Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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31 de mai de 2011

Trecho do Kuami

"O primeiro a ser visto é o flautista Patápio Harmonioso, acertando a embocadura do instrumento com “André de sapato novo.” O maestro Cardinal Pixinga, ao lado dele, delicia-se com a execução da peça, enquanto lustra a batuta. “Ora vejam, temos convidados”, ele exclama ao ver chegar Kuami. Helena faz as vezes de Janaína e o apresenta ao maestro, ao Patápio e a todos os Cardinais coralistas. Ele é recebido com muito carinho e senta-se ao lado de Helena para assistir ao ensaio. Logo no começo, depois de limpar a garganta com o tradicional hã-hã, o maestro Pixinga anuncia a presença de Kuami, um visitante ilustre de outro país, e oferece a ele a canção mais recente do coro, “Meu lugar”, de Arlindo Cruz do Firmamento Real. Kuami se apruma em agradecimentos, aproveita para ficar de pé, pois será inevitável ouvir com o corpo inteiro. O maestro levanta a batuta e os coralistas começam: O meu lugar é caminho de Ogum e Oxum / O meu lugar é cercado de luta e suor / esperança num mundo melhor... / O seu nome é doce dizer / Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa, lá lá laia. Kuami coreografa a música com a tromba e o rabo, divertindo todo mundo. No meio da canção ouvem-se os solos do flautista Patápio Harmonioso. O maestro Pixinga detecta um tum esquisito, mas não percebe de onde vem. Não chega a incomodar seu ouvido peixe-canino, mas aquilo não está na pauta musical. Se ele olhasse para o Kuami, às suas costas, compreenderia. O coral emplaca a segunda parte da música: Ai que lugar.../ Tem mil coisas pra gente dizer / o difícil é saber terminar / Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa. Desta vez, depois do refrão, não se ouviu apenas um tum inofensivo, mas dezenas de tuns, bem desafinados. Vários Cardinais enxugam os olhos com as barbatanas. O maestro Pixinga, visivelmente bravo, fecha as guelras e abaixa a batuta encerrando a música antes do final. Então, ele se dá conta que o tumtumtum era o efeito das lágrimas de Kuami quando alcançavam o chão. Faz-se aquele silêncio cúmplice, todo mundo comovido com o choro do elefante mirim. Helena o apoia e o incentiva a falar, se quiser. Ele funga forte e diz soluçando: “desculpem, mas não consegui me controlar, Madureira... é minha Lunda."
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