Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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6 de dez de 2011

Sobre a nova investida de Ferreira Gullar contra qualquer coisa que fortaleça a alteridade dos negros brasileiros

(Por Dalmir Francisco - professor no Departamento de Comunicação Social da UFMG). "Tentarei ser breve. Há dias, enviei para interlocutoras e interlocutores, vídeo de Chico Buarque de Hollanda denunciando que sua filha branca e seu genro, o artista Carlinhos Brown (negro, cantor, compositor, produtor, arranjador, pesquisador eincentivador musical) tiveram que se mudar de um condomínio na Barra, no Rio de Janeiro, pois não suportaram as ofensas racistas. Chico disse mais: quando Carlinhos, sua filha e seu neto querem estar no Rio de Janeiro, ficam na casa de Marieta Severo, para a proteção do casal e do neto dos Buarque de Hollanda. A denúncia do racismo acabou obnulada pela fala de Chico Buarque de Hollanda segundo o qual "nnão tem branco no Brasil" - e o que é mais grave (do meu ponto de vista), a enézima defesa da miscigenação como remédio e "saída" para o racismo. Vamos, agora, ao Ferreira Gullar. Primeiro: Gullar, ao lado do finado Darcy Ribeiro, atacou o movimento social negro na década de 1980 - e tive o desprazer de enfrentar o poeta (?), ao lado de Abdias do Nascimento e de Lélia Gonzales, em encontro de Secretários de Cultura de todo o Brasil, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em 19873, promovido pelo então Secretário de Cultura José Aparecio de Oliveira (há registros e como há registros sobre sobre este autêntico movimento de brancos e demais racistas de todas as cores, gritando "calem-se, negros!!!"). E, salvo engano, Gullar continua atacando o movimento social negro até hoje. Gullar é herdeiro do partidão (o antigo PCB) e, como tal, crê com impenitente etnocentrismo que a única cultura, a única experiência de vida válida, a única forma de registro da experiência humana é européia e todas as formas de registro da experiência humana que não seja a "escrita européia" ou originária dos facistizadores europeus da língua (lembrem de Barthes) - não tem valor para eles, os impenitentes etnocêntricos e cada vez mais assumidos racistas. Para Gullar - no seu estalinismo (melhor dizer marxismo de fancaria) -, o que temos é burguesia, proletariado e lumpenproletariado (Lumpenproletariat 'seção degradada e desprezível do proletariado', de Lump 'pessoa desprezível, patife, velhaco' e Lumpen 'trapo, farrapo' + Proletariat 'proletariado'). É nessa categoria que o movimento negro é enquadrado pela indigente esquerda brasileira - que prefere roubar sindicatos, assaltar movimentos sociais, extorquir ONGs e ongueiros, do que se aproximar, tentar organizar e buscar junto ao povo recursos para uma luta por justiça. Para a indigente esquerda brasileira, os movimentos sociais são (pasmem!!!!) linhas auxiliares do proletariado revolucionário (há uma ala do movimento negro, em São Paulo, com certeza, que aceita essa desqualificação ou propõe, ao contrário, um socialismo sob a hegemonia do povo negro!!!!). E este é o ponto. De que nos vale dialogar com esse passado que, já na década de 1980, já havia passado? De que nos vale repercutir textos de velhos racistas, com as velhas receitas de que somos um povo mestiço e que na mestiçagem (desaparecimento de brancos e, sobretudo, de negros) está a redenção do Brasil. Que Gullar e poetas (?) não queiram identificar Machado de Assis ou Cruz e Souza como negros - é problema dele. Afinal, nada impede a ninguém, inclusive a racistas de direita ou de esquerda, buscar no próximo - um negro, ou um asiático - o traço de identidade que dê ao racista maior conforto. O que é insuportável é Gullar (e demais etnocêntricos e racistas empedernidos) não querer que nós, negros e brancos que aceitamos nossa identidade afrodescendente, nossa negrice ou que abraçamos a diversidade cultural e humana, busquemos o negro que está na escrita de Machado de Assis, ou na negrice que está no jazz ou na música de Pixinguinha. Sinceramente, de que nos vale dialogar e esgrimir com farrapos da história como Gullar? De que nos vale repercutir a fala racista, rançosamente freyriana e outros racistas para os quais a cultura que existe – e quando existe – é branca e de certos grupos europeus cultivadores de certas expressões artísticas? Temos que nos divulgar. Buscar nossos leitores. Buscar nossos jovens que podem e querem nos escutar, quando nós falamos e produzimos para esses jovens – tenham eles a idade que tiver, pois o importante é que sejam dispostos a enfrentar o mundo presente, o tempo presente. Em tempo: para quem mesmo escreve a Folha de S~´ao Paulo, que vende menos que o tablóide de 25 centavos, o mineiro “Supernotícias”? BUSQUEMOS O DIÁLOGO COM QUEM PODE, DEVE E PRECISA DIALOGAR COM SEU TEMPO, SUA GENTE, OS QUE CAMINHAM JUNTOS E ANDAM DE MÃOS DADAS. AFINAL, DESCOBRIR (DESVELAR, DESENCOBRIR, DESVENDAR) A NEGRICE DOS NOSSOS ESCRITORES NEGROS OU (NÃO É CRIME DIZE-LO) MULATOS NÃO CONSTITUI NEM CRIME. APENAS AMPLIAMOS OS HORIZONTES DE NOSSA RICA DIVERSIDADE CULTURAL".
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