Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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5 de fev de 2014

A menina e a bicicleta


Por Cidinha da Silva

O ano era 2114 e pai e filha passavam em revista, acessórios bizarros utilizados pelos humanos em séculos anteriores. Na seção dos escritores havia canetas, lápis, borracha, apontador, bloco de notas, caderno pautado e o mais intrigante, uma máquina de escrever.

O pai explicava à criança o funcionamento de cada coisa e esforçava-se para dar à menina uma ideia do que era uma mão, duas mãos, dez dedos, já que aquele povo não tinha mãos. Eles decidiram aboli-las depois de tudo de ruim que presenciaram os terráqueos manipulando com as próprias.

Depois a dupla deslocou-se até a seção de diversões. Encontraram uma bicicleta. A menina escrutinava o guidão, os pedais, o banco, as rodas, rodava os aros e deliciava-se com aqueles desenhos bonitos e indescritíveis que só os aros das bicicletas sabem fazer.

Mais tarde, na seção de instrumentos de tortura encontraram uma tranca de bicicleta. O pai já pensava em avisar aos educadores do museu que havia uma peça no lugar errado, quando a filha chamou sua atenção e juntos leram a descrição do objeto: “tranca de bicicleta – no século XX foi usada pelos humanos para fixar a bicicleta em postes ou outros locais enquanto não a utilizavam. No século XXI, alguns humanos deram-lhe outro uso. Passaram a empregá-la para prender o pescoço de garotos negros a postes (principalmente no país chamado Brasil), depois de espancá-los e ferir à faca, alegando a constituição de exemplo positivo para que outros rapazes iguais àquele, preso nu ao poste, não infringissem a lei dos brancos.”

O passeio pelo museu perdeu a graça para pai e filha. Agora precisavam pensar e visitas a museus são boas para isso: o que foi mesmo a humanidade no século XXI?


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