Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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18 de jun de 2014

Uma menção feita pelo Ferréz ao trabalho de Cidinha da Silva no El País é quase um gol!

Gol de letra


Quando o assunto é futebol, a cobrança para que o Brasil renda bons resultados no gramado, especialmente durante uma Copa do Mundo, se estende ao campo da literatura. É comum escutar da boca dos críticos ou de meros provocadores que a maestria brasileira com a bola não se repete com os livros sobre o universo futebolístico. A discussão soa ingênua – afinal por que é que a literatura deve dar conta, sistematicamente, dos ‘talentos’ de um país –, mas o fato é que, há algum tempo e cada vez mais, jogamos bonito também nos livros.
Desde que o futebol se enraizou em seu solo, há obras literárias brasileiras muito relevantes sobre esse esporte. Historicamente, os títulos que maior relevância e fama alcançaram são os de não ficção, mas não faltam boas referências em narrativas. Se falamos de crônica, gênero que costuma sofrer certo preconceito, a riqueza é ainda maior. A relação entre futebol e literatura perpassa, com diferentes olhares e níveis de envolvimento, a obra de renomados autores brasileiros como Mário de Andrade, Alcântara Machado, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Luís Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão e Sérgio Sant’Anna. ­No entanto, encontra seu ápice na crônica do dramaturgo Nelson Rodrigues, um autêntico carioca que nasceu fora do Rio de Janeiro, e de seu irmão, o jornalista e escritor Mário Filho.
Nelson é o nome mais influente na tradição da crônica de futebol no Brasil, enquanto Mário (que inventou o gênero no país) é autor de “O negro no futebol brasileiro” ­– um verdadeiro clássico que explica a origem do futebol-arte no Brasil, tocando temas imprescindíveis como o racismo, e que foi reeditado em inglês às vésperas do torneio para ser distribuído aos jornalistas internacionais. Ambos enxergavam no futebol uma manifestação cultural e sociológica da nação, muito além de um mero jogo. “O pior cego é o que só vê a bola”, dizia Nelson Rodrigues, famoso por sua acentuada miopia.
Com as ondas levantadas por um Mundial, é claro que a curiosidade futebolística se acentua. E autores e editores aproveitam para oferecer ao mercado novas histórias e análises sobre jogos, jogadores, times e campeonatos, com suas dores e delícias. Se de século XXI se fala, há os livros de Sérgio Rodrigues, Michel Laub, André Sant’Anna e Marcelo Backes, com romances; e José Miguel Wisnik, Ruy Castro e Airton de Farias, com seus relatos e ensaios de interpretação. Na seara do conto, nomes bacanas como Rogério Pereira, Ronaldo Correia de Britto, Fernando Bonassi, Cristóvão Teeza, Eliane Brum, Adriana Lisboa e Carola Saavedra fazem parte de uma antologia de textos inéditos organizada por Luiz Ruffato.

A partida dos escritores

O melhor da inserção do futebol na literatura reside nas histórias que dão conta das contradições brasileiras ao redor da bola. O jogo sempre suscitou no país dicotomias de amor e ódio, pobreza e elitismo, racismo e mescla social – e por aí vai. Nada mais atual que essas e outras discussões, calorosas já de antes e, também agora, durante a Copa.
Para o jornalista e escritor carioca Sérgio Rodrigues, autor de O Drible, romance em que o talento de craques do passado se opõe ao mercantilismo do jogo de hoje, “o futebol é uma narrativa pronta, tem o drama na própria história do jogo e do jogador”. Essa rica matéria de que é feito o esporte pode costurar as mais complexas tradições, mas também intimidar autores que se assustam com tanta autossuficiência. Seu livro foi bastante elogiado e já traduzido ao espanhol, ao francês e ao dinamarquês.
O poeta, contista e romancista paulistano Ferréz, ligado à produção literária da periferia de São Paulo, diz que odeia futebol, mas escreve sobre o tema em seu blog e nas redes sociais. São textos breves e poéticos, “motivados pela raiva que sinto por essa Copa”, em que ele nega a tradição de “país do futebol”: “Isso foi plantado. Ninguém está preocupado, está todo mundo pagando conta”, afirma.

Futebol e literatura: uma seleção

Quando é dia de futebol, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras)
O negro no futebol brasileiro, de Mario Filho (Mauad)
A pátria de chuteiras, de Nelson Rodrigues (Nova Fronteira)
Veneno remédio - O futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik (Companhia das Letras)
O drible, de Sérgio Rodrigues (Companhia das Letras)
Segundo tempo, de Michel Laub (Companhia das Letras)
O paraíso é bem bacana, de André Sant’Anna (Companhia das Letras)
O último minuto, de Marcelo Backes (Companhia das Letras)
Entre as quatro linhas – Contos sobre futebol, de Luiz Ruffato (Dsop)
Os garotos do Brasil – Viagem à identidade secreta dos nossos craques, de Ruy Castro (Foz)
Uma história das Copas do Mundo - Futebol e sociedade, de Airton de Farias (Armazém da Cultura)
Segundo ele, a boa literatura brasileira sobre futebol reside no trabalho de escritores periféricos, que “não têm esse ufanismo e não falam do jogador ou do clube e sim dos sentimentos das pessoas” – personagens que gostam de futebol, mas que vivem a realidade e não a ‘farsa’ do país do futebol. São autores como Michel Yakini, Cidinha da Silva e Marcos Telles.
Realmente, o assunto tem tudo para extrapolar a página. Tanto para Ferréz, como para Rodrigues, o Brasil não deveria ter se candidatado a sediar o Mundial. “Essa relação entre futebol, política, eleição, poder e FIFAnão nos traz nada. O que vai acontecer é que o país vai parar vários dias e deixar de andar pra frente. E a presidenta diz que o povo vai ficar com os estádios... Só faltava os estrangeiros levarem os estádios com eles”, alfineta o primeiro.
Rodrigues é mais brando, mesmo tendo críticas: “Uma vez que entrou, o país tem que fazer a Copa da melhor maneira. Mas o clima anda pesado pelo show de incompetência que demos para sediar o evento. As pessoas estão ressabiadas, e o orgulho nacional de ser um país de vencedores no futebol ficou obscurecido pelos problemas. Podemos até ganhar, mas permanece essa imagem negativa”, opina.
O jornalista e escritor carioca Ruy Castro, autor de uma biografia do Garrincha e do recém-lançado “Os garotos do Brasil – Um passeio pela alma dos craques”, é um apaixonado por futebol que, no entanto, faz coro a esse “complexo de vira-lata” ­– expressão cunhada no passado por Nelson Rodrigues para designar certo sentimento de inferioridade do brasileiro, em oposição à sua fama positiva no futebol. “Nunca o Brasil encarnou tanto o complexo de vira-lata quanto atualmente. E, de certa maneira, nunca [o país] nos deu tantos motivos para isso”, disse.
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