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11 de jun de 2014

Crítica ao Baú de miudezas, sol e chuva

Crônicas no limiar do poético: Baú de miudezas, sol e chuva

por Rosane da Silva Borges[1]

Um texto só é um texto se ele oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei de sua composição e a regra de seu jogo.
                                             Jacques Derrida (A Farmácia de Platão)

Rosane da Silva Borges - Colunista Portal Áfricas
Rosane da Silva Borges – Colunista Portal Áfricas
Movida por escrita prolífica, Cidinha da Silva nos brinda em seu novo livro, Baú de miudezassol e chuva,com mais um conjunto de crônicas colhido, prioritariamente, do mundo ordinário, como é do seu feitio. De sua primeira obra, Cada tridente em seu lugar (2006), até este Baú, desenha-se um arco em que inapelavelmente flagramos a obstinada busca de uma prosadora para dizer a vida. Desde as experiências mais comezinhas até aquelas que se apresentam com algum verniz de complexidade, o olhar arguto da escritora captura parcela significativa dos sucessivos acontecimentos que dão substância à vida de cada um e de todos. Para aquilo a que não costumamos dar importância, ela vê, ou ao menos é o que sugerem suas crônicas, uma fase de incubação de ocorrências que podem informar sobre o humano e sinalizar para  um universal.
Sob a pena da escritora mineira, os eventos prosaicos são elevados à matéria de análise do social. São prosas, histórias sobre as pessoas, contadas de maneira simples, nas quais emerge o tema do indivíduo-valor. A propósito, este tema acompanha parte significativa das obras ficcionais brasileiras; é categoria que tece a dramaticidade de boa parte dos enredos de José Lins do Rego e de Graciliano Ramos, sem mencionar O triste fim de Policarpo Quaresma.
Baú de miudezas revela e guarda, a um só tempo, as coisas pequenas do cotidiano que nos instruem sobre a marcha do mundo. Aliás, o cotidiano é o cenário privilegiado sobre o qual ela se movimenta. As artes de fazer, as experiências do homem ordinário, no dizer de Michel de Certeau em A invenção do cotidiano,  ganham espessura nas narrativas de Cidinha,  que se mostram muito próximas da intensidade da vida real. Nessa tessitura, novos temas ganham vulto cada vez mais proeminente: vemos a escritora  avançar nas raias do mundo homoafetivo e das relações amorosas;  pensar os agenciamentos da procura por visibilidade em fase fulgurante das redes sociais, leia-se, do facebook; reposicionar o debate político sobre as práticas das religiões de matriz africana; traçar perfis de personalidades a partir de ângulos pouco ou nada explorados pela ortodoxia midiática; declarar amor às cidades, revelar admiração por talentos artísticos do mundo negro.  Ora divertidas, ora irônicas, ora austeras, as crônicas de Cidinha nos permitem perscrutar nosso mundo interno.
Alguns destaques. Em Fall in love, a prosadora nos mostra, em chave amistosa, mas nem tanto, o ridículo a que geralmente nos submetemos quando expomos nossas paixões, nossos amores (tópico que particularmente vem integrando meus interesses de pesquisa nos últimos tempos). Por certo, a expressão, à larga, dos sentimentos, dos nossos efêmeros estados de espírito no FB empobrece a experiência humana, banalizando atos e gestos que só têm sentido na partilha com o outro e não na visibilidade imediata que nos compraz (enunciamos nossa felicidade, alegria, tristeza, angústias).  Retiremos do Baú a passagem que nos leva a pensar sobre isso:
Gente graúda, peixe cascudo, quando apaixonado, morde a isca da exposição facebookiana e quer tornar pública sua paixão. Acho que é porque muitos de nós não tivemos adolescência, principalmente a de hoje, que se estende impunemente aos 30, 35, 40, à vida inteira. Pode ser também que, mesmo mais maduros, estejamos submersos à falta de ação política da vida pública supermoderna, e a exposição da vida íntima seja a única coisa restante a nos conectar ao mundo. (…) Esse amor também quer gritar sua existência e, se o Facebook é o amplificador do momento, a ele! (…). Seja lá como for, são deprimentes as relações de amor, ódio e estupidez com diário virtual das redes sociais. (p. 28 e 29).
Crônicas que flertam com a poesia, mas que se mantêm crônicas
Inevitavelmente, a produção de oito livros fazem tradição e vão delineando, traço a traço, a fisionomia da prosa de Cidinha da Silva. Sob os lençóis do tempo, algo se consolida no trajeto destas publicações. Acompanho todos os livros desta prosadora  (em 2007, escrevi a resenha de Cada tridente em seu lugar e em 2013 comentei, abreviadamente,  Racismo no Brasil e afetos correlatos. Nesse interregno, notei avanços progressivos que vão dando estatura para sua obra e decantando um estilo próprio). A nossa vocação para classificar e medir é incontornável. Categorizamos, dividimos por departamentos, ordenamos por gêneros, procedimento caudatário da lógica aristotélica. Sem querer, a fórceps, inserir as crônicas “cidinhianas”  em caixinhas taxinômicas, o material que ela nos apresenta reclama por alguma tipificação. Qual seria o lugar da escrita dos seus textos? Quais os traços singulares que se sobrelevam em Baú de miudezas?
Seja do ponto de vista da forma ou do conteúdo, as crônicas de Baú de miudezas se acercam do limiar do poético, mas não são poesia. Em “Vida de marisco” (p.27), o exercício de aproximação é manifesto: com apenas oito linhas, ostenta economia significante que cairia bem na faina poética. Procedimento semelhante se dá em “Memória” (p.35), onde a denúncia da covardia e da mesquinhez no amor não tolera delongas. Sob as lentes de Morris Croll, crítico da prosa barroca, Cidinha empreende o estilo coupe, o da sintaxe entrecortada, das frases breves e assindéticas, dos períodos enxutos, da concisão. Para esse crítico o inverso desse estilo seria a forma de escrita por adição, inclusões, longos torneios frasais, encadeados por conjunções coordenativas, que atam e desatam as frases: obras extensas, parágrafos extensos, períodos extensos, procedimento estilístico reiterativo, espraiado. O reconhecido escritor William Faulkner é um dos principais representantes desta corrente.
As concisões remetem a uma performativade linguística. Dizer é fazer, para a prosadora:
quando ela diz meu nome em tom grave, quando ri forte e divertida, há uma forma telúrica que escapa do lago e faz redemoinhos insondáveis. Quando ela diz venha, é sopro de vida, fogaréu de alegria, imperativo perfeito para meu coração que quer tanto segui-la.  (“A voz funda do rio”, p. 30).
Para além da forma, o lirismo presente em outras crônicas também nos aproxima do das fronteiras da poesia. “Concha, mi Conchita Buika”, um tributo à cantora negra nascida em Palma de Mallorca, Espanha, apresenta fortes doses de metáfora que dão ao texto um acentuado caráter lírico:
Argolas em outro preto e santo da corda do alento que me enlaça e me desvencilha do naufrágio no manguezal. Buika ecoa o passado corrosivo, liberto em seu grito, assustado e reprimido dentro. Seu canto é magma-sangue dos vulcões adormecidos. (p. 59).
Burilando seus textos, a escritora aqui examinada chega ao seu oitavo livro ensaiando imbricações, transitando nas fronteiras de gêneros literários. Em algumas vezes esse trânsito se dá com certa desenvoltura, em outras flagram-se inaptidões.
Fundamentalmente, não existem fronteiras intransponíveis capazes de impor distâncias telescópicas entre os textos literários; eles não encerram categorias restritivas e imutáveis; ao contrário, são elásticos, se interceptam e se recombinam à revelia da própria produção, dilatam-se, incorporam outros traços e elementos, metamorfoseiam-se. Os empréstimos e cruzamentos entre eles se intensificam cada vez mais em tempos de hibridismos. Testemunhamos debates febris em torno da hibridização, da mestiçagem cuja tonalidade narrativa é modelada pela afirmação de que a globalização, a mundialização é a grande facilitadora das aproximações, dos intercâmbios, das trocas e das misturas.
Tradições e influências: uma plataforma de aprendizado
Guardadas as devidas proporções, em alguns textos a autora projeta a aura de grandes nomes da literatura.  Vê-se o espectro do Drummond, de Cadeira de balanço, nas crônicas do “Duas mulheres numa rua íngreme”  (p.31) e em “Coisas que nem Deus mais duvida!” (p.54) deste fecundo Baú. Inevitavelmente, os textos não surgem num grau zero, mas num veio histórico, dentro de atividades preexistentes, sempre renovando-se, pois não são cristalizações formais no tempo.  Para o filósofo Jean-François Lyotard: “todo pensar é um re-pensar e não existe apresentação da qual se possa dizer é uma estreia. O aparecimento disto reitera aquilo. Não que reitere a mesma coisa ou repita a mesma cena”.
Qual a cena que Cidinha da Silva estreia? Como ela promove fisões e não apenas fusões[2] na esteira de uma tradição? Em Tradição e talento individual, T. S. Eliot assinala que todo poeta quando escreve está em dívida com seus antecessores, já que consegue desvencilhar-se de repertórios antecedentes. Às preocupações de Eliot, somam-se as do escritor argentino Jorge Luis Borges, em Kafka y sus precursores. Borges diz que um artista não acompanha apenas uma tradição, mas pode também criar uma tradição atrás de si. Para ele, a literatura produzida antes de Kafka é reorganizada, criando uma influência “para trás”.
Essa digressão mostra-se necessária quando confrontamos a obra de Cidinha com o papel que se reserva à literatura. Em nome de quê? é a pergunta que não quer calar. De livro em livro, equipando sua empresa literária com recursos estilísticos plausíveis, a prosadora garante sobrevida à crônica, no lastro de uma tradição que se renova sob suas lentes e nos oferece parâmetros para conceber e transformar a vida.
PS: Esta resenha me reconcilia com o campo literário, uma das minhas grandes paixões. Leitora voraz de literatura, voltarei a escrever, de quando em vez, sobre obras ficcionais.
Referências Bibliográficas
Bloom, Harold. A angústia da influência. 2ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 2002.
Borges, Jorge Luís. Obras completas. São Paulo: Globo, 2000, vol. II.
Croll, Morris. Style, rhetoric and rhythm. In: Rhetoric review. Vol. 16, n. 1, Autumn.
Derrida, Jacques. A farmácia de Platão. 3ª ed. São Paulo: Iluminuras, 2005.
Lyotard, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: Olimpo, 1979.
Silva, Cidinha da. Baú de miudezas, sol e chuva: crônicas. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2014.

[1] Jornalista, professora doutora do curso de Comunicação Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL), integrante da Cojira-SP (Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial) e do grupo Comunicadoras Negras.
[2] Fusão e fisão foram utilizadas por Marshall Mcluhan e teóricos da Inteligência Artificial (AI) em referência aos processos de conversão e transformação das tecnologias. Fusão corresponderia, segundo o teórico canadense, a um acostamento de uma estrada e ocorre quando há conversão de dois conceitos (ou perceptos) em um (os termos videoclipe, audiovisual, pós-moderno são exemplos de fusão). Fisão seria o outro lado do acostamento em que se realiza a divergência gradual de um novo objeto, em relação ao objeto-modelo: “sempre que o novo sistema de signos recebe o atrito do sistema anterior, o novo sistema se autonomiza e começa a perder o caráter de réplica perfeita”.
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