Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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5 de set de 2014

Letramento racial - a saga!

Por Cidinha da Silva



Escrever uma crônica é algo trabalhoso, pelo menos para mim. Escrever textos opinativos sobre temas diversos, não. A técnica minha consiste em listar os aspectos que julgo importantes abordar, as contradições que não podem escapar à análise e mando bala, emito minha opinião sobre as coisas do mundo.

A crônica é diferente. Não basta, para escrevê-la, expressar opiniões baseadas argumentos sustentáveis e\ou consistentes. A crônica é peça literária (o papo de que ela é um gênero menor nem me faz cócegas), como tal, exige estilo, sofisticação linguística, muitas vezes camuflada por um tufo de grama no jardim, novidade para apresentar o óbvio, perspicácia para flagrar o inusitado no instante comum, o belo no cotidiano de cimento, fumaça, burocracia, teclas e telas digitais. Se puder fazer tudo isso com fortes doses de poesia, tanto melhor.

Feita a distinção, comunico que iniciarei uma série de pequenos textos opinativos numerados, delimitados também por data e horário, intitulada Letramento racial. Como não dou ponto sem nó e não trabalho sem projeto, a série possivelmente culminará em um livrinho daqui a algum tempo. Esta decisão está lastreada por dois sentimentos: o primeiro, a exaustão por ser obrigada a continuar escrevendo sobre racismo, branquitude e privilégios raciais. Pensei que o livro Racismo no Brasil e afetos correlatos me libertaria, qual nada, eles não descansam e não nos deixarão em paz. Sempre que pequenos avanços e conquistas aconteçam, retomarão toda sorte de discursos e atitudes de preservação dos privilégios raciais, como no caso da expulsão do Grêmio Portoalegrense de uma competição esportiva, em decorrência de atitudes racistas de um grupo de torcedores gremistas em jogo contra o Santos.

O segundo sentimento é a certeza do papel social e político que desempenho como escritora negra que não pode se furtar de continuar escrevendo sobre racismo, branquitude e privilégios raciais, pelo menos até que esse estado de coisas mude de maneira substantiva. Mas, vou fazê-lo da forma que me cause menos chateação e cansaço, em textos opinativos curtos, escritos no calor da hora, sem o zelo e dedicação requeridos pela crônica. Assim me vingo desses chatos e desse tema insuportável (e insuperável) que insiste em nos esvaziar de humanidade, em aviltar nossa inteligência e sensibilidade. Escreverei pílulas de letramento racial. É tudo o que terão de mim, esses seres bestiais. 
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