmã, arregimenta amigos para resgatar Dara, mãe dele, seqüestrada em África por plantadores de soja transgênica. A história se passa em algum lugar da Amazônia brasileira. Como aconteceu no “Pentes”, as relações de amor em família estão em alta. A diferença é que em “Pentes” destaquei uma família nuclear e, em “Kuami”, o amor se faz na família estendida formada por Kuami e Janaína. Você poderia comentar rapidamente sobre o seu processo de escrita para crianças e jovens? É similar à elaboração das crônicas e contos, crio uma história e quero contá-la. No caminho ela vai crescendo, ganhando consistência, cor, detalhes, ritmo, poesia e às vezes me surpreende, como foi o caso de “Kuami”. O livro contaria a história de Janaína, uma pequena sereia, enquanto ela passava da infância à adolescência, cercada de elementos afropop. Kuami sequer existia no texto. Era apenas um elefantinho de pelúcia com quem convivi durante alguns dias. Aliás, ele nem tinha nome, era o “fantinho”, simplesmente. Kuami, por sua vez, seria o nome de uma criança. Quando Janaína saiu do Sereal para explorar a superfície, encontrou o simpático elefantinho à beira do igapó e a história mudou. Kuami, meu querido Kuami, nasceu ali, ouvindo rock pesado num “tudo-pode” e com aquele jeito sedutor e amoroso roubou a cena e a história passou a ser dele. Desde que Kuami apareceu e cresceu em proporções elefânticas, o nome do livro mudou de “Janaína, a sereia afropop” para “Janaína e Kuami” e depois para “Kuami, o fantinho de Matamba.” Matamba é uma região de Angola, pela qual tenho fascinação. Ocorre que é uma área de floresta e, em nome da verossimilhança, Dara, a mãe de Kuami, foi seqüestrada na Lunda, uma região de savana. Assim fui tecendo a história e o livro se tornou “Kuami”.
Postar um comentário