Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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6 de jan de 2009

Sobre a escolha de ir embora

No final do ano, uma morte nos assombrou, a de Neusa Santos Souza, autora do clássico “Tornar-se negro” (Graal, 1983). Li a obra, não conheci a autora. O livro é um marco no pensamento brasileiro sobre relações raciais e a psique, um estudo lacaniano. Quando o li, não me disse muita coisa, pois, diferente dos processos descritos no livro, eu nasci negra, desde que me lembro de mim, me percebo negra, não me tornei negra, não. Alguém, muito emocionado, provavelmente por conhecê-la e manter com ela uma relação afetuosa, escreveu: (...) “com muitas exclamações, perguntamos o que faz com que uma pessoa do tamanho de Neusa Santos Souza "em vez de continuar / tomasse melhor saída: / a de saltar, numa noite,/ fora da ponte e da vida?", parafraseando João Cabral de Melo Neto”. É um trecho do “Morte e vida severina”, que eu havia esquecido. A morte sempre traz consigo a perplexidade do fim da vida e, enfrentar a escolha de alguém querido, pela interrupção do fluxo da vida, nos deixa sem chão. Assim deve ter se sentido quem escreveu a mensagem, mas, com todo o respeito à dor sentida e à necessidade de reconhecer o quanto Neusa foi grande e importante para a compreensão e superação do racismo, para o Brasil e para o pensamento crítico que aqui se desenvolve, me perguntei se os “pequenos” teriam mais motivos para se suicidar do que os “grandes”. Talvez nestes, os motivos sejam ainda mais vivos e insuportáveis, porque, em tese, tudo o que os outros queriam, os “grandes” alcançaram: sucesso, reconhecimento, mais sucesso... mas, talvez, tudo isso não diminua o vazio, talvez até contribua para aumentá-lo, aquilo que Thiago de Mello escreveu em “Faz escuro, mas eu canto” – “não sei, nem jamais saberei o nome, do bicho que dorme, no escuro do açude sem fundo que sou”. Desculpem se cito errado, mas é de memória, de um assombro da adolescência, quando li o poema. O fato é que a estatura de uma pessoa não nos garante que ela seja feliz e que queira viver a vida que está vivendo. O bicho e o açude estão dentro dela, dentro de nós.
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